Entrevista de Cristiane de Souza Gomes Aguiar
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 22 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PREHV_0009
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:05
P1 - Para começar, eu queria que você começasse apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Meu nome completo é Cristiane de Souza Gomes Aguiar, eu nasci em 27 de abril de 1987, aqui em São Paulo mesmo.
P1 - Pode olhar para mim.
R - Bom, é isso que eu pergunto pra onde é que eu olho? para você?
00:00:43
P1 - Tá bom, e me conta qual é o nome dos seus pais.
R - Meus pais chamam Eliane e Carlos.
00:00:50
P1 - E como é que você os descreveria?
R - Olha, mudou muito ao longo do tempo, a forma que eu os descreveria. Hoje eu brinco que eles são meus “adultos kids”, porque meus pais já são aposentados, eles foram professores da rede pública a vida toda. E eles já estão naquela fase em que eu cuido deles. Como eu não tenho filhos, o pessoal fala: “Ah, mas você não quer ter filhos?” Eu falo: “Eu tenho adultos kids, eu não preciso de crianças”; porque hoje eles estão naquela fase em que eles fazem tudo do jeito que eles querem, mas eu preciso que eles me deem um pouco de satisfação da vida deles, para eu saber onde eles estão. Eles foram pessoas que sempre batalharam muito por tudo, e ensinaram os filhos a lutar muito por tudo, meu pai principalmente, minha mãe também, minha mãe em determinado momento da vida, deixou de ter só a função de mãe para trabalhar fora também. Então nós sempre os vimos como pessoas que não sentam e ficam esperando a vida acontecer, que vão atrás daquilo que precisam, e tanto eu como minha irmã, essa é a lição que levamos a vida toda. E quando foi para eles se aposentarem, eles moraram fora de São Paulo, moraram no litoral por um tempo, porque eu falei:...
Continuar leituraEntrevista de Cristiane de Souza Gomes Aguiar
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 22 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PREHV_0009
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:05
P1 - Para começar, eu queria que você começasse apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Meu nome completo é Cristiane de Souza Gomes Aguiar, eu nasci em 27 de abril de 1987, aqui em São Paulo mesmo.
P1 - Pode olhar para mim.
R - Bom, é isso que eu pergunto pra onde é que eu olho? para você?
00:00:43
P1 - Tá bom, e me conta qual é o nome dos seus pais.
R - Meus pais chamam Eliane e Carlos.
00:00:50
P1 - E como é que você os descreveria?
R - Olha, mudou muito ao longo do tempo, a forma que eu os descreveria. Hoje eu brinco que eles são meus “adultos kids”, porque meus pais já são aposentados, eles foram professores da rede pública a vida toda. E eles já estão naquela fase em que eu cuido deles. Como eu não tenho filhos, o pessoal fala: “Ah, mas você não quer ter filhos?” Eu falo: “Eu tenho adultos kids, eu não preciso de crianças”; porque hoje eles estão naquela fase em que eles fazem tudo do jeito que eles querem, mas eu preciso que eles me deem um pouco de satisfação da vida deles, para eu saber onde eles estão. Eles foram pessoas que sempre batalharam muito por tudo, e ensinaram os filhos a lutar muito por tudo, meu pai principalmente, minha mãe também, minha mãe em determinado momento da vida, deixou de ter só a função de mãe para trabalhar fora também. Então nós sempre os vimos como pessoas que não sentam e ficam esperando a vida acontecer, que vão atrás daquilo que precisam, e tanto eu como minha irmã, essa é a lição que levamos a vida toda. E quando foi para eles se aposentarem, eles moraram fora de São Paulo, moraram no litoral por um tempo, porque eu falei: “Vocês não precisam mais estar em São Paulo, vocês já lutaram a vida toda, vão curtir um pouco”, moraram por muito tempo no litoral, e eu sempre brincava com eles, eu falava: “Aproveitem, porque uma hora vocês vão ter que voltar para eu cuidar de vocês”, porque é longe, e chegou essa hora. Agora eles voltaram a morar em São Paulo para que eu pudesse estar um pouco mais próximo, e acompanhá-los nas consultas médicas, às vezes, alguma outra questão, em que um filho tem que estar por perto, a questão financeira que acompanhamos, é por isso que eu digo que a descrição deles foi mudando e hoje eles são as minhas crianças, mas eles sempre foram os mentores da vida da gente. E pai e mãe é isso... Por esses dias eu estava refletindo muito sobre isso, porque faleceu o meu último tio por parte de pai, e minha mãe me ligou chorando e tal, apesar de ser cunhado dela, pode ser cunhada dela, porque é muito engraçado essas mudanças de fases da vida, porque eles chegaram nessa fase em que a geração deles está indo embora, e a minha geração começa a ocupar a geração deles. Essa transição de vida é muito complexa, eu diria, porque nós já começamos a partir para um outro momento da vida. E eu vejo minha afilhada, que tem 20 e poucos anos, ocupando a geração em que eu estava e tendo os projetos que eu tinha. É engraçado. E aí eu vejo esse impacto neles, de ser a geração que agora começa a partir aos pouquinhos, e nós temos que aprender a lidar com essa partida. Mas é isso, a descrição deles mudou um pouquinho agora. Agora eles são essa geração que eu cuido, que eu estou junto com eles, e que daqui a pouco é a geração que se foi. É isso.
00:04:03
P1 - E você sabe como eles se conheceram?
R - Sei, sei por que essa história roda na família, meus pais moravam próximos um do outro no bairro, minha mãe morava na casa onde eles moram hoje, que é a casa da minha avó materna, e meu pai morava na outra rua. Meu pai teve um primeiro casamento, e minhas avós se conheciam, mas meu pai e minha mãe não se conheciam. Até aí, beleza. Meu pai se casou, separou e um dia, minha avó, por parte de mãe, soube que meu pai estava separado, foi na minha mãe e falou: “Eliana, o Carlão separou”. Minha mãe falou: “Não sei quem é, não sei quem é esta pessoa”, e seguiu a vida. Meu pai viu a minha mãe e se apaixonou por ela, sem conhecê-la e começou a seguir a minha mãe; minha mãe pensou: “É um louco, por que essa pessoa está me seguindo?” Porque meu pai a seguiu (a ponto) de entrar no mesmo ônibus que ela e tal. Minha mãe um dia viu que ele a estava seguindo, e que ele estava no mesmo ônibus, desceu do ônibus morrendo de medo porque falou: "Essa pessoa é louca, me seguindo... E seguiu para o trabalho, nisso meu pai fez o quê? Foi na casa dos meus avós e falou: “Quero me casar com a sua filha”, e meu avô falou: “Tá bom, com qual delas?” Ele respondeu: “Não sei”. Tiveram que esperar minha mãe chegar para ele falar que era com ela, que ele queria se casar. Eu falo: “Mãe, você é louca, porque você não conhecia o pai, e mesmo assim você quis se casar com ele? Porque ele estava te seguindo, você nem sabia quem ele era, e ainda assim você aceitou”. Ela aceitou, e assim eles se casaram. E gente, eu falo: “Mãe, você podia ser um psicopata, ó, te seguindo…” E mesmo assim ela quis, se casou, e isso já faz muito tempo, mais de 40 anos, minha irmã fez 40 agora, faz mais de 40 anos.
00:06:02
P1 - E os 2 eram professores?
R - Na época não, minha mãe era bancária, quando ela engravidou, ela saiu do serviço porque meu pai, ele era vendedor e viajava o Brasil todo e ela foi morar com ele em Belo Horizonte. Nesse meio tempo, acho que ela já tinha se formado na Faculdade de Letras, mas nunca tinha lecionado. Meu pai começou a estudar também, meu pai era professor de Matemática, de Exatas e Biológicas. Quando a gente era pequeno, ele se formou, e começou a dar aula, e minha mãe, num determinado momento, para poder ajudar a sustentar a casa, ela decidiu dar aulas também, e eles foram professores pelo restante da vida até a aposentadoria, escola pública, que não é fácil e eu, pequenininha, acompanhava eles também. Eu e minha irmã crescemos nesse ambiente escolar, que já não era tão longe da nossa realidade, porque minha avó por parte de pai, ela tinha uma escolinha de educação infantil, então nós sempre vivemos nesse meio de escola, de aula, e tudo isso sempre fez muito parte da nossa vida. A minha Avó se formou no magistério, segundo meus pais, meu pai, meus tios, contam que foi porque um dos meus tios precisava terminar os estudos e não queria, e minha avó não tinha terminado os estudos e se matriculou na escola para fazer com que meu tio terminasse o ensino médio, nisso ela terminou, fez o magistério e teve uma escola, das coisas que vão acontecendo na vida.
00:07:34
P1 - Em que bairro era esse, em que eles acabaram se conhecendo?
R - São Miguel Paulista, na Zona Leste, que foi onde moramos praticamente a vida toda e onde meus pais moram ainda hoje.
00:07:45
P1 - E me conta, você só tem uma irmã?
R - Eu tenho uma irmã de pai e mãe, e um casal que é só filho do meu pai, do primeiro casamento dele. Todos mais velhos do que eu.
00:07:55
P1 - E como é que era a relação, o nome, e qual era a relação na infância com todos?
R - A minha irmã por parte de pai e mãe, a Andrea, ela cresceu comigo, vivemos a vida toda juntas; os meus outros dois irmãos são a Clarissa e o Fábio, na infância eu não tive tanto contato com eles, por conta da separação do meu pai com a mãe deles, eles acabaram vivendo mais com a família da mãe deles. Na adolescência, teve um pouquinho mais de contato, quando eu fiquei mais velha, que eu me casei, as minhas duas irmãs foram minhas madrinhas de casamento, o meu irmão foi ao meu casamento também, e depois a vida vai acontecendo, a gente vai se distanciando um pouco, e hoje nós temos uma relação, não diria próxima, mas temos um pouquinho mais de relacionamento; passei um tempo sem falar com a minha irmã mais velha por coisas que aconteceram na família, coisas que vão acontecendo e a gente vai e se afasta, se aproxima... E mais recentemente eu voltei a encontrar com ela no final do ano, e agora ela tem uma filhinha, a Malu, que é a coisa mais rica dessa vida, gente. Ela é linda, minha sobrinha é a coisa mais linda do mundo. Espertinha, bonitinha, inteligente, simpática com todo mundo. Eu fiquei encantada, porque até então eu não a conhecia, demorei para conhecer minha sobrinha, e fiquei encantada quando a minha irmã me falou que ela me chamou de Tia “Quis” de óculos, e ficou falando que eu tinha um olho igual ao dela; porque o olho verde, não é todo mundo da família que tem, a família tem descendência italiana, mas não foi todo mundo que puxou essa característica, tanto que essa minha irmã mais velha não tem, e a minha sobrinha tem. E ela ficou falando: "Aí, tia “Quis”, você tem o olho igual ao meu”. Ah, pra quê? Eu falei para minha irmã, eu falei: "Vou ter que roubar sua filha”, falei: "Eu vou ter que roubar para mim”. Eu falei: "Como é que eu faço agora para não ter todos os dias ela comigo?”. Hoje nós temos uma relação já um pouco mais próxima, que é a vida. Eu digo: "É a vida…” a gente aproxima, afasta, reencontra, desencontra... faz parte, né?
00:10:07
P1 - E com a Déia na infância, como é que era?
R - Era bem a relação de irmão mesmo, de amor e ódio? a gente se ama, mas a gente se odeia, mas a gente se ama! e daqui a pouco a gente briga, e daqui a pouco a gente já é amiga de novo, e aí a gente sai no tapa.... Então, foi bem uma relação de irmã, hoje ela mora na Zona Norte, mas a gente continua tendo essa relação. Ainda falo bastante com ela, me encontrar com ela não é tão fácil, por conta do horário, por mais que eu trabalhe em casa, eu trabalho bastante. Ela é professora, seguiu a linha da família de dar aula e ela trabalha em 2 escolas, e a rotina dela acaba sendo mais complexa do que a minha, ir de uma escola para outra, e ela tem horário para cumprir. Eu trabalho em casa, trabalho bastante, mas eu não tenho essa questão de horário, eu cumpro o meu próprio horário, e consigo ter maleabilidade para fazer as coisas, ela não. E no final de semana, quando para ela é mais fácil, eu acabo tendo mais compromissos, então temos alguns desencontros, mas nós ainda conseguimos nos falar. Quando ela precisa de alguma coisa, ela liga, quando eu preciso de alguma coisa, eu falo com ela, a relação com ela é mais de irmã mesmo, porque irmão é amor e ódio, né? A gente ama, mas a gente odeia, mas a gente não se larga.
00:11:24
P1 - E me conta se você chegou a conhecer os seus avós?
