Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Averaldo Menezes
Entrevistado por José Santos e Murilo Sebe
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB651
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde, senhor Averaldo.
R – Boa tarde.
P/1 – Então, para começar, eu queria que o senhor dissesse o nome completo, local e data de nascimento, por favor.
R – Averaldo Menezes Almeida, nasci em Itabaiana, Sergipe, no dia nove de janeiro de 1959.
P/1 – Senhor Averaldo, diz para a gente como e quando se deu o ingresso do senhor aqui na Petrobras?
R – Bom, eu me escrevi na Petrobras em janeiro, né, eu... na Petrobras eu já trabalho desde 78 em contratadas. Aí, no início de 84 apareceu o concurso, eu prestei o concurso e me tornei funcionário efetivo da Petrobras, né, como a gente chama: petroleiro direto, a partir de 6 de novembro de 84.
P/1 – Aqui mesmo na refinaria?
R – Aqui mesmo na RPBC, sempre trabalhei só aqui.
P/1 – Então o senhor pode contar para a agente alguma história marcante desse período, do tempo que o senhor... ?
R – Olha, tivemos várias histórias, né, tivemos... A mais marcante de todas foi a greve de 95 onde, pela primeira vez, nós ocupamos, aqui, ocupamos a refinaria. Já tínhamos ocupado a refinaria dois dias, três dias, mas ocupar a refinaria 32 dias foi o fato mais marcante, né, que a gente ficou aqui dentro, eu era o presidente do sindicato, a gente manteve um grupo entre 500 a 550 pessoas aqui dentro nesse período e a gente tinha que cada dia criar um ato, né, para poder manter as pessoas aqui dentro. Para você conseguir manter essas pessoas aqui dentro, cada dia você precisa criar um fato novo: um dia você hasteava a bandeira do sindicato, outro dia a gente liberava de manhã, cada religião fazia o seu culto e todo mundo participava, outro dia a gente fazia treinamento de como se garantir aqui dentro enfim, cada dia era uma coisa nova. Você tinha que...
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Depoimento de Averaldo Menezes
Entrevistado por José Santos e Murilo Sebe
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB651
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde, senhor Averaldo.
R – Boa tarde.
P/1 – Então, para começar, eu queria que o senhor dissesse o nome completo, local e data de nascimento, por favor.
R – Averaldo Menezes Almeida, nasci em Itabaiana, Sergipe, no dia nove de janeiro de 1959.
P/1 – Senhor Averaldo, diz para a gente como e quando se deu o ingresso do senhor aqui na Petrobras?
R – Bom, eu me escrevi na Petrobras em janeiro, né, eu... na Petrobras eu já trabalho desde 78 em contratadas. Aí, no início de 84 apareceu o concurso, eu prestei o concurso e me tornei funcionário efetivo da Petrobras, né, como a gente chama: petroleiro direto, a partir de 6 de novembro de 84.
P/1 – Aqui mesmo na refinaria?
R – Aqui mesmo na RPBC, sempre trabalhei só aqui.
P/1 – Então o senhor pode contar para a agente alguma história marcante desse período, do tempo que o senhor... ?
R – Olha, tivemos várias histórias, né, tivemos... A mais marcante de todas foi a greve de 95 onde, pela primeira vez, nós ocupamos, aqui, ocupamos a refinaria. Já tínhamos ocupado a refinaria dois dias, três dias, mas ocupar a refinaria 32 dias foi o fato mais marcante, né, que a gente ficou aqui dentro, eu era o presidente do sindicato, a gente manteve um grupo entre 500 a 550 pessoas aqui dentro nesse período e a gente tinha que cada dia criar um ato, né, para poder manter as pessoas aqui dentro. Para você conseguir manter essas pessoas aqui dentro, cada dia você precisa criar um fato novo: um dia você hasteava a bandeira do sindicato, outro dia a gente liberava de manhã, cada religião fazia o seu culto e todo mundo participava, outro dia a gente fazia treinamento de como se garantir aqui dentro enfim, cada dia era uma coisa nova. Você tinha que criar cada dia uma coisa nova para você conseguir segurar 500 e poucas pessoas aqui dentro. Eu acho que esse foi o fato mais marcante, né, até quando o exército veio até a porta para poder entrar nós falamos: “O exército não vai entrar”, e não entrou. E nós estávamos dispostos a tentar dar um susto no exército brasileiro, nós estávamos dispostos a isso. Tínhamos que toda, treinamento para isso, falou: “Aqui dentro nós conhecemos e o exército não conhece, né, os produtos que tem tudo”, dar um susto. Então acho que esse foi o momento mais marcante que nós tivemos que eu passei nessa refinaria. Claro que já tivemos outros momentos né.
