Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Vagner Alves de Miranda (Valtinho)
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 30 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV014
Transcrito por Miriam Allodi
P/1 - Pra começar, me fala seu nome inteiro, o dia, mês e ano que você nasceu e a cidade.
R - Meu nome é Vagner Alves de Miranda. Data de nascimento dia 9 de junho de 1988. Nascido aqui na cidade de Cubatão e no bairro Vila Esperança.
P/1 - Você nasceu na Vila Esperança?
R - Nascido e criado na Vila Esperança, 37 anos.
P/1 - Seus pais? Quem são eles?
R - Meu pai é Roberval Cajueiro de Miranda, é natural de Pernambuco, minha mãe Laudice Alves do Rego, também natural de Pernambuco.
P/1 - E eles vieram para cá quando?
R - Meu pai veio há muitos anos atrás, um dos pioneiros daqui do bairro Imigrantes também, onde depois, em seguida, ele trouxe a minha mãe que ele veio o primeiro a trabalho. Então, logo em seguida, ele trouxe a família.
P/1 - Eles já te contaram do porquê que eles vieram?
R - Vieram em busca de uma melhoria de vida, né? Assim como acredito que 70 a 80% dos moradores de Cubatão que é nordestino, Cubatão, eu costumo falar que é uma cidade nordestina, então, eu acredito que muita gente veio nesse mesmo termo, de procurar uma melhora, emprego, e dar uma vida melhor para a família.
P/1 - E quando eles vieram, eles eram já para Vila Esperança ou não?
R - E como eu era muito novo na época, depois a gente conversando e tal, não necessariamente veio para Vila Esperança, passou alguns locais como Diadema, Itapevi, morou em Osasco, também veio para Cubatão também.
P/1 - E quando você nasceu, como que era a vida deles?
R - Meu pai sempre trabalhou na questão de motorista, então ele sempre trabalhou. A vida não era tão fácil, que nem, hoje a gente já tem uma abertura bem bacana, a gente consegue ter uma vida melhor, né? E eu acredito que com o passar do tempo foi...
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Entrevista de Vagner Alves de Miranda (Valtinho)
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 30 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV014
Transcrito por Miriam Allodi
P/1 - Pra começar, me fala seu nome inteiro, o dia, mês e ano que você nasceu e a cidade.
R - Meu nome é Vagner Alves de Miranda. Data de nascimento dia 9 de junho de 1988. Nascido aqui na cidade de Cubatão e no bairro Vila Esperança.
P/1 - Você nasceu na Vila Esperança?
R - Nascido e criado na Vila Esperança, 37 anos.
P/1 - Seus pais? Quem são eles?
R - Meu pai é Roberval Cajueiro de Miranda, é natural de Pernambuco, minha mãe Laudice Alves do Rego, também natural de Pernambuco.
P/1 - E eles vieram para cá quando?
R - Meu pai veio há muitos anos atrás, um dos pioneiros daqui do bairro Imigrantes também, onde depois, em seguida, ele trouxe a minha mãe que ele veio o primeiro a trabalho. Então, logo em seguida, ele trouxe a família.
P/1 - Eles já te contaram do porquê que eles vieram?
R - Vieram em busca de uma melhoria de vida, né? Assim como acredito que 70 a 80% dos moradores de Cubatão que é nordestino, Cubatão, eu costumo falar que é uma cidade nordestina, então, eu acredito que muita gente veio nesse mesmo termo, de procurar uma melhora, emprego, e dar uma vida melhor para a família.
P/1 - E quando eles vieram, eles eram já para Vila Esperança ou não?
R - E como eu era muito novo na época, depois a gente conversando e tal, não necessariamente veio para Vila Esperança, passou alguns locais como Diadema, Itapevi, morou em Osasco, também veio para Cubatão também.
P/1 - E quando você nasceu, como que era a vida deles?
R - Meu pai sempre trabalhou na questão de motorista, então ele sempre trabalhou. A vida não era tão fácil, que nem, hoje a gente já tem uma abertura bem bacana, a gente consegue ter uma vida melhor, né? E eu acredito que com o passar do tempo foi melhorando, mas não acredito que não foi tão fácil não.
P/1 - Motorista de quê?
R - De ônibus, mas também de caminhão.
P/1 - E sua mãe?
R - Minha mãe trabalhou um bom tempo também com jornal, que era Diário de Pernambuco, que é lá em Pernambuco mesmo, no Recife.
P/1 - Ela fazia o quê?
R - Ela vendia o jornal no semáforo, em algumas bancas, eu inclusive, também acompanhei, já fiz esse tipo de serviço juntamente com ela também, e o trabalho dela também, ela vendeu, montou alguma coisinha na “arinha” da casa dela, vende um cimento, se virando um pouquinho para poder se manter também, né?
P/1 - E tem outros filhos?
R -Tem o meu irmão, que é o Valter, o Vinícius e a Valéria, e eu, o Vagner tem outros irmãos por parte de pai também, né, que moram lá no Pernambuco também, que é a Valdelice, o Roberval, que é o mesmo nome do meu pai, o meu irmão também, e o Valdemir.
P/1 - Nossa, então seu pai e sua mãe, vocês são do segundo casamento do seu pai?
R - Isso.
P/1 - E todo mundo nasceu aqui, ou só você?
R - Aqui nasceu eu, o Vinícius nasceu no Recife, eu acho que os outros meus 2 irmãos, acho que nasceu no Recife também. Eu acredito que só eu ou mais 1 irmão meu que nasceram aqui,
P/1 - Você é o caçula?
R - Não, o caçula é o Vinícius, que é o mais novo.
P/1 - Você é o segundo?
R - É o segundo, e depois a minha irmã e depois vem o Valter.
P/1 - Tá? Você tá falando. Você se apresentou como Vagner, mas a gente já te conheceu como Valtinho? Me conta aí.
R - Então. O Valtinho é uma história bem engraçada, porque todo mundo chamava o irmão de Valter, Valter, Valter e eu acho que ninguém pensou na cabeça de,“pô, vou colocar um apelido desse rapaz aí, colocar o nome dele de Valtinho, ele se parece muito com o irmão dele.” E o Éder, que é um morador do bairro também, ele acabou começando a me chamar de Valtinho, Valtinho, Valtinho e ficou até hoje, a mais de tantos e tantos anos aí, é o Valtinho da Vila Esperança.
P/1 - Alguém te chama de Vagner?
R - Só meu pai, por incrível que pareça. Meu pai, e pouca gente mesmo, um morador que é antigo assim e tal, mas a maioria mesmo, todo mundo me conhece na cidade, como Valtinho do Corte.
P/1 - A sua mãe te chama como?
R - Vagner
P/1 - Ah, então sua mãe também?
R - É minha mãe, hoje ela não tá mais em vida, né? Falecida, faleceu ela, e minha irmã também. E aí só eles mesmos que me chamavam de Vagner, mesmo assim, minha irmã e tal, meu irmão, às vezes de vez em quando, chama também, o Vinícius sempre me chamou de Vagner também.
P/1 - Então repete que ano que você nasceu.
R - 1988.
P/1 - Em 1988, quando você nasceu, a sua mãe te contou se o nascimento foi aqui, foi lá em Cubatão, foi em Santos?
R - Cubatão mesmo, aqui em Cubatão.
P/1 - Ela falou alguma coisa do dia do seu nascimento?
R - Ela falou que foi o melhor dia, um dos melhores dias da vida dela, né? Porque é uma coisa que o nascimento do ser humano, eu acredito que para um pai ou uma mãe é uma coisa bastante especial. Então eu tenho esse sentimento comigo que eu carrego, esse sentimento que ela deixou para mim.
P/1 - Mas eu imagino que não tenha sido fácil porque não tinha hospital aqui, né?
R - Não, não, não, não. Não foi fácil, né? Não tenho essa recordação, mas em conversa, puxando um pouco da história do bairro, da cidade, a gente sabe que hoje a gente está bem melhor do que era lá atrás, né?
P/1 - Quando você era pequenininho, qual a sua memória da Vila Esperança?
R - A minha memória da Vila Esperança é um pouco conturbada por conta das ações que já aconteciam também na Vila Esperança, melhorias, tinha a questão da pista, no caso, a Pedro Taques, que a gente falava, onde que o pessoal também ia fazer algumas mobilizações para reivindicar algumas coisas para dentro do bairro, e isso foi o que ficou um pouco marcado também.
P/1 - Como que era a casa?
R - A casa era de madeirite, a gente morava numa casa bem pequena, uns 2 ou 3 cômodos ali para abordar uma família bem grande, vamos assim dizer, né? Aí a madeirite, o chão era barro, né? Fazia hoje, amanhã a gente não sabia se ia ter a casa porque tinha a questão da fiscalização. Então tinha essas questões que a gente tinha que tomar uma precaução de fazer à noite, para depois de dia a gente não sabia se ia ficar de pé.
Mas a gente estava ali, lutando, conquistando nosso, nosso lar, né? Então, isso tudo foi um, eu levo isso como um legado bem bacana, porque as coisas que a gente passa na vida são as coisas que vão ficar marcadas, né? Então, se hoje eu tenho alguma coisa, busquei algo, comprei algo, eu dou muito valor por conta de tudo que a gente já passou lá atrás.
P/1 - A casa era aqui na principal?
R - A casa sempre foi no Caminho Imigrantes aqui na Marginal Imigrantes quase no final da rua, o local da casa nunca mudou. É o mesmo até hoje.
P/1 - E a rua, como que era?
R - A rua era barro puro, muito buraco, um caminho bem estreito, onde só tinha mato. Não tinha muito movimento, sabe? Aquele caminho morto, apagado, sem vida. Hoje em dia eu vejo uma luz nesse bairro, trazendo um pouco para esse lado da Imigrantes, mas era bem escuro mesmo. Tem morador antigo que tem foto pra caramba também de como que era, então, era bem escuro mesmo esse local
P/1 - Além de escuro, tinha enchente, tinha mangue, se chovia.
R - Tinha, a chuva, vamos se dizer, alguns moradores falavam que era inimigo, porque choveu, você não saía de casa, né? Principalmente criança quando ia pra escola, que pegava esse percurso, então até chegar no ponto de ônibus, já chegava todo sujo. Então, tipo assim, isso desanimava muito, mas a gente sabia a real necessidade de ir para uma escola e a gente, com toda dificuldade, a gente foi caminhando e seguimos.
P/1 - Tinha energia elétrica?
R - A energia tinha. Tinha energia, eu lembro sim. Energia tinha. Não regularizada, mas tinha.
P/1 - Tinha documentação?
R - Não. Por que que nem eu falei pra vocês, a gente tinha essas precauções de fazer um barraco agora, e amanhã ou depois a gente não... O bairro não era regularizado, essa questão toda, então a gente tinha esse medo, de que até, aconteceu diversas vezes a gente levantar (o barraco) e a noite acabar o barraco e no outro dia vier (a fiscalização) e desmontar tudo.
P/1 - Você tem essa memória, então?
R - Eu tenho essa memória.
P/1 - E a sensação da sua casa...?
R - É assim, a sensação de tristeza que dá, quando toca um pouco no passado, porque a gente sabe a luta que foi, né? A gente sabe o caminho que foi trajado para poder conquistar algo, até comprar um prego que seja, a gente sabe que nunca foi fácil. Tanto é, que aqui a gente conta muito com a ajuda da própria população, até hoje, se você precisa de alguma coisa, algum material, a população vai ali, estende a mão e acaba se ajudando.
Mas a memória que eu tenho muito, é um pouco esses transtornos, dessa briga de tirar, como é que você tira uma família inteira com criança de dentro do barraco? Onde que ali, vai ficar no relento vamos dizer, né? Então, a gente lutava muito por isso.
P/1 - Como que seus pais reagiam?
R - Não tinha muito o que fazer, né? A gente primeiramente pedia muito a Deus e não tinha muito o que fazer, porque a gente sabe que as autoridades estavam ali fazendo também o papel deles. Porém, a gente também sabia que a gente precisava também de ter o nosso lar. A gente precisava de um teto, um abrigo, até para a família se reestruturar ali, e, é porque não é questão que a gente queria ficar ali, é a necessidade que nos levou para ali, né? Então hoje, eu vejo lá atrás e agradeço tudo o que eu passei, por mais difícil que foi, mas é dessa forma que a gente acaba dando valor até nas memórias que a gente deixa lá atrás.
P/1 - Hoje eu entendo que você tem essa cabeça, esse conhecimento, mas enquanto criança era difícil entender?
R - Muito difícil, não tinha entendimento, o único entendimento era de que sabia que ia chorar, e que bateu o desespero...
Como eu era criança, então não tinha muito esse entendimento. Eu acredito que meus pais, assim como outros moradores, também sofreram muito nessa questão. Então eles passaram bastante essa demanda aí.
P/1 - Eles falavam, seus pais falavam alguma coisa para os filhos?
R - Falava sempre, meu pai sempre comentou a vinda dele para cá, para São Paulo, que nunca foi fácil, né? Mas com toda a dificuldade que teve, ele foi criando as oportunidades também. A pessoa tem que ser um pouco versátil também, não esperar a oportunidade vir. E às vezes você pode também ter essa capacidade de criar oportunidade, não só esperar.
P/1 - Então como é que ele criava a oportunidade na Vila Esperança?
R - Então. Na Vila Esperança as oportunidades são criadas de diversas formas, né? Vamos dizer que é um bairro versátil. Por exemplo, vou dar um exemplo aqui e eu vou criar uma oportunidade de eu me manter para comprar um alimento. Então, tem família aqui dentro da Vila Esperança, que vendia uma cocada, uma água na pista. Eu mesmo já fui um deles, que vendia muita água na pista, com o tempo de fim de ano tem um congestionamento, então lá atrás o pessoal se mantinha dessa forma, né?
P/1 - O pessoal se juntava?
R - Não que se juntava, mas cada um fazia um pouquinho, um vendia uma água, outro um refri, outro vendia uma cocada que era uma coisa mais que pegava bastante assim que o pessoal vendia bastante lá na pista. Outras já vendiam a fruta também num cantinho do bairro e tal, e assim foi indo, né?
P/1 - O comércio então ele existia?
R - Comércio, o comércio em si, ele era muito pouco, né? Porque o comércio quando começou a existir, eu me lembro, aqui dentro da Vila Esperança, ele passou a existir dentro da própria casa do morador. Não foi isso de dizer “Eu vou fazer um comércio, né?” Então, tipo assim, eu tinha uma casa, um barraco, na verdade, “vou abrir uma janelinha ali e vou pendurar um salgadinho, uma água, alguma coisa e vou começar a vender para mim, ter uma renda para se manter.”
P/1 - E era um jeito que um ajudava o outro também, né? Comprava do comércio local.
R - Sim, sim, essa rotatividade de compra dentro da comunidade foi o que eu acho que abraçou mais a população, para poder se ajudar nessa questão. E até hoje a gente segue esse segmento de comprar com pessoas do bairro e tal, essa questão para poder manter essa renda local.
P/1 - Valtinho, como que era enquanto menino?
R - Era bem levado, bem levado mesmo, vivia na rua, vivia na rua, então assim, minha avó, que eu sempre fui criado também com a minha avó, então vivia muito na rua, só de cueca, barriga cheia de vermes.
Só vinha pra casa porque vinham me buscar, vamos dizer, né? Porque como criança a gente não pensa muito, né? Não tem responsabilidade, então só queria ficar brincando mesmo na rua, ali. Eu lembro uma coisa muito legal que eu me lembro bastante, gosto de ficar tocando no assunto, que foi quando meu pai chegou lá no Pernambuco e trouxe um carrinho que veio um monte de boi dentro, né? Cara, aquilo ali pra mim, eu tinha uma fazenda, então aquilo ali pra mim foi tudo, eu lembro que ele me deu um caminhão caçambinha desse tamanho e tinha uma ladeira e uma descidona assim, então, tipo assim, não, aguentaria eu, (meu peso) essa caçamba. Só que eu subi em cima dela e descer a ladeira com tudo ali, nem se preocupando se machucar, não se preocupava com nada. Mas na minha infância foi bem levada mesmo, foi bem levada nessa questão.
