Entrevista de Dandára de Araújo
Entrevistada por Luiza Gallo.
Belo Horizonte, São Paulo, dia 22 de maio de 2024.
Projeto Conte Sua História.
Entrevista n.º: PCSH_HV1397
Revisado por Estfani da Costa
P/1- E para começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R- Obrigada pelo espaço, acho que é uma coisa tremenda a gente compartilhar a história, e principalmente compartilhar as histórias da classe trabalhadora, né?
R- E através de compartilhar essas histórias da gente, indivíduo, a gente vai percebendo assim que, na real, é muito semelhante, né?
R- Que a gente vem de lugares muito diversos, mas que as tendências são da história do país, na real.
R- Então, acho um tremendo de um projeto, mas eu sou a Dandara, Dandara de Araujo Pinto, tenho 31 anos e nesse momento eu sou de Minas Gerais, aqui de Belo Horizonte.
P/1- E onde você nasceu?
R- Eu nasci em Rondônia, numa cidade chamada de Paraná, que é uma das maiores cidades do estado, lá na Rondônia, coração devastado da Amazônia, mas rodei muito e no fundo me considero mineira.
R- A real é essa.
P/1- E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R- Não me contaram muito como foi o dia do meu nascimento, mas me contaram que eu não queria nascer, aparentemente, que eu não virei para nascer, não encaixei, fiquei sentada.
R- E aí, minha mãe precisou fazer uma cesárea e não sei, eu tenho a impressão de que isso fala tanto de mim e da minha vida, eu sentei para nascer e prefiro ficar sentada desde então.
P/1- Por que isso diz tanto de você?
R- Não sei, eu acho graça, assim, que eu sou uma pessoa sossegada, sabe?
R- Uma pessoa...
R- Eu tenho muita energia, assim, e é da minha criação mesmo, assim, de querer estar no meio do povo, coletivo e não sei o quê, mas ao mesmo tempo eu gosto muito de sossego, eu gosto muito de silêncio, tá passando um caminhão aqui que não deixa mais ficar em silêncio, e...
Continuar leituraEntrevista de Dandára de Araújo
Entrevistada por Luiza Gallo.
Belo Horizonte, São Paulo, dia 22 de maio de 2024.
Projeto Conte Sua História.
Entrevista n.º: PCSH_HV1397
Revisado por Estfani da Costa
P/1- E para começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R- Obrigada pelo espaço, acho que é uma coisa tremenda a gente compartilhar a história, e principalmente compartilhar as histórias da classe trabalhadora, né?
R- E através de compartilhar essas histórias da gente, indivíduo, a gente vai percebendo assim que, na real, é muito semelhante, né?
R- Que a gente vem de lugares muito diversos, mas que as tendências são da história do país, na real.
R- Então, acho um tremendo de um projeto, mas eu sou a Dandara, Dandara de Araujo Pinto, tenho 31 anos e nesse momento eu sou de Minas Gerais, aqui de Belo Horizonte.
P/1- E onde você nasceu?
R- Eu nasci em Rondônia, numa cidade chamada de Paraná, que é uma das maiores cidades do estado, lá na Rondônia, coração devastado da Amazônia, mas rodei muito e no fundo me considero mineira.
R- A real é essa.
P/1- E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R- Não me contaram muito como foi o dia do meu nascimento, mas me contaram que eu não queria nascer, aparentemente, que eu não virei para nascer, não encaixei, fiquei sentada.
R- E aí, minha mãe precisou fazer uma cesárea e não sei, eu tenho a impressão de que isso fala tanto de mim e da minha vida, eu sentei para nascer e prefiro ficar sentada desde então.
P/1- Por que isso diz tanto de você?
R- Não sei, eu acho graça, assim, que eu sou uma pessoa sossegada, sabe?
R- Uma pessoa...
R- Eu tenho muita energia, assim, e é da minha criação mesmo, assim, de querer estar no meio do povo, coletivo e não sei o quê, mas ao mesmo tempo eu gosto muito de sossego, eu gosto muito de silêncio, tá passando um caminhão aqui que não deixa mais ficar em silêncio, e aí eu fico pensando que coisa, né?
R- A pessoa até pra nascer teve preguiça, até pra nascer preferiu o sossego.
P/1- E você sabe como o seu nome foi escolhido?
R- Sei, é uma tremenda história.
R- Eu sou parte do MST, do Movimento Sem Terra.
R- E meus pais, e eu nasci no MST, meu pai e minha mãe eram militantes, são militantes até hoje do MST, e na época lá em Rondônia, como até hoje, o MST nasceu uma das fontes, inspirações e bases do movimento foi a igreja católica através das suas pastorais, principalmente a Comissão Pastoral da Terra, e essa parcela mais engajada, mais à esquerda da igreja.
R- Então, na época, lá em Rondônia, a gente tinha muita relação com algumas freiras religiosas da igreja.
R- E, na busca de um nome, enfim, tinha vários nomes possíveis, e...
R- Uma freira específica.
R- Inclusive, no ano passado, eu encontrei ela aqui em Minas Gerais.
R- Nós fomos visitá-la, eu e meu pai.
R- Ela sugeriu esse nome, Dandara, trazendo a história do quilombo dos Palmares, da resistência dos povos negros escravizados no Brasil.
R- E meu pai e minha mãe já tudo engajado na militância e não sei o quê, né
R- Gostaram muito e fui batizada assim.
R- E é legal, assim, essa conexão, sabe?
R- Retomar, meu pai conversa muito com ela pelo WhatsApp e tal, e aí quando ela veio aqui em Minas, a gente foi lá encontrar, foi emocionante, meu!
P/1- Como foi esse encontro para você?
R- Ah, muito emocionante, porque assim, são pessoas, não só ela, sabe? Tinham outras irmãs lá que conhecem meu pai e minha mãe de outros tempos, foi numa casas mesmo da igreja, sabe?
R- Que a gente se encontrou aqui agora, ano passado.
R- E muitas delas, assim, acompanharam várias coisas da história nossa do movimento, da história da minha família.
R- Então, a gente conversou muito, tinha muito o que conversar, assim, e cantamos muito, porque meu pai, o nome dele é Zé Pinto, ele é compositor, é cantor popular, e compôs muito pro movimento nesses 40 anos.
R- O grande volume de composição mesmo das músicas que o Sem Terra cantamos é dele, tinha a autoria dele.
R- Mas é uma autoria também coletiva, no sentido de que são sínteses de debates coletivos e também de uma sensibilidade que a gente cultiva coletivamente. Mas enfim, elas acompanharam até a composição de algumas músicas.
R- Aí elas falavam, canta aquela, essa aqui foi composta lá na nossa casa, lá em Rondônia, e não sei o quê. E aí a gente foi jantar, e aí elas falaram, vamos rezar. E as irmãzinhas tudo assim ao redor da mesa e tal, eu e meu pai.
R- Elas falaram, vamos rezar.
R- Zé Pinto, canta aquela música sem medo de ser mulher.
R- Essa foi a reza.
R- Essa música foi composta lá em Rondônia, na casa delas, inclusive meio que a pedido delas, que na época tinha, se não me engano, era da CUT, vinculada à CUT, pode ser que eu esteja errada, uma organização de mulheres, foi antes ainda do MSD surgir em Rondônia, e esse povo foi quem ajudou a criar o MST em Rondônia.
R- E aí elas precisavam de uma música.
R- Minha mãe também estava nesse rolê dessa organização. Precisava de uma música.
R- Ia ter um encontro das mulheres e ele compôs essa música sem medo de ser mulher. E elas falaram, Zé Pinto, canta essa música. E essa foi a reza antes da janta.
R- Então, muita história, sabe? Tem um negócio, assim, de uma conexão.
R- Mesmo que não seja na mesma organização, mas na mesma trincheira, né?
R- Que a gente pode passar muito tempo sem se ver e não perde, tem uma identidade, tem uma história, tem eu não sei o quê.
R- Então pra mim foi emocionante demais, e uma aula, no fundo, fiquei sabendo de um tanto de coisa, essa história mesmo da composição dessa música, que nós cantamos o tempo todo, em todos os estados, e que eu não sabia como era essa história, então foi um aprendizado também é bonito.
P/1- Você quer contar alguma dessas histórias que você aprendeu lá?
P/1- Conheceu?
R- Eu acho que a mais impactante para mim foi essa, sabe? Da composição dessa música.
R- Porque ela é muito cotidiana para nós, e, inclusive, aponta pra nós, enquanto MST, porque a tarefa de pensar a música no movimento, nosso fazer musical, que é um trem muito central para nós.
R- Do ponto de vista das artes, é a nossa linguagem mais familiar, mais cotidiana, especificamente a música. Eu tô entrando numa tangente imensa aqui pra contar uma história. Mas o caso é que o MST foi fundado formalmente em 84.
R- Esse ano é o ano dos nossos 40 anos.
R- O nosso primeiro registro em áudio, nossa primeira gravação de músicas autorais de militantes do MST, de 85. Um ano depois.
R- Que é o Dor e Esperança, aquela história, fita cassete, gravada no quintal, com a galera, muitos estão ainda na militância do movimento até hoje e tal, e em, se não me engano, 2015, nós fizemos toda a remasterização, re-lançamos o Dor e Esperança com essas composições.
R- Então, a música é muito íntima pra nós, é muito cotidiana, é muito natural, assim.
R- E aí, o fato da gente relembrar a história dessa música, né, Sem Medo de Ser Mulher, que é uma música que fala da luta das mulheres no… Ainda não era a MST lá em Rondônia, mas é a mesma luta que nós travamos, né? A luta de mulheres camponesas, etc, etc.
R- E essa música foi composta por um homem, um companheiro, que sempre deu suporte pra luta das mulheres no movimento, compôs outras músicas pra nós também, mas...
R- Nos últimos anos a gente vem fazendo muito esse debate no campo da música, daí eu tô falando da música porque essa, nesse momento, é uma das minhas tarefas no movimento.
R- Nós temos a nossa frente de música João do Vale, que tem o propósito de organizar e elaborar com mais aprofundamento sobre essa tarefa. E a importância da gente formar, projetar e dar espaço para mulheres compositoras na organização.
R- Isso é um debate que nós estamos fazendo muito.
R- Não porque não é tão necessário, importante, uma tremenda contribuição o esforço dos companheiros que compuseram sobre a luta das mulheres e a questão de gênero, mas porque também o nosso olhar para a luta, o nosso olhar para a organização, o nosso olhar para a vida é importante.
R- Então, isso é uma das coisas que nós estamos apontando como uma grande prioridade para nós, e aí conhecer essa história foi me também provocando essas coisas, porque embora é uma composição de um homem, mais uma vez é isso, o nosso fazer é muito coletivo, mesmo que uma pessoa é quem elaborou ali no papel, é síntese de debates coletivos, e nesse caso foram as mulheres que pediram essa síntese, que trouxeram essa necessidade, esse debate.
R- Então, ainda assim tem o nosso olhar.
R- Enfim, pra mim foi marcante escutar essa história.
P/1- E como você descreveria o seu pai? Como é o jeito dele? O que vocês gostam de fazer juntos? Tem alguma história marcante com ele que traduza ele pra você?
R- Ai, meu pai, vamos sistematizar.
R- Talvez a palavra assim, meu pai é uma figura.
R- Talvez essa seja a palavra que melhor sistematiza, porque meu pai, ele é um tanto de coisa, ele é um camponês, assim como minha mãe é uma camponesa de nascimento e formação e profissão de fé.
R- E.
R- O desejo e o bem-querer de trabalhar na roça, né? Meu pai, ele também é chorão, tem essa outra coisa. Então, às vezes, ele se emociona mostrando as coisas pra gente, sabe? De que é o limão e que é não sei o quê, e ele aponta assim, com dois dedos. Minha mãe fala que quando tem uma plantinha nascendo, uma frutinha não sei o quê, você não pode apontar com um dedo, que morre. Essas coisas da roça, né?
R- Então ele aponta assim com dois dedos.
R- Ah, porque aqui é o limão e aqui é os abacaxi, aqui não sei o quê. E ele se comove, sabe? Você vê que o bichinho fica com um nó na voz assim.
R- Então acho que o camponês é a primeira coisa.
R- É um artista, no sentido de uma pessoa que cultiva suas sensibilidades e que expressa a partir da arte. Essa sensibilidade e o seu olhar para o mundo, e o que está entendendo dos debates que a organização está fazendo, e o seu olhar para a vida.
R- Então, um artista nesse sentido, sabe?
R- De uma pessoa sensível.
R- O bicho é teimoso. O bicho é teimoso. Que só! Mas… Ele é teimoso, mas ele é um cara que aprende. Meu pai fez agora 64 anos. Desses, quase 40, que quase é a trajetória inteira do MST, é dedicado ao movimento. Ele estava na fundação do MST em Rondônia, ele e minha mãe.
R- O MST aprendeu muito nesses 40 anos, avançou muito.
R- Mesmo isso, a questão da participação das mulheres, o tanto de tema que as mulheres fizeram e ocupar os espaços para poder ser percebidas como sujeitas na organização.
R- Agora, mais recentemente, nos últimos 10 anos, nós estamos fazendo com muita força o debate dos sujeitos LGBT, dentro da luta de classe, dentro da luta do movimento, dos negros e negras, e assim, então, cada passo que nós vamos dando na organização, os debates que nós vamos acumulando, ele, que é da Rosa, que é formado por uma família que, inclusive, assim, muito impressionante, uma família que sempre foi muito progressista, sem formação política nenhuma, assim, mas formal…
R- Mas meu avô e minha avó sempre foram muito progressistas, no sentido de...
R- Bom, eu tava dizendo, né, que às vezes a gente conta a história da gente, reconta um pouco a história do país, e é isso muito, sim, a história da minha família, né?
R- Meus avós...
R- Por isso que eu me considero mineira, minha família inteira é mineira, meu pai, minha mãe, todos os meus avós, todo mundo. Minha irmã é mineira, minha irmã mais nova é mineira, só eu que não.
R- E aí, então, meus avós aqui em Minas, camponeses, mas sem terra, né, camponeses sem terra ainda, né, não tinha essa identidade sem terra que o MST construiu, mas de fato, né, sem terra.
R- Expropriados da terra.
R- E como muitas milhares de outras pessoas foram expulsos daqui do Sudeste, em alguma medida,expulsos pela necessidade mesmo, né, das grandes campanhas ideológicas do governo militar, da ditadura, daquela época da campanha da terra sem homens para homem sem terra, da colonização da Amazônia. Então, meus avós paternos migraram primeiro para o Mato Grosso, depois para a Rondônia, na década de 70.
R- E a família da minha mãe, que era da mesma região aqui em Minas, migrou nos anos 80 pra lá.
R- Inclusive, as famílias se conheciam aqui em Minas.
R- Quando meu pai e minha mãe se conheceram lá em Rondônia, meu pai conhecia o pai da minha mãe.
R- Então, a gente tinha uma conexão.
R- Mas, enfim, camponeses que tiveram que migrar em condições...
R- As histórias não seriam contadas bem com muita parcimônia, porque é uma história de muito sofrimento, nem sempre as pessoas querem falar de muita pobreza, de fome e de muita negação.
R- Pão comum, meu pai e minha mãe, ambos perderam irmãos na infância, que era normal criança morrer.
R- Criança às vezes morria de quê?!
R- De uma febre?
R- Ninguém sabia o que era.
R- Tem todo esse histórico e ainda assim, eu não sei, eu queria saber o que que em alguma medida radicalizou o meu avô e minha avó, provocou eles a participar, mas enfim, era essa campanha de colonização da Amazônia, então tinha o confronto dessa ocupação desses camponeses pobres do território, que sim, tinha gente e os povos indígenas, e era comum, aquela velha história de matar índio, que o índio é bravo, não sei o quê.
R- E meu avô, por exemplo, era um homem a frente do seu tempo, sempre foi contra isso, de matar bicho. Meu avô se comovia demais com as coisas, meu avô também era cantador, cantava na família.
R- Então, esse é o povo que formou meu pai, essa história de pobreza imensa, de trabalho, Ele é um dos mais novos, então, tem muita coisa que ele não...
R- Acabou não pegando, né, os irmãos mais velhos dele, que ele tem muito, assim, uma admiração e um respeito imenso pelo trabalho que tiveram, sabe?
