Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Maria Cícera Carneiro Figueiredo
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 27 de outubro de 2025.
Entrevista número MVE_HV008
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista Nataniel Torres
P/1 - Eu vou pedir pra senhora começar me falando o nome da senhora inteiro, a data de nascimento, dia, mês e ano e a cidade onde a senhora nasceu.
R - Maria Cícera Carneiro Figueiredo, data de nascimento 15 de maio de 45. Nasci no Rio Grande do Norte, estado Goianinha.
P/1 - Qual é o estado?
R - Goianinha
P/1 - A cidade?
R - A cidade é Rio Grande do Norte. Ah, tá.
P/1 - Goianinha é a cidade, o estado é Rio Grande do Norte. Goianinha, a senhora nasceu, como era esse momento do nascimento da senhora? Os pais da senhora são de lá?
R - São. Pai, mãe, irmãos. Tive vários irmãos, nove irmãos. Só tinha eu de mulher. Tá bom.
P/1 - A única menina?
R - A única menina.
P/1 - Qual é o nome do pai e da mãe da senhora?
R - Antônio e Isabel.
P/1 - O que eles faziam?
R - Eles trabalhavam na roça. O meu pai era tipo feitor, né? Que hoje em dia fala feitor. E a minha mãe era lavadeira da fazenda. E eu perturbava. [risos]
P/1 - A senhora era caçula?
R - Não, era tudo homem. Aí tinha uma irmã que era caçula. Um irmã que é bem... Bem, assim, separada, né?
P/1 - Mas a senhora era mais velha?
R - A filha mais velha? Das mulheres, era.
P/1 - E aí, quando a senhora nasceu, como que era a vida dos seus pais? Como que tava o momento de vida deles?
R - Era bem ruim. Porque eles trabalhavam. Trabalhavam na roça. E recebia aquilo ali. Era pouco dinheiro pra sustentar aquela criançada toda. Então, todos nós tínhamos que trabalhar.
P/1 - Trabalhava na roça?
R - Trabalhava, ajudava eles.
P/1 - O que a senhora fazia?
R - Eu ajudava a plantar.
P/1 - Plantava o quê?
R - Feijão, milho, mandioca, batata.
P/1 - Desde pequenininha?
R -...
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Entrevista de Maria Cícera Carneiro Figueiredo
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 27 de outubro de 2025.
Entrevista número MVE_HV008
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista Nataniel Torres
P/1 - Eu vou pedir pra senhora começar me falando o nome da senhora inteiro, a data de nascimento, dia, mês e ano e a cidade onde a senhora nasceu.
R - Maria Cícera Carneiro Figueiredo, data de nascimento 15 de maio de 45. Nasci no Rio Grande do Norte, estado Goianinha.
P/1 - Qual é o estado?
R - Goianinha
P/1 - A cidade?
R - A cidade é Rio Grande do Norte. Ah, tá.
P/1 - Goianinha é a cidade, o estado é Rio Grande do Norte. Goianinha, a senhora nasceu, como era esse momento do nascimento da senhora? Os pais da senhora são de lá?
R - São. Pai, mãe, irmãos. Tive vários irmãos, nove irmãos. Só tinha eu de mulher. Tá bom.
P/1 - A única menina?
R - A única menina.
P/1 - Qual é o nome do pai e da mãe da senhora?
R - Antônio e Isabel.
P/1 - O que eles faziam?
R - Eles trabalhavam na roça. O meu pai era tipo feitor, né? Que hoje em dia fala feitor. E a minha mãe era lavadeira da fazenda. E eu perturbava. [risos]
P/1 - A senhora era caçula?
R - Não, era tudo homem. Aí tinha uma irmã que era caçula. Um irmã que é bem... Bem, assim, separada, né?
P/1 - Mas a senhora era mais velha?
R - A filha mais velha? Das mulheres, era.
P/1 - E aí, quando a senhora nasceu, como que era a vida dos seus pais? Como que tava o momento de vida deles?
R - Era bem ruim. Porque eles trabalhavam. Trabalhavam na roça. E recebia aquilo ali. Era pouco dinheiro pra sustentar aquela criançada toda. Então, todos nós tínhamos que trabalhar.
P/1 - Trabalhava na roça?
R - Trabalhava, ajudava eles.
P/1 - O que a senhora fazia?
R - Eu ajudava a plantar.
P/1 - Plantava o quê?
R - Feijão, milho, mandioca, batata.
P/1 - Desde pequenininha?
R - Desde pequenininha. E apanhava porque ela levada. [risos]
P/1 - Então me conta um pouquinho dessa memória da infância.
R - É, não tinha escola, e quando aparecia alguém pra ensinar alguma coisa pra gente, a minha mãe não deixava, porque ela não deixava ir sozinha, ela dizia que era perigoso. Perigoso tá hoje, né? Naquele tempo a gente saía, ia, voltava, não via ninguém. Quem se encontrava era gente conhecida, ninguém mexia com a gente, não tinha roubo, eu nunca soube que tivesse um roubo, um assalto lá, que não tinha mesmo.
E o povo bebia muito, a mulherada, os homens, era alambique, né? Aprendi a fazer as coisas, lavar roupa de pequena, cuidar dos irmãos, fazer comida. Minha mãe botava a gente pra cozinhar pequenininha. Ela era lavadeira da fazenda, ela levava a gente e ensinava pra mim.
P/1 - E a senhora era uma criança que brincava também?
R - Brincava e aprontava. Brincava e muito. Tinha boneca de pano, de milho. Era difícil.
P/1 - Mas se divertia?
R - Muito. Bem melhor do que agora. As crianças, porque naquele tempo a gente podia ter amigos, né? Brincava, ninguém fazia... Tinha palavrão, tinha nada.
P/1 - E aprontava o quê?
R - Aprontava, mexia nas coisas da minha mãe. Fugia de casa. Minha mãe mandava eu, não tinha telefone, mandava eu ir ali dar um recado. Eu ia e não voltava. Ficava, tinha que alguém me buscar. Andava de cavalo, mexia, criava galinha, porco. Era uma vida bem diferente.
P/1 - O que a senhora mais gostava dessa vida?
R - Ah, o que eu gostava era... Andava de cavalo de pau, né? Meu pai fazia cavalo de pau e a gente andava.
P/1 - O que é cavalo de pau?
R - Cavalo de pau é uma vara, que você monta e sai pulando. Segurando, né?
P/1 - Essa era a diversão?
R - Era.
P/1 - E brincava com os irmãos?
R - Brincava. Era muito homem lá em casa, eram nove. Dez com meu pai.
P/1 - Eles deixavam você participar?
R - Deixava. Deixava porque senão eles apanhavam.
P/1 - Quem é que batia?
R - Eu.
P/1 - E os pais da senhora, como eles eram? Bravos, carinhosos?
R - A minha mãe era muito brava. O meu pai era bem carinhoso. Mas a minha mãe, ela pra me bater, não media. Ela batia em qualquer lugar. Porque eu também aprontava, né?
P/1 - E nesse primeiro momento da vida, vocês não iam pra escola, então?
R - Não.
P/1 - Era acordar…
R - E trabalhar. Fogão de lenha. Ia no mato buscar lenha, buscar água na cabeça, um pote.
P/1 - Tinha água encanada?
R - Não, não tinha nada disso, não. A gente ia buscar no rio, tinha poço pra... Tinha água de poço. Aí hoje em dia o povo fala: “Bebeu água de poço, água, e ficou doente”. Eu bebi a vida toda e vim ficar doente agora, com 80 anos. [risos]
P/1 - Como era a cidade?
R - A cidade, ela agora tá bem melhor, mas ela era bem pequena. Não tinha hospital, só tinha uma farmácia, não tinha colégio, a gente não podia estudar, não tinha colégio. E se tinha, era pros ricos. A gente que era pobre, não tinha nada.
P/1 - E tinha família além dos seus irmãos pai e mãe? Tinha avô, avó, primo, tio?
R - A minha família eu não tinha, eu não conheci ninguém da minha família, só o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos, não conheci ninguém. Eu falo pra meus filhos que eu não tinha família.
Não conheço nenhum primo, minha família era muito pequena, ainda era preto. O branco não se misturava com o preto, tinha medo de, né? O preto parece que tinha doença, né? Tinha feira, a gente ia na feira, ia fazer feira, comprava comida, arroz, feijão, farinha, era a nossa comida, né?
P/1 - Chegou a passar fome?
R - Muita, muita, muita, muita. Hoje eu vejo as crianças daqui, você bate pra elas comerem. Naquele tempo, a gente apanhava pra não comer. Tinha que dormir com fome. Várias vezes.
P/1 - Como é que a senhora lidava com isso? Na época chorava?
R - Não, chorar não chorava. Mas eu tinha fome, então eu pegava. Pegava as coisas que a minha mãe guardava. Eu e meus irmãos também. Minha mãe fazia feira. A feira lá era de domingo. Era cada oito dias. E não tinha mercado perto, não tinha nada. E mesmo se tivesse, a gente não podia ir. Porque você ia a pé. Era uma distância daqui pra Santos. Você ia a pé.
P/1 - Vocês comemoravam Natal, aniversário?
R - Comemorava Natal. Natal a gente ia na missa, minha mãe comprava roupinha nova pra gente e a gente arrumava os cabelos e a gente ia na missa e ali a gente comprava doce. Ela dava dinheiro pra gente. Era muito difícil.
P/1 - Mas era um dia importante do ano.
R - Era. Era o Natal e a Sexta-feira da Paixão. Eram os dois dias que a gente tinha de muita importância.
P/1 - Quando a senhora era menina, a senhora tinha algum sonho?
R - Ah, eu tinha vontade de ter boneca. E não tinha. Porque as bonecas eram de pano que a minha mãe fazia, pra gente. E nem pano pra fazer não tinha. Porque quando tinha pano era pra remendar as roupas da gente, né?
P/1 - Então a senhora não teve boneca?
R - Não. Hoje tenho uma caixa de Barbie.
P/1 - Ah, é?
R - Tenho.
P/1 - Depois de um tempo a senhora realizou o sonho?
R - É. Eu faço roupa ainda pra elas. Agora eu não faço mais porque eu não tenho mais paciência, mas eu fazia.
P/1 - Fazia a roupa pra bonequinha?
R - Faço. Tá ali a caixa. Aí eu fui pro hospital, acho que meu filho deu pra dançada. Algumas, né? Deu algumas. Esse dia eu olhei lá, porque agora eu não posso subir lá pra pegar a caixa. Ficou difícil porque tinha escada pra subir.
P/1 - E até quantos anos a senhora morou nessa casa onde a senhora nasceu e cresceu?
R - Até 18 anos.
P/1 - Foi bastante tempo.
R - Foi. Eu vim pra cá, ia fazer vinte anos, né?
P/1 - Então, como foi crescer nessa casa, virar uma adolescente, um jovem?
R - Agora, já nem tem mais essa casa. Porque derrubaram tudo, agora tudo lá é fazenda. Venderam tudo. É tudo fazenda.
P/1 - A fazenda foi comprada, a casinha?
R - Foi. E quem comprou, derrubou e fez... Plantou cana, né? Cana de açúcar.
P/1 - E como é que foi a adolescência da senhora? Como que a senhora foi enquanto jovem?
R - Aí eu fui trabalhar em casa de família, em Natal, no centro, e lá eu passeava muito, dava trabalho pra minha patroa porque fui sob o cuidado da minha mãe. Fui entregue pra ela lá e até meu irmão foi lá e aí eu vim pra cá, pra Cubatão.
P/1 - Tá, então, com quantos anos que a senhora foi trabalhar?
R - Eu fui, eu tinha uns 12 anos, 12, 13 anos.
P/1 - A senhora queria?
R - Não.
P/1 - Como é que foi isso? A sua mãe disse: “tem que trabalhar.”
R - A minha mãe arrumou essa casa de família pra mim trabalhar e eu fui. E ela ia lá no dia do pagamento buscar o dinheiro, o dinheiro do meu pagamento. Ela pegava a metade pra ela e a outra minha metade que ficava pra mim tinha que dividir com a minha irmã. Aí o meu que ficava comia tudo de doce. Comprava tudo de doce.
P/1 - Que doce?
R - Era cocada, pé de moleque, todos os doces que eu gosto.
P/1 - Esse era o dinheirinho?
R - Era o dinheirinho. Só dava pra mim comer doce. Devia ser pouco, né?
P/1 - E a senhora morava na casa da patroa?
R - Morava. Dormia e morava.
P/1 - E o que tinha que fazer?
R - Eu tinha que fazer tudo. Eu tinha que limpar a casa, eu tinha que cozinhar. Era fogão de lenha. E ter cuidado ainda pra não me queimar. Porque se queimasse, é o que elas recomendavam. Era uma panela de barro, eu tinha um banquinho pra subir, encostar no fogão, de tão pequena que eu era.
P/1 - Mas era uma casa grande?
R - Era bem grande.
P/1 - Tinha muito trabalho?
R - Tinha muito, muito trabalho. E ainda dormia lá, né?
P/1 - Como é que ela te tratava, sua patroa?
R - Bem mal. Me tratava bem mal.
P/1 - O que a senhora lembra?
R - Eu lembro que ela colocava comida para mim no prato e dizia: “Da panela você não pode pegar”. Eu só comia aquilo que ela me dava. E café da manhã era só pão, quando tinha, batata doce, inhame. Então era o café da manhã.
P/1 - E no final de semana?
R - No final de semana, nem sei, nem se comia, né? Porque era muito difícil. Era um pessoal muito... Bem ruinzinho.
P/1 - E era longe lá do sítio?
R - Era. Uma distância daqui e Cubatão. Daqui o centro, né?
P/1 - Então a senhora nem voltava pra passear na sua casa?
R - Não.
P/1 - Não tinha ninguém?
R - Não tinha ninguém.
P/1 - Ficava sozinha lá?
R - Ficava sozinha. Tinha as outras empregadas, as outras casas, que me levavam pra sair na recomendação da minha patroa, porque a ordem da minha mãe era pra não me deixar sair.
P/1 - E aí vocês iam passear aonde?
R - Ia passear nas praças. Era o que tinha. Ou cinema, quando tinha cinema, que ela me deixava ir ver Luiz Gonzaga. Ia pro cinema ver Luiz Gonzaga.
P/1 - E era uma vida diferente na cidade, não era?
R - Era. Bem diferente.
P/1 - A senhora gostava?
R - Gostava. Era criança, né?
P/1 - Quando a gente pensa hoje, era uma menininha, né?
R - Era bem pequena.
P/1 - A senhora pedia pra voltar, como que era?
R - Eu queria voltar pra minha casa, da minha mãe. Ela não deixava. Minha mãe também não deixava. Ela dizia que eu tinha que ficar lá. e tinha que obedecer e não podia responder e responder se a patroa falava e ela me batia e batia doído. Minha mãe me pegava pelos cabelos.
P/1 - E a senhora respondia ou não?
R - Não.
P/1 - Ficava quietinha?
R - Ficava quieta, apanhava quieta. Falava depois, pelas costas.
P/1 - Você tem alguma memória que marcou muito essa fase da vida?
R - De pequena? Tenho, mas tem assim, que eu tinha muita vontade de sair, de passear, e não podia, não tinha roupa também, a minha mãe pegava o meu dinheiro, levava todo, e o que ela me deixava, eu comia tudo de doce, comprava tudo de doce.
P/1 - Tinha vontade de ir para a escola?