P/1 - Aí você falou da sua avó. Fala dela.
R - Minha avó é uma pessoa que Deus o tenha. Mas eu tenho muita gratidão por tudo que ela fez, tudo que ela construiu dentro da nossa família. Uma pessoa evangélica, uma pessoa pura, né? Eu vi a minha avó, uma pessoa guerreira, que ela saía pra ir pra igreja, ela fazendo a marmitinha dela ali, amarrava num pano de prato, colocava na sacolinha e ia como uma distância daqui a 4 km de distância, no meio do canavial pra ir pra igreja no círculo de oração. Então eu vi muita fé nela, ali. Eu acho que aquilo ali moveu muito não só a nossa família, mas as pessoas ali no Recife, que precisamente em São Lourenço da Mata, que conhecia ela, acho que via que ela era uma pessoa bem guerreira nessas questões aí. E ela fazia de tudo, de tudo para ver nós dando uma risada, não passar vontade de comprar algo ali, se empenhando bastante. Então foi uma coisa que eu carrego comigo para o resto da minha vida.
Eu costumo falar que ela não foi só avó, ela foi uma mãe também e que é mãe e vó, você sabe como que é, então, eu tenho muito essa memória comigo, né dona Luzia? Então que Deus o tenha.
P/1 - Mãe do seu pai e a mãe da sua mãe?
R - Mãe da minha mãe.
P/1 - E ela chegou a morar aqui na Vila Esperança?
R - Eu não tenho essa recordação dela morar aqui, né? Não tenho essa recordação porque eu, como pequeno, fiquei morando com ela um bom tempo mesmo, só que foi lá no Recife mesmo. Então não tenho essa recordação.
P/1 - Teve parte da sua infância lá no Recife?
R - Era uma coisa muito louca, porque 1 ano ficava aqui, 1 ano ia pro Recife, e também acabou me atrapalhando um pouco na questão do estudo, tal. Porque essa ida e volta, ida e volta “vai ficar um ano lá com teu pai”, eu vinha ficar com meu pai, ficava um pouquinho aqui e tal, “vou ficar com a minha mãe”, e ela falava, ficava com a minha mãe, ficava com a minha avó, ficava 1 ano, 2 anos.
P/1 - Mas os teus pais não estavam ainda juntos aqui?
R - Então aqui ainda não, aqui nessa época, não. Até depois do passar do tempo foi que minha mãe veio, não se adaptou com o frio, porque lá o calor do Nordeste a gente sabe como é que é, então ela não se adaptou com o frio e o vento muito forte, medo, toda essa questão, aí acabou voltando pra lá.
P/1 - Então, com quantos anos você veio pra cá e ficou?
R - Acredito que com uns 11 anos, 12 anos de idade por aí.
P/1 - Que aí sim você…
R - Eu me instalei aqui e fiquei de vez. Só ia lá pra só pra visita mesmo. E é isso.
P/1 - Você gostava daqui?
R - Ah, sempre gostei, sempre gostei daqui. Mas eu não vou mentir não, lá também é muito legal, porque é um povo muito acolhedor, sabe? Eu acho que é por isso que eu gostei tanto daqui, porque a maioria do pessoal daqui é nordestina então, povo acolhedor, bastante. Mas lá eu vivi muito a minha infância lá, né? Não vivi como aqui, mas por isso que eu tenho esse apego. Minha avó, minha mãe, o pessoal que estava bem próximo de mim ali. E tudo isso que eu passei lá também.
P/1 - Então suas memórias da infância, principalmente, estão lá no Recife?
R - Da infância, sim.
P/1 - Daí que você virou um adolescente aqui na vila?
R - Eu fui formado um adolescente aqui na Vila Esperança.
P/1 - E como é que era ser um moleque, um menino de 11 anos correndo pela vila?
R - É tipo assim, a minha vivência, com 11 anos quando eu vim para cá, meu pai, eu lembro que meu pai trabalhava em São Paulo, eu não me lembro o nome da empresa, mas é lá em São Paulo, e aqui em Cubatão eu fiquei morando um certo tempo só, que meu pai vinha uma vez por mês para cá, para fazer a compra dos mantimentos e tal. E só que ele precisava trabalhar para trazer o alimento para nós também, né?
Então a gente teve esses momentos aí de ficar um pouquinho ali, um pouquinho ausente ele. Mas todo mês ele vinha, quando dava, vinha. E a gente entendia essa questão que ele precisava trabalhar; aqui ele tinha ficado um bom tempo desempregado e teve essa oportunidade de trabalhar em São Paulo, e foi para São Paulo. Aí depois ele levou o meu irmão, aí depois eu fui para lá também e tal, foi onde que a gente ficamos lá em Osasco, em Itapevi, aí depois voltamos para cá de novo.
P/1 - E o tempo que você ficava aqui? Seus irmãos também ficavam?
R - Sim, só o mais velho, que ele sempre trabalhou com essa questão com meu pai. Sempre esteve com ele ali.
P/1 - E quem ficava meio que de olho em vocês, ajudando vocês em alguma coisa?
R - A minha irmã, ela ficou um bom tempo com a minha mãe lá, mas aqui minha irmã também, ela teve essa atenção com nós. Meu irmão também, o mais velho, o Valter e meu pai, sempre que dava, também ele estava presente, né?
P/1 - Os vizinhos ajudavam?
R - Sim, sim. Tinha família presente também, né? Inclusive, sou grato a meu tio Israel, ele é pastor. Sou muito grato por tudo que eu passei na vida, ele acolheu nós de uma forma que não tem explicação.
P/1 - Mas às vezes tem a mãe do amigo?
R -Tem, tem, sempre tinha essa. Até o próprio amigo às vezes falava “Vamos almoçar lá em casa, lá.” Então a gente sabia da nossa real necessidade. Então, tipo assim o pessoal fala pra mim “Valtinho, tu não tem vergonha?” Eu falei “não” falei “pô, porque eu fui criado de uma forma que foi uma necessidade, então, tipo assim, se você me oferecer uma coisa não vou ficar vergonhoso não. Se eu quiser, eu vou falar pra você “quero, aceito sim”, se eu não (quiser), “(falo) não” ...
Mas na real, mesmo as próprias vizinhanças, elas têm esse costume de se ajudar, procurar saber se alguma pessoa está precisando de alguma coisa. E tanto é, que isso, que eu aprendi, e passo pra frente, hoje eu faço isso com as outras pessoas também.
P/1 - Faltou alguma coisa?
R - Ah, não vou falar que não faltou, né? Mas tudo que faltou foi complementado com amor, com a proximidade da família, meu pai ali. Então, tudo, alguma coisinha ou outra que faltou, não vejo que foi uma necessidade extrema, mas a gente teve vontade de ter algumas coisas e às vezes a gente tem que abrir mão sim.
P/1 - Mas às vezes era um brinquedo?
R - Às vezes é coisa mínima, né? Eu lembro de um videogame que meu pai comprou pra nós, então nossa, nós ficamos super feliz, pra caramba que foi o Nintendo 64, na época; meu pai teve um Atari e ele comentava conosco o videogame das antigas, né? E aí adolescente já tava isto e aquilo, então vivi muito essa pegada de videogame. Foi até foi feito pra gente ficar um pouco mais em casa também, e não ter questão na rua, não tinha essas coisas, então, videogame ali ajudou pra caramba, né? Quando chegou, nossa, foi alegria por tudo que é canto ali.
Mas a gente sabe que a gente teve algumas dificuldades que não permitia da gente ter algumas coisas ali. Mas hoje, graças a Deus, tudo que a gente almejou ter, a gente tem, né? A gente sabe que difícil que seja, mas lá atrás a gente sabe que não foi tão fácil para os nossos pais assim para conquistar. Hoje eu entendo o peso de um não, falar “hoje não dá,” entendeu? Então eu entendo esse peso.
P/1 - Você falou da rua. Eu fico pensando que seus pais tinham alguma preocupação de vocês passarem muito tempo na rua?
R - Assim como a gente sempre manteve a comunicação, então, tipo assim, a preocupação, acho que ela surge em qualquer lugar, a partir do momento quando os pais às vezes não tá de olho ali. Não precisa nem estar em outro local, às vezes você tá na rua, o pai tá em casa, mas tem essa preocupação.
Assim como todo pai e toda mãe, eu acho que eles têm essa preocupação sim. Eu acredito que ele sempre se preocupou nessa questão, porque ele sempre foi uma pessoa de caráter, (de) fazer as coisas certas, então sempre demonstrou para nós. E eu sempre vi ele como um espelho assim, sabe? Um guerreiro mesmo, ali de passar para nós as coisas boas e as coisas certas, e até hoje, se sair um pouquinho da linha, ele vai pegar firme ali.
P/1 - Brabo?
R - Ah, não, brabo. Mas é assim, é o que é necessário. Não fala que ele é bravo não, porque ele já tem uma cara meio fechada, então não vou falar que ele é bravo, porque ele não é, entendeu? É o jeito dele mesmo, mas assim, na necessidade, ele tava junto, sempre tá junto.
P/1 - Você falou que quando menino você foi levado, e enquanto adolescente?
R - Adolescente eu já fui um pouco mais tranquilo, porque a necessidade me fez amadurecer um pouco mais rápido, né? Então, tipo assim, eu vi esse amadurecimento como uma forma, vamos dizer, um menino homem. Então, tipo assim, eu não tive tanto, tive que retroceder essa questão de uma criança, de ser bem levada essa questão mais por conta da necessidade de se tornar uma pessoa mais madura, um pouco mais rápido.
P/1 - Por que?
R - Devido a situação que a gente morava, que se encontrava o bairro, e tudo isso que tem dentro tinha da Vila Esperança lá atrás. Então, isso tudo fez com que, não só eu, acredito que muitas pessoas da minha idade ali comigo teve que passar esses momentos aí.
P/1 - Mas me conta o que você fez para amadurecer rápido? Foi trabalhar?
R - Cara, eu tive que ter uma opção que foi estudar ou trabalhar. Fui pai cedo. Então eu tive essa escolha porque não conseguia conciliar o estudo com o trabalho. Fiz a troca de horário da escola para estudar à noite, que trabalhava durante o dia. Chegava em casa mal dava para comer, já tinha que correr para a escola. Como era um pouco longe, sempre ia de bicicleta, não tinha essa questão muito de pegar transporte e tal, e é isso, mas basicamente foi isso aí quando tornando adolescente ali, né?
P/1 - Não tinha ônibus pra ir pra escola?
R -Tinha, tinha sim, Só que nem todos tinham acesso, nem todos tinham acesso, porque muitos teria que ter um cadastro, teria que ter tudo um, vamos se dizer, um segmento pra você ter o acesso ao transporte. Hoje não, hoje, graças a Deus, não.
P/1 - Você tinha?
R - Não, não tinha, não tinha. Hoje, graças a Deus, com a gestão que está hoje, então está bem, tem escola, tem escola com ônibus, van, ar-condicionado, até Wi-fi, hoje tem no ônibus, coisa que nunca pensei nisso na minha vida.
P/1 - Você tinha que ir como?
R - Eu ia de bicicleta muitas vezes, eu fui andando também, né? Era bicicleta a uns 4 km, assim mais ou menos, então.
P/1 - Não era dentro da vila?
R - Não, não, não era bem no centro, quase no centro de Cubatão, ali na Vila São José. Eu estudava a noite ali em 2 escolas diferentes, que foi, uma foi o professor José da Costa, que é conhecido como 31 de Março e a Escola João Ramalho.
P/1 - Você estudou até que ano?
R - Eu terminei.
P/1 - Então você não teve que escolher, você conseguiu ir até o fim?
R - Depois, né? Porque aí quando, enquanto eu trabalhava, eu me afastei, mas depois eu tive que retomar os estudos, devido a necessidade também do trabalho, dessa questão. Então a gente fugiu, mas a gente teve que retomar tudo isso aí.
P/1 - Que trabalhos foram esses?
R - Ah, eu trabalhei muito na área industrial.
P/1 - Mas desde novinho?
R - Não, de novo, eu trabalhei, trabalhei oficina de moto, trabalhei como vendedor, trabalhei vendendo jornal, que nem eu falei para você, mas foi lá no Recife. Aqui eu trabalhava também panfletando, sabe? Entregando os panfletos e tal. Porque eu acho que o começo de tudo, dos jovens, acho que começa por aí, como na época não tinha, então fazia muito essa panfletagem, trabalhei muito nessa questão.
P/1 - E quantos anos você foi pai?
R - Fui pai a 15 anos atrás, (tinha) 18... 20..., agora fugiu, hein? Mais uns 15 anos atrás.
P/1 - Você está com quantos hoje?
R - 37.
P/1 - Então você tinha... Ninguém sabe.... risos
P/2 - Todo mundo de humanas aqui
P/1 - 17, né? Você tinha 17 nessa faixa.
R - Nessa faixa entre 17, entre adolescentes, chegando na fase adulta, vai.
P/1 - Você tava namorando na época?
R - Não. Na época não tava, foi uma coisa que aconteceu.
P/1 - E quem nasceu daí?
R - Nasceu Adriele.
P/1 - Uma menina?
R - Uma menina. Hoje ela tem 15 anos.
P/1 - Como é que foi receber essa filha?
R - Cara, foi um susto, porque não foi uma coisa planejada, né? A gente sabe que a dificuldade da vida, dentro do contexto, tudo que a gente viveu. Mas não foi esperado. foi um susto na real, mas ao mesmo tempo foi uma coisa boa, muito, para mim, que foi o nascimento da minha filha.
P/1 - Só corrigindo, foi 22 anos, 22 anos.
R - 22 anos, então fui pai.
P/1 - E ela nasceu também filha da Vila Esperança?
R - E Vila Esperança, nasceu aqui dentro da Cubatão mesmo, da Vila Esperança.
P/1 - Hoje eu sei que você faz muita coisa. A gente vai chegar nesse lugar. Mas enquanto menino, enquanto adolescente, você sonhava em ser o quê?
R - Então, eu sempre sonhei com a música, né? Eu sempre me encaixei muito na música, tanto é que, uns tempos atrás eu me envolvi muito na música e tal, para gravar uma música, para escrever, o que seja que tivesse a música ali, eu queria estar envolvido, sempre sonhei com isso. Só que a gente sabe, às vezes o sonho a gente tem que esperar um pouquinho, deixa dormir um pouquinho mais ali, quando acordar, você realiza. Aí, mas um sonho, na verdade mesmo, foi uma coisa bem bacana que me atraiu, foi a música, porque eu conheci a música através do meu tio, que é pastor Israel, foi dentro da igreja, então foi ali que eu tive os primeiros contatos com a música ali.
P/1 - Mas o que te atraía era cantar, tocar?
R - Tocar, no começo foi tocar mesmo.
P/1 - Algum instrumento?
R - Eu toco teclado, toco contrabaixo, toco bateria, toco violão. Então esses instrumentos, tudo eu aprendi dentro do tempo que eu vivi, com o meu tio também, dentro da igreja. Ali eu aprendi tudo, na igreja.
P/1 - Então, foi uma baita escola, né?
R - Muita. Uma escola muito boa. Então, dali e da música foi que me acendeu mais a chama de “eu quero a música, eu quero a música, quero a música,” então.
P/1 - E era música gospel?
