Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Carmelita Maria da Silva (Dona Lita)
Entrevistada por Nataniel Torres (P)
Cubatão, 29 de outubro de 2025
Entrevista MV_HV013
Transcrição Miriam Allodi
Revisão Nataniel Torres
P - Dona Lita, então primeiro obrigado por ter aceitado dar a entrevista pra gente. E aí, pra gente começar, vou com uma pergunta bem difícil. Qual o seu nome completo, sua data de nascimento e o lugar onde a senhora nasceu?
R - Eu nasci em Pernambuco. Era uma fazenda, fazenda Santa Amália. Meus pais (eram) de lá e tudo. E a data de nascimento é 23 do seis de 1948. Meu nome é Carmelita Maria da Silva.
P - Repete, por favor.
R - Carmelita Maria da Silva.
P - Muito bem. E qual era a cidade onde ficava a fazenda, em Pernambuco?
R - A cidade era Igarapéba. Igarapéba.
P - E a fazenda era?
R - Uma vila. Uma vila. Aí era onde a gente fazia a compra e tal. E a gente morava no centro, na fazenda, nasci e me criei nessa fazenda. Fiquei adulta, (me) casei lá também. Quando eu vim pra São Paulo, eu tinha um casal de filho, que era essa menina aí, que era gêmeo, e um menino que morreu, um gêmeo só. Aí eu vim pra São Paulo.
P - Antes da gente chegar aqui em São Paulo, vamos falar um pouquinho sobre a cidade lá. Primeiro, antes de tudo, te contaram como foi o seu dia de nascimento, que às vezes os pais falam. O que eles falaram?
R - Eu nasci na véspera de São João, que é dia 23, a véspera de São João. (Teve) fogueira, eles compravam aquelas carnes pra fazer pirão e minha mãe me ganhou naquela madrugada em casa. Em casa com parteira. Mas foi tudo bem. E assim foi, me criei lá.
P - E essa parteira, a senhora chegou a conhecer depois ou não?
R - Não, essa não. Essa eu não conheci não. Acho que ela já era velhinha e faleceu. Quando eu cresci, já não estava mais, já tinha falecido.
P - Mas lá na cidade, quando a senhora era criança, ainda existiam outras parteiras ou já tinha acabado?
R -...
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Entrevista de Carmelita Maria da Silva (Dona Lita)
Entrevistada por Nataniel Torres (P)
Cubatão, 29 de outubro de 2025
Entrevista MV_HV013
Transcrição Miriam Allodi
Revisão Nataniel Torres
P - Dona Lita, então primeiro obrigado por ter aceitado dar a entrevista pra gente. E aí, pra gente começar, vou com uma pergunta bem difícil. Qual o seu nome completo, sua data de nascimento e o lugar onde a senhora nasceu?
R - Eu nasci em Pernambuco. Era uma fazenda, fazenda Santa Amália. Meus pais (eram) de lá e tudo. E a data de nascimento é 23 do seis de 1948. Meu nome é Carmelita Maria da Silva.
P - Repete, por favor.
R - Carmelita Maria da Silva.
P - Muito bem. E qual era a cidade onde ficava a fazenda, em Pernambuco?
R - A cidade era Igarapéba. Igarapéba.
P - E a fazenda era?
R - Uma vila. Uma vila. Aí era onde a gente fazia a compra e tal. E a gente morava no centro, na fazenda, nasci e me criei nessa fazenda. Fiquei adulta, (me) casei lá também. Quando eu vim pra São Paulo, eu tinha um casal de filho, que era essa menina aí, que era gêmeo, e um menino que morreu, um gêmeo só. Aí eu vim pra São Paulo.
P - Antes da gente chegar aqui em São Paulo, vamos falar um pouquinho sobre a cidade lá. Primeiro, antes de tudo, te contaram como foi o seu dia de nascimento, que às vezes os pais falam. O que eles falaram?
R - Eu nasci na véspera de São João, que é dia 23, a véspera de São João. (Teve) fogueira, eles compravam aquelas carnes pra fazer pirão e minha mãe me ganhou naquela madrugada em casa. Em casa com parteira. Mas foi tudo bem. E assim foi, me criei lá.
P - E essa parteira, a senhora chegou a conhecer depois ou não?
R - Não, essa não. Essa eu não conheci não. Acho que ela já era velhinha e faleceu. Quando eu cresci, já não estava mais, já tinha falecido.
P - Mas lá na cidade, quando a senhora era criança, ainda existiam outras parteiras ou já tinha acabado?
R - Não, existiu. Meus irmãos nasceram todos com parteira. Meus irmãos, cinco, seis irmãos, nasceram todos com parteira.
P - E lá na cidade tinha hospital, não tinha? Como é que era isso?
R - Tinha, mas é muito longe. Por exemplo, é como daqui em São Paulo. As mulheres ganhavam em casa, ninguém fazia pré-natal. Por exemplo, quando eu tive o gêmeo, eu nem fiz pré-natal. Nem sabia que era gêmeo. Aí ganhei gêmeo, né? Não sabia. Essa minha menina aí.
P - E vamos voltar um pouquinho para os seus avós. A senhora chegou a conhecer os seus avós?
R - Conheci.
P - Por parte de pai e por parte de mãe?
R - Meu avô, pai do meu pai, ele só tinha uma perna, que foi uma perna amputada, do que, eu não lembro, né? Não sei. Sei que ele tinha a perna amputada. Andava de muleta. E a minha avó, eu conheci ela porque ela foi na minha casa quando eu casei, né? Era uma galega. Era galega, uma mulherona, né? Ela era galega, não era morena assim como a gente. Porque meu pai era bem branco, meu pai. Minha mãe era morena, meu pai era bem branco. Puxou pra ela, né? Aí, então, eu conheci ela. Quando ela faleceu, acho que eu tinha cinco, seis anos, seis anos, mas eu lembro dela. Eu lembro dela, entendeu?
P - E esses seus avós? Primeiro, então, por parte de pai, o que que eles faziam? De onde eles eram e o que que eles faziam?
R - Morava na mesma fazenda. Por exemplo, tinha duas fazendas, uma era o homem tocava, era cana pra moer, gado. Na outra era banana, mas era um pegado (do lado), era tudo de um dono só. Os filhos administravam um pouco e ele administrava o outro, então era no mesmo local, no mesmo lugar que eles moravam.
P - E qual era o nome dele? A senhora lembra do avô e da avó?
R - Isabel era a minha avó, mãe do meu pai, e o nome do meu avô era José. Agora, não sei, né? O meu pai era Israel.
P - E por parte de mãe, a senhora conheceu os avós?
R - Não. Conheci o avô, o pai da minha mãe. Ele era muito bom, uma pessoa muito boa, morou comigo depois que eu casei, que eu já tinha filho, ele morou comigo, que eu morava em Pedro Toledo, lá na Serrinha, lá na roça, ele morou comigo, e a minha tia que morava no Recife, foi lá, buscou ele, porque ele ficou doente, e levou para o Recife, e lá que ele faleceu, meu avô.
P - Qual o nome desse avô?
R - Era Francisco, o nome dele. Agora o apelido eu não sei, não sei do apelido.
P - E seu Francisco trabalhava com o quê?
R - Roça também, era tudo, né? Todo mundo trabalhava na roça, eu também trabalhava, o pai dela também trabalhava, meu ex-marido, na roça, que hoje é falecido também, todo mundo trabalhava na roça.
P - Mas a senhora trabalhava na roça na infância, é isso?
R - É, eu já nasci conhecendo roça, assim, ia com o meu pai, com a minha mãe pra casa de farinha, fazer farinha e tal, e quando eu casei, continuei de novo na roça com o marido.
P - Mas quando a senhora era criança, já ia pra roça, já trabalhava?
R - Ia pra roça já, levar água e tal, e a gente trabalhando na roça, nessa fazenda que a gente morava, nasceu e criou lá.
P - E pra estudar, como é que foi lá? Lá tinha escola? Não tinha?
R - Ah, não tinha. Eu vim estudar um pouquinho depois de adulta. Apareceu por lá uma moça, que o dono da fazenda botou lá pra ensinar, que era MOBRAL, naquela cartilhinha pequenininha, com as letrinhas, né? E ia aprendendo ali. Estudei um pouquinho depois de velho mesmo, depois de adulto, não tinha escola.
P - Na infância não tinha uma coisa diferente?
R - Não, a gente vivia solto dentro do mato, igual índio. É, vivia solto no mato, é verdade.
P - E as outras crianças lá, estudavam também, ou era igual vocês?
R - Era igual, todo mundo, a vizinhança que conhecia, né? Então era assim. E quando passou um tempo, apareceu escola assim, botava uma pessoa para... Era, por exemplo, em outra fazenda, aí vai que seja (a distância) daqui em Santos, e todo mundo ia a pé, a molecada ia de a pé, de cavalo, ia assim, ia de charrete, ia pra escola.
P - Mas a senhora, pelo que a senhora tava contando, não foi assim, a senhora foi normal?
R - Não, foi mais difícil, foi mais difícil. Já quando eu tava mais assim, é que apareceram essas escolas, que tem uma irmã que estudou. E tem uma irmã, essa mesma irmã, deu aula também nessa fazenda, não na nossa, na outra fazenda, né? Aula assim, pra primeiro ano, pra letrinha e tal, pra aprender alguma coisa, não (para) formar, nada disso.
P - Então aproveita, já que a senhora falou de irmã, a senhora tem irmãos, né?
R - Tenho.
P - Quantos irmãos?
R - Aí eu tenho quatro irmãos e três irmãs.
P - A senhora sabe nomear todos eles?
R - Luizão, Fernando, Nau, que eu sei que chama Nau, né? E Carlinho. Quatro irmãos. E as mulheres: Didi, Zefinha e Quitéria, minha irmã.
P - E vocês têm idade parecida ou é muito diferente?
P - É idade assim. Escadinha.
P - E aí então tinha uma época que todo mundo era criança lá na fazenda?
R - Era todo mundo.
P - E como é que era essa época?
R - Ah, era bom demais. Era muito bom, né? E aí pensava em nada, em ter nada, se preocupar. Era andava em cavalo, carregando água naquele jumento, com as latas de lado, né? Carregando água. Tinha um cacimbão que falava, né? Que era longe das casas, essa era pra beber essa água, era mina. Então a gente ia buscar água lá, no jegue, né? Era uma farra, ia buscar água, ia cortar cana, plantar cana, ganhar dinheiro plantando cana pra fazenda. Então era assim as vidas de adolescente, né? De adolescente.
P - Isso que a senhora me contou na infância era trabalho, mas e diversão?
Tinha?
R - Diversão? Era só assim, diversão com as crianças, não tinha nada de diversão como aqui, não passei essas coisas, não. Passeio era nos matos mesmo, pescar no rio, e a vida era assim, né?
P - Mas essas eram as brincadeiras de vocês?
R - Eram brincadeiras, nós ia atrás de banana, atrás de laranja, e nós vinha com… Minha mãe (falava) “ah”, que nós ia pra atrás de manga, né? Fazia balaio de manga, assim, pra casa, jaca, tudo. Então, era fartura, assim, de fruto, de tudo, a gente já dormia, com a barriga cheia, minha mãe nem tinha trabalho. Aí, a gente comia tudo quanto era de fruto no rio, por lá já tomava banho, já havia tomado banho no rio. E era assim, a infância, né? Eu casei com 14 anos, mas casei com… [intervenção] Eu casei com 14 anos, aí acabou a infância de brincar com outros moleques e tal, né? Eu fui cuidar do outro, do marido e do meu…
P - E como é que foi que a senhora conheceu o seu marido, então?
R - Então, ele era de lá mesmo, só que ele já era adulto e eu era criança ainda. Ele estava aqui em São Paulo, que era de outra família assim, que morava lá também, em outra fazenda, e os pais já juntavam assim: “- O fulano pode casar já com o fulana e tal”. O namoro era assim: ele sentado lá e eu sentada aqui. Aí vinha quando meu pai tava em casa, e a minha mãe (também), por meia hora, aí ia embora. E era assim, que eu lembro, acho que era uns seis meses, casava já.