R - Tinha, tinha muita vontade de ir para a escola.
P/1 - Tinha alguma coisa na casa dessa patroa que era diferente, assim, televisão?
R - Ah, tinha, tinha rádio, mas ela não me deixava ligar. Era a primeira coisa que ela falava pra mim: “Não liga o rádio, não põe a mão, porque se quebrar é muito dinheiro e eu não posso arrumar, não tem dinheiro pra comprar outro”
P/1 - E a senhora escutava música ou não?
R - Só escutava quando ela ligava.
P/1 - E aí quando é que chegou aos 18 anos que veio pra cá? Foi trabalhando, trabalhando?
R - Foi, o meu irmão foi pra lá. que ele arrumou uma namorada, aí foi pra casar, mas não casou. Aí quando ele voltou, ele me trouxe, e a minha mãe não queria deixar. E quando chegou aqui, eu fui trabalhar em casa de família, aí arrumei namorado, casei, engravidei do Patrique, casei, o Patrique já tem 50 anos, e depois veio o Plínio.
Aí depois a vida lá em Cubatão ficou muito difícil, a gente não podia pagar aluguel. Ele trabalhava em oficina - meu marido - trabalhava em oficina. Aí não tinha colégio para as crianças, não tinha creche, hoje o povo tem tudo, mas naquele tempo não tinha nada, não tinha uma creche. Mesmo se eu quisesse trabalhar, não tinha onde.
P/1 - Com quantos anos a senhora veio para São Paulo?
R - Eu vim com 18. E veio como?
P/1 - De ônibus?
R - De ônibus.
P/1 - Como é que você viaja?
R - Quinze dias.
P/1 - Quinze dias?
R - É. O ônibus parava pra gente ir tomar banho em hotel. E a gente descia e depois tinha que empurrar. Os homens tinham que empurrar o ônibus pra poder pegar.
P/1 - E a senhora queria chegar em São Paulo?
R - Queria. Chegar em Cubatão.
P/1 - E veio com teu irmão?
R - Vim com meu irmão. Meu irmão era solteiro, mas já tinha um casado aqui que tinha filhos pequenos, né? Tinha duas meninas na época e eu vim com eles.
P/1 - Qual era o objetivo, a ideia da senhora, vir pra trabalhar?
R - A ideia era trabalhar e estudar. Mas daí foi muito difícil pra mim, porque aí eu cheguei aqui, já namorei, já peguei barriga, aí foi muito difícil.
P/1 - Não foi aqui na Vila Esperança, foi em Cubatão?
R - Foi em Cubatão, mas primeiro trabalhei em São Paulo, lá na Vila Mariana.
P/1 - Na casa de alguém?
R - Na casa de alguém.
P/1 - Por quanto tempo?
R - 10 anos.
P/1 - A senhora ficou 10 anos em São Paulo?
R - Fiquei 10 anos. Mas eu vinha porque daí eu vinha pra praia. Eu vinha muito aqui em Cubatão. Eu descia a serra. Ainda era a estrada velha, que era muito perigosa aquilo ali. E eu lembro pouca coisa aqui em Cubatão. Não tinha cinema, não tinha nada. Agora Cubatão cresceu muito. E pra ir pra Vila Esperança foi... Não foi porque eu quis. Foi uma necessidade.
P/1 - Tá, deixa eu entender sua ordem. Então, primeiro, a senhora chegou lá na Vila Mariana.
R - Foi.
P/1 - Ficou 10 anos lá?
R - É.
P/1 - E onde a senhora conheceu o seu marido?
R - Conheci aqui.
P/1 - Quando vinha passear?
R - É.
P/1 - Que aí vinha buscar o irmão?
R - É.
P/1 - Quem era o marido?
R - Ah, o marido era... Eu vou dizer assim... Não vou dizer que era safado, porque eu fiquei tantos anos com ele, fiquei 50 anos. Ele morreu agora, fez um ano, e nós ficamos 50 anos. Fizemos o casamento. Ficamos 50 anos juntos.
P/1 - Quem era ele? O nome dele?
R - Era Hélio Augusto Figueiredo Filho.
P/1 - Como é que ele era conhecido?
R - Tigrão.
P/1 - Então a senhora conheceu o Tigrão quando?
R - Conheci no baile Guimarães, que nem tem mais.
P/1 - E conta aí o dia que você conheceu o Tigrão.
R - Ah, ele era muito bonito. Ele era muito bonito e eu muito assanhada. [risos] Aí fui no bairro e conheci ele lá e aí a gente já namorou, já juntou, foi muito difícil porque ninguém tinha dinheiro, ele não tinha emprego fixo e eu não tinha nada também. Juntando um sem nada, outro sem… E ficamos juntos até o ano passado.
P/1 - Então a senhora namorou à distância por mais tempo? Ficava morando em São Paulo e vinha visitar ele aqui?
R - É, ou ele ia lá, cada fim de semana.
P/1 - Se apaixonou?
R - É. Um fim de semana era pra mim, outro era pra ele.
P/1 - E ele trabalhava com o quê?
R - Ele era mecânico, funileiro. Trabalhava em oficina, né?
P/1 - E ele morava em Cubatão?
R - Ele morava. Ele era de Ourinhos, mas morava em Cubatão.
P/1 - E aí, com quanto tempo de namoro que a senhora engravidou?
R - Olha, eu acho que um mês.
P/1 - Foi rápido.
R - É.
P/1 - Ele foi seu primeiro namorado?
R - Não, tive outro.
P/1 - Mas foi bem rápido que engravidou.
R - Foi.
P/1 - E aí ficou grávida morando lá?
R - Morando lá, na casa de patroas. Meus patrões era alemão, eram judeus... [intervenção]
P/1 - Então a gente estava falando dos chefes da senhora, dos patrões, que eram alemães, né?
R - É, judeus, né? E quando eu fiquei grávida do Patrique, a minha patroa falou pra mim, você vai ganhar essa criança, você vai me dar. Ou você me dá ou você vai embora. Porque você não vai poder criar. E como eu trabalhava de babá, tomava conta de 3 crianças lá, Então, ela achou que eu só podia cuidar dos dela. O meu, eu não podia. Então, eu peguei e falei pra ela: “Então, vou embora”.
Mas ir embora pra onde? Fazer o quê? Se eu não tinha casa… eu morava na casa do meu irmão, dependia do meu irmão, né? Quando eu vinha pra cá, da minha cunhada, que já tinha um monte de filhos também, né? E eu queria vir com mais 1 (filho). E aí eu fui embora e fiquei, a minha mãe já estava aí, a minha mãe já tinha vindo, mas eu que pagava o aluguel pra ela, com o dinheiro que eu ganhava lá. Aí foi muito difícil.
P/1 - A senhora voltou com ele já nascido?
R - Não, ele nasceu aqui. Voltou na barriga com sete meses.
P/1 - E aí foi pra casa do irmão?
R - Fui pra casa do meu irmão e junto com a minha mãe. E a minha mãe morava lá no quartinho do lado. E a minha cunhada já tinha um monte de filhos. Uma criançada, tinha acho que quatro ou cinco. E eu fiquei lá. Aí foi quando o Patrique nasceu, aí eu falei pro meu marido. “A gente vai ter que arrumar um canto, né?” Porque não dava pra ficar lá. E aí foi difícil. A gente veio parar aqui na Vila Esperança. Foi assim que eu cheguei aqui. E aqui na vila não tinha água, não tinha luz, não tinha ônibus, não tinha escola, não tinha nada. Já tinha 22.
P/1 - O ano em que chegou na Vila Esperança, a senhora lembra?
R - Eu lembro que foi em 78, eu acho. Porque o Patrique tava, tinha começado a andar, tava andando. Ele lembra quando veio pra cá. Aí eu já tinha o Plínio também, né?
P/1 - A senhora já conhecia a Vila Esperança?
R - Não.
P/1 - Quem contou da Vila Esperança?
R - O marido.
P/1 - Ele conhecia?
R - Ele conhecia. Ele conhecia tudo isso aqui, né?
P/1 - E aí como é que foi a sua primeira impressão chegando aqui?
R - Ele falou: “Eu arrumei um lugar pra gente ir embora, que não vai pagar aluguel. Vou comprar um barraco”. E aí ele veio, viu o lugar, que era aqui, e aí a gente veio, comprou o barraco, tudo. Comprou o barraco e veio embora pra cá. [intervenção]
P/1 - E quando a senhora viu o barraco, como ele era?
R - Olha, nem barraco tinha, a gente... Arrumava o barraco… Foi no tempo do Nei Serra (Prefeito de Cubatão de 1989 a 1992 / 1997 a 2000 e 2001 a 2004), acho que foi o primeiro prefeito eleito aqui. O Nei Serra e o Passarelli (José Oswaldo Passarelli) foi prefeito de Cubatão de 1982 a 1985 / 1986 a 1988 e 1993 a 1996. A gente levantava o barraco à noite e de manhã a polícia vinha e derrubava. Derrubava e ainda levava madeira, deixava não.
P/1 - E aí?
R - E aí a gente tinha que comprar outra. Foi muito difícil. Ia buscar água na biquinha. Ia buscar água lá na biquinha, na cabeça. Tinha que ter lata ou alguma coisa pra gente ir buscar. E ônibus, a gente ia pra Cubatão dia de sábado, que era a feira. Ia pro centro, ia de ônibus. E pra voltar, ou voltava a pé ou dava volta pro São Vicente.
P/1 - E o barraco era aqui onde a gente tá ou era em outro lugar?
R - Era aqui atrás. Ainda tem, tá de pé ainda. Foi derrubado várias vezes, todo dia levantava o barraco à noite, aí de manhã o Passarelli mandava derrubar. Era cheio de fiscal aqui na Vila. Agora que precisa de polícia, não tem tanta, mas naquele tempo tinha. Porque naquele tempo você não tinha negócio de assalto, você não via ninguém fumando droga, né?
Ou tinha... Era uma máquina, era um trem só que tinha, e acho que era uma máquina só que passava, 1 ou 2. Passava aqui uma vez por dia ou um dia sim, dia não.
As crianças, quando andavam, brincavam na linha, o Patrique mesmo brincou muito aí na linha. Brincava de... Estilingue, né? Ontem mesmo eu estava conversando com outros… carrinhos de rolimã que o pai dele fazia para eles. Não tinha perigo nenhum, mas cresceu muito isso aqui.
P/1 - Tinha outros vizinhos, outros moradores quando a senhora chegou?
R - Tinha mais um, tinha um chiqueiro de porco que era ali em cima, tinha outro que era aqui, era o mesmo dono, mas tudo tinha gente olhando. E tinha um motel Selvagem que era ali do outro lado. Nem tinha ainda um motel. Fizeram depois. Já estava aqui quando fizeram.
P/1 - Então a senhora foi uma das primeiras moradoras?
R - Fui. Uma das primeiras. Não tinha colégio, não tinha parquinho, não tinha pronto-socorro. Nem em Cubatão não tinha.
P/1 - Como que era vir para um bairro que ainda não tinha nada?
R - Não tinha nada.
P/1 - Tinha medo?
R - Tinha. Eu não dormia à noite porque às vezes o meu marido trabalhava à noite porque ele trabalhou muito tempo na DERSA e ele trabalhava de motorista, quando ele trabalhava à noite, eu não dormia, porque eu ficava com medo, que não tinha ninguém. Só tinha a linha do trem, uma só, e pequena, nem sei onde começava, nem onde terminava, porque a gente não andava, né?
Era assim, muito difícil, passava... ônibus não tinha, depois só que colocaram um ônibus. O ônibus vinha, ele parava aqui, onde a gente mandava, a gente pedia: “para aqui!”, ele parava.
Também era muito pouca gente, colégio não tinha, o Patrique mesmo foi estudar em Cubatão, no Lincoln. Em Cubatão só tinha o Lincoln, tinha o Lincoln e o Lorena, que fizeram depois, mesmo assim foi difícil para colocar ele
P/1 - Eram só vocês três no barraco? Você, o Tigrão e o Patrique?
R - E o Plínio, que nasceu... O Plínio veio pra cá com um mês.
P/1 - Seu filho também?
R - É.
P/1 - Então a senhora teve dois filhos, um em seguida?
R - Só. O Patrique tem um ano e meio, mais do que o outro.
P/1 - O outro chama?
R - Plínio.
P/1 - Então eram dois menininhos?
R - Dois meninos.
P/1 - E a senhora ficava sozinha com eles?
R - Ficava.
P/1 - Não tinha pra quem pedir ajuda?
R - Não, não tinha vizinho. Ninguém. Tinha nem com quem deixar. Se eu fosse sair, tinha que levar.
P/1 - E onde que a senhora ia comprar comida?
R - No centro. Ainda ia daí a pé. Levando um no colo e outro montado.
P/1 - E a mãe da senhora, a família, não veio?
R - Não. Minha família, minha mãe, minha cunhada, moravam lá. Lá em Cubatão.
P/1 - E por que a senhora escolheu, então, continuar por aqui? Por que fazia sentido?
R - Porque não tinha dinheiro. Não tinha dinheiro pra pagar aluguel, não tinha luz.
P/1 - E aí vocês ficavam sem energia elétrica?
R - Ficamos muito tempo. Não tinha televisão. Nem a gente podia comprar naquela época. Hoje os meninos têm televisão, têm computador, têm...
P/1 - E geladeira?
R - Geladeira, nem pense. Não tinha geladeira.
P/1 - E os fiscais, eles levavam o barraco, mas ameaçavam vocês de alguma coisa, tiravam vocês também?
R - Apontava o dedo. Dizia: “Não se meta em fazer outro. Se fizer, eu vou prender”. Mas daí teve a eleição, o meu marido trabalhou pro Passarelli e pro Ney Serra, que foram os dois que concorreram. Foi uma eleição naquele tempo, tinha de governador. Não sei nem quem era o governador na época. Saber eu sei, mas não lembro… [intervenção]
P/1 - Então, o Tigrão estava trabalhando com eles, e daí?
R - Daí o Ney Serra, prometeu, se fosse eleito, que ele ia colocar um ônibus, e colocou um ônibus, um só. Esse ônibus levava o povo para trabalhar, agora todo mundo tem van, tem van aqui, tem uva, tem tudo, e colocou água…
P/1 - Isso mais pra agora, né?
R - É. Foi há uns 15 anos, 20 anos atrás. Os meninos eram pequenos ainda. O Patrique já tem 50, né?
P/1 - Eu tô muito curiosa imaginando qual foi a sensação da senhora quando chegou aqui, na Vila Esperança. O que a senhora me descreve? O que a senhora lembra?
R - Porque lá, o lugar onde eu morei, no norte, não era nada mais bonito do que aqui. Tinha uma coisa, que lá a gente conhecia todo mundo. Aqui não conhecia ninguém. Porque também não tinha ninguém. Como que eu ia conhecer alguém se não tinha ninguém? E lá era mais divertido, porque tinha cavalo, a gente andava de cavalo. A gente ia pra roça, e aqui não tinha nada disso. Eu ia buscar água na cabeça. Eu tô esquecendo.
P/1 - Mas qual que era a sensação? O que a senhora sentiu chegando aqui?
R - Gostei porque eu ia ter uma casa e não ia pagar aluguel. O negócio era não pagar aluguel. Porque lá em Cubatão, a gente também morava de aluguel e não tinha dinheiro. Chegava o dia de pagar o aluguel, tinha que estar contando história pra dona da casa. E era aquilo. Mudava de casa a cada dois meses, cada três meses, porque não tinha dinheiro. O dinheiro que o meu marido ganhava era muito pouco.