R - Conheci, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe, por parte de pai, a convivência não foi tão longa porque eles faleceram quando eu ainda era criança, acho que eu estava na 1º ou 2º série, eu tinha uns 8 anos quando minha avó faleceu e na sequência meu avô; e o meu avô por parte de mãe, já faleceu quando eu estava na adolescência, então consegui conviver um pouquinho mais com ele e com a minha avó por parte de mãe, a paixão da minha vida, eu cuidei dela até o final da vida dela. Assim, eu saía de casa todo final de semana, mesmo já casada e passava todo final de semana com a minha avó, sexta feira à noite ela ficava me esperando no portão para eu ficar com ela e fiquei com ela até o final, assim, tipo no último ano de vida dela eu lembro que minha avó faleceu porque ela teve um AVC isquêmico, e eu me lembro de que na época, uns meses depois, eu recebi uma proposta de emprego maravilhosa, sabe aquela que você espera a vida toda? E eu fiquei (em dúvida) entre aceitar ou ficar com a minha avó... E aí, a pessoa queria me contratar, eu falei: “Eu não vou aceitar, porque eu preciso passar os últimos meses da minha avó com ela, e eu sei que se eu aceitar eu não vou poder fazer isso”, e eu não me arrependo, em nenhum instante da minha vida, pela escolha, porque 3 meses depois ela faleceu. E eu queria estar perto dela, e é muito engraçado, porque eu passava muito tempo com a minha avó, nós passávamos o Natal, só eu e ela, porque todo mundo ia para festas, e minha avó não gostava e eu também nunca fui muito fã, então eu ia para casa dela, fazia ali uma ceia só para nós. Os últimos anos dela foram assim, a gente passava o Natal, no outro dia íamos passear e tal, e eu lembro que ela sempre falava: "Só vou sair da minha casa quando for para eu morrer”. E eu falava: "Tá bom, vó”. E aí, por conta do AVC, ela perdeu a memória e acabou tendo outros problemas de saúde. A gente tinha cuidadoras, e ela odiava as cuidadoras, ela brigava com as cuidadoras todos os dias, e mandava elas irem embora... Até que no último dia, ela não queria... Eu estava no trabalho e liguei para ela e falei: "Vó, se você não ficar com a cuidadora, a gente vai ter que te colocar numa casa de cuidados”. Ela falou: "Não tem problema”. Isso foi numa quarta, e meus tios já tinham visto algum lugar, colocaram ela lá, e eu ia visitar ela no sábado e no sábado, minha mãe foi, e o pessoal da casa falou: "Deixa os filhos virem primeiro, depois vem os netos, porque ela precisa se adaptar,” e eu liguei para ela, falei: “Vó, não vou poder ir hoje, mas semana que vem eu vou”. Ela falou: "não tem problema, filha, só cuida dos meus cãezinhos. Eu falei: "Tá bom”. Na segunda-feira ela passou mal, teve que ser internada, na terça-feira, ela entrou em cuidados paliativos porque entrou em coma e não tinha mais retorno. E eu falo para minha mãe que ela sabia... Porque ela não aceitaria de bom grado sair da casa dela se ela não soubesse, e ela começou a se despedir das pessoas nesse processo, ela se despediu das cunhadas, a última vez que minha mãe ficou com ela, na casa, no final de semana, ela agradeceu minha mãe por ter cuidado dela todo esse tempo. Então eu falo: "Mãe, ela sabia o que estava para vir, se despediu de todo mundo e saiu de casa porque ela sabia que ali era o fim”. E como ela disse que só sairia quando isso acontecesse, ela só saiu quando foi para acontecer, na terça, ela entrou em cuidados paliativos. Aí foi o tempo de todo mundo ir se despedir. No domingo, ela faleceu, ela ficou 1 semana fora da casa dela, e eu demorei muito tempo para conseguir chorar a morte da minha avó, levei 6 meses, porque a minha avó era minha rotina, de ela me ligar, de ela, falar comigo, de eu ligar para ela, eu ia todo final de semana ficar com ela. Eu fazia feira para ela, deixava tudo arrumado, tudo pronto, quando ela tinha qualquer coisa, ela ligava para mim, ela não ligava para os filhos. E aí eu fui desfazer as coisas da casa dela, e foi uma coisa assim muito difícil para mim, mas eu que fui tirar tudo, eu levei um bom tempo nesse processo. E eu lembro de que 6 meses depois eu estava em casa assistindo aquele filme da Disney “Viva, a Vida é uma Festa,” que fala sobre essa questão da partida, e tem a avózinha, e quando acabou o filme, eu comecei a chorar descontroladamente, meu marido até ficou preocupado, porque eu chorava de soluçar, e naquele momento eu percebi que: "Ok, aqui eu estou chorando a morte da minha avó”. E aqui em casa, nós somos umbandistas, então temos uma questão de entidades. Hoje que a gente estuda muito a religião, fazemos um aprofundamento. Um episódio que aconteceu quando ela teve o AVC, eu digo que foram eles me avisando, porque no dia em que ela teve o AVC, eu me lembro que eu cheguei no pronto socorro, minha mãe estava com ela, a gente se sentou e minha mãe foi me contar o que o médico tinha dito, que era um AVC; e naquele momento, isso foi em abril de 2017, e naquele momento eu escutei uma voz na minha cabeça falando: "Sua avó não vai sobreviver até o ano que vem”. Então, por isso eu quis ficar com ela aqueles meses, porque eu sabia que seriam os últimos meses que eu teria com a minha avó, porque um deles veio me avisar isso; e aquilo ficou, eu tenho a cena muito clara, desse dia na minha cabeça e daquilo que eu escutei na minha cabeça, assim do tipo: "Sua vó não vai sobreviver até o ano que vem”. E eu fico muito grata por ter escutado o que eles me disseram, porque eu pude passar os últimos meses com a minha avó. E o meu marido, que é médium, e ele faz o desenvolvimento, ele sonhou com a minha avó logo na sequência do falecimento dela, com ela vindo nos agradecer pelos cuidados que tivemos com ela, tudo que a gente fez por ela. Então eu sei que ela está bem, tanto que eu fiquei triste, lógico, né? Porque é o luto, é a partida, mas eu sempre soube que ela estava bem, e no ano retrasado, estamos em 2026, então, no ano retrasado, no meio de 2024, foi a única vez que eu sonhei com a minha avó. Ela veio uma vez num sonho, e era um sonho, em que eu lembro que a gente estava no dia a dia... E foi um sonho assim, tão do dia a dia que quando eu acordei eu lembro que eu fiquei uns 5 minutos pensando: "Por que faz tanto tempo que eu não falo com a minha avó?” Eu tinha esquecido que minha avó tinha falecido, e eu fiquei: "Gente, eu não fui mais visitar minha avó! Por que que eu não falo com a minha avó? Até que um veio (uma voz) e falou: “Não, ela já se foi”, e ali foi um: “Talvez eu devesse pensar um pouquinho mais nela”, acho que foi um: “Ó, eu tô aqui, não esquece de mim”. Então, mas eu sei que ela tá bem, eu sei que ela está com meu avô e com um dos meus tios, filho dela, que já faleceu, que era o que mais cuidava dela, e eu sei que eles vieram buscar e prepararam ela. Então eu sei que ela esteve bem todo esse momento, porque ela está com eles. E quando minha mãe voltou a morar em São Paulo, ela veio para casa que era da minha avó, e minha avó sempre falava que ela queria que minha mãe morasse nessa casa. Então eu sei que quando minha mãe voltou, para morar lá, era o que faltava para ela... “Agora sim, tá tudo certo”. E, minha mãe mesma, falou isso, ela falou: "Cris, eu senti que agora sua avó está em paz”. Eu falei: "Então tá bem”. Minha avó, meu xodozinho, era ela.
00:19:08
P1 - Como era o nome dela?
R - Ana? Ana. Assim eu amo, eu amo os 4 (avós), mas com ela eu tinha uma proximidade diferente, a gente acaba tendo proximidade diferente com alguns. E eu tinha isso com ela.
00:19:21
P1 - E tem algum cheiro, alguma comida que lembre ela?
R - Tem, o arroz e o bolinho de chuva, o bolinho de chuva, ninguém tem a receita. Apesar de ser só um bolinho de chuva, existe o bolinho de chuva e o arroz da vó Ana, num nível que os netos iam na casa dela para comer arroz puro e pedir o bolinho de chuva e ninguém acerta fazer, exceto uma pessoa que é a minha sogra. Minha avó amava minha sogra de paixão, de paixão, de dar presente para minha sogra... Então, sempre que eu falo: “nossa, queria comer um arroz da vó Ana”, eu peço para minha sogra, ela é a única pessoa que acerta fazer, e ela faz igualzinho, com o mesmo sabor, soltinho... Eu falo: "Gente, a minha avó desce e pega na mão da minha sogra para fazer esse arroz”. E o bolinho de chuva foi a mesma coisa, todos os netos tentaram reproduzir esse bolinho de chuva bendito que ninguém consegue, porque eu falava: "Vó, quero bolinho de chuva”, ela pegava as coisas, batia, fritava, estava pronto. Não tinha uma receita, minha avó nunca foi de escrever receita; e a minha irmã ficava: "Não, porque eu não acerto... E eu falando com meu primo, ele falou: "Cris, ninguém acerta fazer esse bolinho de chuva”; e um dia eu estava na casa da minha sogra e comentei do bolinho de chuva, ela falou: "Eu vou fazer bolinho de chuva para você”. E ela fez o bolinho de chuva da minha avó! Ela é a única pessoa que consegue reproduzir o bolinho de chuva e o arroz da minha avó, que era o que os netos iam comer, e se pedir para escrever a receita, não tem receita, minha sogra pega, faz e sai igualzinho. Por isso que eu falo: "Minha Avó vem e fala: Tá bom, vou dar aqui o temperinho da vó... E sai a comida”. Mas é engraçado, porque é a minha sogra, não é minha mãe, não são minhas tias... É a minha sogra que acerta fazer a comida da minha avó, são coisas que não dá para explicar, é ela.
00:21:25
P1 - E me conta como foi a sua infância lá em São Miguel, como era o bairro? Como era a casa onde vocês moravam?
R - Quando eu era menorzinha, eu morava com os meus pais, na casa da minha avó por parte de pai, nós morávamos na casa ao lado da dela, mas isso quando eu era muito pequena, não tenho muita recordação. Eu sei de ver fotos, de ver filmagens que meu padrinho fazia; e depois mudamos para uma outra casa que meu pai construiu, que aí era ali no Distrito de São Miguel, mas num pequeno condado chamado Parque Paulistano, um pequeno pedacinho do paraíso ali da Zona Leste. Era muito tranquilo, não era um bairro muito desenvolvido, demorou muito para chegar asfalto, esgoto, esse tipo de coisa, tanto que a gente chegou a passar por uma enchente nessa casa, mas por sorte, meu pai quando foi construir ele aterrou muito esse terreno e ele conseguiu subir bastante a casa, então na casa em que nós moramos a água não subiu tanto, mas nas outras que eram mais baixas, subiu bastante. Depois disso, eu lembro de que os moradores lutaram bastante para ter asfalto, para ir atrás e tal desse tipo de coisa, mas era relativamente tranquila. Como minha mãe e meu pai trabalhavam fora, a gente passava muito tempo sozinho em casa, com tudo orientado, e devidamente nos seus lugares, e quando minha mãe podia, ela me levava junto, e não aconteciam grandes coisas na nossa infância. Era mais esse tempo em casa, e depois, quando a gente começou a estudar, ir para a escola era ir para a escola, voltar e ficar em casa, era isso. A infância era relativamente calma, não tinha muito brincar na rua, não era um bairro em que dava para fazer muito isso, então era mais mesmo ficar em casa, a casa era grande, tinha quintal, era confortável, tinha cachorro, e como tinha muito quintal, tinha muito cachorro, a gente sempre teve essa convivência com animais e tudo, ali dentro de um ambiente mais controlado.
00:23:37
P1 - E como é que era o nome dos seus cachorros na infância?
R - Na época eram 3, a Kika, uma vira latinha branca com umas manchinhas marrons, a Xuxa, que era uma vira latinha branca com manchinha preta, e a Negona que era uma pastora alemã gigantesca, foram as 3 que cresceram comigo. A Kika era um pouquinho mais arredia porque ela já tinha vindo de uma outra casa, ela tinha umas manias. A Xuxa era o xodozinho de vira lata, magrela, magrela, só tinha pelo, quando a gente dava banho e só sobrava o fiapo de manga da cachorra, quando secava era um tufo. Você dava banho e não sobrava nada da cachorra, nada, e a negona era um xodó, e ela amava minha mãe, amava, amava, amava. Quando minha mãe estava em casa, às vezes à tarde, quando ela não estava dando aula, deitada no sofá, descansando, e elas não ficavam muito dentro de casa, elas ficavam mais no quintal, ela entrava, vinha e olhava para minha mãe do tipo: “Tá viva”; e voltava para a porta, dava 01h30, ela entrava, olhava: "Tá tudo bem”. E ficava nessa ronda de hora em hora, vendo minha mãe, tanto que eu lembro que quando ela faleceu, ela esperou a minha mãe chegar, minha mãe estava trabalhando, nós vimos que ela estava indo embora, e quando ela viu a minha mãe, ela suspirou e foi… Porque ela estava esperando a minha mãe para ir embora, e é com a que mais a gente brincava no quintal; sempre tivemos contato, a gente tinha, minha Avó tinha, meus tios tinham cães... A família sempre foi muito “cachorreira”, todo mundo sempre teve cachorro, sempre convivemos muito com animais por perto. E a família continua tendo muito cachorro, todo mundo tem bicho, é bom, é bom, dá uma diferença na nossa vida ter (cachorro). Eu senti muita falta durante um tempo, em que eu morei sozinha e não tive, é diferente você chegar em casa e ter eles esperando, e de você chegar em casa e não ter nada. Eu chegava em casa e não tinha nada, eu morava sozinha e não tinha nenhum bichinho ali, nada, não tinha nada, era triste. É triste pra quem sempre teve animal. É triste você chegar em casa e não ter nenhum com essa carinha fofinha assim, tipo: "Olha, chegou alguém!” Então, era muito bom, sempre muito bom.
00:26:09
P1 - E do que que você brincava na infância? Quais eram as brincadeiras que você gostava?
R - Eu na verdade, brincadeira não tinha muito… Eu sempre gostei muito de ler, então a minha brincadeira era ler, era uma casa de professores e tinha muitos livros, tinha muitos, muitos, muitos livros, e a minha brincadeira eram os livros, era arrumar a estante de livros e ficar mexendo nos livros. E eu lembro que o nosso passeio de janeiro, que era o que eu esperava mais, era ir às editoras buscar livros, porque que os meus pais, como professores, podiam ir às editoras, e eu esperava, ansiosamente, pelo dia de ir às editoras, ficar no meio dos livros, e naquela época (em que) eu era criança, não tinha muito computador, ainda estava vindo, e nas editoras tinham a área de recreação para os filhos com computadores, e eu ficava lá brincando, essa era a minha diversão, e depois, o videogame, ganhamos videogame, jogos de tabuleiro, sempre brincamos muito com isso, então eram mais essas as brincadeiras, tudo bem nerdizinhas, eu era uma criança, bem, bem nerd, assim bem... Como é que eu posso dizer? Eu me auto regrava num nível… Aí gente! Eu vou contar as coisas de criança louca... Mas a gente assistia filmes, as crianças do filme têm o quê? Horário para dormir… E eu olhava aquilo e falava: "Eu sou criança e tenho que ter”, e eu me impus um horário de dormir... Minha mãe nunca ligou para isso, mas dava um determinado horário, eu pensava: "Meu Deus, é minha hora de dormir”, eu ia me trocar, me deitava e dormia. Minha não teve muito trabalho nesse ponto, porque eu me auto estabeleci um horário de dormir. Eu sempre gostei muito de estudar, então eu me levantava na hora certinha, ia para a escola, amava ir para escola, amava fazer lição, essa coisa toda. E eu era essa criança, que via que as crianças do filme tinham uma regra: "Legal, eu tenho essa regra na minha vida também”. E eu ia imitando as regras e me impondo as regras, perturbadinha da cabeça, uma criança assim... Meu marido, às vezes ele olha, e fala: "Tinha coisa errada já”.
00:28:28
P1 - E como é que era na escola?
R - Ah, eu era muito tranquila, e como eu sempre gostei muito de estudar, não era uma criança muito bagunceira, eu gostava mesmo de fazer lição, eu me lembro que quando eu entrei na 1ª, porque eu e minha irmã já entramos na escola sabendo ler, escrever, porque minha mãe ensinou em casa, então nós íamos para a escola, no prezinho, e ficava brincando sozinha no parquinho porque as crianças precisavam terminar a lição, eu já sabia, eu terminava e a professora me liberava e ficava lá, eu no gira-gira, no balanço, sozinha, esperando as benditas terminarem a lição, porque eu terminava (antes)... Tem uma passagem, gente! A pessoa... Eu me lembro que em um dos prezinhos em que eu fui, e eu brinco até hoje que eu sou uma pessoa “incastigável…” Eu pequenininha e a professora me pôs de castigo, pra que? Nunca mais eu fui, eu bati o pé que eu não ia. Eu falei: "Ela me botou de castigo!” Era um toco de gente, eu falei: "Não vou”. E eu encontrava com essa professora na rua e eu fechava a cara, porque eu tinha raiva, porque ela tinha me botado de castigo. Eu falava assim: "Não pode me botar de castigo”. E todo mundo pergunta: "Mas seus pais deixaram?” Eu falo “gente, vocês não têm noção não é questão de deixar; eu não ia, eu não iria nunca mais para aquela sala de aula com aquela pessoa que quer me botar de castigo!” Que quem é ela pra me botar de castigo? Não pode... Pequenininha assim! E nunca mais fui, eu fui para outro prezinho, e nunca mais fiquei de castigo. Ainda bem, porque senão provavelmente eu não iria. Mas, eu era uma criança que gostava de fazer a lição, que terminava de preencher o livro, que gostava de copiar da lousa, que gostava de ficar de... Aí o professor vai sair, alguém tem que ficar de olho na turma, bem puxa saco de professor, bem nerd, essa pessoa que eu era... Escola pra mim, como eu gosto muito de estudar, ir na escola pra mim sempre foi uma diversão, de ir para aprender, para estudar. Amava todas as matérias, amava fazer prova, ah, teve gincana... e eu me lembro de que na 4ª série teve uma gincana que a professora teve que me tirar porque era de perguntas e respostas e como eu sempre gostei muito de estudar, eu respondia tudo ela falou: "Cris precisa dar a vez para o próximo”, aí eu falei: "Tá né, não posso mais brincar de responder porque eu tô ganhando tudo”. E precisava deixar as outras crianças ganharem, né? Mas eu não queria... mas deixei...
