Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos
Depoimento de Vitor Luiz Silva Carvalho
Entrevistado por Inês Gouveia (P/1)
Campos dos Goytacazes, 02 de julho de 2008
Realização Instituto Museu da Pessoa.Net
Entrevista n° PETRO_CB467
Transcrito por Michelle de Oliveira Alencar
P/1 – Vou pedir que você comece dizendo o seu nome, a cidade onde você nasceu e a sua data de nascimento.
R – Eu sou o Vitor Luiz Silva Carvalho. Nasci aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, no dia 21 de setembro de 1963.
R – Vitor, qual é a sua formação?
R – Eu estudei aqui na escola técnica, que hoje é CEFET, me formei em 1982 em técnico de edificações, mas não cheguei nem estagiar, né, pra poder o diploma porque eu me formei em dezembro de 82, e fiz o concurso pra Petrobras aqui, né, era pro pólo aqui de Macaé mesmo em março de 82. Então quando eu me formei a Petrobras já tava chamando o pessoal desse concurso que eu participei, mas eu só fui chamado em março de 83. Então ainda deu pra curtir umas fériazinhas e ser chamado pra trabalhar na Petrobras.
P/1 – Você já tinha claro, Vitor, na sua cabeça quando você tava cursando o segundo grau de que você queria trabalhar na Petrobras? Como é que foi isso?
R – Olha, infelizmente aqui não só na época como ainda nos dias de hoje a Petrobras é um atrativo considerável. A nossa região nunca teve uma vocação, né, pra atração de outras atividades que não o comércio e indústria açúcar-alcooleira, né, era tradição aqui. Hoje a parte de açúcar-alcooleira tá um pouco prejudicada porque muitas usinas foram fechadas, né, principalmente São Paulo e Centro-Oeste compraram as cotas, né, das usinas daqui pra poder produzir lá, então a gente de 32 usinas a gente tá reduzindo a oito. Então é uma cidade que não tem, ou não, os governantes aqui não têm essa preocupação de tá atraindo indústrias pra poder diversificar, né, as opções e acaba que a gente é fornecedor de...
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Depoimento de Vitor Luiz Silva Carvalho
Entrevistado por Inês Gouveia (P/1)
Campos dos Goytacazes, 02 de julho de 2008
Realização Instituto Museu da Pessoa.Net
Entrevista n° PETRO_CB467
Transcrito por Michelle de Oliveira Alencar
P/1 – Vou pedir que você comece dizendo o seu nome, a cidade onde você nasceu e a sua data de nascimento.
R – Eu sou o Vitor Luiz Silva Carvalho. Nasci aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, no dia 21 de setembro de 1963.
R – Vitor, qual é a sua formação?
R – Eu estudei aqui na escola técnica, que hoje é CEFET, me formei em 1982 em técnico de edificações, mas não cheguei nem estagiar, né, pra poder o diploma porque eu me formei em dezembro de 82, e fiz o concurso pra Petrobras aqui, né, era pro pólo aqui de Macaé mesmo em março de 82. Então quando eu me formei a Petrobras já tava chamando o pessoal desse concurso que eu participei, mas eu só fui chamado em março de 83. Então ainda deu pra curtir umas fériazinhas e ser chamado pra trabalhar na Petrobras.
P/1 – Você já tinha claro, Vitor, na sua cabeça quando você tava cursando o segundo grau de que você queria trabalhar na Petrobras? Como é que foi isso?
R – Olha, infelizmente aqui não só na época como ainda nos dias de hoje a Petrobras é um atrativo considerável. A nossa região nunca teve uma vocação, né, pra atração de outras atividades que não o comércio e indústria açúcar-alcooleira, né, era tradição aqui. Hoje a parte de açúcar-alcooleira tá um pouco prejudicada porque muitas usinas foram fechadas, né, principalmente São Paulo e Centro-Oeste compraram as cotas, né, das usinas daqui pra poder produzir lá, então a gente de 32 usinas a gente tá reduzindo a oito. Então é uma cidade que não tem, ou não, os governantes aqui não têm essa preocupação de tá atraindo indústrias pra poder diversificar, né, as opções e acaba que a gente é fornecedor de mão-de-obra pra Petrobras. Então na época os salários iniciais que a Petrobras ofereciam eram estupidamente acima da média que o comércio, ou a indústria da construção civil podia tá oferecendo e não... É inegável que no ideário de todos os estudantes da escola técnica passava a opção de tá trabalhando na Petrobras e eu não fugi a regra, né?
P/1 – E quando você entrou você entrou pra trabalhar especificamente em que área?
R – Na área de produção, né, que é onde eu estive de 83 até 96, em 96 a Petrobras abriu a possibilidade de ir pra área de estabilidade, que é uma área afeta somente as plataformas e navios, né, plataformas semi-submersíveis e navios. A gente, a função nossa, hoje eu posso falar minha porque já tô exercendo é que ela se mantenha estável, estabilizada sem inclinações, então tem todo um, uma... As atribuições nossas, né, técnico de estabilidade são nesse sentido: de manter a plataforma ou navio nessas situações.
