Programa Conte Sua História 2024
Entrevista de Fátima Ribeiro
Entrevistada por Luiza Gallo
Linhares (ES) /São Paulo (SP), 23/05/2024
Entrevista n.º: PCSH_HV1398
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Transcriptor
Revisada por Bruna Oliveira
P/1 – Fátima, vamos lá. Primeiro, quero te agradecer demais por estar aqui com a gente, por ter separado esse tempinho para conversar e contar um pouco dessa história. E para começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R – Eu sou Maria de Fátima Miguel Ribeiro, estou em Linhares, Espírito Santo, no dia 23 de maio de 2024 e minha data de nascimento é 18 de março de 1966.
P/1 – E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R – O dia do meu nascimento, me contaram, minha mãe sempre fala que eu nasci às dez horas da manhã. Nada, assim, anormal.
P/1 – E foi no hospital?
R – Não, foi em casa. Às vezes, está errado, não sei. Mas nós somos em dezenove irmãos. Apenas, eu acho, três, dois irmãos que nasceram no hospital. Os demais sempre foram em casa, na roça.
P/1 – E com a mesma parteira?
R – Sim. Não, esse detalhe aí eu nunca perguntei, se foi a mesma, se foram outras. Mas, provavelmente, deve ter sido a mesma.
P/1 – E dessa escadinha dos irmãos, você está em que posição?
R – Na décima primeira (risos). Sou a décima primeira do time.
P/1 – E como é a sua relação com eles? Tem alguém que você é mais próxima?
R – Na verdade, aqui em casa, quase todo mundo se relaciona, vamos colocar, igual. Porque depois que [nós] crescemos, todo mundo se junta nas épocas de feriado, especialmente, no Natal. Mas como era escadinha, geralmente, os mais velhos cuidavam dos menores e quem cuidava de mim era minha irmã, Zenilda. Ela conta que de onde a gente morava, para ir pra escola, devia dar o quê? Uns oito, nove quilômetros. Aí eu ficava esperando, bem ansiosa, a hora que ela chegasse pra eu ir...
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Entrevista de Fátima Ribeiro
Entrevistada por Luiza Gallo
Linhares (ES) /São Paulo (SP), 23/05/2024
Entrevista n.º: PCSH_HV1398
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Transcriptor
Revisada por Bruna Oliveira
P/1 – Fátima, vamos lá. Primeiro, quero te agradecer demais por estar aqui com a gente, por ter separado esse tempinho para conversar e contar um pouco dessa história. E para começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R – Eu sou Maria de Fátima Miguel Ribeiro, estou em Linhares, Espírito Santo, no dia 23 de maio de 2024 e minha data de nascimento é 18 de março de 1966.
P/1 – E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R – O dia do meu nascimento, me contaram, minha mãe sempre fala que eu nasci às dez horas da manhã. Nada, assim, anormal.
P/1 – E foi no hospital?
R – Não, foi em casa. Às vezes, está errado, não sei. Mas nós somos em dezenove irmãos. Apenas, eu acho, três, dois irmãos que nasceram no hospital. Os demais sempre foram em casa, na roça.
P/1 – E com a mesma parteira?
R – Sim. Não, esse detalhe aí eu nunca perguntei, se foi a mesma, se foram outras. Mas, provavelmente, deve ter sido a mesma.
P/1 – E dessa escadinha dos irmãos, você está em que posição?
R – Na décima primeira (risos). Sou a décima primeira do time.
P/1 – E como é a sua relação com eles? Tem alguém que você é mais próxima?
R – Na verdade, aqui em casa, quase todo mundo se relaciona, vamos colocar, igual. Porque depois que [nós] crescemos, todo mundo se junta nas épocas de feriado, especialmente, no Natal. Mas como era escadinha, geralmente, os mais velhos cuidavam dos menores e quem cuidava de mim era minha irmã, Zenilda. Ela conta que de onde a gente morava, para ir pra escola, devia dar o quê? Uns oito, nove quilômetros. Aí eu ficava esperando, bem ansiosa, a hora que ela chegasse pra eu ir correndo no morro e ela vinha trazendo no colo, toda faceira. E essas coisinhas que elas contam. Então, ela que cuidou mais de mim, porque aí os mais velhos cuidavam dos menores. Essa minha irmã Zenilda foi a minha cuidadora, vamos colocar assim. É isso, aí temos as aproximações depois, com aqueles que mais se aproximam com as idades. E assim vai.
P/1 – E qual é o nome da sua mãe?
R – Minha mãe se chama Santa Miguel Ribeiro e meu pai, Adir Francisco Ribeiro. Minha mãe é de origem indígena, a carinha toda. Minha avó era indígena mesmo, pura. E meu pai, então, descendente de português. Bem ‘alemãozão’, grandão, forte.
P/1 – E como você descreveria eles? Do jeitinho deles, alguma história?
R – O meu pai era um agricultor, trabalhava nessa Fazenda Mosquito, mas da história deles, eles tinham terras, meus avós, os pais dele. Mas o que acontece, quando eles eram pequenininhos, meu avô faleceu e acabou que o fazendeiro para tomar conta de tudo, acabou dividindo os filhos, uns eles levaram para o Rio de Janeiro e meu pai ficou nessa fazenda, então eles trocaram o nome do meu pai, era Adir Francisco Rosa, passou a ser Adir Francisco Ribeiro. Na verdade, quando ele cresceu, não teve praticamente direito a mais nada. Então, foi um homem bastante sofrido pela violência que sofria por não ter direito a essas terras. E, assim, cresceu, sendo um homem muito rígido, rigoroso, e era dessa forma que ele buscava educar seus filhos, no rigor. Eram muitos filhos, apesar de que, naquela época, tinha muito mais facilidade, mas tudo bem ‘divididinho’. E minha mãe, uma senhorinha muito lindinha, miudinha, aquelas indígenas bem fofinhas, que sempre tentou manter esse equilíbrio: meu pai, bem rigoroso, que naquela época era, vamos colocar assim, na base da pancada, e ela tentava, fazia esse equilíbrio dentro de casa, suavizava, fazia essa forma de manter entre a dureza, mais o fraterno, a leveza e com amor. Então, esse foi o grande equilíbrio entre os dois.
Ele, por todas essas situações passadas na infância, na adolescência, trouxe pra dentro de casa esse rigor. Também, naquela época, era assim a forma da educação. E minha mãe, então, sempre a gente fala que ela é um pouquinho além, é um passo à frente do tempo, porque sempre procurou acompanhar. Então, é uma senhorinha bem esperta. Ela está hoje com 93 anos, mas ainda assim quer dar conta de todos os filhos, aonde vai, aonde não vai. Tem que dar orientação também para os netos. É muita gente pra dar conta. Eu não sei como ela consegue acompanhar tudo. Então, essa é a descrição dos dois.
Meu pai, então, faleceu em 2009, não, 2010, se eu não me engano, porque a gente retornou para dar uma contribuição para meus irmãos e minha mãe na escala, porque ele teve um problema de Alzheimer e acabou ficando dez anos acamado, então eu me senti nessa ideia, porque a gente luta tanto pela vida, né, luta tanto para organizar as pessoas a ter o mínimo de condições, então eu pedi ao Movimento para retornar para também dar a minha contribuição familiar nessa escala. Aí seis meses depois que a gente retornou, ele faleceu. Então...
P/1 – Diga, diga, desculpe.
R – Não, não, é isso aí (risos).
P/1 – Você conheceu seus avós?
R – Eu conheci a minha avó, Raulina. Era esse estilo aí que eu falei da minha mãe, ela também era desse ‘batidinho’, super animada. muito trabalhadora, eu conheci ela.
P/1 – E vocês tinham ou ainda têm algum costume familiar que foi passado de geração em geração, algum tipo de conhecimento, sabedoria, ainda mais pela sua voz indígena?
