Entrevista de Raíssa Ferreira
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 10 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV005
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revisada por Nataniel Torres
00:00:17
P1 - Pra começar, eu queria que você contasse um pouco a contar essa primeira coisa, seu nome completo, a data de seu nascimento e onde que você nasceu.
R - Meu nome é Raíssa Lozano Ferreira, eu nasci no dia 16 de junho de 1992 e eu nasci aqui em São Paulo mesmo.
00:00:37
P1 - E qual é o nome dos seus pais?
R - Minha mãe é Cláudia Lozano Ferreira e meu pai é Braulio Lozano Ferreira Jr.
00:00:44
P1 - E me conta, eles são vivos hoje ainda?
R - Sim, meus pais são vivos, eles moram hoje no interior, em Juquitiba, num sítio que eles mudaram durante a pandemia. Eles moraram a vida inteira, a gente morou a vida inteira na Zona Leste de São Paulo. Foi onde meus pais se conheceram, casaram, onde a gente morou sempre. E durante a pandemia, eu já não morava mais com eles, eles foram morar no interior. Eles estão lá até hoje num sítio e eu vim morar na Zona Oeste de São Paulo um pouco antes deles saírem também de São Paulo.
00:01:18
P1 - E me conta se você sabe como eles se conheceram?
R - Sei. Eles se conheceram no cursinho, quando eles estavam estudando pra ir pra faculdade, no cursinho do objetivo que tinha lá no Tatuapé, acho que ainda tem até hoje. Eles fizeram o cursinho juntos, minha mãe era noiva, meu pai tinha uma namorada e eles viraram amigos, começaram a se gostar, meu pai era muito engraçadinho, não sei o que lá, e aí teve… começaram a meio que achar que estavam se gostando, se separaram dos relacionamentos que eles tinham. E teve um show que é típico lá do Objetivo, ou era, não sei se ainda tem, que chama FICO, que é tipo um festival que tem no Objetivo. E aí teve esse festival, que eles estavam fazendo cursinho, eles foram e aí eles...
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Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 10 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV005
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revisada por Nataniel Torres
00:00:17
P1 - Pra começar, eu queria que você contasse um pouco a contar essa primeira coisa, seu nome completo, a data de seu nascimento e onde que você nasceu.
R - Meu nome é Raíssa Lozano Ferreira, eu nasci no dia 16 de junho de 1992 e eu nasci aqui em São Paulo mesmo.
00:00:37
P1 - E qual é o nome dos seus pais?
R - Minha mãe é Cláudia Lozano Ferreira e meu pai é Braulio Lozano Ferreira Jr.
00:00:44
P1 - E me conta, eles são vivos hoje ainda?
R - Sim, meus pais são vivos, eles moram hoje no interior, em Juquitiba, num sítio que eles mudaram durante a pandemia. Eles moraram a vida inteira, a gente morou a vida inteira na Zona Leste de São Paulo. Foi onde meus pais se conheceram, casaram, onde a gente morou sempre. E durante a pandemia, eu já não morava mais com eles, eles foram morar no interior. Eles estão lá até hoje num sítio e eu vim morar na Zona Oeste de São Paulo um pouco antes deles saírem também de São Paulo.
00:01:18
P1 - E me conta se você sabe como eles se conheceram?
R - Sei. Eles se conheceram no cursinho, quando eles estavam estudando pra ir pra faculdade, no cursinho do objetivo que tinha lá no Tatuapé, acho que ainda tem até hoje. Eles fizeram o cursinho juntos, minha mãe era noiva, meu pai tinha uma namorada e eles viraram amigos, começaram a se gostar, meu pai era muito engraçadinho, não sei o que lá, e aí teve… começaram a meio que achar que estavam se gostando, se separaram dos relacionamentos que eles tinham. E teve um show que é típico lá do Objetivo, ou era, não sei se ainda tem, que chama FICO, que é tipo um festival que tem no Objetivo. E aí teve esse festival, que eles estavam fazendo cursinho, eles foram e aí eles começaram a namorar nesse evento, assim. E aí ficaram juntos, começaram a planejar, a casar, tudo, e aí depois acabaram casando e namorando juntos, e três anos depois que eles casaram, que a minha mãe engravidou.
00:02:22
P1 - E como você descreveria seu pai e sua mãe?
R - Meu pai, acho que eu já meio que descrevi até. Ele é engraçado, ele é uma pessoa bem engraçada. Ele é bem tranquilo, muito bonzinho. Ele era surfista na época da faculdade, quando eles eram mais novos. Minha mãe é uma pessoa mais nervosa, mais brava, o contraponto. Minha mãe fez história, ela era professora, ela tem muito isso de ensinar, da didática; ela também foi bailarina, gostou muito de dançar. Hoje em dia, ela dedica a vida dela pros animais, basicamente. Mas ela dedicou muita parte da vida dela pra mim também. Acho que o que eu lembro da minha mãe, ela sendo minha mãe, mas ela teve muitas histórias também durante a vida dela, mas ela dedicou boa parte da vida dela pra mim e, hoje em dia, ela dedica pros animais. Meu pai sempre foi mais meu amigão do que pai, sempre foi essa pessoa mais brincalhona, mais engraçada. Não acho que é isso, ele é o cara mais engraçado, mais tranquilo. Minha mãe é mais a mãe, mais ponta firme, mais brava, mais enérgica, digamos.
00:03:36
P1 - E você é filha única?
R - Sou filha única. Sempre foi só eu. Eles sempre planejaram ter só eu. Minha mãe sempre quis ter uma menina chamada Raíssa, ela falava. Desde sempre. Então ela só quis ter uma filha. Meu pai não queria ter filhos. Aí ela convenceu ele. E eles sempre quiseram ter só eu. E sempre fui só eu e os gatos.
00:03:55
P1 - E por que Raíssa? Você sabe?
R - Ela falou que ela leu um livro que a bruxa chamava Raíssa. Eu nunca descobri como chamava. Ela não lembra o nome. Já pesquisei várias vezes, mas ela falou... Quando eu era criança, ela falava que era a princesa que chamava Raíssa. Depois ela me disse que era a bruxa. Que ela não queria me falar pra eu não ficar chateada. Mas eu não sei de onde ela tirou, assim. Ela falou que era isso, mas eu pesquisei e eu nunca achei. Ela falou que ela leu, achou, viu e falou, ah, vai ser Raíssa. É isso.
00:04:23
P1 - E você chegou a conhecer os seus avós?
R - Cheguei. Meus avós maternos morreram quando eu era bem criança. Acho que quando eu tinha... Eu nem lembro direito, mas acho que eu tinha uns 10 anos e já tinham morrido os dois. Porque a minha avó ficou com câncer quando eu era bem novinha. Tinha 5 anos. E eu acompanhei quimioterapia, tudo. Minha mãe que cuidava dela. Então, foi bem... não tive muito uma figura de avó, aquela que faz as coisas e tal, porque minha avó foi doentinha a boa parte da minha vida. E aí ela morreu quando eu tinha, acho que, sei lá, uns nove anos, e meu avô morreu um ano depois também. E tem a família do meu pai, que eu também conheci. O meu avô paterno morreu, eu não sei nem quantos anos eu tinha, porque eu não tenho contato com a família do meu pai, na verdade, já há talvez uns 20 anos. Então, eu conheci todo mundo, mas meu contato com a família, mesmo sem ser meus pais, meio que cessou ou por morte ou por outros motivos quando eu era mais nova. Então, eu não tive muito isso. Na adolescência já não tinha muito família, sempre foi só eu e meus pais.
00:05:37
P1 - E seus pais sempre moraram na Zona Leste ou não?
R - Eles moraram em Guarulhos na época, mas é como se fosse... Eles sempre moraram na Zona... Meu pai nasceu e cresceu em Vila Matilde, Guilhermina. Na verdade, minha mãe viveu em vários lugares da infância. Ela teve uma história meio nômade, que meu avô teve vários negócios e aí dava errado, não dava. Mas eu não sei direito. Eu sei que ela já morou em Bauru. Mas eles se conheceram, eu morava na Zona Leste, sempre foi meio que essa região, Vila Matilde. A gente, quando eu era criança, quando eu nasci, até a gente se mudar para um apartamento que eu vivi boa parte da minha vida, mudava quase todo ano, porque eu morava de aluguel, aí era despejado, tinha vários problemas, tal, meus pais sempre sofreram muito com isso. Mas sempre foi na Zona Leste e uma parte em Guarulhos. Eles se conheceram e foram fazer faculdade em Guarulhos, inclusive. Eles fizeram a UNG, acho que chama, fizeram em Guarulhos, os dois. E aí a gente morou um tempo lá e tal. Mas quando eu tinha 7 anos, a gente foi morar na Vila Formosa, um apartamento que eles conseguiram financiar. E foi onde eu morei até 24 anos, acho. Que aí foi quando eu saí. Foi o apartamento que eles também saíram pra ir pro interior.
00:06:53
P1 - E tem algum cheiro, alguma festa, algum sabor que lembre, assim, a sua família, a sua infância principalmente?
R - Eu acho que eu penso nas coisas dos gatos, porque sempre teve. É uma coisa muito presente, de cheiro das coisas de ração, de… não sei, tem um cheiro característico que eu acho que é difícil de explicar, de gato em casa. Eu acho que tem gente que acha que é um cheiro ruim, mas não é, é o cheiro, sei lá, do bichinho mesmo. Acho que sempre teve, não consigo pensar em outra coisa. A gente nunca foi muito de festa, de comemorações, Natal, essas coisas, até pela família ter tido muitas perdas e tal, minha mãe nunca pegou muito nisso. Mas os bichos sempre foram muito presentes, desde que eu nasci, sempre teve um gato em casa. Teve também uma vez um cachorro, mas o gato, a coisa do gato sempre foi muito específica. E da minha mãe, especificamente, eu lembro muito quando tem música árabe, essas coisas, porque minha mãe foi bailarina de dança do ventre por muita parte da minha vida. Então, quando eu era criança, eu estava acostumada a ficar ouvindo música árabe o dia inteiro em casa, porque ela tava ensaiando, tocando as coisas, fazendo as coisas. Me arrastava pras aulas, tudo… Então, é uma coisa que lembra muito a minha infância também, por causa da minha mãe, especificamente
00:08:26
P1 - E me conta como era a casa que você passou a maior parte. Você falou que você se mudou várias vezes, mas é que você passou a maior parte, assim, como é que ela era?
R - Era um apartamento na Vila Formosa que tinha três quartos: meu quarto, quarto dos meus pais, um escritório, uma sacada. Era um apartamento que, quando eu era criança, eu achava que era pequeno, porque as crianças que estudavam comigo tinham mais dinheiro, e eu achava que a minha casa era muito pequena. Hoje em dia, eu falo: “Nossa, seria o meu sonho conseguir financiar um apartamento daquele tamanho”. Ele tem 70 metros quadrados. Eu falo: “Nossa, é gigantesco hoje”. Quando eu era criança, eu via dos outros e falava: “Nossa, nossa casa é tão pequenininha, meu quarto é tão pequenininho”. E hoje em dia eu falo: “Nossa, é gigante, como a gente tem uma perspectiva diferente”. Mas era uma casa que tinha o quarto dos meus pais, a suíte dos meus pais exatamente do lado do meu quarto. E aí tinha um corredor que tinha essas coisas de gato, do chão até os tetos: as prateleiras, os nichos, essas coisas. Meu banheiro no corredor, porque sempre foi só a gente. Então era banheiro da casa, mas era meu. Aí tinha sala, sacada, cozinha grande também, área de serviço. Era um apartamento grande. E no prédio tinha piscina, essas coisas, mas a gente quase não ia, ficava mais em casa mesmo
00:09:54
P1 - E você estava contando que sua mãe sempre teve uma relação, assim, com gatos. Você lembra como qual que foi o primeiro gato que sua mãe teve? Que vocês tiveram, né? Como que foi a relação?