(pausa)
Então, como eu tava dizendo quando eu entrei na Petrobras era pra área de produção, né? Cuidar de separação, processamento de óleo, gás, tubo compressores, ter tratamento de gás, que é a parte de tirar a umidade do gás, bombas, tudo afeta a área de produção, que até hoje é ainda isso. Então em 96, então, passei pra área de estabilidade que é cuidar especificamente de manter a plataforma ou navio estabilizado, sem inclinações, tendo preocupação de você não carregar muito um lado ou o outro, né, ou a proa, a polpa pra que você mantenha ela estabilizada. Até porque quando começa a inclinar é um desconforto, né, as pessoas logo se assustam, já vão procurar a gente: “O que tá acontecendo e tal?” Então é uma função bastante específica, né? E que também tem muito a ver com operação porque você acaba trabalhando com muita coisa que tem na área de produção, né, com a área de estabilidade.
P/1 – Então você trabalhou pelo menos a maior parte do tempo embarcado?
R – A maior parte do tempo embarcado, desde... Eu tô no terceiro, indo pro terceiro mandato mas, de liberação o primeiro mandato se eu fiquei dois meses foi muito, no segundo eu já fiquei da metade do mandato até agora, né? E vamos ver agora no próximo como é que vai ser, né?
P/1 – Vamos falar um pouquinho do período em que você esteve embarcado. Você pode me contar como é que é a vida do trabalhador embarcado? Como é que é o cotidiano?
R – Olha, eu nunca tive muito problema de trabalhar embarcado, eu costumo até brincar que o meu primeiro ano de embarcado eu passei natal, reveillon, carnaval e o meu aniversário tudo passei embarcado. Então foi talvez ali a prova de fogo. Eu sempre gostei de carnaval, entrei na Petrobras com 19 anos, então era muito, eram datas bastante marcantes, né, reveillon, carnaval e tal. Então tive que me adaptar a isso, me adaptei bem, mesmo quando me casei e veio a minha primeira filha, que hoje já tem 18 anos, né? O segundo com 15, três anos depois nasceu o segundo que já tá com 15. Tivemos alguns problemas, né, porque o meu filho, por exemplo, tinha febre quando eu embarcava, ficava muito irritado, né, tinha problema de colégio, brigava muito com os coleguinhas. A gente chegou a levar pra psicólogo quando o cara falou: “Você faz o que na vida?” Falei: “Eu trabalho embarcado”, falou: “Então seu filho não tem problema não, o negócio é ausência”. Então nunca tive muito problema não, mas já vi muita gente com problemas e tentando continuar embarcado e cada vez piorando, né, você vê nitidamente que a pessoa não tá adaptado aquilo, mas por conta da folga, dos... Porque é meio ilusório, né, você ganha mais mas por conta da condição precária que você trabalha, né, isolado, com periculosidade, seu salário às vezes triplica mas no final das contas você tem que botar na ponta do lápis se vale a pena, né? Então pras pessoas que não se adaptam é triste você ver que às vezes por conta da condição econômica elas ficam ali se violentando e tentando continuar embarcado. Mas pra mim nunca foi muito problema, sexta feira eu tô embarcando pra fazer uma auditoria, vou numa plataforma aí junto com um pessoal do Ministério do Trabalho, e esporadicamente a gente tá embarcando. Se dependesse inclusive da minha família eu tava, continuava embarcado até pelo menos a folga, né, que é uma coisa que eles cobram muito. A gente que tá aqui no movimento sindical liberado existe uma ilusão de que a gente não faz nada, mas a vida nossa é meio, a gente sabe onde tá hoje, ou pelo menos até daqui duas horas, que às vezes você pode ter que sair daqui pra Macaé, daqui pro Rio, ter uma reunião aqui, outra lá e você não se programa muito. Quando você tá trabalhando embarcado você sabe que vai ter que embarcar tal dia, vai descer tal dia e só vai voltar 21 dias depois. Então existe um pouco disso tudo aí. Agora, essa jornada minha de trabalho embarcado, né, ela teve bastante eu diria que não só essa questão que eu falei, né, de ter passado natal, reveillon e aniversário já no primeiro ano, mas algumas situações, por exemplo, no primeiro ano logo de embarcado a gente pegou, eu peguei também o acidente de Enchova, o primeiro acidente. Aquela explosão que o pessoal foi pra (balieira ?) e a (balieira ?) caiu no mar, morreram 33 pessoas, tinham companheiros meus que tinham saído da escola técnica comigo. E da plataforma que eu tava era um pouco distante, mas a gente via, né, labareda que o poço lá entrou em (blow out ?), se incendiou, então a gente passou uma madrugada horrível porque você não tinha, comunicação era precária, na época você, pra ligar pra casa você tinha que pedir, marcava um telefone pra três dias depois, era via rádio, um troço horrível, né? E eu acho que isso tudo foi contribuindo pra eu também fazendo a mensuração se valia a pena continuar embarcado ou não, né? A plataforma, a primeira plataforma que eu trabalhei também era horrível, precária, a gente dormia em container...
P/1 – Qual era a plataforma?