P/1 - Então dava um certo alívio não pagar o aluguel, né?
R- É.
P/1 - E aí a senhora começou a trabalhar ou tinha que cuidar dos meninos?
R - Tinha que cuidar dos meninos, depois que eu comecei a trabalhar. Porque também aqui não tinha creche, não tinha nada. A primeira creche de Cubatão, o Patrique e o Plínio inauguraram.
P/1 - Da Vila Esperança?
R - Não, de Cubatão. De Cubatão. Porque aqui não tinha. Aqui na vila não tinha nada. Não tinha colégio, hoje tem colégio, hoje tem tudo. Não tinha nem o Elza, que foi o primeiro colégio daqui.
P/1 - Já tinha as casinhas da palafita quando a senhora chegou ou não?
R - Não, não tinha nada. Quando eu cheguei aqui, logo depois veio o Zumbi, a mãe do Zumbi, com eles pequenos também. E o Miúdo que veio sozinho. Ele tinha o Paulinho, mas o Paulinho não veio. A mulher dele não veio pra cá. Ninguém queria vir pra cá. Quem vinha, né? Só eu que era doida.
P/1 - Já tinha esse nome de Vila Esperança?
R - Não, teve vários nomes. E aí um dizia, vamos botar o nome de tal… não tinha Vila Esperança. Não tinha Vila Esperança, não tinha Sítio Novo, não tinha nada. O Sítio Novo... Nós que invadimos, eu, o Plínio, que era o mais levado, o Patrique, que já era maiorzinho, o meu marido… A gente que inaugurou o Sítio Novo.
Porque os guardas que trabalhavam lá, a gente tinha um forró aqui, aqui onde é a igreja, que até hoje ainda é meu esse local, a gente tinha um forró aqui, era a única coisa... Isso (foi) depois que veio a água, que veio a luz, né? Não foi logo no começo, não. Veio a água, veio a luz, aí meu marido era muito jeitoso de coisa, aí falou: “vamos montar um forró”. Aí montou um forró aí.
P/1 - O forró era de vocês?
R - Era.
P/1 - E já tinha gente pra curtir o forró?
R - Não tinha, mas vinha. Vinha gente de tudo que era lugar. Tudo que era lugar aparecia gente. Vinha um carro de polícia e ficava aqui na porta.
P/1 - E quem é que deu o nome de Vida e Esperança, então?
R - Olha, a pessoa que deu o nome já nem tá mais viva, nem tá mais aqui. Já morreu. Morreu muita gente aqui.
P/1 - E você sabe o porquê de Vila Esperança? Qual foi a escolha?
R - Foi por causa do... Não, não sei. Não sei.
P/1 - Teve votação?
R - Não. Teve nada.
P/1 - Alguém disse: “Essa vila chama Vila Esperança”?
R - É. E aí o meu marido, que era um dos mais velhos, e o outro, seu Geraldo, dona Elza, que morava aí na esquina, e o pai da menina que mora aqui, da Ana, que mora aqui. A Ana era pequena, né? Falaram: “tá bom, Vila Esperança”, né? E ficou Vila Esperança.
Aí depois veio Vila Natal, aí a Vila Natal, o povo lá já colocou o nome. A gente ganhou terreno pra ir lá pra Vila Natal, mas eu não quis ir, porque daí eu já tava acostumada que aqui já tinha mais gente, né? Eu não quis ir pra lá, mas ganhamos terreno pra ir pra Vila Natal.
P/1 - Quando a senhora chegou foi invasão também, né?
R - Foi invasão. [intervenção]
P/1 - Então, quando a senhora chegou na Vila Esperança, foi uma invasão nesse primeiro momento?
R - Foi. Invasão. Mas eu vou falar assim, não tinha... Era pra... Se tivesse deixado a gente fazer, porque daí não tinha padaria, não tinha nada. O Miúdo que apareceu aqui com fusca, ele ia lá, comprava o pão e vendia pra gente. Daí a gente deu, como a gente mandava aqui em tudo, deu lugar pra ele fazer um barraquinho ali. Ele fez, hoje em dia é adega. E o Zumbi veio depois.
P/1 - A mãe do Zumbi?
R - A mãe do Zumbi. O Zumbi pequeno, as crianças, ela tinha um monte de criança, tudo pequena.
P/1 - E as pessoas iam chegando e vinham se apresentar, pediam pra morar, como é que era?
R - Iam chegando e iam levantando o barraco. Mas só aqui na frente. Era só aqui na frente. Lá pra trás ninguém tinha coragem de ir. Ali onde o Miúdo mora, ninguém tinha coragem. Onde o Miúdo morou, né? Porque o Miúdo já morreu, né?
P/1 - Por que ninguém tinha coragem?
R - Porque era mangue. Nós invadimos mangue. Até aqui era tudo mangue. Mangue. Tudo mangue. Tinha a linha do trem, que era uma estradinha de pedra. Descia carro aqui.
P/1 - Como é que construiu em cima do mangue?
R - Botava estaca, madeira e fazia o barraco em cima.
P/1 - E não enchia quando chovia?
R - Enchia. Até hoje ainda enche.
P/1 - Você conta desses perrengues todos?
R - Até hoje, ainda enche. Tem vezes que a água vem parar aqui, porque a água ninguém segura, né? Tem vezes que, quando enche, vem parar aqui, bem aqui mesmo. Semana passada eu tava aqui, o Patrique ainda falou pra mim: “Mãe, o beco encheu”. Aí eu falei: “Deixa cheio, deixa quieto, não vai lá não”. Mas ainda enche, mas nós aterramos. Foi muito aterro que foi aqui. E o prefeito mandava os caminhões tirar o aterro e no outro dia a gente arrumava o aterro e colocava. Tinha que ser tudo feito às pressas e à noite. Porque durante o dia ninguém fazia.
P/1 - E o Tigrão conseguia trabalhar por aqui na Vila Esperança?
R - É, ele não, porque ele trabalhou aqui, ele montou oficina depois que a gente ficou arrumado aqui, né? Ele montou uma oficina grande, vinha carro pra ele fazer aqui. Aí, descia por aqui, aí depois um dia fecharam.
Fecharam aqui e fecharam lá. Aí ele ficou preso aqui dentro, não podia tirar os carros, porque fecharam lá debaixo do viaduto, né? E não tinha saída por aqui não, pra ir lá pra cima a gente saia por aqui, os carros saiam por aqui.
P/1 - Dona Cícera , se a senhora foi vendo todo mundo chegando então?
R - Foi. A gente puxou mangueira lá de cima pra vir água pra aqui. E um dia eu fui lá roubar o povo que ia chegando, roubava as mangueiras. E um dia eu fui pra arrumar as mangueiras, aí um homem tentou me agarrar lá em cima. Porque eu tava sozinha lá na pista. E mesmo assim, meu marido ainda quis me bater. Falou: “Você tava de short, se você tivesse de roupa” Como se outra roupa não fosse roupa. Foi muito difícil.
P/1 - O pessoal ia chegando de onde? De onde vinha esse povo todo que mora aqui hoje?
R - Olha, veio gente de todo lugar. De todo lugar. Até do estrangeiro acho que veio. Porque quando cresceu aqui, quando o Miúdo chegou, que botou o bar lá, que vendia tudo, que o Miúdo foi o primeiro a colocar o bar, que vendia ovo, vendia farinha, vendia feijão, vendia cachaça. Aí o povo começou a vir.
P/1 - E foi fazendo amizade?
R - Ia fazendo amizade. Era muita amizade e não tinha briga. Depois que veio esse negócio de... Começou, né?
P/1 - Então, nos primeiros anos…
R - Foi tranquilo.
P/1 - E quando é que encheu de gente?
R - Depois que veio o ônibus e a luz.
P/1 - Quanto tempo depois, será?
R - Eu acho que a luz já veio... Acho que o Patrique já tinha uns 10 anos.
P/1 - A senhora passou uns 10 anos morando na Vila Esperança sem luz?
R - Sem luz e sem água. Eles iam buscar, a gente ia buscar, buscar água. Aí tinha uma mulher ali em cima que tinha a luz, ela emprestava pra gente. Durante a noite, ela ligava. Durante o dia, amanhecia o dia, ela já desligava. Porque era dela, né? Só ela tinha. E ela veio pra cá porque o barraco dela lá em Cubatão pegou fogo. Teve um incêndio. E aí fizeram o barraco pra ela aqui. Quando a gente chegou aqui, ela já tava.
P/1 - Como ela chama?
R - Era Esmeralda. Já morreu.
P/1 - Dona Esmeralda foi uma das primeiras pessoas…
R - Foi a primeira pessoa.
P/1 - Ela foi boa?
R - Foi. Era boa vizinha.
P/1 - A senhora pensava em ir embora daqui?
R - Muito. Mas pra onde que eu ia? Não tinha dinheiro pra comprar nada, né? Tinha muita vontade.
P/1 - Se fosse embora, ia pra onde?
R - Ah, eu tinha vontade de ir lá pro centro. A minha cunhada morava lá, o meu irmão, dois irmãos, né?
P/1 - Mas lá eles moravam em comunidade, né?
R - Não. Agora eles já compraram casa, já tem. Um mora no Costa Silva e o outro faleceu.
P/1 - E quando a família da senhora vinha visitar, como que era?
R - Era festa. Quando vinha aqui, aí o meu marido, ele sempre falava pra mim: “O povo só vem em tempo de festa”. Ele criou um boi, matou um boizinho e aqui, aí fez churrasco.
P/1 - Tinha muita festa aqui?
R - Tinha. Aqui em casa tinha.
P/1 - E a senhora me falou que pegou carona com o trem. Quando?
R - É que o trem vinha, aí parou. E aí os meninos começaram a gritar, o trem parou. E naquele tempo eram só. E aí eu, curiosa, fui subir. E quando eu subi, o trem foi embora. Aí os meninos saíram de bicicleta, o Plínio, que era o danado, atrás, gritando. E foi até o viaduto, então chegou lá no viaduto, lá na frente, já chegando em Cubatão. E gritando: “Mãe desce, mãe desce”, e eu não tinha coragem de descer.
P/1 - Mas tava em cima do vagão?
R - Não, eu fui ali no meio. Eu tive coragem de subir, mas pra descer eu não tinha.
P/1 - E desceu lá também?
R - Desci. Desci e os meninos me trouxe de bicicleta.
P/1 - Que aventura! Me conta das memórias que a senhora tem desse primeiro momento da Vila Esperança, desse pedaço do começo. O que que marcou na memória da senhora?
R - Olha, o que me marcou foi um fim de semana que teve muita... A pista aqui só era uma mão, só ia. Só tinha uma mão só. O que me marcou foi um fim de semana que teve 3 mortes de atropelamento. Primeiro foi uma criança, no domingo foi uma criança, porque as mães iam pra pista pra vender cocada, no domingo, e na segunda-feira, foi dois irmãos que tinham acabado de chegar do norte e desceram do ônibus e foram atravessar a pista, e o carro pegou os dois.
Aí no outro dia a gente fechou a pista, que era uma só, pra pedir pra que fizessem outra mão. E o Miúdo tomou a frente, o Zumbi que já tava aqui, né? Aí tomaram a frente o Tigrão e nós ficamos na pista com cartaz e com tudo, fechamos a pista e aí os povo da pista veio e prometeu que ia fazer outra mão e fizeram. Pra evitar o atropelamento, né? E a gente tinha que atravessar, mas não tinha nem esse viaduto aí, foi depois que fizeram.
P/1 - Não tinha acidente com o trem?
R - Com o trem, nessa época nunca teve. O povo era mais cuidadoso. Agora já teve. Agora já teve bastante. Depois que tá essas duas mãos aí, já teve bastante. Depois que fizeram as duas linhas. Mas é que o povo naquela época era uma linha só. Mas aí tinha cuidado também. Não tinha tanto trem, né? Um ia, outro voltava, né?
P/1 - E outros acidentes aqui dentro da Vila Esperança? Tinha enchente, tinha incêndio?
R - Ah, já teve muito incêndio, mas isso já é agora. De dois, três anos pra cá, teve incêndio, uns três incêndios. Mas assim, morreu gente em incêndio aqui nunca teve, não.
P/1 - E enchente?
R - Enchente teve. Enchente teve bastante. Aqui na vila teve um enchente que arrancou até a linha de tão forte que foi.
P/1 - A senhora perdeu alguma coisa?
R - Eu não. Não faz muito tempo isso. Faz uns cinco anos atrás. Não faz muito tempo que teve esse enchente.
P/1 - Tem problemas de saúde, às vezes, por conta de esgoto?
R - Olha, problema de saúde, agora tem o postinho, eu falo que é remédio de farinha, né? Porque passou na televisão, aí como eu pego, aí eu falo pro Patrique: “vai buscar lá meu remédio de farinha”, [risos] né? É o Patrique que vai buscar pra mim, meu marido usou muito remédio do ostinho, porque ele ficou 6 anos e meio doente, né? A fralda, né? E quando você chama a ambulância, vem, né? Vem e leva. Agora todo mundo tem carro, né? Aí o povo dá carona e tem o ônibus que passa aí, agora tem ônibus pra todo lugar, né? Tem a empresa, né?
P/1 - Mas demorou, pra isso acontecer? Teve um tempo da vida de vocês aqui que não tinha, né?
R - Não tinha durante muitos anos. O Patrique mesmo, ele ia pra escola, pegava o ônibus que vinha do Parque das Bandeiras. Eu empurrava ele lá dentro. Ele ia por... Teve uma vez que ele foi pro Lincoln e chegou lá, não conseguiu descer. Foi até Cosipa e voltou. Aí voltou, descia ali do outro lado da pista. E não tinha.
P/1 - O Tigrão, ele era bem envolvido com o pessoal daqui?
R - Era. Aquele era. [risos] Era bem envolvido. Era bem... Bem querido, nunca teve briga, não. Pelo contrário, ele separava, né? Quando os homens batiam nas mulheres, ele ia lá, conversava, separava, né? Era bem envolvido, ainda tinha oficina, né? Depois ainda botou forró, né? E danou-se tudo.[risos]
P/1 - E vocês que movimentavam as manifestações? Vocês que faziam esse movimento?
R - Era. Eu e os meninos, a gente participava de tudo. Porque ele sempre trabalhava, então não dava tempo de ir. Às vezes ele chegava, a manifestação estava acontecendo. Aí ele dizia assim: “Já tá metida, né? Faz a campanha do bom vizinho”. Mas eu sempre fazia do mal. Sempre fazia a campanha do mal vizinho. Mas do bom era difícil, né?
P/1 - Como assim?
R - É porque ele não gostava que a gente se metesse em briga. E, geralmente, o Patrique nunca foi brigar. Agora o Plínio arrumava briga em tudo que era...
P/1 - O Plínio arrumava briga?
R - Arrumava. Ia pro campo, brigava. Aí o Patrique tinha time, time de futebol, que era aqui na Adega. E o Patrique dizia: “Mãe, não deixa o Plinio ir, porque o Plinio vai pra lá e só arruma confusão”. O Plínio era briguento.
P/1 - E aí, a senhora deixava ou não deixava?
R - Eu falava, mas não adiantava, ele já estava grande, né, já estava... Como.
P/1 - É que foi criar dois meninos aqui na Vila Esperança?