R - No começo, como eu estava frequentando muito à igreja, frequentava, frequentava bastante à igreja, né? Então, sempre foi música gospel, assim que a gente vivenciava ali, tocava e tal. Nos cultos, né? Aí depois eu me afastei um pouco. Talvez depois que eu saí da casa do meu tio, que eu vim pra cá de novo, aí me afastei um pouco, porém a música sempre me acompanhou. Eu só deixei um pouco de lado a questão. [intervenção]
P/1 - Então, no começo era gospel, aí você se afastou um pouco da igreja, e aí se foi para qual caminho?
R - Continuei na música, né? E na música eu fui um pouco mais versátil, eu quis montar meu próprio estúdio de música, né? Porque assim, eu comecei a escrever algumas, alguns Funks Consciente e tal, pra tentar conseguir conscientizar o pessoal da época. E só que era muito difícil as oportunidades na época, a gente tinha mais oportunidade quando tinha uma quermessinha ali na Vila Natal, um palco que era de madeira ali e tal.
Então, nessa época eu me lembro muito bem que às vezes a gente queria uma oportunidade, não tinha. Aí eu falei “pô, é tão difícil assim mesmo, ter uma oportunidade para a música e tal?”, e pensando comigo. E isso foi me acendendo a vontade, sabe, de falar assim “Ah, não vou lutar, eu vou ter meu próprio estúdio e eu mesmo vou estudar, vou fazer a minha própria produção, vou gravar minha própria música e não vou pedir para ninguém.” e foi o que aconteceu.
P/1 - Esse espírito empreendedor que eu vejo em você é onde você aprendeu isso?
R - Parece que eu não aprendi, ele parece que ele foi descoberto, né? Porque assim, quando se fala de aprender, você tem alguém te instruindo, né? Então hoje eu fico tranquilo, mas na época não tinha ninguém pra me instruir, dizer “Pô, isso aqui você pode pegar, comprar isso, vender e investir nisso”. Então não tinha, não tinha essa mentoria, né? Então, a gente teve muito que se reinventar.
Aí eu falei “Pô, hoje se eu faço minha própria música, se eu faço minha própria produção, eu posso oferecer esse serviço para alguém que queira produzir, que queira uma música produzida, não tenha uma condição para pagar, custear, coloco um preço bem mínimo ali para mim, ter alguma coisa também um custo. Porque por causa do tempo que eu vou ficar trabalhando também.”
E deu super certo, só que de princípio eu não cobrava de muitas pessoas. Eu fiz o trabalho, não cobrava não, porque eu queria que a pessoa às vezes tinha um sonho de gravar só uma música. Eu conheço pessoas que na época, queriam só ouvir a voz dele no microfone, como saía, mais nada.
Então, tipo assim, você acaba abrindo um pouco. Então foi a partir daí que surgiu essa questão de empreender, né? Eu na época, hoje é empreender, mas na época era investir, a gente falava muito de investir ”vou investir aqui para recolher um pouco aqui e daqui, vou investir ali.” Então, essa coisa de empreender e ver eu fui aprendendo aos poucos e hoje, graças a Deus, tá bem...o leque tá bem aberto.
P/1 - Mas você fazia isso em paralelo com trabalhos que você ia lá receber o seu salário mensal?
R - Quando eu trabalhava de carteira assinada, quando eu chegava do trabalho, ia mexer no computador, pegava o computador, lembro na época, minha primeira produção foi um computador, não foi um notebook, foi o Netbook é aquele que não tem acesso para CD que o governo deu e um colega meu eu costumo chamar ele de NASA, né? Porque, cara, ele, o moleque, é o gênio da tecnologia do computador. E aí ele conseguiu burlar esse sistema do governo, ele desbloqueou esse Netbook e eu consegui instalar meu programa de produção, então foi meu primeiro computador ali, foi o que o governo deu para estudar. Ele conseguiu burlar ali, consegui colocar meu programinha ali e fiz minha primeira produção. E dali para frente fiquei um ano usando esse Netbook, eu comecei a usar ele aqui, depois eu usei ele no Recife por um bom tempo também, aonde que eu ia, eu sempre levava, fazia a música e é isso.
P/1 - E você falou que você trabalhou de carteira assinada com quê?
R - Eu trabalhei carteira de motorista de caminhão, sou operador de máquina, opero guindaste, trabalhei na indústria também, na época era Cosipa, não era Usiminas, depois que passou a Usiminas também, então trabalhei também na área industrial. Eu acho que a carteira assinada mesmo foi essa questão assim, motorista, ajudante, trabalhei de técnico de manutenção de equipamentos, como inspeção de instrumentos também, não instrumentos musicais, mas instrumentos dentro da própria fábrica.
P/1 - E você queria esse caminho de indústria?
R - Não necessariamente. Só que assim, a gente sabe que a gente precisa trabalhar para se manter, ter uma renda ali para poder manter a família. Então, eu sempre, independente se era fichado, se era registrado ou não, mas o trabalho tinha que ser feito.
P/1 - Nunca parava?
R - Não dava, não podia.
P/1 - Quando a sua filha nasceu, você foi morar com a mãe dela? Não.
R - Fiquei pouco tempo com a mãe dela, quando minha filha nasceu, eu separei e aí eu passei a morar só. Aí, hoje eu tenho minha atual esposa, que é a Cleide, estamos a um bom tempo, aí junto já.
P/1 - E quando vocês se juntaram?
R - Cara, eu conheci ela em 2006, de 2006 para cá foi só coisas boas, graças a Deus. Então, tipo assim, a gente viveu muita coisa, de 2006 para cá, foi na época que eu trabalhei também na Lan House, e foi onde eu conheci a minha esposa atual.
P/1 - Aqui na Vila Esperança.
R - No Sítio Novo, Sítio Novo.
P/1 - Você não conheceu ela enquanto adolescente?
R - Ela sim, era adolescente, ela tinha 12 anos de idade, e eu tinha 17 quando a gente se conheceu.
P/1 - Mas foram ficar junto só depois?
R - Não.
P/1 - Desde então?
R - Desde então, tem alguns processos de ida e volta e tal, mas desde então até hoje, graças a Deus, tamo junto.
P/1 - Vocês tiveram filhos?
R - Não de sangue, mas ela tem uma filha, e eu considero como minha filha, tanto é que eu chamo ela de filha e tal. Não vejo diferença, tanto é que se tem um problema é eu que vou resolver o que tiver, minha filha é minha filha.
P/1 - A gente sabe que na rua, em qualquer lugar, tem várias tentações para que chegam nos jovens, principalmente. Você viveu isso por aqui?
R - Assim, como eu fui uma pessoa que como adolescente eu fiquei muito em casa devido meu pai trabalhar fora, então fui muito de ficar em casa. Só que às vezes que a gente saía, a gente se deparava com alguma coisa ou outra ali. Mas eu não vivenciei muito essas questões não.
P/1 - Então, você tinha amigos daqui, mas você ficava bastante em casa.
R - Ficava bastante em casa. Aí só depois, como adulto, que eu comecei a sair mais um pouco e tal, né? Aí, quando eu ia muito pro Sítio Novo, conheci mais algumas pessoas e tal, e assim foi. Mas eu, na minha adolescência muito assim, foi muito em casa, fui muito para igrejas essas questão assim.
P/1 - Enquanto adolescente, você viu a Vila Nova Esperança melhorar muito.
R - Melhorar muito, em todos os aspectos, porque tinha muita coisa aqui que era irregular e hoje, graças a Deus, foram arrumadas, transporte, muita, muita coisa mesmo. Então eu vi muita coisa também melhorar.
P/1 - Pararam de bater lá no barraco de vocês pra derrubar o barraco?
R - Pararam. Pararam. Isso foi um alívio tão grande, não só pra minha família, mas como acredito, que toda família que vivenciou essas questões aí, essa opressão, eu acredito que para foi uma coisa mais exata, vamos dizer assim, dá um alívio para uma família ali que estava buscando algo, uma dignidade, vamos dizer.
P/1 - E você foi vendo isso? Encher de gente também, né?
R - Sim, sim. E o legal disso tudo é que tudo o que você fazia, se for em torno da melhoria, o pessoal, a própria população abraçava, então dava força para, para se tornar mais real, ficar mais próximo do real.
P/1 - E os projetos sociais da Vila Esperança? Você participou de algum?
R - Lá, como jovem?
P/1 - É, eu sei que tiveram alguns tantos, têm associações...
R - Sim. No começo, eu não participava muito, né? Eu participei assim, de uma escolinha de futebol ou outra, que tinha um rapaz aqui que dava para nós, que era o Zé Neto, né? Então ele, a maioria das pessoas, principalmente daqui da Imigrantes, treinou muito com ele. Então, assim, mas não era uma coisa assim que ele cobrava, né? Ele fazia de coração, sempre fez de coração, e ele via a necessidade de ter aquele jovem ali fazendo algum tipo de atividade.
Hoje em dia, quando vejo ele, a gente entra no assunto tal, eu falo “você você fez história.” Então, não só ele como outras lideranças, também tem algumas lideranças, tem associações como Zumbi também, o Miúdo. O Miúdo, a gente saia para pegar a sopa lá no Miúdo, fazia a filinha, todo mundo ali.
O Zé Neto, esse rapaz também dava sopa para nós, então a gente pegava e ia lá com o potinho lá, tinha gente que só ia realmente, até hoje a gente comenta ”Ó, a gente lembra que você só ia lá para comer a sopa, hein?”
Então, tinha essas questões também, as associações, essas pessoas que eu via como uma liderança, lá na época e hoje a gente vê que o fruto que ele plantou lá, quem é mais novo agora está colhendo, são as coisas boas que está vindo para o bairro.
P/1 - Sim. Você viu a construção do muro?
R - Vi a construção do muro, presenciei a Imigrantes, a mais nova, também.
P/1 - O cercamento? Quando colocaram cercas, também.
R - Quando colocaram a cerca também que teve a questão da cerca lá atrás do mangue lá, para poder ter uma denominação ali, então acompanhei. Também tenho bastante lembrança nessa questão aí.
P/1 - E por que você acha que é importante? Você falou que agora vocês estão colhendo o fruto desses projetos sociais. Por que isso é importante?
R - É importante porque teve pessoas lá atrás que lutou junto para isso tudo acontecer. Então, assim é importante para o jovem, porque se hoje não tem uma associação, se hoje não tem alguns representantes, que correram lá atrás, eu acredito que seria muito difícil a gente ter as coisas aqui dentro.
Teve pessoas ali que suou, deixou seu sangue ali de verdade mesmo, e pessoas que se dedicavam de coração mesmo para ter algo dentro da comunidade. É algo que eu falo, é coisa simples, é a coisa que a gente, é uma necessidade, é uma água, é uma água potável para a gente.
Era para a gente beber na época, era uma energia, então, tudo isso, tudo, teve pessoas lá atrás que fez esse caminho. Então, eu acho que o que eles trilharam lá atrás, fez com que hoje tivesse muita coisa dentro do bairro por conta dessas pessoas que foram lá atrás.
P/1 - A boa convivência entre vocês, né?
R - A boa convivência, ela é bom porque tipo assim, você acaba abrindo mais esse leque de vocês buscarem junto mais essa, e essa melhoria pro bairro, aí “vamos todo mundo tentar abrir uma ONG aqui, uma associação para melhorar esse espaço”. Então isso tudo é o grupo se unindo, acho que consegue dar um passo maior, né?
P/1 - Enquanto jovem, o que era mais difícil, desafiador e o que era mais bacana, legal de estar dentro da Vila Esperança.
R - Então, o que era mais desafiador aqui dentro da Vila Esperança, eram as ações que acontecia, essas questões, teve época que rolou bomba pra lá, bomba pra cá, tiro de borracha, pessoas no meio da pista, fechando a Imigrantes reivindicando, tal, essas questão, então isso foi umas coisas que eu acho que foi muito forte de quem viveu a época ali tem uma memória muito...
P/1 - Você participava das ações?
R - Então as ações eu não participava, porque eu era adolescente, então não tinha muito essa questão, era mais as pessoas que já que nem eu falei, já tava lá atrás. Os mais velhos que tava ali na linha de frente dessa questão. Teve alguns poucos que eu não participei, mas eu vivenciei, vi acontecer, mas participar mesmo, nunca participei dessas ações, não.
P/1 - E você, chegou a ver alguma questão? Incêndio, que às vezes acontece?
R - Ah, sim, já vi, já, já vi. Tanto é que, além de ver, eu participei para ajudar também em alguns incêndios aqui dentro do bairro. Teve um Sítio Novo que eu me lembro e teve um ali na (Avenida) Principal aqui mesmo, que eu acho que foi dentro da Vila Esperança, se eu não me engano, foi um dos mais recentes que teve. Aí foi aquela correria ali eu estava realmente ajudando mesmo. Peguei criança, coloquei no meu carro, guardei no carro, porque para não ficar também no corre corre e acabar perdendo essas crianças, então acolhi dentro do carro. Corria para beco, jogar balde, desmontar o barraco para não pegar no outro, eu vivenciei muito isso aí.
P/1 - O incêndio começa a dar onde? Do que?
R - O incêndio necessariamente a gente não sabe de onde começou, porque tudo é um elemento surpresa, né? A gente, claro que a gente tem algumas ideias na cabeça que pode ocasionar, que nem, teve casa aí que foi uma briga de casal. Então, tipo assim, o casal lá, não sei se foi a mulher ou foi o rapaz, o cara, que acabou na discussão tocando fogo na casa. Mas aí proporcionou, teve outras questões também, que era a questão da energia, às vezes muita coisa ligada numa casa que é de madeira... então tinha essas questões também, por isso que a importância das pessoas que estavam lá atrás, lutar por algo hoje?
P/1 - E enchente?
R - Enchente sofreu bastante também aqui. Eu não digo necessariamente muito nessa rua da Imigrantes, que aqui a gente sabe que tem alguns pontos, que é crítico, bem crítico mesmo, a questão, mas a Principal em si, Sítio Novo ali, então tem alguns pontos na real que tem, essas sofrem muito com essas enchentes até hoje também. Mas a gente vê que hoje está uma coisa mais sanada, mas acredito que lá atrás foi muito, muito sofrido mesmo.
P/1 - E os acidentes?
R - Acidente? Rodovia?
P/1 - Rodovia, com trem?
R - Então, com trem? Com trem? Eu não. Não encontrei. Não me recordo. Só um que eu, mas a questão não foi o trem em si, mas a própria pessoa que estava ali no local.
A gente sabe que o trem passa ali, eu não vou lá, mas eu entendo também que tem outras questões de segurança e tal. Mas a questão do trem aí, do acidente mesmo, não. Eu só fiquei sabendo, não vi o ato, na verdade, eu fiquei só sabendo por alto mesmo depois que depois do acontecido, claro.
E dentro da vila, na rodovia, o acidente que a gente vez em quando vê, é um pneu que estoura aí na pista e acaba causando um acidente, né? Teve um acidente mesmo, que um caminhão, acho que quase caiu de cima do viaduto, uma carreta, essa ponte velha, é isso aí eu vivenciei, eu presenciei essa questão.
P/1 - Porque não tinha viaduto, né?
R - Não, tinha o viaduto, só que foi o antigo, não o novo, o atual não, tinha esse antigo, que é o mais velho, e lá na ponta, ele o caminhão, não sei ... o que aconteceu com o caminhão, na verdade, não sei... Sei que aquele caminhão ficou quase tombando para metade, não sei dizer bem, coisa de ver assim, de chocar mesmo.
P/1 - O que mais que te chocou em algum momento que você ficou com isso na memória?
R - Eu acho que foi dentro da Vila Esperança. Foi uma ação que aconteceu na Principal, onde eu estava, estava indo pra igreja na época e fizeram todo mundo voltar. O pessoal: “Volta, que não estão deixando passar, volta que não estão deixando passar.” Eu falei “Mas como assim? Por que não tá deixando passar?” Aí, teimoso eu fui. Aí nessa fui surpreendido com gás, bala de borracha, um colega meu que estava do meu lado tomou o tiro de borracha. Então a gente saiu num desespero só, ali pra mim foi queimando, um monte de coisa queimando. Foi uma coisa, bem que eu olhei assim. Eu acho que tem até foto da época, foi uma coisa bem de você olhar assim, de se espantar mesmo, uma coisa que eu não me esqueço não.