P - Não ficava muito tempo?
R - Não, casava rápido. Aí casava, pronto, ia pra suas casas.
P - Quando vocês se conheceram foi isso? Foi meio as famílias que...
R - É, foi. Aí é assim, ele foi daqui de São Paulo pra lá, aí falou com o meu pai pra namorar comigo. Eu era garota, né?
P - A senhora lembra o primeiro dia que a senhora viu ele?
R - Eu lembro o primeiro dia, aí eu falei pro meu pai que eu não queria. “Ah, não quero não”- ele é meio baixinho assim - “Não quero não” Aí meu pai já falou assim: “Ah, mas ele já tem os pés no chão, já tem um trabalho e tal”. E não sei nem do que ele trabalhava, mas trabalhava lá na fazenda, parece que era de pedreiro mesmo. Então, aí fizeram o casamento, fez o casamento, né? Aquele casamento que era no caminhão. Era assim. Foi casar na cidade, nessa Igarapeba, que era a nossa cidade. Eu vestida de noiva, dentro da boleia do caminhão, e os acompanhantes todos em cima do caminhão fazendo festa, né? Gritando “Viva os noivos!”, não sei o que lá.
E em casa, um palanque com folha, montado com sanfoneiro, comida pra comer. Matava um cabrito, um porco, um peru, tudo pra fazer pro povão comer. Era assim, ó, muita gente, que eu lembro, né? E vinha no caminhão, outros vinham de cavalo atrás, cavalaria. Então os casamentos eram assim na época que eu casei.
P - E nessa época que a senhora casou, porque demorou seis meses pra casar. Aí a senhora já tinha aceitado, como é que era?
R - É, já tinha aceitado, eu tinha que casar com ele. Mas eu não tinha nem feito nada, nem deitado com o homem, nem beijado, nem nada.
P - Ah, você era uma menina, né?
R - Era. Não podia beijar não com o homem. Meu pai ficava assim e minha mãe. Mesmo que eu quisesse, não podia.
P - Qual o nome desse seu esposo?
R - José. Era José também o nome dele. José Adelino da Silva o nome dele. Pai dela, né? É o pai da Silvia.
P - E aí, vocês casaram? Continuaram vivendo lá ou como é que foi?
R - Continuou vivendo lá. Ela nasceu, que era gêmeos, com um ano que eu tava casada e ela nasceu. Aí veio pra São Paulo, o menino faleceu, eu trouxe só ela. Aí veio pra... Eu vim pra São Paulo. Aí vim trabalhar aqui, porque ele já tinha trabalhado um tempo, né? O irmão dele morava no Itaim Paulista, aí ele foi pra lá.
P - Antes da gente chegar aqui em São Paulo. Vocês moravam onde? Na fazenda? Mas como é que era essa casa?
R - Era na fazenda. Na fazenda era assim: tinha o fazendeiro que fez a casinha, né? Barracão que falava, fez casinha, então era pros moradores. Então eu fiquei com a casinha daquela. Era quarto, sala, cozinha, banheiro. Então tinha… nessa fazenda tinha isso. Era uma fazenda boa, e ele tratava muito bem os moradores. Tinha gado, tinha tudo, né? Então a fazenda tinha... pousava até helicóptero lá. Eles eram milionários lá. Aí então a gente veio pra cá, vendeu as coisinhas que tinha, os bichinhos que tinham, a rocinha, e veio pra São Paulo.
P - Porque nessa época que a senhora tava lá, a senhora não trabalhava fora. Trabalhava assim, em casa?
R - É. Trabalhava em casa.
P - E como a senhora falou, depois de um ano ficou grávida, que foi que vieram os gêmeos. E como é que foi esse momento? Vamos falar da gravidez.
R - Vixe Maria, foi muito difícil. Aí, não tinha pré-natal. Então falavam “a Lita tá muito pesada, muita barriga muito grande demais.” E eu vivia só escondida por ali, por causa da barriga que era muito grande. Mas aí veio a parteira e falou: “Ela vai ganhar duas crianças”. Chamaram uma parteira pra me ver antes de eu ganhar, aí falou que ia ganhar duas crianças. E eu fiquei assustadinha da silva mesmo. Assustadinha, já era mesmo assim, “bocozinha”. Então, aí eu fiquei assustada e tal, aí ficaram falando, a mulher falando, falando, falando. Aí foi indo, aí eu aceitei. Aí veio a parteira, já tava certa pra vir quando eu passasse mal, ela vinha pra ganhar as crianças. Aí ganhei dois meninos em casa.
P - Com essa parteira?
R - Com essa parteira.
P - A senhora lembra do nome dessa parteira?
R - Dona Josefa. Josefa é o nome dela, né? Era Zefa... Ela não lembra muito o apelido dela, porque ela morava em outra fazenda. Aí foi buscar ela lá, ela vinha, pra me tratar ali, me ajeitar, e ela ficava um dia com a pessoa, ficava um dia, né?
P - Ela acompanhava?
R - É, ficava acompanhando. Ela era muito entendida, assim, em oração, então, aí cuidava.
P - E aí, como foi esse dia do parto dos meninos?
R - Então, eu passei mal, mas eu era forte pra caramba, eu era magrinha, mas era de garra, forte, né? Ela falou: “Pode ficar, você vai ganhar as duas crianças, tá normal, tá tudo vindo direitinho”. Ganhei em casa, ficou em casa, fez o parto, fez a dieta, tudo direitinho. Mas foi normal, tudo normal. Não tinha esse negócio de fazer cirurgia. Nada não, é normal.
P - E aí vieram os dois?
R - Aí vieram os dois. Aí com dois meses o menino, ficou doente os dois. Aí, ela ainda escapou e o menino faleceu, né?
P - Nisso a senhora tava lá na fazenda?
R - Tava lá. Com dois meses ele faleceu, o menino.
P - E o que que é que eles tiveram?
R - Desidratação, ficaram muito ruinzinhos. Aí a dona da fazenda veio e falou assim: “Oxi, mas por que não falaram?”. Aí trouxe remédio pra ela, soro, tudo. Aí lá dava leite de gado, ela trouxe leite, aquele leite de pó da criança, que toma quando é novinho. Aí ela escapou e o menino já tava bem doentinho, não teve jeito.
Aí morre em casa mesmo, não foi internado, faleceu, fizeram o veloriozinho, levaram o caixãozinho pra enterrar, então era assim, não só comigo não, era com todo mundo, todo mundo que morava na fazenda.
P - E logo em seguida foi quando veio a ideia de vir pra São Paulo?
R - Demorou um tempo. Depois veio a ideia de vir pra São Paulo, “vamos pra São Paulo”, porque ele já era acostumado aqui em São Paulo mesmo. Viemos pra casa do irmão dele, que era no Itaim Paulista.
P - Que esse irmão dele já tinha vindo antes e já tava fazendo a vida aqui?
R - Já morava aí, já. Já morava em São Paulo. Aí veio.
P - E o que que esse irmão dele fazia?
R - Ele veio de ônibus.
P - Ah, a gente vai chegar nesse ponto. O que que o irmão dele fazia aqui em São Paulo?
R - Ele trabalhava numa indústria de metalúrgica, né? Aí disse que ia arrumar emprego pra ele. Arrumou. Ficamos um tempo lá.
P - Aí nessa que... Quando vieram, vieram de ônibus.
R - Foi.
P - Vamos contar dessa viagem, como é que foi a viagem?
R - A viagem foi terrível porque parava os ônibus no caminho e tudo. Eu fiquei com a garganta inchada, adoeci. Não era acostumada a vir pra esse meio mundo. Aí fiquei doente, dentro do ônibus. Aí foi ruim pra mim.
P - E nisso a senhora tinha a Sílvia pequenininha?
R - Sim. Aí, de tudo isso... Tinha meu filho. Tinha ela, já tinha morrido o menino, e tinha ela com dois anos e tinha meu filho que tinha um ano.
P - Ah, que tinha nascido lá? A gente não tinha chegado nesse ponto.
R - Esse meu filho é vivo, tá aí meu filho.
P - Qual o nome dele?
R - Sérgio.
P - Aí ele nasceu, trouxe bebezinho de lá?
R - Aí eu trouxe ele bebezinho com um ano, um trabalho dentro do ano pra trocar e tudo. Aí uma hora eu fiquei ruim, ele caiu do meu colo e ficou debaixo do banco. Aí depois um sufoco pra achar o menino. Aí “cadê o menino? Cadê o menino?” Tava dormindo debaixo do banco enrolado num pano. Foi. Teve isso daí, mas eu vim com o casal, ele e ela.
P - E a Silvia foi boazinha na viagem?
R - A Silvia foi boazinha, né? Tava com o pai e eu com o menino. Chorava, mas dava mamadeira, dava comida, bolacha, tudo, aí parava de chorar.
P - O pai ajudou a cuidar.
R - Quando a gente vinha naquele tempo, sabe o que tinha? Trazia comida, trazia frango frito dentro de farinha, assim, trrazia umas coisinhas pra comer, né? Trazia. Farofeiro trazia.
P - Mas foi quanto tempo de viagem?
R - Três dias de viagem dentro do ônibus. Três, ou foi quatro, uma coisa assim.
P - Mulher, e quando chegou aqui em São Paulo, a primeira vez que você viu São Paulo, como é que foi?
R - Ave Maria, eu queria voltar para trás, queria voltar para lá.
P - Por quê?
R - Ah, fiquei muito tempo sem acostumar, muito tempo, muito tempo mesmo. Aí, o irmão dele já estava lá na estação esperando, onde parava o ônibus, na rodoviária. Aí pegou, arrumou o carro, a gente foi para a casa dele, ficamos na casa dele. Só que ele também estava numa situação meio ruim, a gente chegou sem dinheiro, com dois filhos, pra ficar na casa da pessoa, e duas bocas pra comer. Eu falei: “Meu Deus. Eu vou trabalhar. Arrumar serviço pra trabalhar”. Mas onde que eu vou trabalhar? Só trabalhei em roça, como é que fica? Não tinha roça pra trabalhar.
P - E ele era casado também?
R - Ele era. Aí que aconteceu? Eu fiquei tomando conta… Ela tinha dois filhos também. Ela foi trabalhar, a mulher dele, que já conhecia tudo por lá, né? E eu fiquei com as crianças, aí deu mais certo assim um pouco, né? Aí já apareceu mais um dinheiro em casa e tal pra aumentar a renda, né? Porque não dava um trabalho que eu não conhecia nada, e ela conhecia tudo lá, foi criada e nascida por lá. Então a gente ficou um tempo lá, depois a gente veio pra Pedro de Toledo.
P - Aí como é que foi essa mudança?
R - Pedro de Toledo a gente foi pra casa da minha tia, eu tinha uma tia que morava em Pedro de Toledo, na Vila Batista, a gente foi morar na casa da minha tia. Aí lá, o marido dela fez um barraquinho pra nós lá, de pau a pique mesmo, né? Assim, né? Cobriu de sapé a casinha e tampou de barro, a casa feita de barro. Pra mim tava bom, já não tava na casa da minha tia mais, já tava numa casinha. Aí melhorou.
Aí trabalhava na roça, plantava mandioca, plantava batata, e pra lá e pra cá. Trabalhava com japonês lá também, pra arrumar algum dinheiro pra comprar alguma coisa. E assim foi, né?
P - Então, nessa época que a senhora mudou pra casa, não foi pra dentro da casa da tia? Já foi pro espacinho que era da sua?
R - Não, foi pra dentro da casa da tia.
P - Ah, a senhora chegou na casa dela?
R - Cheguei pra morar na casa da tia. Aí o marido dela fez essa casinha pra nós.
P - Ah, foi depois?
R - É, pertinho da casa dele. Então, aí ficamos lá. Por ali ficamos mesmo, moramos em Pedro Toledo um monte de tempo. Dali foi pro outro canto, foi mais perto do japonês, lá sempre trabalhando pro Japonês.
P - É roça?