R - No começo foi muito difícil, porque não tinha condução, não tinha nada, não tinha escola, mas depois que veio a escola, veio as coisas pra cá, melhorou. Foi melhorando, até que tá no ponto que tá. Mas graças ao Miúdo. O Miúdo que ajudou muito a desenvolver essa vila. O Miúdo é...
P/1 - Dona Cissa, a senhora chegou aqui e tinha três pessoas, hoje tem 35 mil. É muita gente.
R - Tinha nem três, né? Nem três. Porque depois de mim veio o Miúdo. Depois veio a Dona Elza, que mora aqui no ponto de ônibus. E depois veio o outro povo.
P/1 - E como é que foi receber tanta gente assim, ao mesmo tempo?
R - O povo vinha. Vinha e fazia um barraco, dizia assim: “Vamos fazer um barraco”. Falava com o Tigrão e dizia: “Tem lugar pra fazer um barraco?” E fazia.
P/1 - E era tudo invasão?
R - Era. E tudo que está aqui foi invasão. Ninguém tem nada aqui. A Vila Natal já tem. Da Vila Natal pra lá, porque agora ainda não fizeram os trem, né? Mas passou pra Vila Esperança, ninguém tem um documento de nada. Nosso documento aqui é água e da luz. E assim mesmo, meu relógio já levaram. Porque eu não paguei, né?
P/1 - Mas as casas, os terrenos, ninguém tem papel?
R - Ninguém tem nada. Ninguém tem papel nenhum. Às vezes, as pessoas vendem, mas não tem documento nenhum. É água, o documento daqui é água e luz.
P/1 - Mas a gente vê o pessoal alugando, vendendo, não é?
R - É. Aluga. Até eu alugo. Aqui tá alugado o meu barracão. É igreja, né?
P/1 - E depois que constrói, aluga?
R - É. Só que aqui o barracão já tem muitos anos de construído. Mais velho do que essa casa aqui.
P/1 - A senhora nunca teve medo que mandassem vocês embora, já que não tinha documento?
R - Já. Quando fizeram a Vila Natal e deram o terreno pra nós, eu não quis ir. Falaram que se eu não fosse, iam tirar a gente daqui e não iam deixar fazer mais. Só que a gente já estava acostumada a fazer barraco aqui. Depois que veio o prefeito eleito, foi que deixaram a gente quieto. Mas depois que veio quem foi prefeito Nei Serra. Primeiro era Nei Serra e Passarelli. Passarelli que era o cão. No tempo do Passareli ninguém sossegava aqui.
P/1 - Perturbavam vocês?
R - Perturbavam. Vinha polícia tudo pra derrubar barracos. E aí se não deixassem derrubar, né?
P/1 - Tinha briga?
R - Tinha, com a polícia tinha. Apontavam uma arma pra gente se a gente se meteu, o caminhão vinha, e derrubavam e levavam material, madeira, tudo.
P/2 - Mas teve alguma história que a senhora lembra disso? Teve algum dia que te marcou nessa coisa?
R - Teve um dia que a polícia apontou a arma pro Tigrão, pro meu marido e os meninos ali em volta. Aí o Miúdo chegou, aí falou assim: “Como que vocês vão apontar arma pro pai de família com duas crianças?” Aí falaram: “Mas ele tá fazendo errado, sabe que não pode”
P/1 - Não tinha pra quem pedir ajuda?
R - Não tinha. Não tinha não, porque era o prefeito que mandava.
P/2 - E como é que resolveram isso?
R - Resolveram depois que... Eles saíram. Saiu Ney Serra, saiu Passarelli, mudou o presidente. O Lula veio aqui quando os meninos ainda eram pequenos.
P/1 - Veio fazer o que?
R - Ele não era nem candidato. Ele veio aqui porque ele queria se candidatar e queria voto.
P/2 - A senhora viu ele? Lembra do dia que ele estava aqui?
R - Vi. Veio na Vila Parisi e veio aqui na Vila Esperança.
P/1 - Já conhecia ele?
R - Não.
P/1 - Mas sabia que ele existia? Sabia da existência dele?
R - Não. Sabia que ele não tinha um dedo. Isso daí eu sabia porque o Miúdo falava pra gente. Ele era do ABC. O Miúdo falava pra gente. O Miúdo tinha tudo. O Miúdo tinha escritório, tinha tudo.
P/1 - Onde vocês achavam madeira pra fazer o barraco que eles levavam?
R - Ah, comprava. Tinha a casa do material pro centro, né?
P/1 - Então tinha que fazer de um minuto pro outro, tinha que fazer pra poder dormir.
R - Era. A noite que a gente fazia. E ainda teve uma vez que teve um vento que derrubou tudo, nós fomos para debaixo dos viadutos. Tinham as cinco famílias na época aqui. Fomos dormir tudo ali debaixo.
P/1 - Com duas crianças, né?
R - Com duas crianças. Eu tinha duas e a minha vizinha aqui tinha acho que cinco. Depois tinha a mãe do Zumbi que tinha mais um bocado. Fomos tudo para debaixo dos viadutos.
P/1 - E a senhora começou a trabalhar, dona Cícera, por aqui?
R - É, trabalhei, fui trabalhar de doméstica, aí melhorou a situação. Aí a gente comprou. Aí deixaram. Deixaram ou não? Porque nunca deixaram a gente fazer. Aí a gente conseguiu fazer de bloco a casinha que tem aqui atrás. E já tinha o barracão. O barracão era madeira. Depois que a gente conseguiu melhorar. Aí já tinha água, já tinha luz. Já tinha escola, escola para os meninos.
P/1 - E o perigo, como é que foi desenvolvendo?
R - O perigo sempre foi grande. Depois que a gente cresceu aqui, chegava domingo, tinha muita briga. Porque o povo bebia e ficava aqui mesmo, porque aqui era pequeno. Tinha um bar ali… Aqui pro morro não tinha... Era um caminhozinho bem pequeno, não passava nem um carro. Passava uma bicicleta. Porque era um morro que vinha parar ali onde ia o colégio. Tudo aquilo ali era um morro. O povo foi derrubando, fazendo casa, fazendo barraco. Mas não tinha nem caminho. Não subia nada. Se fosse uma moto, não passava. Era uma bicicleta e quando fosse uma pela outra ainda não passava.
P/1 - E aí tinha briga?
R - Tinha. Muita briga. Muita briga. Briga de matarem gente, morreu gente aqui. Todo domingo, fim de semana, tinha muita briga.
P/1 - E vocês conversavam para tentar ajudar?
R - Conversava, falava, mas aí as pessoas diziam: “Não vou fazer mais”. E escondia a gente, escondia os… Era Tigrão. Mas tinha e o Miúdo estava sempre junto para apaziguar. O Miúdo foi um grandioso pai aqui. Pena que morreu cedo, né?
P/1 - A senhora falou que morreu muita gente. Eles morriam das brigas?
R - Morriam.
P/1 - Por que um brigava com o outro e atirava?
R - É. Atirava ou matava de pau. O trem mesmo foi quem menos matou aqui. O povo fala do trem, mas foi quem menos matou. Aqui foi o trem. Porque o trem o pessoal não tem cuidado. Não vai, né? Mas briga tinha muita.
P/1 - E aí quem é que botava ordem nisso tudo?
R - O Miúdo e o Tigrão.
P/1 - O Tigrão também?
R - Também.
P/2 - Mas teve alguma história que a senhora lembra? Uma que te marcou mais? Dessa época que a senhora vai contar pra gente?
R - Teve. Teve muitas. Teve uma, era uma sexta-feira da paixão. Teve uma briga aí de dois vizinhos. Que um matou o outro. E eram com o padre, ainda. E a gente teve que esconder. Teve que esconder um. Porque um morreu e o outro a gente teve que esconder.
P/1 - Estava vivo?
R - Estava vivo. Teve que esconder, teve que tirar daqui. E depois a família veio e matou. Matou dentro de uns dois meses, três meses por aí. A família veio e matou o outro. E era tudo nosso conhecido. Foi uma tristeza só, né?
P/1 - A família da primeira vítima matou?
R - Matou. Matou do outro.
P/1 - Imagino a tristeza.
R - É. E tudo isso aí, o Miúdo mesmo, ele era assim, tudo que eu pedia pra ele, ele fazia. Eu trabalhei junto com ele, fiz campanha pra ele quando ele se candidatou a vereador, mas ele nunca foi eleito, né? Mas ele trabalhou muito aqui pela vila.
P/1 - Você e o Tigrão, vocês eram ameaçados? Vocês eram respeitados?
R - Nós fomos ameaçados uma época que teve aqui, que mataram muita gente. Era toda semana, matavam um. Mas aí era bandido e polícia. Era amigo de polícia, eles vinham e o Tigrão foi ameaçado. Aí mataram um aqui, que foi o César, que só o Tigrão e o Plínio foram no enterro. Porque o outro pessoal não teve coragem. É onde tem um bar aqui, tem um barzinho bem aqui na frente, era o bar dele. Nós fomos ameaçados. Aí o Tigrão foi, porque o César, ele era muito amigo do Tigrão. Aí o Tigrão falou: “Eu vou morrer, mas vou no enterro do meu amigo”. Mas, graças a Deus, não aconteceu nada com ele. Mas até o Dedé, que era dono da adega aqui, teve que ir embora. Teve muita gente que foi embora.
P/1 - Pelo que o Tigrão foi ameaçado?
R - Porque foi no enterro do outro. E era... Não era polícia. Eles matavam quem era amigo de polícia. Era amigo de polícia, tinha influência com polícia. Aí eles vinham e matavam.
P/1 - Então a senhora estava falando que ele foi ameaçado por ter ido.
R - Por ter ido no enterro. Mas foi nada, nada. Foi umas 20 pessoas que mataram aqui. Era um no dia, outro no outro. Mas era os meninos, porque eles queriam montar boca aqui. E tinha um polícia que ele não deixava.
P/1 - O polícia morava aqui?
R - Morava aqui. Era o... Como que era o nome dele, Patrique? Edilson? Morava aqui, morava lá perto do Zumbi. E ele não deixou.
Ele falou pra mim, Dona Cícera, eles só vão entrar aqui se me matarem, foi o que eles fizeram. Ele tomou tiro, a primeira coisa foi ele. Ele foi ali onde era o Zumbi, que ali tem um bar, né?
Ele foi de manhã no Zumbi comprar pão com o filho dele, que ali tem um bar onde é o Zumbi. E os caras vieram de carro e fizeram isso, atiraram nele e mataram uma pessoa que não tinha nada a ver. E daí começou uma verdadeira guerra. A gente tinha medo de sair. Só o Plinio e o Hélio que saíam, né? O Patrique sempre foi medroso, não saía, né? Aí ficou a coisa que ficou muito feia. E aí até o dia que mataram o César. O César era o dono do bar ali, porque o César, ele era... Era matador, a gente dizia assim, mas era um bom amigo, ele respeitava muito as pessoas, o César, todo mundo aqui conhecia ele.
E foi de madrugada, de noite, 9h da noite, estava tendo culto aqui. A gente escutou o barulho, né? E foi o César que eles mataram. E aí, no outro dia, aí só ficou o Miúdo, que ainda estava vivo, e o Tigrão. O César era um dos antigos, né? Veio pra cá, rapazinho, já veio casado, mas aí teve filhos, teve 2 filhos aí. E tinha um bar e ele não deixava acontecer briga nenhuma, tinha briga, era com ele mesmo. Chamava o César que ele estava lá, né? Era tipo um vingador, um vingativo, né? E ele foi e morreu também. E no enterro dele só foi o Tigrão e o Plínio, porque eram teimosos, né? Ainda foi. Aí eu falei, “mas vocês vão voltar?” eles “nós vamos”.
P/1 - Como que a senhora lidava com tanta violência por perto, né? Como que a senhora ficava?
R - Medo. Tinha medo. Tinha medo e tinha muita oração. Teve vezes que a gente saiu daqui… [intervenção] Tinha medo. Teve vez que o Miúdo precisou tirar a gente daqui, porque de medo, né? Porque a gente tinha muito medo. Principalmente eu. Eu e o Patrique, que eram os frouxos. Porque o Plínio não tinha medo. Até hoje não tem. Hoje o Plínio anda a noite toda.
P/1 - A senhora conseguia dormir?
R - Não, não conseguia. Até hoje, eu sou difícil para dormir à noite. Porque depois que eu tive um infarto, o derrame, eu quase não durmo. É difícil, tem que tomar remédio para dormir, né?
P/1 - Mas naquela época não dormia por outro motivo, né?
R - Não dormia com medo. E depois outra, o Tigrão, ele ia muito pra rua. Teve noite de precisar a polícia ficar a noite toda aí, um carro, um camburão… Porque... Essas são as coisas mesmo, né?
P/1 - E aí me conta um pouquinho desse bar de forró que vocês abriram. Quanto tempo? Qual era o nome do bar? Quando que abriu?
R - Era o forró do Tigrão. Aqueles que não gostavam, eles chamavam de risca-faca. Entra bem e não sai morto. Mas nunca mataram ninguém ainda. Teve tiros aí dentro, mas nunca morreu ninguém, graças a Deus. Depois, faz 15 anos que tá alugado pra pastora.
P/1 - Durou quanto tempo o bar do Tigrão?
R - Durou acho que uns 10 anos. Durou bastante tempo. Eu, o Patrique e o Plínio, a gente que trabalhava. Porque o Tigrão, ele só cuidava dos bêbados, tirava o bêbado, levava o bêbado, pegava o dinheiro do bêbado, bebia junto com o bêbado. Mas aí foi um tempo que a gente ganhou dinheiro, né? Porque vendia cerveja, cobrava entrada.
P/1 - Tinha musical vivo?
R - Tinha, tinha.
P/1 - Quem tocava?
R - La Bamba.
P/1 - Era uma banda de forró?
R - Era.
P/1 - Daqui, da Vila Esperança?
R - Não, o La Bamba ele mora, hoje ele mora no Guarujá. Mas ele vinha.
P/1 - E era todo dia?
R - Não, era todo sábado. Sábados, feriados.
P/1 - Enchia?
R - Enchia. Enchia e eu tava lá no meio, cuidando das mulheres. O que que a senhora fazia lá? É, tirava as mulheres do banheiro, olhava os banheiros, ia pro caixa quando o Patrique não podia ir, porque o Patrique que era do caixa, né?
P/1 - Então ele já tava um maiorzinho?
R - Já, já tava um grandinho, já tinha 12 anos, por aí.
P/1 - Fez sucesso o bar?
R - Fez, fazia. Até que o Miúdo entrou de sócio com o Tigrão e aí abriu um pra ele lá. Aí acabou com o nosso.
P/1 - Concorrência?
R - Concorrência. O dele era melhor.
P/1 - Tinha comida nesse bar também? A senhora cozinhava?
R - Fazia frango. Frango frito.
P/1 - Vendia frango frito?
R - É. Cerveja, cachaça.
P/1 - E quem se reunia nesse bar?
R - O povo daqui tudo. Dava muita mulher, porque não tinha outra coisa. O povo vinha de Cubatão pra cá.
P/1 - As lideranças comunitárias vinham pra lá?
R - É, vinham.
P/1 - Faziam reunião lá?
R - Só nunca veio o Zumbi, mas o Miúdo vinha.
P/1 - Não era um centro de encontro, assim?