R- Para criar, inclusive, ajudar a criar os mais novos.
R- Mas, ao mesmo tempo, essa delicadeza, essa sensibilidade com a natureza, com as pessoas, meu avô com a música, minha avó sempre gostou de fazer teatro, teatro na igreja. Então, ele é fruto dessas tantas coisas.
R- Eaí, ele tem ainda cargas muito conservadoras de como é que a gente olha, principalmente para esse debate das identidades, dos diferentes sujeitos, mas ele aprende. Por exemplo, essa questão das sujeitos LGBT, se organizando dentro do movimento.
R- Ele nunca foi contra, e ele nunca falou mal. Mas nós já tivemos...
R- E ele nunca teve um preconceito direto com as pessoas. Mas nós tivemos alguns embates de concepção, eu e ele.
R- O que é expressar...
R- Porque eu também sou uma pessoa bi.
R- O que é expressar a sua sexualidade, a sua identidade de gênero e não sei o quê.
R- E nós tivemos embates.
R- E só que ele banhou pra ele esse debate num grau, que ele, aí pronta, não sei se tem a ver comigo, com a minha irmã, que ele não tem uma filha heterossexual sequer, e também com o avanço no movimento do debate e tal, mas ele pegou aquilo pra ele.
R- E ele começou a cantar, fez música, compôs música para o coletivo LGBT e se emociona. Nós tivemos, acho que ano passado, uma reunião aqui em Minas Gerais das pessoas LGBT de Minas, que estavam ali num outro encontro, e ele participou.
R- Enfim, não convém aqui nós ficar… mastigando estrutura de como a MST funciona.
R- Mas nós temos uma direção nacional, que os nossos coletivos, setores e estados compõem. E quando foi homologada a participação do coletivo LGBT na direção nacional, teve que ter uma cadeira fixa na direção nacional, ele estava nessa reunião grande da nossa coordenação nacional e ele chorou tanto
R- E aí, quando ele vai cantar o caso, ele torna a chorar, sabe?
R- Dizendo, olha, já vi muita coisa no passado dessa organização de preconceito, de não sei o que … não sei o que … e agora, o reconhecimento do espaço que os sujeitos LGBT ocupam na organização. Então, ele é um cara que aprende, porque ele cultiva a sensibilidade dele.
R- Esse é o Zé Pinto, um pouco, o panorama. É só vendo pra crer.
P/1- E a sua mãe, qual que é o nome dela também?
R- Minha mãe se chama Matilde, também é sem terra.
R- E minha mãe … quisera eu ser parecida com a minha mãe.
R- Queria muito! Ser um pouquinho assim, uma fração, da força da natureza que a minha mãe é, sabe? A minha mãe se tornou, no movimento, uma dessas figuras que, quando ela fala, a gente escuta.
R- Todo mundo escuta.
R- Porque ela é, primeiro, profundamente estudiosa, de uma disciplina imensa, minha mãe tem um pragmatismo que é da família dela, um pragmatismo delicado, sensível, que é da minha avó, que também é isso, essa mesma história de sofrimento, de negação, de fome, de expropriação da sua terra, de migrar para outro estado para conquistar a terra, para criar seus filhos e não sei o que, minha avó nunca aprendeu a ler e escrever, ela aprendeu a assinar o nome, isso é a história de muitas avós e avós, mas principalmente das mulheres, né?
R- E ela tinha um pragmatismo assim, que admirava muito.
R- E minhas tias são todas assim e minha mãe é assim. Que pra mim é um exemplo grande desse pragmatismo da minha avó, a minha tia, uma das mais velhas, porque minha mãe também está entre as mais novas. Uma das mais velhas, ela teve câncer de mama, minha avó já estava bem idosa, meu avô já tinha falecido, e ela sofreu muito.
R- Elas foram morar na cidade perto da minha outra irmã, minha avó, e essa minha tia, doente.
R- Ela sofreu muito, ela viveu períodos bons e ruins na trajetória desse adolescimento.
R- E minha avó já era mal, meio acamada e tal.
R- E aí, quando minha tia faleceu, que aí foi um pouco assim...
R- Como é que comunica isso pra avó, sabe?
R- Na fragilidade que ela já tá e tal.
R- Ela ainda andava um pouco, depois, mas pro fim da vida ela já não andava mais, mas ela tava de pé, ela tinha uma bengalinha.
R- Essa história que eu escutei, eu não tava.
R- Mas aí minhas tias, não sei se minha mãe tava nessa hora, contaram pra ela.
R- E aí, disse que ela sentou na cama e falou assim, graças a Deus.
R- Porque, enfim, foram muitos anos de sofrimento, de idas e vindas, assim.
R- E aí, esse é o pragmatismo da minha avó, que não é insensível, que não é rígido, né?
R- Seco, mas é um pragmatismo da vida, de quem perdeu muitos filhos, inclusive, antes de morrer, de quem teve que fazer escolhas difíceis.
R- E aí, minha mãe, minhas tias, meus tios são...
R- Minhas tias mais, as mulheres herdaram bastante.
R- São assim.
R- Então, minha mãe tem uma tranquilidade, no encarar a vida e uma disciplina e uma formação para o trabalho, que às vezes é inclusive desgastante, é adoecedor, que dá a ela uma disciplina, uma firmeza e um sossego.
R- Minha mãe acho que sofre muito pouco, eu acho admirada, porque herdou esse pragmatismo, sabe?
R- Minha mãe sonha com coisa e vai lá e faz, Sabe, ela não sofre com aquela mirada no horizonte distante, que tudo é tão difícil.
R- E ela acredita nesse projeto da reforma agrária popular e do socialismo, e ela luta por isso todo dia. Então, ela é uma pessoa que, em alguma medida, sofre pouco, porque ela pega as coisas na mão dela, de fato.
R- E é muito estudiosa.
R- Minha mãe é do Centro de Educação do MST.
R- E… Muito camponesa também é isso, eu acho que o camponês e a camponesa é o que primeiro descreve, sabe, meu pai e minha mãe.
R- Então, a vida dela em casa, que agora eles estão na roça, né, mais uma vez, a vida dela em casa é plantar suas plantinhas, a flor ao redor da casa, mas também o feijão e as frutas e não sei o quê, isso também meu avô, tinha muito isso, meu avô, pai da minha mãe e meu pai. Tinha uma amizade grande, assim, depois que eles se casaram, um respeito grande, um companheirismo, assim, porque meu avô era plantador de árvore, de fruta.
R- Ele gostava de plantar fruta. A casa dele atrás tinha um caminhãozinho assim, do lado de cá e do lado de lá, cheio de frutas.
R- E é uma sabedoria, né?
R- Quando meu avô morreu, minha mãe falou no velório dele, e uma coisa que ela falou foi assim, que ele plantou, muitas daquelas árvores sem saber se frutificariam a tempo dele aproveitar dos frutos, mas ele plantava árvores para o futuro também.
R- E meu pai tem muito isso também da agroecologia, da fruta e do alimento, né?
R- Então, eles eram bem companheiros.
R- E minha mãe tem um pouco isso também, né?
R- Do plantar, do plantar futuros, assim.
R- E...
R- O que mais? E a disciplina, e a seriedade, e o estudo, e o sacrifício, né?
R- Isso é uma criação para o trabalho que ela teve.
R- E ela tem até uma alegria, assim, no sacrifício, às vezes, né?
R- Um cansaço imenso, mas ela não para.
R- O povo faz piada com ela, sabe?
R- Que no intervalo de uma reunião, ela chama pra outra reunião. Todo mundo faz essa piada com ela.
R- Mas é isso, né?
R- É a disciplina e o acreditar no que ela faz, nesse sonho que nós sonha coletivamente, projeto de futuro, né?
R- Então, eu queria, viu?
R- Queria ter metade da moral, que minha mãe tem e da disciplina.
P/1-E você disse que eles se conheceram em Rondônia. Você sabe essa história, como foi, como eles começaram, decidiram estar juntos?
R- Eu sei, assim, meio aos pedaços, sabe? Dá pra entender o panorama.
R- Porque é isso, eles se engajaram, jovens, né?
R- Ainda não existia o MST, lá no estado, mas nas pastorais, no sindicato dos trabalhadores rurais, no PT, na época, na CUT, nessas organizações de base ali mais locais e tal, eles eram os dois muito engajados, e eles se conheceram foi nesse rolê, assim.
R- Minha mãe conta uma história, daí eu não lembro de onde eles estavam indo, pra onde que eles estavam vindo, é isso que eu não lembro.
R- Mas era indo de algum lugar, de alguma atividade mais coletiva, ou voltando de alguma atividade mais coletiva, e daí eles já tinham meio que se conhecido, se visto e tal, e aí minhas tias, também participavam, e algumas amigas dos meus pais, que até hoje estão também no movimento.
R-E aí, não sei se já estava rolando um clima, ou se o povo estava querendo provocar um clima, sabe?
R- Mas estavam indo assim, e aí o pessoal ficou, não, mas a Matilde vai com o Zé Pinto, de moto.
R- E aí...foram de motinha, os dois.
R- E aí, foram, diz que se conversando, e aí que meu pai descobriu que ele conhecia o pai da minha mãe.
R- Sabe, de onde você é, onde você mora.
R- Aqui em Minas a gente fala, você é filho de quem?
R- A gente conhece as pessoas pela família, né?!
R- E aí, porque o Salvador, meu avô, que era ferreiro, meu avô era ferreiro bom, famoso.
R- Aí meu pai conhecia, ele falou, ah, o seu Salvador, que é ferreiro, e não sei o que, já tinha uma conexão, sabe? E as famílias se conheciam daqui.
R- Inclusive, teve momentos de crise, assim, meu vô, pai, vô da minha mãe era juiz de paz aqui em Minas, e tinha umas contendas de terra, onde era o limite da terra de um de outro, nem sei a história completa. Mas enfim, então tinha a conexão daqui, daí lá meu pai conhecia, meu avô e não sei o que, aí assim, não sei como foi o dia que eles decidiram de namorar, mas já tinham a conexão, sabe, da militância, da família, então também tinha muito em comum.
R- Meu pai e minha mãe, eles sempre falam assim, que eles têm as divergências deles, que eles discordam, que não sei o que, mas que no que é fundamental, eles nunca discordaram. O que é fundamental, o que é projeto de vida, eles sempre estiveram firmes de acordo.
R- Então, tinha isso de base pra começar _______ de relacionamento.
R- Não tinha, acho que não tinha outro caminho, sabe? E foram se gostando e tinha muito em comum pra poder se gostar.
R- A história. É bom a história.
P/1- E você tem irmã?
R- Eu tenho.
P/1- Como é a sua relação com ela?
R- Eu tenho uma irmã mais nova, o nome dela é Moara.
R- Ela é quase oito anos mais nova que eu.Como eu pedi essa irmã?
R- Eu implorei por essa irmã.
R- Mas é aquilo, né?
R- Irmão tem suas tretinhas, suas implicâncias, não sei o quê.
R- Mas hoje a gente é muito amiga, muito confidente, muito besta. Eu sempre falo, a gente é mais imbecil, mais besta quando a gente tá junto, sabe?
R- A gente divide um mesmo neurônio quando a gente tá junto. E é bom, ela gosta de cantar também, ela é bem musical.
R- E aí… ela estudou um tanto de instrumento e ela não tem paciência para nenhum, ela gosta de cantar.
R- Ela mora aqui em BH também, então a gente consegue se encontrar de vez em quando, ela é companheiro dela, meu cunhado, e é bom ter uma irmã, foi bom o tanto que eu implorei por essa irmã, porque é uma… uma parceira, assim, infalível, sabe?
R- Eu já liguei pra essa Moara pedindo pra ela vir na minha casa me ajudar com coisa, assim, muito besta.
R- Desesperada.
R- Moara, me ajuda.
R- E ela se bateu e veio, sabe?
R- E aí, ela é uma figura, assim, é uma Moara mais do que eu, que acaba que eu tenho uma identidade camponesa, assim, mas eu fui criada muito na cidade. Meu pai e minha mãe, com essa militância no movimento, viajaram muito. Nós moramos em muitos estados do Brasil, a família, e boa parte desse tempo na cidade.
R- A gente só morou na roça em Rondônia, enquanto família, né?
R- E aí, então, eu como era mais velha, acabei vivendo mais esse ciclo de pra lá e pra cá.
R- Então, tem um monte de coisinha da vivência na roça que eu não tenho.
R- E a Moara, não, a Moara a gente já tava mais, né, aterrado ali enquanto família, lá em Rondônia de volta, e que nós viemos embora daí, e voltamos pra Rondônia.
R- E a Moara viveu muito mais trabalho na roça, não sei o que, então a Moara é uma camponesa, ela mora aqui em BH, e ela estuda agroecologia numa escola nossa, lá no Paraná, Escola Latinoamericana de Agroecologia.
R- E aí, é ruim porque ela fica três meses lá, daí depois volta e fica só três meses aqui. É tipo, três meses lá demora demais, mas três meses aqui passa muito rápido.
R- Aí o quintal dela, ela tem um terreiro na casa. Mas é tudo concretado, é cimento. Só que ela arrumou um tanto de vaso e panela véia e máquina de lavar roupa cortada no meio e ela tem uma… a agrofloresta quase na casa dela, sabe?
R- Ela tem pé de abacate na casa dela, ali no concreto.
R- Abacate, amora, lichia, não sei mais o que. Tudo dentro da cidade, ali na casa dela.
R- Ela tem um minhocário, que ela cria as minhoquinhas dela e...
R- sabe?
R- Então ela...
R- Muito mais do que eu, ela tem essa característica mesmo da roça, assim, de camponesa, de plantar, sabe?
R- E ela dá o jeito dela.
R- É aqui na cidade, mas ela se organiza.
R- E agora ela tá aprendendo um tanto de coisa do ponto de vista mais técnico, né, no curso, aí é que ela brilha, que ela consegue tomar melhor de conta do trem dela e do esquema.
R- Então, é uma...
R- É uma figuríssima, e ela está no movimento também, está estudando agora, como ela está estudando agroecologia, ela contribui mais no setor de produção, mas sempre nas coisas da juventude, da cultura, ela contribui muito também no movimento.
P/1- E Dandara, me conta da sua infância, já entendi que foi bem movimentada, mas assim, se você puder descrever as memórias mais marcantes, assim, o que você lembra de momentos juntos ou uma cidade mais marcante dessa movimentação toda?
P/1- Você tinha tempo para brincar? Enfim, como foi esse período?
R- Tempo para brincar era o que eu mais tinha da vida. Minha infância foi muito e hoje, eu com 31, eu não abriria mão, assim, do como foi, sabe?
R- Mesmo das coisas que apareciam pra mim como meio ruim na época.
R- Porque foi muito formador.
R- Primeiro foi muito dinâmica, porque a gente se mudou muito, né?
R- A gente morava em Rondônia, eu nasci em Rondônia, e a gente morou em Rondônia até os meus três anos. E ali a referência era a casa do meu avô e da minha avó. Meu pai e minha mãe tinham uma casa na cidade.
R- Ouro Preto do Oeste, Rondônia.
R- Sei lá, 26 mil habitantes.
R- E ali próximo o lote do meu avô e da minha avó, que é dessa época da colonização do INCRA.
R- Então, a referência ali. Ninguém acredita em mim. Ninguém acredita.
R- Mas eu juro que eu lembro, de quando não tinha asfalto lá na frente, e eu lembro de quando não tinha energia elétrica, que aí a gente usava a lamparina.
R- Mas era ali a referência.
R- Gente, menino na Roça é um trem espetacular, solto no mundo, comendo de tudo ali do pé e mexendo em tudo. Muito tio, muito primo, minha família é muito grande, a família camponesa era muito grande, né?
R- Então, muito primo, um caso.
R- E aí, quando eu tinha três anos, a gente veio para Minas Gerais.
R- Isso é outra coisa que me deu muito, assim, uma identidade mineira. Primeiro que era o que a gente vivia em casa, né?
R- Que é como se come, como se falar e tal. E segundo que a gente veio para Minas, eu tinha três anos. E quando a gente saiu daqui, eu tinha… 10 para 11 anos, eu acho.
R- E um choque um pouco de realidade, porque a gente saiu da roça lá, em Rondônia, e aqui a gente veio morar na favela. Foi uma vinda que foi motivada pelo movimento. Minha mãe e meu pai, principalmente minha mãe, viajavam muito em Rondônia, Até hoje, Rondônia é muito isolada, né, do ponto de vista da distância. Muito caro, né?