P/1 - Mas era briga entre quem?
R - Era uma ação que a polícia veio fazer dentro do bairro. Eu não me lembro qual foi essa ação, se foi para remoção de moradia, o que que foi... Só sei que teve essa operação, essa coisa aí, rolou tudo dentro do bairro. Tanto é que você descia o Sítio Novo, o cheiro do gás, você sentia em quase tudo que é lugar da Vila Esperança. Você sentia ali, me deixou muito medo.
P/1 - Você tinha medo?
R - Tinha, tinha medo, porque adolescente... Então, tipo assim, você vivencia isso? Por mais que você more dentro da comunidade, mas é de amedrontar mesmo.
P/1 - Medo de quem?
R - Não tem medo, de quem, é medo de quê e acontecer...
P/1 - Medo de quê?
R - Por exemplo, você está passando que nem foi meu caso, eu estou passando e de repente você ser atingido por algo, que nem o colega que estava do meu lado, ele foi atingido na barriga, por uma bala de borracha.
Então, tipo assim, tinha esse medo, ah medo de quê? De pagar por algo que eu não fiz, por exemplo, medo de passar ali e sobrar para mim.
Então, até esse medo para mim eu tiro como uma coisa boa, porque se você tem medo, então você não vai. Então eu vou dar um passo atrás, porque eu tenho medo, né?
P/1 - Então ele traz algum ensinamento?
R - Sim, com certeza. E ele ensina muita, muita coisa dentro dessas questões que eu estou falando para você. Às vezes você quer dar um passo a mais, mas por medo você não vai, então te ensina a amanhã ou depois, você vai ver, vai falar, graças ao medo, eu não fui. Então o medo também não é um coisa ruim, é uma coisa boa. É você saber tirar o proveito dele.
P/1 - Você se inspirou em alguém, em algum líder? Em algum vizinho, algum familiar? Alguém te trazia esse lugar de acolhimento, de segurança, de conversas.
R - Cara, de me inspirar, de me inspirar mesmo, eu nunca fui de falar assim, “pô, aquela pessoa ali me inspirou,” mas teve pessoas que me deram caminhos e uma delas foi o Anderson, o Andinho, foi uma pessoa que me acolheu bastante nessa questão, conversando com ele, ele me orientando, me falando como que é, como que não é... Mas também tinha pessoas que já atuavam dentro, e a gente via, só que eu não tinha despertado algo, aí depois que me aproximei dele e tal, conversando bastante, aí foi que foi surgindo esse apego, esse amor de estar junto ali, mas foi através dele mesmo assim, quando comecei a me aproximar, mesmo nessa questão de associações e tal.
Eu lembro também que o Duti chegou a conversar comigo também, e o presidente da Vila Esperança, o Luciano, e ele me apresentou também algumas questões ali, que foi bem bacana também. Me deram um caminho, me deram luz, ele falou “pô, tem que estar junto. É assim que melhora o bairro tal, buscando.”
Até que dias atrás, agora, estava vendo algumas postagens lá e realmente, você para pra pensar assim, e fala “Caramba, passamos por muitos, hein?” E isso é legal, essas pessoas foram que mais usei como uma referência mesmo. Também teve o Miúdo, como eu falei, o Zumbi, mas essas pessoas não tinham muita, como eu era adolescente na época, não tinha muito aproximação, para mim, ter um despertar de “ah, eu vou correr junto ali.”
Então eu ia mais mesmo para comer, ter alguma ação no bairro, uma aula, alguma coisa assim mesmo, foi uma das coisas que ele mais trazia mesmo pra dentro do bairro que a gente estava junto.
P/1 - É interessante, Valtinho, que você falou para mim que você trabalhou em indústria, você trabalhou na Lan House, e onde a gente está hoje?
R - Hoje a gente está na Barbearia Stilo Favela.
P/1 - Me explica o que é isso?
R - Cara, é uma coisa que nem eu sonhava com isso daqui. Hoje, a barbearia, tudo começou, eu acho que eu tinha na base de uns 11, 12 anos de idade, né? Do nada surgiu uma vontade de cortar meu próprio cabelo, e eu gostei, eu amei cortar meu próprio cabelo. Eu lembro que eu estava no guarda-roupa da minha avó e aquele guarda-roupazinho que no meio tem um espelho, como fosse uma penteadeira, um guarda-roupa, as portas e no meio tem um espelho.
Eu me sentei na frente do guarda-roupa, peguei a tesoura e comecei a cortar meu próprio cabelo, olhando no espelho, sabendo que não ia dar bom. Mas tive essa curiosidade e fui e fiz pela primeira vez. Gostei por mais que ficou... gostei e continuei fazendo, né?
A última vez eu me lembro que eu fiz isso na frente do guarda-roupa, foi no dia que eu fui, foi até engraçado, nesse dia eu fui cortar o cabelo e o guarda-roupa estava meio em falso, estava em falso e ele virou por cima assim, sabe?
Só que não machucou nem nada, mas foi muito engraçado, eu empolgado ali pra cortar o cabelo, e aí me surgiu essa luz “Vou cortar o cabelo, cara, cortar o cabelo, vou cortar cabelo, cortar cabelo”.
E comecei, aí eu pensei “pô, mas eu preciso de alguém para me ensinar”, não é que ninguém me ensinou, é que, tipo assim, eu sabia que tinha pessoas que já cortava cabelo e eu me aproximei para ele cortar meu cabelo e, sem falar nada, ficava só analisando, olhando como que era, cada detalhe ali e depois eu ia praticar em casa e sempre fazendo isso, porque na época não tinha essa questão de rede social onde tinha bastante aula.
Hoje é uma coisa bem versátil, hoje você tem todo um caminho aí, que você se quiser, tem muita coisa pra você estudar aí na no ramo da barbearia. Mas eu lembro muito bem que depois que eu vim pra cá, porque eu estava no Recife quando eu comecei a cortar meu próprio cabelo, e quando eu vim pra cá, pra Cubatão, pra São Paulo, no Sítio Novo, tinha um rapaz que cortava cabelo, ele é novo também, eu acho que o que me admirou bastante foi isso, dele ser tão novo e cortar cabelo, eu falei “caramba, isso é legal.”
Aí, foi um tempo também que eu ficava um pouco na Lan House e tal, e também teve uma época que eu ia muito na casa dele para cortar meu cabelo, que nem eu falei, e ficava olhando ele cortar, mas nunca falei para ele, nunca falei para ele. Eu falei - não, porque eu tinha aquilo, né? Porque na época também tinha muitas pessoas que sabiam, mas não queria passar um pouco do conhecimento, eu não sei se é por ter um certo pé atrás, ele fala “Eu vou ensinar o cara, o cara vai tomar meus clientes.”
Mas essa questão de cortar o cabelo assim foi uma coisa que me chamou bastante, e se hoje eu estou aqui, foi fruto de muita luta, muita determinação e muita esperança de saber de você querer uma coisa ali e deu certo. Eu queria muito que tivesse alguém na época me ajudando ali, tivesse tudo que tem hoje, eu falo para alguns alunos meus também, sobre essas questões, e hoje a barbearia hoje me surpreendeu de hoje eu estar onde eu estou.
P/1 - Quando é que você abriu aqui?
R - Aqui tem pouco tempo, precisamente nesse local, que é hoje na Praça da Imigrantes, a minha barbearia sempre ficou numa rua sem saída. Era um barraco de madeira onde só tinha um espelho. Antes desse barraco, eu lembro que eu cortava na área do meu pai, usava uma cadeira de casa, cortando ali muito pouco cabelo mesmo, as vezes nem cortava o cabelo direito, por conta de confiança, que já tinha pessoas que já estavam na profissão, essas questões. E depois eu fui pra esse barraquinho, que era só um espelho quebrado, metade do espelho, ali o pessoal falava que dava azar, mas eu dei foi sorte, na verdade, dei foi sorte nessa questão.
E depois de lá, foi que eu fui para frente de onde já era, eu saí de um terreno que era um barraco de madeira, na época eu comecei a trabalhar também um pouquinho.
Eu juntei um dinheirinho ali, saí da empresa, aí o dinheiro que eu peguei da empresa, eu não sei se minha mulher vai ver isso, mas ela vai me matar depois disso, porque o dinheiro que eu peguei da empresa quando eu saí, eu falei (pra ela) que a empresa não pagou, mas ela pagou e eu comprei tudo de material para montar minha barbearia, cara. E é isso, e hoje sou grato a Deus por tudo que a barbearia me proporcionou.
P/1 - Então você foi aprendendo só de olhar o povo cortando?
R - Olhar, só de olhar.
P/1 - E você testava em você e nos amigos próximos?
R - Então, os amigos não tinham muito essa confiança, né? Não tinha muito essa confiança. Era, dava pra contar no dedo 3, 4 ali, que quer abria uma exceção ali, para deixar ali ,que que me acompanharam desde do início, ali mesmo. Mas era mais assim na questão dos meus irmãos, mais que deixavam. E também na época não tinha esses cortes que tem hoje, né? Era mais uma coisa mais simples, que até os pais pediam um corte social, muitos pediam “ah, um corte militar, ah, passa a 2 toda no cabelo”.
Então, aí depois que eu fui reinventando, para poder acompanhar as atualizações de corte e tal questão, mas na época era bem pouca pessoa mesmo, dava para contar no dedo.
P/1 - Quando foi que você falou agora vou investir nessa profissão?
R - Foi em 2014, pra ser bem sincero.
P/1 - Tem 11 anos, então?
R - Há 11 anos. Há 11 anos atrás, em 2014, para ser bem exato, assim foi na minha última ficha. Justamente essa a empresa, que eu saí e peguei esse dinheiro e comprei tudo para minha barbearia ali, e eu falei “Cara, eu não vou trabalhar mais para ninguém, vou montar meu próprio negócio. Eu sei que vai dar certo”. E caí para cima, caí para cima.
P/1 - Quando você percebeu que estava dando certo?
R - Eu percebi que estava dando certo, depois de uma oportunidade que eu recebi de um amigo, eu saí de lá do fundo da rua, e vim pra cá, pra debaixo do viaduto, um amigo meu chamado Tiago, ele não está mais com vida, mas eu sou muito grato também pelo que ele me ofertou, de ele me dar uma oportunidade, eu acho que foi muito importante essa oportunidade que ele me deu, porque eu saí de um local escuro, onde não tinha movimentação e o pessoal começou a me ver ali, aqui debaixo desse viaduto mesmo.
P/1 - Aí você tinha um espaço lá?
R - Eu não tinha, ele tinha de madeirinha mesmo também. Só que como era bem pra cá, não era no final da rua, sem saída, tinha movimento, era debaixo do viaduto, então tinha mais um movimento. Então eu comecei a cortar o cabelo ali. Alguns eu não cobrava, como estava em fase ali, não de aprendizado que eu já tinha quando eu vim pra cá, eu já cortava, mas assim, de adaptação no local, né? Então, para você até ter uma confiança do cliente, pegar cliente, clientela, ali eu oferecia até algum serviço por R$5,00, R$3,00.
Mandava o cliente, o cliente, que naquela época a gente não tratava mais como cliente, era amigo mesmo, “traz uma gilete aí,” eles “traz só gilete?” e eu respondia “traz, compra só gilete que eu corto o cabelo e tal.” E graças ao Tiago, né? Ele me ajudou muito nessa questão, nunca me cobrou R$1,00 para poder estar ali também, isso eu acho que foi um ponto muito interessante.
P/1 - O que ele fazia nesse ponto?
R - Ele cortava o cabelo. Eu acho que ele foi uma referência assim na questão do corte de cabelo, pra muitos, muitos, né? Ele cortava também fora, né, cabelo? E eu acho que ele me ajudou muito nessa questão, abriu o meu olhar. Eu acho que ele foi uma das pessoas que na época foi mais que me ajudou assim. Fora esse rapaz lá do Sítio Novo que eu ia para lá, mas ele não sabe que eu ia só pra olhar mesmo. E nem ia cortar cabelo, as vezes eu cortava cabelo 2 vezes na semana, mas era mais para poder ficar ali mesmo. Fiz uma amizade com ele, com a mãe dele para mim poder ir lá também cortar.
P/1 - Qual é o nome dele?
R - O Maicon até hoje ele corta o cabelo, Maikinho então teve alguns pontos que eu ia lá só pra ficar vendo mesmo ele cortar cabelo, porque eu admirava desde pequeno assim ele cortando o cabelo, adolescentes, crianças cortando o cabelo. Você olha assim e você pensa “pô, que legal,” você admira, e hoje eu sou muito grato a essas pessoas.
P/1 - E aqui com o Thiago você começou a cortar cabelo de homem, de menino, de mulher, como que era assim?
R - Eu sempre trabalhei com o público masculino, sempre, sempre, sempre trabalhei com o público masculino, tanto eu quanto ele. Na época também era, mas não tinha esse público, porque o público feminino ia mais para salão, para essa questão de que quer fazer chapinha, essas coisas, então a gente não aderia muito.
Só eu lembro que a gente fazia muita sobrancelha, e sobrancelha, a gente chegou um tempo de quando eu estava com ele aqui debaixo do viaduto, quando ele tinha a barbeariazinha dele, chegava uma ou outra pessoa ali e pedia para fazer a sobrancelha, né?
Mas quando eu mudei em 2014, que fui montar minha barbearia, eu já desvinculei esse lance de trabalhar, até pela profissão mesmo, de seguir o legado de barbearia, trabalhar só mais com o público masculino mesmo, aí eu acabei seguindo esse legado da profissão.
P/1 - E começou a ser o seu carro chefe? você começou a ser conhecido?
R - Eu comecei a ser conhecido, depois que eu justamente vim para cá, que ele me deu essa oportunidade. Aí foi aonde que surgiu o Valtinho, foi nessa época onde surgiu o Valtinho, foi aí que o pessoal começou “Valtinho daqui, Valtinho dali.” De começo eu não gostava muito, achava que não tinha muito a ver comigo, porque de Vagner pra Valtinho... e muitos me perguntam “Pô, mas teu nome não é Vagner? Por que Valtinho?” Aí eu explicava: “Pô, Valtinho, meu irmão mais velho se chama Valter, me pareço muito com ele.” Tinha um rapaz ali da onde a gente morava, que ele me via assim e falou “Ah, tu é Valtinho, mano, tem um Valter, mas tu é Valtinho. “Aí ficou, aí esse Valtinho surgiu realmente como o nome profissional, hoje eu levo esse nome, minhas redes sociais em todo lugar que eu vou.
P/1 - Como eles chamam Valtinho do corte?
R - Valtinho do Corte, né? Tem uns que ainda fala em ironizando “Valtinho do Corre” que eu faço 1001 coisa, vou para um lado, vou para o outro, mas é mais Valtinho do Corte mesmo.
P/1 - É o que o Valtinho do Corte começou a fazer: cortar, pintar química?
R - Então, eu comecei a primeira instância assim, eu comecei só cortar cabelo, basicamente, depois pulei para pra barba, pulei para uma química, vi a necessidade do estudo nessa questão, que não tinha muito condições de pagar, às vezes um valor específico para fazer um curso de química, mas eu tinha muita curiosidade, muita vontade de aprender mesmo, tanto é, que hoje eu posso falar que eu sou um expert na área de química também, nessas questões aí de trabalhar com cores, é bem versátil aí, tonalidades diferentes, e diferentes aí na área da química, mas eu, lá na época eu senti muito uma dificuldade nessa questão de aprendizagem, sabe? E eu vi essa necessidade, então hoje eu posso falar para você que tudo que eu passei lá de 2014 até a chegada de hoje foi o que me ajudou muito nesses pontos.