R - Não. O Miúdo, ele vinha, vinha muito porque ele queria arrumar isso aí. O negócio dele era arrumar aqui e fazer um centro comunitário. Então ele vinha muito pra aí. Aí o Zumbi nunca veio.
P/1 - Do que a senhora gostava desse bar?
R - Ah, eu gostava de ganhar dinheiro.
P/1 - E de dançar?
R - Dançar também. Mas tinha marido, né?
P/1 - Vocês dançavam?
R - Dançava. Dançava, dançava muito.
P/1 - E o que dava de trabalho lá?
R -Muito trabalho. No outro dia eu tinha que lavar o chão, fazer as coisas, juntar as garrafas que quebravam, porque de vez em quando tinha briga, principalmente as mulheres brigavam mais, por ciúmes dos homens, namorados, né?
Então tinha briga, tinha sempre uma briga no meio, nunca deixou de ter, era difícil ter um Forró pra não ter uma briga.
P/1 - E quem é que resolvia?
R - Eu, o Miúdo, o Tigrão, os mais velhos. A gente entrava no meio, separava [intervenção] Naquela época, eu não tinha medo. Eu entrava, separava, tirava as mulheres, brigava com as mulheres também, porque tem mulher que você tem que dar um chega pra lá. Não tinha como, tinha uma que... E eu tinha um ajudante também, que era boa pra essas coisas, né?
P/1 - Então vocês faziam a festa da de Esperança?
R - Fazia. Foi o primeiro forró que teve aqui, o nosso. Primeiro forró, primeira oficina, primeiro tudo. Primeira casa. Uma das primeiras casas, eu acho que foi.
P/1 - E esse forrozinho, ele foi importante pra dar um dinheirinho?
R - Dava. Dava.
P/1 - Dava pra comprar o quê?
R - Dava pra fazer feira, pagar luz, que a gente já tinha luz, pagar água.
P/1 - Então a vida foi melhorando?
R - Foi.
P/1 - Dona Cícera, me conta como a senhora foi vendo a Vila Esperança crescer. O que foi melhorando aqui? Eu sei que a senhora já falou do ônibus, já falou da escola, da creche, do postinho. Mas eu digo no dia a dia mesmo, né? Da vida.
R - Olha, o que melhorou foi melhorando aqui porque chegou muita gente. Amanhecia o dia de domingo e você via gente que você nunca tinha visto. Veio muita gente, veio de uma vez. Veio assim, de uma hora pra outra, de um mês pro outro, de uma semana pra outra.
Era muita gente… Você via os caminhões de mudança vindo. E eu dizia, “não sei como que o povo quer morar aqui, porque eu morei por necessidade”. E o povo vinha porque parecia que gostava, parecia que gostava daqui. O povo vinha muito... Esse movimento de trem, de caminhão, era tudo cheio de mudança.
P/1 - Em que momento isso começou a encher?
R - Começou a encher? Isso foi de 80 pra cá.
P/1 - E por quê?
R - Porque o povo não tinha onde morar. Aí a gente veio e o Tigrão avisava para os outros e dava terreno para os outros. Deu muito terreno aqui atrás. Tudo isso aqui era tudo nosso.
P/1 - Mas como é que dava terreno?
R - Não era dele, mas ele dava.
P/1 - Ele permitia que construíssem. Tinha que pedir pra ele?
R - Aqui em volta era. O Miúdo foi um deles. Isso aqui ó, o Miúdo fez bar aqui. Aqui onde é esse negócio novo aí que fizeram. Aí fizeram bar.
P/1 - E o povo batia aqui na porta e falava: “Eu quero morar”.
R - Batia na porta e gritava: “Tigrão, dá um pedacinho aí pra mim. Tem um lugarzinho aí pra fazer um barraquinho? Separei da mulher”. Ou a mulher dizia: “Separei do marido”. Ele dizia: “Faça ali”.
P/1 - Então vocês iam organizando.
R - É, e não dava, a gente não ganhava nada com isso. Ganhou só muita dor de cabeça. Porque depois, né?
P/1 - Que tipo de dor de cabeça?
R - Tipo de dor de cabeça assim, porque vinha, aí a pessoa não tinha luz, não tinha água. A gente dava, eles usavam e depois não queriam desligar. E não queriam pagar.
P/1 - E aí?
R - E aí a gente tinha que pagar. Pra não perder. Pra não perder, porque se não pagasse, perdia, né?
P/1 - E aí o povo, na década de 80, foi chegando, chegando, chegando de todo quanto é lugar.
R - É, e depois que o Miúdo chegou, aí lá pra baixo, lá atrás da casa dele, ali, por ali não tinha nada. Só que ele vendeu um pedaço pra mãe do Zumbi. E ali, aí foi enchendo. O resto ele foi dando.
P/1 - Foi vindo gente, tudo morando por perto?
R - Tudo morando por perto. Já tinha água, já tinha luz, quer dizer, o difícil foi pra mim. Quando cheguei não tinha nada. Depois já tinha água, já tinha luz, já tinha colégio, já tinha ônibus, porque daí a gente tava aqui, fizeram o colégio, os meninos. Os meus não estudaram aí não, no Elza. Estudou no Lincoln.
P/1 - E eram pessoas carentes? Um ajudava o outro com comida, com roupa?
R - Ajudava nada. Não ajudava, não. Comprava fiado, não pagava ainda.
P/1 - Cada um por si?
R - Era cada um por si.
P/1 - Mas teve muita luta aqui na Vila Esperança?
R - Teve muita luta. Muita luta, muita briga, muito choro, muita encrenca, porque teve que morrer muita gente. Mataram muita gente aqui. E essas mortes que eu tô falando, que morreu o César, morreu o outro, não faz tanto tempo não, hein? Faz muito tempo não.
P/1 - Eu tô curiosa que a senhora falou que ganhou um terreno na Vila Natal mas não quis ir...
R - Não quis ir, porque naquele tempo a gente ia pra lá e era obrigado a fazer. Você ganhava o terreno, você já tinha que fazer. [intervenção]
P/1 - Tinha que fazer o quê? A casa?
R - Fazer a casa. Eles davam o terreno, foi no tempo do Passarelli. Era pra poder desmanchar aqui a Vila Esperança. Então, eles deram, davam os terrenos pra gente, mas não faziam papel, não faziam nada. Davam, mas você tinha que fazer a casa, fazer o barraco. E eu não quis ir porque aqui era bem sossegado. Lá veio muita gente, veio gente de tudo que foi lugar.
P/1 - Aqui não é maior do que lá?
R - É.
P/2 - Mas por que eles queriam tirar vocês daqui? Eles explicaram na época?
R - Eles explicaram, né? Explicaram porque disse que esse terreno tinha dono. Disse que tinha. Esse dono nunca apareceu. Disse que era de uma viúva.
P/1 - Mas ela era dona de tudo?
R - É, do terreno. Essa viúva eu nunca conheci, não. Nunca apareceu. Hoje tem a conta de água, tá vindo o nome Maria de Lourdes, avenida Maria de Lourdes. Mas não tinha essa avenida aqui, nunca teve nome.
Depois que o Miúdo morreu pra cá, é que tá vindo essa conta de água, é Maria de Lourdes. Isso que é dessa viúva, se essa viúva aparecer, a gente vai ser obrigada a dar o terreno dela.
P/1 - Mas dona Cissa, por que aqui era mais tranquilo do que a Vila Natal?
R - Porque aqui tinha menos gente. E a Vila Natal, quando teve isso, que a gente ganhou os terrenos, ganhou nós, ganhou o Miúdo, ganhou o Zumbi, a família do Zumbi que já estava aí, a família da dona Elza, os moradores mais velhos que estavam aqui. Todos ganharam e ninguém quis ir.
P/1 - Ficou todo mundo na Vila Esperança?
R - Ficou todo mundo na Vila Esperança. Não era Vila Esperança, era só essa rua aqui.
P/1 - Só tinha uma via, né?
R - Só tinha uma via. Aí foi enchendo e daí quem estava aqui não queria sair, já tinha água, já tinha luz.
P/1 - Você gosta daqui?
R - Eu gosto, gosto muito. O Patrique já falou pra mim, “vamos embora pra Praia Grande”, mas eu não quero ir não. Principalmente agora. Aqui tem tudo, né? Aqui tem tudo que você quiser. Aqui tem farmácia, aqui tem... Você chama a ambulância, ela já vem.
Tem ônibus pra onde você vai, pra onde você quiser, tem mercado, tem pronto-socorro, pronto-socorro não, tem um postinho, né? Tem escola, tem parquinho, tem creche, tem tudo.
O povo que tá chegando agora, eles dizem que aqui é ruim, não sei por que aqui é ruim, porque ruim foi no tempo que eu cheguei, eu tinha que ir buscar água na cabeça, tinha que entrar por debaixo de uma cerca pra passar, pra ir pegar água, né?
P/1 - E a construção que foi chegando gente, que foi ficando cheio, isso foi melhorando ou piorando?
R - Olha, foi melhorando. Está bem melhor, porque agora a gente tem tudo.
P/1 - Mesmo com esse monte de gente?
R - Com esse monte de gente, esse monte de gente, o trem perturbando que vai e vem. Antes não tinha, porque fizeram essa linha, duas linhas, agora há pouco, uns cinco anos pra cá. O Tigrão já estava doente quando fizeram quando fizeram... Porque era uma só. Aí fizeram a outra e disse que agora vão fazer outra, né? Não sei se vão, mas disse que vão.
P/1 - Se a gente te convidasse pra ir morar em outro lugar, então?
R - Ah, o Patrique quer morar na Praia Grande, eu não quero. Já falei pra ele ir sozinho.
P/1 - Perto da praia, não? Perto do mar?
R - Não, eu nem gosto do mar. É difícil ir na praia. Eu fui na praia faz uns 10 anos.
P/1 - O que a senhora gosta da Vila Esperança? O que esquenta o coração aí?
R - Olha, eu gosto do sossego, agora, naquele tempo, era bem bagunçado, né? Agora é tudo sossegado, a gente tem tudo aqui. A gente tem água, a gente tem luz, a gente tem mercado, a gente tem farmácia, tem colégio pra quem quer estudar. Aqui agora não estuda quem não quer! Tem ônibus de graça pra levar pra faculdade. O filho dele mesmo fez faculdade, se formou engenheiro e não saiu daqui. Mora aqui em cima, né? Não saiu daqui. Tá trabalhando em alto mar, né? plataforma de alto mar, filho do Patrique…[risos]
P/1 - É sossego.
R - É sossego. Tirando esse trem que não deixa dormir, mas o trem tá no lugar dele, quem tá ocupando sou eu. Racha as casas, mas tem rachadura, mas por causa do balanço. E depois que fizeram essa outra linha, aí que a coisa ficou... Aí tem barulho. E tem uns que passam buzinando, mas como que digam: “Eu vou te acordar, filha da mãe. Tá dormindo pra quê?”
P/1 - E vocês têm relação com as empresas, as rodoviárias, as empresas que circulam por aqui?
R - Que que tem?
P/1 - Eles conversam com os moradores quando eles vão fazer obras? Vocês têm alguma...
R - Conversa. A minha casa mesmo já foi marcada várias vezes. Tem número aqui. O Tigrão, ele tinha um negócio de lava-rápido aqui na frente. Eles tiraram quando vieram fazer a linha. Porque quando eles vieram fazer a outra linha, isso daqui tem uma fundura que é da altura desse porte, aqui pra baixo. Cavaram tudo o que podia cavar. Aí fizeram as ligações de água, ligações de luz.
P/1 - Ônibus que a senhora tanto fala, olha só. Eu já entendi que o principal é o ônibus.
R - Agora tem ônibus aqui pra praia. Tem ônibus.
P/1 - Agora não falta ônibus.
R - Ônibus, Uber, tem tudo.
P/1 - Quando vieram fazer a linha, tiraram o Lava-Rápido dele?
R - Tiraram. Ele tinha... Era... Tinha o Lava Rápido que botava a carro em cima, né? Aí tiraram. Falaram que ia indenizar ele, mas ele não quis. Falou: “Não vou mexer mais com isso, não”. Tiraram.
P/1 - Mas as empresas, você falou que marcaram a casa? Como que era?
R - Marcaram porque disse que essa frente aqui vai sair. Dizem que vai sair. E marcaram porque quem tivesse marcado ia sair.
P/1 - Pra onde?
R - Eu não sei. Diz que ia dar outro lugar. Porque ia fazer outra linha aqui. O Miúdo sempre falou que ia fazer outra linha aqui. Mas até agora não fizeram, fizeram só uma.
P/1 - Quando vieram marcar sua casa, como é que foi esse dia?
R - Não, eles marcaram e falaram pra mim: “Eu vou marcar sua casa porque sua casa vai sair essa frente, aqui vai sair tudo, porque vão botar outra linha aqui”.
P/1 - E aí, como que a senhora se sentiu?
R - Olha, eu falei: “Se vai marcar, vocês vão me dar outro lugar, né?” Mas até agora não voltaram mais, não. De vez em quando aparece um da linha dizendo alguma coisa, mas aí a gente tá nessa aqui.
P/1 - Essa é sua casa?
R - É. Se vão marcar, se vão tirar, eu não sei.
P/1 - E vai pra onde?
R - Também não sabe? Também não sei.
P/1 - Mas não quer ir?
R - Não quero. Não quero, porque o Patrique já falou pra mim: “Mãe, vamos embora, vamos sair daqui, vamos pra Praia Grande”, ele conhece lá, conhece gente lá. E eu não quero, pra mim tá muito bom aqui, né?
P/1 - A senhora costuma andar pela Vila Esperança ou fica mais por aqui só?
R - Agora que eu tive o AVC, eu fico mais aqui. Porque não dá pra andar também de cadeira de roda, né?
P/1 - Mas geralmente andava tudo?
R - Eu andava tudo, eu andava Vila Esperança toda.
P/1 - Ia na casa das pessoas?
R - Ia, conhecia. Teve um tempo que eu trabalhei com Miúdo também. Eu fazia um serviço social com Miúdo e aí onde ele ia, eu ia junto, né?
P/1 - Como era esse serviço social?
R - É, onde a gente ia fazer eventos, fazia festinha, fazia festa de dia das crianças, fazia reunião lá na casa dele. Quando era pra tirar prefeito, apoiar prefeito, a gente tava ali.
P/1 - Vocês tinham bastante ajuda do Poder Público, da Prefeitura?
R - Não, ele tinha, mas eu nunca tive, não.
P/1 - E a senhora gostava de estar envolvida nesses eventos?
R - Eu gostava.
P/1 - Gostava?
R - Gostava.
P/1 - O que era bom?
R - Gostava de aparecer.
P/2 - Teve algum que te marcou mais? Que a senhora lembra agora?
R - Teve, teve um dia que uma mulher, (eu estava) doando cesta básica, e a mulher achou que eu tinha culpa, que não tinha dado pra ela, e aí falou que ia me bater, e aí juntou as mulheres que estavam lá tudo e falou que “se bater na dona Cícera vai apanhar”.
P/1 - Te defenderam?
R - Me defenderam. E as mulheres se pegaram. Foi na casa do Miúdo. Se pegaram e foi feia a coisa, viu? Foi tapa pra tudo que foi lado. Mas não deixaram me bater.
P/1 - Já aconteceu em algum outro momento uma briga com a senhora? Alguém já tentou te bater? Já aconteceu briga?
R - Já. Já quando eu tinha o bar aqui. O barracão.
P/1 - A senhora não é muito de brigar, né?