R- E muito cansativo.
R- Nessa época, ninguém da MST viajava de avião, era ônibus.
R- Então, você pensa bem, um ônibus pra vir de Rondônia para São Paulo e, sei lá, de Rondônia para Brasília.
R- Então, nós viemos mais para o centro do Brasil, e aí a opção foi vir pra mim, nas opções dos meus pais, né? Por causa da conexão da família. Então, minha mãe ainda tinha tios e tias aqui, meu pai até hoje tem.
R- E essa conexão com o território, que é o território deles.
R- E aí, minha irmã nasceu aqui.
R- Outra realidade, né?
R- Da favela, nós morávamos em Betim, no Jardim Teresópolis, para quem conhecer. E foi onde minha irmã nasceu.
R- E minha mãe, principalmente, se preocupava muito com a violência urbana, e não sei o quê, não sei o quê. Eu lembro assim que eu tinha, sei lá, meus sete anos, daí eu aprendi a andar de bicicleta, ganhei uma bicicleta, e nossa rua era um beco curto. Aqui já passava uma avenida, e aqui era uma curvinha que o beco continuava, tipo, acabava aqui e virava e seguia.
R- E era curto.
R- Se eu virasse a curvinha aqui, minha mãe vinha correndo atrás de mim. Ela não deixava eu virar curvinha sozinha.
R- E pra ir pra escola a gente caminhava um tanto assim, só que aí tinha as filhas e filhos ali da vizinhança que ia todo mundo pra escola junto, daí eu ia de galera pra escola e voltava.
R- Então assim, era bem outra realidade e em especial minha mãe se preocupava muito, mas na real nunca tivemos problema ali, né?
R- Nós fizemos amizade com a vizinhança, todo mundo.
R- Minha mãe é muito boa praça.
R- Minha mãe é muito gente boa, minha mãe é muito simpática.
R- Ela faz amizade com todo mundo.
R- E meu pai, ele é mais tímido, mas ele é gente boa pra caramba, né?
R- O cara do cabelo grande, que campa, das roupas meio hippie. E aí, nós fizemos muita amizade, assim, de gente que inclusive ficou significando muito para nós, assim mesmo, até hoje. Eu, quando voltei para Minas, retomei o contato com as coleguinhas dali, que eram mais ou menos da minha idade, e a gente ainda meio se conversa no WhatsApp e tal.
R- E daí, de Minas, a gente foi pro Rio Grande do Sul, porque minha mãe...
R- Lá no Rio Grande do Sul, a gente tinha uma escola em Veranópolis, que recentemente foi mais pro interior, pra uma área nossa agora, pra viamão, dentro de um assentamento, antes era na cidade, em Veranópolis, que era o Iterra, que recebia, recebe cursos de formação mesmo formal, técnica, né, de administração de cooperativa e cursos de magistério, e minha mãe estudava magistério na época, primeiro eu estudava magistério nesta escola, e quando minha irmã nasceu, eu tava pra nascer, foi que ela terminou, em 99, eu acho.
R- E a gente ia muito pra lá, eu mesma tinha muita referência lá.
R- Eu passei meses e meses e meses, se for contar o tanto de tempo que eu passei lá, dá anos.
R- Antes mesmo da gente se mudar.
R- Muito informativo pra mim, foi ali dessa escola que surgiu e se irradiou, o debate da Ciranda Infantil no MST, que é uma elaboração sobre o que é a infância sem terrinha, como sujeito, não só como uma futura pessoa, uma pessoa em formação, mas uma pessoa já, sujeito da família, sujeito também da luta e qual é o espaço que precisa, tanto para a formação e organização dessa infância sem terrinha, mas também garantir a participação igualitária dos homens e das mulheres nas atividades.
R- Porque nem quer queira quer não, até hoje, o peso da criação das crianças recai mais sobre as mulheres, e para garantir essa paridade de gênero nos espaços, tinha que ter um espaço tranquilo e de confiança, que as mães pudessem deixar as crianças.
R- Mas além para mais do que um espaço de um depósito de criança, uma creche, seja o que for, lembro da época da creche, não tinha creche. Essa elaboração da Ciranda Infantil foi um espaço de formação e participação, um espaço mais lúdico, mais de formação política mesmo, sabe? Formação humana dos sem-terrinha.
R- E tem uma história aí de que eu fui uma das, ou eu fui a, ou uma das, eu não sei, primeira criança da Ciranda dos sem-terra.
R- Tem essa história.
P/1- Conta pra gente isso, por favor!
R- É que é isso, né? Minha mãe fazia magistério no____. Eu era pequena, não ia para a escola ainda, daí eu viajava com ela, de Minas para o Rio Grande do Sul.
R- E aí, então, eu ainda lembro da creche.
R- Tinha uma creche.
R- Ela chamava creche. E a gente ficava ali, os tios cuidavam, enfim...
R- É onde o pé pisa mesmo, não tem jeito.
R- Nossas brincadeiras eram assim.
R- Claro, a gente brincava de coisa normal também, de criança. Mas era assim, vamos fazer uma reunião. Aí sentava tudo ao redor de uma mesinha pequenininha que tinha lá. Vamos fazer uma reunião de crítica e autocrítica.
R- Eram as coisas que a gente aprendia.
R- E aí, é claro que eu era muito pequena, eu tinha acho que quatro anos.
Quando teve início no setor de educação esse debate da ciranda infantil e do que era a infância sem terrinha, sem terrinha como uma identidade, como um sujeito.
R- Sem terrinha com letra maiúscula, né?
R- E aí, o espaço da ciranda, eu não sei se o primeiro e primeiríssimo foi aqui, ou se foi no primeiro Encontro Nacional de Educadores da Reforma Agrária, não sei, mas sei que tem uma cartinhazinha do setor de educação, que tem uma entrevistazinha minha lá com quatro anos, falando que a Ciranda é legal, porque a gente brinca disso e brinca daquilo, não sei o quê, e tem brinquedo e tem comida.
R- E aí, reza a lenda, que eu sou uma das primeiras, ou primeira, não sei como é a dinâmica, como foi a história da Ciranda.
R- E sou cria da Ciranda mesmo, formadíssima Ciranda infantil, que é um trem que forma mesmo identidade e autonomia das crianças, sabe? A criança sem terrinha é o cão, é um bicho muito autônomo, de muita dignidade, é um bicho de orgulho, né?
R- E a Ciranda tem muita responsabilidade nisso.
R- Eu me emociono muito com os trens da Ciranda.
R- Mas enfim, lá no Rio Grande do Sul era isso, a vida assim de ir para lá sempre, então me formei muito lá, mesmo antes da gente ir morar lá, tinha sotaque.
R- E aí, a gente foi morar lá, quando eu tinha uns 10 para 11 anos, eu acho.
R- Porque minha mãe terminou o magistério, e aí ela começou o curso de pedagogia, que era ali também no_____, com a UERG lá no Rio Grande do Sul, e ela foi convidada a compor a coordenação ali do instituto, da escola, coordenação geral, político-pedagógica da escola.
R- E aí, então, nós fomos tudo, eu e minha irmã, minha irmã tinha uns três anos, e a minha irmã tinha sotaque pra caramba, a Moara tinha muito sotaque gaúcho, porque ela tava aprendendo a falar, né, Começou a ir pra escola no Rio Grande do Sul, mas você imagine.
R- Era muito engraçado.
R- E ali, outro choque de realidade.
R- Enfim, por isso que eu digo, eu não abriria mão hoje, olhando pra trás, de como foi minha formação. Mas, na época, tinha coisa que eu achava muito ruim. Então, isso de ir de um lugar pro outro, de um lugar pro outro, de desenraizar, perder algumas conexões, ter que refazer as amizades.
R- Eu sou tímida.
R- Eu sou uma pessoa tímida, eu era uma criança tímida.
R- Cara de pau e tímida, como é que… Não sei.
R- Como é que funciona isso? Filha do Zé Pinto, ele é assim.
R- E às vezes eu ficava magoada assim, que meu pai e minha mãe viajavam muito, então… Ah, não sei, uma atividade na escola, talvez eles não estavam lá pra ir...
R- Eu sofria, assim, mas hoje, olhando para trás, eu, se tivesse filho, se um dia tivesse, gostaria de uma formação semelhante, assim, no sentido de muito coletiva, de muito dinâmica, que torna a gente capaz de se adaptar, sabe? Que não é uma criança dependente e agarrada em pai e mãe, que sabe conversar e sabe se virar.
R- Tem uma companheira aqui do MST de Minas, que é a Soninha, que até hoje eu chamo ela de tia Soninha, que na época que a gente era pequena aqui em Minas, eu e minha irmã, ela ficava muito com a gente. Sabe, é muito legal ser formado pela coletividade dos Sem Terra, Tem muito tio e tia, muita mãe, muito pai.
R- Meu pai sempre fala assim, talvez se não fosse esse tanto de pai e mãe que nós temos em terra, talvez ele e minha mãe não tinham dado conta, sabe?
R- Ele fala isso.
R- Então, muita gente que quer ajudar a tomar de conta, que presta atenção, é a famosa aldeia para criar as crianças.
R- E aí, essa tia Soninha cuidava muito da gente, e ela adora até hoje, eu sou uma véia, e até hoje ela adora dizer, porque é um encontro assim assado, que nós estávamos aqui em Minas, e essa menina não sabia cadê a mãe dela.
R- E aí ,eu falo, tia Soninha, me ajuda a procurar a minha mãe.
R- E aí, nós fomos procurar a minha mãe.
R- Tipo assim, a criança que se vira, porque sabe que aquele coletivo é de confiança, porque conhece muita gente, porque tá acostumada a conversar com as pessoas, Por outro lado, eu andava muito com os adultos também, né? A criançada na ciranda e os adultos pro mundo afora.
R- Então, eu não abriria mão, acho que eu ia ser uma pessoa bem mais fraca das ideias, se não fosse essa coletividade.
R- E aí, do Rio Grande do Sul, uma fase meio complicada, porque daí eu fui pegando meus 12 anos, meus 13 anos, eu fiquei insuportável. Aí eu lia muito, e é uma idade que já não vai pra ciranda, né?
R- Mas que também não tinha muita idade ainda pra ter tarefa no movimento, daí eu ficava meio ali.
R- O _____ era meu, 100%.
R- Eu entrava em todas as salas, abria todas as portas, usava todos os computadores, e a biblioteca do ___era a minha maior companhia, foi bom demais isso pra mim, porque me formou uma leitura.
R- A Dandara de 12 anos, 13 anos, a Dandara de 5 anos, ia ter vergonha do tanto que a Dandara de 30 anos lê.
R- Eu lia muito, assim, agora as tarefas se interpõem, né? Mas daí eu lia muito, minha mãe me ensinou a ler em casa, eu tinha 4 anos, eu não sabia escrever e aí eu sabia ler, mas não sabia escrever, enfim. E muita gente no movimento me estimulou muito, principalmente, vou falar os nomes para deixar registrado, Edgar, Roseli, lá do Rio Grande do Sul, que são setor de educação do movimento, zelaram muito de mim quando eu era criança, gente adulta que faz amizade com criança, e até hoje zelam muito de mim, e que sempre andaram atrás de livro pra mim.
R- Em 97, eles me deram um livro que se chama Dandara, que é da Janaína Amada.
R- Que até hoje é um dos meus livros preferidos, é um espetáculo de livro.
R- Bem a brasilidade do realismo fantástico.
R- Enfim, sensacional.
R- Em 97, imagina, eu não tinha idade pra ler esse livro ainda, né? E assim como eles, muitas outras pessoas, enfim, foram me estimulando.
R- Daí eu lia muito nesse período.
R- E...
R- E era mais, assim, meu espaço maior.
R- Era o tempo da leitura, porque eu tinha...
R- Tava adolescente, estava estressada, não tinha muito espaço na ciranda, não tinha tarefa.
R- Daí eu ia pra um lugar e pro outro querendo ajudar.
R- Ah, meu pai, nessa época, tinha uma unidade de artes, na escola, e ele contribuía nessa unidade de artes, que o pessoal fazia de tudo, assim, de quadro e cortina, e inventava de tudo, experimentava com material, saía pra catar semente e não sei o quê, de tudo esse povo fazia.
R- E aí, eu ia lá ajudar, gastar os materiais da unidade de artes, ia pra Ciranda ajudar a olhar as crianças, assim, o ____ era meu, eu ia onde eu quiser, ninguém mandava em mim. Meu pai e minha mãe trabalhando e eu lá, soltando no mundo.
R- E olha, eu tenho...
R- Mesmo que eu tava, assim, numa fase muito chata, foram anos muito bons isso.
R- O ____ recebeu, pra mim, o explorar aquilo ali foi muito formador pra mim.
R- Muito, demais da conta.
R- Milhares de livros da biblioteca, um monte de gente pra conversar.
R- Que é isso, né?
R- Ter coletivo é um trem de doido mesmo.
R- O povo tudo conversava comigo.
R- Engraçado, né?
R- O povo tudo dava moral pras crianças, assim, de conversar e ficar escutando.
R- Gente do Brasil inteiro, passando ali de várias idades, várias perspectivas.
R- E tudo ficava dando moral pras crianças. A infância sem terra é muito boa de se viver, né?
R- E aí, gente, até hoje, sabe?
R- Agora mesmo encontrei...
R- Não, meu pai encontrou a Val Machada.
R- em Maricá, que dava aula lá no ______, e eu vivia atrás dela.
R- Eu falava que ela era meu bichinho, meu bicho.
R- E eu vivia atrás dela, e ela me dava maior moral. A gente conversava super, e ela super dava lado pra perspectiva da criança, sabe?
R- E aí, anos e anos e anos que eu não vejo ela.
R- Eu me lembro que vi ela a última vez em 2015. Agora meu pai encontrou ela essa semana, tirou uma foto, mandou pra mim e tal.
R- É aquele bem-querer que me deu, sabe?
R- Até hoje, meu bicho.
R- Então, muita gente que ajudou a me formar assim, a ser quem eu sou.
R- E daí, quando a gente saiu do ITE, do Rio Grande do Sul, nós voltamos pra Rondônia.
R- E aí, lá em Rondônia foi que nós ficamos, foi um lugar que a gente ficou muito, e ali foi que minha irmã também foi vivenciando mais essa vida na roça, né?
R- Eu logo saí também pra fazer o ensino médico, que ali na escola nossa da roça não tinha. E era um tremendo sacrifício, né? Pegar o ônibus da escola horas e horas, e aí eu fui morar com a minha avó, justamente minha avó, mãe da minha mãe, na cidade.
R- Minha avó, minha tia.
R- E aí...
R- Eu fiquei velha.
R- Aí eu fiquei velha e fui andando apartada da família daí, né? Por minha própria conta.
R- Rodei pra caramba também já e voltei pra Minas.
R- E a minha perspectiva de vir pra Minas, e aí foi, de certa forma, uma coincidência assim, mas também um esforço da gente se juntar, né?
R- Eu já estava em outro lugar, minha mãe e meu pai em outro lugar, E aí nós voltamos tudo pra Minas.
R- Minha irmã veio, meu pai e minha mãe veio.
R- Cada um, uma proposta, assim.
R- Nós viemos tudo. E pra mim é uma perspectiva de retorno.
R- Eu sinto que eu retornei.
R- E essa identidade do meu lugar, assim, mesmo que eu não nasci aqui.
E acho que agora eu me aterrei, sabe? Acho que agora eu aquentei. Acho que eu cheguei, agora eu cheguei.
R- Em Minas Gerais, eu cheguei de volta.
R- Mas é isso, da infância que eu tive, eu não abrirei mão de nada mesmo.
R- De crescer nesse sujeito coletivo que é o MST.
R- De me formar assim, mesmo com a minha timidez muito cara de pau, mesmo com a minha leseira, muito autônoma, independente. E com esse cultivo também que tem um movimento de bem-querer, de coletividade, de respeito com a criança e de escutar a criança e não sei o quê. E aí, na época eu achava ruim, agora eu entendo.
R- Muita gente, quando eu fui ficando mais velha e tal, aí comecei a entrar em tarefa mesmo do movimento e...
R- Na juventude ali, na ciranda, né?