R – Olha, o que a gente pode dizer, tudo que a gente tem ainda é dessa herança, a forma como a gente vê o mundo, a nossa educação, que a gente vai repassando. E eu digo que essa minha ligação com a terra também vem deles. E o que me levou para a luta pela terra foi a partir dessa situação imposta a eles. A minha mãe também, a família também tinha terra. E foram, eu digo até que o nosso nome tem a marca da grilagem da terra. A marca da violência da terra, porque mudaram o nome pra não ter condições de ter herdado, né? Então, tudo que a gente faz, no meu ponto de vista, é a partir dessa educação, dessa forma deles lidarem com a natureza, com a vida, a forma de lidar com os filhos. A gente vai repassando isso também para os sobrinhos, a forma como meus irmãos tratam os sobrinhos, como tratam as coisas, e eu, da mesma forma, com a minha filha também, procurando estabelecer essa relação.
P/1 – E quando você era pequenininha, você gostava de ouvir histórias da família?
R – O meu pai era contador de história, contava a história do Saci-pererê, da Mula sem Cabeça e ele contava, como ele via, inclusive: “Um dia, fui à noite e me encontrei com um assobio e de repente, estava lá o Saci-pererê”. Então, todas essas histórias assim, de mula sem cabeça, ele era bastante contador e, volta e meia, a gente até fala: “Nossa, a gente teria que contar que, aliás, a recontar essas coisas para não se perder, né?” São muitas. E meus irmãos mais velhos ainda mais presentes nas histórias que ele contava. Não era invenção do contador que aprendeu em livro, mas vivenciada a partir do que trabalhavam ali na roça e do que acontecia com os cavalos... Enfim... E a minha mãe, como os pais dela têm uma origem no Sergipe, eu acho que ela herdou também, porque volta e meia a gente não faz, mas em volta e meia ela conta os ‘repentes’, ela sai com os ‘repentes’, com as coisas bacanas. Então, isso tudo vai fazendo parte dessa... Quando encontra todo mundo, essas histórias vêm à tona, todo mundo quer que conte também. Aí, em muitos momentos, vira piada, em outros momentos, fica uma forma até de unificação da família.
P/1 – E como era a casa onde você passou a sua infância?
R – Olha, uma parte foi nessa fazenda que meu pai tomava conta. Aqui, em Linhares, nós temos, somos a segunda cidade com maior número de lagoas, Rio Meira, Rio Grande do Sul, Patos e aqui é a segunda. Então, tinha a casa, ao redor da Lagoa Juparanã, que é uma das maiores que tem aqui. Às vezes, quando a lagoa subia, enchia, vinha quase perto de casa. E minha mãe, às vezes, ia pescar com minha avó, enchia o barquinho de menino, de tudo quanto é tamanho e saía, no meio da lagoa, para pescar. Então, essa foi um pouco a infância, brincando, e foi muito bom. Eu, pelo menos, não tive muita coragem de aprender a nadar, porque eles contam e eu também sinto que, toda vez, quando estava se aproximando, eu geralmente pulava do barco e eles me pegavam pela perna. São imagens assim que eles contam também, os mais leves. Com isso, eu acabei tendo um problema de aprender a nadar (risos).
E depois, então, foi aqui em Linhares, quando começou a construção daquelas habitações. Aí, então, meus pais arrumaram uma casinha pra poder facilitar a todo mundo estudar, porque os meus irmãos mais velhos andavam nove quilômetros para ir para escola, que hoje é o centro da cidade. E nós, então, viemos, mesmo que andasse pouco, depois, com essa casinha, aí praticamente a gente não andou mais. Mas a casa depois foi se estendendo, todo mundo, é muito filho, todo mundo se amontoando, mas aí depois ficou, estenderam os quartos, e outros foram se casando, cada um foi se organizando... Assim foi a nossa infância, a partir desses dois locais.
E, nesse lugarzinho, a gente brincava também bastante ao redor, porque não tinha mais, não tinha medo, era na rua, era em casa, era em tudo quanto era lugar, então, com as brincadeiras daquele tempo. A gente até fala: “Nossa, hoje em dia, o menino pode nem pegar na faca!” E no nosso tempo, a gente brincava de faca, que era jogar a faca para ver se ela ficava em pé e esse era um joguinho da época, quem conseguia acertar a faca em pé e acertar nos locais, nos buraquinhos. Então era bem interessante. Outras brincadeiras também daquele tempo, que não tinha esse perigo de lidar com essas coisas. Mas é isso.
P/1 – E vocês ouviam música, assistiam TV? Isso fazia parte do cotidiano de vocês ou não?
R – Não, não tinha TV, não tinha rádio. Era só nas brincadeiras mesmo, não tinha, naquele tempo, nem rádio, nem televisão. Acho que não lembro dessas histórias de rádio, só falamos de televisão depois de muito tempo.
P/1 – E tem alguma comida que marcou a sua infância?
R – A comida era um ‘basicão’ (risos). E a galinha era... Não, era... Meu pai tinha porco, tinha carneiro, cabrita, aliás. E quando matava boi. Aí tem a história de limpar tripa, a tripa fritinha, que era uma delícia. Então, essas coisas assim, tripa fritinha com farinha. Era a diversão, mas tudo era bem ‘divididinho’, né? Era o básico, mas não faltava nada. E, às vezes, todo mundo se juntava para limpar os animais quando matava. Eu mesma tenho umas histórias aqui, do braço que, às vezes, a gente lembra... A minha mãe me deu uma ‘facãozada’ aqui, mas assim, porque, ela cortando a cabeça, eu acho que era de um cabrito ou porco, cortando, eu acabei passando o braço para pegar uma tripa do outro lado e pá, quase que racha o meu osso, mas tudo vira, depois, diversão, essas coisas. Então, era isso: arroz, feijão e carne. Quando matava e colocava um monte de carne assim, carne que ficava no sol, né? Então, ficava bom. Essas são as imagens daqueles momentos, que foram muito bons.
P/1 – E vocês tinham divisões de tarefas na casa?
R – Não era igual a gente conhece hoje: é isso, você faz aquilo. Era tudo natural, meus irmãos mais velhos cuidavam dos menores, os mais velhos também cuidavam da casa, outros faziam algumas atividades na roça e, assim, iam. Então, tinha uma divisão, mas sem essa: “você faz isso, você faz aquilo”, era naturalmente. Meus irmãos ajudavam na roça, minhas irmãs mais velhas ia atrás de capim para vender, para ajudar na renda, que minha mãe e minhas irmãs mais velhas contam que elas faziam travesseiros ou lã para ajudar na renda, eram aqueles travesseiros que colocavam os capins dentro, naquela época. Ou para fazer esteira, era assim que você sobrevivia. Então, como eu era das menorzinhas, não fazia praticamente quase nada (risos), eu não fazia nada, eu só brincava junto com eles. Depois que a gente foi crescendo, que a gente foi criando outros hábitos para ajudar em casa.
P/1 – E que recordações você tem da escola? Contou um pouco dessa caminhada até chegar, mas teve algum professor marcante, alguma história marcante?
R – Da escola, eu lembro de duas coisas. Uma, minha mãe sempre mendigando, vamos colocar assim, pedindo, indo na escola, para a gente poder entrar sem o uniforme ou o material que ainda não tinha condições de adquirir logo no início. Ela sempre ia lá: “Não, pelo amor de Deus, não deixe meu filho sem vir à escola por causa disso.” Aí ganhava um tempo, então, era sempre assim. E da escola, o que eu trago de recordação são umas professoras bem más (risos). Hoje eu falo com mais tranquilidade, porque a gente está em outro mundo e tal, mas a professora, se a gente errasse um ‘trisquinho’, ou ela deixava a gente na frente se errasse ou ela dava aquele solavanco, batia na mão com régua dura. Então, essas foram recordações que marcaram muito a minha vida. Isso marcou porque eu acabei também tendo... Fiquei um bom tempo, não sei se a gente pode falar tímida, né? Porque essa forma de ser ruim em público, que tem que levar palmada, tem que levar essa solavanco, foi difícil. Então, depois a gente teve que estudar um pouco mais para poder se apresentar, não errar, para não levar esculacho. Foram essas as recordações.