R - Quando eu nasci, tinha uma gata que se chamava Tigresa, que a gente chamava de Titi. Quando eu nasci eu não chamava, mas ela viveu até eu ter 5 anos, então eu lembro dela. A minha mãe conta que, quando engravidou, quando eu tava pra nascer, a Tigresa também tava grávida. Porque ela era uma gata que saía de casa, que naquela época a gente não pensava, não sabia. Minha mãe tava acostumada a criar gato solto, que era como ela fazia quando morava com os pais dela. E a Tigresa tava grávida também, teve os filhotinhos e minha mãe me teve logo depois. Aí a minha mãe falou que me levou pra casa, me colocou no quartinho que ela fez pra gente e a Tigresa foi lá e levou os filhotinhos dela um por um pra ficar no quartinho que eu estava. A Tigresa tinha um problema na coluna. Minha mãe achou ela no esgoto, uma coisa bem triste quando era filhotinha. Então ela tinha um problema nas costas, não podia encostar nela, sentia muita dor, e aí arranhava muito, atacava. E a minha mãe fala que eu pegava ela pelo rabo, fazia tudo que era bebê, e ela não me machucava de jeito nenhum. Então ela foi a primeira gata que eu tenho lembrança e que tava desde que eu nasci. E aí, quando eu tinha 5 anos, um dia ela não voltou mais pra casa. Aí eu chorei muito, fiquei muito triste. Meus pais procuraram por muito tempo, mas a gente não sabe... Como ela tinha uma doença também e tal, a gente não sabe se às vezes ela já sabia. Que tem um... Existem… Dizem por aí que o gato às vezes, quando sabe, se esconde pro dono não ver e tal. Não sei se é verdade. Porque foi a única gata que eu vi, que eu tive, que morou comigo, enfim, que saía pra rua. E aí um dia foi isso: ela não voltou mais.
00:12:02
P1 - E aí depois sua mãe teve outros gatos, né? Eu queria que você contasse um pouco.
R - Depois da Tigresa, como eu fiquei muito triste, eles pegaram um cachorro, sei lá, tentar compensar pra criança, não sei o que eles acharam. Porque a gente nunca comprou, adotou o bicho, eles sempre apareceram na nossa vida. Mas nessa época especificamente, meus pais pensaram, acho que de resolver um problema, foram lá e compraram um poodle num shopping. Que a gente é totalmente contra comprar animal, mas eles acharam de comprar. E aí ela era pra ser um cachorro pequeno e tal, e começou a crescer muito. Nessa época a gente morava meio que de favor na casa de uma tia da minha mãe. Porque meus pais estavam tentando angariar o dinheiro suficiente pra comprar o apartamento que a gente foi morar. E pagando aluguel não dava. Então a gente meio que foi morar de favor na casa dessa tia, que a gente cuidava dela, fazia companhia pra ela e morava lá. Então a cachorra era pra ser pequena, mas começou a crescer muito e meus pais não sabiam o que fazer. Aí eles tinham um casal de amigos que moravam num sítio e tinham uma cachorra, e que não podiam ter filhos, e criavam os cachorros igual eu crio o meu gato hoje, como se fosse uma criança. Já que antigamente acho que era mais difícil ter isso. Mas eles eram assim e aí levaram pra morar com eles. Ela viveu por 20 anos, um cachorro que é muito... Ela foi muito bem cuidada, viveu muito feliz. Eu aceitei bem, porque eu entendi e a gente ia visitar e tal. E aí foi que a gente ficou um tempo sem... Minha mãe é sempre um gato na rua, que já dava nome e dava ração e tal. Mas aí o próximo que a gente teve foi a Samy, que eu tinha 7 anos. Aí a gente tinha acabado de mudar pra esse apartamento que a gente conseguiu comprar. E aí minha mãe foi me buscar na escola, ouviu um miadinho na rua e perguntou pra alguém. Falaram: “Ah, essa gata os donos da casa foram embora e deixaram ela, meio que se mudaram e largaram ela pra trás na mudança”. E aí minha mãe viu e pegou, enfiou, pegou os dela, deu um jeito lá de pegar ela sem casinha, sem nada, e foi me buscar mais cedo na escola e falou: “Ó, que eu peguei, vamos pra casa”. E aí a gente foi pra casa com ela. Meu pai não queria, não deixou, fez a gente levar ela pra uma loja de ração que tinha lá na Vila Formosa, na época, pra dar ela pra adoção. Eu fiquei com febre, criança, tinha sete anos, fiquei com febre e meu pai falou: “Tá bom, vamos voltar a buscar a gata”. A gente voltou, buscou ela e aí ela viveu com a gente por 18 anos. Aí tem mais outros aí.
00:14:51
P1 - Mas essa história da Samy, você tá me contando que ela era uma gata da sua mãe, né? Você tá contando que, óbvio, como vocês conviviam, já tinham um amor. Mas eu queria saber se você já gostava de gatos nessa época. Se já existia esse amor que sua mãe tinha passado pra você.
R - Ah, eu acho que foi tão natural, eu nem consigo pensar. Se alguém me perguntasse se eu gosto de gato, eu ia pensar em responder isso. Porque pra mim, sei lá, foi normal, tava sempre ali, era minha vida. Era como se fosse minha família. Quando a Samy veio, eu me apeguei muito nela. Eu tenho uma cicatriz bem pequena na mão, que foi um arranhadinho que ela me deu no dia que meu pai falou que não era pra ficar com ela, e eu segurei pra não deixar tirar ela do carro. Me apeguei muito nela. Eu sempre tive muita... Eu cresci nessa vibe com os bichos, que eu acho que me fez ter muita empatia com o animal. Uma empatia diferente. Sabe? Ver eles de um jeito diferente, que eu acho que algumas pessoas veem, mas nem todo mundo vê. E aí eu, sei lá, sempre via um animal, eu via coisas muito maravilhosas. Então, acho que eu sempre gostei. E aí a Samy, ela era... Eu falo que ela era da minha mãe porque hoje eu entendo como que é o laço que você cria com um animal que meio que te escolhe. É diferente do animal que tá na casa e você convive com ele, só que era o que eu convivia com a Samy. Minha mãe falava que ela era minha irmã, porque ela cresceu comigo. Mas hoje eu vejo que ela tinha esse laço com a minha mãe muito forte. Mas eu, óbvio, amava ela profundamente. Eu nunca imaginava, tanto que quando a Samy morreu eu achava que eu não ia superar, eu fiquei muito mal. E eu falava: “Eu não quero mais ter bicho, porque é muito difícil lidar com...”. E eu acho que eu perdi minha avó, meu avô, sabe? Tanta gente, da época que meus avós morreram, muita gente da família da minha mãe morreu e eu era muito pequena. Então acho que lidar com a morte foi meio difícil pra mim. E aí a Samy morreu, eu falei: “Eu não quero lidar, ficar lidando com isso a cada 15 anos, sei lá, ou menos, dependendo. É muito sofrimento, como vocês aguentam e tal”. Então eu não queria mais. Era um amor muito profundo, eu fiquei anos que eu lembrava dela e eu chorava muito. Hoje em dia eu consigo falar dela, mas demorou, foram anos que eu ficava na cama chorando, chorando. Ainda mais porque a gente teve que sacrificar, porque ela ficou doente, ela tava muito mal. Você ter que tomar essa decisão... Eu segurei a barra muito pra minha mãe, porque eu já era mais velha, então eu já tinha essa possibilidade. E minha mãe ficou muito, muito, muito mal, já não morava mais com ela. Eu que tive que ligar para um lugar que a minha mãe arranjou pra cremar e tal, pra poder ter um desfecho mais digno. Mas eu fui com a minha mãe, eu perdi o dia do trabalho. A gente passou por isso, minha mãe quis sofrer e eu optei por segurar. Então eu fiz as burocracias do negócio. E foi muito difícil pra mim, foi como se eu tivesse perdido realmente uma irmã, eu acho, uma pessoa da família. Então eu amava muito ela profundamente, amo muito ela profundamente. Já gostava muito, mas eu falo que é da minha mãe pelo vínculo realmente que elas tinham, que elas partilhavam. Porque também, querendo ou não, eu fui crescendo, a vida... Sei lá, fui adolescente, eu saía, fazia minhas coisas, tinha minha vida e minha mãe tava lá com ela o tempo inteiro. Quando a Samy ficou doente, que ela ficou com doença renal, ela tinha que tomar soro todo dia e a minha mãe vivia para isso, pra dar o soro. Minha mãe aprendeu a dar o soro, que é difícil. Eu tentei e é muito difícil passar uma agulha no couro de um gato, exige muito, porque parece que tá machucando e tal. Minha mãe viveu pra isso por anos, que ela viveu anos com a doença renal. Então tinha esse vínculo muito forte. Eu acho que eu fui descobrir como era exatamente esse lugar dela quando eu fiquei mais velha e eu resgatei um animal pra mim. Porque eu sempre convivi com gatos que a minha mãe resgatou, que a minha mãe colocou em casa, eu tava lá. Mas eles não eram minha responsabilidade 100%. Acho que tem isso também, ser sua responsabilidade. Eu podia fazer o que eu quisesse, eu podia viajar, podia fazer o que eu quisesse. Minha mãe também viajava, mas ela deixava comigo: “Você fica, você cuida”. Mas eu podia fazer, eu não precisava consultar a minha mãe pra fazer nada. Ela tava lá cuidando da Samy sempre, tava cuidando de todos os gatos sempre. Eu só convivia com eles. Quando era minha responsabilidade, era especificado: “Ó, hoje a gente vai e a gente volta tal dia, então você cuida, você leva no veterinário, você faz isso, faz aquilo”. “Ah, beleza”. Era fechado. Eu só fui entender realmente o laço maior quando eu fui criar a responsabilidade pra mim, quando eu era mais velha já e...
00:20:18
P1 - Me conta, com o que você gostava de brincar na infância?
R - Cara, eu brincava muito com meu pai de... Eu sempre brinquei muito com meu pai, assim. Eu não tive primo, essas coisas criança, né? A criança da minha vida era muito meu pai. Eu brincava muito de faz de conta, assim, com meu pai, ou de… A gente tinha uma câmera, meu pai tinha uma câmera de fitinha, assim, né?... de filmar, e a gente brincava de fazer programa jornalístico, eu fazia teleprompter de papel, essas coisas, e brincava com ele, assim, às vezes eu gravando, às vezes ele me gravando, ele sempre gostou muito de filmar, assim, todas as coisas que aconteciam. E a gente brincava, assim, nessas coisas muito ou de arminhas de laser, coisas assim, meu pai arrumava umas coisas, assim, pra gente brincar, tipo, era sempre muito com ele, assim. Eu até brinquei, criança do prédio, essas coisas, mas… É, minha maior lembrança, assim, da criança da minha vida era o meu pai, de boneca, de faz de conta, de câmera, de filmar as coisas. Teve a fase que a gente brincava de joguinho no computador também, bastante, mas... Mas isso, assim, eu brincava bastante de boneca, assim, também. Eu lembro de ter uma Barbie que tinha um gatinho que fazia xixi na areia, inclusive. Sempre teve.