R- Porque daí é muito comum a pessoa ali criada na ciranda e vai começar jovem, nas primeiras tarefas do movimento, ser a ciranda infantil, né? Como educadora infantil daí.
R- Então, ali na ciranda e não sei o quê, e as pessoas sempre me falam assim, Dandara, nossa, você cresceu porque eu criei de você na ciranda, porque eu lembro de você pequena, porque eu lembro de você na barriga da sua mãe.
R- Eu ficava ´´ nossa que saco, isso já passou``
R- Agora eu entendo.
R- Agora eu entendo, porque já tem outras gerações de sem-terrinha. Véio já fazendo as tarefas do MST. Tem uma companheira, que era de Rondônia, está no MST do Mato Grosso agora, que é a Itelvina.
R- Que é dessa época de antes do MST, lá com a minha mãe e com o meu pai.
R- Minha mãe… Elas dividiram casa. Minha mãe é Itelvina, em Rondônia, e começaram a se inserir na organização juntas e tal.
R- E daí, a filha mais velha dela, um pouco mais nova que eu, era bem minha amiga nessa época na terra, até hoje é minha amiga, enfim. E depois passamos muitos anos distantes, morando longe. Quando eu fui morar em São Paulo, na nossa Escola Nacional Florestan Fernandes, que eu contribuí há muitos anos, elas estavam lá, a Itelvina com as duas filhas dela.
R- A filha mais nova dela tinha uns cinco anos, seis anos, não sei.
R- No ano passado, eu encontrei...
R- E aí, elas foram embora para o Mato Grosso depois.
R- No ano passado, eu encontrei essa filha mais nova dela, a Maria Clara, na nossa reunião da Coordenação Nacional do MST. E esse ano de novo.
R- Jovem.
R- Mas assim, jovem, militante, inserida nas tarefas, dirigente, braba, capaz, grande.
R- E aí, agora eu entendo, sabe, essa sanha, essa alegria das pessoas em dizer assim, nossa, mas você era tão pequena, agora você é grande, né?
R- Porque é um senso de continuidade assim das gerações, de uma memória, de uma raiz, de um trem assim, que é emocionante na real, você vê as crianças, até minha irmã, minha irmã agora tá com 24, vê a minha irmã capaz, grandona, militante, e essas outras molecadas assim da geração, a gente fica de cara mesmo, é emocionante, a gente quer falar, que cuidou da pessoa na ciranda.
R- É muito bonito, e aí eu acho que a ciranda infantil talvez é a coisa mais bonita que tem no MST. Talvez seja a maior contribuição do MST para a organização da classe trabalhadora, que é essa capacidade de formar o ser humano em todas as suas dimensões e em todas as idades, de formar as gerações, sabe?
R- De não esperar um adulto para formar a consciência.
R- Que o sem-terrinha também é sujeito e o sem-terrinha também tem uma consciência, e também é capaz de incidir sobre a organização.
R- E essa lição acho que é uma das coisas que dá longevidade para o movimento. Nós chegamos nos nossos 40 anos, né? E muita gente que nasceu e foi criada na MST hoje é quem dirige o movimento, junto com as gerações anteriores, sabe?
R- Então, pra mim, assim, ser criada na Ciranda é um privilégio, é uma honra. Eu não trocaria por nada nesse mundo.
P/1- Tem alguma história muito marcante da Ciranda pra você?
R- Nossa, tem várias.
R- Tem várias, assim, de quando eu tava na Ciranda e depois olhando pra Ciranda, sabe?
P/1- Pode ser! podem ser esses dois momentos.
R- Por exemplo, de quando eu estava na Ciranda. Por exemplo, meu pai que me conta essa história, eu não lembro. Mas eu acho que demonstra o que é os Sem Terrinha.
R- Eu não sei qual era a atividade mais.
R- Era alguma atividade grande do MST que a gente estava, se era um congresso, se era alguma marcha, eu não sei.
R- Mas eram esses trens grandes, que daí tinham imprensa, e eu era muito loira. Meu cabelo era branco, assim, de tão loiro e muito lisinho e tal.
R- Eu era branca, branca.
R- Eu sou branca hoje, mas eu era branca transparente, nessa época
R- E aí, disse que tinha um cara da TV e disse que ele ficou fazendo graça pra mim, falando que bonitinha, né, não sei o quê. Parece a Xuxa.
R- A Xuxa estava no auge, né, não sei.
R-Parece a Xuxa.
R- Canta uma música da Xuxa?
R- Aí, reza a letra que eu falei, não, eu não gosto da Xuxa, porque a Xuxa é capitalista.
R- Isso é a história que meu pai conta.
R- E isso tudo é um pessoalzinho sendo formado mesmo na Ciranda.
R- Tem gente que fala, é doutrinação.
R- Quando nós fizemos o nosso encontro do Sem Terrinha Nacional, uns anos atrás, até o Eduardo Bolsonaro fez um pampeiro, teve acesso a um material nosso, falando de doutrinação das crianças e não sei o quê, e se procurando no YouTube, tem um monte de vídeo de gente falando isso.
R- Tem gente que pode dizer que é doutrinação, mas...
R- Toda família cria suas crianças dentro dos seus valores e do que acredita, né?
R- E diferente de ser uma criação da família, do indivíduo, não sei o que, é de um coletivo maior e com o propósito de formar consciência crítica, não de formar seguidores, de doutrinar nesse sentido da regra e não sei o que, mas é de formar consciência crítica, então a gente tem acesso a esses debates, assim, e entende dentro daquilo que a gente tem a condição de entender naquela idade.
R- Então, isso pra mim foi muito...
R-Não sei, me deu uma saudade da criança que eu era, assim, tem horas. Um bem-querer.
P/1-- Dandára, você estava contando histórias da Ciranda, se você puder contar já mais velha de alguma?
R- Sim, posso.
R- Inclusive, essa é uma história que eu escrevi no ano passado para o Museu da Pessoa, quando circulou um link provocando a gente a fazer um convite.
R- Que foi em 2009, nos 25 anos do MST.
R- Pra mim, uma das coisas mais marcantes que eu vivi no MST e das mais simples também, das mais singelas, uma coisa simples que contém significado, sabe?
R- Universos.
R- Em 2009, nós comemoramos nossos 25 anos de movimento lá no Rio Grande do Sul, em Nova Sarandi, lá onde foi meio que o começo do movimento, no assentamento, foi a nossa primeira ocupação do MST.
R- E daí, nessas coisas mais públicas e celebrativas do MST, a gente sempre tem um ato político, com convidados, com amigos do movimento e tal, e aí sempre tem a mística.
R- A mística é um outro assunto que a gente pode falar, é um semestre da universidade, a mística, assim, é um trem imenso, a gente pode falar muita coisa, mas é esse momento da vivência, sim, através dos símbolos e através dos valores, das linguagens artísticas, vivenciar os nossos valores, denunciar também os nossos inimigos, através de outra linguagem, que não a fala, que não o discurso, de forma a sensibilizar, de formação humana, de gerar sentimentos, né?
R- E é esse trem que a gente entende que a mística é o que também impulsiona o nosso fazer, é o fogo, né? Que impulsiona o nosso fazer militante, e sempre tem a mística, em todos os espaços nossos a gente tem a mística.
R- E aí, nesse ato político, um monte de...
R- já adotou autoridade, assim, lá no palco, e uma mística grande, assim, um monte de gente e tal….
R- E o momento, o clímax assim da mística foi quando tava tocando uma música bem animada, assim, do Sem Terrinhas, e entrou mais aquela multidão de Sem Terrinhas, a ciranda infantil inteira, com os educadores e educadoras, entraram assim pelo corredor do meio, cadeira lá, cadeira cá, um palco, um tanto de gente importante, tinha governador, tinha não sei o que lá, deputado e senador, não sei mais o quê, e padre, e...
R- E a criança adentrando com aquela música, aquela alegria, e comendo.
R- Uns tinham umas bananas, comendo bananas.
R- Uns com uns pratos de comida mesmo, sabe?
R- Prato de comida, comendo e dançando, e brincando, e fazendo barulho, e não sei o quê.
R- E aí, naquele momento, já me deu um impacto.
R- Falei, meu Deus, que coisa mais linda, né?
R- Mas fiquei muito sem...
R- A mística faz isso com a gente, a gente tem que dar uma elaboradinha, uma matutadinha em cima daquilo, para entender profundamente o que é que está tocando a gente naquele momento.
R- Eu falei, gente, que coisa mais simples, mas que contém, que talvez expresse o projeto de país do MST melhor do que qualquer outra coisa que eu já vi, que é a criança sem terrinha.
R- Primeiro, né, feliz, de barriga cheia, bonita, ousada, livre, né, dançando, cantando, brincando, que é uma boniteza.
R- Segundo, a ousadia dessas crianças que a gente forma, né, de ocupar por igual os espaços, em pé de igualdade, né, com todos os doutor autoridade que estava lá na frente, Sabe, toda aquela gente, uma multidão, e a criança para aquele espaço sem vergonha, essa ousadia, esse orgulho, essa autoestima que a gente forma nas crianças.
R- E terceiro, comendo o alimento produzido pelo MST.
R- A terra a gente quer para quê? Para se botar, produzir alimento diverso, saudável para as nossas crianças comerem.
R- Aquilo para mim, assim, não tem nada que eu possa dizer, que ninguém possa dizer que expressa melhor o que é o projeto do movimento. É a gente livre, igual, em igualdade da nossa diversidade, feliz, com autoestima, com festa, trabalho e pão.
R- Festa, trabalho e pão. E que o alimento que a gente produz é para comer, não é mercadoria.
R- E isso é uma das imagens mais bonitas que eu tenho, na minha vida, até hoje, poucas coisas eu vi mais...
R- Talvez nunca, talvez nunca… eu não vi nada mais bonito que isso até hoje.
R- E simples, que coisa simples!
R- E aí, pra mim é a síntese também do papel da ciranda, sabe?
R- Porque criança é assim, né? Criança é barulhento, criança é cara de pau, mas todo esse processo formativo, assim, que é de formar seres humanos, que não necessariamente é de formar militante do MST, a futura geração, é de formar gente, gente crítica, gente com condições de intervir na sua realidade e com condição de fazer a escolha do seu projeto de vida.
R- Então, pra mim, é uma síntese imensa, que até hoje eu fico matutando sobre isso e extraindo coisas, extraindo significado.
R- Então, não tem nada mais bonito que a Ciranda Infantil nesse semestre, não tem mesmo.
P/1- Eu queria voltar na juventude, nesse momento que você se aparta um pouco dos seus pais, vai para as suas andanças, vai para a casa da sua avó na cidade. Quais foram as descobertas do mundo e de si nesse momento? Contar um pouquinho.
R- Nesse período que eu estava na minha avó e estava no ensino médio, parte do ensino médio; eu ainda fiz na roça indo de ônibus, daí depois… Tô tentando lembrar se foi no meio do primeiro ano ou se já foi no segundo ano que eu fui pra cidade.
R- Acho que foi no segundo ano, que eu comecei a estudar de noite, e a casa da minha avó era perto da escola, daí eu ia, e de dia comecei a contribuir na secretaria estadual do MST lá de Minas, que foi a minha primeira tarefa mais fixa, mais formal no MST.
R- E eu tenho a impressão que esse primeiro momento foi muito de experimentar o que é viver, viver por conta, o que era o que eu achava das coisas, como era que eu achava que a gente organiza a vida, o que eu achava dessa parcela de independência que eu tinha descoberto, de liberdade.
R- Mas, inclusive, esse período desse encontro de 2009, desse Encontro Nacional, eu tava nesse momento, tava na secretaria e tava estudando. Mas que, ao mesmo tempo, eu sinto que ali não foi um tempo de grandes viradas, sabe? Que a grande virada de percepção e de jeito de viver veio depois, quando eu terminei o ensino médio.
R- Mas ele foi de experimentar, de descobrir como é que você passa o seu tempo quando você tá sozinha, de… O prazer de não ter ninguém chamando meu nome o tempo todo, né?
R- e como é que você organiza o seu dia pro trabalho também, porque é aquilo, eu fiz coisas muito pontuais, ir na roça, o que a gente contribui com a família, mas é diferente, eu tinha uma tarefa fixa, que eu tinha que dar conta, eu tinha que ir todo dia, daí eu ia pra escola, depois eu tava estudando violão numa escola mesmo, e foi um período mais assim de me entender, nesse lugar e de experimentar, mas eu fiz muito pouca coisa, no fim das contas, nesse período.
R- Eu estudava, ia para a escritaria, que foi a minha primeira tarefa, ali passava muita gente, eu fui também conhecendo o povo ali, me colocando em pé de igualdade do ponto de vista de militância, que o povo viu a gente criança aquele tempo inteiro, e aí essa virada de chave no olhar também, para Dandara, que é militante, né?
R- Eu, por um bom período, ali na minha juventude. Agora não, agora é o contrário.
R- Agora eu vejo uma coisa e fico mandando pra minha mãe nos atos.
R- Mas eu quis me distanciar, assim, um pouco da imagem do meu pai e da minha mãe, que são pessoas de uma militância muito histórica.
R- E aí, eu queria ter a minha identidade no movimento. Eu queria ter o reconhecimento pelo meu fazer.
R- E aí, eu tinha um período que as pessoas falavam assim, é a Dandara, filha do Zé Pinto e da Matilde.
R- Eu não queria ser apresentada como filha do Zé Pinto e da Matilde.
R- É a Dandara, a militante Dandara.
R- Mas foi depois que eu terminei o ensino médio, daí eu combinei com meus pais, informei, meio que informei. Porque eu ia ficar um ano sem estudar, porque eu não ia entrar direto, porque eu queria estudar pelo PRONERA, que é o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, que é com turmas de pessoas beneficiárias da reforma agrária só, é outra dinâmica.
R- E que eu queria, assim, um ano também pra descobrir, entender, militar também, né, porque a escola limita muito o tempo que você tem pra militar, assim, eu tava aprendendo, né, tava começando, queria me jogar no trem também.
R- E aí, em 2010, eu acho, em 2009 eu me formei no Ensino Médio, e em 2010 eu fui para o meu primeiro curso fora, que aí eu fiz a minha primeira viagem para fora do estado, sem pai, sem mãe, sem vizinho.
R- E era um curso longo.
R- Hoje em dia é raro a gente ter esses cursos de formação política mais longos, mas na época eram três meses, ainda eu peguei essa época.
R- E aí, então, fui pra Brasília com alguns outros militantes jovens ali do Estado.
R- E aí, foi que eu fui… expandir meus horizontes mais, assim, de… de estudar mais também, né, de...
R- Que aí, nesses cursos, a gente estuda como funciona a sociedade, economia política, modo de produção capitalista, e como é a estrutura de funcionamento do MST, aí a gente estuda formalmente.
R- E a gente fez muita luta também nesse período, na cidade de Brasília, fizemos uma ocupação do INCRA durante o curso, uma grande jornada nacional que teve, nós fomos ocupar o INCRA em Brasília.
R- E aí foi que eu senti assim mais… Daqui pra frente eu sou mais a Dandara, menos a Dandara filha de Zé Pinto Amativo, daqui pra frente eu sou mais independente, eu sei melhor o que eu quero.
R- Recebi um monte de elementos agora.
R- Claro, um curso não ensina tudo. É a vivência que vai formando a gente.
R- Mas estudei pra caramba, recebi um tanto de elementos importantes.
R- Fiz muita luta sem pai e mãe.
R- Fui pra marcha, fui para ocupação.
R- Sem pai, sem mãe.
R- Por conta, eu, Dandara, militante nesse coletivo aqui, e nossos cursos sempre combinam muito a questão do estudo, da luta e do trabalho, como uma dimensão também formativa.
R- Então, isso de fazer a comida, lavar a louça, não sei o que lá, e eu lavar minha própria roupa na mão, sabe, na água de máquina.
R- Eu ser independente, eu ser eu, não eu, só eu, filha de fulano, esse grande, da família tal, mas o eu.
R- Perdi minha virgindade essa vez, então, tudo aconteceu. Eu fiz uma tatuagem com tinta, nanquim e agulha. Tempo de pegar um troço, uma doença.
R- Não peguei nada, graças a Deus.
R- Mas a outra companheira, que também é de Rondônia, encontrei ela mês passado também, a Vanessa, que desenha e tal, da nossa Brigada de Artes Plásticas, Artes Visuais.
