Meu nome é Antonio Roberto Cunha Menezes. Nasci em 30 de setembro de 1951, em Salvador.
A minha história com a Petrobras começa antes do meu ingresso, quando começou a instalação da refinaria, aqui na Bahia, e meu pai foi trabalhar lá. Nós fomos acompanhando meu pai, em 1956, mas, eu só comecei a trabalhar na Petrobras a partir de 2 de janeiro de 1973.
Toda aquela parte da instalação da vila, a ampliação da refinaria, tudo aquilo eu vivi. A princípio, a vida era muito difícil e os trabalhadores eram atraídos por causa do salário. A gente não tinha estrada de acesso, ia através do massapé. Às vezes, ia no lombo do burro e até o burro atolava. Do outro lado da região está instalada a refinaria, separada por um rio chamado Mataripe. Na verdade, é um braço de mar, onde atracavam os saveiros que iam levar ou trazer material para Salvador. A gente morava do outro lado, num lugar chamado Niterói, por coincidência imitando o Rio de Janeiro e a cidade de Niterói. Então a gente atravessava de canoa. Para compensar tudo isso, a Petrobras começou a dar vantagens, as casas que foram construídas para os americanos que vieram montar a refinaria. Depois eles foram embora e aquelas casas foram distribuídas entre os cargos de maior relevância dentro da empresa. Assim eu vivi muitos anos na vila de Niterói. Existiam escolas, que a Petrobras sustentava, dos dois lados: a Escola Reunida de Niterói e a Escola Reunida de Mataripe. Depois, vim morar na Vila de Mataripe. Foi lá que eu cresci e vi a refinaria. Corri muitas vezes, à noite, por causa de incêndio. Quando começava a apitar, dava três apitos de recado, de força de alerta. Todo mundo saía correndo do jeito que estava. A gente via muita gente lá de camisola, cueca, pijama, correndo pelo meio da rua, porque fazia medo mesmo. Os nossos pais corriam para a refinaria, para ajudar a apagar o incêndio, e nossas mães corriam conosco para fora da refinaria, da vila, porque era muito...
Continuar leituraMeu nome é Antonio Roberto Cunha Menezes. Nasci em 30 de setembro de 1951, em Salvador.
A minha história com a Petrobras começa antes do meu ingresso, quando começou a instalação da refinaria, aqui na Bahia, e meu pai foi trabalhar lá. Nós fomos acompanhando meu pai, em 1956, mas, eu só comecei a trabalhar na Petrobras a partir de 2 de janeiro de 1973.
Toda aquela parte da instalação da vila, a ampliação da refinaria, tudo aquilo eu vivi. A princípio, a vida era muito difícil e os trabalhadores eram atraídos por causa do salário. A gente não tinha estrada de acesso, ia através do massapé. Às vezes, ia no lombo do burro e até o burro atolava. Do outro lado da região está instalada a refinaria, separada por um rio chamado Mataripe. Na verdade, é um braço de mar, onde atracavam os saveiros que iam levar ou trazer material para Salvador. A gente morava do outro lado, num lugar chamado Niterói, por coincidência imitando o Rio de Janeiro e a cidade de Niterói. Então a gente atravessava de canoa. Para compensar tudo isso, a Petrobras começou a dar vantagens, as casas que foram construídas para os americanos que vieram montar a refinaria. Depois eles foram embora e aquelas casas foram distribuídas entre os cargos de maior relevância dentro da empresa. Assim eu vivi muitos anos na vila de Niterói. Existiam escolas, que a Petrobras sustentava, dos dois lados: a Escola Reunida de Niterói e a Escola Reunida de Mataripe. Depois, vim morar na Vila de Mataripe. Foi lá que eu cresci e vi a refinaria. Corri muitas vezes, à noite, por causa de incêndio. Quando começava a apitar, dava três apitos de recado, de força de alerta. Todo mundo saía correndo do jeito que estava. A gente via muita gente lá de camisola, cueca, pijama, correndo pelo meio da rua, porque fazia medo mesmo. Os nossos pais corriam para a refinaria, para ajudar a apagar o incêndio, e nossas mães corriam conosco para fora da refinaria, da vila, porque era muito perigoso naquela época. Fui crescendo ali e só saí, da vila de Mataripe, depois que fiz 18 anos, porque não tinha mais como a gente estudar, a escola encerrava no terceiro ano. Aí voltei para Salvador, para poder continuar meus estudos. Em 1972, eu já estudava e trabalhava, quando foi aberto um concurso. Fiz o concurso com 6.800 pessoas e consegui ser aprovado. Comecei a trabalhar na refinaria e fiquei até me aposentar.
