Memória da Petrobras
Depoimento de João Oderich.
Entrevistado por Márcia de Paiva
Cubatão, São Paulo.
23/9/2004.
Realização Museu da Pessoa
Entrevista nº PETRO_CB665
Transcrito por Ticianne Couto
P/1 – Bom dia. Gostaria que o Senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento?
R – Olhando para a câmera ou pra ti?
P/1 – Pra onde você quiser.
R - Tá. João Adolfo Oderich, 28 de março de 1951, São Sebastião do Caí, interior do Rio Grande do Sul.
P/1 – João, posso te chamar assim?
R – Pode.
P/1 – Conta como você chegou na Petrobras, como foi seu ingresso, como foi seu primeiro trabalho. Conta um pouquinho da sua trajetória profissional.
R – Eu, com certa freqüência, ia do interior do Rio Grande do Sul para Porto Alegre, onde moravam meus avós. Meu pai é natural de Porto Alegre. E, quando se iniciou a construção da Pasqualini, a Refinaria Alberto Pasqualini, lá em Canoas, eu acompanhava, de certa forma, a evolução daquela grande obra lá - pro Rio Grande do Sul era a maior obra que jamais tinha acontecido. E na praia que a gente veraneava, a gente acompanhou o lançamento dos dutos, das mono-bóias. Aquilo tudo atraia muito a atenção. Naquela época, eu tinha meus 14 ou 15 anos de idade. E a refinaria foi inaugurada com grande repercussão no Estado. Mas nunca eu imaginei que eu viesse trabalhar na Petrobras. Minha família é ligada à uma indústria. E quando eu entrei na escola, na faculdade, eu me mudei para Porto Alegre. Eu tinha um foco voltado para essa indústria familiar. E, por uma circunstância, eu acabei prestando o concurso para a Petrobras. Eu digo circunstância porque, na época do concurso, eu estava estagiando no laboratório da Refinaria. O pessoal foi na faculdade e convidou para fazer estágio lá, e eu fui prestar o concurso para fazer o estágio. E meu estágio que tinha uma duração prevista de um mês, de repente, em função até dos trabalhos que a gente vinha realizando, ele...
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Depoimento de João Oderich.
Entrevistado por Márcia de Paiva
Cubatão, São Paulo.
23/9/2004.
Realização Museu da Pessoa
Entrevista nº PETRO_CB665
Transcrito por Ticianne Couto
P/1 – Bom dia. Gostaria que o Senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento?
R – Olhando para a câmera ou pra ti?
P/1 – Pra onde você quiser.
R - Tá. João Adolfo Oderich, 28 de março de 1951, São Sebastião do Caí, interior do Rio Grande do Sul.
P/1 – João, posso te chamar assim?
R – Pode.
P/1 – Conta como você chegou na Petrobras, como foi seu ingresso, como foi seu primeiro trabalho. Conta um pouquinho da sua trajetória profissional.
R – Eu, com certa freqüência, ia do interior do Rio Grande do Sul para Porto Alegre, onde moravam meus avós. Meu pai é natural de Porto Alegre. E, quando se iniciou a construção da Pasqualini, a Refinaria Alberto Pasqualini, lá em Canoas, eu acompanhava, de certa forma, a evolução daquela grande obra lá - pro Rio Grande do Sul era a maior obra que jamais tinha acontecido. E na praia que a gente veraneava, a gente acompanhou o lançamento dos dutos, das mono-bóias. Aquilo tudo atraia muito a atenção. Naquela época, eu tinha meus 14 ou 15 anos de idade. E a refinaria foi inaugurada com grande repercussão no Estado. Mas nunca eu imaginei que eu viesse trabalhar na Petrobras. Minha família é ligada à uma indústria. E quando eu entrei na escola, na faculdade, eu me mudei para Porto Alegre. Eu tinha um foco voltado para essa indústria familiar. E, por uma circunstância, eu acabei prestando o concurso para a Petrobras. Eu digo circunstância porque, na época do concurso, eu estava