P/2 – Dentro desse ainda, como é que é uma logística de ocupar uma refinaria?
R – Olha, a gente, na verdade, ocupou a refinaria pelo seguinte: nós estávamos com a refinaria entupida de produto, entupida. Eles produziram, sabendo que ia ter o movimento produziram tudo que podiam, os tanques estavam todos abarrotados. Então, nós tínhamos a certeza que de que se a gente fizesse a greve fora esse produto ia ser escoado e aqui na refinaria nós temos a facilidade, você pode escoar até sobre; você basta abrir a válvula, porque como é morro desce direto, não precisa nem ligar a bomba se quiser. Então a gente tinha essa consciência, tinha a consciência disso, que o fato da gente segurar é, ficar lá fora, dali faria com agente fizesse muito tempo de greve por outro lado, se a gente ficasse aqui dentro, agente conseguiria fazer a greve em menos tempo porque ia faltar o produto mais cedo possível, né, isso nós tínhamos muito claro na cabeça, esse era o nosso objetivo. Então, a única coisa que a gente decidiu liberar que ______ também era nossa _______ o gás nós vamos deixar liberar porque o gás era a população que era contra nós, então era o único fato que a gente queria: “Não vamos deixar faltar gás porque aí é o que a população necessita.”, e isso é um ponto. E foi uma das coisas que acabou dando problemas para nós porque disseram que a gente faltou gás e a gente tinha a responsabilidade de não deixar faltar gás, né? Mas, mesmo assim, acabaram criando uma coisa, o prefeito de Santos até teve uma participação muito grande provando que não éramos nós que estávamos escondendo o gás, eram as empresas de gás que estavam escondendo para por a culta na gente. Mas, o fato principal da ocupação foi essa, é garantir dois pontos: primeiro é garantir que não escoasse produto e segundo que tinha os, que a gente chama normalmente de pelego, né, o que vai entre o... ô pelego! e a gente queria proibir esses pelegos, e uma das formas de proibir era aqui dentro. Os que quisessem entrar nós falamos: “Entra; trabalhar não vai.”, né “trabalhar não vai”. E aí nós cercamos a refinaria inteira; nós tínhamos aqui, só para vocês terem uma idéia, nós tínhamos aqui dentro é... a gente acionava a sirene do bombeiro, em dois minutos todo mundo ficava a postos para enfrentar, o que viesse a gente ficava a postos. Porque enviavam o helicóptero do exército, ficava dando volta aí por cima e tal, então a gente colocava, em dois minutos a gente acionava todo mundo. A gente treinava isso todo dia nosso sistema de segurança. Nós tínhamos um turno de três em três horas que a gente chamava “rapatrai”, né, os nomes que o pessoal dava, que era o rapa do (Setrai?), fazia, dava volta em todo (Setrai?), fazendo em todos os pontos da refinaria para ver se estava entrando alguém estranho. Nos pontos altos da refinaria nós tínhamos turno, nós tínhamos pessoas com binóculo de longo alcance olhando quais os movimentos que estavam acontecendo, se estava chegando alguém se não estava. Fazendo sempre turno, trocando direto esse pessoal para não se cansar, entendeu? Então, é, toda uma segurança para ver se não entrava ninguém estranho, se estava alguém, se estava vindo alguém, se não estava; fizemos todo assim, um, e isso foi aos poucos, né, cada dia o pessoal: “Vamos criar algo novo.”, e algo novo que a gente criava fazia com que o pessoal se estimulasse mais. Agora, o mais importante de tudo foi o seguinte: sai daqui uma família. Ficou todo; quando acabou a greve, a greve foram 31 dias nós ficamos 32. O pessoal não queria sair, o pessoal queria continuar porque virou uma família. A gente usava até um crachá que eu uso até hoje, nunca deixei de usar, está aqui, olha, é, “mexeu com o meu companheiro, mexeu comigo. Queremos nossos companheiros de volta.”, né?
