Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Maria Roquelina Leitão
Entrevistado por Eliane Santos e Ana Maria Bonjour
Madre de Deus 07/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB575
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde. Gostaria de começar essa entrevista pedindo que a senhora nos fornecesse o seu nome completo, data e local de nascimento.
R – Maria Roquelina Grave Leitão, nasci em Madre de Deus, Salvador, Bahia, no dia 15 de julho de 61.
P/1 – Roquelina, você pode contar para a gente um pouquinho como que foi o seu ingresso na Petrobras?
R – Eu tinha um sonho, né, porque meu pai ele foi funcionário da Petrobras e quando ele entrou aqui em Madre de Deus, uma cidade... uma ilha, e a Petrobras, quando ela chegou aqui, ela foi de casa em casa chamando as pessoas. O meu pai era pescador e ele foi chamado dentro da casa dele para ele vir trabalhar e ele veio trabalhar como cozinheiro. Quando ele entrou aqui, na Empresa, ele veio como cozinheiro... Eu lembro que naquela época, a Petrobras, ela fornecia ticket alimentação, ticket de gás e como ele era cozinheiro, ele sempre levava o ticket para a gente ter direito ao botijão de gás. E meu pai se aposentou como vigilante. Na época, a Petrobras já não tinha mais a cozinha, passou a ser terceirizado e meu pai precisou fazer um concurso para vigilante. E aí ele trabalhou como segurança interna e hoje, atualmente, é aposentado com 20 anos de aposentadoria da Petrobras, graças a Deus. Eu louvo a Deus por essa grande Empresa que ele é, que eu sou e que o meu marido também.
P/1 – Que beleza!
R – Espero que meus filhos.(risos)
P/1 – E a senhora pode contar para a gente quando foi que a senhora entrou, como que foi esse ingresso?
R – Eu, na verdade, aqui em Madre de Deus não tinha o serviço de posto médico, né, que a Petrobras era responsável por isso. E eu por trabalhar, por eu viver um tempo muito na igreja, o padre daqui, Frei Godofredo, ele...
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Depoimento de Maria Roquelina Leitão
Entrevistado por Eliane Santos e Ana Maria Bonjour
Madre de Deus 07/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB575
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde. Gostaria de começar essa entrevista pedindo que a senhora nos fornecesse o seu nome completo, data e local de nascimento.
R – Maria Roquelina Grave Leitão, nasci em Madre de Deus, Salvador, Bahia, no dia 15 de julho de 61.
P/1 – Roquelina, você pode contar para a gente um pouquinho como que foi o seu ingresso na Petrobras?
R – Eu tinha um sonho, né, porque meu pai ele foi funcionário da Petrobras e quando ele entrou aqui em Madre de Deus, uma cidade... uma ilha, e a Petrobras, quando ela chegou aqui, ela foi de casa em casa chamando as pessoas. O meu pai era pescador e ele foi chamado dentro da casa dele para ele vir trabalhar e ele veio trabalhar como cozinheiro. Quando ele entrou aqui, na Empresa, ele veio como cozinheiro... Eu lembro que naquela época, a Petrobras, ela fornecia ticket alimentação, ticket de gás e como ele era cozinheiro, ele sempre levava o ticket para a gente ter direito ao botijão de gás. E meu pai se aposentou como vigilante. Na época, a Petrobras já não tinha mais a cozinha, passou a ser terceirizado e meu pai precisou fazer um concurso para vigilante. E aí ele trabalhou como segurança interna e hoje, atualmente, é aposentado com 20 anos de aposentadoria da Petrobras, graças a Deus. Eu louvo a Deus por essa grande Empresa que ele é, que eu sou e que o meu marido também.
P/1 – Que beleza!
R – Espero que meus filhos.(risos)
P/1 – E a senhora pode contar para a gente quando foi que a senhora entrou, como que foi esse ingresso?