estagiando no laboratório da Refinaria. O pessoal foi na faculdade e convidou para fazer estágio lá, e eu fui prestar o concurso para fazer o estágio. E meu estágio que tinha uma duração prevista de um mês, de repente, em função até dos trabalhos que a gente vinha realizando, ele foi excepcionalmente estendido, prolongado por mais alguns meses assim, sem até uma definição de prazo. Pra mim aquilo foi muito interessante, eu fazia pesquisas no laboratório da faculdade, ajudou abrir a porta para o estágio na Petrobras, eu já manejava alguns equipamentos de laboratórios que estavam sendo implantados na Refinaria. Aí, lá pelas tantas, o pessoal foi convidado para o concurso da Petrobras. E como havia se estabelecido uma crise nos negócios da família, eu fiz o concurso da Petrobras. Eu lembro bem o resultado. A gente fez o concurso – acho que em agosto, por aí. Eu estava próximo da formatura e o tal do resultado do concurso não vinha. Eu estava no laboratório da Refinaria, já preocupado com o fim, com a formatura na faculdade e onde eu iria trabalhar. Tinha feito outras entrevistas em outras empresas, mas eu não queria tomar nenhuma decisão sem saber o resultado do concurso da Petrobras. E uma decisão que eu queria e precisava tomar era em relação ao meu noivado, né? Eu não sabia se ia marcar a data de casamento ou não ia, porque não tinha o emprego definido.(risos) E daí aconteceu, né, em final de novembro ali, veio o anúncio do resultado do concurso. É um negócio muito emocionante, assim, para mim porque daí abriu uma perspectiva, planos, que antes a gente se continha em fazer. E um deles era o de casar, né. Aí, duas semanas depois, acho, dez dias depois eu estava casando. Foi um negócio assim...
P/1 – Casou e de emprego novo!
R – Eu casei e no dia seguinte sai em direção ao Rio de Janeiro. Foi uma questão que tudo aconteceu rapidamente, né. A gente foi em lua-de-mel de carro, devagarzinho pro Rio de Janeiro, para chegar lá no dia da admissão, que acabou acontecendo dia dois de janeiro.
P/1 – De que ano?
R – De 75. Então, foi o primeiro Natal e Ano Novo que a minha esposa e eu passamos fora, fazendo a aventura num fusquinha, né.(risos) Então, foi o meu início, né, eu fui admitido na Petrobras no Rio de Janeiro. Fui fazer o curso de Engenharia de Processamento de Petróleo. Aí, começou a minha vida de petroleiro pra valer, porque eu tinha já seis meses no laboratório da Refap. Foi um período bem interessante, de muito aprendizado e experiência. Foi bacana.
P/1 – Ai o Senhor passou pelo estágio, pela Alberto Pasqualini...
R – E um ano no Rio de Janeiro, depois do estágio, um ano no Rio de Janeiro, daí era por classificação. Foi uma guerra aquele curso, porque havia uma disputa muito grande, porque eram muitas pessoas do Rio Grande do Sul e poucas vagas. Então, houve uma disputa bastante acirrada das pessoas do Sul. O Sul era bastante competitivo, justamente porque o número de vagas era restrito, apenas uma refinaria lá, e as pessoas queriam voltar. Eu consegui voltar. Foi um negócio interessante, ai eu fiquei na dúvida vou morar em Porto Alegre ou vou continuar morando no interior, ou voltar a morar no interior. Daí eu voltei pro interior. Porque durante a faculdade, eu morava em Porto Alegre. Ia de ônibus para a Refinaria. E daí eu optei ficar, voltar para a minha cidade de origem no interior do Rio Grande. E compatibilizava, né, eu ai dirigindo o carro, com 19 anos eu ia dirigindo, foi uma opção que eu fiz, né, para ficar morando na roça. (risos)
P/1 – Na cidade natal?
R – É.
P/1 – E aqui para a RBPC, quando o Senhor veio?