P/1 - E você, foi estudar onde?
R - Em casa?
P/1 - Internet?
R - Não. Em casa mesmo eu pegava alguns produtos, não tinha muito acesso a internet na época, eu pegava alguns produtos, o rapaz que já trabalhava na área, ele me passava como é que era. Só que no caso, a maioria das vezes não dava muito certo, não chegava na tonalidade específica que eu queria e tal legal. Aí eu fui me aperfeiçoando, mas foi através dele, ali, do incentivo dele ali, me apresentando alguns produtos que na época. [intervenção]
P/1 - Aí você estava me contando justamente das químicas que você foi aprendendo a desenvolver, por que você estudou bastante?
R - Estudei bastante essa área da química, né? Fiz alguns cursos depois, depois que a necessidade me permitiu estudar, vamos dizer assim, me deu um empurrão. E me aperfeiçoei mais, peguei alguns certificados nessa área de química. Porém, eu não parei por aí, na questão da química, eu quis ir além, quis reinventar, hoje o material que eu trabalho, eu não consigo achar aqui em São Paulo, vamos dizer. Então, toda vez que meu pai ele vai para o Recife, eu peço para ele comprar matéria prima lá para mim, ele sempre traz, que a química que eu faço hoje, eu trago de lá, né?
Então, o carnaval de lá do Recife, o pessoal tem esse costume de pintar muito o cabelo, essa questão, então, essa matéria eu trago de lá. Aprendi a questão de trabalhar com as cores também foi lá e aqui foi mais a questão de fazer uma selagem, um alisamento. Aí foi uma coisa mais aqui mesmo na em Cubatão. Lembro também que fiz alguns cursos online e sempre procurava algum curso gratuito ali, ver se tinha algum nicho, alguma coisa, fuçava bastante e pegava.
E hoje eu, interessante que o pessoal fala “ah, hoje tu ou tu mesmo faz seu produto? Como é isso?” Eu falei “Cara, tem que você tem que se reinventar.” Eu vou fazendo um teste aqui ou fazendo um teste dali. Claro, sempre com o máximo de segurança, por conta da questão que a gente tem que ter a segurança dentro da área que a gente trabalha, mas a gente vai fazendo alguns testes, e vamos ver que vai se encaixando. E hoje tem produtos que eu mesmo eu faço, eu não compro mais, compro só a matéria e faço o meu produto.
P/1 - O carro, o ponto principal é a tintura?
R - Não. Eu tenho alguns pontos, eu tô falando que a química não inclui só a tintura química. Ela é um complexo total, o alisamento de uma barba, num cabelo, pintar um cabelo, fazer uma selagem, fazer uma pigmentação, fazer um reflexo, fazer um platinado que fica mais em alta agora, principalmente a época do ano que está chegando e tal.
Então tudo isso envolve a química no completo, num globo só. Só que se você não parar para estudar uma área, você não vai entender as outras. Então, tipo assim, eu consegui estudar uma área, parava, estudava outra, parava, estudava outra.
Aí isso foi o que me abriu mais o leque e eu consegui captar todos os tipos de química. Hoje eu trabalho e domino perfeitamente, não só o corte, eu acho que o barbeiro, para ele falar que é barbeiro, se ele é um profissional, o mínimo que ele tem que fazer é cortar o cabelo bem. Eu acho que isso é quando a gente fala “ah, eu sou um barbeiro”, então a obrigação é cortar o cabelo bem.
P/1 - Hoje você fala eu sou um barbeiro?
R - Eu sou um barbeiro. Além de barbeiro, sou um professor e instrutor de barbearia.
P/1 - Você é professor também?
R -Sou professor.
P/1 - Me fala dessa área que você começou a ser professor?
R - Foi um convite que surgiu, né? Eu não esperava esse convite, já estava atuando bastante na área e o Luiz Fagundes, é um dos barbeiros também, que é referência na Baixada, sou grato a ele pelo convite, ele tem uma barbearia, que ele dava aula também na escola e essa escola precisou de um professor, ele já dava aula também e precisava de um professor e ele falou para mim em mensagem, que ele via ele em mim, ele via o potencial que eu tinha para dar aula, para ensinar, e ele viu, conseguiu enxergar isso em mim e me deu essa proposta: se eu tinha interesse de dar aula numa escola, eu falei “cara, eu nunca dei aula na minha vida, mas pode ter certeza, vou cair para dentro, vamos embora,” - Valtinho, tu vai tirar de letra,” eu falei “Não, eu sei, eu sei, mas obrigado, irmão. Vamos lá, vamos. Vamos para cima.”
Aí surgiu essa oportunidade e fiz a entrevista, passei nessa entrevista e logo em seguida já foi acontecendo as aulas. Tive que fazer um preparatório, claro, como fazer um curso para instrutor, também tive que fazer todas essas questões aí, não é só chegar, (e dizer) “eu sou um professor”, a gente sabe que tem que estar tudo formalizado ali, até para a escola, por segurança também da escola, de tudinho.
E isso foi muito interessante, foi uma experiência muito legal. Sou grato ao pessoal da escola que me deu essa oportunidade também, e inclusive ontem, antes de ontem, eu recebi outra proposta também para dar aula numa mesma rede, da mesma escola, em lugar diferente, né? E foi aí que surgiu, tipo assim “cara, eu vou ter que dar aula.”
Aí eu falei, no primeiro dia, eu falei, eu até conversei com ele antes, tal, ele me apresentou a turma e disse “Valtinho, fica tranquilo, só vai fazer o que você já faz irmão, cortar cabelo, só. Você só vai mostrar e falar.” Aí eu falei “na cabeça dele é muito fácil, pra ele já tá muito fácil pra ele, eu nunca vivenciei isso.”
Então eu falei “vou cair pra cima”. É só mais um aprendizado, fui pra cima, modelei, fiz do meu jeito e acolhi algumas questões, dei opinião, a gente englobou tudo aquilo, e eu acho que foi uma das melhores experiências que eu tive como professor na área da barbearia, foi dentro dessa oportunidade que eu tive.
P/1 - Você já deu aula para quantos? Você já formou quantos alunos?
R - Há uns 30 alunos eu já formei por aí. Ou mais, porque era por turma, cada turma ali tinha uns 20 alunos, então era bastante.
P/1 - Aqui na Vila Esperança já deu aula?
R - Aqui na Vila Esperança, eu fiz ações e dei aula sim, eu dou cursos VIP para pessoa que já está dentro da profissão, então, assim, (a pessoa diz) “eu quero aperfeiçoar uma técnica”, então eu vou lá, dou uma mentoria desse curso todinho tal, desde do básico ao avançado. Então, é um curso VIP ali que eu vou estar me dedicando só para aquela pessoa, àquele profissional ali mesmo, seja 1 dia, 2 dias, 1 mês, ou o que for a necessidade dele de estar estudando para aprender ali. Hoje eu faço esse tipo de serviço dentro também do bairro, além de oferecer alguns serviços gratuitos de corte, ações, essas questões.
P/1 - Tem alguma área dentro do seu trabalho que você tem um apreço maior, que você gosta mais? Gosta mais de fazer isso?
R - Eu gosto muito de trabalhar o desenho artístico dentro do ramo, por mais que eu sou especialista em química, mas é porque a química ela já envolve essa questão também. Eu gosto muito dessa questão, trabalhar com desenho, com risco, realismo, cores, né? Não só um corte, na verdade, gosto muito.
P/1 - E o que que é moda em 2025, na Vila Esperança? O que o pessoal quer?
R - Cara, dentro da Vila Esperança hoje? O que é moda, é um platinado, é umas luzes e um cabelo assim que você fala “Cara, nunca vi!”, tipo assim, uma pintura diferente, uns reflexos, o pessoal estão fazendo bastante, teve época também que o pessoal começou a usar bastante química para alisar o cabelo, essas questões assim. Mas eu acredito que o desenho freestyle e tal, uma coisa mais realismo ali, uma coisa que me chama muita atenção também dentro da Vila Esperança hoje em dia, tem bastante risco, porque na época, lá atrás, se você for pensar alguns anos, você fazer um risco, você era malvisto.
Então hoje não, hoje até uma criança quase recém-nascida ali tá com um risquinho bem bonitinho ali, bem bacana de ver, né? Então, eu acho que isso foi um ponto bem, bem marcante assim.
P/1 - E qual é o perfil da sua clientela?
R - Então, eu costumo falar que a gente tem que ter um público-alvo, né? Então, tipo assim, meu público-alvo hoje é os jovens, os adolescentes, o pessoal que gosta de uma festa, uma balada tal. Mas eu não tiro de canto as crianças, que é o que eu acho que me encanta bastante as crianças, sabe? O pessoal fala que eu tenho um apego com as crianças, que é muito diferente, a criança se sente segura, se sente tranquila, porque eu brinco bastante e tal, isso e aquilo. Tem pessoas que eu cortei o cabelo, a menor idade da criança, eu cortei o cabelo, ele tinha 6 meses de nascido e cortei o cabelo dele super tranquilo. Agora teve outros que não, que era “Socorro, papai,” “socorro” e tal, isso é uma questão. Mas fora isso, as crianças, eu acho que foi um ponto que eu acho que é um forte meu, assim, cortar o cabelo das crianças.
P/1 - E o que você fica criando, inventando para fidelizar seu cliente?
R - Então aí tem que a fidelização da clientela, dos clientes, vai do profissionalismo que você passa desde um atendimento, desde um bom dia, você usa muito, eu uso muito o visagismo dentro da fidelização, então quando o cliente se senta na minha cadeira, que já aconteceu com alguns profissionais que eu já percebi, o cliente senta calado e sai calado, isso para mim é um pecado na barbearia, porque, cara, ali é a única oportunidade que você tem, você nunca viu aquele cliente, nunca viu aquela pessoa e você está tendo a única oportunidade de você fidelizar, ali você está deixando passar. Então, o que que custa você ir na porta, atender o seu cliente, dar um bom dia, oferecer um café, ter um pouco mais de atenção, explicar para ele porque que você está fazendo dessa forma. Olhar no contexto ali, e olhar o rosto dele de perguntar se ele tem alguma dúvida do corte que ele está vindo buscar. Se ele quer uma ajuda na questão, ou se quer uma ajuda nesse corte. Olha, isso aqui eu acho que combina mais com você e tal. Algumas fotos, aqui têm um catálogo, isso tudo faz muita diferença dentro da fidelização. Então, isso e alguns pontos que eu abordo muito, muito, muito mesmo, nas minhas aulas com os alunos. Eu abordo muito essa questão, porque a gente precisa fidelizar o cliente, para a gente se manter, então a gente tem que pegar muito firme nessa questão. Aí eu acho que um ponto muito importante é a fidelização, né?
P/1 - E você tem bastante cliente todo dia, você atende todo dia?
R - Cara, eu hoje, graças a Deus, tenho muito cliente mesmo, muito mesmo, tanto é, que eu tenho que às vezes deixar de atender num dia para remanejar, assim um pouco, para o outro. Porque eu tenho algumas outras questões também. Agora o que é mais engraçado, é que a clientela passou a me conhecer depois que eu comecei a cortar o cabelo dos artistas, algumas pessoas que fiz alguns atendimentos, assim como alguns artistas no ramo da música, teve pessoas, artistas do Rio de Janeiro, que eu cortei o cabelo de MC famoso, as pessoas daqui da Baixada também, algumas pessoas no patamar, vamos se dizer, da política aí mais...
Eu também fiz alguns atendimentos, e foi o que me ajudou muito a ter um pouco mais de visibilidade, porque eu comecei a me reinventar na questão, quando eu não tinha uma certa clientela, o que que eu fazia? Atendia a domicílio, entendeu?
Porque eu sei que tipo assim, às vezes tem um senhor que tá de cadeira de roda, tem um senhor que está acamado, então ele precisa também de um atendimento, não é verdade? Então, tipo assim, eu ia atender a domicílio, né?
E assim comecei a conhecer pessoas e tal, (falavam) “Você atende a domicílio? Pô, melhor ainda! porque às vezes eu tô aqui em casa, chego do trabalho, não dá tempo de eu sair”. “Às vezes eu tô com a perna machucada, não tenho muita mobilidade.“
Então eu consigo atender ali na sua residência, tranquilo, já atendi muito a questão, até dos artistas que eu atendia, foi a maioria deles, a domicílio. Aí, depois que eles começaram a frequentar minha barbearia, né? Aí foi onde começou o pessoal conhecer mais o Valtinho, que deu muita visibilidade. Então, tenho em média aí uns 10 artistas. Aí começaram a fazer vídeo pra mim, publicando e tal, isso e aquilo. Então essa é a questão que a gente acaba atraindo mais clientes também, passando um pouco mais de segurança ali, de uma pessoa fazer um vídeo, né? Falando um pouco do meu corte, do atendimento tal que ele busca ali. Então acho que isso tudo é muito válido dentro do contexto da barbearia.
P/1 - Você falou que aqui onde a gente está é um espaço novo e novo, quanto tempo tem?
R - Aqui eu acredito que tem menos de 1 ano, bem menos de 1 ano, aqui é muito novo, tanto é que eu estou construindo aqui. Na verdade, estou reformando, né? Então tem muita, tem 1 ano.
P/1 - O que que é aqui, é um container?
R - Aqui é um container aqui, um container de 20 pés que fala, e 6 metros. Eu sempre sonhei ter um container pra mim, fazer uma barbearia também, mas na verdade, na verdade, antes do container, o meu maior sonho é montar uma barbearia móvel, né? Pra mim, atender as pessoas vulneráveis, principalmente as pessoas que ficam debaixo de ponte, que eu faço essas ações, que nem, tem o Natal, e todo Natal eu não abro a barbearia, todo Natal eu deixo de cortar o cabelo para ir cortar o cabelo dos moradores de rua. Vou tomar meu café com eles, vou cortar o cabelo, escutar um pouco das histórias. Então faço isso no Natal, então, mas às vezes a gente fica um pouco limitado pela questão de que eu atendo muito, só em Cubatão.
Mas eu queria levar muito para fora, queria lá, numa praça em Santos, onde tem diversos moradores em situação de baixa renda e vulnerabilidade. A questão é atender eles. Então teve tempo que eu andei pesquisando algumas vans e tal para essa questão. Falei, “pô, seria legal ter uma van” Você ter toda adaptação ali, chegar, montar um toldo, levar mais alguns profissionais, assim como uma pessoa da assistência social para poder conversar com eles ali também e tal, prestar algum tipo de apoio ou oferecer até um abrigo, às vezes a pessoa tá ali, então, e além de tudo, trazer a dignidade dele através de um corte de cabelo, que às vezes você muda totalmente a fisionomia da pessoa, de você trazer uma autoestima. Então esse ponto eu estou tocando, porque é um pouco do social que eu faço, é uma coisa que eu amo muito fazer o social e se Deus quiser, se assim permitir, eu vou conseguir realizar esse sonho.
P/1 - Você falou que faz ações aqui também na vila?
R - Faço e faço as ações dentro da Vila Esperança. Em algumas épocas, no Natal.
P/1 - O que você já fez?
R - Aqui eu já fiz ação em corte de cabelo, vamos se dizer, dentro da minha profissão. Teve uma festa da criança, festa das crianças, corte de cabelo, teve alguns amigos que já me convidaram também pra fazer algumas ações de Corte Solidário, então a gente se juntava e fazia os cortes solidários. Então a gente sempre fez esse tipo de ação dentro do bairro, depois que a gente começou a levar um pouco mais para fora. Só que é uma coisa bem limitada lá fora, por conta do deslocamento do material, “como é que eu vou levar uma cadeira?” Tem todo esse aspecto, por isso que hoje eu penso um pouco mais nessa questão de montar uma barbearia móvel ali.
