Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de José Lima Júnior
Entrevistado por José Santos e Márcia de Paiva
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB652
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/2 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/2 – Gostaria de começar essa entrevista pedindo que você nos fornecesse seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é José de Andrade Lima Júnior, nasci em São Vicente, São Paulo, no dia 9 de outubro de 1956.
P/2 – José, conta para a gente como é que foi sua entrada na Petrobras?
R – A minha entrada na Petrobras foi através de um concurso público e que foi realizado, se não me falha a memória, em 82. Começamos a fazer o curso preparatório para operador de processo e transferência e estocagem, num colégio de independência no ano de 83. Esse curso era eliminatório após a prova, né. Nós tínhamos provas das disciplinas que eram ministradas, e mediante essa média final nós fomos classificados para ingressar aqui na RPBC. E entrei na RPBC, o meu primeiro dia na RPBC foi 15 de dezembro de 83.
P/2 – E o seu trabalho?
R – Como operador. Iniciei como operador de processo, de processamento, né, estagiário, que eles chamavam. Sou de uma turma, um pouco assim, atípica no conceito que eles tinham de operação. Essa turma, a grande maioria, era de estudantes de engenharia. Na época, eu fazia engenharia, a grande maioria era de estudantes de engenharia. E, lá nos idos de 83, depois que recebesse essa formação teórica, né, fomos colocados na área, na área de processo. Eu fui trabalhar numa unidade chamada “vácuo duplo”.
P/2 – Perdão, vácuo... ?
R – Unidade de destilação a vácuo, chamava-se vácuo duplo, UVVN – Unidade de Vácuo da V e da N.
P/2 – Isso faz parte do processo de, de...?
R – De destilação.
P/2 – Destilação.
R – Na destilação. Aí, da destilação, ainda como estagiário; porque que eu...
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Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de José Lima Júnior
Entrevistado por José Santos e Márcia de Paiva
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB652
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/2 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/2 – Gostaria de começar essa entrevista pedindo que você nos fornecesse seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é José de Andrade Lima Júnior, nasci em São Vicente, São Paulo, no dia 9 de outubro de 1956.
P/2 – José, conta para a gente como é que foi sua entrada na Petrobras?
R – A minha entrada na Petrobras foi através de um concurso público e que foi realizado, se não me falha a memória, em 82. Começamos a fazer o curso preparatório para operador de processo e transferência e estocagem, num colégio de independência no ano de 83. Esse curso era eliminatório após a prova, né. Nós tínhamos provas das disciplinas que eram ministradas, e mediante essa média final nós fomos classificados para ingressar aqui na RPBC. E entrei na RPBC, o meu primeiro dia na RPBC foi 15 de dezembro de 83.
P/2 – E o seu trabalho?
R – Como operador. Iniciei como operador de processo, de processamento, né, estagiário, que eles chamavam. Sou de uma turma, um pouco assim, atípica no conceito que eles tinham de operação. Essa turma, a grande maioria, era de estudantes de engenharia. Na época, eu fazia engenharia, a grande maioria era de estudantes de engenharia. E, lá nos idos de 83, depois que recebesse essa formação teórica, né, fomos colocados na área, na área de processo. Eu fui trabalhar numa unidade chamada “vácuo duplo”.
P/2 – Perdão, vácuo... ?
R – Unidade de destilação a vácuo, chamava-se vácuo duplo, UVVN – Unidade de Vácuo da V e da N.
P/2 – Isso faz parte do processo de, de...?
R – De destilação.
P/2 – Destilação.
R – Na destilação. Aí, da destilação, ainda como estagiário; porque que eu digo que foi uma turma atípica? Nós entramos acho que, talvez, no primeiro achatamento salarial da história da Petrobras. Os operadores anteriores a nós entravam no, no nível 24 e nós entramos no nível 17. E alguns da nossa turma foram para a casa de força e área de tanques e eles não tinham direito, se eu não me engano, a um determinado chamado, que é a periculosidade. Eles não tinham o direito. E através de uma reivindicação do sindicato, isso foi resgatado, né. Eles nos levaram ao nível 24 e esse pessoal aí da casa de força também acertaram.
P/2 – Você é sindicalizado?
R – Sempre, sempre sindicalizado. O primeiro e grande impacto assim, falando da parte política, né, foi na luta mesmo: a luta pelo direito de trabalhar seis horas de turno. Essa era a única Refinaria (RPBC) que trabalhava 6 horas de turno e queriam nos tomar esse direito, era um acordo coletivo dos anos 60, se não... acredito 60, que queriam nos tirar. E foi uma briga isolada da refinaria. A única refinaria Cubatão, com a administração da Empresa e nos foi ganho isso aí.