R - É roça, na roça do japonês, né? O bananal do japonês, ele ficou trabalhando. Então, ele foi levantando, as crianças foram aumentando, foi crescendo, né? Foi crescendo, foi crescendo, e sempre morando por Pedro Toledo.
P - E os meninos estudaram lá naquela época?
R - É, elas não estavam estudando não, porque eu cheguei assim, acho que esse negócio de meio de ano, sei lá, né? Depois que a gente mudou pra outra vilinha lá, foi que ela foi estudar.
P - Mas lá na cidade também, lá na região?
R - Lá também, na região. Então a gente ficou, ela foi estudar, porque eu morei na Serrinha, aí ela, em Pedro Toledo também, ela foi estudar lá, lá tem uma escolinha. Ela foi estudar lá e ela e o menino. Foi estudando, né? E graças a Deus, cresceram assim, né?
Agora, quando volta assim na minha cabeça, como é que pode? Que vida foi essa, pra aguentar? Não sei como.
P - Sua vida era roça e cuidar do filho.
R - Era, não sei como é que aguenta, que aguentei, né?
P - E dava dinheiro naquela época, isso aí de roça?
R - Quem disse? Dava dinheiro nada. Como criava uma galinha pra comer, comer o ovo que já tinha do quintal, já tinha a galinha que criava ali. O porco era do quintal também, que matava e salgava as bandas de porco pra comer, então era tudo dali.
P - Vocês davam um jeito.
R - É. Quiabo, mandioca, batata, tudo tinha pra comer, mas tudo dali, né?
P - Mas a casinha também que a senhora contou era de pau a pique, mas depois foi melhorando?
R - Não, saí daquela, fui já pra outra melhorzinha e no mesmo local. Então já vai melhorando um pouco. E o homem sempre trabalhando, os outros trabalhando com japonês, lá e tal. E a vida era assim. Nem reclamava, reclamava do quê? Não dava pra reclamar.
P - E aí vocês ficaram lá até quando? Nessa região?
R - Fiquei lá até... Ela já tava... Uns 14 anos, 12 ou 13 anos.
P - Já era mocinha?
P - É, já era mocinha. Aí ela veio estudar em Peruíbe, na casa da minha irmã, eu tenho uma irmã que mora em Peruíbe, né? E a minha irmã tinha um bar, era a melhorzinha de vida, aí eu botei ela pra estudar lá, disse: “Ela vai ficar aí estudando aí”. Aí tá.
P - Mas ela veio sozinha pra ficar com a sua irmã lá?
R - Foi. Eu trouxe ela, ela veio sozinha.
Aí foi indo, indo e tal, e aí separei do pai dela.
P - Nessa época que ainda tava lá em Pedro de Toledo?
R - Foi. Ela já tava na minha irmã. Aí eu separei, meu menino já era grande também, aí quem fica com quem, aí ele ficou com o pai, aí eu trouxe as meninas, três meninas. Trouxe ela, trouxe a Selma e trouxe a Andrea.
P - Ah, porque depois a senhora teve mais filhos?
R - É, aí essas daí nasceram aqui em São Paulo, né? Essas daí, essas meninas tudo, tudo assim.
P - Mas a cidade aqui já tinha, Pedro de Toledo, já tinha um pouquinho mais de estrutura do que lá?
R - Essa, a última eu ganhei no hospital, a Andréa, a Roberta também ganhei no hospital, foi em pronto-socorro, né? Chegou e já foi ganhando e tal e tal. Então, mas elas são daqui, nasceram aqui.
P - Mas nisso a Sílvia acompanhou, que a Sílvia já era uma mocinha assim, já era uma menina grande.
R - Era uma menina grande. Então eu vim pra cá, pra Peruíbe, e trouxe esses, o moleque ficou com o pai: “Ah, não vou porque eu não vou largar meu pai” “Então, cê fica aí”. Aí ele ficou e eu vim com as meninas. Chegou lá em Peruíbe, eu arrumei emprego, fui trabalhar em casa de família, mas uma casa boa, que me ajudaram, que eu acostumei, que ficou muito bom. Aí tá, meu cunhado fez um puxadinho assim, na casa dele, aí botou cama, fogão, tudo pra mim lá, eu fiquei de boa, né? Aí tava bem.
P - [intervenção] Como é que você ficou sabendo e como é que começou essa área?
R - Ah, eu fiquei sabendo pra mim trabalhar na patroa, né? Isso. Então, foi através de uma vizinha da minha irmã. Ela falou assim: “A sua irmã chegou aí e a dona fulana tá lá precisando de uma pessoa pra trabalhar na casa”. Era pra lavar a roupa no final de semana. Eu não ia fazer comida, era pra lavar a roupa e limpar a casa, né? Cuidar. Aí eu falei, “tá”.
Aí eu fui lá e me dei bem. Eu falei pra ela que eu trabalhava na minha casa. Aí ela falou “Não, tudo bem, vai ficar de boa.” Ela tinha duas filhas, eu ia levar no colégio as filhas delas, e aí ela começou a me ajudar. No final de semana, o marido dela vinha, fazia comida bastante, mandava eu trazer pras crianças. Então ela me ajudou bastante.
P - Qual o nome dessa patroa?
R - Dona Eda. Eda, o nome dela. O nome dela é Dona Eda, e aí eles foram muito bons pra mim. Daí fiquei na casa da minha irmã (por) um tempo. Eu acho que eu fiquei na minha irmã dois anos nesse intervalo.
P - Mas aí já tinha um puxadinho que você comprou?
R - Já, já tinha um puxadinho. Aí essa, eu tinha outra minha irmã morar aqui no Fabril, que era a Didi, aí ela falou: “Olha, melhor tu vir pra cá que tu vai trabalhar nas indústrias”.
Aí eu vim pra cá, aí falei com a mulher e tudo, fiquei lá até ela botar outra pessoa, né? Aí colocou outra pessoa e pronto. Aí eu vim pra cá, deixei a menina de novo com ela, ficou lá com a minha irmã e vim pra cá.
Aí, aqui, outra moça também, que era conhecida da minha irmã, me arrumou serviço lá na Cosipa, né? no restaurante, aí eu fui trabalhar num restaurante. Aí que aconteceu lá fazia. [intervenção]
P - Vamos voltar pra época da Cosipa. Primeiro, como é que rolou lá? Como é que a senhora entrou lá?
R - Ah, na Cosipa. Então, foi um conhecido da minha irmã, dessa minha irmã Didi, que morava na Fabril, que arrumou pra mim.
Eu fui trabalhar lá, trabalhei uns 30 dias, assim, sem exame que fazem exame de sangue, não sei o que lá, exame pra entrar, exame de fezes, sangue, essas coisas. Não fizeram, fizeram depois de 30 dias. Aí, o que que deu? Deu esquistossomose, aí me mandaram embora. Falou que eu tava doente.
Vixe Maria, aquilo lá foi uma queda na minha cabeça. Mas deram receita pra mim tomar o remédio e tal, com 30 dias eu voltava. Tomei o remédio, tudo. Fiquei lá de repouso no hospital. (Quando deu) 30 dias eu tava lá na porta pra me fichar de novo. Aí o homem gostou do meu trabalho, aí pegou. Aí ele falou: “Não, você vai voltar”.
Aí demorou pra eu fazer os exames de novo e pa pa pa, eu fiquei, aí lá ele me promoveu a encarregada de refeitório.
P - Porque a senhora entrou lá pra trabalhar na cozinha primeiro.
R - Foi, foi de ajudante. Era pra ser ajudante de tudo, aí lá ele me promoveu a encarregada de refeitório. Falou lá: “A Carmelita é boa pra mandar e tal, é braço forte, não sei o que lá. Eu disse: “Vixe Maria, você quer que eu mande no povo? Vou apanhar aqui”. Ele falou: “Não. Olha…” Aí fez reunião e tal, que eu era encarregada com todas as meninas. Me contestaram lá. Aí ficou inveja. Aí eu falei: “A inveja mata mesmo, vixe Maria!”
Mas assim mesmo eu fiquei porque tava ganhando mais, eu preciso ganhar mais pra sustentar meus filhos. Oxente! Aí, que eu separei, mas não tinha pensão, não tinha nada naquele tempo, não tinha pensão de nada, nem pensava nisso. Criei meus filhos sozinha.
P - Porque depois dessa separação a senhora não teve, nessa época não tinha namorado.
R - Não, não fiquei com ninguém. Não, por causa deles. Por causa dos meus filhos. Falei: “Não, vai bater nos meus filhos, vai fazer alguma coisa. Deus me livre. De jeito nenhum” Aí tá criei sozinha. E fiquei, fiquei depois... Até eles adultos, eu fiquei lá.
P - Trabalhando na Cosipa?
R - Trabalhando na Cosipa. Trabalhei na Cosipa por 10 anos, 11 anos, trabalhei lá.
P - Mas aí já era encarregada nesse período final?
R - Já era encarregada já. Aí depois saí, nesse tempo todo. Aí foi mudando de empresa, sabe como é que é? Aí sai aquela, você passa pra outra, aí eu fui trabalhar na refinaria, saí logo pra refinaria. Trabalhei na refinaria uns três anos, por aí, saí também, aí fui trabalhar em Santos, lá no restaurante também, sendo que era da mesma empresa que trabalhava na Refinaria, fui transferida pra lá. Aí lá eu fiquei, pronto. Fiquei lá.
P - Mas aí a senhora mudou pra Santos ou continuou morando aqui no Fabril?
R - Continuei morando aqui, eu já tava aqui na Vila Esperança.
P - Ah! Então, vamos falar sobre esse período. Como é que foi a sua chegada aqui na vila? Primeiro, como é que a senhora ficou sabendo da vila?
R - Ah, eu fui morar lá no Humaitá, sabe aquelas casas popular? Aí eu comprei de segunda mão, assim, de outro cara, peguei a minha rescisão, o homem tava vendendo, eu peguei e comprei na chave, falava assim. “Comprou a chave”. Aí pra mim comprar, dava um dinheiro lá, não sei quanto, que eu não lembro mais, e ficava e assumia a dívida da casa pra pagar todo mês, como um aluguel. Aí eu falei: “Ó, tô trabalhando, vou comprar. Ficar, assim, na casa dos outros”. Aí fui pra lá, aí mudei pra lá, de lá eu fui trabalhar em Santos, aí eu falei assim “nossa, mas aqui não tem como pagar é nunca”. Aí eu peguei, o cara tava vendendo um barraco aqui.
P - Aqui na vila já?
R - Aqui na vila já, aqui, que é esse que eu moro. Aí não sei quem falou: “Tu vai pra lá. Tão vendendo um barraco lá, é barato, aí tu vai pra lá e tu não paga nada, pagou o barraco, já era”.
Aí eu falei: “Eita, eu acho que eu vou fazer isso mesmo”, aí peguei, vendi lá, a chave também pra outro. E fui lá, que já tava no meu nome assim, os papéis, eu fui lá na coisa, passei os papéis pro outro lá e era...
Aí vim pra cá, pra aqui. Aí ajeitei o barraco e... Oxi, achei que foi bom, fiquei aqui. Só tinha a minha casa, outra do lado, outra lá, e era assim bem longe os barracos, a estrada era só lama, quando chovia era terra que voava mesmo, e pra mim trabalhar, eu botava um saco nos pés.
P - Porque nessa época a senhora trabalhava em Santos?
R - Trabalhava em Santos, lá na Fepasa, que tinha uma cozinha. Não sei se vocês lembram, tem uma cozinha que fechou que ali é o Extra, que era o Extra, ou se é o Extra ainda, não sei, ali em frente ao hospital Ana Costa, ali era uma cozinha dessa empresa que eu trabalhava, cozinha bem equipada lá, servia comida pra cadeia da Praia Grande e servia comida pro pessoal da FEPASA.
Aí eu fazia comida, nesse tempo eu já virei cozinheira, eu não era encarregada mais. Aí eu fazia comida pro pessoal da Fepasa e um cozinheiro, um outro, fazia comida pro pessoal da cadeia.