P/1 – E você estudou na mesma escola até o final ou mudou em algum momento?
R – Não, mudou, eu inicialmente estudei numa escola, Jerônimo Monteiro. Depois, a única escola, praticamente, que tinha o Ensino Médio, aliás, Ensino Fundamental, que naquele tempo se chamava Polivalente 1, que tinha... E era bacana, pelo menos, eu gosto, tinha as técnicas comerciais, técnicas agrícolas, técnicas domésticas, então era bem bacana. Aí, depois, eu fui para o Ensino Médio, no Emir de Macedo Gomes, que era uma das únicas escolas grandes que tinham em Linhares, que a gente também estava mais próximo. Então, três escolas. Depois, parei em tempo, porque acabei priorizando a luta e é isto.
P/1 – E como você, não sei se sua família também começou a fazer parte do movimento, como você entrou na luta?
R – É que conforme eu estava te falando, como o meu pai era muito rigoroso e tudo era muito bem ‘divididinho’, eu particularmente achava que era possível mudar. O meu pai só queria homens para poder trabalhar na roça. E o meu pai deu a má sorte que veio maioria mulheres, vieram dez mulheres e, no meio do caminho, ainda perdeu quatro. E, às vezes, ele falava sério que nós tínhamos que ter o cabelo bem grandão para poder carregar lenha. Então, nesse meio, eu ficava com aquela... Poxa, precisa mudar isso, né? E é claro, minhas irmãs também, porque elas também, depois, devagarzinho, foram cortando cabelo sem ele ver, usando calça comprida, era uma guerra, saia e assim vai. E eu, então, nessas brincadeiras, ia pra igreja. Então, eu comecei a participar das Comunidades Eclesiais de Base. Aí fui para o grupo da juventude, Pastoral Social e ali eu participei da liturgia, comecei já a falar na liturgia. Então, a partir da igreja, foi-se abrindo um horizonte, que não era um problema do meu pai, da minha mãe, mas era um problema de educação, de questão social. Dali, então, eu comecei a participar do movimento sindical, já comecei a trabalhar para ajudar em casa, inicialmente, foi no comércio. E, no movimento sindical também, começou a ampliar o horizonte. Aí a partir de 1983, a gente já fazia parte também da Comissão Pastoral da Terra, timidamente, compreendendo então a luta pela terra, a partir da Bíblia, no processo de evangelização. E começou aí, todo um trabalho nesse sentido.
Em 1983, eu fui da Executiva da CUT Norte II - Espírito Santo e nós começamos a desenvolver um trabalho através do movimento sindical aqui, que era bem unido, Campo e Cidade. E eu fui eleita com um discurso lá, era bem novinha, praticamente não tinha nem dezoito anos ainda. Quando eu completei dezoito anos, a minha alegria, inclusive, foi me filiar ao PT [Partido dos Trabalhadores]. Aí, eu acho que tinha dezesseis anos, um menino vai lá e faz um discurso dizendo que tinha que ter uma mulher e que eu já tinha provado que eu poderia assumir. Aí pronto, me elegeram por unanimidade para ser da Executiva da CUT Norte II - Espírito Santo. Só que aí os mais velhos da CPT fizeram reunião comigo, que eu não poderia assumir, porque eu era muito novinha, que não sei o quê, não sei das quantas. Eu falei assim: “Olha, eu não quero saber se eu sou novinha ou não, quero saber que o pessoal está acreditando em mim e eu vou assumir porque eles acreditaram em mim e pronto” Aí, fizemos parte da Executiva da CUT Norte II e foi um período super bacana, que a gente desenvolveu a greve dos assalariados da cana em São Mateus e em Linhares, que era um período em que apareceram os grandes canaviais aqui no norte do Espírito Santo e estava jogando muito vinhoto no solo. Então, tinha duas lutas grandes que a gente fazia, uma pela questão ambiental, o cuidado dos rios e do vinhoto que estava poluindo e a outra luta por condições de trabalho e direito trabalhista, o direito. Porque, praticamente, era um trabalho análogo à escravidão, onde tinha aqueles grandes barracões e o povo sem salubridade, sem condições. Então, tanto o sindicato de São Mateus e o de Linhares encamparam essa luta e, como dirigentes da CUT, nós também. Então, foram lutas intensas que nós fizemos, de greves. Inclusive, em São Mateus, um ponto de encontro, que a gente acabou tendo bastante conflito com a polícia, enfim... E em Linhares também, da mesma forma. Com esse trabalho, eu já desenvolvi a questão da CUT, esse trabalho com os assalariados. Foi quando, em 1984, surgiu a ideia do Movimento Sem Terra à nível nacional. Foram duas pessoas do Espírito Santo, se eu não me engano, no primeiro encontro nacional que aconteceu em Curitiba. E para o Congresso Nacional, foram dois companheiros, três, que foram participar. E quando voltaram: “Olha, a tarefa é organizar a ocupação de terra.” Aqui no Espírito Santo, assim como em outros lugares, tinham conflitos já na luta pela terra, pelos posseiros. Em 1984 já teve até um assentamento, que foi o suporte. Aí nós então encampamos essa proposta e começamos a fazer o trabalho com os Sem Terra nos vários bairros de Linhares e no distrito, no interior. Começamos a organizar e aqui, de Linhares, nós conseguimos organizar 100 famílias. E nesse processo teve formação com essas 100 famílias, tiramos já a coordenação, para já ir todo mundo prontinho. Então, foi no dia 27 de outubro de 1985, que a gente fez a nossa primeira ocupação de terra aqui no norte do Espírito Santo, no Km 41. E hoje nós temos um assentamento chamado 27 de outubro, ocupamos a Fazenda Georgina, que rendeu mais dois, três assentamentos ali na região. A partir daí, então, já começamos a preparar novas lideranças e começamos a fazer parte do movimento nacional, que essa era a definição, quem ia participar, porque todo mundo já estava cansado de abaixo-assinado, pedir a Reforma Agrária para o governo, e foi aí, na prática, a pressão e o grito, então, para se fazer a Reforma Agrária. Aí, em 1985, a UDR [União Democrática Ruralista] aqui, começou a se organizar e de forma violenta, foi para cima, nós já tivemos a segunda ocupação e eles juntos com a polícia, iam nos acampamentos, despejavam e distribuíam as famílias nos municípios sem saber que todo era do mesmo município, nós tínhamos que ficar juntando as famílias e aglutinando novamente para acampamento. Então, esse foi o meu percurso até chegar ao MST. Então, a partir daí, a Igreja não conseguiu compreender, porque, no nosso entendimento, nós estávamos fazendo o que a Bíblia estava dizendo ali, de luta pela terra, de processo de libertação. Só que aí alguns não compreenderam e começaram a questionar a gente. Então, nesse caso, a gente acabou com todo esse trabalho também a ser desenvolvido, priorizando, depois, mais a luta pela terra. Só foi isso.
P/1 – E essa sua entrada no MST, veio muito de uma forma individual ou a sua família fez parte também?