Entrei como operador estagiário e trabalhei lá por 22 anos. Saí com operador chefe, que chamava OSI - operador de sistemas industriais. Eu trabalhava na Unidade 13, a unidade que pegou fogo e matou muita gente na época, gente que morava conosco lá na Vila de Mataripe. Logo em seguida fui trabalhar na unidade 18, a maior unidade de refino de parafina e óleo lubrificante, e estava acabando de ser montada. Minha atividade era de manutenção da operação da planta. A gente cuidava dos detalhes para poder manter a especificação de enfrentar as emergências, treinamento do pessoal, comando do pessoal, trato com a chefia, com os objetivos que a empresa traçava, em termos de produtividade. Essa era a nossa luta no dia a dia, chovendo ou fazendo sol, de dia, de noite. Meu segundo filho, por exemplo, eu não vi nascer, porque estava trabalhando. Então eu perdia muito São João, carnaval, Ano Novo. Era uma rotina, que a gente acabava se acostumando e levando a vida em frente, enfrentando muita dificuldade, muitos incêndios, muitos acidentes. Vi muitos colegas adoecerem e morrerem, mas, a gente nunca desistiu. Procurou sempre encontrar o melhor, porque era aquilo que a gente tinha se proposto a fazer.
De certa forma, era um sonho trabalhar na Petrobras. Além de ser a continuidade da vida do meu pai, acho que me acostumei com as atividades que ele desenvolvia e dei prosseguimento ao que meu pai fazia.
Meu pai trabalhava na Petrobras, mas no setor administrativo. Ele comandava, a princípio, o posto de lavagem e lubrificação da frota da Petrobras. Depois, assumiu o cargo de chefia da oficina de manutenção de veículos da frota.
Eu não participei do acidente da Unidade 13. Estava lá porque morava na Vila de Mataripe. No momento da explosão, eu estava no colégio, que fica perto do centro de treinamento. Quando ouvimos a explosão, fomos a pé, correndo. Chegamos na vila e vimos uma casa com um pedaço do compressor, que tinha caído dentro de uma moita de bananeira, derreteu as bananeiras todas. Aí fomos saber que vários pais de colegas nossos, vizinhos nossos, haviam morrido no incêndio.
Depois que entrei na Petrobras, enfrentei muitas situações de perigo, inclusive no meu próprio setor. Enfrentei um grande incêndio na unidade 6 - uma unidade de craqueamento, acho só existe aqui no Brasil ou no México. Um reator de craqueamento catalítico quase foi pelos ares, por causa de um furo que tinha no tanque de armazenamento de gasolina. Essa gasolina vazou pelo furo dentro do dique, foi correndo pelo esgoto e, na distância de mais de um quilômetro, havia um soldador em cima da valeta soldando uma peça. O respingo da solda caiu e aquilo veio como um rastilho, seguindo por dentro d’água, em cima da água, subiu pela parede do tanque e explodiu o tanque. Derramou, se não me falha a memória, mais de 12 milhões de litros de gasolina. Foi muito fogo e eu participei do combate a ele. Passei mais de 32 horas trabalhando, inclusive com a ajuda do corpo de bombeiros, aqui de Salvador, para que a unidade 6 não explodisse, também, junto com o reator. Isso foi nos anos 70. Depois, também na unidade que eu trabalhava, houve um grande incêndio, na unidade 18. Quando fui chegando para trabalhar, aconteceu o acidente. Fui correndo da casa de ponto até a unidade para ajudar no combate ao incêndio, que levou algumas horas. A unidade trabalhava com uma mistura de produtos para produzir parafina. Houve um defeito numa bomba, pegou fogo, explodiu e a chama subiu mais de 20m de altura. Nós só conseguimos acabar com o incêndio, devido à grande atitude de um colega que, com nosso apoio, conseguiu fechar uma válvula e aí a gente controlou o incêndio. Depois disso, foram feitas modificações, exatamente para prevenir novos acidentes. Fora isso, alguns outros acidentes pequenos, que não tiveram tanta relevância em termos de produtividade.