P/2 – Mostra para mim.
P/1 – Olha para a câmera.
R – Eu uso até hoje ele, eu nunca tirei. Na verdade, após a greve nós ficou todo mundo usar isso e eu uso até hoje, “queremos nossos companheiros...”, já reintegramos todos. Na época nós ficamos com 14 demitidos, nos estamos com todos de volta já.
P/2 – Reintegrou todo mundo?
R – Todos os 14. Estão todos de volta, né? Mas aí o crachá ficou lendário e eu uso ele até hoje, acho que eu sou o único que uso por aqui, né, mas eu carrego ele aqui comigo. Então, acho que foi um aprendizado muito grande na vida de todo mundo, entendeu? Quem passou por aquele movimento jamais vai esquecer, porque vai estar gravado na memória dele o momento assim, uma família unida.
P/1 – Tá ok, senhor Averaldo. O senhor é filiado ao sindicato?
R – Sou.
P/2 – Exerceu alguma cargo, não?
R – Já fui tesoureiro, secretário geral e presidente. E já fui da federação dos petroleiros, o diretor de... o secretário de imprensa.
P/1 – Tem algum outro momento de participação de movimento, de luta do sindicato, enfim, ao longo desse; principalmente ao longo desse período em que o senhor exerceu algum cargo?
R – Sim, nós tivemos em, no final, em janeiro de 91, janeiro e fevereiro de 91, foi a primeira vez que agente ocupou essa refinaria de fato. Ocupamos essa refinaria, ficamos três dias aqui dentro na refinaria. Eu era, na época, o... janeiro de 91, eu era o tesoureiro do sindicato; não, eu não era direção era oposição, mas era uma oposição que a gente na verdade deu uma direção para o sindicato. Aí, em setembro ganhamos a eleição, ocupamos a refinaria de novo, ocupamos por três dias aqui, aí depois saímos da ocupação aqui tomamos o Terminal de Alemoa (em Santos). Aí ficamos 12 dias com o Terminal de Alemoa, 12 dias o Terminal de Alemoa ficou nas nossas mãos.
P/2 – Senhor Averaldo, só uma pergunta assim, tecnicamente o que significa ocupação da Refinaria?
R – Ocupar a refinaria tecnicamente significa, a gente na verdade, o que a gente diz é o seguinte: “Se alguém tem chance de cuidar dessa refinaria e tomar conta, é, numa greve, se ela ficar abandonada é ruim porque as pessoas não sabem operar aquilo. Se agente ficar lá fora e não deixar entrar ninguém é ruim. Porque tem coisas numa refinaria que não pode parar.” Por exemplo: a casa de força; nós temos produtos que são aquecidos, se ele aquecer; se ele esfriar na linha ele endurece e perdeu a linha. Então, nós tínhamos a responsabilidade de não deixar isso acontecer. Então nós falamos: “Olha, o seguinte, nós vamos ocupar, tomar conta e como; até um juiz deu um parecer de uma vez falaram para a gente: “Nós vamos ocupar, as partes que a gente tem, conhece isso aqui, tranqüilamente, as partes que a gente acha, que a gente sabe que não pode parar, não vamos parar. As partes têm que ficar circulando, nós não vamos produzir. Agora, tem partes que não podem parar. A gente deixa circulando.” Então, a gente tinha operadores que ficavam trabalhando de fato; para manter linhas aquecidas, para manter ali unidades circulando, unidades que não podiam parar, tanto é que depois de 32 dias, em 3 horas a unidade voltou a funcionar 100%. Você vê, e nas outras greves as vezes demora é, dois, três dias para a unidade voltar e no nosso caso ela voltou em 3 horas. Isso prova de que a gente manteve a unidade, até nós discutimos com a gente, falamos: “Oh, quando você vai para a unidade numa greve você demora dois, três dias para voltar. Em 3 horas você voltou.” É sinal que nós mantivemos a unidade exatamente na linha que tinha que voltar. Nós não danificamos nada, mantemos a unidade extremamente afinada. No momento em que a gente saísse ela voltava a funcionar tranqüilo.