R - ... teve uma pessoa que fez a entrevista com vocês ontem, o (Sadraque ?), trabalhei com ele, né, cheguei lá borracha como a gente brinca, né, primeiro embarque. Ele logo chegava assim pra gente que ia chegando garoto ele: “Vem cá, meu filho, vem comigo e tal, né?” Porque era um trabalho na época... Hoje, hoje com a tecnologia o trabalho, o trabalho em si melhorou, as condições de trabalho é que ainda não melhoraram como deveriam, né? É uma luta nossa de exigência sindical brigar por mais segurança, né? Porque apesar do trabalho ser tão braçal, estafante, né, em termos físicos, mas você tem o cansaço psicológico, né, a dedicação que você tem que tá ali em frente, às vezes, de um painel duma sala e você sozinho ali às vezes 12 horas, né? Então são fatores que você tem que tá avaliando, né, nessa, nesse geral, né, e fazendo o balanço se tá valendo a pena continuar ou não. Então muita gente deixa de embarcar por causa disso, né, problema familiar. Mas comigo ainda ainda não chegou nesse limite.
P/1 – Você falou do acidente de Enchova, nas circunstancias, vocês que estavam em outra plataforma, vocês sabiam a gravidade da coisa, era possível de...
R – Não, a gente... Eu me lembro como se fosse hoje, a gente olhando pra Enchova, sabendo que tava tendo, que tinha tido uma explosão no rádio, as informações eram via rádio, não tinha telefone ainda na época. Mas era isso: as informações eram muito desencontradas e a gente começou a saber que tinham mortes, que tinha embarcação recolhendo mortos e, mas não sabia nome de nada, aquelas coisas todas. A gente sabia que tinha conhecido nosso lá, eu sabia porque a gente tinha se falado, né, a gente se conversava entre as plataformas, no próprio walk-talk que a gente trabalha às vezes pegava uma plataforma com a outra, então a gente tava sempre conversando. E aquela angústia ali de você não saber quantos nem quem, né, isso só foi dois dias depois que a Petrobras começou a divulgar, né, a relação das pessoas e quando a gente vai olhando aqueles nomes ali. Se bem que não muda, até hoje é assim quando você pega aí um acidente como foi esse último agora. E a gente que é obrigado por força de ser diligente sindical a participar, às vezes, dos relatórios da análise do acidente, ir no local e ver. Eu tem hora que a gente tá em casa ou tá sozinho, né, começa a passar aquele monte de coisa e você vê determinados acidentes, né, o desespero que essas pessoas vivenciaram e você ter que tá ali numa posição mesmo fria, né, porque você tem que ser frio pra analisar o que que aconteceu, porque a primeira impressão sempre é que quem morreu é o culpado, e você tentar mostrar que, geralmente, é o sistema todo de pressão, de pressa e de cobrança que leva às vezes as pessoas a passar por cima de critérios, de procedimentos, é verdade, mas tem todo um monte de fator ali que às vezes não querem levar em consideração porque é muito mais fácil culpar um morto, né? Então isso tudo tem marca, né, você no seu dia-a-dia e eu não, eu diria que talvez se eu tivesse só trabalhando, fazendo lá o meu trabalho no dia-a-dia eu hoje sinto que o movimento sindical me trouxe muita coisa boa. Eu tenho, reafirmo, né, a gente tem muito problema familiar porque a família cobra muito, né, e se a minha esposa fosse diligente sindical eu ia tá cobrando dela também, né? A gente teve, tem dificuldade de ter mulheres no movimento sindical por causa disso, porque além de esposa é mãe, né? Não que eu não seja pai e marido, né? Mas a sociedade, os dogmas que a gente cria enquanto sociedade acha que pro marido é mais, diria normal, né, em se ausentar mais, viajar e tal e pra mulher isso é muito mais difícil, né, a relação às vezes com o marido é difícil, né, aceitar a mulher, esposa tá fazendo as viagens que a gente tem que fazer. Então, mas eu acredito que no final de tudo tá valendo a pena e é por isso que eu pretendo continuar mais um mandato aí pelo menos.
P/1 – Vitor, então me fala como é que foi essa sua entrada no movimento sindical mais efetiva, né?
R – Olha, eu desde a época da escola técnica eu nunca tive afinidade com política, mas em 1988 a gente começou a tomar pé dessa questão de movimento sindical por conta, a gente teve um indicativo da direção sindical da época, que ainda era RJ, era só um sindicatão aqui, né? A gente tinha o sindicato da Reduc que existe até hoje, que é o Sindicato Caxias, mas o restante até a divisa com o Espírito Santo aqui era o Sindipetro RJ que tinha a base sindical. E com o avanço, o aumento aqui da base de Macaé, né, começou a criar um, porque era negociado muita coisa a nível de (Edise ?), do (Sempes ?), né, e a gente aqui ficava meio de lado, a gente não tinha presença do sindicato. E a gente começou a trabalhar a idéia de criar um sindicato da nossa região pra ter uma visão mais focada no (off shore ?), né, esse trabalho (off shore ?) na época não tinha, tinha uma regulamentação muito, muito de 1972 que é a Lei 5.811, se eu não me engano 71 ou 72 e não tava atualizada, e a gente passava por vários problemas que o sindicato não tava presente. Esse sindicato na época deu um indicativo, a gente se mobilizou e na hora H ele voltou atrás, e aí aqui na Bacia de Campos algumas plataformas que tavam mais mobilizadas resolveram tocar o indicativo a revelia do sindicato. Então nessa época eu ganhei uma suspensão de sete dias pela participação no movimento, 23 companheiros foram demitidos, depois reintegrados, né, numa briga grande. A minha suspensão foi cancelada dez anos depois, mas ali eu tive contato com a Luisa Botelho, que foi uma das primeiras mulheres a militar no movimento sindical, nós dois trabalhávamos juntos lá em Garopa, na época. E a partir dali eu comecei a ter contato com esse grupo que começou a se organizar pra buscar a fundação do Sindipetro Norte Fluminense, né, que é hoje. Meu irmão foi diretor da primeira gestão aqui, de 96 a 99, e de 99 pra frente ele não quis mais participar aí eu passei a ter um contato mais efetivo, até através dele por conta dele ser diretor, passei a ter relação de amizade com várias pessoas que integraram essa direção, né, o Fernando Carvalho que foi coordenador, hoje tá na gestão da companhia, o Zé Maria que hoje é o coordenador, né, várias pessoas que cada um vai tomando os seus destinos, né? E em 99, então em julho a gente, eu passei a integrar a direção, fomos eleitos e... Aí tem até uma, eu digo que talvez eu tenha uma relação não sei explicar essa relação com o Sindipetro Norte Fluminense porque essa sede aqui ela foi inaugurada no dia do meu aniversário, né, com a presença do Lula aqui, eu tava embarcado porque eu não era diretor liberado, e não pude desembarcar pra essa posse, tem uma placa ali embaixo tá lá: 21 de setembro de 99, né? Então eu acho que é uma relação que tem muita coisa a ver, eu tenho ainda tenho muita coisa pra aprender com ela.