R – Pois é essa foi trajetória um pouco mais complicada, né. Complicada digo por que eu fiquei 18 anos lá na Refinaria Pasqualini; talvez 17 anos, porque um ano no Rio, né. E daí, surgiram algumas oportunidades, eu fiquei aí num programa de prestação de serviço através da Braspetro no exterior. Fui num programa aí, lá no Equador, um país da América do Sul. Foi uma experiência interessante, abriu algumas portas em termos profissionais, né. Houve uma reestruturação, aí eu passei de uma gerência setorial para uma gerência de divisão, que também agregou bastante experiência e possibilidades. E com isso me abriu uma perspectiva, eu recebi daí um convite para eu ir pro Amazonas, né. Aí eu fui pro Amazonas – um salto: de ponta a ponta. Fui pra Manaus, para a refinaria, lá pra Reman. Inclusive, na minha época, a refinaria mudou de nome, para Isaac Sabbá, né. Era uma refinaria particular, fundada pelo Isaac Sabbá, na época que eu estava lá que se mudou o nome da refinaria. Também foi uma experiência muito interessante porque são culturas muito diversas, num clima diferente, como eu falei, uma cultura diferente, distâncias muito grandes. E nós fomos com toda a família. Os colegas que me antecederam iam pra lá, parte da família, os filhos não iam. Eu fui com toda a família. Foi um negócio muito enriquecedor para toda a família.
P/1 – Passou quanto tempo lá?
R – Quatro anos e meio. Inclusive, naquela época, aconteceram muitas coisas lá, o Urucu foi viabilizado pra valer, os grandes investimentos em Urucu. E junto, a gente conseguiu viabilizar na Refinaria uma unidade nova. Começou naquela época, nós fizemos uma ampliação. Então, foi um período cheio de experiências, onde muitas vezes, a gente não tinha a quem se socorrer e era aquela a nossa equipe; e uma das questões que a gente buscou colocar para a equipe lá, é que a gente ia fazer tudo aquilo que a gente tinha como desafio, realizar, com as pessoas de lá. Na realidade, de fora era eu .(risos) E foi um negócio bacana, não só uma experiência de vida pessoal, mas como profissional também foi muito boa, né. E daí de lá, eu retornei para Capuava, aqui no ABC na Recap. Estava no final de uma obra, faltavam seis meses para uma primeira unidade de craqueamento de resíduos a tecnologia Petrobras que estava sendo implantada no Brasil. E eu tive a felicidade de participar desse período de fim de construção, pré-operação e colocar em operação uma planta nova, né. Isso também foi uma coisa interessante para mim. Eu fiquei lá, surpreendentemente, um ano e meio só. De repente, eu recebi um convite para Cubatão, que tinha aberto uma vaga aqui, e me convidaram pra vir pra cá, assim da noite pro dia. “Olha! É assim assado, quer ir para lá, aceita ir para lá?” Recebi um convite, do diretor Albano. Aí eu vim para Cubatão, com também grandes desafios, né. E em cada unidade, em cada lugar que eu estive eram desafios diferentes, né. Aqui em Cubatão, agora estou três anos, quase quatro anos. Mês que vem eu completo quatro anos. O tempo voa, né, aqui em Cubatão, o ritmo que as coisas acontecem pelo tamanho, complexidade, faz com que a gente nem perceba o tempo passar.
P/1 – Como é gerenciar uma refinaria, conta para gente como é?
R – Pois é, digo, cada lugar com um desafio diferente. Numa, uma reestruturação, viabilização econômica, noutra uma planta partindo, na outra vamos, dizer assim, otimizar um processo de melhoria contínua. Aqui, os desafios que aconteceram em primeiro lugar, foi relacionado à ambiência, né. Cubatão, antes de vir para cá, a imagem que a gente fazia, é que aqui seria uma Unidade, pela a sua história, pela sua tradição, pela cultura, inclusive pelo seu caráter de pioneirismo, né, escola de petroleiros, as coisas aqui tinham estabelecimento muito forte, e sindicalismo muito forte. Porque a história do sindicalismo na Petrobras, com força mesmo, começou aqui. Então, essas questões todas assustavam quem estava de fora. O pessoal falava de Cubatão e ficava com um pé atrás porque sabia que aqui as coisas são diferentes, né, em termos da cultura, da força. A greve de 95 marcou muito aqui, e passou para todos uma imagem de que aqui seria um lugar com um grau de dificuldades....
P/1 – Dureza.