P/1 – Nesse, nesse período, então, que o senhor esteve lá na diretoria, participação do sindicato, quais seriam as principais conquistas do sindicato ao longo desse tempo?
R – Bom, eu considero uma das conquistas, claro, o nosso acordo coletivo de certa forma. Por exemplo: agora nós conquistamos a questão da escola, para o segundo, para o ensino secundário, até o ensino...
P/1 – Ensino médio agora.
R – Ensino médio agora, conseguimos atingir também uma parte do ensino médio, eu acho que foi uma grande vitória nossa, uma assistência médica muito boa, a gente tem. Eu acho que isso é fruto da luta da categoria, né? A própria participação do núcleo nosso aqui foi, na minha época que a gente tinha lei, mas nunca vinha e nós brigamos e conseguimos. Eu acho que foi uma vitória, embora nos divida na questão dos aposentados, muitas vezes tem uma pô, essa polêmica na questão dos aposentados, para a categoria tem sido uma grande vitória, né? E são inúmeras vitórias que a; tem derrotas no meio também, né, tem alguns tropeços. Em 84, em 89 nós tivemos o Collor no poder que demitiu um monte de gente, demitiu uma multidão. Na nossa refinaria foram 29 demitidos e nós reintegramos os 29. É a maior vitória, nós reintegramos os 29. E agora tivemos 14 e mais quatro depois, logo em seguida 18, reintegramos os 18. Acho que essa foi a maior vitória, que essa categoria até hoje não deixou ninguém pelo caminho. Todos que foram demitidos na luta foram reintegrados, todos. Essa foi a maior vitória nossa.
P/1 - Bom, senhor Averaldo, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista e contribuído para o Projeto Memórias do Trabalhador?
R – Eu acho muito importante. Eu acho que tem que ficar marcado a história, o que aconteceu, os fatos. Eu acho que tem que estar sempre registrado, um dia as pessoas possam ler. Tem até uma pessoa que se vocês tiverem chance, a Mirian, Mirian, uma pessoa que foi secretária do nosso sindicato e ela fez um livro, fez uma tese para a faculdade contando a história do nosso sindicato. E ela pega, por exemplo, o Gelásio que é uma pessoa que é um monumento histórico do sindicato, já faleceu.
P/2 – Como é que ele chama?
R – Gelásio.
P/2 – Gelásio.
R – Ela pega um monumento histórico do sindicato. E ela teve a felicidade de entrevistá-lo antes dele morrer. Então, quer dizer, até não sei se o sindicato tem a história e tal, a Mírian e é muito importante porque tem que resgatar a história, tem que buscar as pessoas que lutaram, as pessoas... todos os pontos bons e ruins, mas, enfim, buscar a história, né, história tem que ser sempre contada, por isso é que eu sou formado em história. Eu sou formado em estudos sociais e dou aula e dei aula de geografia. Eu acho que a história tem que estar sempre bem contada, tem que ser sempre contada para que as pessoas se marquem.
P/1 – Tá certo. Obrigada.
P/2 – Então, muito obrigado pela sua entrevista.
R – Que é isso! Tranqüilo!
(Fim da fita Mpet/RPBC 003)
(Setrai?)
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