00:30:55
P1 - E sendo filha de professores de matérias diferentes, você tinha alguma preferência?
R - Não, eu sempre gostei de estudar. Até hoje eu gosto de estudar, fazer cursos, aprender coisas diferentes. E eu acho que ser filha de professores de disciplinas diferentes foi bom, porque assim eu tinha um acervo de livros muito vasto e diverso. Então eu me lembro de que eu me sentava para ler livros de biologia e achava legal, livros sobre a natureza. Pegava os livros de literatura, de português da minha mãe para copiar as histórias. Eu me lembro que, muito antes do computador, ela me deu uma máquina de escrever, e eu criança, passava o dia copiando as histórias na máquina de escrever... Essa era a brincadeira, entendeu? Pegar e ficar digitando na máquina de escrever, copiando a história do livro, lendo... Era essa brincadeira, divertidíssima, mas para mim era muito, muito. E era isso.
00:31:51
P1 - E você, chegou a ter aula com seus pais?
R - Cheguei a ter aula com meus pais, em todas as escolas em que eu estudei a partir da 5ª série, ou tinha meu pai, ou minha mãe, ou um dos meus tios dando aula. Sempre, sempre a filha do professor.
00:32:05
P1 - E como era esse momento de ser a filha do professor?
R - Então, como eu era nerdzinha, não tinha muito problema na questão de reclamação... Só que ser filha do professor é muito chato, porque está todo mundo de olho em você o tempo todo. Como eu não aprontava, eu não fazia nada... Beleza, mas é chato saber que você não pode dar um espirro, (porque vão dizer): "Ah, e a filha do professor”. Aí, tô ali sentada conversando. “Olha a filha do professor ali”. É meio cansativo essa vigilância 100%, mas depois de um tempo a gente já nem liga mais, estudei com a minha mãe, estudei com o meu pai, estudei com meu tio, tinha uma das escolas em que um namorado da minha irmã na época, que era professor também, dava aula, sempre tive um parente por perto enquanto eu estudava. Então depois de um tempo eu já nem ligava mais... “Ah, aquele ali, o meu tio?” , “minha mãe tá ali ó”. A vida....
00:33:08
P1 - E me conta, nessa época da infância, existia algum sonho, de ter alguma profissão específica?
R - Nunca tive. Nunca tive. Ao longo da vida eu nunca tive essa coisa de: "Vou ser tal coisa”. Eu só fui indo... E quando eu fui fazer a faculdade, eu falo para as minhas afilhadas e tal, falo: "Gente, eu escolhi ali na hora de fazer a matrícula, tá? Porque eu fui, todo mundo era professor. Eu pensei: "Ah, beleza, vou ser professora também. Todo mundo é professor. Bora ser professora”, ainda fiz faculdade particular. Na faculdade particular, você escolhe ali, na hora, você vai se matricular no quê? “Tem vaga no quê? Vou fazer isso daqui, né?” Não tem muito assim: "Nossa, estou concorrendo a esse curso”. E eu fui para fazer matemática, para ser professora de matemática. Estou lá, estava indo na faculdade fazer a matrícula, minha irmã me ligou, e ela falou: "Onde você tá indo?”, eu falei: "Estou indo na faculdade, fazer a matrícula”. Ela: "Em que curso?”, eu falei assim: "Acho que eu vou fazer matemática”. Ela respondeu: "Mas você tem cara de jornalista”. Eu falei: Tá bom”. Na hora da matrícula para o curso, eu falei: "Tem jornalismo?” (responderam:) “Tem”. Eu falei: "Bora fazer jornalismo aqui, né?”, e me formei. E assim segui a vida. Eu sonhei em ser jornalista? Jamais na minha vida, gente! Nunca, mas amei a faculdade, amei, fiz, me formei, trabalhei muitos anos como jornalista. Hoje ainda trabalho na comunicação, mas hoje é mais voltado para o marketing, não atuo tanto como jornalista, mas amei minha faculdade, amei a minha formação, curti todos os minutos, fiz tudo como se eu tivesse sonhado a vida inteira. Ao contrário de toda a turma, que sonhou a vida inteira em ser jornalista, eu caí ali, ó, fui ali... estava feliz... O importante, primeiro, é que eu estou estudando, eu sou dessas, é muito importante pra mim estar estudando, estar aprendendo. Fiz jornalismo, e depois disso, eu fiz Design de Interiores, fiz 375.000 pós-graduações em comunicação. Hoje eu estou fazendo uma especialização em Design Gráfico, porque para o meu trabalho eu preciso de alguns fundamentos... Não que eu seja designer, mas eu preciso de alguns conhecimentos dentro de design para explicar algumas coisas para os clientes. Aquela coisa assim, eu sei que tá certo, mas como é que eu vou te explicar que tá certo, se eu não tenho fundamento pra isso? Então, estou fazendo uma especialização em design gráfico e estou fazendo um MBA em Marketing pela mesma razão, eu trabalho com Marketing há já uns 6 anos e eu sei que tá certo... mas como é que eu explico se eu não tenho o fundamento? Eu falei: "E lá vou eu estudar de novo, são cursos mais rápidos, 6 meses, 1 ano”. Mas é isso, vamos só vai estudando e aprendendo, e tá tudo certo.
P1 - E o que você fazia para se divertir nesse início da vida adulta?
R - A grande pergunta é: eu me divertia? Eu acho que essa é a grande questão.
00:36:21
P2 - É que você falou que era Nerd, dentro da cultura Nerd, tinha alguma coisa que você gostava de fazer?
R - Então é isso que eu tô pensando... Enquanto nerd, sempre gostei muito de filmes, sempre gostei muito de séries, sempre gostei muito dessa coisa assim. Sou uma grande fã de Harry Potter, tenho aqui minhas “Relíquias da Morte”, enquanto ser humaninho nerd, as minhas diversões eram mais os filmes, séries, livros. Nunca fui muito de sair de balada. Na adolescência, no período da adolescência, dos 14 anos em diante, eu frequentava a Igreja Católica, minha família é católica e eu sempre frequentei a Igreja Católica, e em algum momento eu senti um chamado para fazer a crisma, e eu ia para o grupo de jovens e dentro do grupo de jovens a gente viajava, passeava, a gente saía. Então era mais ou menos ali, quando eu saí (do grupo de jovens), que foi lá pelos 17 anos e quando eu conheci meu marido em um curso técnico, no ensino médio, (a diversão) era: “Vamos no Hopi Hari, no cinema”, e era mais essa coisa... Aos 17 anos eu conheci meu marido, começamos a namorar, estamos juntos até hoje, eu até brinco, eu falo: "Eu tenho mais tempo de vida com você do que sem você, né?” Porque já são mais de 20 anos juntos, e eu o conheci com 17, e falo: "Eu vivo mais tempo com você por perto, do que sem você”. Então...né? E aí é isso, quando jovens, a gente viajava, ia pra praia, ia pro cinema; começando a trabalhar, sem muito dinheiro, não tinha muito o que fazer. E depois disso, trabalhando, a vida melhorando, a gente viaja bastante, quando dá... Agora não tá dando tanto porque compramos apartamento, e hoje já temos responsabilidades diferentes, e com os 4 aqui, eu preciso de um planejamento para ir viajar. Mas era mais isso, viagem, cinema, museu, dar aquela volta na Paulista, o Museu da Imagem e do Som, que eu sou apaixonada, eu acho que eu vejo todas as exposições deles... Eu já estou batendo cartão lá, acho que o segurança não aguenta mais ver a minha cara em todas as exposições: "Você tá aqui, menina? É louca! Tem outros lugares pra você visitar!” E com as minhas amigas, como a gente é tudo essa mesma “vibe”, até meu marido fala: "Gente, vocês saem para tomar café?” Eu falo: E você quer que eu saia para quê? Se nós vamos lá, tomamos um café, conversamos, vamos almoçar, vamos jantar”. Ele diz: "Mas vocês não vão num bar?”. Não, porque, por exemplo, eu não bebo nada alcoólico, eu vou fazer o quê num bar? Eu não bebo e eu sou vegetariana, me diz o que que eu vou fazer num bar? Nada, né? Ficar olhando pra cara dos outros, porque não tem nenhum sentido... Então o meu divertimento, é mais tranquilo, um cineminha, um shopping, viajar, né? É isso, eu sempre, sempre fui nesse estilo.
00:39:23
P1 - E me conta como foi conhecer o seu marido? Onde você conheceu? Você falou que foi no curso técnico.
R - Isso, nós estudávamos juntos, na mesma sala, no curso técnico na ETEC, de Logística (Escola Técnica Estadual). Eu não gostava dele porque a gente era bem o oposto, eu era Nerd e ele era o Xodó das meninas, e eu pensava: "Aí, que pé no saco”. Porque as menininhas corriam atrás dele, ele era o famosinho, o que tocava violão. Um belo dia, por que a chave virou? Não vou saber te dizer, mas ficamos amigos e começamos a andar juntos, as meninas ficaram morrendo de raiva, porque ele saiu do fundão para se sentar lá na frente comigo, e ele era da turma do fundão, e eu era nerd da primeira carteira... Bem, coisa de filme de pré-adolescente; ele saiu do fundão, começou a sentar lá na frente comigo, e a gente começou a namorar, eu tinha 17 anos, ele tinha 18, e daí por diante assim seguiu a vida, já faz 20, 21 anos, e 21 anos depois, cá estamos.
00:40:43
P1 - Vocês se casaram?
R - Casamos 9 anos depois, com festança e tudo o que eu tinha direito, minha avó estava viva ainda nessa época, ela brincava, ela falava: "Mas eu não vou usar vestido, não! E eu falava: "Não precisa usar vestido não” (Eu falei:).”vai do jeito que você quiser ir, vai e só”. Ela foi do jeitinho dela, foi bem legal, foi bem legal.
00:41:06
P1 - Tem alguma memória do casamento que tenha sido marcante?
R - Não. Foi tudo muito bom, foi bem do jeito que eu queria que fosse, eu organizei tudo, então foi bem do jeitinho que eu queria, não, não teve nada assim que se destacou. A festa toda foi boa, os amigos dele estavam lá. Teve uma coisa sim! que eu sempre falo: Meu marido teve a capacidade de convidar pessoas no dia do casamento”, eu já com a lista fechada e ele ligando: "É o meu casamento, bora lá” Eu pensando: "Gente, mas não é churrasco em casa, eu tô pagando por cabeça aqui, ó, no buffet”. E ele ligando para as pessoas! E eu: "Gente! não tô sabendo disso não”. Ele fez isso, convidou gente, parecia churrasco! Gente... Eu falei: "Ele tá achando que era no quintal? Não é possível”. Ele fez isso.
00:41:56
P1 - E como é o nome dele?
R - Jefferson?
00:41:59
P1 - E me conta como foram esses primeiros anos que você estava contando, em que ele viajava bastante, viajava bastante.
