José Soares da Silva, carinhosamente chamado por todos de Mestre Dila, veio ao mundo no dia 23 de setembro de 1937, nasceu cidade de Bom Jardim, interior de Pernambuco. Sua jornada nas artes começou de forma singela: ainda menino, com apenas 15 anos e dois de estudo, saiu de casa para passar um dia em Caruaru e acabou ficando para sempre. Foi ali, no coração do Agreste, que a poesia o encontrou. Começou trabalhando no Jornal Vanguarda, onde seus olhos brilharam pela primeira vez ao ver a impressão em papéis.
Desse encantamento brotou uma paixão profunda e múltipla: Mestre Dila se fez por inteiro — cordelista, xilógrafo, tipógrafo e poeta. Primeiro, encantou-se pela tipografia; depois, autodidata, aprendeu a xilogravura para ilustrar os cordéis que já escrevia, unindo palavra e imagem com maestria. Com a mesma genialidade inquieta, foi além e se tornou pioneiro na arte da linogravura, substituindo com maestria a madeira pela borracha e pelo linóleo — uma inovação rara entre os artistas populares da época, que abriu novos caminhos para a sua criação.
E foi assim, entre as feiras livres do interior — de Caruaru às cidades vizinhas —, que o moço Dila começou a vender seus folhetos. Chegava cedinho, abria a maleta e cantava seus versos em voz alta, encantando os passantes com prosas que falavam de Lampião, de Padre Cícero e de um realismo fantástico que só a sua mente genial sabia inventar. Dizia com orgulho que carregava no sangue as histórias do cangaço, tanto que seu próprio apelido, Dila, foi uma homenagem a um dos cangaceiros do bando de Lampião, como se ele mesmo fosse parte daquele enredo eterno.
Seu talento era tão imenso quanto sua simplicidade. Coração generoso e mãos habilidosas, Mestre Dila escreveu mais de 200 cordéis e criou centenas de xilogravuras e linogravuras que correram o mundo. Pessoas de todos os cantos do Brasil vinham conhecê-lo e encomendar suas obras, que ilustravam desde folhetos e livros até...
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José Soares da Silva, carinhosamente chamado por todos de Mestre Dila, veio ao mundo no dia 23 de setembro de 1937, nasceu cidade de Bom Jardim, interior de Pernambuco. Sua jornada nas artes começou de forma singela: ainda menino, com apenas 15 anos e dois de estudo, saiu de casa para passar um dia em Caruaru e acabou ficando para sempre. Foi ali, no coração do Agreste, que a poesia o encontrou. Começou trabalhando no Jornal Vanguarda, onde seus olhos brilharam pela primeira vez ao ver a impressão em papéis.
Desse encantamento brotou uma paixão profunda e múltipla: Mestre Dila se fez por inteiro — cordelista, xilógrafo, tipógrafo e poeta. Primeiro, encantou-se pela tipografia; depois, autodidata, aprendeu a xilogravura para ilustrar os cordéis que já escrevia, unindo palavra e imagem com maestria. Com a mesma genialidade inquieta, foi além e se tornou pioneiro na arte da linogravura, substituindo com maestria a madeira pela borracha e pelo linóleo — uma inovação rara entre os artistas populares da época, que abriu novos caminhos para a sua criação.
E foi assim, entre as feiras livres do interior — de Caruaru às cidades vizinhas —, que o moço Dila começou a vender seus folhetos. Chegava cedinho, abria a maleta e cantava seus versos em voz alta, encantando os passantes com prosas que falavam de Lampião, de Padre Cícero e de um realismo fantástico que só a sua mente genial sabia inventar. Dizia com orgulho que carregava no sangue as histórias do cangaço, tanto que seu próprio apelido, Dila, foi uma homenagem a um dos cangaceiros do bando de Lampião, como se ele mesmo fosse parte daquele enredo eterno.
Seu talento era tão imenso quanto sua simplicidade. Coração generoso e mãos habilidosas, Mestre Dila escreveu mais de 200 cordéis e criou centenas de xilogravuras e linogravuras que correram o mundo. Pessoas de todos os cantos do Brasil vinham conhecê-lo e encomendar suas obras, que ilustravam desde folhetos e livros até rótulos de cachaça. Com sua arte, sustentou a família e sua amada esposa. Teve seis filhos, 12 netos e 13 bisnetos que guardam na memória o som do antiga máquina tipográfica manual e o cheiro da tinta fresca, símbolos de uma vida inteira dedicada à beleza.
Considerado o "papa da xilogravura" e o "marechal do cordel", foi ele quem ensinou os primeiros traços a outro gênio: J. Borges. Mesmo com tanta grandeza, jamais perdeu a humildade — ele, que nunca gostou que o chamassem de mestre. Conta-se que, certa vez, Ariano Suassuna foi lhe fazer uma visita e, ao se dirigir a ele pelo título, ouviu uma resposta que ficaria marcada para sempre: “Mestre é só um, meu filho: Deus”. Uma frase que dizia tudo sobre a alma simples daquele homem. Amava o ofício e sentia um prazer genuíno em dar oficinas nas escolas, plantando sementes de arte nos corações das crianças. Em 2002, o estado de Pernambuco reconheceu sua imensurável contribuição e lhe concedeu o título de Patrimônio Vivo, honraria que ele recebeu com o mesmo desprendimento de sempre, fiel à sua convicção de que o único mestre verdadeiro estava no céu.
No dia 18 de dezembro de 2019, aos 82 anos, o coração desse gigante se despediu. Vítima de uma pneumonia, Mestre Dila partiu em Caruaru, deixando um silêncio doído na casa simples onde tantas vezes iluminou a madeira com suas lâminas. Hoje, somos nós — eu Waldenio, minha esposa e nossa família — que, com amor e devoção, cuidamos do seu legado. Seguimos aqui, protegendo cada xilogravura, cada folheto, cada verso, certos de que a sua obra — essa obra que ele construiu como cordelista, xilógrafo, tipógrafo e poeta — é tão bonita que jamais, em tempo algum, será esquecida.
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