P/1 – Você diria que a tua aproximação com o movimento sindical ela tá diretamente relacionada com a preocupação do, com a sua preocupação em relação a condição de segurança nas plataformas, enfim, a condição do trabalho nas plataformas?
R – Sim, mesmo antes de ser dirigente ou de tá envolvido com o sindicato eu já tinha participação nas Cipas, a gente fazia, organizava reuniões setoriais dentro da plataforma pra fazer discussão, né, com relação a segurança não da maneira talvez mais correta, né, porque não se fazia os questionamentos que hoje se fazem, as pessoas não tinham esclarecimento, não tinham base pra discutir as coisas, a gente não conhecia a (ZNR ?), não sabia nem que tinha isso, né? Você se elegia pra Cipa, era eleito pra Cipa pra tipo ficar fiscalizando oficina, um trabalho aqui, outro ali, mas não tinha, efetivamente, formação pra tá desempenhando bem o papel de cipista aí e tá cuidando da saúde e seguranças, mas. Sempre fui muito crítico com relação a essas algumas situações que às vezes colocava: “Tem que fazer” eu falei: “Tem que fazer não, tem que dá condição pra fazer”. E não tem nenhum, aqui não vai nenhum sectarismo, né, mas a Petrobras na época que eu entrei, né, da minha turma de 25 praticantes de produção, que com um ano passava pra auxiliar e que hoje é operador, hoje não é mais operador, é técnico, dos 25, 23 tinham escola técnica, então a gente tinha formação em física, em química, a gente tinha a base pra discutir algumas coisas que a geração anterior não teve porque, por exemplo, quando eu fiz o concurso em 82 era a quinta série do primeiro grau que pedia porque a visão era que era serviço braçal, né? Então não se imaginava você chegar numa plataforma, hoje já tem muito mais tecnologia, mas na época você já tinha tubo compressor, você tinha tubo gerador, você tinha uma planta de glicol pra fazer desidratação de gás. Então eram termos que a grande maioria, a pessoa que não tenha o mínimo de estudo não vai entender o quê que é você pegar uma cadeia, entender uma cadeia carbônica, vê porque você tá tirando metano, propano, butano, né, gasolina, diesel. Então se você não tiver o mínimo de, e eu detesto química, né, (risos) não sei como é que eu passei na escola técnica. Mas por a gente ter esse perfil de segundo grau técnico completo a gente já questionava mais as coisas. Então a gente pegava às vezes o que era capataz, né, que era acima, era o cargo acima do nosso que fazia supervisão direta da gente e o cara mandava e a gente falava: “Não, mas não pode ser assim” e começava a questionar. E como o cara não sabia o que que tava acontecendo ele, era uma relação muito conflituosa porque saía da esfera só do mandar e obedecer no meio entrando questionamento porque a gente sabia o que que tava acontecendo, por exemplo, “Ah porque tá saindo, tá saindo óleo lá se era pra tá saindo água?” “Ué, é porque o óleo é mais leve que a água e tá por cima, então o controle tá errado, tem que baixar aqui a interface” e quando a gente falava isso pra cara o caro não entendia, ele não tinha estudo, né? Então era uma relação muito conflituosa por isso, porque a gente sabia o que em termos de física, de dinâmico, hidrodinâmica tava acontecendo e ele não tinha noção, ele só sabia que era mexer no “Então baixa”, “Mas baixa por quê?” A gente fazia a discussão pra entender porque que tava acontecendo, mas pra ele bastava só baixar, ele não queria saber o que tava acontecendo ali dentro. Então isso passou a ser uma relação muito conflituosa, né, até por causa disso a gente passou a ter uma certa, os trabalhadores começavam a enxergar na gente liderança, mas a gerencia começaram a enxergar a gente como problemas potenciais porque acabava mesmo sem enxergar você acabava organizando as pessoas já dentro do local de trabalho.
P/1 – Você acha que isso está acontecendo, é possível que isso aconteça mais uma vez porque já que o nível de exigência pra entrada na empresa é cada vez mais alto, você acha que é possível que aconteça algo semelhante a isso que você descreveu? Esse abismo na comunicação em função de uma super especialização das pessoas que estão entrando em relação ao nível técnico dos profissionais que já estão?