R - Ele viajava bastante por conta do trabalho, ele trabalhava com TI para a área da saúde. Ele trabalhava numa outra empresa, que não é a que ele está hoje, e eles implantavam um sistema, trabalham principalmente com o setor público, então ele precisava passar muito tempo fora implantando esses sistemas. Começou com um final de semana, às vezes ele passava 15 dias inteiros fora, porque a implantação de sistemas na Área de Saúde não é tão simples, é sempre de madrugada, porque você não pode interromper; tem que dar treinamento. Ele já chegou a passar mais de um mês fora de casa, e eu morava sozinha no apartamento. A gente morava na Sé (Praça da Sé - SP), e a mudança em si, para o apartamento, já foi uma quebra muito grande para mim, porque até então eu morava com cachorro, pai, mãe, irmã, avó vindo visitar. Nessa época tínhamos 2 cãezinhos, a Neguinha e o Pitoco, que eram 2 salsichinhas (Raça Dachshund), e, de repente, fomos para um lugar para morar sozinhos, sem bicho, sem gente, você não tem nada… Num prédio onde eu não conhecia ninguém, com os meus pais morando no litoral, com minha irmã morando no interior, com o meu sogro e minha sogra morando na Penha, mas não era relativamente perto. Foi uma quebra muito grande nesse processo, com ele fora, depois que a gente se casou, e eu acabei tendo síndrome do pânico. Eu saía de casa para trabalhar normalmente, durante o dia eu estava bem, trabalhando; quando eu chegava em casa era onde começava o meu gatilho, por eu estar sozinha. Então eu não queria dormir, eu passava dias sem dormir porque eu tinha medo de passar mal e não ter alguém para chamar. Depois de um certo tempo, eu comecei a… dentro da minha cabeça, eu achava que o prédio ia desabar, então eu ficava acordada, porque, naquele meu… vou chamar de surto, eu pensava: "Se eu ficar acordada e tiver qualquer barulho, eu escuto e saio correndo". Então eu não dormia, passava noites e noites assim, dormia no auge do meu cansaço. Foi um processo complexo. Nesse tempo minha avó já tinha falecido também, então eu não tinha nem esse momento da minha vida. Foi aquele momento em que juntou tudo, e eu não tinha muito o que fazer. E foi aí que surgiu a Carlota, a primeira gata, porque meu marido falou: "Então vamos adotar um gato". Aí eu falei: "Não sei cuidar de gato, nunca tive gato, a família toda só tem cachorro". Eu falei: "Não sei nem se eu gosto de gato, não sei, não vivi com gatos". E, na época, a mãe dele tinha uma loja, e tinha um pet shop na frente, e tinha um rapaz doando 2 gatinhos. E ele me falou: "Vai lá ver isso". Ele estava viajando, me ligou e falou: "Vai lá ver". E eu falei: "Tá bom…". Aí eu mostrando (os gatinhos) para ele no vídeo, ele disse: "Aí, a amarelinha!". Eu falei: "Por que a amarelinha?". Ele falou: "A amarelinha…". Eu falei: "Tá bom", e levei o “cotoco” assim. Essa coisinha cabia na mão, só tinha cabeça e orelha… minha bichinha pequena. E aí levei para casa, eu olhava para ela e falava: "Mas eu não sei cuidar de você, o que que eu faço? Nunca tive gato, como é que eu cuido de você?". E ela ficava me olhando, assim… E nisso a Carlota me curou, porque, como eu tinha que dar atenção para ela, eu esquecia das coisas, do medo de estar sozinha, do medo do prédio cair… Porque eu comecei a dar atenção para Carlota, e aí começou meu processo de cura da síndrome do pânico, porque eu não tinha mais tempo de pensar naquilo que estava acontecendo, porque eu ficava pensando: "Eu preciso cuidar". Ela se enfiava debaixo da cama e eu falava: "Esse gato vai sumir aqui", e eu ficava procurando ela. Eles são muito sensíveis, e ela vinha e dormia encostada em mim, ela escalava minha roupa e ficava aqui no meu ombro. Parecia que era o “Papagato”, era meu papagato e ficava aqui. E aí foi onde eu comecei a conviver com gatos, onde eu entendi. Continuo amando cães, mas ter gato é muito diferente, é muito diferente, porque o amor incondicional que eles sentem é o mesmo, mas eles vivem com você de uma outra forma. O cachorro te vê como um dono, ele te idolatra; o gato te ama de igual para igual, ele te vê como igual. Se ele ficar magoado, ele vai ficar magoado, não é como o cachorro, que você pode fazer alguma coisa e, em 2 minutos, ele já tá balançando o rabo. Não. A Carlota é extremamente temperamental, se ela se magoar, ela nem olha no seu rosto, ela não te perdoa tão fácil, e eles têm o tempo, o espaço, o momento deles. Então conviver com o gato te ensina muito, e, além de me curar, é lógico, também fiz terapia, tudo isso, mas eu já tinha a Carlota quando eu comecei a procurar as outras coisas, porque eu falei: "Não, eu preciso ficar boa, porque agora eu tenho mais uma coisinha aqui para cuidar". E eu fui aprendendo muito com ela, né? Essa coisa de entender o tempo, entender que "ama, mas agora não quero". "Então ok, a hora em que você quiser, nós estamos aqui". Respeitar o espaço, entender o que precisa. Hoje eu tenho uma sensibilidade maior, porque o gato não demonstra nem quando tá doente, então você tem que aprender a observar essas miudezas. O cachorro, se ele ficou doente, ele vai se prostrar, você sabe disso; o gato, não, ele vai demorar até demonstrar alguma coisa. Então, às vezes, numa virada de orelha ali, que não é o normal, eu vejo que tem alguma coisa errada. Eu falo: "Não, não é assim". A Carlota me ajudou muito nesse processo. Meu marido conviveu pouco com ela quando ela era pequenininha, porque ele estava sempre viajando, e eu me lembro de que, quando ele parou de viajar, ela já era maiorzinha, então ela é super apegada a ele. E hoje ele sai, às vezes ele viaja de um dia para o outro, ele faz viagens muito curtas, e ela fica sentadinha, de frente para a porta, esperando ele chegar, porque ela sabe que ele não vai voltar, e ela vai a toda hora na porta e me olha do tipo (me falando): "Ele não vai vir, né?". Aí eu digo: "Não, filha, ele não vai vir hoje", e ela fica e volta na porta. E, quando ele tá chegando, ela vai para a porta, porque ela tem esse apego maior nele, porque ele não passou tanto tempo com ela. Ele até brinca e fala que perdeu a infância da Carlota, e, quando ele fala isso no trabalho, com alguém que não conhece, as pessoas acham que é uma criança. Teve gente que demorou para descobrir que era um gato e disseram: "Aí, porque a filha de vocês…". Eu fico: "Filha?". E eles: "É, porque ele falou que perdeu a infância". Eu digo: "Gente, é o gato, ele perdeu a infância da gata, tá? É da gata que ele não viu a infância". Muita gente achou que era uma menina, eu falei: "É nossa filha, mas não é ser humano, é “serugato”, né?". E dela acabou vindo esse amor imenso pelos gatos. No começo da pandemia eu já tinha a Carlota há 3 anos. Eu vi o anúncio de uma ONG precisando de voluntários, que é a “Miados Urbanos”. Na época, a “Miados” tinha um abrigo aqui no Tatuapé, e eles precisavam de voluntários para ajudar a cuidar dos gatos, e eu me candidatei e continuo participando da ONG até hoje. Eu falo que a Carlota abriu muitas portas, ela foi o primeiro gato da família, e hoje muita gente na família tem gato, e fomos descobrindo que a família toda era gateira, as pessoas só não tinham gatos. Porque eu pensava, falava: "Nossa, minha mãe não gosta de gato". A minha mãe chegou e falou: "Eu tinha gato quando eu era criança". E eu: "Ah, tá bom, mãe, você tinha gato". E minha tia: "Sua tia tinha gato também!". Eu falo: "Gente, mas cadê as histórias da família que ninguém conta? Que todo mundo tinha gato, que todo mundo não sei o quê?". E aí comecei a trabalhar na ONG como voluntária do cuidado do abrigo, e foi aumentando ainda mais a proximidade com os gatos, né? E aí, depois de um tempo que eu já ia, meu marido foi um dia, porque ele falava: "Não, eu não quero ir porque eu não vou aguentar ver os bichinhos, sei lá o quê". O primeiro dia em que ele foi, o Tobias estava lá, pituco de tudo, subiu no meu marido, lambeu o pescoço dele, e meu marido falou: "Ele vai ter que ir embora com a gente". Eu falei: "Tá". Eu falei assim: "Você não aguentou a primeira vez que você veio". Ele falou: "Não, não dá". Trouxemos o Tobias, que é o primeiro Frajola. A Carlota ficou 6 meses sem falar comigo, de raiva, porque eu tinha adotado outro gato, 6 meses sem olhar na minha cara. Eu chegava e ela se escondia. Ela só saía da toca quando eu não estava no apartamento ou quando eu estava dormindo, para não cruzar comigo. E, na época, nós morávamos numa kitnet de 23 metros quadrados, não dava para ela não cruzar comigo… não tinha espaço para não cruzar. Isso foi em 2020. Em 2021 nós mudamos para o primeiro apartamento aqui na Mooca, mudamos para a Mooca, felicidade e tal… Um mês depois, adotei o Haroldo, porque ele estava na ONG também, e ele era apaixonado pelo meu marido. O Haroldo não ia com ninguém, ele viu meu marido, ele chorava, chamava e tal, não sei o quê. E eu falava: "Jefferson, vamos ter que adotar o Haroldo". Ele falava: "Não". Eu falava: "Jefferson, a gente vai ter que adotar o Haroldo". E ele: "Não, não vamos adotar". Eu falei: "Tá bom". Um dia chegou um formulário para adoção do Haroldo, estávamos na minha tia, e eu falei: "Ah, Jefferson, vão adotar o Haroldo". E você via o brilho sumir… Ele estava falando animado e disse: "Tá bom, ele vai ser feliz", triste, você via a tristeza nele. Aí eu falei: "Mas você não quis adotar o Haroldo?". (Ele disse:) "Não, tudo bem, deixa ele, ele vai ser feliz". Seguimos com o processo de adoção, porque fazíamos uma vistoria no apartamento etc. e tal, e não deu certo a adoção. Quando avisaram que não tinha dado certo, eu falei: "Tá bom, eu vou levar o Haroldo para casa, não deu certo porque é o universo dizendo que ele é para ser meu". O meu marido estava no escritório, e eu estava junto com ele, e falei: "Vamos adotar o Haroldo". E ele, com um sorrisão, falou: "Não, mas a gente já tem". Eu disse: "Vamos buscar o Haroldo no domingo". E trouxemos. Meu marido fala que ele é um traidor, o Haroldo, porque a paixão que ele tinha pelo meu marido… e agora ele é grudado em mim, mas (é porque) eu passo o dia inteiro em casa com ele, eu trabalho em casa, e o Haroldo é o meu supervisor do dia a dia, porque eu trabalho com ele sentado ao meu lado, no computador, olhando o que eu estou fazendo. O Haroldo todo mundo conhece como supervisor, porque ele tá sempre me olhando. Em toda foto que eu tiro, ele tá do lado do computador, toda reunião que eu entro, ele aparece na câmera. Então o Haroldo é meu supervisor. No finalzinho de 2024 chegou o 4º, que é o Romeu, e o Romeu foi um resgate que chegou na ONG depois de sofrer. Quando ele tinha um mês, ele foi esmagado num portão de escola e foi jogado no lixo. Um protetor que a ONG apoia achou e trouxe para a gente cuidar. A gente cuidou, ele fez cirurgias, fizemos o que tinha que fazer com ele, e ele ficou na ONG. Mas já é difícil você conseguir adoções para gatos que não têm nenhum problema, conseguir uma adoção para um gato que vai exigir um cuidado diferenciado é quase impossível. As pessoas não adotam idosos, as pessoas não adotam gatos com deficiência, as pessoas não adotam gatos dependendo da cor do pelo. Na ONG encerramos a parte de abrigo, a gente continua com os outros projetos da ONG, de castração, educacional, tudo. A gente tinha muitos problemas, por exemplo: os Frajolas (Gato Branco e preto). Teve Frajola que ficou 2 anos esperando uma casa. Gato preto as pessoas procuram muito raramente, só procura gato preto quem já teve gato preto, as pessoas não querem por conta da cor do pelo. As pessoas não querem gato que tenha cara de vira-lata. O gato branco, o Sialata (Gato Siamês mestiço), gato com cara de gato de raça, esse vai embora rápido, mas, se tem cara de gato vira-lata, esquece, não vão adotar. E, se passou dos 6 meses de idade, também ninguém quer mais, as pessoas querem filhotinho pequenininho. Mal sabem elas que o gatinho filhotinho é uma bolinha de pinball em casa, né? Porque ele pula, ele corre, ele arranha, ele destrói o sofá, ele derruba as coisas, ele morde. Carlota pequenininha era um barato, ela me arranhava os braços, porque ela foi tirada da mãe muito pequena, então ela não teve essa questão da mordedura, e eu vivia com os braços machucados. Eu me lembro que, logo depois que ela chegou, eu fui à terapia e fui passar na avaliação do terapeuta, e ele, me vendo com os braços machucados, não respirava, porque ele achou que eu me cortava. Ele não respirava, o terapeuta, gente, vocês não têm noção… Eu via que ele estava tenso, e eu não entendi… E eu falando e tal, não sei o quê, Piriri-Pororó… Daqui a pouco eu falei: "Minha gata". Aí ele soltou o ar, ele falou: "Ah, então isso foi a gata que fez". Eu falei: "É, isso aqui tudo foi a gata". Ele tinha certeza de que eu… Gente, ele achou que eu me cortava! Depois que eu saí de lá, eu ria e falava: "Meu Deus, olha as coisas pelas quais a minha gata me faz passar, né?". Porque meu braço estava muito machucado, porque ela era muito pitiquinha. Depois eu fui ensinando, e ela parou, mas eu nunca vou esquecer desse dia, gente. E, voltando para a história do Romeu, ele ficou 2 anos na ONG, e a ONG ficava dentro de uma clínica, e o pessoal da clínica cuidava dele, mas, por conta da forma como ele anda, porque ele arrasta as patinhas de trás, ele acabava ficando muito doente e tinha muitas feridinhas, então ele tinha que passar o tempo todo de roupinha. E aí puseram ele junto com os gatos do abrigo, os gatos que a gente ia para cuidar. Ele ficou acho que 3 dias lá. No dia em que eu cheguei para cuidar, quando eu olhei aquela coisinha, ele parecia um franguinho atropelado, e, quando eu olhei para a cara dele, eu falei: "Você vai embora". Liguei para o meu marido, isso foi numa sexta, e eu falei: "Domingo estamos indo buscar o Romeu". Ele perguntou: "Quem é Romeu?". Eu falei: "Você vai descobrir domingo, a gente vai vir buscar ele domingo". Aí liguei para avisar o pessoal da ONG e falei: "Domingo tô indo levar o Romeu pra casa". Aí o pessoal: "Não, porque a Thaís, no caso a veterinária que é a madrinha dele, não vai deixar". Eu falei: "Gente, vocês não estão entendendo, eu não estou perguntando se eu posso, eu estou avisando que domingo o Romeu vai embora para minha casa". Aí todo mundo falou: "Tá bom". Trouxe ele, é um xodó. Romeu é o maior xodó da minha vida. Ele chegou, e o Romeu ama gato, ama cachorro, ama todo mundo. Quando ele chegou, os outros gatos ficaram meio avessos com ele, e, na primeira semana, eu tentando integrar ele em casa, ele ficou triste porque nenhum gato queria brincar com ele, e eu vi que ele se isolou e eu falei: "Vamos resolver isso aqui". Botei ele no meio da sala, trouxe o Tobias, que é o mais bonzinho, coloquei do lado dele e falei: "Faça amizade com o seu irmão agora!". Ele me olhava, e eu falava: "Cheira, brinca, e você tem 5 minutos para se adaptar ao seu irmão". Aí ele deu uma cheirada e começou a brincar com o Romeu, daí o Romeu já ficou feliz. O Haroldo veio brincar também. Só quem não brinca é a Carlota, mas a Carlota eu já sabia que não brinca com ninguém. E o Romeu é o pilar que faltava aqui nessa casa. Eu sempre falo para o meu marido: "Faltava um Romeu na nossa vida". Muita gente tem dó e fala: "Ai, tadinho dele…". Eu falo: "Não precisa. O Romeu engordou, inclusive tá gordinho, não poderia estar tão gordinho". Já levei umas broncas da madrinha veterinária dele, e eu falei para ela: "Você quer que eu tire a comida dele? Eu não vou deixar meu filho passar fome, deixa meu filho comer". Ele teve que fazer jejum uma vez para um exame, e ele é pouco dramático, né? Só um pouquinho… Ele lambia a parede perto de onde estava o potinho. Eu tive que tirar o potinho, e ele ia no lugar onde estava o potinho e lambia a parede, para me mostrar que não tinha comida ali e que ele estava com fome. Eu falava: "Filho, não faça isso com a sua mãe, que chantagem emocional é essa, né?". E é assim… Ele é feliz, ele brinca, ele corre, ele come, ele dorme. E eu sou feliz, porque eu vejo que eles são muito felizes, e me faz bem ter os 4 aqui. E todo esse amor se complementa nesse trabalho da ONG, é algo que faz muita diferença na minha vida ter este trabalho social. A gente vive uma vida que precisa ter um propósito, e, por mais que a gente não vá mudar o mundo, cabe a nós tentar deixar uma sementinha de alguma coisa. Hoje o foco da ONG, que na verdade é o foco desde a criação da ONG, é a castração de colônias de rua. A ONG tinha um abrigo para poder ajudar em algumas coisas, mas, assim, o foco da ONG nunca foi resgatar, o foco da ONG é castrar, porque não adianta você ter 1 milhão de abrigos se não for feito um trabalho de castração, senão você só vai ter espaços lotados de animais que precisam ser cuidados, que nem sempre vão conseguir uma casa e vão ser vítimas de maus-tratos. Então a ONG tem o foco em castrar colônias de rua, que não são os animais que a Prefeitura castra. A Prefeitura castra gatos domiciliados, você tem que ir lá se cadastrar e leva o seu animal para castrar. Só que a Prefeitura não castra animais não domiciliados, que são os de rua, mesmo que protetores cuidem. Então a ONG faz essa outra parte, que acaba sendo um complemento a esse trabalho. O protetor que cuida, sei lá, de uma colônia de 20 gatos numa praça, ele vem, faz o seu pedido. Se ele tiver como ajudar a pagar essa castração, que fazemos por um preço popular, conseguimos fazer isso; senão, fazemos captação de recursos para esses animais gratuitamente. Vai uma pessoa que é especializada em fazer captura desses animais, aí a gente paga para ela, porque é o trabalho dela, ele não é da ONG, ele faz trabalho pago. Ele traz