P/1 - Por enquanto, tem um container?
R - Por enquanto tem o container, foi um sonho que consegui realizar.
P/1 - E você que arrumou?
R - Eu que tô fazendo tudo, né? Graças a Deus, tô descobrindo profissões que eu nem sabia. Na verdade, tem coisas que eu faço aqui que eu falo “caraca, não acredito que foi eu.” E é isso.
P/1 - Que você fez aqui?
R - A instalação do Drywall foi eu, a parte da soldagem, para cortar teve um amigo meu que veio aqui, e ele falou assim “tá se matando pra cortar aí, cara?” Ele, o Gutemberg, ele veio aqui rapidinho e tal, não sei o que, nunca soldei pra colocar uma porta de vidro na vida. Então, hoje fiz também essa questão. Estou em preparação para o piso aqui, só que o piso aqui, já um senhor ali, já falou “ó o piso eu vou colocar, eu vou colocar”, falei “então tá bom.”
Então, tipo assim, para mim é bom, porque eu gosto muito desse contexto de aprender, de buscar conhecimento. Nunca tinha feito uma parte elétrica nessa proporção, até que o eletricista veio aqui e falou “tu vai roubar meu trabalho? aí tu vai tomar meu trabalho?” Aí eu falei “não...mas olha, se está certo,” e ele “Não, não, tá tudo certo, pô, tá tudo certinho.” Uma coisa que eu nunca pensei que ia fazer, eu acabei fazendo, então, tipo assim uma elétrica, mexer nessa estrutura de Drywall, uma solda, questões assim, que eu nunca pensei na minha vida, que eu ia fazer e acabei fazendo, e tá acontecendo, o sonho está se tornando realidade.
P/1 - Hoje não tem espelho quebrado.
R - Hoje não. Graças a Deus, hoje o espelho é inteiro, uma estrutura bem bacana. Estou trazendo mais coisas boas ainda para dentro da barbearia, e esse ponto é legal, hoje não tem um espelho quebrado. Na verdade, isso é muito interessante, mas é bom lembrar, é bom lembrar, que a gente dá valor a essas questões. E é isso, você tocou, foi longe agora... Espelho quebrado, é porque é legal de você lembrar algumas coisas que você acaba passando ali, porque não foi fácil para mim chegar até aqui, né? Foi uma luta muito grande, muito grande mesmo, de às vezes, você pedir maquininha emprestada, de você não ter como comprar algo, a situação do espelho, uma cadeira de madeira, né? Não esqueço disso não, isso tudo... eu vou levar para o resto da minha vida esse legado.
P/1 - Qual que é a sensação de você abrir a porta aqui todo dia e chegar do seu espaço?
R - Cara, a sensação maior que eu tenho é de gratidão. Gratidão por tudo que Deus proporcionou, tudo que foi assim, de alguma forma um empecilho, porque eu tirei as coisas boas. Costumo falar para meus alunos, que a gente não tem que ver um coisa ruim e “já era, aquilo ali é ruim”, né? O porquê da importância da pedra no nosso caminho? Porque tem que ter uma pedra no nosso caminho, aí eu faço essa pergunta para eles: “O que que você faz com a pedra no seu caminho?” Aí muitos me respondem de diversas perguntas. “Ah, eu tenho que tirar, porque isso e aquilo”, ou “Eu vou pular”, eu digo, “não pô, a pedra, ela precisa ser tirada, você não pode ultrapassar ela. A pedra no nosso caminho, ela necessita estar ali, porque se você precisar retroceder 10 vezes, você não vai passar pela pedra novamente.” [intervenção] Então, eu costumo falar muito para os alunos a importância da pedra no nosso caminho, e mais ainda, é importante a gente tirar. E eu faço essa pergunta para eles: “- Por que a gente tem que tirar a pedra do nosso caminho?” Alguns respondem porque tem que pensar no próximo, né? Essa questão, mas depois vêm algumas dúvidas.
Depois eles mesmos caem em si e falam, - mas vou pensar no próximo e quem está passando a dificuldade, agora é eu, né? E a pedra do nosso caminho, a gente não pode pular, a importância de nós tirar, é que se nós retrocedermos, precisar voltar lá na estaca zero, eu não vou ter aquela dificuldade de novo. Então eu vou passar pelo caminho, sim, mas vou passar com mais leveza, com mais clareza, não vou passar aquela dificuldade que eu passei. E aí sim, você passou, se você passou tranquilo, é aí que entra o próximo, o próximo vai passar tranquilo também.
Mas você primeiro tem que olhar a si, né? Nem tudo a gente tem que olhar para o próximo, porque eu preciso estar bem para o próximo, enxergar que estou bem. E ele se sentir bem também. E eu passei pelo caminho, fiz a minha parte, tirei a minha pedra, Opa, o próximo vai vir tranquilo, e ele precisar voltar, e ele não vai ter aquela mesma dificuldade. Então, uso muito essa reflexão nas minhas aulas para eles se colocarem com as dificuldades que aparecerem, eles abraçarem essa dificuldade e não deixar tomar de conta, né? [intervenção]
Então, nessa questão para a gente refletir, mesmo, quando a gente se trata daquela dificuldade para a gente retroceder, precisar voltar a algum ponto, e a gente não ter essa dificuldade, realmente é a pedra ali, tem uma questão que eu abordo muito também, que eu falo com alguns alunos, até com um amigo mesmo conhecido, morador, na questão da gente, do transtorno, né? Tipo assim “- pô, eu vou fazer um serviço, não olhe meu trabalho, não compare meu trabalho com o seu”, por quê? porque você acabar vai acabar se frustrando, porque você vai ficar tanto olhando o meu trabalho, tanto olhando meu trabalho que você vai querer fazer igual ao meu trabalho, e a gente sabe que no começo não é assim. Então a dica que eu dou para os meus alunos também, é “- tira uma foto do primeiro corte, né? E depois, lá na frente, quando a gente passar os processos, aí você vai olhar aquele primeiro corte, você vai olhar o atual”.
Então isso é um registro, que você acaba passando e você não frustra os alunos, porque se eu falar para ele, que ele vai ter o melhor corte dele ali e tal, e ele olhando em mim, ele vai se frustrar porque ele não vai obter aquele resultado, lógico, ele vai ter que se empenhar e estudar. Então a pedra no caminho, ali ela serve muito para a gente voltar e não ter esse tipo de dificuldade. Eu deixo essa reflexão aí para muitos.
P/1 - Em que momento você está na sua vida agora?
R - A minha vida está num momento bem marcante, na questão, não de ser uma referência para o bairro na questão de barbearia, a questão de ser uma liderança ou outros aspectos, mas eu sou feliz pelo pelas coisas que vêm acontecendo e eu estou num momento muito, muito feliz, e também um momento de construção, construindo algo novo, sempre buscando algo novo para aprender. Então eu sempre coloco isso na minha cabeça que qualquer período que a gente tiver na nossa vida, a gente tem que estar no período de construção. Seja construir algo para nós, para a comunidade, para o próximo ou para quem seja.
P/1 - Mas te ouvindo, a gente foi lá para o passado, e você me contou de momentos muito difíceis lá do começo. Hoje você já está num outro lugar, você já se sente realizado?
R - Por isso que a importância dessa construção. Porque se eu vivenciei algumas coisas lá no passado que foi dificultoso, teve alguma dificuldade, essas coisas, hoje eu tenho que construir algo diferente, e hoje a gente está conseguindo construir aos poucos, né? E entregar o máximo.
P/1 - Hoje você já tem o que você desejou. Você está num momento de conquista, de realização, dessa conquista?
R - Isso, eu tô num momento que eu tô construindo essa conquista, né? Ela não vem só. Ela não é do dia pra noite. Eu não posso sonhar que amanhã eu vou estar diferente, já com a minha conquista, com o sonho que eu almejo ali na mão. Porém, eu acredito que amanhã, você vai estar mais próximo de que mais longe. Então eu venci mais um dia, então eu tô mais perto do meu sonho. Tô mais perto dali, né? Eu tenho minha casa própria ali e tal, essas questões. Então, essa questão tudo aí eu acho que lá atrás a gente vê um pouco e a gente pensa para construir agora, no futuro. Por isso que a dificuldade lá de trás faz com que hoje a gente construa algo.
P/1 - Mas eu fico pensando no lugar mais prático, menos filosófico, até o menino que tinha medo de ter a casa derrubada, hoje é dono da própria barbearia, hoje é referência nesse bairro, isso é um trajeto longo.
R - Muito longo, e muito assim na questão de trabalhar essa questão de se colocar numa linha de tempo, um adolescente que surgiu do nada, passou dificuldade, hoje em dia ele tem o próprio trabalho, hoje em dia ele empreende, hoje em dia ele ensina, hoje em dia ele passa as coisas que é para ser feita, e, cara, é um sentimento muito maravilhoso de você falar “- E eu consegui vencer, vencer toda aquela batalha que teve no começo”, e hoje eu ter algo assim, de falar assim, “hoje eu tenho uma barbearia digna, hoje eu tenho uma cadeira legal, hoje eu tenho uma maquininha da hora, hoje eu posso comprar aquilo ali para mim, atender meu cliente. Hoje eu posso ajudar aquela pessoa que não tem, mas eu vou lá ajudar de alguma forma.” Então, acho que isso tudo é muito prazeroso de ver essa linha de tempo que a gente teve, então é muito importante isso também.
P/1 - Você trabalha também como líder do bairro?
R - Trabalho como liderança do bairro também.
P/1 - Então me fala.
R - Então a liderança do bairro surgiu acho que uns 10 anos atrás, por aí. A gente em conversa com os moradores aqui da Imigrantes e tal, e viu essa questão de a gente fazer uma associação, se juntar ali com algumas pessoas que têm o mesmo empenho que nós, que pense da mesma forma, e a gente fez a nossa associação, tudo formalizada, tal, tudinho, fizemos a ata, tal, tudinho, tudo dentro da lei.
P/1 - Como é que chama a Associação?
R - A AMBI - Associação de Melhoramento do Bairro Imigrantes, só que hoje, o que acontece? Hoje o Valtinho, ele atua, não dentro dessa associação eu me desvinculei, certo? E passei a conhecer novas pessoas, novas lideranças, novas assim, para mim, porque eles já vêm atuando de bastante tempo, né? Assim como a AMEVE lá do Sítio Novo, o Luciano é presidente, o Zumbi, conheci a do Miúdo, e assim foi indo e conhecendo a associação, me juntando a essa galera e buscando o máximo de informação e conhecimento, querendo aprender, tendo mais vontade ainda de aprender todos os dias, constante, e hoje, surgiu Valtinho, como uma liderança do bairro também.
P/1 - Qual é a sua missão como líder do bairro?
R - Minha missão é transformar o bairro, buscar dignidade, trazer segurança, melhoramento de vida, e eu acho que uma das coisas também que eu aponto muito, é realizar sonhos, assim como tô conseguindo realizar, eu acredito que dentro desse corpo aí, de uma liderança, além de trazer dignidade, de trazer um bem-estar para dentro da comunidade, trazer uma melhoria para uma criança, uma área de lazer dentro do esporte, seja o que for, na culinária, o que quer que seja que tire um pouco o olhar dos jovens, das crianças para umas coisas erradas e tal... então, tipo assim, eu luto muito por isso, e vejo isso, Valtinho como uma liderança aqui no bairro.
P/1 - O que vocês já fizeram que melhorou?
R - Uma das coisas que a gente já fizemos foi a reivindicação dessa praça. Não só eu, mas junto com os parceiros também, e isso é da praça aqui foi uma coisa muito importante, porque era um lugar sombrio, onde não tinha iluminação, era lama, mato, para ser mais exato, era o pessoal usando droga, então, assim, eu me incomodava muito com esse aspecto, aquela coisa apagada, sem vida e lutando ali, conversando com os amigos, com os parceiros, eu falei “Cara, a gente precisa revitalizar esse lugar. A gente precisa dar um gás para esse local. Está apagado, não está... Ninguém fala, ninguém, então, tipo assim, vamos lutar junto?” - Vamos.
Então, com muita força, muita luta ali, a gente conseguiu algumas reuniões com as parcerias, que estão com a prefeitura, tal, tudinho, e conseguimos fazer essa mobilização de fazer a revitalização. Não tinha praça aqui era só um campo. Porém, conseguimos consolidar o campo como uma praça, um terreno, é um dos terrenos, mais assim um espelho, uma vitrine mesmo para a própria comunidade. Então, nessa questão aí, eu digo que, não só eu ganhei, como a comunidade ganhou, como as crianças ganharam, como a Vila Esperança, ganhou.
Esse espaço aqui, esse é um ponto muito principal, que eu sei que tem dedo meu ali, tem sangue, tem suor, tem tudo. E ainda mais hoje que a gente está fazendo um campinho ali, de futevôlei e a população mesmo ali, tal que a gente tem muito dessa questão de a gente pegar aí tudo isso aí e tá ajudando muito para contribuir dentro da comunidade.
P/1 - E essa parceria da praça, porque a praça é linda mesmo. Foi com quem?
R - A parceria foi com a Rumo, empresa privada, onde eles têm a linha ferroviária deles aqui dentro da Vila Esperança. E essa parceria não foi fácil, que nem eu deixar aqui, teve pessoas lá atrás que buscaram isso também e chegaram primeiro, então a gente sempre chegou devagarzinho, respeitando quem tá ali primeiro, essas questões, e a Rumo decidiu nos presentear com essa praça.
P/1 - Quando é que isso aconteceu?
R - Foi no ano passado.
P/1 - Ai, tá fresquinho!
R - Fresquinho, fresquinho. Aí a praça, hoje ela, forma casal, a praça forma amizades, inclusão social, esporte, lazer, entretenimento. Isso tudo, cara, é muito prazeroso porque é um lugar que era, quem viveu aqui, quem morou aqui, sabe, era sombrio, não tinha nada, não tinha nada nesse lugar. Era um lugar assim, de você falar que não tinha esperança, vamos dizer, eu acho que o legal do nome Vila Esperança, é por conta disso, porque a gente tá trazendo esperança de onde já tenha o nome próprio, que é Esperança, então, acho que isso é bem bacana mesmo.
P/1 - Essa praça tem uma representação, né?
R - Tem muita. Tem uma representação, que a gente tem até um certo cuidado, da gente, eu tô aqui todos os dias e tal, ter esse cuidado com a praça, de varrer, de cuidar do espaço, de não ter esse tipo de vandalismo, de cuidar, de mostrar para a população que a gente tem que cuidar o que é nosso. Porque aí vai trazendo um corpo todo para fazer a mesma questão que hoje é eu, mas amanhã pode ser um filho meu, um filho de um amigo meu, ou um amigo meu, uma filha de uma amiga, não sei, mas amanhã esse legado tem que ser passado para frente, então alguém tem que cuidar disso aqui. Então, quando alguém fala bem assim,” ah, lá é um local público, não tem dono não.” Opa, não tem dono, mas tem gente que cuida, é diferente, então quem cuida ali? As pessoas que estão responsáveis, não estou falando que é dono, mas tem pessoas que cuidam.
P/1 - E o Valtinho, líder comunitário, e o Valtinho Barbeiro. Se juntam?
R - Se junta porque pensa só, um líder comunitário, ele gosta de fazer ações. Eu, como barbeiro, trago minha ação social para dentro do meu nicho como liderança e agrego um ao outro, tanto é que no ano passado eu ganhei o prêmio como Corte Solidário da Prefeitura, fui premiado, fui homenageado como Corte Solidário, então, isso tudo faz muito sentido desse conciliar, né? O líder comunitário que busca uma melhoria tal, mas ele já tem ali uma profissão que ele acaba trazendo para dentro da comunidade, onde o nicho se torna mais forte, o leque se abre mais, dá mais força, eu acho que foi bem bacana isso, e casou bem, como se dizer.