R – Não, o problema do trabalho (off shore ?) é que ele é muito específico, ele não tem aula regular pra isso. Então, forçosamente, você pode pegar um cara da NASA, botar ele na plataforma, ele vai precisar de um ano no mínimo pra ele pegar o trabalho, a rotina de trabalho. Então facilita muito assim o conhecimento técnico, né, você ter o nível de escolaridade razoável, né? Não precisa ser técnico da NASA, mas pelo nível tecnológico colocado hoje nas plataformas, uma refinaria ou em qualquer lugar que seja, né, hoje pra trabalhar no comércio a pessoa tem que no mínimo conhecer de Word e Excel porque tudo é na planilha, tudo é texto pré-formatado. Então se as pessoas o mínimo que tem que ter hoje já é um patamar acima do que a gente teve, né? Então hoje, e um problema grave que tem na Petrobras foi a gente ter ficado 12 anos sem contratar. Então a gente envelheceu, a minha geração tá aí de 40 a 45 anos, muita gente saiu, aposentou, né, pediu demissão. O quadro nosso de 58 mil na época, caiu pra 35, hoje nós já estamos em 52, estamos voltando ao patamar. Só que a gente tá com um problema que a geração que tá chegando ela não é politizada, não quis saber de política, não sabe o que que foi o embate com um governo neo-liberal, e se deixa levar por discurso muito reacionário, vamos resolver na pancada, tem que ir pra greve, a greve é tudo, tudo se resolve na greve. E tá cabendo a gente dá uma de paizão com essas gerações, chegar para ele: “Calma, né, a gente já vivenciou isso, a gente já foi pra porrada, levou mais porrada do que deu, né?” A gente fez uma greve de 35 dias em que a gente barrou a privatização da Petrobras, mas perdemos muito em termos econômicos, em termos de carreira, um monte de gente ficou atropelada aí no meio do caminho. E se a gente puder evitar isso pra vocês nós vamos evitar, vamos tentar conquistar preservando vocês. E às vezes aparece sempre aquele cara que, eu costumo brincar que a gente vem com a bandeja cheia das aspirações das pessoas, igual a um garçom, né? E tem uma meia dúzia que fica esticando o pé pra ver se derruba a gente, porque aí ele vai querer catar os cacos, que é muito fácil você no meio daquele de monte de caco pegar um copo pela metade e falar: “Pelo menos, eu tô te dando um copo pela metade”, aí a gente cabe falar: “Eu queria te dar a bandeja cheia”. Então você vai escolhe agora o que que você quer.
P/1 – Desde a sua entrada até hoje qual foi o momento que mais te marcou?
R – Olha, o que mais me marca ainda é ter que ir em alguns locais pra fazer a investigação de acidentes, e o que mais dói é ver que sempre poderia ser evitado. Os dois últimos acidentes são coisas que a gente, o processo produtivo ele tá todo equivocado, a gente fala isso pra empresa, a gente costuma falar que a gente antes de ser dirigente sindical a gente é funcionário dessa empresa, a gente fala o amor que a gente tem por ela, né, e talvez seja por isso que a gente tá no sindicato pra buscar, mostrar pra algumas pessoas que tem o poder, o mando, ela ouve um pouquinho a gente só, o trabalhar tem muito a contribuir e, infelizmente, pra algumas pessoas elas acham que a gente só quer atrapalhar, destruir. Então é triste você ir, ver lá o local onde trabalhador morreu por uma situação que deveria, poderia, mas o que é pior, tá arriscado a se repetir porque por mais que você tente mostrar pra companhia os desvios, a falta de critério, de compromisso mesmo de uma empresa como essa de fazer valer o discurso, né, e a gente brinca com a coisa grave que acontece na Petrobras é que ela tem um discurso muito bonito, mas a prática dela é horrorosa. É nessa distância entre o discurso e a prática é que trabalhadores estão morrendo na empresa. E é duro a gente ver, por exemplo, na P-36 a exposição negativa que essa empresa que se isso tivesse acontecido um pouco antes a gente não segurava a privatização dela, porque ali ficaria caracterizado a incompetência, né, do brasileiro gerenciar uma empresa como essa, e que aí vamos privatizar que aí melhora porque, né, o gestor privado é mais criterioso, não sofre ingerência de mercado, não sofre ingerência de política e foi muito duro, né? Então eu acho que são esses momentos que marcam, né? Eu fui obrigado a ir, a tá lá na, no único corpo que foi resgatado da P-36 e ver a situação que eu não quis entrar, eu vi só a hora que o rabecão levou pra dentro da... E os familiares de 11, dos 11 ter que entrar os 11 pra tentar reconhecer aquilo que conseguiu trazer. Então a gente sabe hoje que talvez tenha sido melhor ela ter afundado mesmo porque alguns relatos, as pessoas não podem confirmar porque são pessoas que trabalham até hoje para a Petrobras, precisam da Petrobras porque o trabalho delas é específico pra Petrobras, se ela não trabalhar pra Petrobras ela não vai trabalhar pra Casas Bahia, não vai trabalhar pra supermercado, ela só pode trabalhar pra Petrobras. Mas as pessoas falaram que parecia uma coisa de outro mundo, foi pedaço de gente pra tudo quanto é lado e, de repente, foi melhor mesmo