R - Sou. Pior que sou. Agora eu não brigo mais que não aguento mais. Nem correr. Se for pra correr, alguém tem que empurrar a cadeira [intervenção]
P/1 - A senhora falava do Plínio…
R - O Plínio fica muito na rua, se mete muito com esse povo aí, né? Compra briga, puxa pra eles. Tem noite que não me deixa dormir, ele não entende que eu tô doente, né?
Mas é bom, sabe? Ele é muito bom menino, ele que lava roupa, porque o Patrique é que cuida de mim, que me dá comida, que me leva pra médico, que faz tudo, vê minhas contas, que resolve. Quando vocês vieram aqui, foi ele e ele, ele falou pra mim… [intervenção]
Ele falou pra mim, “ô mãe, por que a senhora não falou comigo? A senhora sabe do que é? E se isso foi pra tirar a gente daqui?”.
Aí eu falei, “não, eles falaram que era pra falar sobre a vila, né? Sobre a vila Esperança”.
Aí ele falou, “e a senhora lembra do que?” Eu falei, “lembro de tudo, ainda tô lembrando”.
Aí ele falou, “então eu vou, se voltarem aqui, vou falar com eles” a Adriana veio semana passada, teve aqui, pra falar que vocês não vinham na outra segunda-feira, que vinham hoje, né? Se não tivesse nada. Aí, porque ele que marca meus médicos, ele que me leva, né? Desde que o pai morreu, ele ficou...
P/1 - Mas enquanto o Plínio era menino, que dava trabalho?
R - Dava.
P/1 - Se envolvia aí com o pessoal?
R - Não, não se envolvia porque não tinha isso aqui. Isso daqui começou de um tempo pra cá, uns 5 anos, né? Mas agora ele se envolve, envolve, já internei ele duas vezes. Passou 1 ano internado, né?
P/1 - Usuário de drogas?
R - Um ano internado e eu pagando. Antes disso, ele passou 6 meses numa clínica lá no Guarujá. Agora nem procuro mais… Sabe por quê? Porque agora ele já nem tem como procurar… Não vou sair procurando numa cadeira de rodas, né?
Mas ele ajuda o Patrique. O Patrique que briga com ele, mas ele não briga com o Patrique. Tudo que ele faz. Aí a filha dele, ele tem um filho casado também, aliás, ele tem dois, casados.
P/1 - Mas a relação dele com as drogas, então, é recente? Ele começou a se envolver com drogas de um tempo pra cá?
R - Ah, acho que desde os 15 anos. Ele já tá quase 50. Tá com 48, por aí. Ele era um ano e meio mais novo do que o Patrique. Eles são filhos do mesmo pai, da mesma mãe, mas o Patrique nunca se envolveu com essas coisas. Por isso que ele é mais tímido, né?
P/1 - Desde os 15 anos. Então, a senhora passou muita coisa com ele, né?
R - Ainda passo. Eu falo 15, mas eu acho que foi antes dos 15, porque ele foi pai que eu tinha há 17 anos, o Plínio. A filha dele já tem 30 e não sei quantos anos mais velha.
P/1 - E ele continuava morando com a senhora?
R - Continuava morando comigo, aí conheceu a mãe dessa menina, juntou, moraram juntos 22 anos. E aí ele começou a querer bater nela, aí eu pedi pra ela ir embora, eu pedi pra ela ir embora, falei pra ela, “você vai embora, porque”…
Ela tem família lá no norte, né? Na Bahia. Eu falei, “se acontecer alguma coisa com você, seus irmãos vão vir aqui atrás dele e vão acabar me matando.” Porque, né? Ela foi criada pelos irmãos, a mãe dela, né? Aí eu fiquei com muito medo. Ele chegou a bater nela, ela grávida dessa menina aí, aí foram embora.
Só que a menina, quando ela foi, levou a menina. A menina, eu que tomava conta, então a menina foi criada comigo, e a menina deu muito trabalho pra ela, me querendo e querendo o pai, porque, apesar de tudo, ele sempre foi um bom pai, né? Ajudou ela a criar os filhos, dava tudo pro filho, defendia os filhos, né? Mas os outros, a menina que já é casada e o menino, é um com cada mãe. Foi várias mães, 3 mulheres e 5 filhos.[risos] Deu dor de cabeça, mas todas gostam de mim.
A semana passada isso daqui estava que você não podia entrar, de tanta roupa, porque eu estava no hospital, acho que ele pensou, “minha mãe não vai voltar mais”, aí começou a vender as coisas de casa, abriu os sacos tudo de roupa, jogou a roupa tudo pro chão… Aí eu dei pra igreja, a pastora veio pra buscar, mas não quis, falou, “Dona Cicera, não vou levar, porque vai dar muito trabalho pra arrumar, pra separar.”
E aí a minha... a mãe dela, a mãe dessa menina, que já é separada, e a ex-mulher do Patrique, que não era daqui, fizeram faxina pra mim.
P/1 - Dona Cissa, como que era então? Voltando no meu tempo um pouquinho aqui, como que era o Tigrão como pai desses meninos?
R - Bom pai. Acostumou mal. Bom pai, acostumou muito mal. Principalmente o Patrique, que no Plínio ainda deu uma chinelada, porque por causa do Miúdo. O Plínio foi lá e respondeu pro Miúdo. O Miúdo tinha um bar aqui. Aí o Plínio foi lá e pegou uma tubaína e quando o Miúdo falou com ele, aí ele pegou e falou pro Miúdo: “Você tá aqui de favor, porque foi minha mãe que deu o lugar pra você”. Malcriado como sempre. E aí quando o Hélio esteve lá no bar, o Miúdo foi e contou pro Hélio na frente de todo mundo e ele não gostou. Aí veio aqui, pegou o Plínio, deu uma chinelada, aquela chinelada. Mas o Patrique não é isso, nunca. E tudo que ele podia fazer, pra eles, ele fazia.
P/1 - E pra senhora?
R - Pra mim... Eu fazia também, mas é que eu brigava muito. Eu brigava muito com ele, tinha muitos ciúmes dele, ele não podia olhar pra ninguém que eu tava brigando. Então, comigo ele brigou muito, mas com os filhos não.
P/1 - A senhora que tinha ciúmes dele?
R - É.
P/1 - O que que acontecia?
R - Porque ele não podia ver uma mulher. Não podia ver uma mulher que ele se enfeitava todo, ficava todo assanhado. E aí eu ficava de olho pra ele. A gente ia lá no Miúdo, quando tinha festa lá, saía de lá brigando.
P/1 - E era briga de falar?
R - Era briga de voar em cima.
P/1 - A senhora que voava em cima dele?
R - É. E aí?
P/1 - Ele ficava na linha?
R - Uma vez eu dei um tiro nele.
P/1 - Uma vez o quê?
R - Dei um tiro.
P/1 - Um tiro?
R - É. Pegou na mão. [risos]
P/1 - Dona Cícera!
R - Quando tinha um motel aí, chegou uma sobrinha minha e falou pra mim, ele tinha saído o dia inteiro e naquele tempo ele trabalhava na DERSA era hora dele trabalhar e ele não voltou… e aí a menina veio de Cubatão, da cidade, né? E falou pra mim, “Dona Cícera, o Tigrão, veio num ônibus”. Eu falei, “mas cadê?”ela disse: “ Ele veio com uma mulher”.
Aí eu falei, “e cadê?” ela “Desceram lá na frente”. Aí eu falei, “eu vou atrás”. Aí chamei o Plínio, que o Patrique tinha ido pro colégio. Aí ele falou pra mim, “mãe, não vai, mãe, não vai”.
Eu falei,”eu vou e você tem que ir comigo.” Aí o Plínio falou, “você não vai, mas eu vou.” Aí foi. Quando cheguei no motel, ali, tava ele entrando, entrando com uma menina.
P/1 - O Tigrão e uma menina?
R - É. Uma moça. E eu já conhecia essa moça. Já sabia quem era ela. Aí eu falei pra ele: “Tá indo pro motel?” Ele falou: “Tô. Você também?”
P/1 - E aí?
R - Aí eu tava com um revólver dele. Aí deu um tiro nele. Só pegou na mão. Atirava mal.
P/1 - Era pra assustar?
R - Não, dei pra matar. Eu ia dar no peito. Pegou na mão. Não sei onde que ele colocou a mão, que só pegou na mão.
P/1 - E aí, dona Cissa?
R - Depois eu fiquei... Eu ia dar outro, aí o Plínio falou, “não mãe, não mãe! já pegou o pai, vai matar o pai!”. Aí não demorou muito, chegou a polícia aqui, levaram ele pra um socorro, de lá mesmo levaram ele pra um pronto socorro.
Aí, ele pegou... No outro dia, ele trouxe... Ele veio do Pronto Socorro, já veio com outra arma, e falou pra mim, “pega essa daqui e aprenda a atirar.” Aí eu falei pra ele, “foi pouco, eu devia ter dado na cara” aí ele: “a arma tá na mão, se tu quiser dar na cara, cê dá”. Só que ele tava com a outra, era um 32 e um 38. Aí ele ficou... Mas aí o amigo dele mesmo me ensinou a atirar, né?
P/1 - Ele veio te ensinar?
R - É, o amigo dele, que era polícia, que formou toda essa confusão aí. Era meu amigo também, me ensinou a atirar.
P/1 - Como é que vocês resolveram isso? Passou a raiva, acalmou?
R - É, a minha amiga que morava ali no morro me levou pra casa dela. Aí meu sobrinho que tava aqui, ajudaram. E a polícia veio, mas ela não me entregou, não. Ninguém me entregou. O negócio de ser bom vizinho, é isso, ninguém entrega, todo mundo esconde. Aí me esconderam e eu fiquei numa boa, não fiquei com remorso nenhum.
P/1 - Não?
R - Não.
P/1 - E com ele, ficou tudo bem? Já fizeram as pazes?
R - Ficou, só que a mão dele inchou. Depois ele operou a mão. Aí ele falou pra mim: “Aprenda a atirar. Agora eu tenho uma arma”. Aí eu falei: “Aprendo a atirar assim mesmo”. Eu era uma malcriada.
P/1 - Mas vocês continuaram juntos?
R - Continuamos. Até o ano passado.
P/1 - Ninguém se separou por causa disso?
R - Não. Ele faleceu em setembro do ano passado.
P/1 - Mas isso faz tempo que aconteceu, essa briga?
R - Essa briga faz tempo. Os meninos eram meninos, mas ainda...
P/1 - Depois foi melhorando um pouquinho? Foi acalmando? Foi sossegando?
R - Eles sim, eu não.
P/1 - Por que a senhora continuou?
R - Continuei brigando.
P/1 - E aí era por qual motivo?
R - Pelo mesmo. Pelo mesmo.
P/1 - Sempre por causa de mulher?
R - Sempre por causa de mulher. Nunca por causa de dinheiro. Só por causa de mulher.
P/1 - E ele respondia o quê?
R - Ele ficava calado. A minha raiva era essa, que eu brigava e ele ficava calado. Calou, consente, né?
P/1 - Tirando isso, o casamento era bom?
R - Era. Era bom. Era ruim porque não tinha dinheiro. Faltava dinheiro no começo. Não tinha dinheiro, aí sem dinheiro você não faz nada, né?
P/1 - Tá, mas aí foi melhorando.
R - Foi melhorando, foi melhorando. Aí ele ficou doente, teve AVC. Ficou cinco anos, seis anos doente.
P/1 - E ficou doente em casa?
R - Ficou em casa, na fralda, eu trocando, dando banho, dando comida na boca. E aí o Patrique sempre me jogando na cara: “Agora” que o Patrique tá cuidando de mim, ele fala, “tu tá pagando o que você fez com o pai. Tá pagando o que você fez com o pai, mãe”.
Aí eu falava, não era tão difícil assim fazer as coisas pra ele, porque ele era uma pessoa assim que não reclamava de nada, eu que era briguenta,ele não reclamava. Ele até mesmo na cama, todos esses anos, ele não reclamava, não. Muito quieto, assim, né? Não reclamava, não. Ele... Tudo que eu fazia estava certo, e ele morreu. 4 meses depois eu caí, fiquei de cama também. Tive dois AVCs, né? Ele morreu em setembro, eu tive em fevereiro.
P/1 - Esse tempo que a senhora cuidou dele, como é que foi?
R - Eu dava banho, eu dava comida na boca porque ele perdeu os movimentos da mão, dos braços, mas ele escutava, só não falava, mas entendia. Aí eu botava ele na cadeira, no banheiro, aí ficava sentada lá, olhando, porque senão ele fazia bagunça, sujava tudo, se melava, né?
E o Patrique me ajudava, né? A cuidar dele? Ele me ajudou até a hora da morte. No dia que ele morreu, eu estava lá perto dele junto com o Patrique, eu tinha passado a noite aqui na igreja, que teve vigília, e o Patrique passou a noite, o Léo passou o dia, que é neto dele, que está no Rio, filho do Patrique, e eu passei a noite, e o Patrique passou a noite, foi da segunda pra terça, aí quando eu cheguei lá, ele faleceu.
P/1 - Nesse tempo que ele ficou doente, para ele ter sido uma pessoa muito conhecida aqui na Vila Esperança, o pessoal vinha visitar?
R - E ela vinha aqui. Quando ele ficou no hospital, o povo ia também. Eu que não gostava que eles viessem muito aqui, porque eu queria cuidar, o povo vinha, ficava conversando muito tempo. Então eu não queria muita gente aqui. Mas o povo vinha.
P/1 - Eles vinham ajudar.
R - O Miúdo morreu primeiro, aí o Zumbi, a Adriana... Eu tive muita ajuda para cuidar dele, eu tive muita ajuda financeira, tive fralda, tive remédio, o postinho andava, tinha médico para levar ele para o hospital, tinha ambulância, toda hora vinha, se precisava, durante o dia, durante a noite. Porque ele foi, ele se envolveu muito com política, ele trabalhou com a Marcia Rosa (Prefeita de Cubatão entre 2009 e 2017), Ele trabalhou pro Nei Serra, pro Passarelli, então, ele tinha muito conhecimento com o meio político.
P/1 - E como ele participou de todas as coisas, né? Tipo, de ajudar a comunidade a crescer, né?
R - O Miúdo já tinha falecido, mas tinha um Zumbi que sempre que eu precisava, mandou cadeiras. O Zumbi mandou cadeiras de banho pra ele. Eu tenho aí ainda a cadeira de banho que foi o Zumbi que mandou logo que ele ficou doente. Aí o Plínio foi, o meu neto foi buscar. Foi buscar lá empatando pra ele. E o Patrique comprou as outras coisas, cadeira de banho, andador, mas nem essa cadeira aqui foi dele. A outra eu dei, a outra de banho eu dei. Aí, quando ele estava bem mal, porque a médica falou que ia mandar ele pra casa, aí o Patrique correu atrás da cama do hospital, pegou, tinha que fazer ficha e tudo, aí ele pegou a cama do hospital, pegou a aparelho de oxigênio, arrumou a pessoa que vinha pra fazer, porque ele colocou sonda, eu não sabia mexer com a sonda, mas não precisou.
P/1 - Foram quantos anos que ele ficou doente aqui em casa?
R - Ficou seis anos e meio.
P/1 - E a vida da senhora nesse tempo foi cuidar dele?