R- Que a gente queria fazer um facãozinho na mão de cada um.
R- Ela fez na minha e fez na dela.
R- Só sobrou o cabinho.
R- E é uma coisa que eu ainda mantenho até hoje. Pensei em passar uma reforma em cima dela, mas não tive coragem. Isso é uma memória importante pra mim.
R- Mandei uma carta pra minha mãe falando que ia fazer isso, porque tinha um companheiro indo pra Rondônia.
R- Ela mandou uma carta, eu falei, mãe, eu vou fazer uma tatuagem.
R- Três meses disso, é outro tempo, é outra coisa.
R- E conhecendo outras pessoas também do movimento a nível nacional. Porque é isso, né, antes, nos nossos corres da família, eu era criança, eu estava conhecendo pessoas de outro lugar, de outra perspectiva.
R- Ali, não, eu estava eu, Dandara, militante do Centelho, que fiz essa opção de vida, não porque minha mãe e meu pai eram, mas porque eu também quis. Conhecendo a companheirada também militante do movimento.
R- Então, pra mim a estreia foi daí pra frente, sabe?
R- Muito marcante, muito edificante, e daí no ano seguinte é que eu comecei a rodar.
R- Fui pro Rio de Janeiro, enfim, e aí fui embora. Foi daí pra frente que eu fui embora.
P/1- Você tava por volta dos 17, 18, é isso?
R- É, 17.
R- Eu faço em dezembro, né, aniversário, então foi ali no meio do ano, eu tinha 17.
P/1- E não sei, você acha que é possível dizer quais são os aprendizados que você consegue perceber e ter desses encontros, desses grandes encontros, dessas ocupações? O que, que, você sai desses encontros, com que sensação, assim ?
R- Em geral, até hoje, no mundo da vida…
P/1- É
R- Ah, tem muita coisa.
R-Tem muitas camadas de aprendizado, alguns são muito inconscientes, que é o modo de vida mesmo.
R- É formador da nossa subjetividade, não necessariamente a gente coloca em palavras que aquilo é um aprendizado. Porque é isso, o MST não é uma ilha isolada, imune às contradições do capital, vivendo só sobre os valores do socialismo e não sei o quê.
R- Nós somos gente, sobre o capitalismo.
R- Mas é um esforço consciente nosso, enquanto organização, de construir espaços em que a gente viva outros valores, outras formas de vida e outras relações. E acho que isso é muito formador da gente enquanto ser humano.
R- Acho que primeiro isso assim, a coletividade, sabe? O estar em coletivo.
R- É até estranho que eu falava com a Rosemary. A Rosemary que ajudou a nós a articular essa trosa aqui, né? A Rosemary é outra que está muito marcada na minha história.
R- Ela cuidava de mim na ciranda infantil do Iterra, ela estudava no Iterra.
R- eu tinha ali pelos meus quatro anos, a filha dela também estava na Ciranda, a Vanessa, e a gente tem a mesma idade, eu e ela, ela é um pouquinho mais velha que eu, meses, e aí a gente passou muitos anos juntas ali na Ciranda do Iterra, e aí a gente tirou uma fotografia assim, ela levou a gente para fazer um ensaio de foto no estúdio, bem criancinhas, e daí depois a gente se encontrou em 2007 no quinto congresso do MST, aí tiramos uma foto nós três, aí a gente se encontrou...
R- Aí eu e a Vanessa, juntas na Ciranda, depois fomos estudar juntas na faculdade, no serviço social, e aí a gente tirou uma fotinha também nós três, já mais velhas, sabe assim, é uma pessoa que me formou muito e até hoje ela me trata toda chuchuzinho até hoje.
R- Até hoje ela é meio uma mãezona, assim, pra mim.
R- Mas...
R- Que é isso, né?
R- Eu dizia da coletividade, do viver coletivo.
R- Aí eu dizia pra Rosemary que ia ser estranho falar de mim só nessa prosa, assim.
R- Porque a gente… que aí é uma cultura, cultura no sentido de um trem que já virou o conjunto de valores daquele coletivo, a forma de viver daquele coletivo. A gente tem uma cultura muito coletiva, a gente fala, a gente enquanto indivíduo, com o nosso acúmulo e tudo, mas sempre em nome de uma coletividade, sabe?
R- Se for falar em qualquer espaço, a gente está falando em nome de um coletivo. Então, é estranho falar só de mim em meu próprio nome. Mas é isso, é uma história coletiva também, como a de todo mundo é. Então, essa vivência em coletivo forma no sentido de combater o individualismo, sabe?
R- Da gente se perceber enquanto sujeito coletivo, da gente aprender essa tomada de decisão coletiva, aprender que o indivíduo não se sobrepõe sobre o coletivo, que o desejo do indivíduo não se sobrepõe, e isso ninguém fala.
R- Ensina pro outro isso, falando assim, você tem que ser uma pessoa que valoriza o político.
R- É na vivência, na prática, né?
R- Então, tem essas coisas, assim, que já se tornaram culturais para nós.
R- E, portanto, vão...
R- É no coração, né
R- É na cultura mesmo, no jeito de fazer.
R- E… Outros aprendizados são muito mais fáceis de sistematizar, assim, em palavras, né?
R- Acho que a minha inserção no Coletivo de Cultura me ensina muito, que faz uns 12 anos que eu me inseri no Coletivo Nacional de Cultura do MST.
R- E aí, é um coletivo que estuda muito, então o valor do estudo é um treino que eu aprendi demais nessa minha inserção no movimento, é minha profissão de fé no MST, é a tarefa da cultura, eu faço outras coisas, mas meu lugar no MST é a cultura.
R- Essa questão do valor do estudo, a gente aprende muito da nossa disciplina militante, no sentido de a gente ser responsável pelo coletivo, e do coletivo ser responsável pela gente.
R- Então, isso do trabalho, por exemplo, que eu falava, o exercício da disciplina militante significa que não precisa ninguém me dizer que nessa minha tarefa, neste dia de lavar a louça, eu preciso de lavar a louça, porque isso é também uma dimensão da nossa formação, não é só para garantir que a louça está limpa, mas de que o trabalho militante, o trabalho concreto da sobrevivência também é parte de recriar outra cultura, outro modo de vida, esse fazer coletivo, mas a disciplina também com zelo mesmo, sabe?
R- Pelas tarefas, pela organização, pelas pessoas, pelas nossas estruturas.
R- Então, tem essas coisas mais do subjetivo, tem essas coisas mais do concreto, do fazendo cotidiano, dos valores que a gente procura exercer, dos princípios da nossa organização, de como é que a gente faz as coisas.
R- Mas também tem outra dimensão que é a da luta, nós tínhamos um companheiro que, infelizmente, nós perdemos já faz um tempo, lá do Mato Grosso do Sul, que é o Egidio Brunetto.
R- O Egídio era figura. O Egídio era um camponês. Era isso que ele era. Um zelador da natureza, um camponês.
R- E ele dizia que a luta, nos ensina a não fugir dela.
R- É simples, né? É uma coisa simples.
R- Parece raso, mas aí quando a gente vai matutar sobre isso, é realmente isso, sim.
R- É muito diferente o que a gente...
R- A forma como a gente aprende essas lições da vivência em coletivo.
R- Num encontro, num curso, numa reunião, não sei o quê, tudo isso é muito formador.
R- Ali no cotidiano, de onde a gente vive, nas áreas de acampamento, assentamento, não sei o quê, e na ação, na luta, sabe?
R- No enfrentamento.
R- O MST é uma organização que tem a luta, de massas no seu DNA, que se a gente perder essa característica, a gente perde o que a gente é mesmo, desde ali da marcha, do que é mais público, das outras formas de luta que nós estamos descobrindo, nós temos o bloco de carnaval que também disputa a cidade, enfim.
R- No dia 8 de março do ano passado, nós ocupamos aqui em BH as ruas de um um dos maiores aglomerados de comunidades periféricas de favela do Brasil do mundo, que é o aglomerado da Serra, aqui em BH, com o nosso bloco de carnaval.
R- Era o que puxava à frente aqui na ação de luta nossa.
R- Mas também as lutas mais diretas de enfrentamento mesmo ao capital, as lutas que muitas vezes geram tentativas de criminalização, geram risco, das ocupações de terra, das lutas que, em geral, no 8 de março, as mulheres fazem, que são mais de enfrentamento mesmo ao grande capital, ao agronegócio, às grandes empresas, que aí, sim, são espaços de aprendizado radical e profundo, que, na verdade, é um aprofundamento dessas coisas que a gente exercita em outras instâncias, em outros espaços, sabe?
R- Numa ocupação de terra em que potencialmente existe um risco, tem a polícia na porta, mas mais do que a polícia, tem o jagunço, agora tem o fazendeiro armado, _____aí, na porta, e tem a imprensa, e tem a tentativa de criminalização do ponto de vista jurídico, enfim, que tem toda essa situação de não conseguir vivenciar radicalmente a nossa direção coletiva, se a gente não conseguir vivenciar radicalmente a nossa disciplina, radicalmente a nossa mística, nesse sentido desse furor, desse fogo militante e desse espírito de sacrifício, em nome de um projeto, se a gente não der conta de radicalmente vivenciar um espaço igual a esse, os nossos valores e a nossa confiança política, nossa confiança no coletivo, na capacidade do coletivo da gente se organizar e dividir tarefa e confiar que o outro realizou a sua tarefa e que se o outro tem a tarefa de dar esse comando, nós vamos lutar, porque a gente confia.
R- Se a gente não tiver o exercício dessas coisas, a gente está se colocando em risco, a gente está exposto, então, é um aprendizado muito mais radical.
R- E o fazer a luta é a coisa mais formativa que tem, de humanidades mesmo, não só enquanto militante, mas de humanidades.
R- Inclusive, do valor da solidariedade também.
R- A gente estava, agora, 8 de março deste ano, foi realizada uma ocupação aqui em Minas Gerais, liderada, encabeçada, organizada pelas mulheres do MST, mas com os homens também junto, que vivenciou todos os dias em que nós tivemos uma acampada ali, que o movimento teve uma acampada ali, eram 24 horas de cerco policial, que… para negociar a entrada de advogado, entrada de médico, bem no período da DEN, que estava sinistra aqui, que era uma batalha para negociar a entrada de médico, para negociar a entrada de comida, para negociar a entrada de água, não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê, que daí também demonstrou a necessidade do valor da solidariedade também de quem estava de fora poder contribuir com quem estava dentro e exercer pressão e ajudar no cuidado coletivo para que aquilo não se tornasse não resultasse em uma violência anunciada com os policiais ali mas também a vizinhança armada enfim e em outros muitos momentos O Rio Grande do Sul está debaixo d'água nesse momento.
R- É do nosso sétimo congresso nacional, que é a nossa maior instância do MST, nós estávamos projetando 20 mil pessoas agora em julho de 2024.
R- Mas com as chuvas no Rio Grande do Sul, que não são só as chuvas, mas o modelo de desenvolvimento do capital, do agronegócio, que desestrutura a gente para receber o que às vezes acontece no clima, mas que também altera o clima a esse ponto, foi decidido nas nossas instâncias que mais importante agora do que celebrar 40 anos e qualquer coisa assim, era a gente vivenciar mesmo na prática os valores que a gente anuncia aquilo que nós queremos ser, viver, exercer enquanto ser humano.
R- Então, agora o MST decidiu de adiar o seu sétimo congresso para o ano que vem, mesmo que passe nesse marco dos 40 anos, porque nós vamos comemorar coletivamente fazendo o que é nosso dever histórico, que é primeiro de guardiões da biodiversidade, de cuidado com a natureza, que é o papel histórico dos camponeses, dos povos, das águas, das florestas e do campo, é nosso dever histórico de exercitar na prática o que a gente fala.
R- Então, agora, todos os nossos olhares e esforços estão voltados para a reconstrução do Rio Grande do Sul, a reconstrução das estruturas, da produção, mas também dos seres humanos, do sonho, da esperança.
R- Tudo isso pra dizer que os aprendizados que a gente vai conquistando na organização, eles são maiores do que o que a gente diz, o que a gente estuda, o que a gente ensina, que eles são fruto de uma vivência mesmo, de um fazer, de um exercício cotidiano que ensina a nós mais do que qualquer outra coisa, é isso nos ensina a não fugir dela.
R- Egite _____
P/1- E a suas andanças? Já com a maioridade, né, quais foram os caminhos que você percorreu e até chegar de volta a Minas?
R- É bom…
R- Depois que eu passei esse um ano sem estudar, esse ano de 2010, foi aberta uma turma do PRONERA de serviço social no Rio de Janeiro.
R- E o PRONERA tem uma dinâmica de tempo/escola, que aqueles conteúdos daquele semestre são condensados, abordar aqueles conteúdos em menos tempo, não no sentido de perder conteúdo, mas em condensar em menos tempo, e tempo-comunidade.
R- Entendendo que, primeiro, o camponês estuda, ele não pode estar desaterrado muito tempo, porque o trabalho, agrícola, enfim, as famílias, não sei o quê, que é mais difícil o camponês que vive do trabalho agrícola estudar num curso regular.
R- E, segundo, porque é isso, nós entendemos também o aprendizado como aquilo também que a gente exercita na prática.
R-Então, o tempo da comunidade sempre tem… a gente retorna para as nossas bases e sempre tem tarefa, sempre a gente vai fazer pesquisa, vai… dependendo da sua área, vai contribuir em uma coisa ou em outra.
R- E...
R- Rondônia é muito longe do Rio de Janeiro, né? Muito.
R- Minha família estava em Rondônia.
R-Então, eu fui para o Rio de Janeiro para começar já o primeiro semestre, a primeira etapa.
R- Já… Com a proposta, com o combinado de ficar no Rio de Janeiro, contribuir ali.
R- Então, eu fiquei morando no Rio.
R- Deu um ano, assim, na real, eu acho.
R- No Escritório Nacional que nós temos no Rio de Janeiro, e estudando.
R- E aí, depois, eu fui para...
R- O Rio de Janeiro é...
R- Eu amo o Rio de Janeiro. Não viveria de novo lá, mas o Rio de Janeiro é espetacular.
R- Pra mim que tinha isso, né? Recém descoberto a vida, a liberdade.
R- Eu tava… foi um momento bom de eu ir pro Rio de Janeiro, assim, pra viver experiências diversas, né? O Rio de Janeiro tem tudo.
R- E aí fui, no outro ano eu fui pra São Paulo, pra nossa escola nacional Florestan Fernandes, que é em Guararema, que é um dos lugares mais bonitos que eu já fui na vida.
R- O trem bonito é cada escola.
R- Nossa senhora, cada dia é mais bonito, inclusive.
R-E daí, eu ficava, eu ia pro tempo escola no Rio, ficava, eram dois meses no nosso tempo escola.
R- Então a gente fazia o conteúdo de um semestre, dois meses, e aí depois tinha pesquisa, tinha trabalho, não sei o que, pra fazer no tempo comunidade.
R- E aí, no tempo comunidade eu voltava e contribui lá na escola.
R- Foi um período bem caótico, assim.
R- Eu ainda tava também me estabelecendo na minha militância, assim...
R-Me capacitando mesmo, né?
R- Me …aprendendo, tava também ganhando confiança, né?
R- Em mim, pra fazer as coisas.
R- Mas foi um tempo muito bom, assim, de conhecer muita gente, de aprender muita coisa.
R- E foi nesse período que eu me inseri no Coletivo Nacional de Cultura.
R- Eu sempre fiz… Sempre tive um quê ali de vivência com a cultura.
R- Mas em Rondônia não é… Não era na época um coletivo que estava muito urbanizado, que tinha muita ação, o coletivo no estado de Rondônia, da cultura.
R- Então, nós tínhamos mais ações assim, nas atividades, onde é que vai catar, onde é que vai arrematar os espaços, onde é que vai nisso aqui.
R- E aí, e no Rio de Janeiro a mesma coisa, eu nem tinha muito tempo no Rio pra outra coisa.
R- E aí, então, que aí eu fui me inserindo no coletivo de cultura, atualmente, primeiro, mas aí fui chegando e fui ficando, e fiquei até hoje. E é isso, o povo da cultura ensina muito pra mim.
R- Pensa num povo estudioso, num povo bom de briga, quando precisa contra a briga.
R- E ali é um espaço onde eu aprendo muito até hoje.