P/2 – Conquista da RPBC?
R – Uma conquista da RPBC, do sindicato dos petroleiros, né?
P/2 – Daqui de Cubatão.
R – Aqui da, na RPBC. Isso é uma coisa marcante porque eu entrei em dezembro de 83, se não me engano, esse movimento foi efetuado em fevereiro de 84.
P/2 – José, e sua atividade atual?
R – Minha atividade atual, sou aposentado, né?
P/2 – Você...
R – Eu sou aposentado e estudei o que que eu fiz. Eu fiz, sou bacharel em geografia, né, com ênfase em análise ambiental, nesse tempo aí.
P/2 – Isso foi durante a sua estada aqui no seu trabalho aqui?
R – Durante a minha estada.
P/2 –E você trabalhou ligado a...?
R – Não, não, sempre operador.
P/2 –Sempre operador?
R – Aí, depois de um ano e meio, eu acredito um ano e meio aproximadamente, lá no vácuo duplo, eu fui transferido – não que eu tivesse pedido essa transferência, eu fui indicado para essa transferência contra a minha vontade naquele momento –, para a unidade de craqueamento catalítico, chama-se UFCC.
P/2 – Craqueamento catalítico.
R – Catalítico fluído.
P/2 – Um nome bonito.
R - Unidade de Craqueamento Catalítico é bonito. Não só bonito o nome da unidade, mas em toda a planta de uma refinaria de petróleo é a sua unidade de maior complexidade, né? Não digo de maior lucro não, talvez o coque seja muito mais lucrativo, que já é uma coisa para ser descartado e gera um dinheiro muito forte. Mas é ali que se faz o gás de cozinha e a gasolina, e o gás para as petroquímicas, que são as coisas mais importantes feitas por essa unidade FCC.
P/1 – Senhor José, os seus companheiros falam aí que o senhor é o grande contador de histórias, então eu queria que o senhor contasse alguma história que marcou o seu período aqui, na Petrobras.
R – Como eu disse, né, a primeira parte que me marcou foi o resgate; o resgate não, a permanência no turno de 6 horas. Depois disso, a minha transferência, que eu falei aí meio contra gosto, devido ao UVVN para a UFCC. Aí, dentro da UFCC é uma unidade muito maior, mais pessoas, mais politizada, uma unidade bastante politizada. O petroleiro, ele tem um nível intelectual muito alto e muito politizado, entende, o nível do operariado petroleiro é muito alto e ele é bastante politizado.
P/2 – Mas conta para a gente assim, uma história engraçada.
R – História engraçada?
P/2 – Interessante, marcante que ficou assim para você nesses anos de trabalho.
R – Olha, história engraçada e marcante também, foi um chefe que eu tive, o nome dele, um grande homem, o nome dele era Mário Garcia, o apelido dele MG. Esse engenheiro tinha por filosofia você nunca dizer “eu acho”, porque quem acha não acha nada, vai apostar na loteria. Ou você tem certeza do que está falando ou então permaneça calado e vai procurar informações, né? Era um homem bastante rígido – e acredito que tem ser rígido, toda administração ela tem que ser rígida e dando condições de trabalho. Ele foi um bom engenheiro-chefe que eu tive. Uma filosofia antiga de uma Petrobras que não existe mais, uma outra Petrobras. A Petrobras não, eu não falo Petrobras, eu falo uma RPBC outra. Eu não conheço a Petrobras para falar “a Petrobras”, né? A RPBC outra. E histórias aí... as nossas grandes festas... - (som de sirene ou apito) - Isso daí, esse apito aí é uma, algum treinamento da parte de bombeiro. Hoje deve ser o dia da (OCE?).
P/2 – Hoje é quarta-feira, é o dia. A gente viu o vídeo
R – É a (OCE?), né, eu acho que é a Organização de Combate a Emergência, um negócio assim.
P/2 – Não é acidente?
R – Não, graças a Deus não, não é acidente.(riso)
P/1 – (riso)
P/2 – Você estava aqui na época do acidente, trabalhava aqui já?
R – Qual deles?
P/2 – O mais famoso, década de 80, você entrou em 83...
R – Qual foi o acidente que você considera assim mais famoso? Teve um na UFCC, eu não estava ainda na Refinaria, foi a morte de um operador, queimado numa torre N2408. Eu acho que esse foi, da UFCC, o mais famoso. Deve ter tido um anterior também. A única rua que nós temos aqui dentro da Refinaria (RPBC) que tem nome, Wilson Lopes de Faria, ela fica dentro da FCC. Esse foi um engenheiro que, se não me engano, entrou dentro de uma torre que estava com nitrogênio, e ele veio a falecer. Acidente na década de 80, vamos ver um acidente na década de... puxa vida, 80?
