O Suficiente
O mundo em 1984 não era um lugar calmo. Havia tensões políticas, mudanças no ar, promessas de futuro que ninguém sabia se iam se cumprir. No Brasil, as ruas começavam a se encher de vozes pedindo eleições diretas, depois de anos de silêncio imposto. Era um país em suspensão, entre o medo e a esperança.
Mas, em Belém do Pará, numa manhã quente de agosto, por volta das dez horas, eu nasci.
No Hospital Maternidade do Povo.
Minha mãe conta que eu era um bebê tão bonito, mas tão bonito, que o médico, meio sério, meio rindo, pediu para ficar comigo. Ela não deu. Ainda bem.
Curioso é que, meses antes, tinham dito que eu seria um menino. Não sei como, não sei com que tecnologia improvisada da época, mas disseram. Meu enxoval inteiro era azul. Eu cheguei contrariando até as expectativas mais simples. Talvez esse tenha sido o primeiro sinal.
Enquanto o mundo discutia política, economia e o rumo das coisas grandes, dentro da minha casa a realidade era outra: sobreviver. Meus pais eram muito jovens. Muito pobres. Meu pai, faxineiro no aeroporto de Belém. Minha mãe, dona de casa. Antes de eu nascer, eles passaram fome de verdade. Daquelas que não são metáfora.
Eu nunca passei fome nesse sentido mais duro, e isso já diz muito. Porque, de alguma forma, as coisas começaram a melhorar quando eu cheguei. Não melhorar como nos filmes. Melhorar no nível de “agora dá para comer”. Mas era pouco. Muito pouco.
Nossa comida era o que dava: mortadela, sardinha, conserva, charque, que naquela época era comida de quem não tinha escolha, e o chibé, água com farinha, para enganar o estômago quando precisava.
Não era uma infância bonita no sentido tradicional. Mas também não era vazia.
Eu não lembro da primeira casa para onde fui levada depois de nascer. Minha mãe diz que era assombrada. A primeira casa que eu reconheço como lar veio depois, construída sobre uma vala. Minha mãe conta, rindo hoje,...
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O Suficiente
O mundo em 1984 não era um lugar calmo. Havia tensões políticas, mudanças no ar, promessas de futuro que ninguém sabia se iam se cumprir. No Brasil, as ruas começavam a se encher de vozes pedindo eleições diretas, depois de anos de silêncio imposto. Era um país em suspensão, entre o medo e a esperança.
Mas, em Belém do Pará, numa manhã quente de agosto, por volta das dez horas, eu nasci.
No Hospital Maternidade do Povo.
Minha mãe conta que eu era um bebê tão bonito, mas tão bonito, que o médico, meio sério, meio rindo, pediu para ficar comigo. Ela não deu. Ainda bem.
Curioso é que, meses antes, tinham dito que eu seria um menino. Não sei como, não sei com que tecnologia improvisada da época, mas disseram. Meu enxoval inteiro era azul. Eu cheguei contrariando até as expectativas mais simples. Talvez esse tenha sido o primeiro sinal.
Enquanto o mundo discutia política, economia e o rumo das coisas grandes, dentro da minha casa a realidade era outra: sobreviver. Meus pais eram muito jovens. Muito pobres. Meu pai, faxineiro no aeroporto de Belém. Minha mãe, dona de casa. Antes de eu nascer, eles passaram fome de verdade. Daquelas que não são metáfora.
Eu nunca passei fome nesse sentido mais duro, e isso já diz muito. Porque, de alguma forma, as coisas começaram a melhorar quando eu cheguei. Não melhorar como nos filmes. Melhorar no nível de “agora dá para comer”. Mas era pouco. Muito pouco.
Nossa comida era o que dava: mortadela, sardinha, conserva, charque, que naquela época era comida de quem não tinha escolha, e o chibé, água com farinha, para enganar o estômago quando precisava.
Não era uma infância bonita no sentido tradicional. Mas também não era vazia.
Eu não lembro da primeira casa para onde fui levada depois de nascer. Minha mãe diz que era assombrada. A primeira casa que eu reconheço como lar veio depois, construída sobre uma vala. Minha mãe conta, rindo hoje, mas sabendo do perigo que era, que me arrumava toda e eu caía naquela água suja. Minha tia perdeu uma filha assim. Era o tipo de lugar onde a vida acontecia por um fio. Casas erguidas sobre canais, sobre pontes improvisadas. Eu vivi ali. E eu lembro.