R – Eu, na verdade, aqui em Madre de Deus não tinha o serviço de posto médico, né, que a Petrobras era responsável por isso. E eu por trabalhar, por eu viver um tempo muito na igreja, o padre daqui, Frei Godofredo, ele teve muito acesso a assistente social da Petrobras, que naquela época era a Dona Líbia Vasconcelos. E Dona Líbia, ela pediu ao padre que o centro comunitário fosse um local onde ficasse para atender as pessoas como posto de vacinação e eu conheci essa assistente social da Petrobras e nesse conhecer, eu falei com ela o seguinte: “que quando houvesse uma oportunidade aqui em termos de estágio, qualquer coisa, eu queria estagiar aqui.”, porque era muito difícil, eu não tinha meu pai, trabalhava na cozinha, mas ele não tinha condição de trazer isso e o padre, Frei Godofredo, foi uma pessoa que me ajudou muito em pedir para eu estagiar aqui. E aí ela deu documentação para estagiar e a partir daí, quando eu entrei aqui para estagiar eu... precisou de ter pessoas para ser contratadas, por eu já estar aqui eu fui contratada e aí surgiu um concurso, que foi feito na Jequitaia na época, em 83, né, eu já estando aqui, dentro da empresa, foi fácil porque aí, aqui mesmo eu consegui fazer a inscrição e fui e fiz o concurso e louvado seja Deus por ter passado.
P/2 – Fez estágio em que?
R – Eu estagiei aqui na parte administrativa, né, eu fiquei trabalhando... eu fiquei trabalhando aqui no (Setre?) como auxiliar de escritório.
P/1 – Eu ia até perguntar; a senhora pode contar para a gente os locais que a senhora trabalhou, o seu local de trabalho como que é?
R – Quando eu entrei aqui, na empresa, o meu primeiro local que eu vim trabalhar foi aqui no (Setre?), na parte de treinamento e eu lembro que que tinha um chefe que eu conheci, Jurandir e que na época, a manutenção, ela tinha uma seção dentro do setor da manutenção e estava sendo desmembrado, ia surgir um outro setor. E aí, por surgir esse setor, precisou de uma secretária para ir para o setor do Seplan e aí eu saí do (Setre?) fui ser secretária do Seplan, que era um setor de planejamento dentro da manutenção. Mas, tirei férias, né, em outros locais. Na superintendência, no posto médico, trabalhei muito tempo no setor de apoio com refeitório, transporte, trabalhei muito tempo na parte portuária e atualmente trabalho na parte operacional.
P/1 – E como que é esse seu trabalho na parte operacional?
R – Eu trabalho com a parte de controle de sub-estadia de navios, atualização de todas as entradas de navios dentro do terminal para colocação de... atracação de navios, operação do navio, o período que ele tem que estar aqui do terminal, de 24 horas e a parte técnica e a parte administrativa também, do setor operacional.
P/1 – Roquelina, você poderia falar como que foi quando você entrou aqui, como que era a aceitação das mulheres, se tinha alguma diferença, se nota alguma coisa em relação a hoje?
R – Ah, existe, porque na época... existia, quando eu cheguei aqui já existiam mulheres, mas já estavam... não sei se é porque eu era mais nova na época, né, as pessoas... aquela coisa de estar observando, né, de estar falando, mas não tinha tanta dificuldade por ser mulher no meio, a dificuldade foi por eu ir para a manutenção, porque eu acabei sendo a primeira secretária mulher no setor de manutenção.
P/1 – E como foi isso?
R – Ah, logo quando eu cheguei, né, eu casei e aí eu engravidei. E aí aquela preocupação, toda hora os colegas: “Não pode estar sentindo nada. Se você tiver sentindo alguma coisa você tem que dizer. Olhe...”. E aí, os colegas traziam toda hora água e ficava sempre; um banquinho, eu lembro que tinha um banquinho para botar as pernas para poder a perna não ficar inchada, né, aquela coisa toda. Era uma preocupação muito boa que os colegas sempre tiveram e tem com a gente, aqui.
P/1 – Que bacana! E nesse tempo, Roquelina, você pode contar para a gente alguma história marcante, engraçada que você recorde, que tenha vivido aqui, na Petrobras?