R – A minha família sempre teve um sonho de resgatar a terra. O meu pai, quando eu fiquei um pouquinho mais ‘grandinha’, quando eu estava com quinze, dezesseis anos, nós, na verdade, queríamos retomar, eu mesma, já que eu estava também em movimento sindical, na CUT: “Pai, vamos atrás, ver se a gente tem possibilidade de rever a terra do senhor, que os fazendeiros aqui tomaram.” Aí, ele se encorajou um pouquinho, nós chegamos a ir até o Rio de Janeiro, conversar com o meu tio, meu tio com medo, aí ele... Teve um problema na fazenda, porque ele se encorajou e foi atrás dos direitos dele, porque ele trabalhava nessa fazenda praticamente sem salário, sem direito a grandes coisas. E se encorajou, nós entramos no sindicato, o que aconteceu? Um dia, ele apeando o cavalo, veio os homens e deram uma surra bem boa nele, que moeu ele por dentro, mas por fora ficou como se não tivesse nada. Então, ele foi parar na UTI, ficou bastante tempo na UTI e depois disso ele esmoreceu. E o pessoal ficou com muito [medo], porque aqui, em Linhares, o norte do Espírito Santo é considerado bastante conservador, muito violento. Então, com isso, eu acabei indo só para o Movimento Sem Terra e o pessoal sempre com muito cuidado comigo. E aí, porque aconteciam muitas pressões, chegaram a ter prisões, camaradas que foram presos, sofreram ameaças. Até que, em 1987, assim, não dá, depois teria que ler direitinho, em 1987, houve um pessoal que foi preso, pegaram lá, que queriam dar mil reais pra me matar e já tinham a minha ‘fotinho’ e tudo. Então, teve muitas coisas assim, que alguns que foram presos e encontraram com esses caras na prisão falando isso. Bom, a gente sempre andava com cuidado, mas não deixava de fazer as coisas. Até que 1988, 1989 então, em janeiro, o pessoal conversou comigo e decidiu que eu fosse, embora eu já estivesse nesse processo também de ir para Pernambuco, conversar com as entidades, se dava para avançar o movimento por lá, fizemos reunião na Bahia também para a expansão do movimento no Nordeste, aí em 1989, eu fui especificamente para o Ceará, colaborar na construção. Até que a gente fez, em pouco tempo, juntamos 350, 400 famílias que ocuparam no dia 25 de maio, ocupamos o primeiro latifúndio do Ceará e depois se estendeu. E nesse mesmo ano, aqui no Espírito Santo, acabou que num conflito, acho, na Fazenda Sesita, no confronto, o fazendeiro foi à paisana com três policiais e acabou que quem estava na vigília, o pessoal de madrugada acabou nesse conflito, um fazendeiro e um policial acabaram morrendo. E aí houve uma repercussão e eles falaram que todo mês ia matar um de nós. E por incrível que pareça, eles fizeram isso. Mas assim, em um [mês] foi um sindicalista, no outro mês foi um petista, no outro mês, foi na igreja, no outro mês, foi outro sindicalista. Então, eles assassinaram vários, quatro meses seguidos, quatro lideranças. Mas não pegaram nenhum do movimento, porque a gente naquele tempo não se apresentava. E nem hoje, procura não se apresentar como liderança do movimento. Então, antes tinha muito esses cuidados. Eu aparecia como coletividade. Então, foi isso que eu... Não sei se eu respondi à pergunta ou se eu fugi (risos).
P/1 – Super, respondeu super. Não sei se é possível responder isso, mas tem alguma ocupação que foi a mais significativa para você?
R – Olha, a mais significativa aqui no Espírito Santo, foi a primeira, foi a novidade para todo mundo, essa. E de todas essas expressões, eu acho que foi a segunda também, a forma como eles vieram pra cima e distribuíram as famílias nos municípios. Também posso considerar como a ‘25 de maio’, também foi uma grande ocupação que marcou pelo fato desse deslocamento e com essa tarefa que eu fui, todo o processo antes, para preparação, para articulação com as entidades, ela marca porque, às vezes, a gente acaba não falando determinadas coisas porque, quando eu cheguei no Ceará, eu tinha alguns contatos e eu comecei então pelo movimento sindical em Quixadá, o Sindical dos Trabalhadores Rurais de lá, fiz os primeiros contatos ali e depois fui subindo para Fortaleza para ver se eu conseguia um contato, lá eu tinha um contato que era o Hilário Marques e sem muito dinheiro, o que aconteceu é que eu fiz o contato com a mulher dele e ela pediu pra eu ir pra Praia do Futuro, quando eu cheguei lá, ela falou que não podia me receber mais. Eu pensei, uai, e agora, o que eu faço? Aí voltei pra rodoviária, dormi a noite na rodoviária, foram três dias que gastei dali pra São Paulo. Fui para a reunião da direção do movimento sem um centavo, um velhinho que me deu farofa, senão eu ficaria três dias sem comer, chegando em São Paulo, tive que dar uma de mendiga, pedir dinheiro para chegar até a Barra Funda. Aí quando eu retorno para o Ceará, fiquei na casa do presidente da CUT, depois tive que sair, também começou a fazer certas insinuações, aí fiquei na casa da Pastoral da Juventude e de lá, eu vi que estava demorando demais a sair, o pessoal articular reunião, aí eu fui para os pontos de pau de arara porque no Ceará, naquele tempo, não tinha os ônibus, era pau de arara. Fui ali, conversei com um, conversei com outro, fui só andando perguntando se o pessoal queria terra e era um período de muita seca que, às vezes, eu não entendia por que o pessoal ia tudo com um saquinho embaixo do braço e, de repente, saqueavam o supermercado, sumia todo mundo (risos). São coisas assim que vão marcando. Aí para todo esse trabalho, então aí fui marcando as reuniões, ia nos pau de arara com o pessoal para as reuniões, andava de carona com o jumento para poder chegar nas reuniões. São várias histórias que marcam, até chegar à ocupação em si. Só depois que a gente conseguiu o movimento nacional conseguiu a motinha, aí a gente fazia também milagre com aquelas motos, quando a chuva vinha e as nossas passagens, que eram rio, se alagavam, a gente tinha que se virar pra passar. Então, coisas assim vão marcando. Então, por isso, que a primeira ocupação do Ceará tem muitas histórias, que marcam até esse processo de chegar lá.
As irmãs que me juntaram num grupão de jovens para dizer que não era para eu fazer ocupação, porque o povo não ia, porque elas estavam lá há 60 anos, e eu falei assim: “Tudo bem, mas eu não vou desmarcar nada, porque o povo tá certinho, eu acredito no povo, e o povo vai, a senhora vai ver.” E vai daqui uma tarde todinha, elas pelejando pra eu não fazer. Aí eu também não dava conta de tudo, depois o movimento mandou mais duas companheiras para ajudar em todo o processo, que estava em três municípios. E logo em seguida, em maio, setembro, a gente já foi para a segunda ocupação, que também foi uma marca. O povo todo, animado, sertanejo, animado pra caramba. Ainda bem que nós tínhamos olhado duas áreas. Aí era numa faixa de 700 famílias e tudo combinado. Quando nós íamos chegando ali num lugarzinho chamado Chorozinho, nossa, estavam lá todos os fazendeiros da região, policiais e eu e Francisca na moto, pararam e começaram a me xingar, falaram que eu não era corajosa, que eu não ia tirar capacete, que não sei das quantas. Aí colocaram a gente no cantinho, os ônibus, dois ônibus eles conseguiram pegar e o povo fingiu que não conhecia e aí, então, o que eles fizeram? Cortaram o pneu da moto e liberaram a gente, achando que a gente não ia. Aí eu subi quase cima do tanque, a Francisca na garupa e vamos, aí no caminho: “Nós, ao invés de fazer uma, vamos fazer duas por desaforo!” Então, o nosso combinado era ir por Canindé e eu deixei a Francisca no meio do mato e fui para a cidade de moto, arrumar o apoio e orientar as pessoas para ir para a outra ocupação, nós fizemos Tiracanga e fizemos Touros, que é um município... Então, um em Canindé e outro em Touros, que são dois municípios. Então, foi muito bom. Aí, dessa daí, houve também a UDR já estava instalada lá, um tal de Roberto Pessoa ia pra Câmara, ia pra rádio, dizendo que ia deixar eu com a boca cheia de formiga e os padres ficavam doidinhos, as irmãs: “Não sabe, não, irmã? Não adianta, a gente fica com medo, não, a gente tem que agir”. Aí dali foi outras e outras, até que expandiram o movimento no Ceará, aí dessas histórias, tem outras que o pessoal conta, que eu me virava em toco para fugir da polícia, que eu me virava em cigarra, tinham famílias, inclusive, que até não queriam que alguns militantes prosseguissem, porque eu era meio macumbeira, que eu me transformava, isso ficou um mito por um bom tempo, enfim, são coisas que, de qualquer modo, marcam. Até hoje também nas histórias lá do Ceará, essas coisas marcam. Aí a gente conseguiu, devagarzinho, pouco tempo, organizando o movimento, esse foi um dos maiores latifúndios, que tinha 20 mil hectares de terra, hoje tem mais. Na época, eram 400 famílias assentadas para organizar, era um mundo de terra.