afundar. Então isso é que dói ver um monumento daquele, a maior plataforma do mundo, que era pra ser o símbolo, né, da capacidade do brasileiro, né, que vive aí sendo criticado, chacotado, né, como país de comedor de banana conseguir fazer aquilo e de uma hora pra outra você vê aquilo ir embora porque faltou critério, faltou compromisso, né, por causa de uma válvula, a porcaria de uma válvula que custa um bilhonésimo do valor daquele monstro, levou ela pra baixo por causa disso e levou 11 pessoas ali dentro, né? Então isso é às vezes um momento que mais faz a gente repensar se vale a pena continuar porque a grande maioria não precisa passar por isso porque faz a rotina dele: vem, embarca, vai pra casa, aí quando volta questiona o diretor: “Por que vocês não fizerem isso?” “Por que tu não conseguiu ainda isso?” “Pô, há dois anos e não conseguiu aquilo!” Mas se talvez tivesse que passar por um décimo que a gente enquanto diretor passa, talvez tivesse uma visão um pouco diferenciada disso. Mas, de qualquer maneira, é grandioso a gente, eu como li muito cedo aquele livro Poliana, que a gente tem sempre que tá procurando alguma coisa positiva, acho que isso também serve pra gente ir aprendendo passar a ser mais, não humano, né, que humano a gente é, mas humanista, né, de entender todas essas, esses problemas que o ser humano acaba vivenciado no seu dia-a-dia. Aí eu lembrei aqui de uma passagem, uma vez a gente embarcado, a gente embarcado tem um momento de filosofar, né, principalmente na madrugada lá pra três, duas, três horas da manhã que você precisa conversar porque o sono vem, né, é impossível, né? E aí a gente tava conversando um colega ele tinha uma família de recursos e tal, e ele foi um dos primeiros a ter aquele MMX, aquele computadorzinho com aquele joguinho chato de tênis que vai plu plu plu, ele ficava com aquilo a noite toda jogando, a gente falava: “Rapaz, como você agüenta isso?” “Não, isso aqui é uma maravilha”, e a gente falava: “Pô, bixo, como você acha que isso é uma maravilha cara, se a gente não consegue resolver problema que é básico: tem um monte de criança na Etiópia morrendo de fome, cara, você acha que a gente é desenvolvido?” Então lá dentro a gente tem às vezes esses momentos de refletir, né, que que a gente tá fazendo. Hoje aí essa questão do mundo, né, do aquecimento global. Eu acho que são momentos que a gente tem que tá refletindo, né, o que a gente, principalmente uma empresa como a nossa, poluidora, geradora de poluição, né, de uma matriz energética complicada porque movimenta o mundo mas tá contribuindo pra deteriora-lo, né, é preciso ter, buscar esse equilíbrio ae.
P/1 – Vou voltar um pouquinho, você falou da P-36, mudou alguma coisa no sentimento das pessoas que trabalham na Petrobras, pelo menos do que você tem contato, depois do acidente, sobretudo depois dessa exposição tão crítica que a Petrobras sofreu?
R – Sim. Hoje os trabalhadores principalmente, antes a gente pra conseguir uma denúncia de um problema de risco grave eminente, né, que é o que caracteriza uma auditoria, uma denúncia, uma ida da DRT ao local de trabalho era dificílimo, os trabalhadores tinham medo, não que não tenham, mas hoje eles têm a convicção de que mesmo que seja perseguido vale a pena porque ele tá buscando melhorar o seu local de trabalho. Então nós vamos na P-40, já fomos em várias plataformas em que os trabalhadores se reúnem, listam os problemas e encaminham pro sindicato e assinam. Coisa que antes pra você receber uma denúncia o cara ligava da rua, ele desembarcava, procurava um orelhão na rua, botava um pano em cima do telefone, né, pra falar, pra mudar a voz porque ele vivia a neurose de que poderia descobrir que era ele e ele ser prejudicado. Então hoje, principalmente depois dos acidentes, vamos dizer assim, né, a gente teve em Araucária, teve na Bahia de Guanabara, depois veio a P-36, veio a P-34, né, que quase inclinou e afundou, os trabalhadores passaram a ter esse nível de consciência. Então hoje é fácil, eles se reúnem, discutem, listam e enviam pra gente e embaixo vem a assinatura dos trabalhadores. Então a gente foi numa, que a gente costuma brincar, novinha em folha, né, que era a P-52 e com seis meses já tinha vários problemas e os trabalhadores relataram, mandaram pra gente e a gente foi lá. E a mesma agora nós vamos na P-40. E a gente tem um calendário montado aí e a cobrança é pra ir logo: “Pô, porque vocês não vieram aqui a gente já mandou as listagens pra você”, falo: “Não, rapaz, porque só tem dois auditores e aí eles, né?” Todo esse desmonte do Estado, né, setores que seriam fundamentais pra garantir a saúde e segurança do trabalhador foram desmontados e aí pra remontar toda essa rede de fiscalização vai demorar um pouquinho, mas a gente tá aí junto com a DRT, o Ministério do Trabalho, fazendo essa tentativa de quando chega a denúncia ir lá confirmar e fazer valer a visão do trabalhador pra que ela seja reparada, e que a condição de segurança, saúde, melhore e que ele possa trabalhar com mais tranqüilidade.