Então tinha aquelas coisas grandes assim de fazer comida, as caldeiras, aí eu trabalhava com a caldeira e trabalhava com a cozinha, a cozinha era muito equipada, acho que tinha 11 funcionários, era muita gente trabalhando. Aí fiquei lá, fechou a cozinha, a Fepasa fechou a cozinha. “Todo mundo embora, todo mundo pra rua”. Aí eu peguei minha rescisão, não comprei nada, porque eu já tava morando aqui, não dava muita coisa. Aí, sabe naquele tempo tavam vendendo telefone, telefone pela Telefônica, aí eu fiz inscrição, não saía, aí eu comprei por uma imobiliária, a linha, aí vieram instalar, eu fiquei feliz da vida, tinha telefone em casa.
P - Porque nessa época as pessoas...
R - Perdi porque quando chegou o telefone, aqueles telefones baratinhos, que instalavam em todo canto, aí quem era que ia comprar uma linha por dois mil reais? Ninguém na vida. Perdi.
P - Mas aqui na vila as pessoas costumavam ter telefone?
R - Nada, só um lá, outro cá, não sei lá onde, ninguém. E todo mundo vinha ligar na minha casa. “Olha, eu te pago a taxa, eu te pago não sei quanto a ligação, pro nordeste”. Ligava daqui de casa, mas aí nós fomos pra São Sebastião, viajamos, ligaram lá: “Olha, vamos ligar teu telefone amanhã” - porque demoravam pra ligar. Minha filha foi lá, pagou a taxa pra ligar e tudo e nada. Olha, ela veio voando pra cá, disse que era pra ligar o telefone, aí veio, aí ligaram o telefone e pronto. Foi o dinheiro da rescisão de lá, da FEPASA.
Aí eu fiquei desempregada. Falei: “Pronto”, aí também 30 dias pra receber o seguro-desemprego, não sei o que lá, essas coisinhas. Aí eu falei: “Mas se aparecer serviço, eu não vou esperar. Vou pegar o trabalho”, aí apareceu uma cozinha também lá no Gonzaga, aí era conhecido lá, o homem trabalhava lá na FEPASA, falou: “Ó Carmelita, tem uma cozinha lá do meu irmão, tu quer trabalhar lá? Aí tu pode ficar sem fichar pra tu receber teu seguro”, aí eu falei: “Vou lá conversar com o homem”. Aí eu fui, acertei aqui com ele. Falei: “Ó, quando acabar o seguro aí o senhor pode fichar a carteira”. Ele falou: “Tá certo”, aí ficou assim.
Aí saí de lá também. Fiquei dois anos lá e fui trabalhar na Votorantim, na Fábrica de Cimentos, que era a cozinha industrial. A do home era comercial, aqui era industrial. Aí foi lá que eu aposentei. Nessa cozinha da Votorantim que eu aposentei, fábrica de cimento. Aí tinha uma cozinha muito equipada lá, na época. E aí lá eu aposentei, fiquei de boa. Falei: “Pronto” Agora montamos uma cozinha aqui, que era a lanchonete.
P - Aqui, já nesse lugar onde é o restaurante?
R - Nesse lugar, na frente, meu genro veio, a gente botou o dinheirinho e tal, e levantamos, foi uma lanchonete, era só pra vender lanche. Aí foi indo, foi indo, botou comida. Aí eu chegava, eu ainda tava trabalhando, aí eu chegava, ajudava, eu ia dormir, era assim, meia noite, fazendo salgado, fazia coxinha, fazia risole, fazia bolinho de queijo, maravilha, essas coisas eu fazia pra ela vender. Aí eu ia dormir meia-noite, era umas três vezes por semana.
P - Porque nessa época a senhora trabalhava na Votorantim ainda.
R - Isso.
P - E a sua filha que ficava lá atendendo?
R - Minha filha e meu genro ficavam aí. Aí quando eu chegava eu ajudava, à noite. No final de semana eu fazia caldo de mocotó, eu era cozinheira, eu sou cozinheira, fazia caldo de mocotó, caldo verde pra ela vender. Fazia uns caldos pra ela vender aí. Aquela lanchonete era assim de gente. Chapada. Aí botou comida. Aí: “Vamos vender comida”. Aí botou comida, tá com comida até hoje, saiu o lanche, saiu o lanche que não aguentava, quem era que aguentava? Trabalhar de dia e trabalhar de noite, não tinha quem aguentasse.
P - É que aí também foi o período que a senhora saiu da Votorantim, né?
R - Aí eu saí, pronto. Aí fiquei ajudando mais, fiquei de cozinheira aqui. Aí trabalhei aí uns tempos, tempo pra caramba, aí eu falei: “Gente, eu tô cansada. Tem que arrumar uma pessoa pra ficar no meu lugar”. Aí eu fiquei doente. Aí eu fiquei doente, deu infarto. [intervenção] Deu infarto e eu quase morri, aí eles arrumaram uma pessoa e botaram no meu lugar. Aí eu botei, eu tenho dois stents no meu coração. Quase morri, quase que fui. É que socorreram rapidinho.
P - Vamos voltar lá que a gente vai pegar cada pedacinho. Então vamos lá. E nisso, nessa época que a senhora me contou, que começou lá na cozinha, lá atrás, a senhora veio pra cá e era um barraco. E aí, contou que tinha uma casa aqui, outra casa lá. E aí, como é que isso foi desenvolvendo nesse tempo enquanto a senhora tava lá? O que foi acontecendo na vila?
R - Aí foram, o pessoal foram morando aqui, foram fazendo casa. De vez em quando passava um trator pra arrumar a estrada, jogava umas pedras, isso e aquilo outro, porque esse asfalto que colocaram agora não faz muito tempo, essa estrada que fizeram agora, nova, não tem tanto tempo, eu não tô lembrando, mas acho que já faz uns quatro anos. Eu acho que até isso só.
P - A Avenida Principal?
R - É, que tá arrumadinha, que não era arrumadinha, era de terra.
P - E antigamente tinha esse muro?
R - Não tinha, era só a linha, aí fizeram o muro, e foi melhorando um pouco.
P - O que eu fiquei curioso é que a senhora contou que trabalhou em Santos, trabalhou lá na Votorantim e tal. E como é que a senhora ia até esses lugares? A senhora tinha algum carro?
R - Sempre teve ônibus aqui. Pra Santos eu pegava do outro lado, que não tinha muro, e quando teve o muro, tinha abertura pra pessoa passar e ir pro lado de lá pra pegar o ônibus.
P - Mas aí você atravessava a linha do trem?
R - Isso. Atravessava a linha do trem e pegava do outro lado, que era a empresa até Mar Azul, o nome do ônibus, que vinha do Humaitá, Humaitá - Santos.
P - A linha não era perigosa?
R - Era perigoso, as vezes o trem parava, e não tinha como passar aí, tinha que pegar isso aqui embaixo, e ir para Cubatão e pegar o outro (ônibus), ir pegar lá. Porque às vezes o trem parava, ficava parado, e eu não ia subir no trem, porque muita gente subia no trem, eu não, eu pegava outro ônibus aqui. Teve um dia que a minha filha levou até de moto em Cubatão, aí levava de moto Cubatão e ia lá pegar o ônibus pra Santos, mas dava um jeito de chegar lá no serviço.
P - Mas na linha do trem, a senhora falou que aconteceu alguma coisa que a senhora lembra, assim, na linha do trem?
R - Aconteceu. Teve uma criança que... Só que não matou a criança, esbarrou um ferro assim, esbarrou assim, quase quebrou o braço da criança, que tirou a sua pedaço da carne. E aconteceu acidente direto aí, acontecia.
P - Mas esse da criança que a senhora falou, a senhora viu isso?
R - Vi, era vizinho. Aí internou, ficou um monte de tempo internado, mas não morreu não, colocaram enxerto e tudo na criança, melhorou.
P - E esse menino é um homem já?
R - É já. Tudo casado, nem mora aí mais. Mas era assim, a linha era perigosa. Aí depois de fazer o muro, fez o muro e melhorou bastante. Mas não tem muito tempo não que morreu uma criança que o trem matou aqui em frente, tavam jogando ali no campinho, e a gente nem tava aí, quando eu cheguei tava a criança estirada lá na linha, gente assim, polícia, tudo. Matou a criança, a criança morreu, tava jogando bola e ele foi pegar a bola, aí ele não viu dois trens, né? Um passo pra lá, outro passo pra cá, a criança não viu, aí pegou. Mas era perigoso.
P - E nessa época do começo que a gente tava falando que a senhora falou que tinha umas cinco casas, tinha um pouquinho.
R - É, longe as casas, longe uma da outra.
P - E quem eram essas pessoas? A senhora conhecia?
R - Então, eu conhecia sim, mas não lembro quem era. Só esse menino que eu conhecia, era conhecido que morava aqui do lado. Quem morava mais distante assim, eu como trabalhava, chegava de noite, trabalhava todos os dias, quase não conhecia ninguém, mas eu conhecia assim de vista, ali no caminho, ali. Foi pegar o ônibus assim, mas só vizinhança mesmo, de estar dentro de casa eu não tinha, porque eu trabalhava direto.
P - E quando a senhora mudou pra cá, que a senhora falou que era um barraquinho, quando você chegava aqui já tinha documentação, era documentado, não era? Como é que era isso?
R - Eu tenho o papel do barraco, que não é barraco mais. Eu tenho o papel de compra e venda e passei no cartório e tal, direitinho. Eu tenho papel.
P - E a senhora contou que era um barraco, mas hoje sua casa é um casão. Como é que foi se desenvolvendo essa coisa?
R - Era um barraco, aí deu um cupim, eu falei: “Meu Deus. Quando eu puder, vou derrubar isso aí e vou fazer uma casa”. Aí fui mandada embora das empresas e tal, fui comprando material, fui deixando, aí murei, aí fiz o muro, porque eu tinha uns vizinhos enchendo o saco, sempre tem, né? Aí eu murei, arrumaram briga comigo, disseram que iam derrubar o muro. Até teve polícia e tudo. É, teve polícia. Aí a polícia chegou e perguntou. Aí eu falei por quê que eles estavam aperreando, queriam derrubar o muro. Aí, que tinha aqueles guardas. Não tinha aqueles guardas, que não deixavam você bater um prego que não era pra falar? Teve um tempo que não era pra fazer barraco, eles só faziam de noite, e a reforma tinha que tirar uma autorização da prefeitura, se quisesse fazer uma reforma.
P - Ah, que eles ficavam de espreita aqui.
R - Aí eu fui, peguei a reforma pra fazer o muro. Falei pra ele que eu ia fazer o muro, não era a casa, por enquanto era o muro, aí ele falou: “Então, a senhora vai cercar o seu lado?” Eu falei: “Sim”. Aí ele veio olhar, mandaram tudo certinho, ele olhou, assinou, pá, pá. Aí a mulher queria ir arrumar encrenca mesmo, briga mesmo, a do lado. Aí eu falei: “Pô, mas não dá”. Aí ele falou: “Você pega o documento dela e pega a assinatura”. Aí foi o que eu fiz, falei com o marido dela que era mais maleável, aí eles assinaram, ele não sabia o que era, aí assinaram e tal. Quando chegou, eles disseram: “Não, aqui você não vai dar no muro dela. Serviu pra você também. É um muro, e é pra os dois. Aí você não tá dando nem um bloco. Ela fez o muro só. E aí fica pra você e ela”. Aí foi, se acalmaram tudo.
P - Porque a senhora contou que no primeiro momento eram afastadas as casas, mas aí depois foi chegando mais gente, foi construindo mais.
R - Foi chegando gente, foi trazendo.
P - Mas e pra dividir o espaço? Porque aí chegou mais gente. Como é que vocês conversavam?
R - Cada um tinha seu lote, cada um tinha seu cercado de arame, era arame farpado. Aí eu peguei, tirei e botei o muro, aí ficaram com raiva, com inveja. Aí eu falei: “Mulher, esse muro aqui serve pra mim e você. É bom”. Aí vem pra lá, vem pra cá, o muro ficou até hoje que virou casa. Aí tá bom. Eles não tão aí mais, não, venderam, fizeram essa construção aí, que era ali. Eram uns encrenqueiros eles.