Aí começamos a organizar as outras frentes no movimento. E aí depois, quando o movimento estava instalado, então, fiquei responsável ali, porque eu já era da direção nacional do movimento. O pessoal, às vezes, que gosta de dizer: “Ah, foi a primeira mulher na direção nacional do MST”. Dali a gente acompanhava o Piauí, também dando suporte. E uma ocupação também que marcou, já que você tá falando das ocupações que marcou, foi no... No litoral, né? No litoral não, no... É que agora eu ando esquecida depois da pandemia. Que nós montamos todos os barraquinhos e os fazendeiros lá, violentamente, no Vale do Parnaíba. E aí, menina, os fazendeiros, os pistoleiros começaram a atirar e vinham balas na pontinha do barraco. Aí nós falamos: “Mas eles vão invadir aqui com tudo.” Nós conseguimos tirar todas as crianças, colocar na frente. O nosso maior medo era que, se realmente eles fizessem o cerco e ocupassem todo o acampamento do jeito como as balas vinham, batendo no barraco, nosso medo era que no confronto maior e nas correrias, que pisoteassem muitas crianças. Então, nós começamos a nos organizar de forma que não ocorreu isso, mas teve muitos companheiros que foram, os dois que foram pegos, foram maltratados, violentados. Depois, nós conseguimos fazer uma caminhada grande de lá para Teresina, para chamar a atenção.
Então, são essas histórias. E que a gente, hoje, quando o movimento está instalado, organizado, se expandindo, nossa, a gente fica muito feliz, por todas essas histórias que a gente passou e que valeram a pena. Hoje, estar aqui, contando histórias.
P/1 – E nessas ocupações, o medo caminhava junto?
R – Olha, na verdade, eu não tinha tanto medo, mas eu digo que me deu medo mesmo, foi a partir de uma ocupação que a gente fez, eu fui para uma viagem internacional representando o movimento, quando eu voltei o pessoal... Sempre era assim, pra ir pro Ceará, tinha dois companheiros eleitos, não foram, não ficaram, que era assim: “Ah, precisa de uma pessoa que tem muito peito.” Esse era o discurso de alguns, manda a Fátima. Aí eu: “Não, pessoal, precisamos de um acompanhamento”. Pessoal: “Não. Vai... Fátima que tá chegando lá pro Triângulo Mineiro.” Eu já tinha participado de uma que o pessoal já estava de olho. Eu até me apresentei, nem me apresentei como MST, o pessoal me deu uma camiseta lá da CUT, então me apresentei como da CUT. Essa foi a primeira, passou, depois nós fomos fazer uma ocupação no Triângulo Mineiro e, nessa ocupação, nossa, um dia de tardezinha, cinco horas veio, que era um Pantanal, e nós ficamos entre o Pantanal, de um lado, e o outro lado, era meio seco. E quando nós passamos o acampamento, tinha umas ‘pinguelinhas’. Aí, quando deu cinco horas, eles atravessaram a pinguela. E o pessoal muito animado, estavam, cantaram lá e esses fazendeiros foram embora. Só que vieram de madrugada, meia noite, vieram com tudo, soltando bombas. Aí o pessoal: “Fátima, como você já está meio conhecida, é melhor você sair.” Aí eu mando um rapaz chamado Arthur Messias, aí nós fomos. Só que lá pelas tantas era Pantanal, aí nós tivemos que ficar nesse Pantanal, nós dois, só com o nariz de fora, ficamos ali o resto do tempo e ouvindo barbaridades, porque eles fizeram um cerco, atiraram, mataram cachorro, e ainda como a gente estava distante, a gente não sabia que era cachorro, só depois que a gente soube que era cachorro, e nós achando, do jeito que eles falavam, gritando, que nós estávamos próximos ali, que era o companheiro Gilson, que era uma liderança. E aí ficava, mandava o povo trotar: “Um, dois, três, Lula no xadrez”, umas coisas assim, mandaram o povo trotar. Aí, mais pra frente, pegaram todo o povo, levaram pra Belo Horizonte e começaram uma sessão de torturas pra lá. E nós, ali, acabamos ficando ali, ouvindo todas essas barbaridades, até que houve uma calmaria. Então, cinco horas da tarde do outro dia, a gente conseguiu se levantar. E aí sim, como estava já estalando o medo, a gente via um monte de policiais nas árvores. Nossa, tá cheio de policial. Depois, a gente se levantou de novo. Na terceira vez que a gente percebeu que era a nossa criação, que já tinham ido embora e não era. Então, a gente teve a coragem. Quando nós passamos ali, já ia escurecer, o acampamento todo arrasado, destruído, cachorro morto. Aí, o menino que conhecia a região, nós caminhamos quase trinta quilômetros. Imagine, você ficar parte da noite, o dia todo, dentro da água, aí nós tivemos que caminhar quase trinta quilômetros para se encontrar na casa de um senhor, que nos acolheu e falou onde o povo estava, dormindo, descansando. No outro dia, era uma caminhada, uma areiazinha, acabou quase ferindo os pés, comeu a sola do pé, a areia. Aí nós juntamos ao pessoal e, depois, ficamos sabendo de todas as sessões de tortura que eles fizeram com as famílias, deixaram o pessoal o dia todo sem beber água, depois oferecendo, só se contasse o nome das lideranças. Então, foi um pouco isso, o medo. Então, a partir daí, sim, eu senti.
Teve mobilizações que a gente fez lá no Ceará, que o pessoal fez cerco, isso no meio da rua, pra gente não sair, fizeram um cerco geral. Mas até aí eu estava muito tranquila, a gente conseguia conduzir com tranquilidade, mas ficando quase dez dias e sustentado pela população, porque eles faziam barreiras policiais e o pessoal jogava comida pra cima. E, talvez, foi isso daí que desencadeou em mim, quando a gente fez a ocupação no ‘10 de abril’, 10 de abril foi lá no Crato, município de Crato. Nós tivemos a decisão de retomar o Caldeirão, não sei se você já ouviu falar no Caldeirão, que foi uma luta feita em 1837, se eu não me engano, depois poderia ver direitinho a data, mas a modos como foi feito em Canudos, só que foi com menos gente, três mil pessoas, foi no Crato, o Beato José Lourenço foi aglutinando gente e tinha um poço na pedra que chamaram de Caldeirão. Dessa água, eles sustentavam três mil pessoas, e o trabalho era muito bacana, eles praticamente seguiam os princípios do Comunismo, davam às pessoas de acordo com o trabalho, de acordo com a necessidade. Enfim, tinha uma super organização e cada vez mais ia chegando gente, em períodos de seca, eles conseguiam sustentar. Aí os fazendeiros com medo de perder os braços, a força do trabalho, começou a inventar coisas, que o Beato estava armando as pessoas. E, um dia, o Beato pediu caixas de santo e eles inventaram que essas eram caixas de armas, aí juntou o exército e massacrou o Caldeirão. Massacrou, eu acho, não sei quantas pessoas sobreviveram, mas foi quase igual a Canudos, destruiu. Aí, muitos anos, nós decidimos: “Então, vamos retomar o Caldeirão, a fazenda tá lá, não tem ninguém.” Olha, foi uma coisa muito mística, uma coisa linda. Nós tivemos que passar pelo rio seco, com as pedrinhas, aquelas famílias passando em direção ao local do acampamento, as pedrinhas, elas batiam uma na outra, de madrugada, dava uma sensação, assim, de muito mistério. E nós fizemos o acampamento, Esses fazendeiros não permitiram nós ficarmos nesse local. E o local, com as montanhas, era uma coisa assim, muito mística. Parece que os antigos moradores estavam aplaudindo, o Beato, o José, sei lá. Enfim, eu acho que isso desencadeou em mim, com isso, eu tinha medo de perder as famílias, alguns que não queriam ficar por várias razões, aí começou a crescer um negócio. Enfim, a gente depois, então, foi para o parque de exposição, o acampamento, o despejo que houve, então o acampamento ficou ali, aí depois que a gente conseguiu conquistar uma área que se chamou, hoje é assentamento ‘10 de Abril’. Então são muitas marcas, eu não vou falar aqui, também teve de Pernambuco, que foi marcante, mas enfim, vamos ficar por aí. Se não vai misturando onde são, enfim, mas é isso, um medinho que instalou em mim foi a partir do Triângulo Mineiro, da forma como me cercaram, da forma como a gente ficou embaixo da água, depois teve que caminhar, ver aquele destroço. Então, aí agora deu um tempo de alguns anos pra cá que eu fui trabalhando isso. E aí eu retornei ao normal, sabendo dos perigos, mas a gente se previne e toca pra frente.