P/1 - E aí, quando senta o menino aqui na tua cadeira, você pode bater um papo com ele, tem uma conscientização também, né?
R - Todos que saem aqui, ele sai com a lavagem cerebral, como se dizer assim, porque eu comunico bastante mesmo, pego no pé, principalmente quando eu vejo algum jovem pequeno aí de 12, 11 anos, tem um aqui que a mãe dele me mandou uma mensagem no, não, comentou no vídeo que eu fiz da festa das crianças e comentou lá “obrigado por cuidar tanto do Samuel” e tal, isso e aquilo, porque todo dia ele tá aqui comigo. Então a mãe dele às vezes precisa sair, uma ideia, ela (fala) “vai lá pro Valtinho”, então eu falo pra ele, “eu gosto de ver você aqui do que você ficar na rua.”
E ele não tem nenhum vínculo comigo, não é meu sangue, não tem parentesco, mas ele todo dia... Ele não está aqui agora, porque ele tá na escola, mas mais tarde ele vai estar por aqui, certeza. Então, tipo assim, é muito disso, sabe, de as crianças ficar muito próximo de mim. Eu não sei se é porque eles já enxergam a liderança ou se sente seguro, veem um menino aqui também, né? - O Valtinho ali, uma criança que gosta também de dialogar, mas eu pego muito sério nessas questões de passar para eles uma coisa certa, inclusive pouco tempo atrás, para esse menino, para esse rapazinho que ele vem aqui direto, acho que ele tem 12 anos, 11 anos, eu ofereci para ele, eu falei se ele não quer aprender a cortar cabelo? falei ”Vou te ensinar, eu vou te ensinar a cortar cabelo”, porque isso aqui amanhã, depois eu que vou ficar com isso aqui, né? Então amanhã ou depois pode ter pessoas aqui cortando, trabalhando, ganhando seu dinheirinho e eu acredito muito neles, nesses jovens, nas crianças eu acredito muito, tanto é, que a maioria dos meus alunos foram tudo jovem mesmo, o menor tinha 11, 10, anos mais novo.
P/1 - Dá esperança, não dá?
R - Muita, e dá mais vontade de nós cair mais pra cima ali e falar “tá dando! Mas vamos dar mais um empurrãozinho que dá certo.” Fica melhor ainda, vamos dizer assim.
P/1 - E a sua família? Seu pai quando te vê sendo líder comunitário? Barbeiro? Professor? A tua esposa também, como é que é isso para eles?
R - Então, meu pai, ontem eu cheguei em casa e ele me ligou “não vai almoçar?” E eu falei “Pai, eu tô correndo ali. Tenho uma reunião, tenho isso e aquilo, tem que desenrolar umas coisas ali, tem que ir para Praia Grande.” Eu sei que nesse meio tempo eu saí de manhã e vi meu pai à noite. Ele “Caramba, agora?” - eu falei “não, agora não, já tô indo pra outro compromisso, só vim deixar o carro, vou pegar a moto” -e ele. “Caramba!”
Então, tipo assim, ele vê a minha correria, né? Acredito que ele vê tudo o que eu estou fazendo em prol da comunidade, por mais que eu fico um pouco mais ausente assim em algumas questões, e minha esposa o mesmo, né? Meu Deus do céu! Ela fala que a barbearia hoje é minha mulher e ela é minha amante. E é uma coisa que eu dou risada, mas eu sei, eu entendo o lado dela também, porque isso aqui, eu vivo 100% disso aqui também e às vezes a gente deixa de viver um pouco nosso lado familiar assim, por conta do que a gente buscou pra nossa vida, aquilo que a gente almejou e o que a gente tem hoje, ela também entende, por outro lado, que isso aqui é o meu ponto de renda também. Então isso tudo eu acabo consolidando, que a gente se afasta um pouco do familiar de casa também, que às vezes a gente sai de casa de dia e só chega de noite. Então, agora que eu tô conseguindo associar melhor meu tempo, tal, com esse tipo de agenda, tô trazendo meu irmão pra trabalhar também aqui comigo, que ele já corta cabelo também, meus 2 irmãos, na verdade corta cabelo, somos 3 homens que corta cabelo, então tô trazendo meu irmão também, tô em fase pra treinar esse jovem, que eu quero que ele trabalhe também, eu quero que ele viva isso aqui. Se ele realmente gostar, ele vai viver isso aqui e para onde ele for, ele pode ter certeza, ele vai fazer que nem eu, aonde ele for, coloca a mochila nas costas e vai levar à profissão dele, entendeu?
P/1 - Como que está sua filha?
R - Minha filha tá bem, tá estudando, graças a Deus. Tá uma moça já,15 anos as duas, né? E cara, eu não tenho muito o que falar, porque elas não me dão dor de cabeça, sempre estudiosa pra caramba, sabe? E tem aquela vontade de já querer trabalhar pra ela mesmo. Então, tipo assim, quando ela chega em mim e fala “quero fazer isso, quero fazer aquilo.” Tem uma que já trabalha fazendo umas filmagens, fotos, já trabalha, tipo tem 15 anos, mas parece que já é uma adulta que já tem aquela coisa de compromisso, sabe? Só que ao mesmo tempo dá aquele medo para não perder, para não passar a mesma coisa que eu já passei, de se tornar um adulto um pouco mais rápido e viver um pouco mais a adolescência, que é uma coisa muito gostosa de se viver, também um pouco da adolescência, que eu acho que são fases que tem que ser vivida também. Porém, a gente tenta passar, mas a gente também, tá amadurecendo aquela adolescente, aquela criança para amanhã ou depois, ela está tranquila, graças a Deus está bem instruída.
P/1 - A sua mãe faleceu. Você tinha quantos anos?
R - Minha mãe faleceu em 2017.
P/1 - Então ela viu você nisso tudo, viu?
R - Viu. Minha mãe sempre me apoiou, minha mãe, eu lembro como hoje, que eu estava na casa dela e, eu não tinha uma maquininha de cortar cabelo e eu não esqueço disso também, ela estava com um dinheirinho para comprar algumas coisas para dentro de casa, ela não me falou, aí ela foi lá e comprou uma máquina de cortar cabelo para mim. Então são as coisas que eu não me esqueço nunca mesmo, porque a gente passava por certas necessidades, e eu via o empenho dela de me apoiar, sempre me apoiou nessas questões aí, e são coisas que marcam muito, né? Nessa questão, de ela pegar e tirar uma coisa que poderia comprar ali, uma mistura. Isso eu vi, não foi ninguém que me falou, ela não me viu vendo essas questões, mas quando ela chegou com a maquininha e depois, e aí? A preocupação, já vem a preocupação dela com os mantimentos, alimentos, então eu vi muito isso nela, e não tem o que, eu tenho muito que agradecer a ela por isso. É ruim por um lado, mas a gente sabe esse sentimento, quando a mãe apoia alguma coisa que o filho está fazendo, ele está buscando. E eu, graças a Deus, tive uma mãe muito apoiadora, assim como meu pai também, que sempre me apoiou nas coisas que eu venho fazendo. Falo pra ele “pai, vou fazer isso e aquilo.” Ele pega e fala “não, mas é isso mesmo e tal? Então tá bom, vai lá, tá precisando de uma força?” Então eu sempre conto com ele ali, ele sempre está de prontidão ali para me ajudar, então são essas coisas que a gente acaba deixando registrada uma coisa boa.
P/1 - O que você quer daqui para frente, Valtinho?
R - Daqui para frente eu quero construir novos profissionais, dar esperança para o jovem, tirar muito do olhar da criminalidade. Tenho comigo que um jovem precisa ser olhado de um olhar diferente, porque se a gente não olhar diferente para ele, outras pessoas vão olhar, e o outro olhar não é diferente, é um foco só. Então, quando eu olho para um jovem hoje, vejo ele andando descalço, todo sujo, eu me sinto um pouco sensível, sabe? Por que eu acharia que alguém poderia ter instruído ele, e ele não estar naquela situação. Muitas pessoas falam assim, “mas tu não sabe o que ele passou”... Mas eu não preciso saber, eu quero saber de agora, depois, com o tempo, a gente vai conversando, se a pessoa quiser se abrir, ficar à vontade, tudo bem, mas a gente tem que pegar por agora, vai esperar o quê? Morrer? Vai esperar cair mais ainda do que já está caindo? Não, não, tem que ser pra agora, entendeu? Que a história dele lá atrás, a gente tem que fazer com que ele esqueça um pouco essa cicatriz, ela venha desinflamando, entendeu? E que seja só uma cicatriz, e que nós possamos ser uma cirurgia plástica nessa cicatriz e que tire, entendeu? É isso que eu acho que o contexto do Valtinho, hoje dentro da comunidade, buscar um pouco essa, vontade de tirar esse, esse jovem, é isso. Hoje eu acho que daqui para frente o Valtinho vai atuar dessa forma que já vem atuando, né?
P/1 - E é o que você vê desse projeto de urbanização que está sendo tão falado aqui dentro da Vila Esperança?
R - Então, esse processo de urbanização é um processo muito, que a gente tem que tratar ele com muita cautela, porque a gente é um povo que sofreu muito nessa questão, de vai sair, de não vai sair, de mobiliza, de ver ações”, lá atrás a gente sofreu muito. Então, tipo assim, quando às vezes você dá graças a Deus, hoje eu tenho informações de como que é isso, mas eu não tinha essa informação lá atrás. Muitos moradores hoje aqui dentro da Vila Esperança não têm essas informações. Então hoje a urbanização, a gente tenta passar para a população com mais clareza da melhor forma possível, assim, dando encontros comunitários, fazendo reuniões. Mas eu vejo esse processo todo como um, sabe você sair de uma coisa ruim, e você ter um pouco de dignidade, sabe?
Então é isso que eu também vejo, não é porque eu moro aqui que eu vou querer viver aqui o resto da minha vida. Mas posso também, mas de uma forma melhor, de uma casa melhor, de ter uma água melhor, de ter uma rua melhor, de um correio chegar na minha casa, entregar uma correspondência para mim.
Então eu acho que isso a população tem que ter essa informação e saber que realmente é isso que é a transformação dessa questão da urbanização, porque quando você fala da urbanização da Vila Esperança, muitas pessoas tratam ela como “ah, vai fazer eu pagar isso, isso e aquilo,” “mas se você estivesse em outro lugar, você ia fazer o mesmo”, né? Então, claro que tem pessoas aqui, que não tem realmente condições, a situação é muito precária mesmo, é muito difícil mesmo, né? Eu tô falando se você for lá dentro mesmo da das palafitas, você vai ver, vai ficar de boca aberta. Então assim, não é à toa que o pessoal às vezes não aceita a urbanização, é que ela não tem outra opção. Como você vai falar com um pai de família, desempregado, com a esposa e 4 filhos? Como que você vai lá colocar ele dentro de um apartamento se ele está desempregado? Se você não formou ele num curso profissionalizante, se você não mostrou para ele o mercado de trabalho? Então, tipo assim, é muito também. Tem que ser com bastante cautela isso aí. Porque você tira daqui, e você leva para uma situação que talvez ele vai passar por coisas piores, porque que talvez, se ele estivesse no cantinho dele, ele dava o jeitinho dele, né?
A gente sabe que tem cultura, que tem que ser, vamos dizer assim, vamos socializar novamente, vamos reeducar novamente, então tem pessoas que realmente precisam ser reeducadas, mas as informações têm que ser chegada, ela tem que chegar na população.
P/1 - Qual que é a maior carência que você vê hoje?
R - A maior carência dentro do bairro hoje, que eu vejo nessas questões, tratando da urbanização, é tipo trazer a população para mais próximo desse tipo de informação.
P/1 - Conhecimento?
R - Conhecimento. Porque se eu não tenho conhecimento, como que eu vou abordar um assunto se eu não tenho? Então, tipo assim, fica um pouco distante de a gente dialogar, se eu não tenho conhecimento da área, eu não tenho conhecimento do que está acontecendo lá...- Ah, hoje a gente vai abrir um buraco aqui, vamos colocar dois canos, mas para que o cano? Não tenho o conhecimento. - Hoje eu vou pegar, vou mover essa ponte de lugar, mas para quê? Então, tudo faz parte de um processo, tudo é um conhecimento.
Então, eu acho que o conhecimento, a população teria que frisar muito nisso também, por conta da urbanização, então, claro, a gente tem pessoas que está buscando esse tipo de informação para trazer, mas muitas vezes, não chega na ponta que tem que chegar, não chega na porta de uma pessoa que mora dentro da palafita, então ele fica, fica naquela, - “vai me tirar daqui, vai me jogar lá, vou morrer de fome, vou ficar sem trabalhar. Como é que é?” Então, às vezes, muitas das vezes, as pessoas têm um certo pé atrás com esse tipo de mobilização, e essa questão da urbanização, por conta disso, entendeu? Porque eles não têm para onde ir, não tem, às vezes não tem apoio de ninguém, até a própria família, às vezes até abriu mão da pessoa. Então, é muito difícil.
P/1 - Você que tem o conhecimento e o acesso a ele, né? Como é que você vê isso nos próximos anos? Vê algo positivo?
R - Já tá sendo positivo, né? A gente vê com o governo que está atuando dentro da comunidade. A gente vê as transformações, a gente vê o que está sendo feito. Um exemplo maior fala da Vila Natal ali, onde a Vila CAIC era uma comunidade extrema na questão da carência. E hoje, você vê lá os apartamentos construídos, com dignidade, né? E aí paro para pensar um pouco nessa questão, e assim - “não vou mais me preocupar, e amanhã ou depois comprar o madeirite, eu não vou me preocupar de andar na palafita e cair dentro do mangue.”
Então, tipo assim, isso também é uma dignidade, entendeu? É trazer esse tipo de coisa, só que a população precisa ser informada e reeducada nessas questões, porque não é simples você tirar, só colocar lá, entendeu? Não é simples assim, porque aí você acaba trazendo um problema que você tirou de um lugar, mas está trazendo para outro, talvez até maior do que você já tinha. Então, esse tipo de informação é muito importante.
P/1 - É você que tem muito contato com os jovens. Você vê eles interessados em entender esse tipo de coisa, em movimentar esse bairro?
R - Os jovens que eu conheço, tem um grupo dentro do telefone que vou falar “vai acontecer isso.” O pessoal vem correndo, então, tipo assim as pessoas, você vê que as pessoas querem mudança mesmo, né? A gente teve uma reunião aqui para a gente fazer algumas coisinhas aqui na praça e molecada veio em peso. Então, tipo assim, você vê que é realmente a molecada quer uma coisa melhor, tá entendendo? Então isso é um ponto positivo dentro das coisas ruins que a gente tem. Isso para mim é ótimo, é um apoio. Às vezes eu não tenho um centavo para dar ali, comprar um prego para a gente montar uma coisinha ali. Mas só o fato da pessoa estar ali incentivando, tá junto é o suficiente. Então, tipo assim o jovem hoje eu vejo que ele tem esse apego, assim de falar “ah, eu quero fazer” até pelo contrário, para poder, se alguém for lá e quebrar alguma coisa, ele tem esse poder, esse empoderamento de falar “não eu que fiz. Aí você não vai mexer.” Aí então, tipo assim, você vê que o jovem está bem no coletivo nessa questão.
P/1 - Se antes os pioneiros tinham que fechar a rodovia para poder lutar pelas coisas, hoje não precisa mais. Hoje mudou o diálogo?