R – Dureza maior. Eu conhecia já muitas histórias de Cubatão, porque na Refap (Refinaria Alberto Pasqualini) onde eu comecei aquelas pessoas que partiram a unidade, estabelecer rotina, os procedimentos tinham vindo em boa parte, a maior parte daqui. Então essa cultura já tinha permeado. Só que a gente escuta nas histórias muito folclore; elas recebem distorções, as pessoas às vezes exageram um pouco e tudo. Eu cheguei aqui, como eu disse, com o pé atrás. Eu digo “vamos ver aonde a gente vai colocar os pés.” Os colegas que me antecederam viveram algumas crises pesadas. Então, representou um desafio grande. Inclusive, quando eu fui para a sede, onde foi formulado oficialmente esse convite, foram colocadas essas coisas. E eu refleti bastante sobre isso, de como a gente ia trabalha. E uma das questões que a gente, desde o início, colocou é no sentido de sempre prestigiar a prata da casa e buscar a transparência nas relações. E uma característica, eu acho que talvez seja pessoal minha, porque em outros lugares também foi assim, é ir ao encontro e ao diálogo com as pessoas. Isso nós fizemos em todos os lugares que eu estive. Independente dos pontos de conflito, né, a gente sempre encarou os problemas de frente e de uma forma muito franca. Tanto é que a gente foi ao encontro do sindicato aqui, nas primeiras semanas; fomos lá falar e pedir para o pessoal as contribuições e colocar nossa cara, para a gente estabelecer um clima de diálogo, né. Eu acho que a gente foi avançando aos pouquinhos.
P/1 – Então, das histórias que assustavam antes do Senhor chegar, dessa avaliação, eram mais folclore, e foi menos ruim?
R – Eu não diria que foram mais folclore. A gente teve possibilidades de experimentar, em alguns eventos, a força da categoria, das posições, a firmeza. Agora, isso aí exige, eu acho, a contra partida no sentido de estabelecer esse equilíbrio. Eu acho que esse equilíbrio se estabelece nesse patamar, que pode ser construtivo ou destrutivo. E eu acho que, no nosso caso aqui, está sendo construtivo. O pessoal tem posições fortes, exige da gente posições fortes, e eu acho que nessa hora existe uma possibilidade de crescimento muito boa. Porque quando as pessoas têm um espírito muito crítico, são muito exigentes, exigem de nós uma contra partida. E isso ai resultam coisas muito boas. Então, a gente sempre quando escuta uma crítica, ela às vezes machuca a gente, mas é uma oportunidade de crescimento, de fazer uma reflexão e avaliar onde a gente está falhando e aonde aquela crítica tem consistência, né. E isso aí é um dos diferenciais talvez daquilo que se entende lá no primeiro mundo; exige uma disciplina maior das pessoas, na condução dos seus trabalhos e coisa assim. Eu acho que isso aí tem que se olhar no lado positivo. Eu acho que no termo de ambiência a gente tem conseguido progressos significativos. Tanto é que a gente está vivendo mesmo situações de antagonismo, algum conflito em relação a posições, nós nunca descambamos para uma relação assim destrutiva, negativa. Acho que ela está crescendo.
P/1 – É um desafio diferente do que instalar uma unidade de tratamento.
R - Pois é. Daí tu perguntastes “como é gerenciar?” Eu digo: em cada lugar tem um desafio diferente, né?
P/1 – Tem uma necessidade.
R – Nós tínhamos um desafio de ambiência. Mas tem um desafio aqui em Cubatão que diz respeito à questão ambiental. Eu acho que o gerente aqui precisa estar focado na questão ambiental, além da ambiência como eu falei, que é a base para as pessoas que fazem as coisas. E aqui essa é uma questão que precisa se olhar com bastante atenção. A questão de segurança, meio ambiente, meio ambiente eu já falei, a questão da saúde, aqui os graus de exigência que é muito grande, e a gente lida com produtos que merecem toda a atenção, nos impactam, nas questões em salubridade, precisamos ter uma atenção especial. E o futuro da refinaria do negócio, né? É uma refinaria muito complexa, tem um esquema de refino muito bem ajeitado, e se precisa cuidar para que esse complexo todo opere harmoniosamente. Então, nós precisamos ficar atento que não se quebre esse equilíbrio. Porque esse equilíbrio é que faz o resultado da refinaria. Nós temos 24 unidades aqui, mais uma planta de gás natural; e são muito interdependentes, né. Essa interdependência faz com que qualquer ponto em desequilíbrio afete todo o conjunto e impacta muito o resultado da refinaria. É uma engrenagem muito solidária, um conjunto de engrenagem muito solidário. E aqui, em Cubatão, nós precisamos nos preocupar com isso, mais do que nunca.