P/1 – E após uma ocupação, você consegue descrever a sensação que dá?
R – A sensação de alegria, de prazer conquistado coletivamente, porque é o que a gente fala, depois de todo sufoco, o movimento tem essa vantagem, os movimentos sociais. Depois do sufoco, que é do ser humano, depois de todos os apertos, todas as situações criadas, depois vira piada, vira alegria, vira casos, contadores de casos das ocupações e situações criadas, mas é muito prazeroso você saber quantas famílias que viviam mendigando, igual nós já fizemos ocupação no Ceará, ficar dez dias para aumentar cinquenta, quarenta centavos da frente de emergência. Olha só, que triste. E hoje você vê os assentamentos produzindo comida saudável, tendo frigorífico, tendo condições de vida. Então, você vê a dignidade no olhar das pessoas de norte ao sul desse país, é uma alegria muito grande, entendeu? A gente sabe que nós temos muito ainda a conquistar da Reforma Agrária Popular, muita coisa, muitos embates diferenciados que a atualidade apresenta, mas saber que a gente, nesses quarenta anos, já deu passos largos na história da luta pela terra e da Reforma Agrária Popular, é uma satisfação muito grande. Para todo militante, para mim também, que fez parte desse processo, que faz parte desse processo, é uma alegria. Nossa, eu lembro das minhas primeiras alegrias nos encontros nacionais, quando nós tínhamos militantes, que nós fomos capazes de produzir. Nossa, olha, o orgulho de ter pessoas que multiplicam outras, que estão falando muito bem, que são médicos, são professores, são agrônomos. Então, isso tudo dá muita alegria para quem é um militante, e eu tenho essa alegria de ter feito e fazer parte dessa história.
P/1 – E você foi a primeira mulher na Direção Nacional do MST?
R – Fui a primeira mulher na Direção Nacional. E nós então começamos no movimento desde o início, as mulheres foram uma força viva, uma força muito grande dentro do movimento, desde o primeiro congresso nacional, as mulheres estavam em presente nas atividades e, aos pouquinhos, nós fomos organizando as mulheres do movimento até que a gente conseguiu para alcançar discussão de gênero. Antes, o movimento não aceitava, nós temos documento. “Não, tem que se organizar enquanto mulher, enquanto classe. Que negócio de gênero?” Aí, nós fomos pegando os materiais, compreendendo o que era as relações de gênero também a nível das forças políticas que o movimento se relacionava na América Latina e no mundo também estavam com esse debate, aí o movimento, então, nós começamos a trabalhar na forma... na surdina, né, ou como é que a gente fala? Devagarzinho, então, a gente conseguiu colocar alguns temas importantes na pauta da coordenação, na direção nacional, até que a gente conseguiu, então, 50% das mulheres nas instâncias. Então, foi um grande avanço.
E agora, também, com a questão da diversidade, para nós, também foi um grande avanço. Então, hoje o movimento tem se preocupado e não adianta a gente falar em modelo de reforma agrária, em mudança de sociedade, sem pensar nas novas relações sociais, nas relações de gênero, no entendimento do ser humano, de família, que nós queremos construir. Então, esses foram grandes avanços. Hoje, o próprio documento da Reforma Agrária Popular retrata não só o aspecto econômico da terra, da questão ambiental, da natureza, dos alimentos saudáveis, mas ali, está explícito também, as relações sociais que nós queremos alcançar. O que adianta eu falar que era mudança, mas em casa tem uma relação de crueldade com a parceira, ou com o parceiro, ou com os filhos? Então, nós compreendemos que todo o conjunto das mudanças, ela também tem que ser alterada por aí, senão, não altera, não altera as relações.
Então, foram grandes avanços que o movimento tem. Então, hoje, nós temos mulheres comandando em todos os estados, em todos os setores do movimento, a nível internacional. Isso é uma coisa muito linda, muito bonita de enxergar os avanços que nós vamos tendo. Tá bom? Não tá, porque todas as influências negativas do machismo, do patriarcado, do capitalismo, fazem parte, nós estamos vivendo nessa sociedade e estamos sendo influenciados. Mas o bom é que está sendo trabalhado nessa perspectiva de alteração dessas relações humanas, numa perspectiva de emancipação. Acho que isso que é a boniteza do trabalho, é você relacionar, o alimento saudável, mas que ali tem mãos, mãos que se entrelaçam também numa perspectiva renovada.
P/1 – E Fátima, e seu trabalho como educadora? E aí poder entrar nas suas formações também, quer falar um pouquinho pra gente?
R – Essa foi a questão, eu fiquei dez anos também no Rio Grande do Norte, depois do Ceará, o pessoal: “Ó, precisa de uma pessoa para ajudar lá no Rio Grande do Norte.” E nesse meio termo aí, o movimento estava já lutando pela educação, avançando, inclusive, no Ensino Superior. E lá no Ceará, no Rio Grande do Norte, nós ocupamos uma escola agrícola, que estava abandonada há muito tempo. Então, a partir daí, nós começamos a fazer uma articulação política com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e o IFES para fazer o curso. Então, o primeiro curso de Pedagogia da Terra foi aqui no Espírito Santo em parceria com uma universidade pública, porque a primeira foi em Ijuí, numa particular. Depois, então, usamos só as públicas. Aí eu participei do curso, saindo do Rio Grande do Norte, para vir aqui para o Espírito Santo. Aí então, nós fizemos a turma de Pedagogia da Terra no Nordeste, foi lá no Rio Grande do Norte. Aí, nos primeiros momentos, foi no campus de Nova Cruz. E depois, então, nessa escola agrícola que a gente tinha tomado só uma parte, retomado, depois nós fomos ampliando até que hoje está toda a escola na mão do MST. Então, lá a gente fez o curso Pedagogia da Terra, Cooperação Agrícola e Saúde da Terra, são três grandes cursos que renderam a formação de muitos enfermeiros da terra, de cooperação agrícola e pedagogos que estão espalhados por todo o Nordeste. Então, conforme eu te falei, com essa situação do meu pai, eu solicitei para retornar e colaborar. Quando eu cheguei aqui no Espírito Santo, eu retornei devagar minhas atividades no movimento geral, mas o movimento aqui estava também numa luta de ampliação das escolas. E como eu também necessitava sobreviver, as meninas: “Não, Fátima, vamos fazer o seguinte: Você tem essa escola que nós já estamos passando por Ensino Fundamental II e está ampliando, esse assentamento que eu moro. Então, você faz parte da coordenação.” Aí o movimento, então, decidiu pra eu ficar na coordenação da escola.