R – História engraçada nós tivemos muitas, né, eu lembro que a chefia, na época, criou uma comissão e aí nós resolvemos fazer um Natal. E nesse Natal, nós fomos Papai Noel, nós subimos em cima de um caminhão de incêndio e saímos distribuindo presente por toda a área. Existia uma coisa chamada na manutenção... eu queria fazer uma ressalva a questão, quando eu falei de eu ser a primeira mulher na manutenção, existia uma colega também, Vandete, da manutenção, mas ela trabalhava aqui, na parte administrativa, Eu fui a primeira a descer para a área operacional, no meio dos homens. Existia uma coisa chamada (cocho?) interessante aqui dentro, que era o quê: toda segunda-feira os colegas traziam... existia um cocho mesmo de borracha e ali, toda segunda-feira os colegas traziam feijão, arroz, carne, tudo quanto era tipo de comida e ali jogava dentro daquele cocho e de manhã cedo todo mundo tinha que chegar naquele local e comer de mão mesmo. Então, era uma coisa assim interessante, era uma coisa que ficou marcada, né, para a gente aqui, porque isso acabou, mas era uma maneira de fazer uma confraternização com todas as pessoas que gostava.
P/2 – Isso na manutenção?
R –Na manutenção. Uma coisa marcante para mim, que isso aí eu ainda era muito criança e foi uma coisa assim, ficou muito marcada muito na minha vida, foi uma questão de um incêndio que teve aqui. Eu tinha seis anos na época, nem sonhava trabalhar na Petrobras, meu pai já trabalhava na Petrobras, mas foi um incêndio que teve aí no porto, no Mirim e foi com o navio Quererá. E eu estava estudando no colégio, né, com 6 anos, quando, aqui dentro de Madre de Deus, quando nós tomamos um susto com a explosão. E de uma hora para outra todo o céu ficou todo escuro e eu lembro que eu fiquei desesperada e saí, não tinha para onde ir, saí correndo por dentro de Madre de Deus, não via ninguém porque todo mundo desesperado... é uma coisa horrível na época, né?, Eu lembro que cheguei na pista e a própria Petrobras, um ônibus, eu lembro um segurança que trabalhava; eu lembro assim, bem a fisionomia dele, era um senhor bem branquinho, tinha os cabelos bem grisalhos. E aí ele me pegou e disse: “Minha filha, não chore não, eu vou levar você para um lugar bom.” E eu acabei indo sozinha para a refinaria. Isso foi pela manhã, meus pais não sabiam onde eu estava, ninguém sabia do local, mas depois, por o meu pai trabalhar aqui foi fácil ser localizado, né, aí eu consegui vir para casa. Mais isso foi uma coisa que me marcou muito, até hoje. Eu dentro da Empresa eu fico muito assustada quando eu escuto qualquer barulho, tenho medo mesmo. Porque isso acabou me marcando e foi uma situação ruim. Lembro também, uma situação boa, por meu pai trabalhar na Empresa, a gente todo final de ano tinha uma confraternização e eu lembro da minha primeira boneca que eu ganhei, que foi a Petrobras que deu, né?
P/2 –No Natal?
R – No Natal. Ela fazia aquela confraternização com os filhos e eu lembro a minha primeira boneca que eu tive, que eu botei o nome dela de Ruth, né, e foi a Petrobras que me deu. O meu irmão teve um velocípede na época. Então existem muitas coisas boas e existe essa coisa ruim que foi uma coisa marcante na minha vida. Realmente foi e até hoje tenho muito medo quando eu vejo qualquer coisa, qualquer incêndio, qualquer coisa eu entro em pânico, porque isso ficou muito registrado. Na época eu perdi três primos; com o susto que teve minha tia num dia saiu dois caixões, né, o susto mesmo porque já estavam doentes também, mais a situação na época, dois dias depois morreu mais um primo meu. Então foi uma coisa assim, muito forte na minha vida, que ficou.
P/2 – Seus pais estavam...
R – Não sei, na época. No dia do incêndio eu estava no colégio, acabou todo mundo saindo, eu voltei para minha casa, porque o próprio segurança da Petrobras, na época, me trouxe, né. Eu disse aonde eu morava. Mas realmente, não vi ninguém, não sabia, porque foi uma coisa assim, muito...
P/1 – Muito nova também, né?
R – É, seis anos na época eu tinha seis anos. Mas, estou aqui dentro desta grande Empresa que eu nunca imagina de estar.
P/1 – Roquelina, a senhora é sindicalizada?
R – Sou.
P/1 – Já ocupou alguma cargo?
R – Sindicalizada... dentro do sindicato não.
P/1 – E a senhora lembra alguma história marcante que tenha sido vivida pelo sindicato, ou que a senhora tenha participado?