A gente vivia muito dentro de casa. Não era seguro lá fora. Mas dentro, meus pais faziam o possível, e às vezes o impossível.
Enquanto isso, o Brasil tentava se reorganizar depois de anos difíceis. A economia era instável, a inflação comia o pouco que as famílias tinham, e a desigualdade era parte do cotidiano. No mundo, a Guerra Fria mantinha tudo dividido, como se o planeta estivesse sempre prestes a quebrar.
Mas dentro da nossa casa… havia outra coisa.
Meu pai saía todos os dias para trabalhar. Às vezes, não tinha dinheiro nem para o ônibus. Eu entendo hoje o peso disso. Na época, era só o jeito que as coisas eram.
Depois, ele conseguiu algo melhor: foi trabalhar no despacho de bagagens no aeroporto. E aí a vida fez uma dessas curvas silenciosas que mudam tudo sem fazer barulho.
O que as pessoas mais esquecem em aeroportos?
Livros.
Entre malas perdidas e objetos deixados para trás, havia histórias abandonadas. E essas histórias encontraram caminho até a nossa casa.
Crescemos pobres, em um bairro perigoso, sem liberdade para a rua, mas cercadas de histórias.
E não só isso.
Meu pai tinha uma vitrola. E discos. Muitos discos.
Eu lembro de acordar aos domingos com a casa cheia de música. Roberto Carlos, Brega que hoje chamamos de "marcantes", Beatles, Elvis, Renato e Seus Blue Caps… músicas que atravessavam as paredes simples e faziam o mundo parecer maior do que ele era.
Sem saber, meu pai me ensinou a amar o rock. Era nas manhãs de domingo, entre discos girando e uma casa simples ainda meio sonolenta, que aquilo foi entrando em mim. O rockabilly, em especial, fazia meu sangue dançar de um jeito que eu ainda não entendia, mas sentia. Havia liberdade ali, havia movimento, havia alguma coisa indomável que escapava das paredes da casa e me levava para outro lugar. Talvez eu ainda não soubesse, mas já estava sendo moldada, no som, no ritmo, naquilo que não se explica, só se carrega.
Talvez tenha sido ali que tudo começou de verdade.
Enquanto lá fora tocavam músicas que marcariam uma geração, George Michael com “Careless Whisper”, Madonna e seu inesquecível “Like a Virgin”, Queen com o genial “Radio Ga Ga”, dentro da minha casa, o som já tinha encontrado um caminho. No Brasil, a música também mudava de tom. Era o começo de uma nova geração: Legião Urbana começava a ganhar espaço; Paralamas do Sucesso surgia com força e;
Barão Vermelho ainda ecoava nas rádios.
Eu aprendi a ler aos quatro anos.
Enquanto o mundo lá fora era limitado, o mundo dentro da minha cabeça não tinha fronteiras. A imaginação virou território. Os livros viraram passagem. Outras crianças tinham rua. Eu tinha páginas.
E, de algum jeito, aquilo não foi falta. Foi fundação.
Enquanto isso, o cinema contava outras histórias, algumas que talvez eu só conheceria anos depois, mas que já existiam quando eu cheguei: “The Terminator” mostrava um futuro dominado por máquinas, “Amadeus” falava de genialidade e excesso e
“Ghostbusters” trazia humor em meio ao absurdo. O mundo inventava futuros.
Eu, sem saber, inventava o meu.
Hoje, olhando para trás, parece improvável.
A filha de um faxineiro e de uma dona de casa, que cresceu comendo o que dava, em um lugar onde não se podia sair, virou professora universitária.
Minha irmã, que veio antes de mim, sem planejamento, mas nunca sem importância, se tornou uma das melhores bibliotecárias da cidade.
Duas meninas criadas entre livros esquecidos… fizeram da leitura o centro das próprias vidas.
O mundo continua barulhento, cheio de desigualdades, acasos e caminhos tortos. Mas eu aprendi cedo uma coisa que não se desaprende:
Às vezes, o que falta de um lado… aparece de outro jeito.
No nosso caso, apareceu em forma de páginas esquecidas, discos tocando aos domingos e dois pais que, mesmo com tão pouco, nunca deixaram faltar o essencial.
E foi suficiente para mudar tudo.
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