P/1 – E mais do que nas outras?
R – Porque o potencial de resultado de Cubatão, ele impacta bastante. Ela tem uma carga elevada, nós não produzimos óleo combustível, teoricamente, se tudo estiver funcionando direitinho. Temos muitas unidades com produtos muito especiais só fabricados aqui em Cubatão. Então, nós precisamos nos preocupar que tudo esteja funcionando direitinho. E a gente tem conseguido ano a ano melhorar, os indicadores mostram isso, né. E isso se deve a atenção que cada um está dando na sua área de trabalho. Então, como é gerenciar? Gerenciar é cuidar que em todas as frentes esse conjunto mantém o seu equilíbrio com grande confiabilidade operacional. E quem faz isso acontecer são as pessoas. Na realidade, a gente está tocando junto. Vocês viram essa sala aqui (risos) é para isso mesmo, né, para essas ocasiões. Mas a gente trabalha em conjunto, lá naquele salão, todos juntos. Às vezes vira uma bagunça lá, vocês não reparam, né? Mas é uma reunião permanente. E a gente tem pouca privacidade, mas eu diria que se estabelece uma produtividade, uma sinergia muito positiva.
P/1 – O trabalho em conjunto.
R – Trabalho em conjunto, com bastante transparência. Aquelas coisas todas que eram desafios, eu acho que a gente lá dissipa trabalhando em conjunto. Desmistifica até. Eu vejo aqui que a gente conversa com as pessoas, faz as entrevistas. A maior parte das pessoas diz que tinha uma grande incógnita: “como era essa sala aqui?”, um negócio, a figura do gerente geral, do superintendente era tão distante para as pessoas, né. Eu acho que essa questão a gente, desde o início, buscou quebrar. Eu acho que não foi só aqui. Tem pessoas que perguntam “Não foi aqui!” Não, em outros lugares que eu passei também busquei esse tipo de relacionamento.
P/1 – João, nesses anos todos de trabalho você tem alguma história mais marcante, tem ficado especialmente marcada para você, curiosa, engraçada, o que te marcou?
R – Tem uma história. Tem diversas histórias assim, né. Aqui, em outros lugares. Mas tem uma que pessoalmente, né, me marcou. A minha filha mais velha fez concurso para a Petrobras, há dois anos atrás, e passou. Foi uma expectativa porque levou um ano, por causa da questão da Petros, para ser chamada. Tinha feito todos os exames, exames médicos, tudo. Daí ela ingressou na Companhia. Ela já tinha feito mestrado, tinha emprego, tava dando aula lá no Sul. Ela entrou e estava muito bem, inclusive no filme dos 50 anos, ela aparece naquele filme daquela peça publicitária que saiu no jornal nacional, no dia três de outubro - no dia do aniversário - ela apareceu. Foi surpresa assim para mim.
P/1 – Você não sabia?
R - Não, sabia que ela tinha filmado, mas não esperava que ia aparecer. E, de repente, eu vi ela, né, me pegou de surpresa. Foi um negócio muito, muito bacana, né, pela relação que a gente tem com a Petrobras. E o que aconteceu depois? Ela estava lá na universidade corporativa e, por uma questão pessoal dela, da vida pessoal dela, o marido dela foi transferido, ela foi obrigada a pedir demissão, ela saiu, né. Então, foi um negócio que mexeu muito lá com a nossa família. E ela mesma estava gostando, para ela foi difícil também, para o marido dela que é um médico. Filha de petroleiro, né, então, para ela foi uma decisão difícil, e para nós, aceitar isso também foi difícil. Mas sei lá, a vida prepara algumas surpresas. Essa aí foi uma delas, né, uma das histórias que eu tive um ano e pouco, quase dois anos como colega, né, de trabalho.
P/1 – De trabalho, né?!
R – Mas eu tive muitas histórias assim.