R- Eu fico admirada de estar no espaço da cultura até hoje.
R- E dessa vivência, desse cultivo de… de me entendendo artista, porque a gente não tem essa autoestima pra sair dizendo que é artista.
R- Mas entendendo também o que é o ser artista, a gente tem uma elaboração assim do militante artista, diferente do ser artista no mundo e...
R- Esse olhar para o nosso fazer é militante, e aí é artista, sabe?
R- E o nosso...
R- Nossa tarefa de elaboração do que é cultura, de fazer arte, de produzir arte, é uma tarefa militante dentro de uma organização.
R- Não é um treino que eu faço só pra mim.
R- Eu faço pra mim também porque é meu cultivo, né? E todo mundo devia fazer.
R-É muito humanizador.
R- Mas...
R- De adquirir menos autoestima e dizer, não, tudo bem, né? Pode não ser essa concepção do que é o artista na sociedade, que está apartada do mundo, que flutua sobre nós, que é famoso, que não é reconhecido, mas que fazer arte faz da gente artista, né?
R- Então, essa autoestima da gente se entender nesse lugar, de artista popular e de militante artista.
R- Então, foi a coisa melhor que aconteceu desse período de eu estar lá na escola, mas ele passa muita gente do mundo inteiro, e todo mundo traz um aprendizado, mesmo que seja sentar para tomar cerveja, todo mundo traz, apresenta para a gente uma outra perspectiva, está vindo de um outro lugar, e são militantes também de outras organizações, e a gente vai descobrindo também, porque eu nasci no MST, então às vezes é difícil ter a perspectiva de uma pessoa que não é do MST.
R- Eu não vivi o não ser do MST.
R- Então, também traz outras perspectivas para a gente de militância, de modo de vida, de olhar para os territórios mesmo, né? Vem trazendo para o próprio movimento, mas também para a gente quando a gente vê outras elaborações, outras cosmovisões.
R- E é muito importante.
R- O internacionalismo é um valor que o… e uma prática, né? Mais do que um valor.
R- Que o MST zela muito por isso, né? Porque assim a gente aprende, né?
R- Constrói elaborações mais coletivas, mas também...
R- Enfim, porque a classe trabalhadora no mundo, sob um capitalismo globalizado, vivencia com suas especificidades, as mesmas contradições, as mesmas formas de opressão.
R- E, portanto, nós precisamos estar em unidade também para combater, né? Então, enfim, esse período da escola foi desafiador em muita coisa, mas muito importante para mim e principalmente pela minha inserção no coletivo de cultura, de onde nunca mais eu saí.
R- E onde tem um povo que até hoje eu fico babando por esse povo, assim, admirada que esse povo é espetacular, esse povo é inteligente demais da conta, como é que pode?
R-E aí da escola eu voltei para Rondônia, fiquei um período até o final do meu curso, fiquei indo e voltando do Rio de Janeiro a Rondônia, um longo tempo, contribuindo com o MST lá, com a tarefa...
R- A gente organiza Cultura, Comunicação e Juventude, no mesmo coletivo, lá em Rondônia. E contribuindo ali no coletivo, estudando, e isso consome pra caramba, né? Estudar no Rio de Janeiro, morando lá em Rondônia.
R- Mas foi bom, né?
R-Porque daí voltei...
R-É isso, eu tenho uma identidade mineira, mas aquele chãozinho ali, de onde a gente vivia, que é aquele lotezinho, que é o mesmo lote do meu avô e da minha avó conquistado ali nos anos 70, a muito custo, e é onde minha mãe me enterrou o meu umbigo, sabe, na beira de uma árvore.
R- E é onde, sabe, ali meu avô cavou uma represa, meu pai aprendeu a nadar ali, meus tios, meus primos, e eu aprendi a nadar ali, a minha irmã, e sabe, mas era tudo sapo dentro daquela água, e ali morava um jacaré.
R- Tem um monte de cultivo ali da minha vida, naquele chãozinho, naquele lote em específico, que é muito importante.
R- Então, foi bom eu ter voltado também pra vivenciar isso mais uma vez, sabe?
R- Porque daí depois eu saí, nunca mais voltei. E tá ali com o meu avô e com a minha avó.
R- Quando o meu avô paterno morreu, eu estava ali.
R- Quando meus avós, a mãe e o pai do meu pai morreram, eu estava ali, uma oportunidade de estar ali.
R- Minha mãe falava isso, sabe?
R- Minha mãe, quando o meu avô...
R- Minha mãe é muito pragmática nesse sentido, e muito sensível.
R- Quando o meu avô, o pai dela, morreu, que foi bem antes, foi bem primeiro do que os outros, ela fez uma fala também de agradecimento ao MST, no sentido de todo o suporte, todos os… Eu já fiz a minha conta estadual lá no lote doméstica de Rondônia, por esses anos tudo e tal, mas também porque possibilitou ela, na época, sair de Rondônia, voltar para Minas Gerais, esse território de onde ela tinha saído muito jovem e reencontrar a família, mas também permitiu para ela voltar para Rondônia e estar ali quando meu avô morreu e estar ali com ele, antes dele morrer, não é porque ele morreu, é porque ele estava vivo, é esse o pragmatismo da minha mãe e a sensibilidade da minha mãe.
R- Mas enfim, então eu estar ali naquele território, viver essas coisas, estar com o meu povo, isso foi bem importante pra mim. Mesmo que na época eu resisti, porque Rondônia é muito isolado, né?
R- E eu tinha ganhado o mundo, eu tinha ganhado a vida e falei, ah, não quero voltar pro fim do mundo.
R- Mas foi muito bom pra mim.
R- Foi muito necessário.
R- E aí, de Rondônia, eu fui pro Maranhão, eu fui para Maranhão, eu já estava no Coletivo de Cultura, e aí nós estávamos numa reunião no Coletivo Nacional em São Paulo, na Escola Florentino Fernandes, e aí foi socializado uma tarefa no Maranhão de uma brigada de alfabetização de jovens e adultos, através de um método cubano que chama-se ´´Eu Posso´´, que o MST desenvolve já faz bastante tempo aqui no Brasil.
R- A alfabetização de jovens e adultos foi uma das primeiras coisas que minha mãe fez aqui em Minas Gerais. Eu queria uma tarefa mais permanente, mais cotidiana.
R- No fundo, eu queria também sair de Rondônia, E eu fiquei toda cheia de mística desse negócio, né? Minha mãe veio alfabetizar e agora eu posso alfabetizar, contribuir com alfabetização e não sei o que, não sei o que.
R- E aí, assim, a juventude… Eu não tenho essa juventude mais hoje.
R- Falaram, quem toparia eu?
R- Essa juventude eu não tenho mais hoje.
R- Falaram, quem topa aí? Eu sem pensar, levantar a minha mão, né?
R- Mas na época eu tinha.
R- E aí...
R- Ah, eu fui para o Maranhão, eu fui, deixa eu ver, no final de 2015, a gente teve uma atividade em Brasília, em Luziânia na verdade, que foi o segundo encontro nacional de educadores e educadoras da reforma agrária.
R- E aí foi, ali foi o envio da nossa brigada, foi o ato de envio da nossa brigada de alfabetização, gente do Brasil inteiro e tal, e aí de lá nós fomos direto, nem voltamos para casa, fomos direto para Maranhão, enfim, fomos descobrindo, estudando muito Maranhão, porque ainda tinha um período, era um projeto desenvolvido junto com o Governo do Estado, então ainda tinha um bom período de formalidades e burocracias para resolver, e nós passamos esse período de vários meses estudando, estudando o método, nós Todas as videoaulas, que é mais de 60 videoaulas, nós estudamos o método passo a passo, e nós estudamos muito a história do Maranhão, a geografia do Maranhão, muito sobre a cultura do Maranhão, pra gente entender os territórios pra gente ir.
R- Porque todos os territórios que tiveram turma de alfabetização, nenhum deles tinha base do MST.
R- Era mesmo nós… a ponta de lança, assim, era nós entrando no território.
R- E era um projeto com o governo do estado, mas era com a identidade, assim, do MST.
R- Nós íamos para os territórios com a identidade do MST.
R- Que...
R- Um trem isso, um trem espetacular.
R- Quando a gente foi recebido no Maranhão, desceu do avião, o companheiro foi buscar a gente no aeroporto, o companheiro Jonas, que é uma figura histórica também do MST, ele falou assim, Ipsos Líderes, ele falou, bem-vindas ao Maranhão, vocês acabaram de voltar 400 anos no tempo.
R- E nós ficamos de cara, nós ficamos sem entender, mas aí ao ir nos territórios que nós fomos entendendo, de fato a história de de negação mesmo de direitos do povo maranhense e a história de sequestro mesmo do Estado assim, sabe, por parte ainda daquele, em muitos territórios, daquele coronelismo do passado, que a gente acha que ficou no passado, não necessariamente.
R- Nós estamos descobrindo o que eram esses territórios, muito desafiador, em alguns momentos muito doloroso.
R- A gente fala que estava aí onde o Estado nunca tinha chegado antes, né?
R- Essa história de o Estado não chega, mas na real o Estado chega, que o Estado chega com as eleições, o Estado chega com a polícia, o Estado chega com todo o seu aparelho de propaganda também e tudo quanto lá, mas é um projeto político de negação mesmo, não é que não chegue, chegou tanto que era o propósito de chegar, e aí nós chegamos lá assim, choque de cultura imenso.
R- Eu passei por três municípios nesse período que eu fiquei no Maranhão, durante mesmo o processo de alfabetização, fora em São Luís, que nós ficamos antes nesse estudo.
R- E um dos municípios que eu fiquei, que era Jenipapo dos Vieiras, tinha, se não me engano agora o número, posso estar falando besteira, mas 240 aldeias indígenas ao redor, aldeias tenterrara.
R- E assim, a história, a situação de empobrecimento, de negação de direitos, que é aquilo, a civilização branca entrou para dentro das aldeias para cooptar, para destruir a cultura, eles ainda resistem muito do ponto de vista da língua, mas de resto, assim, muito poucos focos de resistência das festas tradicionais, mas não chega com o tão chamado desenvolvimento, não chega com a estrutura, não chega com os direitos.
R- A gente passou por um período eleitoral lá, de eleições municipais, e era assim, o caminhão do candidato vai lá buscar as pessoas na aldeia. Todo mundo enche muito a cara, bebida assim, liberada por todo mundo, bebe, volta, devolvê lá, pronto, acabou.
R-Essa é a relação, muitas vezes, do povo da cidade com o povo das aldeias ali ao redor.
R-E muito, muito empobrecimento, muito difícil.
R- A gente ia fazer as matrículas das turmas, e muita gente não queria fazer matrícula, queria estudar até, mas não queria fazer matrícula, porque tinha que dar o documento para fazer a matrícula.
R- E aí era aquela coisa assim, já passou tanta gente aqui, prometendo tanta coisa, pedindo o documento da gente para botar em tanto papel, em tanto trem, e nunca se concretizou em nada.
R-E aí ficou um pouco desconfiado assim, né?
R- Mas aí no diálogo, indo lá nos territórios e conversar e apresentar o projeto, apresentar o movimento. Então, muito desafiador, muito edificante, muito bonito, nós formamos muita, muita, muita gente. Eu fiquei na primeira, e parte da segunda edição da jornada.
R- Muita gente formada e muita dignidade conquistada, né? Porque o letramento é você ter condição de participar mesmo de muita coisa, porque de outro modo a porta tá fechada pra você, né?
R- Então, tremendo.
R- Essa experiência no Maranhão foi muito edificante, muito dolorosa, mas muito edificante e eu tenho uma gratidão imensa por ter passado por esse tempo.
R- E aí… eu vim de lá pra Minas Gerais, foi assim que eu cheguei.
R- A realidade dos fatos é que eu vim pra Minas antes mesmo de terminar essa segunda edição da jornada lá, porque eu não estava legal. E todo mundo viu também que eu não estava legal, não era só eu que estava vendo, eu era a que menos estava vendo.
R- O processo de tomada de consciência e o processo de viver é muito edificante, é muito importante, não sei o que, mas é muito...
R- Às vezes é muito… não estou conseguindo achar a palavra assim, mas é muito doloroso.
R- Às vezes é muito só, às vezes é muito doloroso, e aí eu fui ficando não legal, sem muito perceber. Não estava legal, não estava comendo bem, não estava dormindo bem, não estava… Chegou um período que eu não estava dando conta das coisas, estava isolada, não respondia às pessoas.
R- E todo mundo foi vendo aquilo.
R- E é isso, a gente é responsável pelo coletivo, o coletivo é responsável pela pessoa, por cada um.
R- E que bom ter um coletivo que se atenta para cada pessoa, que é parte desse coletivo.
R- E aí, a nossa coordenação regional se atentou pra isso…com nós, com a Brigada.
R- E, por fim, é isso, eu não estava mais dando conta do que a jornada exigia de mim.
R- E eu precisava ir para um lugar e eu precisava me cuidar.
R- Precisava de fazer terapia.
R- Faz pouco tempo que o MST passou a debater mais abertamente a questão da saúde mental, sabe? Faz pouco tempo mesmo.
R- Acho que a pandemia revelou muito e acelerou muito esse processo.
R- Daí a gente tinha, sabe, já proposta aqui de Minas, meu pai e minha mãe já estavam consolidados, quase a vinda deles.
R- Ia começar, assim, o posto em Minas Gerais e… Enfim, o projeto já estava escrito, já estava aprovado, ia começar e não tinha ninguém com mais experiência, pelo menos.
R- E era um território do qual eu gostaria muito de voltar, porque eu tenho essa identidade, eu queria muito, eu viria pra cá com muito prazer.
R- E aí, então, eu vim, vim com o compromisso de cuidar de mim e também de fazer minhas tarefas, né?
R- E aí, cuidei de mim, demorou para conquistar, reconquistar um monte de coisa, assim, de independência, teve um período que eu não tinha muita independência.
R- E demorou, mas eu dei conta, né? Porque é isso, a gente tem que ter cuidado da gente.
R- A gente só dá o que tem. E aí, tô aqui em Minas, vim pra Minas.
R- Eu vim pra um encontro estadual no finalzinho de 2017, em dezembro.
R- Fiz várias prosas aqui, me apresentei ao coletivo, né?
R- E daí voltei para o Maranhão, despedi do povo lá no município que eu estava, nós fizemos um momento com os educadores lá, juntei meus trens, entrei dentro de um ônibus para não perder o costume, porque esse período que a gente estava em Minas e Rio Grande do Sul, todo ano a gente ia e voltava de ônibus para Rondônia, para visitar.
R- Então, para não perder a raiz, né?
R- Peguei meus trem, entrei dentro de um ônibus e vim do Maranhão para Minas Gerais.
R- Com a minha mudança no busão.
R- E tô aqui desde então.
R- E pra mim, cheguei.
R- Fico esperando.
R- Porque é isso.
R- Como eu fui criada na dança, assim, eu fico esperando chegar a sanha de sair de novo, sabe?
R- Porque às vezes tá uma sanha.
R- Nós estamos há muito tempo no mesmo lugar, né? Precisa de novos ares, não sei o quê, e a sanha não está chegando.
R- Então...Eu acho que eu cheguei mesmo, assim, não vou dizer que nunca mais não vou a outro lugar, mas eu tenho essa sensação, sabe, de que aqui eu tô aterrada, tô territorializada, tô enraizada, tô chegada e tô sem aquele fogo de ir embora que eu tinha nos outros lugares.
R- Então, ai, feliz assim, essa gratidão… Porque é isso, né? Tudo isso é o movimento que proporciona pra gente.
R- Quando na vida que eu, uma sem-terra, lascada, nascida lá em Rondônia, ia estudar no Rio de Janeiro, ia ter toda essa possibilidade de viajar tanto e correr mundo e não sei o quê, em 2022, em 2022 eu tive uma oportunidade tremenda, que eu nunca pensei que eu ia ter, que foi uma viagem para o Nepal, eu fiquei um mês no Nepal, em tarefa do MST.
R- Esse tipo de coisa não é muito sonhável para a classe trabalhadora, e principalmente para os camponeses e camponesas.
R- E tudo isso, a oportunidade de viajar, de conhecer gente, conhecer coisas, de estudar.