R - Fiquei com ele. Fiquei com ele e internei o Plínio. O Plínio estava na casa de recuperação. Então, ficou um ano lá. Mas mesmo assim, ainda... Ele ainda falava... Falava não, que a primeira coisa que aconteceu com ele foi parar de falar. Foi parar de falar, mas ele não andava mais, mas sentava. Sentava na cadeira de banho, sentava nessa cadeira aqui.
P/1 - E a senhora percebia que ele estava entendendo, que ele estava ouvindo a senhora?
R - Estava. Me comia com os olhos,mulher! Eu não podia passar perto dele, que ele ficava me olhando e eu gritava para ele: “O que você viu?” Aí ele ficava assim, com a cabeça. Mas deu muito trabalho, mas eu tive muita ajuda. Muita ajuda financeira, graças a Deus. Não faltou nada pra ele. Até o enterro, eu nem paguei. Porque o enterro, as irmãs dele vieram, ele tem irmã que é polícia, aí vieram e compraram tudo, não faltou nada pra ele, graças a Deus.teve tudo.
P/1 - Dona Cissa, ficou alguma memória desse tempo que ele ficou doente? Alguma história, algum momento que marcou pra senhora? Não precisa ser só de tristeza, não. Algum momento que foi importante?
R - Ficou.
P/1 - Conta pra mim.
R - Ficou porque o Plínio estava internado na época e ele era muito grudado no Plínio. Então, tinha dias que eu chegava no quarto e ele estava chorando, ele não falava, mas entendia. E eu falava pra ele, “tá saudade do Plínio?, o Plínio vai voltar.” E parecia que ele não entendia, achava que não ia, né? Ficou muito tempo, 1 ano todinho sem ver o Plínio, que era unha e carne com ele, sendo que depois, quando ele tava no hospital, o Plínio foi lá 1 vez ver ele, e outra vez eu mandei ele ir, e ele falou que ia, aí voltou, aí falou assim, “eu voltei pra buscar minha janta e tal”, (tentou me enrolar) e eu fui pro hospital. Quando cheguei lá ele tava sozinho, que não era pra ficar sozinho. E aí, eu cheguei aqui, já fui entrando, já fui derrubando tudo, querendo bater no Plínio e ele “Tá doida, mãe?” E correu por aqui, saiu por esse portão aí, e saiu pra rua, voltou no outro dia.
Mas teve assim, muita coisa, quando ele tava doente, que sofreu, ele perdeu a mãe, Os irmãos, 2 irmãos, num ano. E o pai, no dia que fez um ano, morreu 1. No dia que fez 1 ano, morreu outro. Então aquilo ali, o AVC já tomou conta, né? Quando eu levei ele no médico, que ele passou mal mesmo, o médico falou pra mim, na tomografia, falou pra mim tudo, esses pontinhos aqui, era tudo AVC, dava nele, mas como ele bebia, caía, aí eu achei que aquilo ali era da bebida, porque ele caía, né? Mas não era, já era AVC.
P/1 - Ele bebeu bastante ao longo da vida?
R - Bebeu, bebeu. Bebeu muito, era homem de muita bebida. [intervenção]
P/1 - Há algum momento feliz desses anos que a senhora guardou? Às vezes tem um momento ou outro que marca.
R - A hora da morte, eu estava lá, eu nunca atrasava, eu nunca atrasava, eu dormia aqui, e ele ficou 1 mês e 47 dias internado. Aí eu dormia, eu vinha, eu dormia aqui. Era eu e o Patrique pra tomar conta, né? Então eu vinha, dormi e eu ia bem cedo, né? E às 7h, lá, tinha que entrar às 7h, no hospital. Então, quando eu dormia lá, o Patrique ia cedo, quando o Patrique dormia, eu ia bem cedo.
E naquele dia, eu acordei atrasada, porque eu passei a noite na igreja, na vigília. Então, eu acordei atrasada e fui, saí daqui já era 7h. Quando eu cheguei lá, o Patrique tava lá no refeitório pra tomar café, aí eu perguntei pra ele, “Patrique, e o pai?” Aí ele falou, “Ele não tá muito bem”, mas muito bem ele não tava, já não tava, né? Ele falou, “Ele não tá muito bem. Ele ficou sem dormir a noite toda.”
Aí eu falei, “E você tá aí? Chamou a enfermeira?” Aí ele falou, “Chamei. E ela aumentou a oxigênio”.
E naquele quarto dele ali, depois que ele tava lá, já tinha morrido 3 pessoas, e eu tava com medo, aí eu falei pra ele assim, “vamos lá”. Quando eu cheguei lá, eu cheguei lá às 8 h e às 8h13, ele morreu.
Quer dizer, foi assim... A médica já tinha falado pra mim, eu já tinha discutido com a médica, falei pra ela que “ela não era Deus, que Deus era quem sabia da hora”. Ela falou, “mas eu sou evangélica e sou médica, estudei, estudei pra isso, já vi muito isso.”
Aí, na hora ali, ela tava no plantão, a tal médica que tinha me falado isso… ela já tinha preparado o Patrique, só que o Patrique, ele não me contou o que ela tinha falado pra ele. Falou pra mim, no dia que eu falei, ele falou, “Mãe, a médica já falou comigo.” Aí eu falei, “mesmo assim, a gente tinha comprado a comidinha dele, ele tinha mandado buscar a comida”
P/1 - A senhora conseguiu se despedir?
R - Consegui pedir perdão pra ele, fechei os olhos dele, cheguei lá, abri, porque eu cheguei lá, ele tava já bem cansado. O balão de oxigênio, aquela bolinha que fica lá em cima, ia até o final, e ele nunca tinha acontecido isso com ele. E aí eu abri o olho dele e ele já tava morto, já tava morto. Eu abri os olhos dele e aí eu mandei o Patrique chamar a enfermeira e as mãos dele estavam geladas, o pé gelado e tudo parado.
E aí eu falei pro Patrique, Patrique vai buscar, chama a enfermeira, aí o Patrique foi, chamou a enfermeira. A enfermeira falou pra mim, “saiam daí vocês dois, porque senão isso daí vai ser uma coisa que vai ficar na cabeça de vocês pra sempre”. E aí eu falei, “não, não vou sair.” E fiquei ali perto dele e aí já acabou, né? [choro de emoção] Aí nós ficamos lá e... Foi duro.
P/1 - Recebeu bastante companhia no velório inteiro? Teve bastante amigos?
R - Teve. As irmãs dele, os irmãos, tudo vieram. Que ainda tinha cinco irmãos vivos. Tem irmã dele que mora no Rio, que é policial. Ela veio. E tem um irmão que mora no Parque da Bandeira, mora em Ourinhos. Veio os irmãos, veio a minha família toda. Veio os amigos dele.
P/1 - E o pessoal da Vila Esperança?
R - Pessoal foi tudo. Pessoal da Vila Esperança foi tudo. Gente que eu pensei que nem gostava dele, que nem lembrava, tava lá. Foi um desespero, né? Porque você vê a pessoa morrer, né? E logo ele. E eu já tinha falado com o Patrique, Patrique, não vamos gastar muito, não, porque o pai não tá bom e vai precisar do dinheiro pra fazer o enterro dele.
E aí o Patrique falou, tá bom, mãe. Mas o Patrique tava desempregado, né? Tava desempregado? Será que tava? Nem sei. Só que o Patrique estava desempregado. Aí a minha ex-nora, a mulher do Plínio, a ex-mulher do Patrique, que o Patrique separou, o bebê dele tinha um ano, né, quando ele se separou. Mas ela sempre ficou aqui, me ajudou muito, ela gostava mais de mim, todas gostavam mais do Tigrão do que de mim, porque eu brigava, né? E aí elas dormiam lá, a mãe da Joana, a ex-mulher do Plínio, dormiam lá várias noites, a ex-mulher do Patrique. Dormia lá, porque pra mim aqui ninguém vem, vieram outro dia só pra mexer nas minhas coisas, fazer faxina [risos]. Mas pra ele todo mundo veio.
P/1 - Teve homenagem do Tigrão?
R - Fez. Teve muita oração. Oração da igreja, compraram aquelas coroas. Foi um enterro muito rápido. Ele chegou no cemitério, nove horas, onze horas já teve o enterro. Mas demorou mais do que ficou esperando o meu neto, o irmão da Joana, que estava no Paraná trabalhando. Aí ele ligou pra mãe dele e falou: “Me espera que eu tô indo”. Veio do Paraná pra cá. Aí chegou já atrasado. Chegou, já ia fechar o caixão e a gente segurando, segurando, segurando.
P/1 - Aonde que ele tá enterrado?
R - Aqui em Cubatão. Aí fizeram a plaquinha pra botar lá no túmulo, mas nem colocaram ainda. Tá com o Patrique essa placa. Esses dias a Joana veio aqui e falou: “Vó, eu vim aqui buscar a placa do vô. E o tio falou que não sabia onde tava”. Falou pro tio, daqui a pouco vai ter que tirar. Porque já fez um ano. Daqui a pouco é tempo de tirar, mas eu fui lá depois que eu tive o AVC, que eu saí do hospital. Eu fui lá, eu não achei, não lembro onde era. Aí a minha amiga falou: “Vamos perguntar lá onde fica os velórios na secretaria”. Eu falei:”Eu não vou, não”. Aí não fui.
P/1 - Mas é uma história de vida toda quase construída aqui na Vila Esperança, né? Ele viveu muito tempo aqui.
R - Viveu comigo aqui, ele viveu 50 anos. Em dezembro de 2001, a gente casou na igreja, que a pastora fez o nosso casamento. Eu pedi pra ela fazer, ela fez. Aí eu falei que eu não queria nada, só que eu queria que a pastora soubesse. Era eu e ela, e as duas ex-noras. Mas daí ela contou para as meninas da igreja, e as meninas da igreja espalharam, fizeram uma festa com tapete vermelho, com tudo. Casamento, casamento. Tinha 28 pessoas. Eu contei porque eu não queria nenhuma, mas teve 28. O povo da igreja, né?
P/1 - Como é que foi casar com o Tigrão de verdade ali na igreja?
R - Porque a gente já estava casada há muito tempo. Há muitos anos. Aí, na igreja, ele estava de cadeira de roda.
P/1 - Então ele já estava adoentado?
R - Já estava doente, foi por isso que eu casei. A minha sobrinha ainda falou: “Ô tia, o Tigrão sabe que vai casar?” Eu falei: Ele sabe, ele tem que saber”. Mas ele sabia, ele foi.
P/1 - Por que a senhora quis fazer o casamento?
R - Porque eu era casada só no Civil. E um dia, quando meu cunhado faleceu, o padre, no sermão que fez pra ele, falou pra minha irmã, “a senhora perdeu a vez de casar na igreja”. Aí eu falei, eu pensei, ela perdeu uma vez, mas eu vou ter. E falei com a pastora, aí ela veio e falou, “Seu Hélio, o senhor quer casar com a Dona Cecília na igreja?” Aí ele falou, “quero”. Mal falava, né? Aí ele falou que queria. Aí eu arrumei tudo e falei, vou fazer.
E elas prepararam uma festa pra mim escondida, que eu não sabia, nem sabia, não tinha nem ideia na hora, aí estão aqui, foi aqui.
P/1 - Foi festa boa?
R - Boa, como é dizer assim. Tudo escondido. Roubaram todas as minhas coisas, enfeitaram a igreja, enfeitaram de flores tudo. Precisa ver que coisa linda.
P/1 - Como é que a senhora se sentiu?
R - Eu tive vontade de voltar na hora que eu tava chegando lá.
P/1 - Como assim?
R - Tive vontade de voltar, porque eu não queria aquilo ali. Não era aquilo que eu queria. Eu queria só eu, a pastora e ele. Era uma bênção que eu queria. Mas fizemos uma festa lá.
P/1 - Casou?
R - Casei. Muito bem casada. Só não fiz lua de mel porque ele estava mal.
P/1 - E depois que ele faleceu, como foi a vida? Como tem sido a vida aqui sem ele?
R - Depois que ele faleceu, aí parecia que o mundo ia acabar, mas daí eu tava me preparando pra festa do casamento do meu neto, que a gente ia entrar na igreja eu e ele. Eu já tinha falado com o menino, é o irmão da Joana, eu tinha falado pra ele, ele faleceu em setembro. Ele faleceu dia 17 de setembro.
P/1 - De dois mil e vinte…
R - De 2024. E o menino ia casar dia 13.
P/1 - De outubro?
R - De dezembro. Fui, entrei sozinha na igreja porque é o filho do Plínio. Entrei sozinha na igreja, tremi muito, não conseguia dar um passo, mas aí o Plínio não quis ir porque tinha bebido. O Patrique era um dos padrinhos, estava lá com a dama de honra dele e aí não pôde. Mas daí eu chorei muito, muito, muito. O povo me ajudou muito. Somos todos evangélicos. A família da noiva me ajudou muito lá. Mas foi assim, muito... E o Patrique falava pra mim: “Mãe, eu tô com medo da senhora ficar doente. Mãe, se cuide”. Porque eu comecei a sentir muitas dores nas pernas e no estômago.
P/1 - Tava preocupado com a sua saúde, né?
R - Aí o Patrique falou: “Mãe, eu tô com medo da senhora…” Eu tinha uns exames pra entregar pro médico, aí naqueles dias...
Aí eu fui no médico, o Patrique foi sozinho, levou os exames, aí trouxe de volta e falou: “O médico falou, quando a senhora melhorar”, era o cardiologista, “para a senhora ir lá, que ele quer falar com a senhora.” Aí eu falei, “mas quer falar o quê?” Fazia 2, 3 meses que o Tigrão tinha falecido. Aí eu falei, “ele vai querer falar o quê? Por que? ou você não falou com ele?” ele falou, “porque a senhora pode ter um AVC. Aí eu falei, “por quê?” e ele “Ele falou que seu coração tá grande.”
Aí eu falei, é história de médico, né? Não vou ter AVC nada, é história do médico. Aí isso foi em dezembro, quando foi em fevereiro, o Patrique tava com passagem comprada pra ir pro norte, né? O Patrique e o filho, o filho ia levar ele pra terra, né? Aí eu dormi, 20 de dezembro, e quando acordei, já acordei mal. Aí me levaram, chamaram a ambulância, me levaram pro hospital, aí me colocaram no repouso, aí depois, à noite, me mandaram embora. O médico me deu alta e aí eu vim pra casa, quando foi no outro dia, já fui pro hospital, não vi mais nada. Aí agora tô em tratamento.
P/1 - Aí teve o AVC?
R - Tive 2 no mesmo dia. Um de manhã e o outro à noite, fiquei internada, não via nada… me davam banho… Até a semana passada o Patrique que me dava banho. Agora que eu tô indo pra cadeira, tô começando a andar no andador, mas ele que me dava banho, me dava banho, trocava as fraldas, dizia assim, “vira pro pai” [risos]. O Plínio ajudou muito, lavou a roupa, limpou a casa, comprou comida, né? Mas o Patrique que é o cozinheiro, ele que era o cozinheiro, tá de férias agora, aí quando ele saía, pedia pra vizinha, as vizinhas de mais longe, que são amigas dele, “vai lá, passa lá, dá uma olhada na mãe”.
Tem minha irmã que mora lá no Costa e Silva, e é viúva também, né? Aí ela vinha aqui, ficava aqui comigo. Tem a Deise, que é a fisioterapeuta, que ele paga, paga pra ela vir, ela vem 2 vezes por mês. E tem a neta, a Joana, que ficou aqui agora, começou a trabalhar, né? A Joana vinha, ele deixava tudo pronto, aí a Joana vinha, me ajudava. Tem a outra, que se diz filha dele, que é filha da mulher dele, a Elenilda, ela vinha aqui, me ajudava também.
