23/11/2021

A arte de vencer

Personagem: Livaldo Lopes da CruzAutor: Museu da Pessoa

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Passagens da minha vida

personagem: Lúcia Carrer
historia: As verdureirasEra, como tantas outras, uma típica madrugada fria. Ainda estava totalmente escuro quando o silêncio foi abruptamente quebrado pelo tilintar de arreios e correias sendo jogados sobre os cavalos. Esse ato parecia produzir nos animais uma inquietação incontrolável, passavam a bufar e bater insistentemente com os cascos no chão de terra batida como se fosse um pré-aquecimento para enfrentar a dura jornada de puxar uma carroça carregada de pão e leite. Esses sons peculiares eram provenientes de uma cocheira situada quase em frente à minha casa. Nós levávamos uma vida extremamente humilde, nem relógio possuíamos, portanto minha mãe acordava com os sons dessa cocheira sabendo que eram 4:00 horas – hora de levantar. Antes de nos acordar ela começava a preparar o café – o que não era uma tarefa fácil. O seu fogão era uma lata de 18 litros com serragem (essa serragem ela buscava numa serraria muito distante), acendia o fogo e aquecia a água. Estávamos vivendo a década de 20 (eu tenho agora 88 anos) e o bairro é a Vila Ipojuca – São Paulo – SP (ainda moro na mesma casa). As poucas ruas que existiam naquela época eram todas de terra com algumas poucas casinhas perdidas entre morros, riachos, campos e capinzais. O nosso poço não produzia água potável, servia apenas para regar a horta, lavar roupa e louça. Água para beber buscávamos numa bica que existia no fim do que é hoje a Rua Mota Paes. Ao clarear o dia, o suficiente para enxergar, meu pai descia para a horta e enchia duas cestas com verduras para que eu e minha irmã saíssemos para vender, eu tinha 7 e ela 10 anos. Nossa freguesia ia desde a V. Ipojuca até a Lapa servíamos famílias que acabaram ficando conhecidas na região ( Rivette, Corazza, Weigand, etc) Enfim o dia efetivamente surgia frio e com muita neblina – comum naquela época – e eu e minha irmã saíamos com duas cestas enormes, descalças, com um ralo e batido vestidinho cada uma e nas veias um sangue esquentado por Deus.A EscolaAo chegar a idade apropriada, disseram que nós deveríamos ir para a escola. No dia marcado lá estávamos nós diante de um enorme casarão, talvez o maior que eu já tivesse visto até então (esse prédio centenário está preservado – é hoje Escola Estadual Anhagüera, na Lapa, Rua Antonio Raposo). Logo na entrada, tinham duas opções de aceio, uma era uma trave de ferro para tirar o barro do sapato e a outra era uma bacia com água para os descalços lavarem os pés, eu e minha irmã Ana, como nunca tínhamos tido sapatos, fomos logo enfiando o pé na água. Hoje as crianças pré-escolares são bombardeadas de informações por todos os lados, mas naquele tempo, eu nunca poderia imaginar o que era uma escola, tudo era muito assustador para mim – o torpe de centenas de crianças juntas, o tom de voz das professoras gritando pelos nomes e puxando as crianças pelo braço para colocá-las na fila em posição certa. As gigantescas portas e janelas do casarão pareciam engolir filas e mais filas de crianças – entre elas vi a Ana desaparecer me deixando abandonada, prisioneira de uma outra fila, proibida de sair. Finalmente quando a minha fila entrou, tive um certo alívio, pensando que fosse encontrar minha irmã, tal foi minha decepção quando descobri que lá dentro era um labirinto com muitas outras portas a engolir mais filas. Entrando na minha classe vi que a Ana também não estava ali. Adquiri um certo pânico da escola que levei alguns meses para me libertar. Ao me acostumar, fui uma aluna bastante aplicada, apesar da constante falta de material, meus pais não tinham como comprar.Revolução, senzala e tecelagemCheguei ao quarto ano Isso era uma exceção naquele tempo para uma criança tão pobre, a maioria abandonava os estudos logo que conseguisse ler Porém ao voltar das férias de julho, me deparei com as crianças todas paradas em frente à escola, olhando para dentro. O portão estava fechado. No lugar do bedel, tinha agora dois soldados. O pátio, onde as crianças brincavam no recreio, havia soldados em formação com fuzis nas costas, ao lado de assustadores canhões. A escola agora não servia mais à educação, era quartel das tropas da revolução de 1932. Esta seria a última vez que eu olharia para a escola na condição de aluna. As crianças ficariam meses sem aula, e eu, dias depois, já estava trabalhando na Fiação e Tecelagem Odete, conhecida na Lapa como a fábrica dos “Turcos” (Rua Clélia esquina com Monteiro de Melo). Trezentas e quarenta e oito horas, esse é um dos números que me lembro de ter feito em um mês Uma criança com doze anos trabalhando de turma a doze horas por dia, sem folga semanal, sem férias e muito menos 13º, durante anos a fio. Era pura escravidão Eu não tinha nenhum descanso nem diversão era de casa-ao-serviço e vice versa, ou melhor da senzala-a-tecelagem e vice versa Esperaríamos ainda mais de dez anos para fosse sancionada a lei que dava direitos ao trabalhador – a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho de 1º de maio de 1943). Porém o tempo passou, e ainda estou aqui contando as minhas histórias. Tenho hoje quatro filhos, nove netos, cinco bisnetos e outro a caminho.Histórias vividas e contadas por Lúcia Carrer Redação de Roberto Cetra

período: Ano 2008
imagem de: Lúcia Carrer
tipo: Fotografia

Young Dirty

historia: Eu que fiz

período: Ano 2008
imagem de: Israel Mário Lopes
história: De onde eu vim.
tipo: Ilustração