00:21:36
P1 - E como é que era a Vila Formosa naquela época que você era pequena? O que você lembra do bairro, a vizinhança?
R - Ah, eu lembro que no começo não tinha, a gente foi morar num prédio e eu lembro que não tinha nenhum prédio, só tinha o nosso. E aí, conforme foi, eles foram subindo. Eu lembro que antes a gente olhava pela janela e só tinha casa, e eu sempre tinha morado em casa. E aí a gente foi morar num prédio, foi muito novo pra mim e tal. Porque aí você não tem mais o negócio da rua, de estar na rua e tal, então você fica meio que preso num condomínio. Eu lembro que não tinha muita coisa onde a gente morava. Até hoje não tem metrô onde é lá. E aí eu lembro que a gente tinha que pegar sempre o carro ou o ônibus pra chegar em qualquer coisa, seja um banco, um... até um mercadinho, era tudo muito longe. Onde ficava especificamente o prédio. Mas eu não saía muito. Eu lembro de ficar mais ali no condomínio. Eu lembro que os prédios foram subindo, aí foi chegando o shopping mais perto, essas coisas, foi chegando mais o desenvolvimento, digamos. Porque antes era isso, o que eu fazia mais era juntar moedinha pra ir na padaria comprar pão e voltar. Não tinha muita coisa. Aí tinha os... minha mãe chamava de centrinho da Vila Formosa, que a gente tinha que andar ou pegar uma lotação pra ir. Aí lá tinha as lojas, tinha umas coisas mais que a gente fazia, comprava coisa pra casa ou ia na perfumaria comprar coisa. Gostava muito de ir na perfumaria com a minha mãe comprar cosméticos, essas coisas dela, de ficar vendo e tal. Mas não tinha muita coisa, eu lembro que era meio vazio. Aí começou a subir, hoje em dia deve ter um monte de coisa, já tá construindo um metrô que não é super perto, mas já é mais perto. Mas era meio isoladinho, eu ficava mais dentro do prédio, brincando com as crianças de vez em quando que tinha lá. E era isso, eu não tenho muito apego da infância com o bairro, mas quando eu fui crescendo, que eu fui aprendendo os caminhos, eu falo que lá na Zona Leste eu ando de olho fechado. Aqui parece que eu não sei nada, e eu já moro aqui na Zona Leste desde os 24 anos, 25 anos mais ou menos. (intervenção) Desde os 25 anos, mais ou menos, eu moro na Zona Oeste. Eu falo: “Me largar em Pinheiros eu não sei chegar em lugar nenhum, mas lá na Vila Formosa eu sei os caminhos tortuosos por dentro pra fazer qualquer coisa”. Eu fui aprendendo quando eu fui ficando mais velha. Não tive muito amigo na região e tal, mas eu me acostumei. Quando eu aprendi a dirigir, pegava o carro do meu pai, andava por lá, sabia o caminho de tudo.
00:24:22
P1 - E tinha animais na vizinhança, assim, outros pets, gatos, assim, soltos ou não?
R - Eu acho que talvez tinha, mas eu não tinha contato, assim. Eu tava mais acostumada a ver bicho na rua quando a gente morava em casa, assim. E depois, quando eu fiquei mais velha, saindo pra trabalhar, essas coisas, que eu trabalhei muito tempo também na Zona Leste, em lugares que eram, tipo, casas e tal. E aí eu via bastante gato na rua, mas lá na Vila Formosa eu não lembro de ir perto da minha casa, assim. Não lembro de ver muito bicho, não.
00:24:59
P1 - E me conta se, nessa época da infância, você tinha algum... Você tinha um desejo de ter alguma profissão específica? Qual era o seu sonho quando você era pequena? Tinha alguma coisa?
R - Quando eu era bem pequenininha, eu pensava em ser veterinária por causa desse negócio dos animais. Aí a minha mãe me explicou que, se eu fosse veterinária, eu ia ver ele sofrendo. Acho que é o ponto de ruptura com várias pessoas: “Você vai ver ele sofrendo, vai acontecer isso”. Aí eu: “Ah, talvez não”. Mas o mais forte, durante toda a minha vida, eu sempre, por muitos anos, quis trabalhar com cinema. Eu sempre fui apaixonada por filme, por cinema, sempre quis, de alguma forma, trabalhar com isso. E aí eu fui tentar fazer faculdade de cinema quando era mais velha, enfim, não deu certo. Aí eu fiz rádio e TV, que foi o que eu consegui fazer ali. E nunca consegui trabalhar muito na área, resgatei isso só durante a pandemia. E aí comecei a escrever textos de cinema e tal. Mas, sim, meio que se perdeu. Hoje em dia eu não lembro muito disso com a... “Não consegui realizar um sonho”. Acho que a vida vai acontecendo e a gente vai vendo que trabalho tem outros significados também, enfim, esse tipo de sonho. Eu acho que eu gostava da ideia, queria muito, mas não porque eu pensava numa carreira. Eu pensava na diversão de estar fazendo aquilo dentro de um negócio que eu amava, que eu achava mágico e tal. Mas eu nunca pensava o que significava realmente trabalhar com aquilo. Acho que foi se ressignificando, mas durante grande parte da minha adolescência a minha vontade era trabalhar com cinema.
00:26:54
P1 - E como é que foi o período da escola pra você? Como que você ia pra escola? Como é que era?
R - Quando eu era pequena, minha mãe me levava pra escola. Eu estudei sempre em escola particular. Eu queria ter estudado em escola pública por um tempo, porque eu falava pra minha mãe que eu não gostava muito de estudar na escola particular. Minha mãe não queria porque eles, a vida inteira, tiveram dificuldade com estudo e tal, e minha mãe queria que eu tivesse melhor do que eles. Só que eu não... Ah, eu odiava estudar na escola particular, eu odiava estudar naquela escola, sei lá, não sei se era porque ela era particular ou não, mas eu achava que, se eu fosse pra escola pública, eu ia ser mais feliz. Depois não sei também como seria, porque eu não tive essa oportunidade. Mas minha mãe me levava pra escola. Depois, quando eu fiquei um pouco maiorzinha, que eu já podia, eu voltava de ônibus. Tinha um ônibus que dava pra ir e voltar fácil, um ônibus só. Tinha um ponto de ônibus na frente de casa, bem na frente. Mas por muitos anos ela ia me levar e me buscar. Quando a gente tinha dinheiro pra ter um carro, ela ia me levar e me buscava de carro. E às vezes ela ia me levar e me buscava de ônibus também, quando a gente não tinha dinheiro pra ter carro. Eu odiava a escola, foi horrível. Foi terrível. Não tenho boas lembranças. Não sei muito o que falar. Acho que é o básico, o clássico de todo mundo. Enfim, de boa parte das pessoas. Não tive boas experiências. Eu queria só que acabasse logo. Depois eu tive a oportunidade de mudar de escola no ensino médio. Eu já tava um pouquinho maior pra pensar. Aí eu fui estudar num colégio que tinha só ensino médio. E tinha um esquema que você fazia uma prova pra ganhar uma bolsa, tava conseguindo desconto bom. Aí fui pra lá e fiz o colegial lá. Foi melhor porque aí tinha pessoas de todos os lugares, que era perto do metrô, a galera ia sozinha, então não eram só as mesmas pessoas do mesmo bairro, com as mesmas condições e tal. Então foi uma visão de mundo mais ampla que me deu, foi mais legal. Aí eu fiz mais amigos, consegui me desenvolver um pouco melhor. Mas eu nunca fui muito interessada pela escola. Eu sempre... Isso é uma coisa que me arrependo, às vezes, um pouco, que eu não achava interessante, relevante, não conseguia ver sentido ou propósito naquelas coisas. Então eu fazia só pela obrigação. Eu não via a hora de acabar. Eu nem queria fazer faculdade quando eu estava no ensino médio, na real. Porque eu falava: “Não quero mais estudar, quero fazer outra coisa”. E eu já trabalhava, já ganhava dinheiro. Aí eu fui desencarnando e... Só que aí meu pai ficou muito decepcionado no dia que eu falei isso. Ele falou: “Não, você tem que fazer uma faculdade”. Porque meu pai demorou muito tempo pra fazer faculdade. Ele fez com a minha mãe, só que largou. Não lembro por quê agora, mas enfim, ele teve que parar. Minha mãe se formou, ele não se formou. Meu pai foi se formar, eu já era muito grande. Inclusive, na época que eu fiz faculdade, ele ainda não era formado. Ele mentia que era formado nos trabalhos dele. Ele mentia nos trabalhos dele, falava que era formado. Acho que ninguém pedia. Acho que nem hoje pedem diploma, essas coisas. Ele falava que tinha se formado e tentava. Ele entrava na faculdade, fazia, só que aí tinha que parar porque não conseguia terminar, não conseguia pagar. Ele foi se formar, eu já era bem grande. Aí depois ele foi fazer pós-graduação, essas coisas. Então, meu pai não aceitava que eu não queria fazer faculdade: “Você tem que fazer uma faculdade”. Eu falei: “Tá bom, então eu vou fazer”. Mas eu, por exemplo, nunca fiz o Enem. Na época que era o meu Enem, ainda era do jeito antigo. Hoje em dia tem dois dias, era só uma prova. Eu não queria fazer já, imagina se fosse dois dias. Eu falei: “Não, eu não vou fazer, porque eu não vou fazer faculdade, eu não quero fazer essas coisas” e tal. Eu meio que não tinha muito interesse, eu não tinha interesse, eu achava... não conseguia ver sentido. E aí foi isso. A escola não foi um ponto alto da minha vida.
00:31:04
P1 - E o que você fazia pra se divertir durante a adolescência?
R - Ah, eu... Eu saía muito com os meus amigos. Eu tinha, acho que desde os 13 anos de idade, assim, eu... Quando eu tinha uns 13, 14 anos, eu fiz uma amiga no Orkut, assim, e comecei a sair com o pessoal, tipo, ali da Zona Leste. E a gente saía, ficava na rua, fazia coisas erradas. Eu saía muito, eu acho que boa parte da minha adolescência era isso, sexta-feira até domingo eu estava na rua, eu saía muito.
P1 - E você já gostava de cinema, gostava de assistir filme, essas coisas? Sempre foi?
R - Sempre, sempre gostei muito. Os primeiros DVDs que eu ganhei pra colecionar foi na oitava série. Quando eu me formei no Fundamental, né? Que hoje em dia é nono ano, né? Na oitava série, quando eu me formei no Fundamental, eu pedi pro meu pai o boxe do Senhor dos Anéis. E foram os primeiros DVDs que eu colecionei. Então, eu sempre gostei. Meus pais, eles me criaram na cultura da locadora, né? Então, a gente via muito filme. Meus pais sempre gostaram muito de filme. Minha mãe sempre gostou muito de filme. Então, eu sempre gostei. Na época do ensino médio, eu já tinha um monte de DVD, já comprava meus DVD qualquer dinheirinho que entrava, de trabalho que eu fazia e tal. Sempre gostei, sempre. Desde que eu me entendo por gente.
00:32:36
P1 - E você estava contando que você começou a trabalhar nessa época, né? Como foi o seu primeiro emprego? Onde que foi?