P - Porque nesse primeiro momento, pelo que a senhora tá contando, tinha casa aqui, na principal, e depois o bairro foi crescendo pra lá.
R - Foi crescendo pro fundo. Alguém foi fazendo. Por exemplo, eu tenho uma prima que mora lá no fundo, os pais dela vêm do norte, e queria fazer um barraco, fizeram de noite. Aí lá pro fundo fizeram e foram aumentando e todo mundo foi fazendo. Pronto.
P - Dona Lita, explica essa história de fazer de noite, só pra gente entender por que que fazia de noite?
R - Porque tava proibido, a prefeitura não deixava invadir, não era pra invadir o mangue. Eles faziam, até de palafita eles faziam. Batia as estacas, forrava de madeira e fazia o barraco em cima. Aí já amanhecia com o fogãozinho dentro, com o colchão, dormindo lá, falava que tinha criança, tudo, não derrubava mais. Pintava de óleo queimado assim, os madeirites, pra não ficar vermelho. E assim foi passando, foi fazendo.
P - Por que a prefeitura falava que não podia construir? O que ela explicava pra vocês?
R - Não podia porque era o meio ambiente, tava proibido, não queria que aumentasse mesmo pra dentro do mangue, né? Não queria, mas não teve jeito não. Quando tava na eleição, ia ter eleição, eles afrouxavam. Quando chegava a eleição, tava tudo cheio de barraco. Aí quem ia derrubar com criança dentro? Aí não derrubavam, vinha a polícia, vinha isso, vinha aquilo, não derrubava.
P - E aí foi crescendo o bairro?
R - Aí foi crescendo o bairro, cresceu mesmo, e muito. Cresceu, quem tinha na frente, como eu, como esse daí que é depósito, como o outro, como o outro que ele tinha na frente, foi na frente, quem não tinha, ficou pro fundo.
P - E a estrutura lá no fundo? Porque aqui, agora tem comércio, tem tudo, e pra lá?
R - Não, pra lá foi feita estrutura boa, o prefeito mandou tirar tudo, os barracos, tirou tudo que era cupim. Aí, tirou tudo e começou um baldrame de baixo. Fez aqueles baldrames bem bons mesmo, veio um pedreiro bom aí, aí fez, pronto, eu fiquei três, quatro meses dormindo lá na Vila Natal, nos predinhos, que tinha um apartamento lá, aí todo dia eu vinha trabalhar e ia pra lá. E os pedreiros trabalhando aí que levantaram a laje e tal, e tá aí, a laje. Aí eu falei: “Só eu sozinha que vou morar”. Aí eu fiz um quarto, um quarto e um banheiro grande.
P - Aí de alvenaria?
R - De alvenaria. Aí depois foi que eu fiz uma cozinha pra trás. Aí meu pai faleceu, que morava lá na Gleba, e aí minha mãe veio morar comigo. Ela não foi morar com as outras filhas? Ela ia morar comigo. Então eu tive que aumentar a cozinha pra trás, a cozinha... Fiquei pra ela ficar. Infelizmente, depois que meu pai faleceu, dois anos ela faleceu também. Morava comigo já. E foi assim.
P - Nisso, seus filhos já eram todos adultos?
R - Tudo, tudo casado, cada um tem suas vidas. Tudo estudado. São tudo estudados, tem faculdade, tudo.
P - Porque tinha uma época que eles estavam aqui na vila, e aí eles eram assim, adolescentes na vila?
R - O meu filho casou e ficou aqui na vila, mas como ele é polícia, a vila começou a ficar perigoso, aí ele teve que mudar. Aí ele vendeu a casa dele, que era nesse outro beco, vendeu, que não era na frente, era no fundo, e foi morar na Gleba, entrou uma casa lá na Gleba, aí foi morar lá. Aí de lá, foi pra Praia Grande, aí tá lá, mora lá.
P - Mas o povo sabia que ele era policial?
R - É, quem morava aqui sabia. Ele fez escolinha, tudo aqui.
P - Tinha os amiguinhos, depois cresceram e viraram...
R - Aí ele sabia, porque tinha outros que faziam escolinha com ele também. Inclusive um fazia escolinha com ele, mataram, foi triste demais, mataram o rapaz, assaltaram ali na Vila São José, e mataram, e atiraram nele. Assaltaram pra tomar a moto, ele não quis entregar. Não deu tempo pra ele pegar... Quando ele pegou a pistola, ele já tava... já tinham atirado nele.
P - E aí, o seu filho se formou, aí começou a trabalhar como policial?
R - Se formou, aí já vai aposentar, meu filho.
P - Mas nunca aconteceu, ele não foi ameaçado de nada?
R - Foi ameaçado aqui. Foi muito ameaçado. Quando acordava, tinha bilhete debaixo da porta, assim, ó, que iam matar ele. Aí, ele pegou, ficou dormindo aqui em casa, não dormia lá mais, dormia aqui em casa. Aí vinha com o carro, eu ficava esperando ele, eu abria o portão, aí ele entrava. E isso não era casa de alvenaria ainda, era o barraco.
E todo mundo gostava do meu barraco. Todo ano eu pintava, ajeitava, trocava o madeirite. Tinha uma área muito boa, assim, pra fazer forró. Aí todo mundo gostava do meu barraco.
Aí falaram: “Ai, mas tu derrubou o barraco” “Ora, se eu eu ia fazer de alvenaria, eu tinha que derrubar o barro mesmo”. “Aquele barraco era muito bom”, ficavam falando. Todo mundo gostava, onde eu trabalhava, todo mundo vinha de final de semana pra cá, aí fazia o farra. Mas foi assim.
P - Aí a senhora falou que o seu filho veio pra fugir da ameaça.
R - Aí vinha dormir aqui em casa. Aí eu falei: “Filho, não tem jeito, você vai ter que morar fora”. Aí ele pegou uma casa lá na Gleba, foi morar na Gleba. Ficou lá uns anos, aí depois foi pra Praia Grande, comprou uma casa na Praia Grande.
P - Nessa época que ele vinha pra cá, ele era casado já, ou não?
R - Ele já tinha filho e tal? Já era casado, tinha um casal de filho. Ele morava aqui.
P - E aí quando ele vinha aqui pra correr ele trazia a família também?
P - É. Aí agora ele mora pra lá, os filhos já são adultos. A filha já tá em faculdade. O menino até tem um problema assim, que não quis estudar e tal, assim. Mas tá trabalhando, tá levando. E a menina vai ser doutora, dentista, se forma ano que vem.
P - E aí a senhora contou do barraco que tinha forró, que história é essa do forró?
R - Era, mas menino, quando a gente vinha da... Quando eu trabalhava aí, vou voltar lá atrás, quando eu trabalhava na Cosipa, tinha uma galerinha lá que gostava de forró também. “Aí a gente vai pra lá” Como eu não tinha marido
Então, aí vinha pra casa, trazia cachaça, trazia as coisas e eu tinha um som grande assim, daqueles de disco. Eu encerava a casa, que era feita no piso vermelho, eles dançavam tanto que o pó, aquele pó subia, pegou na cortina, que nunca saiu nunca mais na cortina, no topo da cortina, assim. Aí o som também foi empesteado de pó. Aí dançavam, dançavam. Quase quando tinha menino, aniversário, fazia aqui também. Trazia carne, trazia bebida. Aí graças a Deus nunca teve briga. Porque só vinha gente de lá. Assim, que trabalhava comigo. Já vinha tudo no ônibus, uma cambada. Aí descia, tinha meia noite e meia. A gente saía de lá. Aí meia noite e meia descia aqui, uma cambada, as crianças, coitada, estavam dormindo: “Mãe, eu tô com sono” “Vai dormir, menino? Oxente” E o forró começava. É só um zueiro danado.
P - Aí o forró era pra virar à noite, até de manhã?
R - Ih, já até de manhã, era até de manhã, não tinha jeito.
P - Isso seus amigos, mas os vizinhos participaram também ou não?
R - Os vizinhos eram longe. Não tinha, graças a Deus não tinha vizinho pra perturbar, os vizinhos eram longe, não perturbavam não. O meu som também não era muito alto, que nem o som que a gente contrata agora, essas bandas, era sonzinho, som pequeno assim, fazia barulho dentro de casa. Aí tocava, botava disco, e era dança pra todo lado. Bebia e tudo, oxe, mas era bom demais!
P - E era o quê de música que fazia sucesso de forró na época? Quem que era famoso?
R - Era Amado Batista, era... Meu Deus, tinha um monte. Só música brega que colocava, música brega.
P - Mas isso era o que o povo gostava?
R - Era, o povo gostava. Era Lambada, tinha um negócio da Lambada naquele tempo, aí meu irmão gostava muito da Lambada, aí dançava Lambada aqui só e ficava, já vinha com a namorada, já vinha um outro com o namorado e assim ia.
P - Teve alguma dessas festas que a senhora lembra que te marcou?
R - Ah, sim. Um aniversário que eu fiz, que tinha um menino que trabalhava comigo, ele gostava muito de dançar. Aí botaram, meus irmãos botaram o nome dele “gay de Humaitá”. Por causa que ele dançava todo desmantelado, ele trazia, botava um camisão assim por cima e dançava.
Mas ele não era gay, só que aí eles botaram o nome dele de “Gay de Humaitá” e ele falou assim: “Oxe, mas tão botando o meu nome de Gay de Humaitá. Mas por que eu tenho cara de gay?” E assim ficou, ele nem se aperreava mais. “Cadê o gay de Humaitá, ele não vem, não?” Era assim. Então, até hoje eu lembro disso, até faleceu esse moço já. Então, mas era assim, era muita farra demais.
P - E isso é uma questão da cultura… Porque depois veio vindo mais gente, e essas pessoas vieram de que lugares? Essas que vieram pra cá pra vila, elas vieram de onde? Quem que eram essas pessoas que começaram a chegar aqui?
R - Ah, era tudo daqui mesmo, que pagava aluguel, era da Vila Nova, do Humaitá, vinha pra cá, da Vila São José, um monte de gente foi comprando por aí e ficando.
P - Mas esse povo vinha de São Paulo, vinha de onde?
R - Do Nordeste, a maioria tudo nordestino, né?
P - Mas de algum lugar específico? Ou de vários estados?
R - De vários estados, de várias cidades por lá. Porque tem... Vinha de lá do Recife, vinha de São Bendito do Sul, que era a minha cidade também. Então vinha todo mundo lá, um monte de gente vinha.
P - E como é que o povo ficava sabendo pra vir pra cá?
R - Vinha através de um primo, através de um conhecido que já tava aqui. “Olha, vem aqui. Cosipa tava fichando”. Era tudo pra trabalhar na Cosipa. “Cosipa tava fichando, olha”. Aí vem, aí trazia o primo, trazia o irmão, trazia... E foram trazendo. Então, ele morava... Vinha os peão, depois trazia as famílias, e assim foi. Um ia fazendo um barraquinho, fazia um barraquinho, do lado fazia o do outro, e assim ia indo. Era assim, daqui a pouco, tava tudo morando por aí.
P - E quando a senhora chegou aqui, tinha luz elétrica, tinha água encanada, não tinha?
R - Não tinha água encanada, só tinha luz, a água era da serra. Sabe, ali tinha um motel, um Motel Sauvage que falava, que era bem ali na curva, atrás, lá em cima, aí tinha umas minas, tem ainda, acho que ainda tem essas minas d'água, aí os moradores daqui pegavam as caixas d'água e faziam cacimba lá, e encanava tudo de mangueira pra cá. Quando eu cheguei aqui, que eu comprei, tinha uma caixa d'água bem grande aqui em casa, as pilastras eram daquele dormente da linha, o homem fez, quatro dormente, botou a armadilha, botou a caixa em cima. Aí era muita água, era bem grande a caixa. Então, quando faltava água, o pessoal vinha: “Ah, me dá um pouco d'água”, pegava.