R- Minha mãe foi uma das primeiras da família a se formar na universidade, e foi uma das primeiras, ela e minha tia que também é do MST, do Mato Grosso, a se formar no mestrado também, tudo isso através do PRONERA, né?
R- Eu tenho muita gratidão lá sem terra pela oportunidade de escolha e de vivência, sabe?
R- Que é negada a nossa classe.
P/1- Como foi essa viagem para o Nepal?
R- Espetacular, chocante.
R- Porque a nossa Escola Nacional Florestan Fernandes, que já tem mais de 20 anos.
R- Ah não, vai fazer 20 anos, peraí, deixa eu pensar.
R- Não, já tem mais de 20 anos.
R- É uma escola de formação política da classe trabalhadora do mundo.
R- Então, recebe cursos, tem cursos sobre a realidade latino-americana, que recebe pessoas da América Latina inteira, mas tem curso também para além da América Latina, que recebe gente do mundo inteiro.
R- E o MST está vinculado, articulado em várias articulações de nível internacional, de outras organizações do campo e de outras organizações populares em geral, essa ideia internacional dos povos, a via campesina, então, há muita troca de experiência, a gente aprende muito, acumula muito e também socializa os nossos acúmulos.
R- E aí, outras escolas foram sendo construídas no mundo com esse mesmo princípio, essa mesma forma de funcionamento, de receber a classe trabalhadora do mundo para formação política.
R- Então, eu fui para um curso de formação de quadros na escola que é da Ásia, Mata Bandari, e sempre tem, o movimento sempre manda gente para esses cursos também.
R- Então, dessa vez fui eu e uma outra companheira de São Paulo, e foram três semanas lá e a gente pediu a passagem para uma semana depois para conhecer também, ficar lá conhecendo, porque quanto na vida, que eu ia imaginar, uma oportunidade de estar do outro lado do mundo, literalmente, né?
R- E aí, é isso, é muito edificante a gente sentar para estudar, estudar a realidade nossa, estudar a teoria política, a teoria da organização, estudar a nossa imortal ciência do proletariado, que temos de acúmulo enquanto classe, né?
R- Sentar para estudar com gente de muitas partes do mundo, que trazem uma outra perspectiva, que são de organizações do campo, de organizações da cidade, gente que faz muito pela terra, gente que, né, é muito diversa a perspectiva, assim, as perspectivas, e aí mas, talvez mais ainda do que o conteúdo do curso em si, da aula, né, é essa troca de saberes, assim, a gente teve muitos espaços que era de troca mesmo, então, nós tivemos uma mesa que era sobre a urbanização das mulheres, o feminismo nos diferentes países, que todo mundo, uma por país, apresentou um pouco como era a trajetória e a organização das mulheres e a situação das mulheres no país.
R- Nós tivemos uma mesa sobre juventude, a organização da juventude, no sentido de troca mesmo de experiências.
R- Então, para mim, sensacional, enquanto ser humano mesmo e entrar em contato com outra cosmovisão, a gente acha que a gente sabe, a gente fala que outras pessoas têm outra cultura e tem outra cosmovisão e não sei o que, só que a gente não sabe, até entrar em contato a gente não sabe.
R- Uma coisa minúscula que me chocou, muito pequena, o Nepal é um país de maioria hindu e em seguida budista.
R- E aí, eu, vindo de um país de formação cristã, eles não guardam domingo.
R- Domingo não é dia de folga, só sábado. Porque domingo é um dia cristão.
R- E guardar domingo é coisa de cristão. Isso era tão simples, assim, que eu podia muito bem ter me dado conta disso.
R- Mas cheguei lá, fiquei tão passada, falei, gente, é mesmo! A realidade nossa aqui não é a realidade do mundo inteiro, não é… se expressa nessas coisinhas simples, assim.
R- E teve uma coisa que foi muito engraçada, porque daí tinha os companheiros e companheiras do mundo árabe, e aí a companheira tava escrevendo lá um negócio com aquele alfabeto super sensacional, né?
R- Que é assim, na real.
R- E ela tava lá escrevendo, escrevendo, escrevendo, e aí ela parava, no meio ali, escrevendo uns números. E aí, na minha cabeça, ainda bem que eu só pensei e não falei em voz alta, eu pensei, nossa, gente, mas eles fazem os números igual a gente.
R- Aí depois eu falei, não, a gente que faz os números igual a eles.
R- Os números não são nós que inventamos, foram eles, eles e os números inventos. As coisas menorzinhas, quando a gente se coloca em contato com a cultura do outro e se coloca, e é isso que a gente diz, né?
R- essa construção do internacionalismo dos povos, não é pra… A cultura às vezes é uma barreira, né?
R- Que aí, qual é a cultura que vai se...vai se interpor às outras, sabe?
R- Qual é a cultura que nós vamos desenvolver?
R- E não é, não é nem abrir mão do que já é da gente, mas é a gente construir a cultura internacionalista, coletiva, né?
R- E aí, a gente se colocar em contato com o outro é muito...
R- É um exercício de humildade, é um aprendizado que eu nunca imaginei que eu fosse ter.
R- Eu não imaginava que eu fosse fazer um treino desse assim. Então, pra mim, enquanto pessoa muito edificante, e para a organização, é fundamental, né?
R- Não só esse, uma viagem, esse um curso que eu fui, mas essa construção pro internacionalismo dos povos na prática.
R- E a gente se formar em espaços coletivos internacionais, formar os nossos quadros dessa maneira, quer dizer que nós já estamos elaborando, dando espaço para elaborar uma teoria revolucionária internacionalista, por natureza.
R- Diferente e que olha também com capacidade para olhar para os nossos territórios, mas uma teoria revolucionária internacionalista.
R- Muito importante, sensacional, lindo.
R- E o povo tudo parece com meus parentes.
R- A família da minha mãe tem tudo aquela cara.
R- Eu falei, gente, que fluxos migratórios que aconteceram.
R- Que o povo da minha mãe e o povo, na verdade, essa cara do indígena do Vale do Rio Doce Mineiro.
R- Que o povo tem essa cara.
R- Parece com o povo do sul da Ásia.
R- Não sei, tenho que estudar e descobrir como é que parece.
R- Eu me senti em casa ao mesmo tempo.
P/1- E Dandara, hoje, como tá a sua vida? Como que você tá? Como é a sua rotina? Você faz parte do Coletivo Nacional da Cultura? E tem mais atividades, enfim?
R- Sim.
R- Hoje eu tô, aliás, hoje não, já faz alguns anos, né, porque eu cheguei aqui em Minas pra tarefa do Sim, Eu Posso, né, da jornada de alfabetização, daí nós concluímos a jornada.
R- Eu contribuí um tempo num curso de agroecologia, que a gente construiu aqui com uma fundação aqui do Estado, e aí depois eu vim contribuir na Secretaria Estadual do MST de Minas.
R- E sempre isso, né? As tarefas específicas, mas a minha profissão de fé é lá na cultura, certo?
R- E...
R- Bom, bem importante para a minha formação estar aqui na secretaria, bem desafiador também, e estou em transição para poder sair dessa tarefa, que já faz uns… vai para cinco anos que eu estou nessa tarefa, né?
R- Mas a secretaria é um espaço por onde passa tudo, né?
R- E é por onde a gente também… faz interface com outras organizações, que é bem importante, né?
R- Nós já entendemos há muito tempo que sozinha nós não fazemos nem sequer a luta pela reforma agrária, que é o nosso doméstico.
R- Quanto mais, mais do que isso, né?
R- Então, a unidade da classe trabalhadora para nós é central.
R- Então, é a partir dali também que a gente faz.
R- Foi bom porque eu fui conhecendo muita gente. Eu saí de Minas, eu era muito pequena.
R- Então, eu conheço a militância, conheço de antes, né? A militância mais antiga de Minas, e não conhecia esse outro povo que chegou depois que eu saí, e nem conhecia a companheirada da cidade, das outras organizações, que são até parceiros históricos do movimento, e eu não conhecia.
R- Então, na secretaria, eu me coloquei mais em relação com esse povo, de conhecer as pessoas, conhecer o Estado, porque eu saí também muito nova, não conhecia nada, com a realidade do estado, o que é Minas Gerais, não sabia bem nada disso.
R- Então, pra mim foi bem importante estar nessa tarefa para retomar, pisar na terra aqui de novo, me enraizar mesmo, me enraizar em Minas Gerais, comigo embora.
R- Mas tô em transição pra sair, porque não dá pra ficar tanto tempo assim, na cultura faz algum tempo já também, que minha tarefa é isso, que eu falei lá mil horas atrás, no começo, que é a nossa frente de música João do Vale, que é isso, né, que eu disse, é talvez a música é a nossa linguagem mais íntima, mais próxima, mais familiar e mais histórica, mas a nossa Frente João do Vale, ela só foi formalizada em 2019, ela é a frente mais jovem da cultura, da nossa divisão de tarefas dentro da cultura, né?
R- E aí, inclusive, foi batizada aqui em Minas Gerais, na atividade aqui em Minas Gerais.
R- E aí, tô nessa tarefa desde então, desde um pouco antes disso, e… muito desafiador, assim, muito desafiador no bom sentido, assim, muito bom, muita coisa pra fazer, porque agora nós estamos com muito gás nesse debate da música no MST, porque a gente fez, né, principalmente pelo marco do Encontro Nacional, primeiro Encontro Nacional de Música do MST, que nós fizemos em 2023, é, ano passado, que nós fizemos no ano passado com 160 cantadores, cantadeiras, instrumentistas, compositores sem terra, lá na nossa escola Florestan Fernandes.
R- E isso deu muito gás, assim.
R- Dali nós fizemos várias...
R- Percebemos várias coisas, fizemos várias sínteses do que é esse fazer musical na MST, do que são os desafios do próximo período, do que é que nós precisamos projetar, de que tarefas, de que sujeitos, isso que eu falei das mulheres compositoras, mas também das mulheres instrumentistas, da juventude, de incorporar outros gêneros no nosso fazer musical, que contemplem outros territórios, outros sujeitos.
R- Porque a nossa música começou lá, ela é muito solista, e muito herança da música caipira.
R- E a partir dali foi se inserindo outros gêneros, a partir de também o movimento se consolidou em outros estados.
R- E agora, o que nós precisamos para cantar os novos tempos?
R- Nesses 40 anos da MST, todo mundo está com a tarefa de olhar para a nossa trajetória até aqui, para projetar o futuro.
R- Então, nós estamos com muito gás, e aí nós temos muito gás para fazer, e é tudo coisa muito boa.
R- Muito boa essa tarefa de elaborar um pouco mais, organizar e projetar o que é, a música no sem terra, que daí não é perfumaria, não é enfeite, não é só pra festa, não é só pra animar nós, não é só pra ocupar o tempo de microfone, mas tem uma centralidade, um papel político muito importante e formador no ser humano mesmo, né?
R- Mas também de formação para o nosso projeto.
R- Muitas vezes a música era a síntese que chegava dos debates políticos que o MST estava fazendo nos territórios. Às vezes não chegava cartilha, não chegava o debate, não chegava não sei o quê, mas a música chegava.
R- E como a música era síntese, aquelas composições eram síntese desses debates coletivos, das pautas que nós estávamos falando, dos grandes motes, assim, de luta, das jornadas que nós estávamos fazendo, isso também formou para o projeto da reforma agrária popular, né?
R- Além da formação humana.
R- Então, assim, muitas tarefas que a música sempre cumpriu.
R- E aí, eu tô apaixonada com essa tarefa. Eu tô num tesão desgraçado com essa tarefa.
P/1- Música que é a semente. Você quer cantar ou recitar alguma?
R- Meu Deus, não.
R- Eu tô sem nenhum instrumento dentro dessa casa. Todos os meus instrumentos estão no luthier.
R- De verdade, eu prometo.
R- Mas...
R- Se eu tivesse lembrado disso, eu podia ter trazido o violão da secretaria.
R- Mas vai ter que ficar pra próxima.
P/1- Tá, se você quiser depois enviar alguma letra que seja bem significativa para você, que conte sua história junto com as fotos, pode ser legal.
R- Com certeza, mando sim.
P/1-Oba!
P/1- E queria te perguntar, quais são as coisas mais importantes para você hoje?
R- Meu Deus!
R- Quais são as coisas mais importantes para mim?
R- Essa pergunta tem muita camada, porque tem coisa que é importante para mim enquanto indivíduo sozinha.
R- Ninguém está sozinho nesse mundo, todo mundo é fruto da sua formação histórica, dos seus coletivos. Mas tem coisas que eu tenho paixão por mim, que não são mediadas pelo movimento, mas que são muito apoiadas e o povo me dá muito suporte nas minhas coisas.
R- Eu quero voltar para a universidade ano que vem, vou prestar o Enem esse ano porque eu quero entrar na biologia e eu quero...
R- Porque eu sempre fui apaixonada por cobra, e eu quero poder estudar formalmente, eu estudo muito por conta. Cheguei no limite do que dá para estudar por conta. E eu quero voltar e o povo me dá super apoio aqui, tá todo mundo interessado nisso, para também estudar agora, sabe, em outro lugar.
R- Estudar porque eu quero, porque eu tenho interesse.
R- O MST me ensinou a estudar, porque a universidade não me ensinou muito.
R- E vou estudar agora com outro prazer, que eu fui antes para poder, não fica à toa, né?
R- Fui para conhecer o Rio, enfim, para viver a vida.
R- Agora não, agora eu vou pelo prazer de estudar, isso é muito importante para mim, uma das coisas que está no centro da minha vida, do meu projeto pessoal nesse momento, é muito importante.
R- A outra coisa que é muito importante para mim é esse reconhecimento do ser artista e de fazer arte, porque às vezes estar em muitas tarefas significa que a gente tem pouco tempo para outras coisas, e se a gente não criar esses tempos, a gente não cria, não tem, não existe.
R- Já entendi que, para o cultivo da minha humanidade, eu preciso fazer arte, estar em contato, ter um coletivo em que fazer também, porque eu posso tocar um violão sozinha aqui na minha casa, mas não é isso, né?
R- É elaborar sobre, é fazer com delicadeza, né?
R- E fazer em coletivo, isso pra mim é muito importante. É questão de saúde pra mim e de humanidade, de dignidade humana, principalmente agora, nesse momento, é muito importante para mim, e aí acho que é a mesma centralidade que o movimento está olhando, nós dar conta de construir perspectivas de futuro.
R- Até bem pouco tempo atrás, eu, pessoalmente, não estava dando conta de...de elaborar, de projetar futuros para mim.
R- O que é que eu quero daqui a cinco anos? O que é que eu quero daqui um ano?
R- Não dava conta disso. Até um cinismo, assim.
R- Porque nós vamos todos morrer no apocalipse ambiental. Era isso que eu dizia.
R- O que é que adianta projetar daqui dez anos, daqui cinco anos, daqui não sei o quê? Se o futuro é tão incerto e ele não existe, sabe? E eu fui me curando um pouco desse cinismo, assim.
R- Na coletividade, no tratamento da minha saúde mental, em que eu continuo, porque é coisa permanente, todo mundo deve fazer. E agora eu dou conta de projetar um tempo da minha vida, de quero estudar, de vou fazer isso, vou fazer aquilo, mas nós precisamos dar conta de projetar o futuro coletivo também.
R- A gente só se sustenta, e eu só me dei conta de, sufocando em mim um pouco esse cinismo, porque nós temos um projeto de futuro, coletivo em que a gente acredita e pelo qual a gente trabalha todo dia. Se a gente não tiver isso em que se agarrar, é o cinismo mesmo, que é o que nos sobra, sabe?
R- E a barbárie.
R- E agora que nós estamos vendo tudo isso no Rio Grande do Sul, aqui em Minas o que nós já passamos com os dois crimes da Vale, né, de rompimento das barragens, tragédias anunciadas, né?
R- Nesses últimos Dez anos, acho que não teve nenhum ano sequer sem alguma grande tragédia, né, no Brasil.
R- Sempre tragédias anunciadas.
R- E que se devem ao modo de vida, ao modo de desenvolvimento, ao modelo, ao modo de produção sobre o qual a gente vive.
R- Sem um projeto de futuro nesse momento especial, assim, em que a gente não consegue ver saída, conversando com os companheiros do Rio Grande do Sul, numa prosa mais pessoal, assim, sabe?
R- Menos...
R- Mais desabafo mesmo, assim, estendida.