P/1 – A Bacia de Campos ela atrai trabalhadores do Brasil todo, né, e eventualmente trabalhadores de fora do Brasil inclusive. Isso traz, na sua visão, alguma dificuldade, ou algum aspecto de diferenciação pra essa articulação do sindicato com os trabalhadores?
R – Não, eu diria que como essa sempre foi uma característica daqui, né, a Bacia de Campos quando ela começou ela teve que trazer muita gente de fora, primeiro que não tinha mão-de-obra, é como eu falo pra você, já falei, né, você não tem uma faculdade, não tem um CEFET só pra plataforma. Então ela teve que trazer pessoas de refinaria, pessoas de terminais, né, de outras regiões como, né, na Bahia, no Recôncavo de plataformas, as plataformas na água curta, sem experiência de semi-submersivo, né, das sondas e o pessoal foi tendo que se adaptar e aprender, e quem foi chegando foi aprendendo. Então a gente aprendeu com baiano, com sergipano, com amazonense, com paraense, com gaúcho e nunca foi problema. E eu acho que o movimento sindical também aprendeu a lidar com toda essa diversidade, né, de brasileiros e até de estrangeiros. Eu lembro, a gente vai falando e vai lembrando, eu lembro que nessa plataforma Garoupa, na pré-operação, né, que você monta, faz os testes pra depois entregar principalmente equipamentos que são importados. E aí vem a assistência técnica estrangeira e tinham dois alemães que eles estavam fazendo a pré-operação de um compressor de gás, e a gente entrava na sala eles estavam conversando, daqui a pouco eles começavam a rir e você quando é desconfiado por natureza eu lembro que a gente começava a falar um pro outro: “Esses caras tão rindo da gente”, aí o cara: “Nada, Vitor, que isso” “Tão sim, rapaz”. Aí quando daqui a pouco eles tavam, paravam de rir, a gente: “Vamos fazer uma coisa, vamos começar a rir pra eles também que eles vão ficar na dúvida se tá rindo deles ou pra eles, né?” Aí eles paravam, dava 10, 15 minutos a gente começava a olhar pra ele e começava a rir, né, do nada. Mas o riso, né, o primeiro forçado mas depois contagiava, né, aí eles começavam aí, no segundo, terceiro dia eles pararam de rir pra gente, aí a gente falou: “Então eles não tavam rindo pra gente, eles tavam rindo da gente, né?” Entendeu? Então são coisas que com estrangeiro é um pouco complicado porque...
P/1 – Vitor, desculpa, precisa trocar a fita...
(pausa)
P/1 – Vitor, como você vê a Bacia de Campos no futuro?
R – Olha, a gente caminha cada vez mais pra um avanço tecnológico, pra uma exigência tecnológica porque isso é nível mundial. Cada vez mais a informática tá tomando conta da, pelo menos do processamento, né? Eu não acredito que você consiga ter, como em algumas plataformas lá do Ceará e o Rio Grande do Norte, plataformas desabitadas pelo volume de produção nas plataformas daqui você não consegue tirar o trabalho, pelo menos, de supervisão das plataformas, vai diminuir, não tenho dúvida disso, vai diminuir. Mas o grande problema da indústria do petróleo é que ela economiza palito em festa de salgadinho, não tem jeito, ela se tiver que comprar um equipamento de dois milhões de dólares ela compra, ela bota na plataforma mas ela economiza na válvula, economiza na tubulação, aí ela vai querer economizar em outra coisa. Então hoje você tem unidades aí com (Tele C ?) de última geração que supervisiona a planta toda, manda informação pra terra, tem um CCO aqui em terra que as pessoas ficam: “Ai, esse CCO vai eliminar a gente daqui”, eu falo: “Pára de cheirar cola, rapaz, vocês parecem que... Não tem jeito, não tem como”.
P/1 – O que é CCO?
