Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Valdomiro Trento
Entrevistado por Márcia de Paiva
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB656
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 –Gostaria de começar essa entrevista pedindo que o senhor nos dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Valdomiro Trento, nasci em 3 de maio de 1935, na cidade de São Pedro, estado de São Paulo, numa área rural.
P/1 – Senhor Valdomiro, o senhor pode nos contar como se deu o seu ingresso na Petrobras?
R – Bom, eu entrei na Petrobras, eu vi um anúncio no jornal, até por sinal eu tenho até a data: 29 de outubro de 1955. Eu estava em Santos e o meu objetivo era entrar na Força Aérea Brasileira, inclusive eu estava com exame marcado para dia cinco de novembro. Mas, vi o anúncio no jornal, vim e fiz uma entrevista com o engenheiro Plauto Antonio Rodrigues e com o assistente, que era Jorge de Souza Lima. Fui admitido por 60 dias para fazer o curso de ajudante de operador. Eu fui bem no curso, terminei deixando aquela visão minha da Força Aérea Brasileira. Entrei na Petrobras e continuei por bons anos. Exatamente 41 anos.
P/1 – Conta um pouquinho da sua trajetória nesses anos de trabalho.
R – Bom, após o curso de ajudante de operador, eu fui designado para a unidade de polimerização, isso em janeiro de 1956. E nessa data, eu estava terminando a montagem, andei trabalhando em algumas outras unidades, fazendo estágio, aprendendo realmente o serviço, que nós não sabíamos operação de refinaria, ninguém tinha técnica para isso. Existiam assessores e técnicos americanos, holandeses, franceses, alemães. Eram muito bons os alemães, eram poucos, mas eram muito bons. Nós todos, éramos gente de 20, 21 anos, 19 anos, 22 anos. A chefia da Refinaria (RPBC) era de 23, 24 anos, eram todos moços. Exatamente por sermos moços, então era fácil o...
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Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Valdomiro Trento
Entrevistado por Márcia de Paiva
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB656
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 –Gostaria de começar essa entrevista pedindo que o senhor nos dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Valdomiro Trento, nasci em 3 de maio de 1935, na cidade de São Pedro, estado de São Paulo, numa área rural.
P/1 – Senhor Valdomiro, o senhor pode nos contar como se deu o seu ingresso na Petrobras?
R – Bom, eu entrei na Petrobras, eu vi um anúncio no jornal, até por sinal eu tenho até a data: 29 de outubro de 1955. Eu estava em Santos e o meu objetivo era entrar na Força Aérea Brasileira, inclusive eu estava com exame marcado para dia cinco de novembro. Mas, vi o anúncio no jornal, vim e fiz uma entrevista com o engenheiro Plauto Antonio Rodrigues e com o assistente, que era Jorge de Souza Lima. Fui admitido por 60 dias para fazer o curso de ajudante de operador. Eu fui bem no curso, terminei deixando aquela visão minha da Força Aérea Brasileira. Entrei na Petrobras e continuei por bons anos. Exatamente 41 anos.
P/1 – Conta um pouquinho da sua trajetória nesses anos de trabalho.
R – Bom, após o curso de ajudante de operador, eu fui designado para a unidade de polimerização, isso em janeiro de 1956. E nessa data, eu estava terminando a montagem, andei trabalhando em algumas outras unidades, fazendo estágio, aprendendo realmente o serviço, que nós não sabíamos operação de refinaria, ninguém tinha técnica para isso. Existiam assessores e técnicos americanos, holandeses, franceses, alemães. Eram muito bons os alemães, eram poucos, mas eram muito bons. Nós todos, éramos gente de 20, 21 anos, 19 anos, 22 anos. A chefia da Refinaria (RPBC) era de 23, 24 anos, eram todos moços. Exatamente por sermos moços, então era fácil o aprendizado e o gosto para aprender. Rapidamente nós assumimos o comando de toda a Refinaria e isso aconteceu de modo especial. Eu me lembro muito bem dessa fase, outubro de 1956. O superintendente da Refinaria (RPBC) era um coronel do Exército, era até por sinal era tenente-coronel, Adolfo Roca Diegues e ele, naquela visão nacionalista, julgou que todos nós já tínhamos condições de assumir a Refinaria. E numa ordem de serviço ele já estava dispensando uma série de técnicos americanos, holandeses, franceses, mesmo porque estava custando caro para a Petrobras. E além de receber em dólares, eles recebiam também pelo processamento que fosse além daquilo que era o projetado a Empresa, tinham uma porcentagem bastante grande. Então, ele fez uma ordem de serviço, por sinal era a ordem de serviço de número 56 de 1956, e passou praticamente o comando da operação para os brasileiros. Eu fazia parte desse grupo.
P/1 – Todos jovens?
R – Todos jovens. Foi quando se criou aquela famosa frase de “o espírito de Cubatão” .
P/1 – Isso é uma frase famosa já daqui?
R – Foi criada aqui, por ele, pelo coronel. E aquilo é que fez o andamento da Petrobras se tornar uma Empresa grande que ela é hoje.
P/1 – O que definia esse espírito de Cubatão, senhor Valdomiro?
R – Ele sintetizava a vontade do êxito de construir e fazer. Ele resumia exatamente isso. E isso gerou montes de unidades a mais na Petrobras. E hoje a Petrobras continua com esse espírito, ela é grande! Ela continua exatamente com o espírito de Cubatão.
P/1 – Então, Cubatão foi uma espécie de modelo para as outras refinarias que vieram depois?
R – Sem dúvida. Foi a escola, foi a escola.
P/1 – Vocês aprendendo... Foi um aprendizado também meio na marra?