R - Ah, quando eu estava no ensino médio, eu trabalhava... Não trabalhava todos os dias, eu trabalhava folga, final de semana e principalmente nas férias, bastante. Eu tinha um colega de escola que o pai dele tinha uma loja de aluguel de roupa e aí ele fazia evento que eles alugavam beca de formatura, essas coisas, e aí eu fazia isso, ele me arrumou esse trabalho que era informal, não era registrado, nada mas sempre que tinha formatura de faculdade, de escola, escolinha de criança, todo tipo de formatura que precisava de roupa de aluguel, assim. Eu ia e aí eu ganhava tipo um dinheirinho pelo dia, assim. E aí sempre que tinha, no colegial assim, eu trabalhei com… Na empresa da família desse amigo, assim Aí eu tirava um dinheirinho assim Depois eu fui trabalhar com eventos, eu trabalhava portaria, assim, hostess, né? De show de banda independente, na Augusta, na Consolação. Fui trabalhando, assim, informal com várias coisas quando eu era mais nova. E aí depois fui trabalhar com estágio durante a faculdade, né? Aí foi o primeiro trabalho formal mesmo, assim, com salário e tudo.
00:33:58
P1 - E como é que foi esse momento de ir pra faculdade? Você falou que você foi tentar fazer cinema e depois você foi fazer Rádio e TV, como que foi esse momento, essa escolha?
R - Quando eu era pequena, minha mãe me levava pra escola. Eu estudei sempre em escola particular. Eu queria ter estudado em escola pública por um tempo, porque eu falava pra minha mãe que eu não gostava muito de estudar na escola particular. Minha mãe não queria porque eles, a vida inteira, tiveram dificuldade com estudo e tal, e minha mãe queria que eu tivesse melhor do que eles. Só que eu não... Ah, eu odiava estudar na escola particular, eu odiava estudar naquela escola, sei lá, não sei se era porque ela era particular ou não, mas eu achava que, se eu fosse pra escola pública, eu ia ser mais feliz. Depois não sei também como seria, porque eu não tive essa oportunidade. Mas minha mãe me levava pra escola. Depois, quando eu fiquei um pouco maiorzinha, que eu já podia, eu voltava de ônibus. Tinha um ônibus que dava pra ir e voltar fácil, um ônibus só. Tinha um ponto de ônibus na frente de casa, bem na frente. Mas por muitos anos ela ia me levar e me buscar. Quando a gente tinha dinheiro pra ter um carro, ela ia me levar e me buscava de carro. E às vezes ela ia me levar e me buscava de ônibus também, quando a gente não tinha dinheiro pra ter carro. Eu odiava a escola, foi horrível. Foi terrível. Não tenho boas lembranças. Não sei muito o que falar. Acho que é o básico, o clássico de todo mundo. Enfim, de boa parte das pessoas. Não tive boas experiências. Eu queria só que acabasse logo. Depois eu tive a oportunidade de mudar de escola no ensino médio. Eu já tava um pouquinho maior pra pensar. Aí eu fui estudar num colégio que tinha só ensino médio. E tinha um esquema que você fazia uma prova pra ganhar uma bolsa, tava conseguindo desconto bom. Aí fui pra lá e fiz o colegial lá. Foi melhor porque aí tinha pessoas de todos os lugares, que era perto do metrô, a galera ia sozinha, então não eram só as mesmas pessoas do mesmo bairro, com as mesmas condições e tal. Então foi uma visão de mundo mais ampla que me deu, foi mais legal. Aí eu fiz mais amigos, consegui me desenvolver um pouco melhor. Mas eu nunca fui muito interessada pela escola. Eu sempre... Isso é uma coisa que me arrependo, às vezes, um pouco, que eu não achava interessante, relevante, não conseguia ver sentido ou propósito naquelas coisas. Então eu fazia só pela obrigação. Eu não via a hora de acabar. Eu nem queria fazer faculdade quando eu estava no ensino médio, na real. Porque eu falava: “Não quero mais estudar, quero fazer outra coisa”. E eu já trabalhava, já ganhava dinheiro. Aí eu fui desencarnando e... Só que aí meu pai ficou muito decepcionado no dia que eu falei isso. Ele falou: “Não, você tem que fazer uma faculdade”. Porque meu pai demorou muito tempo pra fazer faculdade. Ele fez com a minha mãe, só que largou. Não lembro por quê agora, mas enfim, ele teve que parar. Minha mãe se formou, ele não se formou. Meu pai foi se formar, eu já era muito grande. Inclusive, na época que eu fiz faculdade, ele ainda não era formado. Ele mentia que era formado nos trabalhos dele. Ele mentia nos trabalhos dele, falava que era formado. Acho que ninguém pedia. Acho que nem hoje pedem diploma, essas coisas. Ele falava que tinha se formado e tentava. Ele entrava na faculdade, fazia, só que aí tinha que parar porque não conseguia terminar, não conseguia pagar. Ele foi se formar, eu já era bem grande. Aí depois ele foi fazer pós-graduação, essas coisas. Então, meu pai não aceitava que eu não queria fazer faculdade: “Você tem que fazer uma faculdade”. Eu falei: “Tá bom, então eu vou fazer”. Mas eu, por exemplo, nunca fiz o Enem. Na época que era o meu Enem, ainda era do jeito antigo. Hoje em dia tem dois dias, era só uma prova. Eu não queria fazer já, imagina se fosse dois dias. Eu falei: “Não, eu não vou fazer, porque eu não vou fazer faculdade, eu não quero fazer essas coisas” e tal. Eu meio que não tinha muito interesse, eu não tinha interesse, eu achava... não conseguia ver sentido. E aí foi isso. A escola não foi um ponto alto da minha vida.
00:35:49
P1 - E como foi esse momento da faculdade?
R - Foi legal, porque eu acho que tem esse imaginário de ver filme, televisão, essas coisas. Ah, faculdade, né? Essa coisa. Então, eu fiquei animada. Fiquei empolgada com a ideia de uma nova vida, pessoas que não me conhecem, não sabem quem eu sou. E... Ah, foi isso. Eu fui animadinha. Fiquei feliz. Eu trabalhava mais em horários alternativos, porque eu trabalhava em show, eventos, essas coisas à noite, e principalmente de final de semana. Então eu tinha o dia inteiro livre, porque nesse horário eu não trabalhava, e aí fazia faculdade à noite e de final de semana eu trabalhava. E aí foi, sei lá, fui fazendo, eu fiz os amigos da faculdade logo no primeiro dia, que foram os mesmos que ficaram até o final, que era pra fazer TCC, mas acabei fazendo TCC sozinha, porque eu escolhi fazer monografia em vez de fazer um projeto e tal. Eles fizeram e eu falei: “Não, eu quero fazer monografia”, porque eu tava na pilha de fazer uma monografia, eu queria fazer. Mas eles foram meus amigos até o final da faculdade, foi bem legal, acho que foi uma época boa também. Meio que continuou o ensino médio, esse negócio de conhecer gente diferente, de outros lugares, com outras perspectivas. Gente que vem de tudo que é lugar, que tem todo tipo de... várias idades diferentes, que vêm de diferentes lugares do Brasil também. Veio morar em São Paulo pra fazer faculdade e tal. E, no começo, eu tinha muita expectativa: “Vou trabalhar numa rádio, vou trabalhar numa televisão”, não sei o que lá. Depois, o primeiro que me recebem, aí fui quebrando um pouco a cara. Mas eu me diverti na faculdade. Eu gostava das aulas, eu me dava bem, não tive dificuldade nenhuma. Foi legal, eu gostei. Foi uma época ok, que eu não sofri, não tive problema pra estudar, pra passar, nem nada. Foi uma época que muita coisa mudou ao longo dos, o que que são, quatro anos, né? Mas, especificamente na faculdade, foi bem tranquilo, foi bem legal, eu me dei bem. Quando eu fiz a monografia, o meu professor, que foi meu orientador, até sugeriu que eu continuasse, fizesse mestrado e tal, mas era um negócio que ele queria que eu fizesse na Anhembi, tinha que pagar, a bolsa era difícil. Eu falei: “Eu não quero também, o que que eu vou fazer com o mestrado, vou dar aula, não gosto de dar aula”. Não sabia o que... Sei lá, nem sabia o que que fazia com o mestrado, sabe? Hoje em dia, também, meus amigos trabalham no mundo acadêmico, eu vejo do jeito que tá a carreira deles e falo: “É, talvez não era uma boa ideia”. Mas, enfim, eu falei: “Poxa, eu não quero dar aula, então o que eu vou fazer com o mestrado?”. Acabei desistindo, mas eu gostava das coisas que eu estudava e tal, eu me dava bem, gostava dos professores, era bem legal.
00:38:47
P1 - E teve algum estágio que você tenha feito que tenha sido marcante?
R - Eu fiquei dois anos na Fundação Dorina Nowill para cegos, e eu fazia audiobook para os cegos. Então a gente transformava todos os livros em áudio, eu editava, eles gravavam, os locutores eram voluntários, e a gente era estagiário, ficava editando. E aí lá também eu aprendi a fazer áudio de inscrição, então eu fazia roteiro, eu fiz audiodescrição dos filmes da turma da Mônica, assim, era bem legal, tipo, era um trabalho que eu ficava felizinha, assim, de fazer. E também acabava escutando vários livros, assim, tipo, sei lá, os livros do Game of Thrones, que eu nunca pensei em ler, e eu escutei todos eles editando, assim. E eu gostava, tipo, era uma coisa que eu achava legal, pensei bastante em trabalhar com áudio na época. Aí fui aprender a tocar teclado, porque eu falava, ai, preciso saber alguma coisa de som, aí comecei a pesquisar fone, microfone, não sei o que lá, mas aí... Enfim, no final, eu tive que trabalhar e ganhar dinheiro, né, e aí eu tive que abandonar essas coisas, porque eu não consegui continuar trabalhando na área, mas foi um estágio que eu achei que tinha muito... que eu me sentia muito satisfeita, assim, com as coisas que eu fazia. Era bem legal. Eu fiquei dois anos, que é o tempo completo, assim, de um estágio, né? E aí, depois eu fui fazer outros estágios, porque eu ainda tava na... Eu tava logo no comecinho na faculdade, mas já sabia, assim, mexer nas coisas, eu pegava muito fácil os negócios de edição, que todo mundo na faculdade, que as aulas são meio rasas, e as pessoas às vezes não pegam, né, mas eu me interessava, eu ia aprendendo a mexer em casa, tal, então eu pegava muito fácil, e aí eu consegui o estágio rápido, né, então, sei lá, tava na metade da faculdade, já tava sem estágio, porque eu fiquei os dois anos lá.
00:40:32
P1 - E nessa época você já tinha saído de casa ou você foi sair só depois?
R - Não, eu saí quando eu tinha uns 25 anos só. Eu me formei quando eu tinha 21, né? Eu entrei na faculdade... Eu terminei em 2013. A faculdade. Acho que eu tinha 21 anos.
00:40:47
P1 - E daí você começou a trabalhar, de fato, né?