R – Lembro uma greve; meu Deus, eu não lembro a data, mas foi a greve que levou mais tempo dentro da empresa, que levou mais de 30 dias, que eu ficava desesperada porque no meu setor pessoas estavam... começou a fazer a greve, depois entraram, né, e eu acabei ficando sozinha do setor, fora. E eu comecei a ficar com medo, aquela questão de ser retaliada, né, de promoção, eu fui penalizada muito tempo, levei muito tempo sem receber nível, sem receber nada devido greve, né? Por eu dizer a um chefe... posso falar isso aqui? Não?
P/1 – Fica a vontade.
P/2 – Pode falar o que você quiser.
R – É, por eu dizer que eu tinha que fazer greve porque eu estava brigando por mim e por ele. E, por isso eu sei que eu acabei sendo penalizada nessa situação, porque eu acho que na época eu não fiz a greve só para mim, eu fiz para todos, né? Acabei não ficando o tempo todo na greve porque as pessoas entraram e eu fui aconselhada pelos próprios colegas a retornar, né, devido à situação como ia ser e por isso eu paguei muito tempo, sem promoção, sem nível, sem nada.
P/2 – Por causa da greve?
R –É. Mas tive chefes bons que me ajudou, tive muitos chefes bons, mas devido a isso eu passei um tempinho... mas não me arrependo.(riso)
P/2 – Não, né?(riso)
P/1 – Roquelina, você tem alguma outra história marcante que você se recorde e queira contar para a gente?
P/2 – Ou que o seu pai tenha contado?
R – Não, o que meu pai falou era a questão da própria... ah, eu lembro uma coisa que; eu não era nem da empresa, mas eu sempre fui uma pessoa de igreja e toda a Páscoa se fazia a confraternização aqui, dos empregados daqui, da Petrobras. E a Petrobras, o local de trabalho não era aqui, era no Mirim, era chamado “apoio”, era sempre Temadre, mas era o antigo “apoio”. E nós íamos; era convidado o padre, né, para a celebração da missa e eu ficava preocupada porque eu queria sempre ir só por causa do lanche. Eu queria... não vou mentir, eu, todas as vezes quando tinha eu dizia: “Ói, Frei Godofredo, eu quero ir para ajudar.”, “- Então, tá.”, mas nada, era na verdade porque que era muita comida, era muita coisa que tinha e eu ficava mais preocupada em ir mais para comer do que cantar ou fazer qualquer coisa (riso). Então, aqui ali foi uma coisa interessante que ficou, porque eu só queria ir comer, não vou mentir. E veio a instalação, que eu achava uma coisa assim, maravilhosa quando eu entrava e via aquelas pessoas tudo sentada, né, com telefone, né, porque aqui, em Madre de Deus, não tinha telefone e as pessoas com o telefone; eu achava assim, muito, uma coisa muito forte para mim, sabe? Depois eu nunca ia imaginar, meu Deus, que eu ia estar trabalhando nela, meu pai trabalhou, meus tios; tenho quatro tios que trabalharam aqui e meu marido, atualmente, também trabalha, né, e espero que meus filhos também venham trabalhar né? (riso)
P/1 – Roquelina, o que que a senhora achou de ter participado dessa entrevista, contribuindo com o projeto Memória Petrobras?
R – É muito interessante, muito importante, porque a gente vê que tem muitas pessoas que tem muita coisa que viveu dentro dessa unidade; dentro dessa unidade não, dentro da unidade da Petrobras e que tem muita história para se contar. Histórias boas, mas também histórias ruins. E que tudo isso a gente tira sempre uma lição de vida, né, é sempre uma lição de vida e que eu digo que “aonde eu estou eu visto a camisa da Petrobras”, eu visto; porque ela para mim é o meu sustento, é o meu dia-a-dia de tudo e ela tudo na minha vida. Eu digo tudo, porque é onde eu estou sendo reconhecida, é aonde eu vejo que meus filhos têm uma importância muito grande na minha vida também devido a eu ter esse trabalho e também por ser a maior empresa no mundo para mim.(riso)
P/1 – Eu gostaria de agradecer a sua entrevista, muito obrigada, Roquelina.
P/2- Tá ótimo e é só, né?
(Fim da fita Mpet/TMadre 002)
(Setre?)
(cocho?)
(Querera?)
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