Mas aí era assim, quando dava enchente, chovia muito, entupia as caixas ou quebrava, aí tinha que arrumar, aí os moradores iam lá arrumar. Como eu não tinha quem arrumar, eu pagava, dava o dinheiro pra alguém arrumar na minha parte. A água era encanada assim. Água no chuveiro, na pia, era da serra, vinha por dentro dos tubos, que tem os tubos na pista, aí vinha aqueles monte de mangueiras, era muita mangueira.
P - Mas quem colocou essas mangueiras?
R - Os moradores, os moradores daqui.
P - E como é que vocês se organizavam pra isso?
R - Então, aí tinha um que morava bem ali, que era seu Reginaldo, que era sogro do Lindomar, ele que era o que cuidava dessa parte, né? Aí a gente dava o dinheiro pra ele, ele arrumava os peão pra ir lá arrumar as mangueiras, trocar a mangueira quando precisava, era essa parte dele, aí não faltava água por causa disso. Se não, quando faltava, tinha que ir lá arrumar.
P - E a senhora, quando estava contando agora, falou que tinha enchente. Como é que é essa história das enchentes?
R - Então, é aqueles rolos de alto que vinha da serra e passava por cima do asfalto ali, aí levava tudo.
P - Mas vinha de lá, do outro lado da pista?
R - É, do outro lado da pista. Teve duas vezes que deu isso aí. Uma enchente bem brava, a minha aqui.
P - Mas encheu a sua casa?
R - Não, não. Só enchia os quintal, no quintal. Assim, aquela água arrastando tudo. Mas não entrava em casa, porque a casa era meio altinha. Mas não entrava em casa, mas teve muitas casas que entrava. Depois se acabou isso aí, arrumaram a pista e se acabou, mas era assim. Aí quando veio a água encanada, aí cortaram essas mangueiras lá e botaram um relógio pra todo mundo, né?
P - Mas isso foi um tempo depois?
R - Isso foi muito tempo depois, uns seis, sete anos, por aí. Fazendo essa mangueira, que trazia essa água só da serra.
P - Mas chegou porque a prefeitura colocou que ela quis? Ou o que aconteceu?
Ou o povo teve...
R - É que melhorou o bairro, foi melhorando, foi tendo mais gente, aí a Sabesp viu que faturar. aí foi colocando, aí colocou, graças a Deus. Porque a gente não bebia dessa água da serra, fervia pra gelar, pra poder dar pras crianças. E pra mim também tomar, eu não conseguia, eu tinha medo. Diziam: “Ah, não tem não, porque é da fonte, não sei de quê”. Mas como é que não era da Sabesp, aí tomava água fervida.
P - E a senhora falou que luz elétrica tinha, mas como é que era? Ela já pagava a conta?
R - Não, era taxa, pagava a conta, não, só vinha a taxa, o papel em branco. Não vinha nada pra você pagar, era uma taxa aqui na favela, que não poderia pagar, pra todo mundo era taxa. Quando eu vim pra cá era taxa.
P - Mas luz de rua tinha já?
R - Tinha.
P - Essa luz do poste?
R - Tinha no poste, tinha luz de rua e tinha luz nas casas quando eu vim morar aqui já.
[intervenção]
P - Então, aí como é que se formaram os becos e como é que é a história desses becos?
R - Depois que foi fazendo as casas, aí eu acho que pra trás tinha casa, aí tinha que deixar o beco pra passar, foram botando os nomes dos becos, assim: “Beco Fulano e tal”, foi botar o nome do beco. Aqui, por exemplo, esse beco aqui é “Beco da Zezé”, esse daqui. Mas tem vários nomes aí, que eu nem sei o nome.
P - Mas aqui por que que é Beco da Zezé?
R - Porque a minha prima se chama Zezé e mora ali e não tem saída. Só tem a saída até na casa dela, aí botaram o nome.
P - Mas e, por exemplo, alguns becos são para as pessoas chegar nas casas, mas alguns são de passagem também, né?
R - Não, é só para as casas mesmo, assim. Cada um vai passando, vai para aquele beco, mora ali, passa no beco, né?
P - Ah, nenhum beco vai para as ruas de trás, por exemplo?
R - Não, não tem. É assim, é um beco assim, vai só para as casas.
P - Mulher, mas isso não é perigoso? Se precisar correr, alguma coisa?
R - Ah, é, é, é, é. Tem uns aí que é mais largo, tem outros que é mais estreito, vai para casa, não tem como... É passagem que entrega móveis, entrega compra, entrega as coisas, né?
P - E quando acontece alguma coisa assim, se pegar fogo, por exemplo, como é que o povo corre?
R - Meu Deus, quando pegou fogo ali no barraco, ali foi uma correria pra descer o bombeiro, com aquelas mangueiras tudo, né? Só aqui em cima, pra descer só as mangueiras.
P - Então vamos entrar nessa história do incêndio. Como é que foi esse incêndio, o que que aconteceu?
R - Bem pra ali assim, pegou fogo no barraco, botaram fogo, disse que foi homem bêbado, sei lá o quê, botou fogo. Aí ele aumentou o fogo e lá vai aquela gritaria que tá aí um pouco, uma correria subindo pra cima.
Chamaram o bombeiro, aí os bombeiros ficaram bem ali, descendo com as mangueiras, mas muito longe pra descer com mangueira, aí os moradores foram apagando com água, foram apagando, jogando água e tal, e quando os bombeiros conseguiram apagar tudo mesmo, que demorou pra ele botarem das mangueiras até lá, demorou um pouco, derreteu o barraco também, não ficou nada, perdeu tudo. Aí teve que a prefeitura dar colchão, essas coisas assim, ajudar.
P - Mas a senhora chegou a ver isso?
R - Eu vi. Não faz muito tempo
P - No dia que pegou fogo, a senhora chegou a ver?
R - Sim.
P - Nossa, e que... Como é que a senhora ficou?
R - Oxente, meu Deus, fiquei com o maior... Tenho o maior medo porque se pegar fogo aqui, a gente mora na frente, mas quem mora no fundo é muito perigoso demais, muito perigoso. Mas foi, aconteceu já várias vezes, pegou fogo pra lá, pegou fogo pra ali, pegou bem aqui atrás do fundo.
P - E o que o povo faz nesses momentos?
R - Chama o bombeiro e vai apagando eles mesmos com vasilha de água, pegando água e jogando, tira o povo da casa, o povo sai. Então é assim essa luta. Sabe a favela como é que é? Desse jeito mesmo.
P - Vamos falar do restaurante, então. Aí, a senhora foi contando que foi uma lanchonete, depois a senhora se aposentou, aí se dedicou mais. Cozinhando, nasceu o Restaurante da Tia Lita.
R - Foi.
P - Como é que foi essa história?
R - Aí, como é que vai botar o nome? Aí botaram: “Vamos botar Tia Lita”. Falei: “Mas não tem outro nome não pra pôr, não?” “Vai pôr Tia Lita mesmo”. Falei: “Vixe Maria”. E aí botou. Aí ficou, e é conhecida aí todo canto o Restaurante da Tia Lita.
P - Porque até então a senhora falou que cozinhava também no restaurante.
R - Já, eu fiquei cozinhando aqui um bom tempo, eu, cozinheira, tinha os ajudantes e eu cozinhando, eu mandava no pedaço, em tudo, aí, fiquei doente e veio outra pessoa cozinhar, ajudar a minha filha. Então, aí quando eu saí, eu voltei de novo pra cozinhar quando eu melhorei, né? Quatro meses eu enfartei de novo, aí “Não, agora ela não vai trabalhar mais”.
P - Mas isso faz tempo, dona Lita?
R - Faz seis anos, aí então eu não trabalhei mais. Eu venho assim, quando falta a cozinheira, aí eu venho, faço alguma coisa, minha filha ajuda, os outros ajudam, mas ficar mesmo trabalhando, eu não fico mais.
P - E quando a senhora ainda cozinhava, o que a senhora gostava de cozinhar?
R - Eu gosto de tudo, de fazer tudo, gosto muito de cozinhar, feijoada, estrogonofe, frango assado, carne assada, tudinho. Eu gosto muito de cozinhar.
P - E qual que era o carro-chefe aqui do restaurante? Aquele que todo mundo pedia.
R - A feijoada do sábado. Todo sábado tem feijoada aqui. Aí o povo gosta muito da feijoada, e gostava do salgado, que não tem mais, que não tem lanchonete mais, agora é restaurante, gostava das coxinhas que eu fazia. Vinha um homem de São Vicente comprar, comprava um saco assim, ela crua, e levava pra fritar. Porque ele disse que era a coxinha melhor do mundo, gostava muito, vinha pra comprar aqui. Aí eu reclamava até com a minha filha. “Pô, tu vendeu as coxinhas tudo, como é que... Pra fazer assim, em cima da hora, como é que vai vender aqui?” Aí ela: “Mas mãe, o homem queria”. Então, aí já vai eu fazer mais. E demorava um pouco, tinha que cozinhar frango e tal, essas coisas, fazer massa.
P - Mas quando a senhora montou a primeira lanchonete, antes do restaurante, aqui já estava estruturado ou aqui ainda era?
R - Não estava não, tinha um poeirão, poeirão, poeirão danado, aí molhava, a gente molhava tudo na frente, assim com a mangueira, pra poeira não levantar pra não entrar muito pra dentro, porque não tinha porta de vidro e não tem até agora. Por quê? Não tem. Porque ela fazia forró. E não dava pra fazer forró com porta de vidro, que os “bebão” quebrava. Atrapalhava. Aí eu falei assim, agora não tem forró mais, dá pra você colocar a porta de vidro. Claro que não tem aquelas poeiras, aqueles pó mais por causa do asfalto. Mas é bom, porque fica legal, ela disse que esse ano ela vai colocar a porta de vidro.
P - E hoje não tem mais forró, acabou?
R - Não tem forró mais. Ela acabou com o forró.
P - Mas nessa época que ela fazia forró, era lá na frente?
R - É, lá na frente, fazia forró, tirava as cadeiras e chamava a banda e era forró à noite toda. Ela fazendo lanche, era lanche, batata frita e era tudo porção. Então, eu ficava fazendo as porção e ela fazendo lanche lá na chapa, não tem outro exaustor ali na frente, então, ali era uma chapa, aí ali fazia e tal, era forró até de manhã, até às quatro da manhã.
P - E as bandas que vinham eram bandas daqui?
R - Era banda daqui mesmo, as que continuam por aí. Ontem falei, “e aí filha, não vai fazer forró?” mas ela ”Não, acabou Forró lá.”
P - Quais eram as bandas que tinham aqui, famosas, que a senhora lembra?
R - Era o Sanfonado, é... Tinha o “Chamego e Xodó”, esses aí já vinham, era aqui. E outras bandas de Santos que ela chamava? “Olha, vem gente de Santos”. Bom, todo mundo queria ver, aí ficava, assim, chapado.
P - Aí o povo que vem aqui é o povo da vila?
R - É, vem todo mundo, que nem vem no Cabeça (bar), no Cabeça tem a cada 15 dias, cada 15 dias eu vou lá, eu e meu marido, porque esse rapaz, esse senhor que eu tô com ele, faz 5 anos só que eu tô com ele, junto.
P - Então, vamos entrar nessa história, porque a senhora me contou que depois não namorou mais, nem nada, só cuidou dos filhos.
R - Só.
P - Nada, não teve nem namorado.
R - Os filhos eram pequenos, não namorei com ninguém. Quer dizer, namorar, namorava, só não botava dentro de casa.
P - Sei, era só fora.
R - É, só fora. Não forró, não lá, não sei lá.
P - Sei, não casou, não juntou, mais nada.
R - Não, não juntei, não. por causa das meninas, que se um botasse um dedinho nelas, sabe como é? Leoa. “Não, de jeito nenhum”. Aí, depois, casaram. Eu fiquei só, eu precisei de companhia. Sozinho, não dava pra ficar só.
P - E como é que você conheceu esse agora?
R - Ah, esse, antes desse teve outro, não moramos junto.
P - Sim, namorado.