R – Sem dúvida. Meio na marra, meio na marra.
P/1 – Fala um pouquinho, então, ainda dessa...
R – É, algumas unidades depois foram se expandindo, foram crescendo, aperfeiçoando, somando técnica. Nessa fase também, eles enviaram alguns brasileiros para os Estados Unidos para fazer cursos, curso de três meses, de seis meses, foram cinco operadores chefes, que ficaram quatro anos e meio, cinco anos em Tulsa, na Universidade de Oklahoma. Eu conhecia os cinco: três trabalharam diretamente comigo, o Paulo Silvério Neri, o Frederico de Araújo Franco, Carlos Correia, (Catan Lambri?) e o Paulo Pantel. Voltaram cinco anos depois, já doutores. Alguns continuaram algum tempo na Petrobras. Outros, por motivos, por dificuldades, até terminaram assumindo postos elevados em outras empresas.
P/1 – O senhor pode contar alguma história marcante, interessante desse período ou dos anos todos do trabalho do senhor?
R – Bom, nós tivemos uma série delas, outras de partir unidades novas que não existiam, que não tinham no Brasil, unidades pioneiras. Uma foi a unidade de Coque. Eu fiz parte dessa unidade, que partimos em 1973, a unidade de Pirolese, 1958, ampliação da casa de força, foram ampliações seguidas para poder manter a utilidade; fornecimento de utilidades na área de processo. Construções de oleodutos para transferências de produtos, que eram feitos todos por técnicos brasileiros, a gente acompanhou muito isso. Nós tivemos nestes 41 anos que eu estive na Petrobras, uma série de reivindicações também.
P/1 – Quais são as mais marcantes para o senhor?
R – Houve uma marcante em 1961, quando nós fizemos um movimento para trabalharmos 6 horas. Tivemos outros movimentos depois, na participação de lucros. Agora, o que ficou marcante para mim, o tempo todo: a Petrobras fazia isso em 1956, logo depois, quando ela foi criada, ela sempre esteve na frente de remuneração para os empregados, assistência médica, assistência de saúde, de aposentadoria, ela foi pioneira e isso ela faz até hoje. Em avanços técnicos: qualquer avanço técnico, ou de informática, ou de comunicação a Petrobras sempre foi a primeira.
P/1 – Tem alguma história engraçada dessa época também, que o senhor se lembre?
R – É, tem algumas...
P/1 – Curiosa?
R – Curiosas sempre tem. Têm realmente algumas. Por exemplo, a área de tanque, a área norte, atual da Refinaria de Cubatão, era um cemitério. E o pessoal brincava muito, né? Era tudo moço, tudo juventude de 20 anos, 22, 23 anos. Essas brincadeiras existiam constantemente. Então alguém que era mais medroso, às vezes ia medir um tanque, sempre tinha um que algum lugar fazia um barulho e alguma coisa, imitava uma múmia, imitava alguma coisa e alguém aparecia correndo de volta na casa de controle de medo.(riso). E, na verdade, depois percebia que era brincadeira de alguém, né? Mas tinham essas brincadeiras sim.
P/1 – Os fantasmas?
R – É, brincadeira de fantasma. Eu me lembro que uma vez, alguém entrou numa torre, na unidade N e - aquela foi boa também - e estava fazendo um serviço lá. Era noite, a iluminação não muito suficiente, alguém usou uma tubulação que tinha comunicação com essa torre e começou a imitar também um fantasma. Era alguma coisa assim: “eu vou te buscar, eu vou te pegar!” E essa pessoa que estava lá dentro, era até um conhecido meu, saiu correndo e ainda terminou se machucando. Existiam essas brincadeiras, mas eram esporádicas. Eram um pessoal brincalhão, mas responsável, muito responsável. Todos não iam além de um limite, que era o limite do bom senso, não, ninguém ia além, mesmo com a juventude, a brincadeira. Isso foi que fez com que uma Empresa, em 50 anos, pudesse sair quase do nada e ter, talvez, uma das melhores técnicas de processamento de petróleo do mundo.
P/1 – Ter participado disso, para o senhor, o senhor...?
R – Bom, eu, eu até posso me sentir um pouco emocionado, mas eu me sinto contente, muito contente. Não só eu, como esse grupo todo que participou do espírito de Cubatão se sente realizado.
P/1 – Um desafio, enfrentaram um...
R – É, um desafio, um desafio que foi vencido, sem dúvida nenhuma, foi vencido.
P/1 – Com fantasma e tudo, né?
R – Com todos os fantasmas. E até em colaboração com eles. Muitas vezes colaborando juntos, tomando parte naquelas brincadeiras também, sempre fizemos.(riso) Mas, a gente mantinha sempre o lema, é, “brinca no serviço, mas não brincar com o serviço”. Com o serviço nunca.
P/1 – Senhor Valdomiro, eu queria perguntar o que o senhor achou na iniciativa da Petrobras e do sindicato terem feito esse projeto Memórias, se o senhor gostou de ter participado?
R – Eu fico contente em ter participado, adorei por um monte de razões. Primeiro que a gente reencontrou também, amigos e companheiros e grande parte disso que está aqui, que foi feito, embora a gente uma colaboração modesta, outros fizeram bastante. Isso para mim, é como uma corrida de revezamento, o êxito coletivo depende do esforço de cada um. Todos vão se esforçar para não anularem e não limitarem o esforço daqueles que nos sucederão. Eu fico contente sim com a participação, e também deve haver uma porção de companheiros aqui.
P/1 – Muito obrigada então.
R – Obrigado, valeu, valeu. Eu fico contente.
(Fim da fita Mpet/RPBC 008)
(Catan Lambri?)
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