R - Hoje mudou. Hoje o diálogo está totalmente diferente, né? Hoje a gente tem acesso onde a gente não tinha. Hoje a gente tem reuniões com o pessoal, tanto prefeitura, Ecovias, então tem essas questões aí, a gente tem esse diálogo com eles sim. Aonde que lá atrás já era muito ruim esse diálogo, tudo foi totalmente fechado, por isso que acho que tinha esses atritos, essas coisas aí. Mas hoje, graças a Deus, aí tem esse leque aberto aí e eu acredito que é um passo para um caminho bem, um caminho bem melhor do que a gente já trilhou.
P/1 - Aí um pouquinho antes, a gente tá terminando a nossa entrevista um pouquinho antes, eu te perguntei quais eram os desafios de morar na Vila Esperança, agora eu quero o lado bom de morar na Vila Esperança.
01:58:29
R - O lado bom da Vila Esperança é você primeiramente vir para o lugar que se trata de esperança, então, assim, a vila em si, ela calejou muita gente, e essas pessoas que foram calejadas, elas deixaram muitas coisas boas dentro da Vila Esperança e uma delas, são as próprias pessoas que quer, de alguma forma, contribuir com que ela cresça, né? Seja com projetos, seja com o incentivo, seja com qualquer tipo de atrativo que venha a tirar esse jovem, eu cito muito o jovem, porque é o que eu trabalho muito com eles assim e vejo uma carência, certo? Para (ele) não ter que ir por outros caminhos, então eu vejo muitas questões aí, desse jovem, e a Vila Esperança, hoje ela é contemplada com esse tipo de ações, e o que torna a Vila Esperança hoje, mais prazerosa mesmo, assim de falar, “ah, a Vila Esperança não é a mesma como antes”, de você olhar para trás e ver que quem está vindo agora, a geração de agora, não vai passar por tudo que a gente passou. Então, hoje a Vila Esperança, ela realmente tem esperança, e eu tenho esperança nessas pessoas.
P/1 - Como é que você se sente sendo filho desse bairro?
R - Me sinto abraçado. Me sinto acolhido e me sinto também privilegiado por ter vivido, nascido aqui. Sou privilegiado com isso e me sinto ainda com mais vontade de ver isso aqui crescer mais ainda. E é isso.
P/1 - E como é que foi pra você hoje relembrar a tua história, contar pra gente?
R - Cara, eu revivi coisas, fui em lugares e a todo momento vem flashes, reflexões na mente, né? Isso tudo foi em questão de horas, foi que nem eu tinha ido lá dar um abraço na minha mãe, minha vó... Então, vivi muita coisa aqui hoje, viver isso tudo, acho que é muito marcante e me traz mais esperança. Me traz mais força ainda de ver o que eu passei, de ver a pessoa que eu me tornei, de ver o Vagner lá de trás se tornar o Valtinho, se tornar o líder e se tornar o professor.
E hoje se tornar uma das referências dentro do bairro. Isso eu acho que é um sentimento muito de gratidão, né? E eu vou levar isso como um legado, a gente costuma falar que é um testemunho das nossas vidas, que a gente acaba passando para o próximo ali, e eu saio daqui hoje, com muita esperança mesmo, muita vontade, de, 10 vezes mais do que eu já estava, né? Depois dessa conversa, depois desse flashback que a gente foi lá atrás, lá... Então, hoje o Valtinho sai daqui com sensação de alívio, né? Me senti abraçado, me senti confortável. E é isso. Me senti com muita esperança.
P/1 - E tem muito pela frente.
R - Muito, muito, muito, muito mesmo, pode ter certeza, isso aqui é só um terço do que a gente pensa para dentro do nosso bairro. Pensa para fazer para os jovens dentro da Vila Esperança. E pode ter certeza, isso aqui não vai parar não, porque vai sair eu e vai entrar outro, e a gente quer que essa pessoa que esteja aqui no meu lugar, tenha a mesma vocação ou mais ainda, do que a gente já vem fazendo.
Mas isso tudo aqui vai levar um tempo, e vocês vão ver lá na frente e falar - Caramba, a gente conseguiu realmente fazer com que aquele lugarzinho ali tivesse um pouquinho de esperança, se tornar uma coisa gigante, se tornar uma referência. Eu tenho comigo que a comunidade ainda vai ser referência para outros.
P/1 - Referência em quê?
R - Referência em termos de transformação social, porque meu legado aqui é transformar vidas. Então eu acho que a gente vai ser referência na transformação social, essa comunidade não vai ser conhecida só aqui dentro da Vila Esperança, aqui em Cubatão, e não pelas coisas ruins, ela vai ser conhecida mundialmente pelas coisas boas, pelas pessoas boas que vivem nela e pelos frutos que foram colhidos não, mas vamos falar que foi plantado, porque colher a gente colhe com o tempo, né? Então eu fico esse legado aí. E é isso.
P/1 - Quer acrescentar algo?
P/2 - Ah, sim. É que é importante a gente falar das redes sociais, porque você tem um trabalho nas redes. Você está começando a ser cada vez mais conhecido nas redes. E aí eu acho legal a gente falar desse trabalho e falar das redes também pra gente divulgar.
R - Maravilha! Também trabalhando em cima um pouco das redes sociais, né? Não tinha costume de trabalhar em rede social, então tinha um pouco mais de vergonha e tal. E lá atrás também não tinha muito o que mexer, não tinha muito celular, essas questões, por não por opção, mas por necessidade que não conseguia mesmo. E depois de um tempo, estou trabalhando um pouco nessa questão do social e da área do cabelo, da barbearia, eu automaticamente um barbeiro, ele tem que ter uma rede social pra poder passar pra alguém que tá ali no outro lado da telinha ali. Então, tipo assim, foi muito difícil para mim trabalhar na rede social, muito vergonhoso mesmo, né? O pessoal falando “pô, faz um” - Na época era Orkut, era Orkut tal, “faz um tal isso e aquilo.” Aí depois foi, mudou, parece o Facebook, o Instagram. Aí eu fui acompanhando, fui acompanhando devagarzinho, acompanhando, acompanhando.
E hoje minha rede social, graças a Deus, ela atende muito a população, ela é muito assistida, hoje, graças a Deus, tá lá como Valtinho do Corte. Então esse nome por causa do corte, e então, tipo assim, tudo que você colocar “Valtinho do Corte “vai aparecer, eu vou aparecer. Já tentei pesquisar outras pessoas também para ver na questão das redes, como que ia ser e consegui fazer alguns conteúdos.
Eu faço alguns conteúdos dentro da rede social que além de dar dica para quem tá com dificuldade de aprendizagem, dou dicas para quem já está no ramo, também dou mentoria, faço algumas também para algumas pessoas e trabalho um pouco mais no humor dentro da barbearia. Eu tenho esse lado também.
Agora, uma pessoa que é vergonhosa, né? Hoje em dia, fazer humor é muito... totalmente ao contrário do que que era eu. Então, tipo assim, hoje eu trabalho essas questões, faço um vídeo ali de humor na barbearia, eu tenho um vídeo que meu pai assistiu um tempo atrás, ele escutou só o áudio, na verdade, né? Ele viu um grito de uma criança no áudio, já e um áudio já preparado, mas ele não tinha visto nem nada, aí é uma criança chorando, gritando, ele já veio assustado, “o que que é isso? Tal não sei o quê? “Ele falou pô, eu te vi ali, foi o que? Por que a criança está chorando desse jeito?” - Eu falei não, pai, ali é um vídeo que eu tô fazendo conteúdo para a internet, é um humor dentro da barbearia para quebrar também um pouco o gelo ali da questão. Eu gosto muito de colocar alguns pontos de humor dentro da barbearia, porque acho que cai bem, quebra um pouco esse gelo de chegar aqui calado e tal, essas questões assim.
Então não só gravo esse humor também, como acabo praticando com alguns clientes e tal. Tem um senhorzinho, acho que ele deve ter uns 70 anos, ele vem aqui devagarzinho na dele, ele fala “rapaz, eu gosto de tirar o meu cabelo só com você.” Ele fala - tirar e não fala - cortar. “Eu gosto de tirar meu cabelo só com você, eu fui ali, mas eu vou falar pra você... minha família queria me levar, e eu falei que eu vou esperar lá o Valtinho lá, que ele já conversa comigo bastante.” Aí, tipo assim eu corto o cabelo dele, para cortar, eu corto em 20 minutos, mas a gente fica a questão de 1 hora conversando, sabe? Então, tipo assim, ele é um cara que quando vem, eu já sei que vou ficar tranquilo, vamos conversar. A gente vai em vários lugares diferentes na conversa. E é legal isso aí é.
A rede social, ela me abraçou muito nessa questão, né? Hoje eu tenho alguns seguidores ali, tem um vídeo meu que tá batendo algumas Views ali, legal, né? Tem alguns trabalhos que eu já coloco também lá também, no corte de cabelo. Tem algumas ações, não muitas, mas 1 ou 2 ações que eu fiz também, é que eu não gosto de mostrar as ações, eu não sei por que, comigo mesmo, eu não gosto de ficar mostrando muito o que eu faço, principalmente algumas questões que para mim não é viável. Prefiro fazer no off mesmo e tal, né? Se rolar algum comentário, amém. Se não rolar também, amém também. Mas o meu foco dentro da rede social hoje é trazer esse tipo de conteúdo, de ensinamento, de humor, né? Para trazer um pouco de alegria também para quem às vezes a pessoa está desmotivada, vê um vídeo ali, já deu uma risada, “opa, tá legal”, então, tipo assim, eu vejo um pouco mais dessa necessidade desse tipo de conteúdo na rede. Eu faço muito isso, cara.
P/1 - É o seu lado artista?
R - E meu lado artista dentro da rede social acaba fazendo isso, né?
P/1 - E tem o engajamento, né?
P/2 - Chama a atenção.
P/1 - Movimenta isso tudo, né? Traz justamente a língua dos jovens.
R - Sim, sim, porque o pessoal gosta, tanto é que quando eu vou gravar, eu agora vou fazer uma, uma série, né? Eu vou eu mesmo vou fazer a minha série mesmo, só que eu vou fazer dentro da comunidade.
P/1 - Olha!
R - Isso eu não falei para ninguém, só algumas pessoas que sabem. Tanto é, que eu gravei um vídeo clipe de um rapaz, eu já fiz alguns takes, algumas cenas de dentro para essa série.
P/1 - Já a série de quê? Só um spoilerzinho.
R - A série retrata um pouco do… um pouquinho de cara que tem dentro da comunidade,
P/1 - Da vivência?
R - A vivência.
P/2 - Mas é uma série de ficção?
R - Ficção e realidade.
P/2 - Que legal!
P/1 - Ela é uma ficção baseada na realidade da Vila Esperança do jovem.
R - Os que gostam de futebol, outros que conhecem um outro lado, do outro lado do escuro, um que várias vivências vão ter dentro de si.
P/1 - Você vai atuar também?
R - Não.
P/1 - Vai dirigir?
R - Só vou fazer tudo.
P/1 - Já tem nome a série?
R - Então o nome, o nome não tenho. Mas eu só tenho um nome para os personagens, porque eu tô criando primeiro os personagens, tal, tudinho. Terminando, eu tenho algumas pessoas que adoraram os personagens, já chamei eles, falaram “beleza, eu vou participar” e tal.
P/1 - Então, no fim das contas, a Vila Esperança é fonte de muita inspiração.
R - Muita coisa, é muita coisa. Se você for pegar, por exemplo, um jovem hoje que às vezes quer, tem até um dom de atuar, mas às vezes não sabe. Às vezes não se desperta. Por quê? Porque não tem, ou não tem oportunidade. De repente, através de uma ideia que eu tive dessa daí, o rapaz tem um dom, ele acaba se descobrindo e aí acaba se caindo de cabeça na profissão, amanhã ou depois está atuando aí numa tela.
P/1 - Aí é bom sonhar. Mas melhor ainda é realizar, não é?
R - Com certeza. Com certeza. Isso eu vou tirar do papel. Vou tirar do papel.
P/2 - Você falou um pouco da favela e o nome é super legal, o “Stilo Favela”, me descreve o que é o estilo favela da Vila Esperança hoje.
R - Então, se tratando da minha marca, onde eu levo eu coloco lá “Stilo Favela”, o pessoal às vezes, “Pô, mas estilo favela? A favela é uma coisa”, que tem gente que olha para uma coisa ruim, né? Mas eu vejo uma coisa super boa. Por quê? Porque a favela precisa ser transformada, entendeu? O estilo, o que significa o estilo? O estilo é você que vai fazer, no meu pensamento é isso.
Então, tipo assim, eu vou fazer o estilo, do meu ver, eu moro na favela, mas ela precisa ter um estilo, então eu vou dar um estilo pra isso.
Aí eu falei, mas qual que é o estilo da favela? Na favela você encontra advogados, na favela você encontra um pedreiro, na favela você encontra um jogador de futebol, é muito versátil, dentro da favela, então assim, o estilo, quando eu falo Stilo Favela é um estilo de fora que vêm pra favela, e o favela, é o contrário, e o estilo que vêm da favela, que vai pra fora.
P/1 - Que leva o estilo.
R - Isso que leva o estilo. Então eu tenho isso assim, essa coisa incorporada assim. O estilo de lá de fora vem pra favela, a favela vai para o estilo de fora. Então eu usei muito essa questão de colocar esse estilo. Aí o pessoal falou “mas você tem que ter a barbearia no tema todo Stilo Favela,” Eu falei não, “mas eu já tive, já tive.” Que nem a minha barbearia que era lá, antes de vir para cá, lá eu tenho uma prancha de surf dentro dela, então tem algumas coisas que realmente você olha assim e fala “pô, realmente parece que eu tô dentro da favela mesmo, hein?” Então, tipo, já fiz muito grafitti nas paredes, os muros assim, a molecada empinando pipa, essa questão e tal. Mas hoje em dia eu tô trazendo pra favela umas coisas que às vezes não vinha, né? É uma coisa de fora, tá entendendo? Então, tipo assim, dentro da barbearia, eu parei um pouco com essas paradas de pegar e trazer esse corpo, que a gente já vivência, isso da favela. Agora não digo se eu for levar a minha barbearia lá para fora, aí eu vou montar a estrutura de fora, tudo top de boa, quando o cara entrar, ele vai falar “caramba, nunca vi isso, cara, entro aqui desse lugar, nunca vi!”.
Então, assim o Stilo Favela, é isso, entrega um pouco da sociedade lá de fora, do estilo, e mais a integridade do pessoal que atua dentro da favela.
P/1 - Deixa eu ver o seu logo na camiseta. É você?
R - E eu? Stilo favela.
P/2 - Com o mesmo boné para trás.
R - Com o boné para trás. Então assim, essa, essa marca aqui vai me carregar o resto da minha vida. Vai ficar legado de legados aí. E eu acredito que o Stilo Favela vai transformar muito a vida aí.
P/1 - Muito bom! Muito obrigada, viu?
R - Imagina eu que agradeço pela disponibilidade, por estar contando um pouco dessa história também para vocês, porque a gente sabe que tudo que a gente vivencia é muito importante para nós, né? Principalmente quando se trata da questão social de transformação de jovens, de mulheres, pessoas negras. Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo quando envolve isso, tudo você encontra dentro da comunidade.
Então, fico grato por estar participando de tudo isso, obrigado mesmo, de coração. Eu espero que tudo isso que eu falei, não fique só, vamos se dizer, em uma história contada, mas que possa passar esperança, força, determinação, possa passar alegria. Tudo isso que for de bom, possa passar para todos aqueles que estiver vendo, escutando, assistindo de alguma forma, ou alguém comentou de mim, né? Mas que seja uma coisa boa, que seja um bom aproveito.
P/1 - E é legal que fica registrado, e você vai poder ver isso, e outras pessoas daqui um tempo e ver o que aconteceu nesse momento em diante, né?
R - Então é muito bom, muito bom.
P/1 - Obrigada, querido.
R - Eu agradeço.
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