esses animais, e a gente faz a castração, faz a marcação na orelha e devolve para o local, para tentar conter um pouco o nascimento de animais na rua, porque isso faz proliferar doenças, gera maus-tratos; tem muitos animais morrendo envenenados, atropelados, e, assim, você diminui isso. Já são alguns anos que eu continuo junto com a equipe da ONG fazendo esse trabalho. Às vezes dá uma sensação de que é como “enxugar gelo”, porque são muitos pedidos para pouco recurso, e, quando você pede ajuda, é engraçado, porque as pessoas estão muito dispostas a ajudar quando você posta um caso de um animal doente, ou atropelado, ou quando você vai com um apelo sobre um bicho, aí, nossa… Como agora a gente está fazendo, estamos ajudando uma protetora que tem um gatinho que está com câncer, então estamos ajudando. Para esses casos a gente consegue captar dinheiro muito rápido, mas, quando a gente fala que é para castração, ninguém ajuda. As pessoas não entendem a importância de castrar os animais. Então agora na ONG estamos criando um projeto educacional, porque precisamos fazer as pessoas entenderem que é importante esse cuidado com os animais. Tem gente que não aceita castração, tem quem acha que é maltratar eles, temos que explicar que não. E aí entra um outro ponto nessa castração que chama CED, que é Captura, Esterilização e Devolução. Você faz uma marcação, você faz um picote na ponta da orelha do gato, você tira bem a pontinha. Então, se vocês virem algum gato sem a pontinha da orelha, cortadinha, bonitinha assim, é porque ele é castrado, e essa é uma marcação mundial, em qualquer lugar do mundo que você for. Essa é a marcação para castração de gatos de rua, né? Tanto que, às vezes, por exemplo, eu assisto novelas turcas, e na Turquia eles têm muito amor pelos gatos, e vira e mexe aparece na novela um gatinho com a pontinha cortada. Então eu sei que é um gato castrado, porque é uma marcação do mundo todo, a gente corta a pontinha da orelha. "Ah, mas não é maus-tratos?". Não, maus-tratos é você não castrar esse bicho, não cuidar dele… E, quando a gente faz essa marcação, é porque ele vai voltar para a vida livre. Se eu não marcar, ele pode ser capturado de novo, passar por um processo anestésico de novo, sem necessidade. Então, quando a gente vai fazer essas capturas, se a gente vê que um deles já tem a orelha cortada, a gente nem captura, a gente deixa lá, porque a gente sabe que já castrou. Existe todo um processo, e a maioria das pessoas não entende a importância de fazer isso. Trabalhar na ONG e ter esse contato com os animais mudou muita coisa na minha vida. Por exemplo, eu sou vegetariana por conta disso, e eu sempre comi carne, minha vida inteira, inteira, de comer carne sangrando no prato, malpassada. E não vou falar que eu acho ruim ou que eu acho o gosto horroroso. Não, gente, carne é uma coisa muito gostosa. Mas, ao longo desse processo e assistindo a documentários sobre saúde e tal, em um determinado momento, em 2019, eu virei para o meu marido e falei: "Não vou mais comer carne". E ele falou: "Mentira!". Eu disse: "Não, estou dizendo… no dia 20 de novembro de 2019". E ele disse: "Mas você ama carne". Eu falei: "Eu sei, mas eu estou dizendo que eu não vou mais". E eu nunca mais comi carne, porque é aquilo: como eu posso amar tanto uns a ponto de cuidar, de fazer tudo por eles, e aceitar que outros sofram? Não julgo quem come, faz parte da nossa alimentação, mas o processo da indústria é muito cruel. Então como é que a gente ama uns e aceita a crueldade com outros? Acho incompatível com as coisas que eu acredito. Eu estava falando isso inclusive com o Pai da casa do terreiro que eu frequento. Por que não? No terreiro que a gente frequenta não é feito o corte, e ele também não aceita. E eu falei para ele: "Para mim é incompatível. Se você fizesse, eu não conseguiria estar dentro da casa, porque, para aquilo que eu acredito, não faz sentido que uma entidade que é superior, que está num outro nível, que está elevada, precise do sofrimento de um ser vivo para que alguma coisa tenha força". Eu disse: "Para mim, inclusive, é o contrário. Se você faz um ser vivo sofrer para um trabalho, para mim aquilo diminui a força do que está sendo feito, porque você está trabalhando com sofrimento". Então essas coisas vão se encaixando, e assim é o que eu faço. Para mim tudo isso faz muito sentido. O meu marido come carne, para ele não tem isso, e tá tudo bem. Cada um naquilo que faz sentido na sua cabeça, nos seus processos e nas suas crenças de vida, de tudo. Mas a convivência com eles, para mim, é muito especial. E, de novo, voltando aos gatos, eles têm essa coisa, eles têm uma energia que não dá para explicar. É como eu falo: o Tobias é um gatinho de cura. Em novembro, quando eu sofri o acidente, eu caí, fiquei machucada, o Tobias me acompanhou todos os dias do primeiro mês. Eu deitava, e ele se deitava encostado onde eu sentia dor, ele ficava encostado na minha coluna, na minha costela, porque ele sabia que eu estava sentindo dor e eu não podia andar. Eu levantava, ele vinha, atravessava o meu pé como quem dissesse: "Você não pode estar de pé, você tem que se sentar". Se eu andava um pouquinho, ele me seguia e ficava batendo para me fazer voltar e ficar sentada. Então ele era meu cuidador, e os 4, assim, sempre à minha volta, tipo dizendo: "Você cuida da gente, então agora a gente vai cuidar de você". Meu marido vai fazer uma cirurgia, porque ele tem um problema no estômago, o Tobias dorme na barriga dele o tempo todo, porque é onde ele precisa dessa energia. Se a gente está com enxaqueca, o Tobias dorme… Eu tenho fotos do Tobias com as patinhas assim na minha cabeça, em dias em que eu fui dormir com enxaqueca e meu marido tirou a foto, porque ele falou: "Não dá, parece que ele tá fazendo imposição de mãos para curar, parece que ele faz com as patinhas". Então eles têm essa sensibilidade. Eles sabem quando a gente precisa, eles sabem quando a gente está triste, e eles sabem que só a presença deles já muda esse sentimento. Não vejo minha vida sem eles, não vejo mesmo.
01:08:17
P1 - Sabe que eu fiquei curiosa? De onde veio a ideia do seu marido, de adotar um gato?
R - Não sei. Eu não sei te dizer, não sei de onde saiu, porque foi muito do nada. Eu acredito que na época, minha sogra tinha uma gata que ficava perambulando pela loja, a Nina. Não sei, eu acho que ele viu a Nina e falou: "Vamos adotar um gato”, e eu só falei: "Tá bom”; Mas não foi uma coisa planejada, nós só tivemos um gato, porque ele falou: "Adota um gato” e eu falei: "Tá bom, um gato”. Porque cachorro não cabia no apartamento, a gente tinha tentado ter cachorro, mas não dava, o apartamento era muito pequeno, a cachorra estressou que essa cachorra, inclusive, ainda tá na família, ela fica na minha tia, ela pegou trauma de prédio, se puseram na frente da portaria de um prédio que ela vai entrar, ela entra em desespero, ela odeia condomínio, prédio, apartamento. Aí eu já tinha desistido de ter bicho, eu nunca tinha pensado em ter um gato, a gente tinha tentado ter um peixe, mas o apartamento era muito quente e o peixe morreu, não dava certo também, e eu falei: “beleza, não teremos animais”. E aí conversando no telefone, eu falei: "Ah, tem um gato”, e ele falou: "Adota um gato”. Eu falei: "Tá”. Foi isso, acho que foi uma intuição dele: “Gatos”. “Gatos...
(eu disse:) “ok, gatos”.
01:09:51
P1 - Você estava contando da personalidade do Tobias, de ser um gatinho da cura. E eu queria que você contasse um pouco sobre a personalidade dos outros 3.
R - Então vamos lá. Tobias é o gatinho da cura, mas ao mesmo tempo que ele é o gatinho da cura, ele é o gatinho do caos! Ele é, ele é a mesma pessoa, o mesmo gatinho. Você está doente, ele está do seu lado, ele cura. Quando ele não tem ninguém pra curar, ele corre berrando na casa e derrubando as coisas, porque ele não mia, ele berra, ele parece uma sirene, ele corre fazendo (som de grito de gato) o tempo todo... E todas as coisas que existem aqui, as imagens, são todas coladas, não tem nada solto nesta casa. Todas estão coladas com fita 3M, porque se eu deixar, ele anda estabanado, derrubando esse é o Tobias. Ele abre o armário, ele abre o guarda-roupa e se fecha dentro do guarda-roupa, e eu tenho que resgatar ele porque ele não consegue sair depois. Esses dias ele subiu na estante que eu tenho no quarto, ele quebrou um vaso que eu amava, ele derrubou o vaso, ele derrubou o bibelô, ele derrubou o boneco Funko, um caos, ele fez. Ele faz o caos. Ele já abriu o guarda-roupa, eu já cheguei aqui com vidro de perfume espatifado no chão e ele sentado do lado, felizão porque ele fez aquilo ali. Ele mostra, ele tem orgulho, ele tem orgulho do que ele faz. A Carlota é a rainha. Carlota é a nossa rainha, ela é a dona da casa, ela é a dona de tudo. Ela julga todo mundo que entra nessa casa, ninguém pode botar a mão nela, exceto o pai dela. E ela não se mistura com a gentalha, com nenhuma gentalha, humana ou felina. A Carlota vive no mundo dela, no mundo superior, Carlota é tão superior que às vezes ela evita andar no chão. Sabe aquela brincadeira em que “o chão é lava”? O chão, pra ela, é lava, ela pula de coisas em coisas para não pisar no chão que a gente pisa, porque jamais ela vai sujar as patinhas dela pisando no mesmo chão que a gente pisa, né? Carlota é rainha. O Haroldo, ele é o meu supervisor, me acompanha. Haroldo, meu supervisor. Às vezes eu brinco que ele é meu gatinho obsessor, porque ele tá sempre grudado em mim. Sempre, eu falo que se eu tenho um obsessor nessa vida, é esse gato. Haroldo, eu trabalho com ele olhando para minha cara, olhando, mas, ele fica assim: “Ó, estou te vendo, mana”. De manhã cedo ele percebeu que eu suspirei para abrir o olho, ele já vem de onde ele estiver, corre e pula em cima de mim e fica assim, batendo com a patinha: "Oi, fome… sachê”. Eu não preciso abrir o olho, eu dei aquela virada de acordar e ele já fala pronto, é agora, e ele vai. Se eu estou tomando banho, ele se deita no tapetinho e fica esperando eu sair. Se estou no banheiro, ele está do meu lado, assim, na pia, olhando para ele, ele é meu gatinho obsessor, né? Assim dá para fazer essa série: “Meu gatinho obsessor, eu com o Haroldo”. O Romeu é o gatinho da galera, o Romeu, eu falo: "Gente, ele só é meu porquê sou eu que cuido, porque ele é do mundo, ele é de todo mundo”, ele brinca com todo mundo, ele brinca com todo bicho. Ele gosta de gato, de cachorro, ele caça a mosquinha. As crianças vêm aqui e perguntam dele e ficam: "Tia, e o gatinho? E o gatinho?” E se ele vir uma criança, ele ama, bagunça com as crianças. Outro dia eu desci com ele, ele foi brincar de pega-pega, muito bonitinho, com as crianças: "Tá com você, Romeu”, e eu batia nele e ele corria atrás delas. Brinca com os senhorzinhos do prédio, se abre a porta de outro apartamento, ele entra, ele invade os outros apartamentos, porque o Romeu, o mundo do Romeu é assim. Eu fico muito feliz de vê-lo assim, o que ele sofreu com os maus tratos, e ainda assim; A gente tem que aprender, porque com tudo o que aconteceu com ele, ele não perdeu a capacidade de amar, e ele ama incondicionalmente, ele não tem mágoa. Ele não tem nada disso, esse verão ele teve um momentinho dele ali, que ele podia ter, porque eu sei que ele lembra. "Ele é um gatinho que só ama, que é feliz” - E é o que eu faço, a gente tem tudo para aprender com eles: "Desde como lidar com o próximo e entender o espaço do outro, até entender que, ok, tá tudo bem se às vezes você não estiver com vontade de estar perto, precisa esperar, porque tudo vai ter o seu momento. Entender que, mesmo com tudo o que aconteceu, ele é feliz, ama e não deixa isso estragar a vida dele”; ele é contente. Ele é um gatinho para quem está tudo bem. Tem a caminha dele, a comida dele... porque o bichinho come, come, não deveria, mas come muito. Ele está feliz assim. Estando tudo limpinho, arrumadinho, no lugarzinho, é o que importa. É por isso que eu falo que ninguém precisa ter dó dele: ele está bem. E aí, ter gato, é isso: entender todas essas coisas e aprender a amar de um jeito diferenciado. Aprender a amar nas diferenças, porque eu tenho 4 gatos completamente diferentes um do outro, e todos eles amam incondicionalmente, cada um do seu jeitinho, com a sua personalidade. Eu aprendi a amar cada coisinha de cada um deles. Na ONG, a gente tinha muito problema com isso, porque às vezes vinham pessoas adotar e falavam: "Ah, mas eu quero um gato de colo”. Eu falava: "Então, mas não é você que vai decidir se o gato é de colo! Ele vai decidir, se ele é um gato de colo, ele sabe da personalidade dele”. Quando as pessoas iam para adotar filhote. Eu falava: "Você não vai saber a personalidade dele, sendo filhote, você quer um gato com a personalidade X? Você tem que adotar já adulto”. E muitas vezes as pessoas não entendem isso porque elas querem doutrinar o gato como se adestra um cachorro. “Ah, mas não dá para adestrar gato, porque ele vai aprender tudo e vai fazer só se ele quiser fazer”. Não é porque ele não aprende, ele aprende, entende tudo o que você está falando, a diferença é que ele só vai fazer se ele tiver vontade. Não é como o cachorro que obedece a um comando, para o gato, o comando é da cabeça dele, se ele falar não, é não, e acabou... e até teve um caso, um dos últimos casos que a gente teve, dos últimos que foram adotados, que eu achei muito legal, porque nós tínhamos uma ninhada, a maioria bonzinhos, mas tinha uma cinza, que se a Carlota é brava, aquela gata era 20 vezes mais brava que a Carlota. Ninguém botava a mão naquela gata sem perder um pouco de sangue. E foi um casal lá adotar, e aí a moça falou assim... E o rapaz tinha se apaixonado nela, e ela falava: "Ah, mas ela é brava, ela brava, vamos pegar outro”. Ele falou: "Não, vamos levar ela, porque se a gente deixar ela aqui, ninguém vai querer, porque ela é brava”. Aí eu falei: "Legal, mas você sabe que vão ter que ter paciência”. Ele falou: "Não tem problema”. E ele falou exatamente: "Eu vou levar, porque senão ninguém vai adotar ela”; e 2 meses depois, quem está dando a barriga? A gata brava, a gata brava dorme na cama. Na primeira semana ela falou: "Cris, a gente vai chamar ela de Fúria” e tal, e Fúria morreu, Fúria acabou, de Fúria ficou só o nome. Dorme na cama, é apaixonada por ele, pelo rapaz. Ele trabalha, ela fica tipo o meu obsessor (Haroldo), ela fica do lado, apaixonada pelo pai dela. Já dorme abraçada no outro gatinho, brinca. Aí eu falei: "Tá vendo? Só precisava de uma chance de entender”, por que muitas vezes os animais que a gente recebe, tem um outro que foi adotado, e que chegou feral pra gente, feral assim de ninguém (conseguir encostar). Você vai ver, hoje eu fui contar pra menina que adotou que ele, que ele era feral (gato selvagem, gato abandonado ou gato de rua) e ela falou: "Mentira, imagina o Chico! O Chico é um bobão”. Eu falei: "Quando Chico chegou, Chico era feral, ele não deixava (tocar)”. Mas nesse processo de adaptação eles entendem que existem seres humanos em que dá para confiar, e é o que a gente sempre fala tudo o que eles precisam é uma chance de entender o que é ter uma casa, o que que é ter um ser humano que cuida, né? O que é ter um lugar quentinho para ficar para dormir. E quem dera todos pudessem ter, né? E como todos não podem ter, a gente faz o processo de castração na ONG, justamente para que não tenham tantos esperando para ter. Mas é isso, e ter gatos com personalidades diferentes é legal por conta disso. Sim, a gente vai se adaptando às situações, na hora de dormir, os frajolas dormem com a gente, a Carlota só dorme quando tá frio. Mas a Carlota dormir na cama você não pode encostar nela, porque se relar nela, ela não quer ficar perto de você. Ela quer ficar perto, mas não pode encostar. Então eu tenho que entender que se ela vai mais pro meu lado, eu tenho que ficar imóvel, porque se eu relar nessa gata, ela sai. Os frajolas não, um dorme em cima da minha cara... O Haroldo gosta de dormir abraçado, tipo ursinho, e assim vai. O Romeu não gosta de dormir na cama, às vezes eu tento colocar, mas ele odeia dormir na cama, ele gosta da cama dele. E como eu falei lá no começo, que eu tinha meu horário de dormir, o Romeu tem o dele, o Romeu deu um determinado horário, esse gato some, e você esquece o Romeu, porque é horário em que ele se enfia na toquinha lá de dentro e dorme até o outro dia. Assim que deu determinado horário da noite e você viu que o Romeu sumiu? É porque deu o horário de dormir dele, e ele foi para a caminha dele. E eles tem as manias deles, o Romeu gosta de dormir nas caminhas dele, e ele tem essa caminha em que ele está na varanda, é a do dia, porque ele fica na varanda, as vezes bate um solzinho, ele toma um solzinho, esquentou muito, ele vai para a toquinha e assim ele vai, porque ele é o gatinho do sol. Carlota gosta muito da lavanderia porque lá ela tem água, comida, caminha para dormir a caixinha de areia e não precisa conviver, então ela fica lá, é o pequeno reino dela, porque ela não gosta de conviver com os outros. O Haroldo está sempre onde eu estiver, ele está. E o Tobias, depois que a gente trocou de sofá, este sofá é o reino dele, o Tobias se estica aqui… e o Tobias não parece tão grande, mas ele é maior que a Carlota. Ele é muito comprido, só que ele é magrelo, então ele se estica aqui, ele ocupa metade do sofá. E ele ama esse sofá. Eu falo: "Gente, eu já tive um monte de sofás com ele, ele nunca amou nenhum sofá, mas por esse especificamente, ele é apaixonado”. Então, assim, cada um tem o seu pequeno reino. E assim são os 4.