R - É. Quando eu estava me formando, eu já tive que trabalhar porque eu fiz um estágio. Eu troquei de estágio, porque eu saí desse e aí fui fazer um estágio que era numa produtora, aqui perto, inclusive, de onde eu moro hoje, já é bem perto daqui. Foi engraçado até quando eu vim morar aqui, que foi um lugar horrível, que era uma produtora que editava vídeo mesmo, e a mulher era horrível, a dona da produtora. Um dia ela falou que eu comia demais na mesa do almoço e eu fiquei muito triste. Aí eu falei pra minha mãe, e minha mãe falou: “Por que que você se demite?”. Eu falei: “Mãe, mas trabalho, tal...”. “Não, você não tem que aguentar isso, não sei o que lá”. E aí eu aguentei mais um pouco, me demiti, e aí eu não consegui mais arrumar estágio. Eu já tava no final da faculdade, fiz um monte de entrevista, consegui uma indicação numa rádio, e aí colocaram outra pessoa que já era interna no lugar. Eles falaram que eu tinha passado, e um dia depois me ligaram falando que iam colocar outra pessoa que era interna. E aí acho que eu fiquei tão frustrada com tudo, que eu falei: “Ah, então eu vou procurar emprego, porque eu preciso trabalhar, eu preciso de dinheiro”. E arrumei emprego no escritório, de auxiliar administrativo, lá na Zona Leste mesmo. E aí eu desvirtuei completamente do caminho, do que eu tava estudando, para o que eu ia fazer. E aí eu já trabalhava CLT registrado nessa área quando eu me formei. E eu continuei. Fiquei nessa empresa aí, entrei ganhando um salário mínimo, fui melhorando lá, crescendo e tal. Então, eu já trabalhava CLT registrado em outra área, completamente diferente, quando me formei.
00:42:29
P1 - E em que momento o marketing entrou nessa vida?
R - Vai fazer dez anos, inclusive. Foi em 2016. Eu estava num momento completamente perdido, que eu não sabia o que eu ia fazer mais, que eu tinha trabalhado em contabilidade, RH, tudo que você pode imaginar. E aí eu fiquei desempregada. Tive um momento muito complicado na minha vida pessoal, que eu acabei perdendo emprego e tal, e aí não consegui ficar, não consegui trabalhar mais. Fiquei desempregada e minha mãe ficou desesperada por mim e falou: “O que você gosta de fazer, o que você quer fazer” e tal. E aí, em 2016, eu tinha acabado de virar vegana e a minha mãe falou: “Vamos criar um curso pra você fazer uns cosméticos naturais”. Não sei, minha mãe inventou isso, tirou da cartola mágica dela. E aí ela arrumou o negócio e eu fui fazer. E aí eu comecei a fazer sabonete pra vender. Eu fazia sabonete, hidratante, essas coisas, e vendia. Anunciava no Facebook. E vendia. E aí, uma menina que eu conhecia da adolescência, não era minha amiga, era uma conhecida que eu tinha no Twitter, falou: “Cara, eu trabalho num lugar que tá precisando de uma atendente e a gente trabalha com cosmético natural, tem tudo a ver com o que você já sabe, tal”. E eu falei: “Nossa, eu tô desesperadamente precisando de um emprego”. Porque eu tava vendendo as coisinhas ali pra conseguir viver e tal, mas não dava quase dinheiro. E aí ela me chamou pra fazer entrevista, e eu entrei pra atender telefone e responder e-mail. Só que a dona da empresa falou: “Ó, cê pira escrever pro blog, fazer umas coisas”. Eu falei: “Ah, sim, eu gosto de escrever e tal”. E aí eu comecei a escrever pro blog, ela achou legal, e aí me pagou um curso mega extenso de marketing digital pra eu virar o marketing da empresa, porque era uma empresa pequenininha, só tinha menina, eram cinco meninas, e a dona era uma moça um pouco mais velha que eu só, na época. E aí ela pagou essa formação pra eu meio que fazer o marketing da empresa, e foi isso que deu, virou, que eu comecei a trabalhar com isso lá. Era muito pequeno, era difícil de crescer e conseguir fazer as coisas que eu queria fazer, então eu fiquei lá por uns dois anos. E aí eu arrumei outro emprego numa empresa maior e fui mudando, mas foi lá que começou, que eu aprendi tudo e fui desenvolvendo. E aí, quando já tava num ponto que eu não tinha mais pra onde e o que fazer, eu conversei lá e fui pra outro emprego, arrumei outro emprego e fui mudando, fui aprendendo outras coisas e cheguei mudando de emprego até a agência que eu trabalho até hoje, que eu trabalho desde 2018.
00:45:35
P1 - E me conta como que tava sua vida pessoal em relação a namoro, a moradia nessa época dessas mudanças de trabalho.
R - Então, quando eu comecei a trabalhar com marketing, foi o mesmo ano que eu conheci o meu ex-companheiro, que mora, enfim, na Zona Oeste, em Pinheiros, que foi a pessoa com quem eu fui morar, que eu saí da casa dos meus pais. Então, foi mais ou menos na mesma época. Eu conheci ele em 2016, acho que eu saí de casa em 2017, assim. Foi bem rápido. E eu fui morar com ele. E aí, eu fiquei morando com ele e a gente ficou juntos, né? Morando juntos, assim. Até dois mil... Que dia não é hoje? Vinte... Que até hoje é muito bom. Deja Vu foi em 2022, então foi 2000 e... É, quando eu achei o Déjà Vu, eu achei o Déjà Vu em janeiro de 2022. Em dezembro de 2021 eu falei pro meu companheiro que eu ia sair de casa. Então, aí eu fui começar a procurar apartamento, então eu fiquei com ele até 2021 ali, mais ou menos, né? Eu morei com ele todo esse tempo. Então, eu tive um relacionamento meio que só e até eu sair da casa dele e vir pra casa que eu moro hoje, assim.
00:46:52
P1 - E como é que foi esse momento? Como é que estava a sua vida? Tanto da mudança quanto dessa decisão de depois se mudar de lá. Como é que estava a sua vida nesse momento?
R - Uma loucura, né? Acho que a gente tinha acabado de passar pela pandemia. Então, tava todo mundo meio maluco. Eu estava muito infeliz já há muito tempo, não sabia o que fazer, porque eu morava lá, era a casa dele, eu não sabia muito pra onde meus pais tinham saído de São Paulo. Eu falei: “O que que eu vou fazer? Se eu sair daqui, o que que eu vou fazer?”. E eu, ganhar, eu tinha meu trabalho e tal, mas eu falava: “Meu, impossível, como que eu vou pagar um aluguel sozinha, vou ter que morar com alguém”. Só que durante a pandemia todos os meus amigos saíram de São Paulo. E eu falei: “Cara, vou sair, vou ter que, sei lá, procurar uma pessoa pra dividir o que eu vou fazer e tal”. Comecei a maquinar. Então eu já tava terminando sozinha na minha cabeça muito antes. E aí eu falei: “Não, eu vou me jogar”. Sei lá. E eu virei pra ele e falei: “Vou procurar e tal”. Aí eu chamei o meu chefe, meu chefe que é meu chefe até hoje, ele é como se fosse uma figura paterna também pra mim. Eu falei pra ele: “Olha, eu vou sair de casa e eu preciso de ajuda porque eu acho que com o que eu ganho eu não consigo”. Aí ele falou: “Tá, eu consigo te ajudar um pouquinho mais, dar um aumento, mas não muito”. Ele falou: “Mas eu consigo te ajudar com outra coisa. Tinha um sócio da empresa que também tinha saído de São Paulo por causa da pandemia. Eu vou te dar a geladeira, o fogão e a máquina de lavar e o que mais você quiser pegar lá da casa dele”. E eu falei: “Nossa”, porque não tinha nada. Eu morava com o meu companheiro, que tinha casa, era dele, tinha tudo, era tudo dele. Aí eu falei: “Não tenho nada, preciso comprar tudo”. Eu fiz uma planilha, fui ver quanto custava as coisas, fui ficando desesperada, falei: “Tá, preciso juntar tanto”. Então eu falei: “Vou demorar meses pra eu conseguir fazer isso, pra eu conseguir sair daqui”. E aí meu chefe foi e me deu essa força, que me deu muitas coisas que eu tenho até hoje. Ele me doou desse sócio da agência que também tinha deixado, ele falou que comprou do sócio para me dar, não sei se eles fizeram algum embolado lá. E aí, quando ele me deu todas essas coisas e eu achei o Déjà, eu falei: “Agora preciso achar um apartamento rápido”, conseguir me mudar. Mas eu estava muito feliz com a ideia de viver a minha vida sozinha. Eu achava que eu ia ser sozinha, depois eu achei o Déjà, aí eu achei que eu ia ser... Mas eu tava muito feliz, tava bem empolgada com a ideia de ter toda essa vida, conseguir viver sozinha, porque eu achava que eu nunca ia conseguir me sustentar sozinha, porque eu morava num bairro caro, uma pessoa que tinha condição pra estar lá, que já tinha o apartamento, já tinha as coisas e tal. E eu falava: “Nossa, eu nunca vou conseguir morar aqui”. E aí eu consegui achar um apartamento com um aluguel que eu conseguia pagar muito perto. Aqui, sei lá, oito minutos de carro de onde eu morava, é muito perto. Foi muito louco, as coisas meio que se alinharam e aconteceram. Então eu fiquei muito feliz, apesar de ter sido um momento muito complexo, eu tava muito animada, que foi bem legal.
00:50:05
P1 - E me conta como que foi esse encontro com o Deja?
R - Ah, então foi lá, naquele apartamento que eu morava, estava já arquitetando como que eu ia fazer, e eu tava assistindo um filme que eu ia escrever um artigo e tal, tava meio que estudando pro artigo, assistindo o filme, que eu já tinha assistido, meio que vendo e pausando pra estudar pra escrever o artigo, e eu comecei a escutar o miado. E aí, da janela da sala, que era do apartamento, eu conseguia ver o meu carro na garagem. Que não era uma garagem, ela era descoberta, ficava ali. E eu comecei a ver uma comoção em volta do carro, as pessoas, e eu já comecei a pensar: lascou. Daí tocou o interfone, eu atendi e falaram: “Acho que tem um gato no seu carro”. Aí eu falei: “Tá bom”, coloquei o chinelo, desci correndo, fui tentar achar ele, peguei o celular, liguei a lanterna, deitei no chão porque o step do meu carro fica preso embaixo, coloquei a lanterna, vi os olhos dele. E eu vi que ele era bem pequenininho, parecia que era cinza. Aí eu olhei e falei: “Calma que eu vou te tirar daí, eu vou dar um jeito”. Aí eu soltei o pneu pra conseguir pegar, achei que ele tava preso, mas ele era minúsculo, entrava e saía se quisesse. Eu só descobri quando ele saiu correndo, quando soltei o pneu, e ele se enfiou em mais três carros diferentes. Eu chamei todos os vizinhos do prédio pra tentar pegar ele. No final foi o porteiro que conseguiu segurar ele, ele era minúsculo. E aí eu peguei ele e falou: “Você vai ficar?”. Eu falei: “Vou ficar”. E ele veio mordendo meu dedo com toda a força dele, desesperado, morrendo de medo, com uma barriga de verme desse tamanho. E aí eu levei ele pra cima, coloquei ele no banheiro. E o meu companheiro da época, a gente já estava se separando, mas morava com ele. Eu falei: “Eu sei que você não quer, mas eu já tô indo embora, só tô procurando um apartamento e tal”. Eu falei: “Só que eu preciso de você me ajudar, porque eu não vou deixar ele aqui sozinho. E a gente não tem nada”. E aí ele foi numa loja, comprou ração, areia, tudo que eu falei pra ele. Eu liguei pra minha mãe pra perguntar, porque ele era bebezinho, eu nunca tinha tido um bebezinho. E aí ela falou: “Compra sachê” e tal. E aí, na época, eu liguei pra minha mãe e falei: “Posso levar ele pro sítio?”. Porque ela já tinha um monte de gato. Eu falei: “O que eu vou fazer? Eu não tenho nada na minha vida, eu vou ter um gato agora”. Eu não sabia nem se eu ia conseguir pagar as contas sozinha da casa que eu ia morar, que eu nem sabia onde era. Falei: “Como que eu vou cuidar de um gato?”. Falei pra minha mãe e falou: “Pode”. Eu falei: “Tá bom”. Mas no outro dia de manhã eu falei: “Não, não tem a menor chance”. Ele já dormiu comigo, já ficou. Aí no outro dia eu já levei ele no veterinário, ver como é que ele tava e tal. E aí eu já decidi que ele ia ficar comigo mesmo. Já, na verdade, já dei nome pra ele no mesmo dia que eu peguei. Porque eu tinha acabado de ver, em dezembro, o Matrix 4, e tem o gato preto do filme que chama Déjà Vu. E aí eu falei pra um amigo meu: “Se eu tiver um gato preto, vou dar esse nome”. E não deu semanas, eu mandei foto pro meu amigo, ele falou: “Ih, o Déjà Vu chegou, hein?”. Falei: “É, pois é”. Aí não tinha muito mais como fugir, eu já dei o nome pra ele no dia, já foi, já casou tudo. E aí eu comecei a acelerar o processo pra arrumar uma casa pra nós dois.