P/1 – Escolhe uma outra assim ligada a sua trajetória profissional, nesses anos todos, ou no início ou na Amazônia. Deve ter alguma coisa curiosa que você, um gaúcho, lá no Norte, também saindo do Sul indo lá para o Norte.
R – É, pois é, eu tive algumas histórias. Deixa eu memorizar. São muitas situações. Eu lembro um evento que aconteceu que marcou bastante. Foi em outra época. Foi um derrame de óleo diesel que aconteceu na Pasqualini, né. Foi uma situação que marcou que a gente se assustou muito, porque passou para o Rio dos Sinos, e o Rio dos Sinos deságua em Porto Alegre. A gente ficou com um medo incrível que aquele óleo diesel fosse chegar em Porto Alegre. Foi a primeira vez que eu andei de helicóptero; a gente foi fazer um rastreamento para ver como estava avançando. Sorte que, àquela época, a mídia não estava com muita atenção focada na questão ambiental, e tal. O negócio passou, mas foi um susto incrível, porque a gente viveu, né. A nós passamos à noite lançando barreiras no rio numa época bem diferente. Aquilo era nos idos 90, começo dos anos 90, né. Imagina se fosse hoje, ia ser uma....
P/1 – É difícil enfrentar esses acidentes que acontecem, como é que?
R – Foi muito complicado. A gente queria segurar o diesel, só que as barreiras não resistiam de tanto lixo que havia nos rios. A questão ambiental de um modo geral, né, ela é bastante séria. A gente vê, nós fizemos aqui uma coleta de lixo aqui em Cubatão, né. É uma dificuldade grande, a gente sai ai nas vizinhanças da Refinaria. Nós fizemos uma campanha de coleta de lixo aí no mangue. É muita coisa que a gente vê, percebe as dificuldades da urbanização, as precariedades, né, estão ao nosso lado, e a gente acaba vivenciando muito próximo isso. O nível de desigualdades que a gente tem, estão aqui ao nosso lado.
P/1 – Tem algum trabalho de convivência com a comunidade?
R – Tem muitos programas. Mas em determinados momentos...
P/1 - Mas específico aqui para Cubatão?
R –É, estamos vivendo. “Cubatão de bem com o mangue”, é um programa da Petrobras. Nesse programa que a gente fez essas coletas, tem um programa inclusive de isolamento do mangue com o cerco, um negócio incrível.
P/1 – Fala só um pouquinho desses programas então.
R – É a gente vê um programa, né, o programa é tão elementar, a gente fica até constrangido de falar. É um programa que a gente lançou alguns quilômetros de alambrados, cerca, está cercando o mangue para conter a invasão por parte da população numa área precaríssima.
P/1 – A população está invadindo os terrenos?
R – Invadindo o mangue, agride o meio ambiente, estabelecem favelas ali, junto às vilas. A gente passa nessa região aí, próxima à Refinaria, entorno do mangue, uma região de grandes invasões, muito problema de desemprego, favelização grande, desemprego é grande, analfabetismo é grande. Isso é um contraste muito grande que a gente vive. E a gente está no estado mais rico do Brasil, São Paulo, né, e próximo da capital. Quando eu já trabalhava em Capuava, a gente percebia, até indo para São Paulo, debaixo daqueles viadutos, aqueles cartões de visitas deploráveis que a gente vê.
P/1 – Mas tem algum programa assim, Petrobras e comunidade?
R – Sim, aqui nós temos “Cubatão de bem com o mangue”, consiste em uma série de atividades, entre elas a cerca para isolar e conter as invasões, apoio às escolas, a conscientização, coleta de lixo. Fomentamos a inclusão digital através da escola para a comunidade, onde se ensina cursos de noções básicas na parte de uso de computador. E apoio as entidades de modo geral. Uma demanda quase que diária de pedidos que a gente atende alguns possíveis, outros não, de pequenas demandas da comunidade também, né, por conta dessa precariedade. Um coral com um mágico, outro coral com deficientes fazem programas em uma escola. Muita coisa. Outro lá de deficientes mentais. Um número de programas grande.
P/1 – Legal.
R – História, deixa eu ver se teria mais alguma história pitoresca.
P/1 – Não precisa ser necessariamente pitoresca, alguma que tenha te marcado também, algum desafio que você tenha achado mais representativo para você, que tenha te exigido mais.