Lembro de um colega, que trabalhava lá e morava na Vila de Mataripe, chamado Pernambuco. Ele tratava a casa de força, onde era supervisor, como se fosse um filho. Tudo o que acontecia dentro da casa de força, tinha que ter a participação dele. Era um cara muito destemido, muito corajoso. Não tinha hora para ele. Podia estar em casa dormindo, de folga em Salvador, qualquer problema, você chamava e ele enfrentava mesmo o fogo, como se não tivesse acontecendo nada. Era um cara muito respeitado pelos colegas, em função das atitudes que ele tomava para preservar o patrimônio da Petrobras. Lembro de outras pessoas, que também se destacaram no tratamento com as pessoas. Tinha um superintendente, um cara muito educado, muito humano, estava sempre procurando ajudar. Morava lá na vila também. Antes dele, eu alcancei outros superintendentes, eram todos generais. A partir da revolução em 64, só tinha general. Eu me lembro da invasão da vila, em 64, a gente correndo, o exército invadindo e a gente correndo com medo que prendessem os nossos pais. Eles entravam e furavam o teto, os tetos das nossas casas eram forrados de Eucatex. Eles furavam com baioneta, procurando o pessoal para prender, sob o comando do Coronel Futuro, se não me engano. Nós ficamos cercados lá dentro da Vila, com medo, até que foi normalizando. Quem tinha que fugir fugiu, quem tinha que ser preso, foi preso. A gente vivia sob uma emoção muito forte, em função da presença do exército, que causava terror a todos nós. Nossos pais saíam para trabalhar, por exemplo, com medo. Não queriam levar nada que fosse estranho ao trabalho, nem lanche o pessoal queria levar, com medo de ser revistado e eles acharem que podia ter alguma coisa ali, que pudesse demonstrar algum ato de agressividade ou de interesse maior. Lembro, também, voltando aos primórdios da época dos saveiros, de uma grande explosão que houve num saveiro carregado com uns botijões de gás liquefeito. Era um saveiro de madeira, explodiu e a carcaça ficou lá defronte um posto médico por muitos e muitos anos. Aqueles botijões explodiam, voavam, caíam dentro da vila em tudo quanto era lugar. E a gente correndo, com os botijões de gás explodindo. Ao mesmo tempo era emocionante e uma coisa que a gente temia, porque não tinha a segurança. De certa forma, a gente vivia amedrontado e esse medo crescia à medida que a gente ouvia o apito de alerta dado pela casa de força. Quando apitava aquilo, parecia que um buraco se abria e a gente se escondia ali embaixo, com medo do que pudesse acontecer. Mas, aí eu vi a vila crescer. A construção da concha acústica, uma réplica da concha de Salvador, onde muitos cantores nacionais e internacionais se apresentaram. A Petrobras, naquela época, procurava proporcionar o maior prazer possível às pessoas que moravam lá, porque era uma forma de conservar aquelas pessoas lá. Então a gente tinha, todo o mês de setembro, por exemplo, uma grande comemoração de aniversário da refinaria, da Rlan, onde se servia churrasco, se distribuía brindes. No Natal, todos os filhos recebiam presentes dados pela Petrobras, de acordo com a idade. Tinha uma cantina, mas essa cantina já era por parte do sindicato, tinha o açougue da Petrobrás, que todo dia de manhã a gente recebia a carne e o tempero. O leite e as outras compras, a gente fazia na cantina, onde era anotado numa caderneta para ir pagando mensalmente. Então aquela conta nunca descia, só fazia crescer, porque não havia acabado de pagar ainda a conta do mês anterior, fazia nova compra e a conta ia sempre subindo. O sindicato também fundou uma cooperativa na cidade de Candeias, em 1960, 59 por aí, e começou a vender gêneros alimentícios. Aí a Petrobras foi crescendo, se construiu a estrada, a ligação de Cobra de Defunto, que é na BR, até Candeias e, de lá, até Mataripe. Naquela época, a gente ia ou vinha para Salvador de trem. Saltava em Candeias e de Candeias era barro puro, como eu falei antes, era massapê, levava horas para andar seis quilômetros, para vencer a distância entre Candeias e Mataripe. Quando eu entrei para trabalhar, já existia a pista asfaltada, de certa forma construída, financiada, digamos assim, pela Petrobras. Nós, filhos de petroleiros, vínhamos para Salvador a toda hora. Pela relação da própria Petrobras com o resto do mundo, havia necessidade de vir para Salvador. Naquele tempo, a comunicação era feita somente através de rádio, existia um setor exclusivo para isso, para colocar a refinaria em contato com o resto do Brasil. Depois da estrada, esse contato foi se tornando mais pessoal, foi se tornando mais rotineiro e, também, as nossas viagens. A Petrobras dava ônibus para nos levar a Salvador para estudar, ou em Candeias, onde quer que fosse. Então a gente transitava muito e só acontecia alguma coisa ou outra, por causa de acidente. A pista era muito estreita e aconteciam muitos acidentes. Tem um grande acidente que aconteceu com um ônibus. Nós botamos apelido de ‘mercedão’. Era um ônibus que cabia 75 pessoas sentadas, um pouco menor que o papa-fila. Um dia, saímos lá de Mataripe, eu estava no ônibus, mas na última hora desisti, saltei. O ônibus chegou numa pontezinha, ali um pouquinho antes de Mataripe, bateu numa caçamba de Norberto Odebrecht e morreram 30 e tantas pessoas, inclusive um amigo que estava comigo. Eu estava junto dele e na última hora desisti e saltei. Ele faleceu naquele terrível acidente.
Nunca fui ligado ao sindicato. Sempre fui sindicalizado, mas nunca participei de nenhum cargo dentro do sindicato.
Foi uma grande alegria trabalhar na Petrobras, um grande aprendizado, principalmente. Me enriqueceu muito em termos de ser humano, de homem, de pai. Eu sempre procurei passar para os meus filhos o que eu aprendi com o meu pai em termos de responsabilidade, dignidade. Então foi uma grande alegria para mim, além de uma realização pessoal, profissional, porque apesar de ser formado, nunca exerci a minha formatura, entrei lá e trabalhei como operador de processamento de petróleo.
Acho isso muito importante porque, além de reconhecer o esforço que todos fizeram para construir a empresa que é hoje, a gente também tem como passar isso para outras pessoas. A Petrobras é uma entidade sempre respeitada, onde quer que a gente vá.
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