00:53:33
P1 - No começo, você estava contando um pouco sobre os gatos escolherem a sua família, né? Eu queria que você contasse um pouco, então, sobre esse momento de encontro em relação ao Deja.
R - Eu acho que eu fui crescendo com essa percepção de que eles escolhem. A gente nunca... Eu falei, né? Quando eu era criança, minha mãe e meus pais compraram um cachorro pra mim, porque tinha acontecido a perda traumática da Tigresa. Mas a gente sempre achou, ou eles acharam a gente, os gatos. Então a gente nunca foi numa ONG, sei lá, adotar, “feira da adoção”, não. Sempre apareceu um gato. Então eu já tinha, nessa altura do campeonato, resgatado outros gatos. Resgatei a Tiana, que era uma gata preta, que ficou também com a minha mãe. Viveu poucos anos, mas ficou com a minha mãe. Mas fui eu que resgatei, ela apareceu pra mim no escritório que eu trabalhava, inclusive. Foi muito louco, ela pulou do muro, apareceu lá, tava machucada, com fome e tudo, aí eu resgatei ela. A gente resgatou o gato em estacionamento do shopping, dois filhotinhos também, aí eu arrumei casa pra eles. E a gente meio que tem essa coisa, parece que eles aparecem. A minha mãe, depois que a Samy morreu, pouco tempo depois também apareceu a gata pra ela lá no prédio que ela morava na Vila Formosa. Então, sei lá, nunca pensei: “Ah, vou pegar um gato, tô precisando. Preciso pegar um gato”. Tem gente que faz, mas nunca precisei, nunca aconteceu. Então, quando eu vi ele, eu sabia já. Na hora eu senti que era pra mim. Tava num momento muito específico da minha vida, essa coisa de começar uma fase nova. Eu ia sair de casa, eu ia começar uma vida sozinha. Eu tava pra fazer 30 anos, tem toda a crise dos 30 anos acontecendo na minha cabeça. Eu falei: “Por que não?”. Então, eu olhei pra ele, até cogitei pelas problemáticas financeiras ou o que poderia ter, porque eu nem sabia como eu ia me sustentar sozinha ainda, não tinha pensado nisso. Porque eu ou morei com meus pais ou morei com o meu ex-companheiro. Então, eu sempre dividia as contas. Eu não sabia como é que ia ser. Então, eu até cogitei no começo, mas meio que quando eu olhei no olho dele, eu sabia que era pra ser pra mim. Até porque ele estava no meu carro. Então, parece que ele foi direcionado. Então, quando eu vi ele, eu levei ele pra cima, eu já sabia que era meu. Acho que eu fui aceitando ali as consequências de tudo. Falar: “Agora eu vou ter que ver tudo que ele precisa e tal, e vai ser eu e ele, não vai ser mais só eu”. Então, eu já senti que era isso, ele me escolheu, ele veio pra mim. Eu falo que foi uma missão pra mim. Ainda mais quando ele ficou mais velho, ele ficou doente e tal, eu falei: “Cara, se ele tivesse ficado sozinho, ou talvez se outra pessoa tivesse pegado, talvez não teria o mesmo cuidado que eu tive com ele, sabe?”. Então, eu sinto que foi muito pra mim mesmo.
00:56:43
P1 - O que que o Déjà teve?
R - Ele tem doença renal, muito jovem, né? Não é normal, mas foi louco porque a Samy teve doença renal, minha outra gata. Então eu já tinha alguma experiência e ele tinha... foi em 2024? Ele sempre foi muito saudável, ele tem umas alergiazinhas, gosta de se enfiar nos lugares que têm pó, às vezes ele tosse e tal, mas ele sempre foi muito saudável, nunca foi de vomitar, e tem gato que vomita bastante, enfim, ele nunca vomitou. E aí um dia ele vomitou, eu fiquei meio assim, no dia seguinte ele vomitou de novo, eu falei: “Tem alguma coisa errada”. E aí eu levei no veterinário, ela achou que podia ser bola de pêlo, não sei o que lá, mas ficou meio assim, mandou fazer exame de sangue. Então ele era bem jovem, foi 24, ele tinha só 2 anos. E aí deu alteração na creatinina, acho que chama. E eu já sabia quando vi o resultado. Eu já estava acostumada. Fiquei com a minha mãe anos fazendo exame de sangue na Samy, de mês em mês, às vezes. E eu não acreditei, porque eu falei: “Nossa, mas ele é um bebê ainda pra ter uma alteração assim”, dando a vida pra ele se hidratar, pra tudo. Porque eu tinha medo também de ele ficar doente e tal. Mas eu pensava em ficar doente na velhice. Nunca imaginei. Aí, quando a veterinária falou, eu meio que dei uma surtadinha lá. Porque eu falei: “Cara, e agora? O que eu vou fazer?”. Porque é caro o tratamento, é difícil, mas eu pensava no que eu tinha passado com a Samy há mil anos atrás. Eu achava que ele ia ter que tomar soro todo dia, igual ela tomava, que meio que era um... ali estava fadado ele. Mas não foi assim, foi mais fácil, na verdade. Só que na hora eu dei uma surtada porque eu achei que ia ser. A veterinária falou: “Calma, você tem que ficar bem, tem que cuidar dele”, ela deu uma lição de moral ali. E aí ele tomou soro três vezes, respondeu bem. Tomou remédio por quase um ano, um remédio que nem existia na época que a Samy tava viva, eu nem sabia. E aí ele respondeu bem. Hoje em dia ele vive só com a dieta, que é uma ração especial pro que ele tem, mas ele tá muito bem. Em junho do ano passado ele teve meio que a alta do remédio e agora em fevereiro ele vai de novo fazer o exame. A gente acha que ele tá bem porque ele nunca mais vomitou, então isso é um bom sinal. Mas foi um baque, tão novinho, ficar com uma doença tão séria, porque gato tem bastante doença no rim, mas não tão novo, pelo menos não que eu soubesse. Mas aí foi isso, eu falei: “Eu acho que é uma coisa muito específica, se ele estivesse na rua, ele não ia aguentar e talvez outra pessoa não ia ter o mesmo tato que eu de ver que ele vomitou duas vezes já ia se desesperar”. Porque normal, vomita. Acontece. Mas eu já acendi um alerta porque eu já tinha passado por coisas assim. Eu falei: “Não, vou ver e tal”. Então eu tive a oportunidade, porque como eu trabalho de casa, eu posso dar toda uma atenção. Quando ele estava em tratamento eu conseguia levar ele quantas vezes precisou, fazer os exames quantas vezes precisou, dar o remédio na boca, porque ele só comia o remédio se eu que dava. Então teve todo um rolê que seria mais difícil se eu não tivesse os privilégios que eu tinha na época.
01:00:16
P1 - E eu queria que você me contasse como é o humor dele, como é que você descreveria o dele?
R - Ele tem o modo dormir e o modo terrorista. Ele é bem medroso, assustado com outras pessoas, mas em casa, só comigo, com a gente, ele tá ou quietinho ou tocando o terror em casa. Então ele tem bastante energia. Ele fica sempre procurando, a gente fala: “Tá procurando alguma coisa pra fazer. Ele tá andando pela casa, olhando o que que ele vai, qual vai ser a próxima coisa que ele vai destruir”. Mas ele é, acima de tudo, muito meu companheiro. Ele tá sempre do meu lado, o que eu tô fazendo, ele tá atrás de mim, ele vai ver, ele quer ficar sempre pertinho. Então, se eu tô sentada no sofá, agora não, porque tem muita gente. Se eu tô sentada no sofá, ele vem, senta aqui e deita do meu lado. Se eu vou me arrumar pra sair, ele fica de guarda no banheiro, esperando. Ele tá sempre pertinho de mim, ele é muito parceirinho, tá sempre vendo o que eu tô fazendo e tal, mas ele é muito agitado. Eu achei que quando ficasse mais velho e castrasse, ele ia perder um pouco de energia, mas ele tem muita energia, ele é bem arteiro.
01:01:27
P1 - E tem alguma situação engraçada que ele fez você passar, que você lembra, assim, com carinho?
R - Cara, tem uma situação engraçada, agora eu tô pensando se é muito apropriado eu falar. Eu tinha um pequeno vibrador, desse tamanho. Que um dia ele achou, eu acho que eu esqueci embaixo do travesseiro alguma coisa, e aí quando eu vi ele tava jogando assim, o negócio tava pulando e vibrando pela casa. Foi uma situação engraçada. Enfim. Não sei se é o mais apropriado, mas fica aqui a história. E uma vez ele pegou também um cigarro no cinzeiro e saiu correndo com ele na boca, assim. Apagado. Era só a ponta apagada.
01:02:25
P1 - Eu queria que você contasse um pouco como foi esse primeiro dia dele. Você contou um pouco que você estava meio assustada de saber como lidar com um gato bebê. Mas como foi essa primeira noite? Você falou que ele dormiu com você. O que você sentiu?
R - Ah, eu achei ele à noite. Então foi muito, já era hora de dormir praticamente. E aí ele estava muito assustado, mas depois ele veio, viu alguma segurança em mim. E aí ele deitou no meu peito pra dormir. Bem pequenininho, ele é muito, muito... Dois meses, muito pequeno. E aí, eu não sei, acho que eu senti isso que eu falei, de essa conexão que eu falei: “Ele é meu, sabe? Ele é meu, eu sou... Ele é meu, eu sou dele”. Criou esse laço imediato, é muito bonitinho. Você vê um filhotinho, é muito difícil você... Mas eu não sei, foi imediato a conexão, sabe? Ele deitou em cima de mim, eu falei: “É isso, vai ser assim pra sempre, acabou, não tem mais jeito, tô rendida”. Foi muito... eu senti que era o começo de uma coisa muito grande, que eu falo bastante, que eu aprendi muito com a vinda dele pra minha vida. Acho que com todas as coisas, ele ficar doente, com tudo, ele não é só: “Ah, ele me ensinou”. A existência dele, as coisas que aconteceram, mas eu acho que ele ainda vai me ensinar muitas coisas. Acho que a gente ainda tem a vida inteira dele pra viver, e acho que isso ainda vai me ensinar muitas coisas. Então eu senti que era o começo de uma coisa longa que aconteceu na minha vida. Falei, agora, quando eu peguei ele, eu lembro que eu tirei uma foto e falei: “A partir de agora é Raíssa e Déjà Vu contra o mundo. Somos nós dois”. Eu falei: “Vou começar de novo a minha vida, vou começar do zero, sozinha”. Aí eu falei: “Não, agora eu vou começar eu e ele do zero”.