Então, nós desenvolvemos nas escolas, a pedagogia do movimento. Como o movimento aqui tem essa parceria com a Pedagogia da Alternância, inicialmente, nós trabalhávamos uma semana na escola, uma semana em casa, fazendo essas atividades, tanto nos assentamentos, como nas comunidades vizinhas porque, à medida que o pessoal foi avançando, nós fomos avançando com a educação, as nossas escolas já não atendem mais só o público assentado, mas os Sem Terra e trabalhadores das fazendas. Então esse era o meu trabalho, inicialmente. Aí o que aconteceu? Meu pai veio a falecer em agosto, e aí eu tô tocando a vida, como coordenadora e educadora de alguma disciplina, desenvolvendo todo esse trabalho junto ao setor de educação do MST aqui, que é bastante forte, desenvolvendo os instrumentos da Pedagogia da Alternância, a mística, a auto-organização dos meninos, a Agroecologia e vai. E, no final do ano, acabei descobrindo, assim, exigindo que o médico olhasse direitinho e descobri que eu estava com um problema de câncer de mama. Aí ele falou assim: “Ó, ou você corre atrás ou você vai morrer.” Aí quando eu levei os exames em janeiro, fizemos, ele mostrou direitinho: “Corra atrás!” Aí eu corri atrás, em março, fiz uma mastectomia radical, aí tive que ficar afastada da escola, mas sem estar afastada do movimento, fazendo só algumas coisinhas. Eu fiquei esse tempo fora, voltei em 2015, não mais como coordenadora, mas como educadora, fazendo essas atividades, dando aula e acompanhando, acompanhamento geral, sendo do setor de educação, nas escolas, sobretudo, ali. Aí tudo indo muito bem, direitinho, passei no mestrado, fiz o mestrado, aí o ano passado eu fui fazer umas atividades lá em Vitória, na UFES, minha perna mancando, mancando, disse, que negócio é esse, meu pai? Eu achando que era coluna. Aí eu fui, a coordenadora lá do curso de licenciatura em educação do campo me levou ao hospital, de lá, eu fiquei dois dias internada, deles pra lá, pra cá, pra lá e pra cá, não conseguiram, pediram pra eu fazer um exame com ortopedista, aí minha irmã conseguiu uma vaga aqui em Linhares, aí eu voltei, fiz, ele me internou dois dias, faz exame daqui, de lá e descobriu: “Ó, nós só vamos poder te liberar - era numa sexta-feira - só vou poder te liberar, se doutor Guilherme, que é o da Oncologia de Linhares, puder te atender na segunda, porque você está com risco de quebrar os ossos do fêmur. “Aí tudo bem, você vai ficar em casa quietinha e segunda você volta.” Aí cheguei lá, aí foi constatado uma metástase no fêmur. Aí eu fiquei praticamente seis meses parada, mas sem, assim, parado, ativo. Como a gente descobriu a internet, faz reunião na cama, faz articulação e tal, estamos tocando. Aí janeiro agora, janeiro, fevereiro, aí já tô ‘sassaricando’, como disse o outro. Tô indo para as reuniões, tô indo fazendo as atividades, já tô andando, mas, assim, com cuidado. Então, essa é a minha sina agora, então, tá um pé na organização, mas um pé, um olho no corpo, na saúde, pra ver como que a gente segue adiante mais uns tempos, contribuindo.
P/1 – E você tá se tratando no momento, é isso?
R – Tô em tratamento, ontem mesmo eu tomei remédio, A tarde inteira no hospital, tomando quimioterapia e, assim, vamos. Tomando um remedinho, daqui de lá e vamos tocando a vida.
P/1 – E como foi a pandemia?
R – A pandemia não foi legal, não. Tivemos que ficar recolhidos, mas lá, na escola, a gente fazia as reuniões online e a gente se distribuía para pegar os materiais na escola, para não deixar os meninos sem estudar, e aí entregava direitinho nas casas, todo o material e recolhia depois as atividades, e assim foi tocando desse jeito. E, em casa, todo mundo também, ficava mais lá no assentamento, quando voltava. Aí teve um dia que meu irmão pegou Covid, aí levamos minha mãe, minha sobrinha, todos lá para o assentamento, e ficamos nesses cuidados assim, para não ser contaminados, contagiados. E no trabalho lá, dessa forma. E aprendemos, então, a fazer as reuniões online. A gente teve até um encontro de estado, de educadores, nós fizemos online, foi também lindo, o nosso pessoal é muito inteligente, fez cada mística linda, trouxemos assessores, então a gente não parou assim, isso que, talvez, deu energia para a gente continuar, não ficar isolado. Então, as nossas atividades todas se deram de forma online, onde a gente podia, a gente tentava encaminhar os trabalhos. Então, foi isso.
E, no caso de ocupação, foi paralisado, porque é uma questão de saúde, nós não íamos colocar ninguém em risco, mesmo recentemente, depois foi tudo liberado, quando a gente sabia que tinha ‘unzinho’, a gente suspendia a reunião para ver se as pessoas iam se tratando, devagar. Então sim, estamos também no conjunto geral da organização procurando se cuidar.
P/1 – E Fátima, como foi se tornar mãe?
R – Oi?
P/1 – Como foi se tornar mãe?
R – Ai meu Deus, no meu caso foi uma... foi... Foi, vamos colocar, foi bonito, foi surpresa e foi... Às vezes, o pessoal dizia: “Nossa, Fátima, quem diria, hein? Tão com senso de maternidade (risos)” Mas foi bacana, porque foi... Minha filha hoje tá com 24 anos, ela tá em Maricá, fazendo o trabalho da horta em casa, então tá bem, bem politizada, crítica. Mas eu digo que eu só tive cinco dias de licença maternidade, porque com cinco dias nós vai estar com a criança nova, a criança atravessando o Ceará, meio que escondido, porque não tinha certidão, mas foi assim, a gente, nas reuniões, improvisava a mesa como cama e todo mundo ajudava coletivamente, entendeu? Então, foi assim, mães coletivas. Mas foi muito bacana. Então, o tempo todo eu estava na Ciranda, na Escola Nacional, quando tinha as reuniões, então foi ser mãe, ser militante, ser dirigente, são coisas que tem hora que não dá para explicar, mas é bom porque quando você está na militância, o movimento tem bem essa sacada das cirandas infantis, ajudou muito as mulheres para poder ir para os encontros, para as assembleias, para as atividades gerais e ter um espaço, que você possa estar num espaço coletivo e educativo, ao mesmo tempo. Então, a criança não perde, não perde. Eu acho que é isso, enquanto esse prazer de educar. Então, acho que essa relação que, talvez, a gente traz da família, ela também reflete nessas horas da forma de lidar. Não sei, em alguns momentos, é claro, tem que tirar certos costumes para poder ir aperfeiçoando, mas, no geral, eu acho que eu dei conta dessa parte, só tenho uma. Tem algumas pessoas, alguns militantes, têm dois, três, ainda mais assim, vai suavizando por causa da ciranda, embora no translado tenha algumas dificuldades, no ônibus, nos transportes...E ser mãe solteira também tem mais dificuldade ainda, quando você não tem parceiro colaborar, mas ainda bem que tem outros militantes, homens e mulheres que ajudam, dão essa mão, essa força para a gente continuar fazendo a militância e cuidando de um serzinho.
P/1 – E como você enxerga a participação das crianças no movimento?