P/2 – Não, envolvendo aqui, não falou especificamente própria do vazamento, em Cubatão.
R – Olha, se você fala de uma contaminação que teve do Rio Cubatão, é isso?
P/2 – É.
R – Olha, é uma coisa que não ficou muito explicado da onde foi isso aí. Foi uma contaminação acho que com soda ou mercapta, eu não estou assim bem lembrado com detalhes, da onde efetivamente...
P/1 – Entendi.
R – Eu, com certeza, sei que nesse momento a unidade que eu trabalhava estava parada, né. Então, muita coisa se atribuiu a ter vindo dela ou qualquer coisa assim, mas não ficou uma coisa definida, em definitivo. Causou transtornos em Cubatão, a muitas pessoas, transtornos respiratórios. O mercapta (ou soda exausta) tem um cheiro bastante desagradável, pode levar a morte em concentrações perigosas, afetou a Lagoa de ________, que já existia esse nosso sistema de afluentes, tratamento de afluentes hídricos. Esse talvez foi um acidente.
P/2 – Mais alguma outra história assim interessante que você disse que tinha.
R – Uma história interessante? Ah, as histórias interessantes, elas são várias assim. As formas de promoção: uma época foi por concurso, outra época foi por indicação, isso aí são histórias que vão gerando folclores, né, de que diz que os operadores uns queriam por concurso, por prova escrita, outros queriam por votação. Isso aí foram coisas que aconteceram na nossa vida. História interessante; são as brincadeiras. Todo operário de turno tem uma vida diferente do pessoal administrativo, então nós tínhamos uma vida mais unida, né? Porque nas nossas folgas, fazíamos churrascadas. As brincadeiras quando a gente recebia um operador novo, como foi comigo. A gente participava de uma churrascada assim, no grupo, né, a recepção mesmo. Os apelidos das pessoas, todo mundo tem um apelido aqui dentro. O meu sempre foi Juca mesmo, né? Dornelas, que esteve aí com a gente, era chamado de caveirinha (riso), porque era magrinho, bem mais magrinho do que ele é hoje. Um outro, um chefe, tinha apelido de “espião”, porque ele tinha trabalhado na Cosipa, né, e falava-se que quem trabalhava na siderúrgica era peão, né e ele tinha vindo para cá era ex-peão, como se não fosse peão aqui a mesma coisa.(riso)
P/2 – Espião é bom.
R- E aí tinha outros que chamavam; é, coisas assim. Mas assim, acidentes marcantes não, né, nessa década. Teve a década de 90 foi a greve mesmo, né, 95.
P/2 – Queria te perguntar só o que você acha da iniciativa do Sindicato e da Petrobras fazendo esse projeto memória e se você gostou de ter participado?
R – O projeto, eu acho sempre interessante porque? Um povo sem história, ele não existe, né? Ser você não registrar a história de um povo, a sua cultura, ele praticamente vai passar por essa vida sem existir. Eu acho isso louvável da Empresa. Não sei se o que me falaram foi o que realmente aconteceu. Primeiro a Empresa fez com as gerências, né, para saber o que eles achavam e depois agora estão fazendo com os operários, né?
P/1 – Não. Isso é uma proposta do Sindicato.
P/2 – Não. Do sindicato.
R – Ah, do sindicato? Então, mas disse que...
P/2 – Começou com o Sindicato.
P/1 – Que a Petrobras abraçou e esta fazendo em conjunto.
R – Sim, mas diz que anteriormente essa daqui teve um trabalho feito onde a história da Petrobras como um todo, foi contado só pela gerência, esse aqui vai se somar. Foi o que me falaram.
P/2 – Só se foi outro projeto. O nosso começou desde o ano passado, com a memória dos trabalhadores.
R – Ah é?
P/1 – Começou com a história dos trabalhadores. Pela primeira vez que conta uma história dos trabalhadores por eles mesmos.
R – A história, a história dos trabalhadores, dos trabalhadores da Petrobras é muito bonita, né, tanto que ela é uma Empresa, hoje, vitoriosa, uma Empresa reconhecida mundialmente, principalmente, na parte de prospecção e exploração, né?
P/2 – Você gostou de ter participado?
R – Gostei. Sem problema nenhum.
P/2 – Queria agradecer a sua participação então.
R – Minha vida é aqui. Eu não gosto assim de falar muito de mim não. Para falar de mim pode perguntar aí para os meus companheiros.(riso)
P/1 – Muito obrigado.
P/2 – Obrigada,
R – Tá, obrigado.
(Fim da fita Mpet/RPBC 004)
(OCE?)
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