01:20:55
P1 - E no momento da alimentação, como é que eles são? Como é que eles agem?
R - Na ração seca eu tenho os potinhos, que ficam pela casa e eles vão comendo no tempo deles. Tenho 1 (pote) só no chão, que é para o Romeu. E por que só 1? Porque se eu deixar mais de 1, ele come tudo... Então, para conseguir controlar o peso dele, quando ele chegou eu tinha 3 potes no chão, porque eu sempre deixo vários potinhos espalhados. Só que ele devorou a comida dos 3 potes... Eu falei: "Filho, tinha comida na ONG, você comia”. Mas ele come tudo, então eu tive que reduzir pra 1 pote, para poder controlar, senão o gato não ia se arrastar, ele ia rolar, né, de bolotinha. E aí o que eu percebi também? Por que eu tive que tirar alguns potes do chão? Nos 3 primeiros dias em que ele estava aqui, a Carlota não comeu, porque ela não queria comer no pote em que ele tinha comido. Ela ficou 3 dias sem comer, e aí eu falava: "Jefferson, a Carlota tá com fome”, ele falou: "Não, imagina”; Eu falei: "Ela tá com fome”; e no que eu tirei um pote do chão, lavei e troquei a ração para tirar o cheiro dele, ela comeu. Então, hoje eu tenho 1 no chão e 2 no alto, dos 2 no alto, ela come em 1, que fica lá na lavanderia para ela, o outro fica na cozinha, e o do Romeu, fica perto da caminha dele, porque eu deixo tudo mais perto para ele, ele anda pela casa toda, mas para ele, eu tento facilitar um pouco a vida. A ração úmida é a minha gincana diária, porque o Haroldo come muito, então eu não posso dar tudo para ele de uma vez, porque ele come o dele, engole o dele, pra comer o dos outros. Então eu vou, e vem todo mundo atrás de mim, menos a Carlota. A Carlota jamais vai se humilhar indo pedir comida. Então a Carlota fica onde ela estiver, porque ela sabe que eu vou levar pra ela. E aí, vem os 3 atrás de mim, aí para o Haroldo eu dou um pouquinho, aí eu faço o do Romeu, porque o dele vai com remédio pra dor, aí eu boto o do Romeu, e eu volto no Haroldo, dou mais um pouquinho para segurar ele no pote, e faço o da Carlota, porque o dela é com água, já é úmido, mas eu tenho que esmagar com um pouquinho mais de água, ela gosta, bem líquido, aí eu levo pra ela, e volto correndo, boto mais um pouquinho pro Haroldo, e vou dar o do Tobias, porque o do Tobias, ele primeiro cheira, aí ele sente o sabor daquela geleia que vem junto, aí ele vai lamber o do pote. Aí eu volto com Haroldo, e dou mais um pouquinho para segurar ele enquanto os outros estão comendo. Então, é assim: um pouquinho pro Haroldo, o do outro, um pouquinho pro Haroldo, o do outro, um pouquinho pro Haroldo, e o do outro... E aí tudo o que sobra o Haroldo come... Todos os dias, todos os dias, é exatamente desse jeito.
01:23:47
P1 - E entre eles, você estava contando um pouco como foi a adaptação entre eles, né? Mas hoje em dia, como é que eles convivem?
R - O Haroldo, o Tobias e o Romeu brincam o tempo todo. O Tobias é o mais integrado com os 3, entre os 3 juntos, o Tobias brinca com os 2, o Haroldo e o Romeu brincam de vez em quando, mas o Haroldo é mais amigo do Tobias, e o Romeu é muito amigo, todo mundo é amigo do Tobias, entendeu? E eles correm, o Tobias brinca de lutinha com o Romeu e gira ele no chão. Um dia meu marido falou: "Aí, tadinho”. Eu falei: “Deixa que ele tem que aprender a se defender, ele tá aprendendo a viver no mundo real”, e gira ele. Aí o Romeu corre, morde ele, e o Tobias é bonzinho, o Tobias deixa Tobias, se deita para brincar com o Romeu. É muito bonitinho, ele se deita, quando ele vê o Romeu vindo, ele se deita para ficar na altura, e fica brincando com Romeu no chão. É muito bonitinho. E eles três brincam muito entre si, o Haroldo e Tobias são quase irmãos gêmeos, mesmo não sendo irmãos gêmeos, dormem juntos, estão sempre enrolados um no outro. E a Carlota vive no mundo dela, quando eventualmente ela quer brincar, ela só brinca com Tobias. Com o Haroldo, ela não se cruza com Haroldo, então com Haroldo não se cruza assim na nossa frente, porque eu já cheguei em casa e vi os dois dormindo um do lado do outro. Aí eles olharam para nossa cara do tipo: "Nossa, o teatro acabou, vamos brigar”. E aí na nossa frente eles brigam e a gente deixa a câmera às vezes, e eles aqui dormindo um do lado do outro, passando um do lado do outro sem nem ligar. A gente chega e eles brigam. Aí eu falo: "Ah, eu já sei a encenação que vocês estão fazendo”. Com o Romeu, ela não brinca, mas ela não briga, quando ele vem, e ele ama correr atrás dela, ele ama correr atrás, é muito engraçado. Teve um dia que ele ficou aqui e ela vinha da cozinha, ele ficou atrás da parede aqui, esperando ela vir, aí ela aparecia e ele corria atrás dela. Ela voltava pra cozinha e ele vinha e se escondia. Ele fez isso umas 5 vezes. Eu falei: "Filho você não vale 1 centavo, né?” Ele ama correr atrás da Carlota, mas ela não briga com ele. Quando ele corre atrás, ela sobe num lugar alto, onde ela sabe que ele não vai conseguir pular, e só fica olhando para ele do tipo “quem você pensa que é? O que você pensa que você está fazendo, né?”. É assim. Então os 3 machos se dão bem, e ela vive no reino dela como uma superior a todos, porque ela sabe o lugar dela, que é a dona de tudo.
01:26:28
P1 - É a mais velha.
R - É a mais velha, ela é a alfa, é a dona da casa, ninguém mexe com a Carlota e todo mundo ama a Carlota, todo mundo ama a Carlota! Todo mundo é louco pra mexer na Carlota e eu sei que ela nunca vai deixar por conta disso, que ela não vai atender os desejos dos súditos.
01:26:46
P1 - E teve algum momento muito difícil que você passou com eles? Não necessariamente da vida deles, mas da sua vida.
R - Eu acho que os dois momentos, assim, foram justamente quando a Carlota veio, na época que eu tinha as crises de pânico, foi quando ela... porque ela me salvou mesmo. Foi ela que deu início ao meu processo de cura. Então, por mais que nenhum seja “o preferido”, eu tenho uma coisa diferente... Por mais que eu não seja a preferida da Carlota, a Carlota ela tem... assim, é como eu disse, hoje eu consigo ter uma sensibilidade de entendê-los também. E eu olho sempre para a Carlota com esse olhar: Se ela virou a orelha (do jeito) errado, eu falo para o meu marido: “Tem alguma coisa errada com a Carlota”. Eu tenho isso com ela. Então foi nesse momento, e no ano passado, quando eu sofri o acidente, de ver o cuidado deles comigo. E realmente eles... eles têm uma sensibilidade única. Então, acho que esses foram os dois momentos que mais marcaram."
01:28:02
P1 - E tem alguma situação inusitada que você queira contar, ou um momento inusitado?
R - Ah, eu só vivo momentos inusitados com eles, a vida com eles é um momento inusitado. Eu nunca vou esquecer, uma vez. Eu só tinha a Carlota e o Tobias, no outro apartamento e eles têm uma rotina, e a gente segue a rotina deles. Então minha rotina eu acordava, eu ia para o banheiro, e o Tobias ia comigo tomar água. Teve um dia que meu marido chegou mais tarde do trabalho, por essa coisa de implantação de sistema, ele chegou na madrugada, eu já estava dormindo, os gatos estavam dormindo. Beleza. Acordei no outro dia, fui ao banheiro: “cadê Tobias?”. Comecei a procurar o Tobias, meu marido dormindo, aí eu chacoalhei ele, e eu falei: "O Tobias fugiu”, e ele falou: "Não”. Eu falei: "Você deixou meu gato sair quando você chegou”. Ele falou: "Cris, eu estava aqui dentro, gata”. Eu falei: “Mentira. Mentira, o gato fugiu, o gato fugiu, o gato fugiu”. O apartamento tinha 23 metros quadrados. Não dava para eu procurar e não achar o gato. E nisso eu comecei a chorar, eu de pijama, desesperada, ligando na portaria pedindo gravação do corredor para ver para onde o gato tinha ido. Meu marido: "Chris. Eu fechei a porta, o gato estava aqui dentro”. Eu falei: "Mentira, você deixou meu gato fugir”. Ele falou: "Vamos procurar de novo?” Eu falei: "Tá bom”. Procurei embaixo da cama, abri o guarda-roupa, abri o armário... e eu tinha uma cômoda com 4 gavetas que estavam as quatro fechadas, e não sei o que me deu na cabeça, eu parei e falei: “deixa eu abrir as gavetas”. Abri a primeira gaveta: nada. Abri a segunda gaveta: ele “pleníssimo”, dormindo assim, ó. Aí eu me acalmei e fiquei pensando: “como é que esse gato foi parar nessa gaveta? Na segunda gaveta fechada” Passaram uns dias, eu descobri, e ele fez isso na nossa frente. Ele subiu no encosto do sofá, abriu a primeira gaveta, entrou, desceu por trás da gaveta e conforme ele entrava na debaixo, ele fechava a de cima e lá ele ficava. Aí eu falei: “Gente do céu! Agora eu entendi”. Depois disso, eu aprendi que eles podem estar em qualquer lugar. Quando a gente mudou para um apartamento maior, o meu medo era perder o gato dentro do apartamento. Porque eu falei assim se em um de 23m2 eu consegui perder, no de 70m2, nunca mais eu vejo meus gatos. E aqui, vira e mexe acontece isso. Por exemplo, existe um lugar onde o Tobias se esconde que eu não sei onde é, e que quando ele se esconde eu não acho. Ele aparece só quando ele quer, só quando ele quer. No segundo apartamento, o Tobias sempre dá dessas, teve um dia em que a gente estava tirando umas malas para emprestar e tal, não sei o quê. Vamos procurar o gato, cadê o gato? Não acha o gato. Aí, de novo: “O gato fugiu”. Descemos, perguntamos na portaria, subimos, subi 15 andares e desci pela escada porque achei que ele foi pela escada de incêndio. Daqui a pouco entramos no apartamento e vem ele, todo pleno ali, tipo: "O que está acontecendo? O que está acontecendo, senhores?”. Tinha se enfiado dentro da mala, ficou lá dormindo um tempinho, daqui a pouco saiu por uma frestinha de zíper, e seguiu a vida. Aqui já aconteceu também, no dia em que eu mudei (ouve-se um ruído alheio à entrevista) é algum deles brincando, esses barulhos são eles derrubando a casa, porque é o que eles fazem aqui. No dia que eu mudei, estou aqui com meu sogro, só que depois de todas essas vezes, eu já entendi... Eu sei, e o que eu faço? Eu confiro as telas, se não tem tela roída, eles estão dentro do apartamento, eles vão aparecer, agora eu já consigo me acalmar. No dia em que eu mudei, saímos, voltamos e tal. “Cadê o Haroldo?” Meu sogro começou a procurar o Haroldo, e eu falei na hora: "Tá aqui em algum lugar. Meu sogro: "Não. Meu Deus! O gato fugiu. Gato fugiu. Gato fugiu”, no fim, ele se enfiou num nicho lá em cima, e eu só achei porque saiu um teco de pata para fora. Aí eu falei: "Ele tá lá”. Meu marido também, um dia, eu viajando, ele me ligou desesperado: "Cris, o Haroldo sumiu, eu falei: "Já procurou embaixo da cama? Ele: "Não, ele não tá lá”. Eu falei: "Pega a lanterna e joga embaixo da cama, onde não for o pé, é o Haroldo”. Ele: "Não, não é, não é, não é”. Eu estava no litoral, eu falei: "Eu vou ter que sair daqui e ir até aí para procurar o gato, né?”. Daqui a pouco ele me liga: "Ele estava embaixo da cama”. Eu falei: “então”. E aí a menina que limpa aqui, ela vem cuidar deles, a Fabi. Eu sempre falo para ela, toda vez que eles arranjam um esconderijo novo, eu falo: "Fabi, esconderijo novo”; porque senão, antes de ir embora ela passa 40 minutos procurando. Ela já perdeu a hora de ir embora procurando os gatos. Ela fala: "Cris, eu conto se eu não acho, eu fico procurando”. Então ela já passou 40 minutos procurando o gato dentro dessa casa. Então toda vez que aparece o esconderijo novo eu fico: "Fabi, procura aqui, procura ali”. Então assim a gente só vive situações inusitadas. E o Romeu, que já invadiu todos os apartamentos do andar, que não pode ver uma porta (aberta), no Halloween quer ir embora com as crianças? As crianças vieram pedir doce no Halloween: "Tia, cadê o gatinho?”. Eu tinha fantasiado ele de tubarão, no que eu fui mostrar o gatinho, o gatinho Romeu já estava no meio das crianças, lá, curtindo, pedindo carinho, andando com elas, e a gente, entregando os doces. Nisso, uma delas abriu a porta da escada e foi, e o Romeu foi embora junto com elas. Eu só vi uma delas gritando: "Gente, o gatinho não é para ir”. Eu larguei tudo, eu falei: “Gente, o gatinho não é para ir, devolve o gatinho. O gatinho não faz parte dos Doces ou Travessuras”. E assim são eles, só a situação, só vivo situação inusitada, só. Não tem outra coisa aqui para viver.