R - É, namorado. Namorava e ele não na minha casa não. Mas esse daí, mora junto, com esse senhor, porque ele é muito bom, é de família. Então, sabe? Vou falar onde eu conheci ele, lá na Cachoeira 1. Não tem a cachoeira? Ele tem um sítio lá, ele tem uma piscina lá e tal. E esse meu genro, o Neguinho, alugou uma casa bem do lado, pra gente ficar no final de semana e no feriado que teve, na piscina e na casa. Aí foi ele e nós, com as crianças, aí ele me conheceu lá, gostou de mim, trocou o telefone e ficou direto, direto, ligando, ligando, ligando, até que conseguiu. E eu: “Não quero, não” E as meninas: “Mãe, mas deixa ele vim e tal”. Aí ele falou: “Não, eu quero assumir ela, gostei dela”. Aí fiquei com ele, que ele é uma pessoa boa, respeitador, muito bom homem, respeitador, muito bom. Não vou dizer, ele é muito bom.
Aí conheceu as famílias também, todo mundo gostou dele, pronto, agora nós temos uma chácara lá em Mongaguá, da família, a gente vai pra lá, eu e ele, nós ficamos a semana inteira lá, plantando coentrinho, cuidando dos cachorros, tem dois cachorros, rottweiler, desse tamanho, cuidando dos cachorros, e fica lá a semana toda, final de semana vem pra cá, pra ir pro forró, aí na semana volta pra lá de novo, aí ele fica dois dias lá no sítio dele, e o restante lá no meu, né?
P - E quando vocês vêm aqui no forró, vocês dançam também?
R - Dança também, um pouquinho, senta, ele toma a cerveja dele, que eu não tomo cerveja, e eu tomo o meu guaranazinho e tal, e vêm assim embora.
P - E a senhora gosta de dançar?
R - Gosto. Eu falei pra ele assim: “Meu hobby é dançar. Vai querer?” Porque eu gosto de forró, eu gosto de dançar. “Não, eu gosto também”. Mas ele não gostava, não, acostumou agora. Ninguém conhecia ele, só me conhecia, agora conhece.
P - Qual o nome dele, dona Lita?
R - Ele é o França. França. José França.
P - Vocês estão há cinco anos?
R - Cinco anos. Acho que agora vai ficar, a vida toda agora, agora não tem como separar mais, não. Operou da vista tá lá de repouso, operou da vista hoje, operou de uma, agora o operou do outra.
P - De catarata?
R - É.
P - O que fico curioso é que a senhora trabalhou no comércio e vive do comércio apesar de ser aposentada. Como é que foi o período da pandemia aqui na vila?
R - Nossa, meu Deus, foi muito ruim. Ah, fecharam as portas, que mandou. Aí a gente fazia a comida aqui dentro e o motoboy entregava embaixo da porta. Entregava e ia entregar em algum lugar e tudo pra não parar de tudo, até melhorar. Eu que fiz a dispersão do cozinheiro, a cozinheira, eu que fiquei fazendo a comida, que era pouca, fiquei com um ajudante e eu trabalhando. Aí eu trabalhei na pandemia aqui dentro.
P - E como é que tava a vila nessa época?
R - Não dava pra pagar pra cozinheira, porque não saía, já ia, não saía. Aí a vila tava todo mundo escondido, ninguém via ninguém. [intervenção]
P - Como é que estava a vila nessa época?
R - Ah, estava muito ruim, o povo tudo escondido, não tinha forró mais. Acho que até passou fome, teve gente que passou fome porque vivia disso e não vendia nada, não tinha emprego. Então, teve gente passando fome. Sei que era gente pedindo aí na porta direto, devido a gente dar cinco, seis marmitas pras pessoas doar, que vinha pedir, que tava com fome, o filho que tava com fome, fazer o quê? Então foi muito ruim na pandemia, foi muito ruim pra todo mundo.
P - E o povo fazia isolamento nessa época? Ou quem trabalhava conseguia trabalhar? Como é que era?
R - Fazia isolamento. A porta ficava aberta, só uma brechinha assim, se alguém visse, denunciava que tava a porta aberta, tinha que abaixar as portas. Nesse tempo a gente fazia forró, parou dentro desse tempo o forró aqui. Porque assim, “não vou fazer forró mais não, deixa quieto”, né?
P - Foi dessa época que parou pra não continuar lá?
R - É, porque eles queriam juntar muita gente, ficava doente. Então ninguém fez forró mais. Aquelas bandas aí, parou de tocar, só vinha reclamando, tavam as contas sem pagar, todo mundo passando fome. Foi difícil, muito difícil.
P - E nessa época tinha uma questão com a saúde. Tinha hospital, tem posto de saúde aqui. Como é que é na vila essa questão?
R - É, tinha posto de saúde ali embaixo. Todo mundo de máscara, todo mundo agasalhado. E que nem ainda tem o posto na Vila Natal, que é mais perto. E no restante ficava tudo em casa, tudo camuflado, sem poder sair pra lugar nenhum, ninguém ia pra lugar nenhum. Fazia aniversário, fazia festinha, fazia mais nada. Foi dois anos chapado, sem nada.
P - E esses postos da Vila Natal e o daqui do Morro do Índio dava conta?
R - É.
P - Porque o povo, algumas pessoas ficaram doentes.
R - Ficaram doentes. Ia pra Cubatão, pronto-socorro, ou num posto aí da Vila Natal, que era o maior. Aqui eles mediam a pressão e já mandavam falar.
P - Mas com a senhora ficou tudo bem? A senhora não pegou, nunca teve covid?
R - Não, aqui em casa ninguém pegou. Se pegou foi muito leve, porque é tomar mais vacina rapidão. Já foi todo mundo vacinado. E a gente procurou ficar em casa. Bem mais em casa do que na rua. Na rua só se fosse preciso mesmo.
P - E depois que abriu, que acabou a pandemia, vocês abriram de novo o restaurante?
R - Foi, abriu de novo o restaurante e continuou. Ficou melhor. Ainda continuou com máscara, bom tempo. Porque ainda tem as vezes quando a gente vai no hospital, é bom ir com máscara, colocar a máscara. É bom. Mas a gente não pegou não, graças a Deus.
P - Mas quando vocês abriram nesse primeiro momento era de máscara?
R - De máscara, servindo de máscara, obrigando o pessoal que não queria. As meninas que trabalhavam aí, dentro da pandemia que está com a gente, só uma, ela não queria usar máscara. “Você vai ser obrigada a usar. Obrigada a usar a máscara, não vai ter jeito”. Aí usava a máscara, servia a mesa, tinha comida na mesa. Agora não tem comida na mesa, não tem forró, só tem delivery, só o delivery.
P - Me diz, Dona Lita, o que a senhora acha que ainda falta pra Vila Esperança hoje?
R - Eu acho que falta sim, ó. É... Pracinha. Assim... Pras crianças que não tem. Que é perigoso aí essa linha. Perigoso. E um lugar pras crianças brincarem que não tem jeito nenhum. Não dá pra brincar com seus filhos em casa. Criança perturba demais. Fica na calçada aí, ó. Como é que fizeram essa calçada larga? Eles ainda brincam um pouquinho. Mas isso aí não tem. Não sei lá com o Morro do Índio, acho que tem alguma coisa lá. Ali embaixo. Mas aqui pelo meio tem muita criança, não tem nada.
P - Mas tem escola para essas crianças?
R - Tem, lá no Morro do Índio, vão para lá ou para Vila Natal.
P - E dá conta das crianças daqui?
R - Dá, tem ônibus que leva. Acho que não... Tá cheio, leva para outro canto. Vai de ônibus até aqui. Funciona bem.
P - E da mobilização das pessoas, o que a senhora viu de associação, de reunião de pessoas? A senhora viu alguma coisa? Você viu o que a senhora viu?
R - Não, eu não vi não, porque quase eu não saio. Só que eu faço ginástica e sempre tem reunião onde eu faço ginástica, lá no Anilinas, aí eu faço ginástica com um monte de gente, de idoso, também da minha idade, mais nova um pouco, aí eu faço duas vezes por semana, mas a professora, ela dá aula a semana inteira. Hoje não teve porque ela foi no médico, mas sempre dá, acho que ela ganha da prefeitura pra fazer isso aí, dos idosos, lá no Anilinas.
P - E de programa social dentro da vila, assim? A senhora viu alguma coisa?
R - Não, não vi. Eu acho que deveria ter um vereador aí de mão forte, pra cuidar disso. Tinha o Cabeça, se ganhasse e não ganhou, a gente lutando, lutando e o cara não ganhou, não sei se ele vai se candidatar de novo. Então, vamos ver.
P - Porque a senhora acompanhou esse período aí da campanha?
R - Sim, com certeza. Aí ficamos com ele, trabalhando pra ele. Foi.
P - Não, então me conta esse período da campanha. Como é que foi, dona Lita?
R - Primeiro, o Neguinho era candidato, antes do Cabeça. O Neguinho ficou candidato duas vezes e não ganhou, aí a minha filha falou: “Eu vou separar. A gente separa, porque não vou gastar dinheiro com política se não tá tendo resultado”. Aí tá, ele não quis candidato, ficou trabalhando pro Cabeça. Acho que é a segunda vez que o Cabeça candidatou. Aí a gente trabalhou pra ele, fazia reunião aqui, aí a gente fazia bolo, fazia... Eu e minha filha fazia bolo, botava biscoito, guaraná, e era café, e era isso, era tudo, e o cara não ganhou, a gente ficou revoltada, eu fiquei revoltada que ele não ganhou.
P - Mas ele foi bem votado?
R - Foi nada. Foi não. Ele faz um negócio assim de comida, de... É numa segunda-feira, que é dos botequeiros. Menino, isso aí é gente, quando ele faz isso aí, viu? Ele não solta, os botequeiros tudo fazem, menos nós, nós não somos botequeiros, nós somos trabalhadores restaurantes, pessoal, aí ele pega... Eles dão comida, tem banda, muita coisa, comida, é um banquete, é gente que eu falava: “Cabeça, tá vendo? Esse povo tudinho aí se votasse em você, você ganhava brincando. Mas tu tá vendo que vem só comer. Você tá gastando o seu dinheiro”, falei pra ele.Eu não vou deixar quieto, que eu falei, “É verdade” - Ele falou “tudo falso, falsidade, falsidade demais.”
Aí, eles fazem isso aí, vem muita gente, é gente demais. Então, não sei como é que vai ficar na outra campanha dele, se a gente vai trabalhar com ele. Então, estamos vendo aí, porque tem que ter resultado, falei pra ele: “Ó, tem que ter resultado de alguma coisa”. Aí, ele tá fazendo, faz Dia das Crianças, faz sempre, fez agora, domingo, ele fez uma festa pras crianças, teve sorteio de bicicleta e tudo, dá docinho e tudo pras crianças, né?
P - A senhora viu essa festa?
R - Eu cheguei já no final, porque eu tava lá em Mongaguá, mas tava boa. Aí teve sorteio, as crianças brincavam, botou pula-pula, ele sempre faz essas coisinhas. Então, se o pessoal visse isso, votava nele. Aí ele ia fazer alguma coisa aqui na vila. Compravam dois terrenos aí de barraco, fazia alguma coisa pras crianças. É isso que falta aqui, uma quadra pra criança brincar por aqui. Eu pensei que ia fazer aí, nesse negócio aí, mas ele não vendeu pra prefeitura, disse que a prefeitura se interessou, mas ele não vendeu esse terreno ali dá pra fazer alguma coisa aí pras crianças, mas ele não vendeu.
P - E o que a vila tem de bom? Que a senhora sente que ela tem de bom, que a senhora vê?
R - Eu acho que ela tem de bom assim, tem condução na porta. É isso que eu mais gosto, porque eu saio pra aqui, saio na porta e pego ônibus, vou pra Cubatão, eu vou pra Santos, pra onde eu quero. Por exemplo, eu pego esse ônibus daqui, tem pra Santos, tem pra Cubatão, tem o uber agora, que era a perua, tiraram as peruas e botaram os carros particulares, então os caras têm condução aí na porta. Falo que o lugar melhor para se morar é a Vila Esperança. E a gente mora aqui há tanto tempo, nunca foi um assaltado, que é o melhor, todo mundo respeita a gente aqui, eu acho que todo mundo respeita. Por que não aconteceu isso, a gente nunca foi assaltado, todo mundo é amigo, chega aí, fala, compra e sai. Teve forró, nunca teve briga, quer dizer, que eu acho que é porque é bom, mesmo.