R – Centro de Controle Operacional, né? Então não tem como, é impossível porque ao mesmo tempo que ela bota um sistema desse de comunicação de envio de dados, ela economiza na válvula, na tubulação, precisa da gente aqui, né? Não, não vai, quer dizer, vai diminuir como já diminuiu, né, a gente viveu o processo produtivo em que era tudo particionado, era estanque: um cuidava da cadeira, outro cuidava da luz, o outro cuidava da câmera, o outro cuidava, era tudo particionado. Depois o próprio processo vai mostrando que você pode juntar uma coisa com a outra e tal e isso é inexorável, não tem jeito. Agora, o papel nosso vai continuar sendo de buscar saúde e segurança, de tá denunciando onde isso não tiver sendo cumprindo, onde isso não tiver sendo observado, né? Mas... E cada vez mais também o próprio, a vocação das cidades, das regiões ela começa a ver um pensamento acadêmico mais antecipado, vamos dizer. Hoje a gente já tem aqui um monte de universidades e faculdades oferecendo engenharia de produção, engenharia de produção de petróleo, né, automação industrial, então, só que demorou, né? Mas isso acredito que vai ser ainda muito explorado aqui, essas descobertas do pré-sal, né, isso dá uma sobrevida aqui pra mais 30, 50 anos. Então eu não vejo como, não vejo a médio, nem a longo prazo isso aqui se exaurir de uma hora pra outra. E com certeza vai continuar absorvendo muita mão-de-obra, mas mão-de-obra cada vez mais qualificada, específica, especializada até porque a abertura do monopólio, a quebra do monopólio e esse modelo de licitação de blocos a gente já tem embarcações aí que a gente conseguiu aí num outro, que eu participo de um Conselho Nacional de Imigração, indicado pela Central Única dos Trabalhadores que eu sou diretor, e a gente tirou algumas diretrizes, né, de operação de embarcação aqui que antes podia ser toda de estrangeiro, e hoje a gente já tem exigência de pelo menos 25%, passado um determinado tempo vai pra 50, e se passar mais tempo vai pra 75 em todos os cargos, né? Antes só sobrava pra brasileiro aqui arrumar quarto e limpar banheiro, né, e fazer o trabalho de boca de sonda que é igual linha de montagem lá do Charles Chaplin, né, quebrou, morreu, bota outro, tem um monte na fila: vai sobe outro. Então esse mercado, né, vai tá aquecido por muito tempo e vai tá precisando de trabalhadores. E eu costumo falar aqui nas setoriais que a gente faz nos embarques: “Vocês garotos”, eu brinco muito que às vezes a gente pega lá um 19, 20 anos já bem carregado lá no discurso, né, muito inflamado, falei: “Quantos anos você tem, garoto?” “Ah, eu tenho 20!” “Pois é, eu tenho 25 de Petrobras, tudo que você tá falando eu já fiz, mas vou te adiantar aqui: muita coisa você não vai conseguir. Então tenha paciência, né, porque eu costumo falar que essa empresa ela é uma empresa de oportunidades mas não pra oportunistas, essa é outra coisa que você tem que aprender. Não vai ser com discurso inflamado que você vai subir nessa companhia. Isso acontece pra alguns, mas são, não é a regra, posso te garantir isso, né?” Eu costumo falar isso pra eles. E aí eu gosto de falar também o seguinte: “Pessoas são como carroças vazias, quanto mais barulho faz é porque não tá carregando nada. Então você tem que tá preocupada é de”, e aí humildemente eu acho que eu tô marcando a minha passagem por essa companhia seja fazendo no trabalho, né, no meu dia-a-dia de trabalho, seja na minha função aqui de diligente sindical e é por isso que eu falo pra eles: “Não adianta você falar muito alto, né, porque a carroça vazia você pode andar com ela léguas, léguas e léguas, mas se você olhar pra trás ela não deixou rastro. E aí não vale a pena. Então melhor é você falar baixo, mas fazer a discussão com as pessoas, tentar passar pra elas, né, um pouco daquilo que você aprendeu e aprender com elas, né, que é sempre o melhor”.
P/1 – Pra gente concluir o que você achou de participar do projeto Memória Petrobras?
R – Olha, desde o primeiro momento quando eu fui convidado e fiz a discussão com a direção, a própria direção entendeu que era um instrumento poderoso, né, da gente contar uma história que não tem muito espaço de ser contada, né, geralmente as instituições querem contar uma história de sucesso, né, de pujança, pioneirismo e que, geralmente, esquece, né, um pouco a base, né? É fato que geralmente quem tem que contar é quem tá no topo da pirâmide, afinal de contas tá lá pra, representa institucionalmente a Petrobras. Mas quando se abriu a oportunidade dos trabalhadores também contarem um pouco da sua história, que afinal de contas quando eu tô contando a minha história eu tô contando a história da empresa também, né? A gente entendeu que era uma ferramenta maravilhosa e só tem a aplaudir aqui porque eu não tenho dúvida que eu me emociono contando a minha história, né, um pedacinho, que eu sou um pedacinho, um tijolinho dessa imensa construção que é essa empresa, né? Uma empresa que não é minha, uma empresa que é do país por mais que seja atacada, por mais que já se fala em criar uma nova Petrobras aí só pro pré-sal, né? Mas essa Petrobras que eu entreguei aí 25 anos da minha vida pra ela e vou entregar mais, né, espero, essa ninguém vai tirar nem do ideário do povo brasileiro, né, e nem da história, isso aqui tá consolidado, tem alicerce, né, o alicerce dela é profundo, né? Pessoas que tem referência como Monteiro Lobato, né, um cara que sempre acreditou que isso aconteceria, né, então antes dela se realizar já foi um sonho dele. Então o que falta talvez é a gente não ter a empáfia do americano, mas reconhecer e lembrar mais de quem constrói as coisas, né? Porque o problema que eu acho que ainda é do brasileiro é não ter memória, e aí nada melhor do que se fazer a memória, e o que é melhor, poder contar um pouco pra que essa memória fique viva e seja vivenciada no futuro, daqui a dez, 15, 20 anos pessoas vão ouvir o que eu tô falando, outras pessoas falaram, e vão poder pelo menos discutir: “Pô, será que tudo que esse cara tá falando é verdade mesmo?” Mas aí vai ter que buscar saber se foi verdade, só nessa pequena busca se não for a minha história vai ser a de outro que ela vai aprender e vai, e aí a história da Petrobras vai tá contada.
P/1 – Muitíssimo obrigada.
R – Obrigado a vocês.
FIM DA ENTREVISTA
Nomes e palavras com grafia em dúvida:
(balieira ?), pág. 04
(blow out ?), pág. 04
(Sadraque ?), pág. 04
(Edise ?), pág. 06
(Sempes ?), pág. 06
(off shore ?), pág. 06, 09
(ZNR ?), pág. 08
(Tele C ?), pág. 15
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