R – Nossa, as crianças têm dado grandes lições, para o movimento, nas escolas que pegam rápido para fazer mística, essa questão do trabalho da Agroecologia, como que os meninos conseguem lidar com esse interesse, já olhando a questão futura, e nos encontros, tanto que tem nas brigadas na estadual. Você vê que é só você apostar que a criançada vai, desenrola, fala, fala com o Ministro, fala com o Secretário de Educação, fala com o Prefeito, fala, às vezes, questiona, eu já vi muitas crianças questionando até: “Poxa, vocês falam, e aí?” Então, mesmo as nossas, acho que essa é a boniteza, de que o movimento vai reproduzindo toda a sua estrutura organizativa para a educação infantil e a educação como um todo, a partir desses encontros. Fazemos ter agora o Congresso Nacional, a perspectiva era de juntar duas mil crianças, então nós até tínhamos pensado, quando saiu a ideia: “Vai ser um congresso à parte, nossa.” Mas já estava todo mundo, estamos ainda, porque só foi adiado devido a essa situação do Rio Grande do Sul, mas ainda continuamos nessa perspectiva. Então, vai ter uma movimentação geral nas escolas de preparação, de estudo, segunda-feira mesmo, eu estava na escola discutindo a história do movimento, porque todo trimestre, nós temos um tema gerador. E o tema gerador do nono ano é: os movimentos sociais. Então, fui lá falar e toda a criançada, num agito só, desde a educação infantil até o ensino fundamental, o EJA, médio, trabalhando os temas geradores, o plano de estudo, fazendo... em todos os espaços, que acompanha o plano de estudo. Então, é bacana. O pessoal, a criançada se sentindo bem, porque participa, porque colabora. Às vezes, tem criança que fica lá: “Ei, ei, eu vou fazer o quê? Qual é a minha parte?” Então, isso daí vai dando, vai dando uma certeza de que nós estamos no caminho certo, de preparar as futuras gerações para conduzir esse processo de luta, de organização e estando nesse meio aí, da discussão dessas novas relações. Eu vejo que algumas crianças que chegam, por exemplo, na nossa escola, às vezes, que vêm de outros lugares, com esse ar de agressividade, daqui a pouco, elas estão em outra em outra relação, em outro processo de construção, a partir da divisão do trabalho para o trabalho, tanto doméstico, como produtivo, isso tudo colabora no desenvolvimento das crianças e dos jovens. Então, acho que nessa perspectiva de construção futura, dessa formação dessa nova turma que vai dar uma outra perspectiva, nós já temos meninos que estavam no decorrer do ensino fundamental todo e hoje vai se despontando já como liderança. E muitos filhos dos dirigentes são lideranças. Então, essa é a nossa grande capacidade de inclusão. Inclusão, não só aquele que estava ali despregado, solto, sem perspectiva, você inclui na terra, você dá um enraizamento para essas pessoas e vai incluindo a infância nesse processo. Essa é a grande integração. E essa integração dá uma visão de mundo, é uma visão de mundo grandioso. E a partir dessa visão de mundo, as pessoas vão se colocando nos seus sonhos, nas suas perspectivas, à medida que vão crescendo. Acho que o movimento tem esse potencial de qualificar, de conduzir para esse destino mais harmonioso, cooperado, solidário. Acho que é isso.
P/1 – E quais são os seus sonhos?
R – (risos) O meu sonho é continuar vivendo, na batalha por uma saúde melhorada, para poder continuar contribuindo na consolidação de mais assentamentos, de expansão da educação do movimento em todas as suas modalidades e que a gente, então, construir uma sociedade nova, renovada. E a partir do que a gente vai aprendendo, a gente vai obtendo conhecimentos, a gente vai, então, socializando. Primeiro, estar viva, né, não sei. E mesmo até onde der, a gente vai colaborando, porque enquanto existe injustiça, a gente tem que estar ali, colaborando e dar uma nova perspectiva humana para que o Brasil seja, de fato, dos brasileiros. Então, não é um sonho apenas individual, mas um sonho coletivo. Acho que dá pra gente ir alcançando, não sabemos quando, mas a nossa contribuiçãozinha, a gente vai dando.
P/1 – Você gostaria de acrescentar algo que eu não tenha te perguntado, contar alguma história que você acha importante?
R – Eu acho, se for depois, não sei se você, mas assim, no geral, eu acho que falei de tudo, um pouquinho. Acho que é isso.
P/1 – E você gostaria de deixar alguma mensagem para as pessoas?
R – Acho que a mensagem maior é que a gente precisa cuidar do planeta. Eu acho que essa questão aí do Rio Grande do Sul, essa questão que aconteceu ali no município do sul do Espírito Santo, só vai firmar cada vez mais que nós precisamos ter uma relação com a natureza em outro nível. E, é claro que, a gente sabe que pra gente ter, pelo menos, pra gente ter essa relação diferenciada, cuidar da água, cuidar do ar, cuidar da terra, se a gente também mudar de modo de produção, se a gente mudar de sociedade. Com os capitalistas desses, com algumas autoridades que só pensam em destruição, tirar código, tirar leis ambientais, a natureza pede passagem. E ao pedir passagem, ela não vai ficar lembrando os bonzinhos, vai levando. Então, tem vários estudiosos falando que a humanidade corre perigo, que nós estamos cavando a nossa própria cova. Marx dizia que o capitalismo era coveiro da sua... A gente espera que a gente possa construir um mundo novo e que a gente consiga contagiar a sociedade nessa perspectiva de fazer a sua parte, mas que ela possa se organizar e mobilizar contra a elite brasileira e do mundo inteiro, que só pensa em destruição e apenas no lucro, na ambição do capital, isso só está levando a todos esses prejuízos. “Ah, não, foi um problema de clima.” Não, foi obra humana, que não pensou nas leis, não pensou, que queria tirar os diques de lá, entendeu? É obra humana, então, está na hora dessa reflexão de como a gente precisa preservar a vida em todas as suas formas. A gente precisa pensar nas diversas vidas, não só a humana. E isso, vai só com um trabalho muito grande de educação entre as pessoas. Então, eu espero que a gente consiga ampliar, porque ainda nós estamos muito aquém para atingir um pouco de gente consciente. A gente precisa ampliar. E esse é um trabalho de todos nós, não é só dos Sem Terra, mas é de todas as pessoas que têm consciência crítica para ampliar e conscientizar a sociedade a lutar por esse mundo melhor e uma sociedade justa e igualitária. Eu acho que é isso, fazendo com que a gente se dê as mãos, cuidando da vida na natureza, a gente vai também estar cuidando do ser humano. É isso, eu acho que a minha mensagem é que a gente possa trabalhar cada vez mais nessa perspectiva. A gente não vai emendando (risos). Mas é isso, então, minha mensagem.
P/1 – E o que você gostaria de deixar como legado para as próximas gerações?
R – O que eu gostaria? Eu acho que é essa perspectiva aí, de um trabalho no assentamento diferenciado, de que a gente faça essa diferença a partir do nosso próprio comportamento, a partir da nossa perspectiva de vida. Então, é essa contribuição. De colaborar para a organização dos trabalhadores, igual eu venho dando essa pontadinha aí de colaboração, e agora na educação, formação da juventude e da criançada, eu acho que já é alguma coisinha para as pessoas poderem falar: “Poxa, a Fátima, realmente, colaborou, deu a sua contribuição dessa gama de coisas para serem mudadas.” Acho que é isso.
P/1 – E Fátima, como foi contar um pouco dessa história aqui para a gente?
R – Foi bom porque vai reavivando a nossa memória que, às vezes, está meio bagunçada, mas, de vez em quando, é bom que a gente vai retornando, recordando, E, de qualquer modo, a gente vai olhando, são bastantes coisas que a gente faz, né? Nossa, vamos pegar uma vida dedicada. Então, volta e meia, é bom a gente se olhar pra ver o quanto que a gente é importante nesta luta e da continuidade. Acho que foi bom nesse sentido. De, às vezes, meio... Não sei se você acompanhou todos os lugares que tentei passar, pra falar, mas eu acho que foi legal. Foi uma boa recordação.
P/1 – Oba! E pra finalizar, qual é a sua primeira lembrança da vida?
R – Primeira lembrança da vida? Minha primeira lembrança da vida? Eu acho que minha primeira lembrança da vida enquanto pessoa foi ter caminhado em direção à igreja para poder achar que eu ia mudar o mundo. Eu acho que foi assim: “Qual a sua primeira...” Olha, eu caminhar para lá e dizer, olha, não estou satisfeita com alguma coisa, foi um grande feito. Porque foi dali, de qualquer modo, que mudou toda a minha vida quando eu dei esse primeiro passo. E a partir daí, o que me fez ir até lá, como é que depois eu reagi a isso, acho que foi uma boa lembrança. Acho que é isso.
[Fim da Entrevista]
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