P - Mesmo o restaurante fica aberto até mais tarde. Nunca aconteceu nada de mal?
R - Quando ficava, agora não fica. Quando tinha lanche, era até meia-noite. Agora, quando é nove horas fecha, porque não tem mais ninguém, é só comida e adega, tem comida e tem adega. Aí ele pega, alguém vem, compra o pacote fechado, vai embora. Até às nove ele tá aberto, depois de nove horas ele fecha.
P - Mas nunca aconteceu nada de mal?
R - Não, graças a Deus não. Nunca. É uma benção. Porque um lugar desse aí que se mora, o pessoal tem medo, mas com a gente não vai acontecer nada, não.
P - E o que a senhora pensa pro futuro da vila? A senhora falou do lazer pras crianças. Mas o que a senhora, se pensar no futuro, o que a senhora desejaria pra vila?
R - Ah, eu acho que era urbanizar, urbanizar a vila, aí ficava top. Aqui tem que urbanizar.
P - Então vamos falar sobre a urbanização porque essa parte é importante. Por exemplo, o que que deveria fazer para urbanizar?
R - Urbanizar é fazer apartamento, que é o que eles fazem, apartamento que eles têm na Vila Natal, fez lá no Costa Muniz, parece, não sei. Aí, aqui deveria fazer o que sempre andam falando que vai urbanizar, abrir rua, por exemplo. Vai que a minha casa caia numa rua dessa, tem que sair, não é? Aí tem que sair...
P - Mas aí é indenizado?
R - É indenizado, me dá moradia, dado não, que é vendido, a moradia e aí vai urbanizar, dá o dinheiro pra pessoa, porque aonde cai a rua, a rua tem que tirar a casa. Mas eu acho que tem que acontecer isso.
P - Por que a senhora acha que urbanizando melhora?
R - Porque muita gente que mora assim, numa palafita, de dar dó. A gente mora aqui a gente vê quando chove, que vai a água todinha pra lá e vai pra passar, pisa dentro da água. Tem esgoto, não tem esgoto. Não é por isso que tem que ter urbanização. Não tem esgoto. Vai tudo do mangue, toda sujeira. Aqui mora muita gente, demais. Então tinha que fazer isso.
P - Mas a senhora já foi lá na palafita?
R - Já, já fui muitas vezes.
P - Mas ainda tem gente que mora hoje lá, né?
R - Muita gente, muita gente. Palafita é assim, você olha, tá aquela água escura ali embaixo que é só fezes, cai tudo ali, é demais pra morar. Mosquito. Mosquito assim demais, muita sujeira, então eu acho que tinha que urbanizar e logo.
P - E tem gente que já saiu e já foi pra algum prédio aqui?
R - Já.
P - Já aconteceu de gente de algum lugar sair pra ir pra algum prédio?
R - Não.
P - Ou não aconteceu ainda?
R - Não, não aconteceu ainda, não. Tão falando que vão urbanizar, que vão fazer apartamento, ou tão fazendo, que nem lá na Vila dos Pescadores, que vão fazer apartamento lá. Eu já escutei até na televisão, falando que vai urbanizar lá, fazer apartamento, naquele povo de lá. Então, aqui deveriam fazer também pra poder ficar melhor, morar bem. Se você for na palafita, é de fazer dó, fazem os barracos em cima na palafita, assim, e o vaso já põe lá, a pia, o vaso, já põe tudo, né?
P - Mas hoje continua o bairro crescendo pro mangue ou não?
R - Deu uma parada, viu? Deu uma parada, porque... Mas se você subir por aqui assim e olhar lá pra dentro. Subir lá em cima, se você olhar, você vê que daqui um pouco, você tá lá em Santos, vixe Maria, tá muito longe os barracos já.
P - A senhora mora aqui na Avenida Principal, mas a senhora costuma andar pelo bairro?
R - Até que eu parei, eu ia quando eu ia no cabeleireiro que morava lá, a menina morava lá longe, nunca mais fui, não, mas tem umas amigas minhas aí que moram lá e eu sei que é assim, é muito triste. Essa água corre tudo vir. A menina que cozinhava aqui, aí ela disse que deu uma chuva. Ela falou que olha, quase que eu não vinha, porque não dava pra passar. A água, que ela tem um problema nos pés, aí diz que fica coçando. Aí falei: “Vai passar álcool nos pés, lavar com água quente”. Porque é muito triste.
Fale aqui pra minha filha: “A gente mora aqui, mora no céu, aqui na frente. Porque não tem esse problema de pisar na água”. Aqui os esgotos também vão pra lá. Tem as caixas feitas, os becos. Quando tem que desentupir, o Neguinho mesmo chama a prefeitura pra vir de vez em quando para desentupir.
P - Mas o esgoto da frente vai pra trás? Não entendi isso.
R - Vai tudinho. Aqui não tem esgoto pra mandar pra rua, não tem.
P - E aí a senhora tava contando que quando entope...
R - Quando entope aqui já conseguiu desentupir, pois a gente paga pra desentupir. E ele também já trouxe várias vezes aquele caminhão que desentope pra desentupir o nosso lado pra não ficar na porta dos outros, pra não aperrear ninguém, que ficam reclamando. “Olha, é de lá pra lanchonete”. Aí o Neguinho: “Caramba, só é daqui”. Aí vai lá, desentope, ajeita, faz caixa, põe mangueira. E a gente fica assim.
P - E quando tem esse tipo de problema, vocês conseguem falar com a prefeitura? Ela aparece aqui, não aparece?
R - Não, ele que vai atrás e fala lá, pra ver se eles vêm, aí demora, mas aparece sempre, mas de vez em quando o caminhão pra desentupir, né? Principalmente se tá perto da eleição, aí eles vem direto. [risos]
P - E quando não tá, como é que resolve?
R - Ele chamou aí, eu “neguinho, tu falou?” - ele “Ah, falei, tô esperando.” Aí demorou pra vir, né? Mas veio, mas demorou pra desentupir. Aí ficou reclamando que não tinha alguém pra ajudar, né? Aí ele foi lá reclamar com eles, aí tem um monte de homem que mora aí, que não vieram ajudar o cara, com as mangueiras, né? Aí tá, mas desentupiu.
P - E a senhora pretende continuar na vila? Pretende sair um dia? Como é que é a sua história com a vila? O que você sente?
R - Eu acho que ela tá perto de ficar por aqui mesmo. Enquanto a minha filha morar por aqui, meu genro, vou ficar só aqui também, eles estão aqui, aí se vai vender, eu vendo com tudo, vendo aqui e vendo lá. Porque não dá pra vender uma parte e ficar a outra, aí vende aqui e vende lá, vendo aqui e vendo lá.
P - A sua filha mora no fundo, é isso?
R - Ela mora aqui. Ah, nessa casa? Essa casa é a dela. A minha que é lá embaixo. A minha que é lá embaixo. O rapaz não sabe que o homem tá pintando. Tá pintando pra ela botar as árvores de Natal. Aí ela tá pintando, arrumando lá.
P - Não, agora entendi o que a senhora falou. Vai ter que vender tudo pra sair daqui.
R - Vender tudo, é.
P - Mas a senhora não tem essa intenção.
R - Não, nem pensei ainda. Os outros que moram fora que ficam falando no meu ouvido. Meus filhos que moram fora.
P - Mas o que que eles falam?
R - A minha filha, a minha caçula, que morava nos prédios ali lá no Natal, vendeu e comprou uma casa na Praia Grande, casa boa, linda, casa dela. Aí: “Mãe, a senhora tem que vir pra cá. Por que você não vende tudo e vem pra cá?” Eu digo: “Minha filha, como é que vai vender lá no comércio, vai viver do que aqui? Tem que ficar lá, não adianta”. Falei: “Já fiquei lá esse tempo todo, vou sair de lá pra quê?” Nossa senhora, parece... Falei: “Eu gosto”. Tô falando que eu gosto da vila, eu gosto da Vila Esperança, eu gosto.
P - Então, a senhora falou o que gostava e o que a senhora sente na vila?
R - Ah, me sinto bem aqui, chego aí de noite, (a) qualquer hora, falo com todo mundo, todo mundo. Mas aqui eu conheço até os ‘psicos’, respeito a gente, os psicos que é mesmo: “Tem aí, tia, um cigarrinho” “Tem aí?” Negócio doido. Então o dinheiro “toma de cinco reais” e eles vão embora, então é assim, então vai vivendo. A gente vive com o bom e com o ruim ao mesmo tempo, tem que ser assim, a gente vive com a pessoa boa e a gente vive com a pessoa ruim também, tem que ir levando a vida.
P - E como é que é isso quando vem com o bom e com o ruim?
R - Então, o bom, porque é bom, a gente confia. E o ruim a gente vai devagarzinho e tal. Agrada pra lá, agrada pra cá. E assim vai levando. Não pode confiar. Não pode confiar. Porque tem muito, mas não pode confiar. Sempre eu falo, “ô, cuidado”. Eu que sou a mais velha por aqui, por esse pedaço, então... Eu fui pro Forró mais tarde. Quando eu cheguei, aí a menina da banda falou: “Olha quem chegou ali. A tia Lita chegou”. Falei: “Eita, já tão me vendo já”. Mas aí, de um outro jeito, ela falando de microfone que eu cheguei.
P - E o povo lembra da senhora da época do Forró também, né?
R - Lembra, eles falam assim: “Não vai voltar a fazer forró mais não, é?” Aí eles, essa banda aí, que é meu amigo: “ó tia Lita, tu vai fazer Forró mais não? Então, marca um almoço lá pra gente cantar umas modas?”
Aí marquei o almoço pra fazer uma galinhada, tá bom, aí vieram, aí cantaram até umas oito horas da noite. Vieram assim, umas três horas, cantaram até umas oito horas da noite. “Cantar as modas que a senhora gosta de Amado Batista”. Falei: “Tá bom”. Aí vem e canta, ele e a mulher que canta que trouxeram o filho pra comer. Fizeram uma farra aqui embaixo, chamei a família, os filhos, aí vieram, comeram bastante, cantaram e foram embora.
P - E a senhora não tem vontade de abrir o forró mais?
R - Não, é porque agora é adega. Então tá cheio de bebida. A adega era nessa outra parte, da outra minha filha, dessa que comprou a casa na Praia Grande. Mas aí ela entregou, ela não quis mais ficar, tá trabalhando de professora. Ela tem faculdade de professora, então não trabalha de professora. Aí, ela tá trabalhando de professora e não quis mais a adega. Aí vendeu a parte da bebida pro meu genro, aí ele pegou e botou pra cá, aí tirou as mesas, que era comida e ficou só adega e delivery.
P - Então a gente vai se encaminhar pras últimas perguntas, Dona Lita.
R - Tá bom.
P - Teve alguma pergunta que eu não fiz e alguma coisa que a senhora queria contar e eu não perguntei?
R - Ah, é?
P - Alguma coisa? Teve alguma coisa? Ou tem alguma coisa que a senhora queira falar que eu não perguntei?
R - Pra lembrar agora é difícil
P - Se a senhora lembrar, a gente grava. Então eu vou fazer uma última pergunta pra senhora. O que a senhora sentiu contando a sua vida e sabendo que agora a sua vida vai virar uma peça de museu?
R - Meu Deus do céu! aí, Vixe Maria mesmo, ah! de boa, de boa... tá bom, pelo menos quando eu morrer, todo mundo vai lembrar de mim. Vai lembrar, “olha essa aqui, Tia Lita deu entrevista, lá é a vida dela, ela é a fundadora da Vila Esperança, aqui, ó” [risos]
P - Muito bem, Dona Lita. Obrigado pela entrevista, viu?
R - De nada.
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