01:33:54
P1 - Eu queria que você contasse um pouco como a Umbanda entrou na sua vida.
R - A Umbanda entrou na nossa vida em novembro de 2024, eu nunca tinha frequentado a Umbanda, eu sempre fui católica, mas eu nunca tive problema com nenhuma religião. Sempre fui muito aberta, sempre escutei tudo, e eu sempre fui uma pessoa que a espiritualidade sempre fez muito parte da minha vida. Então, eu sempre fiquei muito aberta aos chamados. Assim como eu disse, que lá na minha adolescência eu senti um chamado para estar no crisma, eu entendo que a gente teve um chamado espiritual para Umbanda. Eu estava com meu marido em Natal (RN), estava de férias e no último dia de férias a gente foi visitar um shopping de artesanato, quando eu estava entrando no shopping de artesanato, eu olhei para vitrine de uma loja, e tinha um casal de Pretos Velhos, que é o que está na estante ali atrás. Na hora que eu bati o olho neles, eu falei para o marido: "Falei eles estão pedindo para ir embora comigo”. Aí ele me olhou assim, e ele falou: "Não, a gente acha outro”. E andamos naquele shopping de artesanato e ele me mostrando e eu falava: “não”. Ele me mostrava um monte de casais de Pretos Velhos, e eu falava “não”. E aí ele quis entrar numa loja que, por um acaso, era a loja que a vitrine estava para fora, e a gente não sabia, a hora que eu entrei e que eu olhei eles, eu falei: “Jefferson, eles querem ir embora comigo”. Ele falou: "Tá bom”, e compramos o casal de Preto Velhos, e eu falo pro meu marido, que foi a avó dele, e só depois, ficamos sabendo, que a avó dele era da Umbanda, e ela incorporava uma Preta Velha. E a avó dele era a personificação de uma pretinha velha, baixinha assim. E eu era apaixonada por essa vó dele, na hora em que eu vi o casal de Pretos Velhos, a primeira pessoa que me veio à mente foi a vó dele. E eu falei Jefferson: "Foi sua avó que mandou, foi sua avó”. E ele só escutou... Beleza, a gente veio, eu vim com eles no colo, porque eu falei: "Eles têm que vir comigo, são meus”, não sei o que aconteceu. Eu falo que foi muito um chamado... E trouxemos o casal de Pretos Velhos aqui, feliz da vida e tal. E a minha afilhada, ela é da Umbanda, ela já é desde a infância. E eu falei: "Ju”, isso era finalzinho do ano, o terreiro estava em recesso. Eu falei: "Quando voltarem eu quero ir conhecer”, porque eu nunca tinha pisado num terreiro. E aí nós frequentamos algumas giras no terreiro dela e, por coincidência, isso foi em 2025, aqui na rua tem uma casa ali para frente, que por 20 anos foi uma igreja das Testemunhas de Jeová. Por 20 anos, a casa foi construída para ser um templo das Testemunhas de Jeová e por 20 anos foi o templo das Testemunha de Jeová. Até que saíram daqui, venderam a casa e puseram para alugar. Quem alugou? Um terreiro de Umbanda, foi do Testemunha de Jeová para o Terreiro de Umbanda, e beleza. Um dia, eu passando na porta, eu vi que tinha saído a placa de aluguel, tinha uma outra plaquinha, aí, a gente que usa óculos, né? E eu pensei: "Deixa eu ver o que virou isso aqui, né?”. Aí eu falei: “Olha, um Terreiro!”. Liguei para o meu marido, e falei: "Você não sabe”, ele falou: “O que?”, (eu disse:) “aquela igreja virou terreiro”, ele falou: "É?”, eu falei: “É”. Comecei a seguir nas redes sociais, nós estávamos indo nas giras, só que as giras na outra eram de quarta feira à noite, então a gente às vezes não conseguia chegar e tal. E naquele sábado, eu vi que ia ter uma gira de Obaluaê (Orixá da morte e da cura) de sábado aqui. Eu falei: "Vamos", e ele falou: "Vamos”. E aí a gente passou a frequentar as giras aqui, nisso ia ter um curso de introdução à Umbanda, isso tudo foi no ano passado. A gente ainda tá muito recente na Umbanda. Eu fui fazer (o curso) a introdução à Umbanda para poder entender mais da religião, mas, assim nas giras já tinham ajudado muito a gente. Meu marido já tinha começado a fazer o desenvolvimento mediúnico, porque ele tem essa mediunidade nele desde criança. Ele só não tinha trabalhado isso ainda, e entendendo o fundamento da Umbanda em si, eu tive uma conexão muito grande, porque o fundamento da Umbanda é amor e caridade. E é o que eu falo, às vezes, para o pai da casa: "Faz muito sentido com aquilo que eu acredito, de você devolver para o mundo aquilo que você recebe”. Eu e meu marido não somos ricos, não somos milionários, mas a gente tem muito a agradecer na vida. Então toda vez que eu faço um trabalho social, é justamente porque a gente precisa devolver aquilo que a gente recebe, e a Umbanda casou muito com isso, daí eu fiz o curso de introdução e demos início ao desenvolvimento mediúnico aqui, que o meu marido faz. Hoje nós somos filhos da casa que é a “Casa Luz da Lua”, do Pai Fábio. E é uma casa de Obaluaiê, que é um orixá de cura, é uma casa que traz muito isso, de ser um ambiente de paz, de calma, de acolhimento, né? E pra gente tem feito muito sentido, tem feito cada vez mais sentido a nossa entrada nessa religião. Lógico que a gente tem muito ainda para aprender, a gente ainda está estudando, estamos entendendo os fundamentos. Mas é o que eu falei no começo, entender o chamado neste momento da nossa vida, o chamado é para estar ali. Pode ser que em algum momento isso mude, pode ser. A gente não sabe, mas o chamado era para estar ali. E eu falo muito para o meu marido: "Foi sua avó que entendeu o que a gente tinha que estar ali e mandou a gente para lá, quando ela mandou os Pretinhos Velhos para mim”, e eu falo: “ela mandou para mim, porque ela sabe que você talvez não fosse escutar”. Porque meu marido ia olhar e achar lindo e ia seguir a vida, e quando eu vi, eu sabia que eles tinham que estar aqui. E desde que eles estão aqui, e eu não acredito em coincidências muita coisa passou a fazer mais sentido. Muita coisa do passado começou a fazer sentido, como o que eu contei, da passagem da minha avó, que eu escutei que ela não estaria mais aqui. Eu sei que já eram as minhas entidades me avisando, eu só não sabia que era isso. Então faz muito sentido muita coisa, conforme a gente vai aprendendo, que a gente vai entendendo, que a gente vai se aprofundando. Faz mais sentido do que em outras religiões. Não desmerecendo nenhuma outra religião, cada um acredita e está onde tem que estar, por estar à vontade ali. Mas acho que por ela ser uma religião fundamentada na nossa origem brasileira porque hoje, estudando e aprendendo, a Umbanda, ela é a religião brasileira, ela é a religião que mistura as religiões, ela traz a sua base do Candomblé, ela traz a sua base do Espiritismo, ela traz a sua base do Cristianismo, mas ela é a religião brasileira, traz a experiência dos Pretos Velhos, que foram os escravos, ela traz toda essa força do Caboclo e do Indígena, que são a nossa origem, então, ela faz muito sentido para a nossa realidade. Hoje, a gente sente que está realmente no lugar certo. E sim, pra gente, é lógico temos que continuar aprendendo, mas ali é onde eu consigo unir esse lado espiritual, e esse outro meu lado, que é o da caridade. A minha própria terapeuta, quando eu falo com ela, ela fala: “Cris, eu não vejo você na vida sem isso, porque isso está intrínseco, é você”. Ela fala: "Sempre que você me fala alguma coisa, você traz isso”. Porque isso é muito real para mim, só faz sentido tudo que a gente faz, se a gente puder olhar para o outro de alguma forma. Então, assim eu faço o trabalho, na “Miados” (a Ong Miados Urbanos), aqui no terreiro a gente faz muita campanha de arrecadação de alimento, de roupa, de item de higiene pessoal, de tampinhas, para entidades que atuam aqui. A gente tem “GiraPet” algumas vezes por ano, então a gente vai fazer campanha de arrecadação de ração e sachê para os protetores que eu ajudo na ONG. A gente faz campanha para entidades que ajudam pessoas com deficiência. Então você conseguir unir tudo isso, porque precisa de um propósito, senão esse meio de caminho, porque a gente está esperando, a gente vive esperando o final, né? Esse meio de caminho ele fica sem sentido, e assim uma coisa de uns anos para cá, que eu tenho entendido, que a espiritualidade me faz ver isso com mais clareza que quando eu chegar lá no final, que eu não sei aonde vai ser. Que pode ser amanhã, depois, ou daqui 40 anos, não sei. Eu quero olhar para trás e falar: "Fiz o que tinha que fazer, vou embora em paz. Fui feliz, vou embora em paz”. Eu não quero ir embora com arrependimento, pensando que poderia ter sido diferente, poderia ter feito alguma coisa. Não, eu estou fazendo, por que é isso? Assim, esse meio de caminho, ele tem que ter um sentido, porque a vida é vazia, né? A gente é que dá o propósito para ela. Então, assim, eu entendo que existe esse propósito no meio do caminho. E a Umbanda entrou para complementar isso e tem sido muito legal pra gente estar lá, ter encontrado outras pessoas que compartilham desse mesmo pensamento, que compartilham desses mesmos propósitos. Então, foi uma grata surpresa que veio num chamado assim repentino.
01:44:01
P1 - E eu queria saber como é seu dia a dia hoje?