01:04:29
P1 - E esse momento da mudança, que você se mudou e foi pra um apartamento novo com ele. Como foi a sua vida e a sua vida com ele a partir disso?
R - Mudar foi assustador, eu fiquei morrendo de medo, mas a partir do momento que ele ficou estressado na hora de mudar, quando entrou aqui parecia que ele tava em casa. Eu fiz questão de fazer, como tive a oportunidade de ter tempo pra mudar as coisas, deixei o apartamento com todas as coisas já. E quando ele entrou, se achou, parecia, ele não ficou com medo das coisas, ele: “Ah, aqui agora é o nosso lugar”. E a primeira noite eu chorei muito, fiquei bem desesperada, nunca tinha ficado sozinha. Ah, eu tinha ficado sozinha em casa, mas falar: “Agora eu vou dormir todas as noites sozinha” e tal. E a gente meio que se apegou um no outro pra isso. E aí depois foi muito bom, foi muito legal, a gente criou nossa rotininha de viver, eu e ele, na casa nova. Tudo era novidade, tudo era legal, ele tava crescendo ainda, ele era ainda bebê, porque eu tinha achado ele em janeiro, eu mudei pra cá em março. Então ainda tinha muita coisa pra gente viver, muita coisa dele pra colocar. Eu gostava de ir no pet shop, qualquer dinheiro que sobrava eu comprava uma coisinha pra ele. A primeira casinha de montar, quando eu montei, eu senti que tava arrumando a casa pra nós dois, não era só pra mim. Eu fui tentando ver o que eu podia melhorar pra ele também. Então foi meio que mudei com alguém. Não mudei sozinha, mudei com ele. E a gente foi criando nossa rotininha, ver onde o sol bate, pra ele ficar, ele ter a rotina do sol, que ele gosta também. Pra trabalhar, ele foi se ajeitando pra trabalhar comigo, na mesa e tal. Foi gostoso, foi bem legal.
01:06:28
P1 - E como é que a rotina é de vocês hoje em dia?
R - Eu sou muito metódica, dizem que gato também é. Então, eu não sei se ele pegou de mim, se a gente só se encaixou, mas a gente tem tudo nos horários. Ele gosta de fazer tudo nos mesmos, nas mesmas ordens, do mesmo jeito. A gente acorda, às nove horas da manhã é o horário que ele ganha o sachêzinho dele. Todo dia tem horário. Então, se dá ou vai chegando a hora, ele já “miau”, vai do meu lado e fica me pedindo sachê. Aí tem o sachêzinho dele, aí tem a hora que bate o sol ali no quarto de manhã, aí ele toma o sol no quarto. Quando vira o sol pra cá, aí tem a hora que ele toma, ele pede pra colocar o cobertor no chão pra ele tomar sol. Então ele é bem certinho nas horas das coisas que faz. E de segunda, quarta e sexta eu tenho sempre uma reunião no mesmo horário. E toda vez que eu vou fazer reunião ele sobe na mesa e aparece na câmera e fica sentado. Às vezes eu até falo pra ele: “Tá na hora da nossa reunião. Se eu não aparecer, a pessoa vai achar estranho”. Ele vai lá, senta e fica do meu lado. Então tem essas coisinhas. Quando a gente almoça, ele almoça. É muito louco. Acho que ele pega, eles vão pegando. Então, ele vê que eu tô sentada pra comer, ele vai do lado no pote e come. É meio doido, ele, sei lá, vai virando pessoa, não sei. Então ele tem essa rotina parecida com a minha. Eu fico em casa muito, que eu trabalho de casa, então meio que tudo que acontece é aqui. Ele vê o que eu tô fazendo, ele vai e faz alguma coisa similar. Ou se ele vê que eu tô fazendo alguma coisa, faço exercício e tal, ele vai, deita e dorme, porque aí já é demais.
01:08:15
P1 - E tem algumas pessoas que a gente tá entrevistando, os pets foram adotados durante a pandemia, né? Então, eles têm algumas dificuldades de sair de casa, assim. Como é que é que o Deja?
R - Ele odeia sair de casa. Ele só sai de casa pra ir no veterinário, ele não sai de casa pra mais nada. Mas ele odeia, ele vai… Ah, é horrível, porque quando tem que levar ele, ele vai tremendo o caminho inteiro, é muito triste, assim, ah, eu fico com o coração na mão. A casinha dele, de transporte, ela fica aberta, ele usa ela pra deitar e dormir. Mas quando vai colocar ele pra sair, nossa, vira no demônio, é difícil. E quando coloca ele no carro, eu sinto a casinha vibrando, ele tem muito medo, odeia sair de casa. Abre a porta ali pra qualquer coisa, ele se esconde. Ele aprendeu que do lado de lá as coisas são ruins, sei lá. Ele se esconde na hora que abre a porta, ele não gosta de jeito nenhum de sair. Tem gente que coloca coleira no gato pra passear, essas coisas, eu nunca tentei porque é muito traumatizante, ele já não gosta nem de olhar. Então ele não gosta, e quando eu vou sair ele tem dias que ele não liga, mas a maioria das vezes ele fica meio que fazendo um doce, pra eu não sair. Eu fico me arrumando, ele fica me olhando, fica chorando e pedindo pra brincar, fica vendo atrás de mim, morde minha perna, bate, joga os brinquedos, traz os brinquedos pra eu brincar com ele, essas coisas. Às vezes ele dá uma chantageada emocional pra eu não sair, mas ele não gosta de sair.
01:09:46
P1 - E tem algum momento que você considere que foi o mais difícil que vocês passaram juntos?
R - Ah, eu acho que a doença dele mesmo, sim. Porque ele tem quatro anos, não era pra ele ter vivido nada de traumático. Infelizmente, aconteceu isso, era pra ele ter só sido feliz e brincado. Mas eu acho que é isso, foi a doença dele. Quando o primeiro dia que ele tomou soro foi horrível. Foi, acho que, o pior dia da minha vida, porque ele ficou muito assustado, porque ele já é medroso, ele não gosta de sair, tem todas essas coisas. E aí, pô, ele tomou soro, eles ficam com uma bolsa de líquido acumulado por causa do soro. E aí, toda noite ele dorme comigo. Ele pede, eu tenho que virar pro lado específico que ele gosta, fica uma dor nas costas, enfim. E aí ele deita, se encaixa em mim, de conchinha, e dorme, sempre, toda noite. Nessa noite ele tomou o soro, ele ficou com muito medo, se enfiou embaixo do cobertor no meu pé e ficou a noite inteira assustado. E aí foi horrível, foi o pior dia da minha vida porque eu falei: “Eu preciso fazer isso pro bem dele, mas ele não sei se entende, se acha que eu tô machucando, fazendo alguma coisa de ruim com ele”. E passar por isso, esperar resultado de exame, ver se ele ia ficar bem, se não ia, não saber. O remédio era muito difícil de dar pra ele, tentei, porque tinha em pó que misturava e fazia uma papinha e tinha em comprimido. Quando eu tentei dar comprimido, nossa, era horrível, ele não queria, machucava a minha mão. Foi um tempo muito ruim, porque não achei que eu ia passar por isso com um gato tão jovem. Porque quando a gente tava com a Samy, que ficou doente, ela já era mais velha, então meio que aceitava o tratamento. Já tava mais fraquinha, mas: “Ah, vou deixar”. Às vezes até relutava um pouco, mas ele não, ele tava forte, querendo brigar comigo. Então foi um tempo bem difícil, que eu meio que me fechei e concentrei em cuidar dele. Mas o dia mais difícil foi o primeiro mesmo, porque depois ele acabou, claro, na hora do comprimido ele brigava, mas em geral ficava bem comigo, no resto do dia era mais esses... A hora de dar o remédio era um inferno, mas aí passava. Quando parou de dar o remédio foi tipo... Até hoje tem hora que eu lembro que não tenho que dar o remédio pra ele de manhã e eu falo: “Nossa, que alívio, sabe? Que alegria, que maravilhoso isso, não ter mais que passar por isso”. Com certeza foi o momento mais difícil.
01:12:25
P1 - E você estava contando da ração especial pra ele, que ele se alimenta. Como é esse momento da alimentação pra ele? Você acompanha esse momento ou você deixa ele sozinho? Como é que é?
R - Não, ele tem dois potes de ração e ele come a hora que ele quer, eu vou só enchendo, ele come muito, ele é bem comilão, a gente escuta ele só... crec, crec, crec. Ele tem essa coisa de quando eu tô sentada pra comer, geralmente ele senta do lado e come. Porque eu como sentada no chão, eu tenho mania de comer sentada no chão, eu gosto. E aí o pote dele é perto, então ele geralmente come, mas ele come o dia inteiro, a hora que ele quiser, só o sachê mesmo que tem horário que eu dou todo dia, 9 horas da manhã, queijo também dá uma hidratada, coloco mais água pra ele se hidratar, que é bom pro rim dele, né? Mas ele come a hora que ele quer, e não teve dificuldade nenhuma, porque como eu tive que trocar por uma ração especial, que é a Renal, não sabia se ele ia gostar ou não ia, mas ele come qualquer coisa, ele é vixi, ele come até pedras se colocar na frente dele, então ele não ligou muito, assim, não, foi bem tranquilo, ele come de boa.
01:13:31
P1 - E você tava contando que você foi adaptando o apartamento pra tornar ele ativo de alguma forma, né? Como é que foi isso? Com o que ele gostou de brincar?
R - Com tudo. Eu fui adaptando. Eu fui pesquisando. No começo ele tinha pouca coisa. Então eu comprei primeiro esse afiador grande que monta e tal. Casinha e muito brinquedo, bolinha, essas coisas pequenas. Teve o primeiro bichinho de pelúcia que eu comprei pra ele porque ele mordia muito o meu pé, eu comecei a dar pra ele morder, meio cachorro, não sei o que tem na cabeça. Aí ele destruiu o bicho, tem até hoje ali, coitado, todo esfacelado. E aí eu comprei as coisas de gatificação, prateleira para colocar nas paredes. Não dá pra colocar na casa inteira porque, se eu der muito acesso pra ele, também ele vai pôr tudo abaixo. Mas aí no quarto eu coloquei, ele sobe no armário, então ele tem bastante espaço pra brincar. Ele tem túnel, cercadinho, afiador pra caramba. Ele não gosta de afiar a unha, mas eu colei afiador desses que cola no sofá pra ele afiar. Ele não gosta de afiar muito no afiador, eu tenho só pra ter. Eu fui aos poucos, cada coisa que eu vou ver, surge a necessidade. Eu vejo ele fazendo alguma coisa, eu falo: “Talvez ele goste disso”. Aí eu vou lá e compro uma coisa que tenta suprir. Tipo, ele gosta de afiar a unha, tem uma agenda minha que ele fez de afiador, eu dei pra ele, falei: “Tá, é seu”. Aí eu vi, ele gosta de afiar em coisa plana, então procuro um afiador assim. Ele gosta de subir no armário, então vai vendo as coisas, aí coloca um monte de prateleira. Então tudo que eu vejo que ele vai criando a necessidade, eu acho que ele tem pouco espaço e que fique entediado. Porque, por mais que eu tô aqui o dia inteiro, eu tô o dia inteiro sentada no computador fazendo alguma coisa. Então, a hora que ele quer brincar, eu não consigo. Então eu vou vendo a necessidade, vou tentando suprir pra ele não ficar triste também. Coitado, pra ele não ficar entediado. Mas eu queria mesmo era poder dar pra ele, sei lá, uma sacada, pra ele olhar, pra ter mais espaço, poder dar mais espaço pra ele brincar. Mas tudo que vai dando pra... Aqui, acho que na minha casa já não tem mais coisa dele do que minha. Foi assim, foi aos poucos.