R- É cenário de fim do mundo, parece uma guerra, parece filme. E é desesperador.
R- Eu já sou de uma geração que começou sua militância já um pouco nessa realidade, de um esvaziamento do futuro.
R- A geração dos meus pais começou a militar lá nos anos 70 e 80, estava redemocratizado o país, tinha muito o que sonhar. Tinha essa ameaça da guerra, ameaça da barbárie, ameaça de tragédia oriental tão próxima.
R- E o país estava em movimento.
R- E a nossa geração não.
R- Seja na militância, seja fora da militância, a nossa geração é muito vítima de um esvaziamento de perspectivas.
R- Então, nesse momento, acho que se a gente não voltar a olhar para um projeto de futuro, eu falo por mim.
R- Eu vou cair mais uma vez no esvaziamento de sentido da vida. Pra que eu vou fazer qualquer coisa se o futuro não existe?
R- Se o futuro é o aprofundamento de tudo que está acontecendo agora, é o aprofundamento da barbárie, é o aprofundamento da tragédia. É muito fácil.
R- É isso, a tomada da consciência é dolorosa se a gente não tiver um projeto equivalente.
R- E esse é o mal da minha geração.
R- Então, é muito importante pra mim, pra minha sanidade, pra minha capacidade de viver e fazer minha militância. E é muito importante pra humanidade um projeto de futuro que se concretize, que seja possível.
R- Que se pelo menos não recuperar o que já foi, pelo menos a gente não destrua o que ainda resta, sabe? E refaça os modos de vida no planeta.
R- Sem isso talvez eu não daria nem conta de estar aqui mais, eu tinha ficado para trás. Nossa, agora é urgente, agora é emergencial.
R- A gente… A gente...
R- Sonhar um projeto, um projeto que é sonho, é sonho, é utopia, nos faz caminhar, ok, mas que tenha uma concretude. E a reforma agrária popular, aí não é… panfleto, tudo que eu tenho que falar, falar de mim, tem que falar da reforma popular.
R- Mas é uma condição de vida ter esse projeto.
R- De vida e esperança.
R- Pra gente não morrer, de pavor. Acho que isso é o mais importante na minha vida.
P/1- Como é ser uma mulher militante?
R- Cara, bicho, você faz umas perguntas difíceis demais.
R- Mas, como é ser uma mulher militante?
R- É complicado porque às vezes eu acho que a minha perspectiva é frágil, minha perspectiva é falha. Porque, em alguma medida, eu tenho uma vivência privilegiada, por essa história toda, né?
R- Por de onde eu venho, por quem é a minha família, por quem...
R- Por estar nesse curativo, porque as pessoas me conhecem, né?
R- Então, às vezes, eu acho que meu olhar me expressar talvez uma realidade mais ampla, sabe? Porque...
R- Bom, tem várias razões.
R- Primeiro, ser uma mulher militante é muito...É comprar briga, né? É ter que comprar muita briga. As companheiras que nos precederam especificamente dentro do MST são um exemplo para nós.
R- Até hoje, há brigas que contratam, mas tem muita coisa que já se entranhou na nossa cultura.
R- A questão da paridade de gênero, a questão da gente construir espaços que projetam as mulheres, etc.
R- Isso não está mais em debate. Pode ser que nem todo mundo entendeu, já tá dado pra organização, é uma linha política, né?
R- Mas as companheiras tiveram que, antes de nós, tiveram que comprar a briga, e foi através da briga das companheiras pra ter espaço na organização, que também a gente tem muitas outras coisas, por exemplo, o debate da educação.
R- Quem ajudou a elaborar e apontou a necessidade, eram as mulheres do MST mesmo, que não tinham tanto espaço na organização e etc.
R- O debate da saúde, quem ajudou a pautar?
R- O debate da juventude, quem ajudou a pautar?
R- O debate das relações humanas, que agora nós estamos construindo um aprofundamento desse debate para além desse sujeito ou daquele. Nós temos falado de relações humanas emancipadas.
R- Como é que… e através da organização das mulheres, das mulheres pautando e chamando atenção para essa necessidade.
R- O debate das crianças sem terrinha.
R- Inclusive, o debate, essa virada de chave do olhar para a necessidade de não só combater o latifúndio atrasado, do campo brasileiro, que é anacrônico, que é aquele fazendeiro burro, iletrado e não sei o que, para combater as multinacionais no campo, que a nova cara do capital no campo brasileiro não era mais essa.
R- Quem indicou isso para a organização foram as mulheres, quem apontou, e foi através da luta direta, de enfrentamento. Em 2006 ou 2007, as mulheres da Via Campesina ocuparam a Aracruz Celulose, e destruíram todas as multas. Uma ação direta de enfrentamento que indicou, o inimigo prioritário é isso.
R- Então, assim, essas mulheres travaram muita luta para ter o espaço das mulheres na MST, mas também todas essas outras dimensões que foram as companheiras que ajudaram a contar a necessidade, sabe?
R- Então, tem isso.
R- E até hoje tem muita briga pra contrastar, né?
R- Esse debate das relações humanas Dessa forma, a partir dessa elaboração, é recente, e aí nós temos que comprar muita briga para que ele apareça, para que ele tenha centralidade, para que a gente reforce que não se produza alimento saudável com relações doentes, isso é um grande mote que nós temos usado.
R- Então, tem essa dimensão da briga. Tem a dimensão de um sofrer, sabe, as vezes o que me adoece no mundo é o meu lugar de mulher.
R- Imagino que todas nós, em algum momento, né?
R- Que é frustrante, é assustador, é estarrecedor.
R- O tipo de olhar que a gente tem que ter para o nosso ao redor para viver, para estar em segurança, o tipo de coisa que a gente tem que escutar, o tipo de coisa que todas nós temos que passar. Depois que a gente já projeta, que as nossas meninas, crianças sem terrinha têm que passar, vão passar eventualmente, provavelmente.
R- Então, às vezes, o que me adoece no mundo, o que acaba comigo é esse lugar.
R- Mas é o lugar que me cura também, é o ser mulher nesse mundo.
R- Porque também, por necessidade, inclusive, nós cultivamos entre nós outros tipos de laços, outro tipo de confiança, outro tipo de bem-querer, de amizade, de… da gente se levantar umas às outras, que os homens não cultivam entre si, e eu lamento.
R- Eu tenho faltado bastante nos passos das mulheres, no espaço de debate de gênero, que mais do que se apropriar só do debate de gênero e falar e saber falar, né?
R- Os homens também têm que acessar os cuidados que nós criamos entre nós.
R- O jeito de ser mulher no SEM TERRA é bem especial quando a gente tá em coletivo, sabe?
R- É bem cuidadoso, é bem aberto, assim, pra gente chorar e dizer das coisas que sente, que passa. E que pra, honestamente, assim, saber que existem outros modos de vida, os companheiros precisam acessar esses cuidados também e se curar, sabe?
R- Da violência que é o patriarcado, da violência do capital, da violência do patriarcado.
R- Então, é o que acaba comigo, também é o que me sustenta, é o que me cura, sabe? E é um orgulho imenso, assim, poder combater em pé de igualdade, sabe?
R- Graças às companheiras que me precederam, inclusive a minha mãe, que participou muito da organização das mulheres nessa época dos 80 e 90, quando era tudo mais complicado. Então, no fim das contas, a síntese é que é um outro duro, na real, de ser mulher, de ser mulher militante, sem terra.
R- Eu não queria ser outra coisa.
P/1- Eu fiquei curiosa com uma coisa. Qual é a sua relação, e seu encantamento por cobras?
R- Ai, gente, eu tô acostumada a falar de mim.
R- Sempre fico voltando pras coisas, mas...
R- Eu não sei o que que é.
R- Eu tenho… Talvez porque eu corri mundo muito e tive que deixar sempre muita coisa pra trás.
R- Eu tenho um espírito de colecionadora, de colecionadora de bens, de coisas, de livros. A minha casa é maximalista ao máximo. Que daí não é colecionar posses no sentido da posse, mas do significado das coisas, sabe?
R- E de fatos.
R- E cobra é um bicho tão bonito, minha prima, eu tinha uma prima que morou com a gente aqui em Minas Gerais, quando a gente morava aqui antes, que ela estudava e ela ficava comigo durante o dia, enfim, tomava conta de mim, mas ela morava ali com a gente, minha prima Karina, e ela também gostava muito.
R- E aí, a gente via os filmes de Anaconda e não sei o que, pra ver as cobras, aquele CDI horroroso, né? E a gente ficava comentando e tal.
R- E acho que ela tem muita coisa que eu devia ter falado dela.
R- Tem muita coisa dos gostos, dos trens que eu gosto, do jeito que eu sou, que são heranças da Karina também.
R- E aí cobra um bicho tão colecionável. É um bicho assim, muito lindo, muito diverso.
R- E eu sou meio nerd assim…
R- E aí, é um bicho especial assim que pegou a forma mais simples do mundo, que é um tubo com a cabeça e pouquíssimos órgãos, os órgãos tudo esticados, e umas costelas e uma coluna, é isso, não tem mais nada.
R- E se diversificou de tal forma que a gente não conseguiria imaginar se a gente sentasse e falasse, elaborasse na sua cabeça quatro mil, mais de quatro mil espécies de serpente, cada uma com a sua especificidade.
R- E umas, inclusive, com tremendas especificidades e adaptações belíssimas para o seu ambiente, para o seu nicho ecológico.
R- Não tinha como imaginar, sabe? É uma diversidade, tem cobra ____, tem cobra que voa, tem cobra arborícola, tem...
R- E aí ela tem...
R- Se eu começar a falar, nunca mais paro de falar.
R- Que tem adaptações para aquilo e tal.
R- E aí,é muito lindo.
R- É interessante, é colecionável, faz parte da minha história, e eu gosto muito de estudar as bichinhas e aprender sobre, e quero estudar, estudar de verdade e me botar em contato mais com as bichinhas.
R- É isso.
R- Tem muita coisa que eu posso falar, mas daí já descamba para outro tipo de conversa, já vira palestrinha.
P/1- É muito difícil porque eu teria mais um milhão de perguntas, mas queria te perguntar se você gostaria de acrescentar algo mais, assim, que eu não tenha te perguntado, contar alguma história.
R- Não sei, eu acho que tem muita história mais miúda, assim, sabe? O grosso do trem tá posto assim.
R- Talvez acrescentar isso, que além de viver como uma mulher militante nesse mundo, que é patriarcal e é violento, baseado em relações sociais violentas, eu também tenho existido como uma mulher LGBT militante, etc., num mundo que é heteronormativo, patriarcal.
R- E que agora com 31 anos que eu tô desaprendendo um tanto de coisas que eu fui identificando assim, que são heranças heteronormativas na minha vida, que eu entrei, e que só agora eu identifiquei e tô começando a desaprender.
R- Então tem também os seus desafios, mas que pelo menos agora parece que eu cresci pra caber na minha pele, sabe? E quero ser percebida pelas pessoas como isso que eu sou.
R- Então, eu tô fazendo uma segunda rodada de saída do armário.
R- Tô fazendo uma segunda rodada de saída do armário, porque agora eu acho que eu caio, sabe? Nas coisas que eu sinto e como eu me percebo, acho que agora eu caio dentro disso.
R- E aí, então, eu tenho feito o meu máximo pra expressar esse sentimento de quem eu sou, assim, sabe?
R- de existir no mundo como uma pessoa LGBT, de existir no mundo como uma mulher, de existir no mundo como uma sem-terra e uma sem-terrinha, de existir no mundo com mais sinceridade e esconder menos. E acho que tudo isso que aconteceu foi o que me deu as ferramentas, como é aquela poesia, que me deu impulsos, ferramentas e coragem.
R- Pra eu dar conta de agora, tá percebendo essas coisas e me colocando no mundo desse jeito. Com mais sinceridade e, portanto, sou mais feliz.
R- Então, se não fosse tudo isso, talvez eu não tivesse, né? Talvez não tivesse nem esse coletivo que me acolhesse, que eu tenho e que, portanto, eu tenho segurança também pra viver dessa forma, né?
R- Nem todo mundo tem.
R- Nós somos um país muito violento, né?
R- Então… Acho que isso é uma parte que é mais recente de todos esses aprendizados, mas que são fruto dessa história que me dá essa condição de existir assim.
R-Acho que é isso.
P/1-E você gostaria de deixar alguma mensagem para as pessoas, pensando em um legado para as próximas gerações?
R- Eu não sei se eu tenho a envergadura moral de propor legados para futuras gerações, eu Dandara, mas se tem aprendizados que eu tenho, que talvez sejam válidos assim, é da gente estar em coletivo.
R- Acho que a gente só, num mundo cada vez mais bárbaro, num mundo cada vez mais violento e com as contradições do capitalismo cada vez mais expostas, sobre a forma de tragédia, o ser humano sozinho é um bicho muito frágil. E que um coletivo não é só um aglomerado de gente.
R- E o ser humano anseia por comunidade, muito.
R- E é nesse anseio por comunidade, sem ter, que a gente cai em muita armadilha, que é isso que a gente precisa, né?
R- O ser humano é um ser social, nasceu pra andar em bando.
R- Então, talvez a lição mais importante que eu aprendi da minha vivência é a importância da coletividade, uma coletividade sincera, crítica, em que a gente tem espaço de participação verdadeira e que o que unifica a gente não é medo, não é ódio, não é um conjunto de regras, mas são valores e um projeto de futuro.
R- Eu acho que talvez isso é a coisa mais importante da minha vida, meu maior aprendizado, talvez seja isso.
R- Porque é isso que dá condições pra gente de outras coisas, de ser quem a gente é, de ter vivências que a gente não teria de outra forma, de não estar em competição com o nosso próximo o tempo todo, de não cair em armadilha ideológica que coloca a gente como inimigo de outras pessoas, sabe?
R- Nós não temos inimigo, nós temos inimigo de classe. Fora isso, não, sabe?
R- Então, não sei, acho que a coletividade é a coisa mais importante pra mim.
P/1- E por fim, como foi contar um pouco dessa história hoje pra gente relembrar?
R- Uai, estranho? É isso, eu não tô acostumada a falar só de mim. E tinha coisa que nem tava muito fresco na cuca, que eu tive que pensar pra lembrar.
R- Teve coisa que… que talvez eu não lembrei e deixei passar.
R- Mas é isso, é um trem que eu quis fazer porque a história da gente, cada um, expressa a história da nossa classe, expressa a história do nosso país, no meu caso, a história da organização.
R- E é por isso que eu acho muito sensacional.
R- Museu da Pessoa, isso é um patrimônio maior da gente, né?
R- E aí, recontar as histórias da gente também, escutar as dos outros, retira a gente do desenvolvimento, né? Gera identidades e a gente percebe identidades.
R- Então, foi esquisito. Eu tô me sentindo meio autocentrada, assim, né?
R- Me fala alguma coisa de você, tipo, eu vou ficar aqui só falando de mim.
R- Que estranho.
R- Mas, ao mesmo tempo, bom para lembrá-la de algumas coisas, para expressar também uns sentires dessas vivências todas que provocou em mim.
R- Então, foi bom.
R- Finíssimo. Meio esquisito, mas edificante também. Importante para mim, eu acho.
P/1-E qual foi sua primeira lembrança da vida? Só pra gente encerrar o tempo.
R- Eu não sei. Eu não sei qual é a primeira, primeira.
R- Eu lembro de coisas de muito, muito, muito antigamente.
P/1- Pode ser.
R- Quando eu tinha 6, meus 3 anos, eu lembro do jeito que era a porta da casa da minha avó, que depois não era mais., que era dessas que abre embaixo e abre em cima, separada.
R- E aí, quando a gente voltou pra Rondônia, ficou só a tamelia só. Sabe a tamelia de madeira da porta? Mas ela já abria inteira.
R- Mas ficou a tramela de baixo. E ninguém mais lembrava disso.
R- Falei, gente, isso aqui é a tramela de antigamente. O pessoal não lembrava disso, não tinha me dado conta disso.
R- Eu lembro de muita coisinha assim de Rondônia, sabe? Uns flash de muita coisinha de ser criança pequena em Rondônia.
R- Muita gente que nunca mais eu vi, mas é flash, sabe?
R- E eu acho que eu era bem pequenininha, mas eu não sei qual é a primeira não.
{ Fim da Entrevista}
Recolher
.jpg)