R - Aí meus dias, meus dias... Vamos aos meus dias, eu trabalho de casa, eu sou autônoma, eu tenho minha própria empresa e eu tenho os meus clientes que eu trabalho na Gestão de Marketing, né? Eu faço Gestão de Marketing 360, então eu cuido de redes sociais, posicionamento na mídia, tom de voz, tudo relativo ao marketing das empresas, eu cuido. Tenho meus clientes no dia a dia, normalmente eu estou em casa, eu e os gatos, eles são meus companheiros de trabalho, e, é bom tê-los por perto, porque eles me lembram de fazer umas pausas, porque eventualmente assim tô trabalhando, vou trabalhando infinitamente. O Haroldo sabe qual é o horário do almoço, então ele vem dar uma batidinha aqui, tipo: “vamos almoçar”, porque aí eu tenho que dar o almoço dele e já paro e faço o meu. Eles me lembram de descansar de vez em quando, do tipo: “vamos dar aquela pausinha do descanso, né?”. E então, meu dia a dia é mais com eles, me levanto cedo, cuido do Romeu, porque o Romeu exige uma rotina de manhã. Assim eu preciso recolher o cocozinho que ele faz, passar o pano na casa toda porque ele faz xixi, e eu preciso tirar do meio do caminho para ele não se arrastar, limpar as caminhas dele, trocar os tapetinhos, recolher paninho, colocar para lavar, dar o banho nele, que ele precisa tomar banho. Então, a minha manhã é deles, dar comida, limpar as caixinhas, são 2 horas pela manhã dedicada a cuidar dos gatos. Cuidei dos gatos, vou cuidar da casa, trabalhar, fazer minhas coisinhas, né? O dia a dia normalmente é esse; de quarta feira, é um dia em que normalmente eu não fico em casa porque faço terapia à tarde, presencial. Um dos meus clientes fica próximo ao consultório da terapia, então eu aproveito para ir lá resolver algumas coisinhas presenciais, porque às vezes eu preciso puxar o pé de alguém, e é realmente puxar o pé mesmo tipo um encosto assim para ver se sai... Então, quando eles me vêem, eles ficam tipo: “ A Cris veio... Porque a Cris é brava”, então eu vou lá, fico por lá resolvendo o que preciso resolver, faço terapia, volto e aí a gente vai para o Terreiro, a gente faz desenvolvimento à noite e essa parte vai até mais uns 2 meses para o desenvolvimento. Depois vão começar as giras de cura, às quartas feiras, nessas eu não vou participar porque eu já atuo na de sábado e eu optei por não participar das duas. Então essa é mais ou menos a rotina da semana. No final de semana, a gente trabalha na gira de Umbanda, então é isso, leva a tarde de sábado toda, porque a gente tem todo um preparo antes, tem que se concentrar, ajudar a arrumar a casa. As giras são longas, até ter todos os atendimentos, então nós ficamos lá das 13h00 até umas 20h00. Mas quando dá umas 20h00, a gente nem sente, quando a gente viu: “Opa, já acabou, vamos embora para casa”. Porque você tá tão envolvido ali na atmosfera, no trabalho, no acolhimento das pessoas. Estar lá e trabalhar no atendimento, como Cambone (Braço direito do médium, facilitador), faz a gente perceber o quanto as pessoas estão carentes de atenção. A maioria das pessoas que vai lá, só precisam de uma escuta e de um abraço. E está todo mundo tão olhando para o próprio umbigo, que não conseguem olhar para o outro. É só falar um: "Oi, você tá bem?”. Às vezes a pessoa não precisa nem falar o que ela tem, ela só precisa saber que alguém se importou de perguntar. E a gente vê isso nos atendimentos lá. As pessoas só querem que alguém olhe no olho delas e pergunte: "O que você quer falar?” É só o que elas precisam, e o que eu vejo lá, nos atendimentos, é que falta acolhimento. E com a internet, celular, redes sociais, o mundo indo nessa velocidade, a gente está perdendo isso de olhar para o outro um pouquinho, parar e falar: “e o outro,?”. No domingo, ou nós ficamos em casa, ou vamos na minha sogra, ou vamos na minha mãe, ou passeio, ou faz tudo isso no domingo, só, né? ou passeia, vai na minha mãe, na minha sogra e fica em casa, nas horas do domingo. Às vezes domingo é pouco, mas a gente faz tudo isso... E eventualmente, durante a semana, se precisa ir a um cliente, eu vou. Uma amiga liga e fala: “vamos no Busca-Busca?” (loja de varejo e atacado, localizada no bairro do Brás), eu paro tudo e falo: “vamos ao Busca-Busca”, (elas dizem:) “mas você não precisa trabalhar?”, (eu digo:) “Preciso, mas eu acho que eu preciso mais ir no Busca-Busca”, porque a minha rotina me permite essa flexibilidade. Então às vezes eu me dou essa permissão: "ok, se nesse momento da minha vida eu posso ter uma rotina mais flexível, que me permite tirar uma quinta-feira de manhã e bater perna no Brás com uma amiga para dar risada e conversar, eu vou fazer isso. Porque, de novo: o trabalho é importante, eu amo o meu trabalho, eu gosto tudo que eu faço, eu sei o quanto eu preciso disso, mas eu não quero chegar lá no final, e olhar para trás e pensar: "só trabalhei e não fiz mais nada, não tirei um momento de folga, de descanso para ser feliz”, então, assim eu me permito de vez em quando. Se eu tiver que trabalhar, depois até de madrugada, eu vou trabalhar até de madrugada feliz. “Ah, tá sol”, tá aquele sol de 500 graus, é terça feira, e eu tô em casa, eu desço 10 minutos na piscina, eu dou um mergulho, gente, são 10 minutos, não vai matar o meu dia descer, dar um mergulho, tomar lá uns 10 minutinhos de sol e voltar para trabalhar. Hoje eu me permito ter uma rotina, que o pessoal brinca, e diz: “nossa, é rotina de mulher rica”, eu falo: "Não é de mulher rica, porque se fosse a rotina de mulher rica, eu iria todos os dias lavar o cabelo no salão”, ainda não posso fazer isso, essa é a minha meta: não lavar mais o cabelo em casa, falar: “ó, hora lavar o cabelo, bora para o salão”, e ficar lá sentadinha com alguém lavando meu cabelo. Então, ainda não estou nesse ponto, mas se eu posso ter um momentinho, é um mergulho na piscina, tomar um café com uma amiga, eu vou fazer, e depois eu vou sentar e vou trabalhar todas as horas que eu precisar trabalhar para dar conta do que eu preciso fazer. Hoje a minha rotina, e eu tenho uma rotina, e ao mesmo tempo eu não tenho uma rotina, entendeu?
01:50:43
P1 - E o que é importante para você hoje?
R - Eu acho que é isso, conseguir levar a vida com um pouquinho mais de leveza, não sou a pessoa mais tranquila do mundo, não sou zen, não sou nada disso, mas eu tenho tentado muito levar as coisas de uma forma um pouco mais leve. É como eu falei, nesses últimos anos de terapia, uma coisa que eu tenho tratado muito com minha terapeuta é como fazer esse meio do caminho ter um propósito, e uma função de verdade, né? Preencher esse meio do caminho com algo que faça sentido para mim. Então, tentar ser mais leve, tentar ser mais feliz, lógico que a gente não é feliz o tempo todo, porque a vida é feita de altos e baixos, mas sim tentar criar mais momentos, mesmo que não sejam grandes momentos, memoráveis, mas que sejam momentos importantes também. Ter meus momentinhos de... Meus momentos, seja brincando com os gatos, seja indo numa gira, seja me sentando para ler um livro, seja, de novo, indo tomar um café, que seja mesmo trabalhando. Eu gosto de trabalhar sim, me sentar para trabalhar com vontade de trabalhar, e não só porque é uma obrigação e existe um peso de fazer isso. Tentar fazer com que tudo seja mais leve na vida, de novo, para que quando chegar lá no final, eu diga: "Foi bom. Ah, não fui milionária, não viajei muito, mas tudo bem... mas foi legal do mesmo jeito”. E lembrar dessas coisas, eu e meu marido temos tentado muito isso. Há 2 anos, ele queria ir num festival de Rock, lá na Califórnia, ele me mandou e falou: "Olha que legal”. Eu falei: "Vai”. Aí ele achou que eu estava doida, e falou: "Mas você viu onde é que?”. Eu falei: "Eu vi, vai!”. Ele: "mas você não quer ir?”. Eu falei: “Não, nada vai me fazer sair daqui para ir para outro país, me enfiar no deserto”. Eu disse: "Mas se você quer ir, você vai”. Aí ele falou: "Não, mas é caro, é difícil”. Eu falei: "Eu sei. Mas a gente não trabalha para pagar contas? A gente não trabalha para pagar impostos? A gente não trabalha para pagar um monte de coisa que a gente não quer pagar? Eu prefiro trabalhar e pagar para você ir lá”. No fim, foram ele e um amigo, passaram 15 dias lá na Califórnia, os dois. Aí todo mundo ficava para mim: "Nossa, mas você vai deixar ele sozinho?” Eu falei: "Gente, estou de férias, eu não vou nem atender o telefone, tô de férias”. E eu falava para ele: "Não morrendo, e não sendo preso, porque são duas coisas que vão me dar trabalho daqui, vai e curte”. Ele olhava assim para mim, e eu dizia: "É, porque, se morrer, vou ter que fazer traslado de corpo, vai dar trabalho, e se for preso, não tenho dinheiro para advogados, então não tendo essas duas questões, vai e se diverte”. Ele foi, se divertiu, foi para o deserto, assistiu as bandas de rock que ele ama, e eram todas num festival só AC/DC, Guns & Roses, Iron (Iron Maiden)... Todas as bandas que ele ama, ainda mais o AC/DC que ele é louco... Voltou e até hoje ele fala: "Me arrependeria se não tivesse ido. Eu falei: "Então era esse arrependimento que eu não queria que você tivesse”. Então tá bom, foi, demos nosso jeito, pagamos a viagem. Assistiu. E é esse tipo de arrependimento que eu não quero ter lá no final da vida, de falar: “Nossa, mas eu podia ter viajado, mas eu podia ter ido, podia ter feito”. E quando a gente olhar isso lá, a gente não vai ter mais tempo para fazer. A gente tem o tempo de fazer agora, né? Agora é a hora de fazer. É lógico que a gente não vai conseguir fazer tudo. Tem coisas que vão estar fora da nossa realidade, mas assim, o que der pra fazer, vamos fazer, né? A gente puxa daqui, ajeita dali, organiza o horário, senta e conversa. E aí, quando a gente tiver mais lá na frente, a gente fala: "Foi bom”. Então, assim, hoje o que eu quero é isso, é ter momentos que façam a vida ser mais leve e que façam com que lá no final eu olhe para trás e diga: "Foi da hora ter vivido, hein?” Porque viver é bom. É bom viver. E lá no final a gente tem que chegar a essa conclusão de que foi bom. Então, hoje é isso que eu quero.
01:55:01
P1 - E qual é a importância que os 4 tiveram na sua vida? Tem ainda na sua vida.
R - De me fazer entender o quanto é bom viver, os 3: o Haroldo, a Carlota e o Tobias já me faziam isso. Por que, como eu falei, eles ensinam a gente a viver de uma outra forma? Os gatos. Eles descansam quando eles têm que descansar, eles comem quando eles estão com fome, eles tomam água quando eles estão com sede. O Tobias, eu falo que ele é um exemplo de vida fitness, porque o Tobias come pouquinho, várias vezes por dia, ele não deixa de tomar água, ele faz atividades físicas e ele descansa, ele dorme. Então eu falo: "A gente tem que se espelhar na vida do Tobias, ele leva a vida que todo mundo tinha que viver. Ele é um exemplo”. E eles dão esse exemplo para gente, eles se cuidam primeiro antes de cuidar dos outros. E o Romeu chegou complementando, com aquilo que eu falei, de que por mais que muitas coisas ruins tenham acontecido, ele não deixa de ser feliz. Então, os 4 mostram todos os dias como a gente tem que levar a vida. Ok, vão acontecer coisas ruins com a gente, a gente tem o direito de ficar triste. Mas assim a gente não pode ser triste para sempre por conta daquilo que aconteceu, porque aquilo vai passar, vai deixar alguma sequela, vai deixar alguma consequência? Vai. Mas você pode voltar a ser feliz e aproveitar a vida. E aproveitar a vida significa também cuidar um pouquinho de si, ter os seus momentos de pausa, ter os seus momentos de carinho. O Tobias é um gato que não é de colo, mas quando ele precisa de colo, ele pede. E a gente precisa aprender a pedir também, quando ele quer colo, ele vem aqui, me dá umas cabeçadas, ele me chama com a patinha e eu sei que ele quer carinho. Eu fico com ele um pouquinho no colo, deu o tempinho que ele precisa, ele sai e vai embora. Então, os 4 são fundamentais nesse processo, porque eles ensinam a gente tudo o que a gente precisa saber todos os dias. E da minha convivência com os animais, do trabalho com a causa animal, do estar perto deles, e da questão da espiritualidade, a cada dia eu entendo mais que se essas criaturinhas vêm para a Terra, é para ensinar tudo isso pra gente. E é por isso que eles não vivem tanto tempo, porque a passagem deles aqui é só para mostrar o que a gente precisa aprender, para ver se a gente vive um pouquinho melhor, né? Porque eles são mais evoluídos do que a gente. E seres muito evoluídos não tem que estar neste mundo aqui por muito tempo não, porque esse mundo aqui não é o mundo deles. Então, assim, até as pessoas falam: "Ah, eu queria que eles vivessem mais do que a gente”. Eu falo: “Eu não quero que meus gatos vivam mais do que eu porque se é para alguém sofrer…” - como eu falei do Romeu - “se é pra alguém sofrer, que seja eu, com a partida dele, porque ele não vai entender a minha partida Então deixa eles viverem o tempo que eles têm que viver aqui. E eles vão, e eu vou entender à partida deles, vou sofrer, mas vou entender. E eu não quero que ele sofra, porque eles já são evoluídos demais para sofrer”. Você pensa num bichinho desse, O Romeu não era para ter passado pelo que ele passou. Ele não veio pra cá para sofrer a dor que ele sofreu, mas passou por isso e ainda assim ele ama todo mundo incondicionalmente. E eu tenho certeza de que se ele encontrar a pessoa que magoou ele no portão, ele não vai ter mágoa. Ele vai lá, vai pedir carinho, vai ser feliz do jeito que ele é. Então, eles têm todo o papel nesse processo de me fazer um ser humano que olha a vida de outra forma. E estar com animais e a causa animal fez muito isso na minha vida, assim, é diferente, é diferente.
01:58:56
P1 - Você tem sonhos?
R - Essa é uma boa pergunta. Sabe o que eu já me peguei perguntando isso muitas vezes e eu não consigo falar tipo: "Olha, isso daqui é um sonho meu”, não consigo, não é tipo: “ai nossa, você já tem tudo”. Mas é que as coisas que eu tenho, elas me deixam muito feliz. É lógico, eu quero viajar para outros lugares. A gente comprou um apartamento, e eu quero ver o apartamento pronto, a gente mudando para lá. Mas não tem uma coisa que eu diga: "Nossa, é o meu sonho”, porque o único sonho que eu, o grande sonho que eu tinha, eu realizei, que era ir para Disney, que foi... Nossa! Foi sensacional para mim. Depois disso, depois que eu fui pra Disney, eu fiquei me perguntando, e eu falei: "Gente, pelo amor de Deus, não tenho mais um sonho aqui. Ó, Deu!” No começo bateu um desespero, tipo “a gente tem que ter um sonho na vida, né?” Mas depois eu entendi, eu falei não, beleza, se for para aparecer, em algum momento ele vai vir. É que no momento ele ainda não veio, mas eu acho que em algum momento vão aparecer novos sonhos aqui. No momento não tem mesmo não, mas não é nada tipo triste. Eu entendi que é da fase da vida. Não aconteceu ainda, uma hora vai acontecer.
02:00:17
P1 - Eu queria saber se tem alguma coisa que eu não tenha te perguntado e que você queira contar.
R - Não, acho que eu contei tudo. Acho que eu contei até mais do que você perguntou. Eu falei que eu falo muito. Se continuar perguntando, eu vou falar mais umas 03h00.
02:00:35
P1 - Queria saber se você quer deixar uma mensagem.
R - Que mensagem eu deixaria? Eu diria para as pessoas que ter animais é essencial na nossa vida. A gente aprende muito com eles, eles mudam muito a gente. E eles trazem os ensinamentos que a gente precisa ter e às vezes a gente não está aberto a escutar. A espiritualidade fala com a gente o tempo todo, de muitas formas. Mas nem todo mundo tem os ouvidos abertos para escutar o que ela tem a dizer, e às vezes ela os manda para a gente ouvir aquilo que a gente precisa para a nossa vida. Então, para as pessoas terem o coração aberto, você não precisa ter um animal dentro de casa, mas é só não maltratar eles por aí. Você não quer ter um animal? Tudo bem, mas ajuda quem ajuda, não, não maltrata. Às vezes você alimentar um animal na rua já faz toda a diferença. Então é só abrir o coração para tudo o que eles podem oferecer.
02:01:39
P1 - E como foi contar um pouco da sua história e da sua história com eles aqui para o Museu da Pessoa?
R - Eu fico muito feliz porque eu adoro contar da minha história com eles, eu, como uma boa dona de gato, qualquer oportunidade que eu tenho de falar dos meus gatos, eu vou falar dos meus gatos por muitas e muitas horas e vou mostrar fotos dos meus gatos, vou contar a história deles, vou falar da ONG. Então assim, eu adoro! Adorei! Adorei ter essa oportunidade, adorei poder falar da ONG, adorei poder falar para as pessoas o quanto é importante ter os bichinhos e olhar para eles, e tudo de especial que eles podem trazer para a gente. Ah, eu amei! Estava super ansiosa, empolgada.
P1 - Então, em nome do Museu da Pessoa em meu nome, em nome do Natan, do Ali do Mayo, eu agradeço muito a você.
R - Eu agradeço a vocês, gente. Obrigada.
Recolher