01:15:50
P1 - E você tava contando que você até pensou em ter outros gatinhos, mas desistiu. Como é que foi isso?
R - É, então, quando eu comecei a namorar com o meu companheiro atual, a gente tinha esse plano, porque ele viu o Deja maiorzinho já, e ele tinha meio que esse sonho de ter um gatinho bebê, e eu falei: “Não, vamos planejar, e aí a gente pega, porque eu nunca peguei um gato. Mas eu vou pegar dessa vez, ou não?”. Falei: “Vou jogar pro universo”, que às vezes aparece. Só que aí foi isso, a gente tinha meio que planejado, janeiro de... 25, eu acho, pegar o gato. E aí ele ficou doente, em agosto, setembro de 24. E aí quando teve o negócio da ração especial e tal, eu falei: “Vai ser muito difícil, porque aí pra ele mesmo não é bom a ração renal”. Então a veterinária, quando os exames dele melhoraram, deixou misturar um pouco de uma ração normal, porque senão ele não ia conseguir construir muita massa. E aí quando ele ficar mais velho, pode ser ruim pra ele. Então como que eu ia criar um filhote numa casa com ração renal e ele daí já não pode comer a ração, só a ração normal? Então isso é muito difícil. Eu já dedico tanto da minha cabeça, do meu emocional pra ele, se eu pegar outro gato eu não vou viver, vou ficar só noiada nisso porque eu não sei só deixar acontecer, eu fico muito engajada ali. Eu gasto muito do meu emocional nisso. Aí eu virei pro meu namorado e falei: “Não vai rolar, a gente vai ter que desistir porque vai ser muito complicado”. Eu falei: “Pegar um gato renal para equiparar? É complicado, porque o Deja tá bem, mas se a gente pega um gato renal que tem que tomar soro todo dia... Então, se a gente vai se enfiar numa situação que vai ter que dedicar realmente muito pra isso, seria legal, bom pro animal, mas não sei se a gente tá podendo fazer isso financeiramente, emocionalmente”. Então eu desisti. Eu não sei nem se ele ia querer um companheiro. A gente fica pensando: “Ah, pode ser que ele ia gostar de alguém pra brincar e tal”, mas podia ser também que ele odiasse e nossa vida fosse um inferno e ele ficasse brigando o dia inteiro. Numa casa de 40 metros quadrados, às vezes, se odeiam, é pouco espaço de fuga. Então, eu não sei. Às vezes, era pra ser também assim. Acabei desistindo. E não apareceu ninguém no meu caminho, não vai aparecer. Então, acho que não é pra ser mesmo.
P2 - A ideia era pegar outro gato macho ou não necessariamente?
R - Não, eu queria, eu pensei em pegar uma fêmea filhote, pra dar aquela, porque dois machos, era a chance mais de dar briga. Então eu pensei que era melhor uma fêmea.
01:18:41
P1 - E em compensação a sua mãe em Juquitiba tá criando muitos gatos, como é que é isso?
R - Então, ela foi pra lá com dois. Ela foi com a Tiana, que era a gata que eu tinha resgatado em São Paulo, e com a Cacau, que era uma gata filhote que ela resgatou. Duas gatas pretas, inclusive. A gente é muito do gato preto. E aí, quando ela chegou lá, pouco tempo depois apareceu uma gata que deu cria de duas filhotinhas. E aí minha mãe tentou meio que ajudar, mas não trazer pra dentro. E, do nada, começou a aparecer, escalou. Eram duas filhotes e a mãe, e aí foi chegando. Aí ela falou que vinha uma gata e trazia a ninhada. E aí ela foi dando nome pros gatos. Meus pais têm de dar nome pra tudo. Até os gambás que aparecem, eles dão nome. Foi dando nome pros gatos, foi trazendo. Aí tem os gatos que são de dentro da casa, que ficam mais fechados, dormem com eles e tal. E tem os gatos que não gostam de dormir dentro da casa e são mais selvagens. Mas todos, a minha mãe castra, vacina, se machuca, ela leva no veterinário. Ela tem o veterinário local lá que é parceirão dela e super ajuda em tudo. E aí foi diminuindo a população também, porque ela foi castrando, aí foi chegando menos, alguns não voltaram mais, mas enfim, ela foi cuidando. Tinha bem mais. Eu, pra falar a verdade, não sei quantos são, eu teria que contar nome a nome e posso dizer que esqueço. Às vezes a minha mãe também não sabe contar quantos tem, mas ela dá nome pra todos eles. E muitos, têm uma fileira na cozinha da minha mãe de pote de ração, cada um tem um nome. Eles comem enfileirados, é bem engraçado. Minha mãe fala que é a fila do sopão. Quando dá 5 da manhã, ela acorda, abre e vai dar comida pros gatos de fora. Eles tão todos lá esperando. Ela tem tipo uma mini-ong no lugar.
01:20:43
P1 - E como é que você conheceu o seu atual companheiro? Como que foi?
R - A gente se conheceu num festival de cinema em São Paulo, na Mostra de São Paulo. A gente fez um clube de cinema juntos online na pandemia, mas não ao mesmo tempo. Eu fiz uma época antes, ele fez depois. Então ele já me conhecia porque ele ouviu os cursos gravados e ouviu a minha voz. Mas aí a gente meio que foi... a gente tava indo no mesmo festival, que tem todo ano, e um amigo comum falou, “ah, tem essa crítica de cinema que também vai”, porque eu também faço, né, crítica de cinema. E ele falou, “ah, tem ela que também vai, também é de São Paulo”, a gente se conheceu indo ver um filme. E em 2022? Sou péssima de lembrar. Em 2022 a gente se conheceu, então eu tava aqui, foi o mesmo ano que eu vim pra cá, só que no final do ano. Eu vim pra cá em março, a gente se conheceu em outubro. E aí a gente começou a namorar em dezembro de 2022 e tamo junto até hoje.
P1 - Como que é o nome dele?
R - Victor.
01:21:54
P1 - E você tem sonhos?
R - Cara, meu maior sonho é ter uma casa. É o sonho do pobre, não tem jeito. Meu maior sonho é financiar um apartamento pra gente, pra gente ter uma casa. Meu maior sonho ainda era se tivesse uma sacada pro Deja Vu, que eu queria muito pra ele, principalmente. Porque aqui só tem janelão e tal, mas eu queria muito que ele tivesse isso, porque eu cresci num apartamento que as gatas ficavam na sacada o dia inteiro, eu achava legal. Então, olha, eu não consigo nem pensar em outra coisa. Hoje, meu maior sonho é a gente ter uma casa própria mesmo, parar de se preocupar com isso de pagar aluguel, não saber se tá ok morar, se vai ter casa, enfim, problemas da casa que a gente não consegue resolver, essas coisas, e ter um lugar, por mais que seja uma dívida. Meu maior sonho é esse, ter uma casa.
01:22:49
P1 - E o que é importante pra você hoje?
R - Isso. Batalhar pra isso. Tipo, pra gente ter a nossa família bem, numa casa nossa. Eu tô muito no hiperfoco disso. É muito forte. Eu tô há anos pensando nisso, assim. Mas, assim, pra falar a verdade, o que é mais importante pra mim hoje é o nosso bem-estar, assim, que a gente esteja com saúde. Eu, a minha família, o Victor, o Deja, principalmente. Depois que ele ficou doente, eu fiz promessa pro São Francisco de Assis, eu acendo vela duas vezes por semana, pela saúde dele. Então, pra mim, eu falo, “a nossa saúde é o mais importante”, porque eu fui pensando, cara, tipo, isso é o mais importante, que isso a gente não consegue resolver, né? É muito louco. Por mais que a gente tente, assim, tem coisas que a gente não consegue. Então, é ter a nossa casa e a gente ter a nossa saúde, assim, é a coisa mais importante pra mim hoje.
01:23:45
P1 - E qual é a importância do Déjà na sua vida?
R - Toda. Ele é a minha vida, eu acho. É muito louco, eu acho que eu tenho uma dependência emocional que precisa ser tratada, com certeza. Porque ele é realmente a minha prioridade total. Eu falo... Quando o Victor fala, a gente fica falando: “Eu te amo mais que tudo, só não mais que o Déjà Vu”. Ele sabe que a minha maior prioridade é ele. A gente estava vendo um reality show, uma vez que era de casal, ele falava: “O que que você pensa quando você pensa em casa?”. Aí a gente ficava brincando de responder. Eu falava: “O que que eu penso?”. Ele fala: “Deja Vu. Minha casa eu deixo, minha vida é ele. Ele é tudo pra mim, eu sou completamente apaixonada por ele”. E eu falo: “Vou viver... Enquanto ele estiver vivo, eu vou fazer tudo pra ele ser feliz e pra ele ficar bem”. E aí, se eu não conseguir viajar, se eu não conseguir fazer minhas coisas, eu não ligo. Porque depois eu ainda vou ter minha vida, mas ele só tem essa vidinha dele. Então, ele é a coisa mais importante, a “pessoa”, ele é tudo mais importante pra mim. Sempre vou fazer tudo pensando primeiro nele, primeiro no bem-estar dele. Então, eu só tomo as minhas decisões pensando nele.
01:25:03
P1 - Raíssa, tem alguma coisa que eu não tenha te perguntado que você queria contar?
R - Acho que não. Não consigo pensar em nada, a gente falou tanta coisa, né, fora também. Mas eu acho que é isso.
01:25:17
P1 - Tem alguma mensagem que você queira deixar?
R - Ah, eu acho que isso de se aparecer um bichinho na sua vida é porque é pra você. Abre a porta e cuida que é teu, porque eu sinto que eles aparecem mesmo pra gente. Eu sei que tem vários precisando e, se a gente já não atrapalhar, tá bom. Se ninguém fizer mal pra eles, já tá bom. Mas eu sinto que eles aparecem pra gente. Então, se aparecer pra você, acolha, porque realmente muda a vida. Acho que cada um tem uma relação diferente. Eu tenho uma relação muito intensa e talvez até desmedida. Mas eu acho que muda a vida, ajuda muito. E se ele foi mandado pra você é porque tem alguma coisa ali, sabe? Que eu acho que tem pra aprender. E é isso.
01:26:06
P1 - E como foi contar um pouco da sua história, da história do Deja hoje pro Museu da Pessoa?
R - Foi muito bom. Eu pensei e lembrei de várias coisas que eu nem lembrava, que a gente não pensa tanto. Acho que a minha história com o Déjà eu penso todos os dias, assim. Eu gosto de contar pra ele até a história de como eu achei ele e tal. Mas, assim, da minha vida inteira tem muita coisa que eu nem lembrava. Mas eu gosto, eu gosto de contar a minha história. Acho que eu sempre... Sempre tive vontade até de contar. Acho legal. Eu gosto muito de cinema, então eu fiquei pensando muito antes de vocês virem e tal, que a gente tinha marcado. Fiquei pensando, é tipo participar de um filme do Coutinho. Contar a sua vida, assim, né? Tipo... É tipo isso, né? Contar, conversar com alguém. É tipo participar de um filme do Coutinho. Então, é meio que um sonho, assim. É legal. Eu gostei muito.
01:26:58
P1 - Então, em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, do Natan, do Ale, eu agradeço muito. E muito obrigada por contar um pouco dessa história hoje pra gente.
R - Obrigada vocês por escutarem.
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