R – Aqui em Cubatão, a assembléia do Consema, em que foi conseguido a licença de instalação da termoelétrica, eu nunca tinha visto algo parecido. Existe um ritual para se conseguir uma licença ambiental de uma obra de grande monta como uma central termo elétrica. E havia uma polêmica muito grande por parte de órgãos ambientalistas, sindicatos, OAB, comunidades ambientais e a empresa, né. E dentro desse processo todo, a etapa final é uma audiência no Conselho de Meio Ambiente do Estado. Foi realizada lá em São Paulo, essa audiência pública. Daí chegaram ônibus daqui da baixada, os a favores, os contras, se reuniu, se mobilizou a comunidade para apoiar, outros que estavam indo lá para exercer a sua oposição dentro de um processo democrático e saiu um negócio bastante interessante.
P/1 – Quase uma guerra?
R – Só que aquilo começou na base discurso, mas de repente descambou. Foi uma discussão muito pesada, que descambou para um conflito que se estabeleceu lá no local onde está sendo realizada no auditório, lá na Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, que obrigou o Presidente da sessão, transferir todo o grupo que ia apreciar e julgar o processo, depois de escutar as partes, para uma sala fechada. E a turma, que estava fazendo a oposição, não aceitou aquilo, né. Mas do jeito que estava acontecendo, estava inviabilizado o prosseguimento da sessão. O Pessoal queria adiar para ganhar mais tempo, porque o processo estava levando cinco anos. O processo interminável e aquilo já fazia parte do jogo, né. Aconteceu um conflito muito grande. Coisa que eu me assustei, não tinha visto igual. Inclusive, com segurança envolvida, agressões físicas. Foi um negócio que eu, que já tinha assistido bastante coisa, mas não uma assembléia...
P/1 – Hein, o que foi que você sentiu nessa hora dessa confusão toda, de você pensar que estava do outro lado, quase como se fosse...
R – Eu estava há pouco tempo aqui. Daí eu vi que, na prática, muitas das coisas que o pessoal me contava, histórias de acontecimentos, eu disse: “é, de fato, a turma não exagerou. A turma aqui pega no pesado e pega firme mesmo, não dá para subestimar.” (risos) É um negócio bem interessante, né? Mas em determinadas horas, cada um faz valer a sua força na circunstância e como tem e como pode, né. É um jogo pesado de forças, interesses, né, em que às vezes os recursos que o lado, eu diria, até o mais fraco tem é jogar para esse tipo de recursos, né. Então, fica aquele jogo de quem é o vilão, quem é o bonzinho na história.
P/1 - Você chega a se sentir vilão?
R – Não, porque nesse jogo de forças, às vezes se confunde muito quem é o lado mais forte e quem é o lado mais fraco. Porque muitas vezes, nos jogos de interesses que estão atrás de algumas demandas, aquele que parece ser a ovelhinha é o lobo da história, né. E usa, às vezes, todos os instrumentos legais e coisa assim, para tirar aquela vantagem, ou coisa assim. É um negócio muito complicado para a gente, de antemão, sair julgando. Então, nesses 29 anos de estrada, a gente vai aprendendo muita coisa para não sair tomando decisões ou julgando de forma precipitada as coisas.
P/1 – Ter muita calma.
R – É preciso muita calma, porque a verdade nem sempre é aquela que fica mais à vista. A verdade, às vezes, está bem mais longe e escondida, né.
P/1 – João eu queria perguntar, para terminar a entrevista, o que você achou de ter participado do projeto e o que você acha dessa iniciativa da Petrobras, do próprio sindicato?
R – Acho que é bastante válida, né. Uma empresa que tem 50 anos, acho que tem bastante história para consolidar seu processo, até de construção do futuro que se pretende, né. Eu acho que é uma parada para a gente olhar, refletir, assentar as suas bases, reassentar. Acho interessante.
P/1 – Eu gostaria de agradecer a sua participação antes disso, enfim, toda a sua gentileza de ter cedido o espaço, por ter recebido a gente muito bem.
R – Espero que a entrevista possa contribuir no processo, tá bom?
P/1 – Certamente. Muito obrigada.
R – Eu talvez deveria ter pensado e anotado algumas coisas.
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