P/1 - Então hoje a senhora tem dois filhos e seis netos?
R - É. Dois filhos e cinco, seis netos. Cinco é do Plínio. E um do Patrique. O Patrique só tem um.
P/1 - Como que tá sendo pra senhora A senhora tá com 80 anos, né?
R - É.
P/1 - Como tá sendo pra senhora envelhecer aqui dentro da Vila Esperança?
R - Olha, eu não tenho nada... Pra mim, é bom, porque é aqui que eu conheço todo mundo, aqui é o meu lugar, né? E daqui eu não quero sair. O Patrique já falou pra mim, “mãe, vamos arrumar uma casa e vamos embora pra Praia Grande.” Ele arrumou uma namorada pra lá, então eu quer ir pra perto da namorada. Aí, vamos pra Praia Grande. Aí, eu... O Plínio, onde eu for, ele vai, tem que carregar essa mala sem alça, né? [risos]
E... Tive muita visita, eu tive mais visita aqui em casa do que o Hélio, eu tive muita visita, muita visita. E tem a minha cunhada que mora aí, o marido dela faleceu também no ano passado, né? Meu irmão, fez um ano que ele faleceu, o Hélio também, fez um ano, já estava doente quando o marido dela faleceu.
P/1 - Aqui é o lugar da senhora com essas pessoas?
R - É, tem a minha igreja aqui. Tem um pouco da igreja aqui. A igreja está aqui, pertinho de mim. Eu não estou indo porque o portão quebrou, aí eu tenho que passar em cima, a cadeira ali, eu não posso Mas já fui, fui para Santa Ceia. Fui para Santa Ceia. E estamos aqui.
P/1 - O que a Vila Esperança representa para a senhora?
R - Muita coisa. Muita coisa. A Vila Esperança é uma vida pra mim, aqui eu criei os meus filhos. Aqui meus filhos foram pra escola, aqui o meu neto se formou engenheiro. O povo diz que o povo daqui não presta, mas eu falo, “presta sim”, porque o meu prestou, por que que os (filhos) outros não prestam, né? Não prestam quando não querem prestar, que nem o Plínio (que) não quis prestar…
O Patrique tá estudando, quer ser professor, porque (ele fala) “O meu filho, se formou Engenheiro, e vai ter pai, analfabeto? né? [risos] Mas o Patrique estudou mais do que o Plínio né? Mais do que eu.
P/1 - O neto foi engenheiro, né?
R - É o meu neto, filho do Patrique. Mas o Patrique ralou muito, teve que dar muita ajuda pra ele, porque ele teve que estudar inglês, o Leonardo, ele vem amanhã. É (fica) 15 dias no mar, em Alto mar, e 15 dias em casa. Aí o mês passado ele tava aqui,e ele falou, “Vó, tu vai comer?” Aí eu tava aqui sentada, e ele foi pra dentro. Aí eu falei, “Vou”, ele perguntou,”Aonde”? E eu falei, “Aqui” … e ele foi pra dentro, e achou que ia comer lá dentro, na casa do Plínio, porque o Plínio fez comida, né?
Aí ele tava saindo, viu o pai indo pra Santos, né? E eu toda orgulhosa, porque o pai, ele é um bom menino, ele tava saindo, eu falei, “Pra onde vocês vão? ele “Eu vou pra Santos”.
P/1 - Dona Cissa, a senhora chegou a voltar na cidade onde a senhora nasceu? Chegou a voltar lá visitar?
R - Voltei uma vez. Já conhecia o seu Hélio.
P/1 - Só pra visitar?
R - Só pra visitar.
P/1 - Não tem mais ninguém lá?
R - Ainda tenho. Minha irmã tava lá, voltou ontem. Voltou antes, ainda tenho.
P/1 - A senhora gostaria de voltar a morar lá?
R - Não, não. Lá é muito ruim. Aqui é melhor? Aqui é melhor. Eu não troco isso aqui por nada. Eu falo que lugar bom é aqui. Eu aprendi a ler, aprendi a escrever, né? Eu sei ler, eu sei escrever. Mal, mas sei. E aqui tá tudo. Aqui que formou meu neto, a Joana está na faculdade também, minha neta, que eu criei, ajudei a criar.
P/1 - Qual é o maior orgulho que a senhora sente da sua história?
R - De ver os meus netos, nasceram aqui, se criaram aqui e não aprenderam a fazer, o que o pai aprendeu. Ninguém usa droga, nenhum deles. Nem os que estão com ele, nem os que não estão, os 2 que não estão. Porque são dois, a Erika e o Caio, que não foram criados com ele, criados com ele foi o Michel, o João Pedro.
O João Pedro é um senhor trabalhador, e todos são meninos novos, de 30 anos pra baixo. A Joana é aquela coisa, né? A Joana é o meu xodó, eu criei… mãe pra lá, mãe pra cá. Ela foi pra lá, pra Bahia, com a mãe, aí lá, viraram da cabeça dela que eu não sou mãe, né? Porque ela tem outra avó lá. Mas, assim, quando eu preciso, é ela que me ajuda. O Michel casou, mora lá na Praia Grande, casou com uma menina evangélica, tá grávida. Casou faz 1 ano ainda.
P/1 - A senhora já tem bisneto?
R - Já, tenho quatro. Quatro bisnetas. Filho do Plínio.
P/1 - Como é que é ser mãe?
R - Ser mãe é uma preocupação.
P/1 - E ser vó?
R - Melhor ainda. Maior. Porque os meus netos... Olha, o meu neto que estava no Paraná, ele ligava pra mãe dele me trazer lanche. “Mãe, compra um lanche e leva pra minha avó”. E ela chegava aqui: “O seu neto mandou”. O outro que tá no Rio, ele vem, briga com os outros porque não veio me ver, porque não tá aqui. A Joana, a Maria não é filha do Patrique, a Maria Luiza, tá com 15 anos. Mas ela que faz trança, ela que me dá banho, banho mesmo. Ela vem porque a Joana estuda. A Joana tá na faculdade e trabalhando. Aí ela... Então, é só... é maravilha. Uma maravilha. Eu falo: “Neto e ex-nora. Igual os meus, não tem”. Porque as minhas ex-noras... Olha que eu briguei com elas, hein? Por causa dos filhos. Mas são duas peças que eu vou te contar, viu?
P/1 - E os bisnetinhos?
R - As bisnetas, são bisnetas. É menina. Tem duas que moram aqui. Moram aqui no Morro do Índio. E tem duas que moram, uma mora no Paraná, outra mora lá no Bolsão. Tá tudo perto. Mas vem aqui, elas vêm me ver.
P/1 - E a senhora queria que a família da senhora continuasse vivendo aqui na Vila Esperança?
R - Eu quero. Porque o Léo disse que vai comprar, que é o filho do Patrique, ele fala pra mim: “Vó, eu vou comprar uma casa lá na Praia Grande, mas eu não quero ninguém lá”. Já falou pra mim: “eu não quero ninguém lá”. Mas é por causa do tio, né? que ele diz: “Eu não quero ninguém lá, porque onde a senhora vai, a senhora vai puxando a mala”.
Eu vou deixar a mala com quem? A mala é minha… onde eu vou, vou levando minha mala, minha mala sem alça, mas eu levo. Mas é um amor, Plinio, sabe? Ele lava a roupa, ele ajudou muito a me dar banho, e cuida de mim. Fala assim, quando o Patrique não compra as coisas pra mim, ele fala, “me dá o dinheiro que eu compro”. Porque o dele já sabe o que vai fazer, né? E... Mas é um amor.
P/1 - E o momento que é gostoso em família? O que a senhora gosta de fazer com a sua família?
R - Almoçar. Comer. Comer, fazer festa. Eu fazia muita festa. É o melhor momento.
P/1 - A senhora tem algum arrependimento?
R - Não. Só tenho arrependimento de ter aguentado o Tigrão. Ter aguentado assim tanto tempo tudo o que ele fazia de ruim. Me fazia ciúmes, assim, eu brigava com os outros. Mas ele mesmo nunca arrumou briga comigo. Ele mesmo nunca arrumou briga. As brigas dele comigo era eu que arrumava. Não vou dizer que foi mau marido que não foi, né?
P/1 - E um momento muito feliz da sua história, qual é?
R - Olha, muito feliz foi o casamento do Michel. O casamento do Michel foi muito bonito, foi muito, muito bom. Ontem mesmo eu tava falando com a Joana, que ela falou que vai casar também no ano que vem, vai marcar o casamento, tá?
P/1 - Isso é da história do neto, né?
R - É.
P/1 - E da vida da senhora? O momento da vida da senhora?
R - Na minha vida foi os meus casamentos, que eu casei três vezes. Casei no budismo, casei na igreja, casei no civil.
P/1 - Tudo como Tigrão?
R - Tudo como Tigrão. Eu e ele. Nós dois. Nós fomos bem casados. Mas o casamento daqui da igreja foi inesquecível. Porque foi uma surpresa. Os outros eu preparei. E esses daí fizeram pra mim. As meninas ficaram sabendo. Eu falo pra pastora: “Tu tem uma boca, hein?” Porque não era pra ninguém saber. Porque eu não queria nada. E ela falou pra elas, elas pegaram as minhas louças, pegaram as minhas coisas, tudo, e arrumaram essa igreja. Foi muito bonito. Ficou muito bonito. É importante.
P/2 - E até aproveitando que a senhora tá falando do Tigrão, o Beco aqui ficou com o nome de Beco do Tigrão. Como é essa história? Quem deu o nome do beco?
R - Então, aí o Tigrão, ele botou o nome Caminho São Francisco. Aí o Tigrão falou: “Mas vai ser Caminho do Tigrão, porque quem mora aqui há muito tempo sou eu”. Aí é dele e aqui também. Então ficou no meio, aí eles queriam colocar Caminho São Francisco. E aí, não sei se tiraram, acho que tiraram a placa.
P/1 - Tem os dois nomes.
R - Tem os dois nomes? Caminho São Francisco e Caminho de Tigrão. Mas foi o primeiro caminho, foi Caminho São Francisco. Foi o senhor Hermógenes que mora lá no fundo, que colocou. Faz pouco tempo, quando ele chegou aqui, né?
P/1 - De certa forma, vocês são muito respeitados aqui, né? Pela história de vocês. [intervenção]
P/2 - Deixa eu perguntar para a senhora do bazar. Só falar um pouquinho do bazar da senhora. Conta um pouquinho a história.
R - A história do bazar, eu vendia coisas assim para o Miúdo. Cebola, alho, e aí o povo começou a vir comprar e começou… Aí eu falei: “Vou botar um bazar. Aí o Tigrão falou: “Vamos colocar, coloca um bazar. Você fica vendendo coisas pros outros”. E aí eu coloquei. Comecei a ganhar roupa e comecei a pendurar aqui. E o povo vinha. Então ficou muito cheio. Isso daqui tudo tinha roupa. Ali era roupa de criança. Aqui era sapato. Pra cá era calça, era coisas. Só que eu fiquei a vida toda, o Tigrão ficou todo esse tempo doente, mas ele já tava com bazar. E aí quando o Tigrão faleceu, na semana que ele faleceu, depois eu peguei, como tava chovendo muito, eu falei: “Eu não vou ficar aqui, vai molhar essa roupa, eu vou guardar”. Aí coloquei tudo em saco e amarrei tudo e falei: “Vou dar pra pastora”. Só que o Plínio conseguiu, abriu o saco, jogou tudo aqui no chão e molhou. Porque aqui molha tudo.
P/1 - Por que ele abriu o saco?
R - Procurando camisas pra ele. Procurou a camisa, aí vendeu. Vendeu na madrugada. Acho que ele pensava: “Minha mãe não vai voltar mais”. Porque ele vendeu tudo, as minhas coisas.
P/1 - Ele vendeu pra ter dinheiro?
R - Pra ter dinheiro.
P/2 - Mas o bazar aqui ficou bastante tempo, dona Cícera?
R - Ficou muitos anos, acho que mais de 15 anos, bem mais de 15 anos.
P/1 - E vendia bem?
R - Vendia, bem assim, não, porque o povo daqui quer coisa muito barata, né? Vendia, mas vendia bastante, aí o Zumbi, colocaram lá no Zumbi era dado as coisas, era grátis. Mas acabou na eleição, ele descreveu tudo. Aí as meninas que ajudaram ele pegaram as coisas, levaram, trouxeram pra mim, né? E aí foi. Mas só que o brinco tirou tudo fora do saco, falei pra pastora. Quando eu vim do hospital, eu vim e acho que foi em março. Não lembro que eu vim do hospital. Tava tudo jogado. Aí eu falei pra ele, “filho, por que que tu fez isso?”ele: “Ah, eu queria uma camisa pro meu amigo”. Falei, “é pro seu amigo"[risos].
E aí agora, até a semana domingo passado, que faz 15 dias de domingo agora, que as meninas vieram aqui, jogaram fora o que estava molhado, que não prestaram, tinha roupa mofada, tinha roupa molhada, porque esse daqui tudo tinha, cada um tinha o seu canto. Minhas calças de homem que eram ali, aqui era tudo pendurado, roupa de criança, né?
P/1 - E agora a senhora pretende voltar para o bazar? Quando melhorar um pouquinho de saúde?
R - Eu já estou voltando, já estou abrindo. Já penduro uma pecinha ali, outra pecinha aqui. Mas eu já estou voltando.
P/1 - Quais são os planos daqui pra frente?
R - Eu vendia gelo. Tinha outro freezer. Aqui tinham duas geladeiras.
P/1 - Planos daqui pra frente da vida da senhora?
R - Daqui pra frente, eu quero continuar com o meu bazar, mas aí eu não sei. Às vezes o Patrique diz pra mim: “Mãe, bota outra coisa, volta a vender seu gelo, venda doces”, que tem muita criança aqui na vila. Mas eu não decidi nada ainda. Mas o meu negócio mesmo é o bazar. É, porque eu tenho muita coisa. Tem tudo isso aqui que tem mais um negócio cheio lá debaixo da escada. Aqui atrás.
P/1 - Mas hoje em dia a vida tá mais tranquila financeiramente? Tem ajuda dos filhos, dos netos?
R - Depois, outra, o Tigrão deixou a aposentadoria. Eu não sou aposentada, né? Mas ele deixou eu conseguir receber a aposentadoria dele. É pouco, mas dá, o Patrique me ajuda, né? Eu tenho aqui que é alugado também, né? A pastora me dá R$1.000 por mês. Agora o Plinio já tá querendo que eu venda. Ele falou assim, ”mãe, a pastora já está lá há 15 anos pagando a mesma coisa que ela começou pagando R$1.000, ainda está pagando 1.000. Aí eu falo, “mas, é coisa de Deus, é pra Deus”, né? Ele fala “pra Deus, não, a pastora, ela recebe, né?” Porque ela recebe o que a gente dá, recebe o dízimo, né? Porque ela mesma… né?
E aí eu vou ver o que eu vou fazer com isso aí, mas eu já falei com o Patrique, que o Patrique é muito ruim de jogo, muito ruim de decidir, né? Ele não é ruim, ele demora pra resolver, porque eu falei pra ele, “o pai faleceu, vamos vender tudo isso aqui”, né? Essa casa aqui eu já passei pra Joana, lá em cima pro Leonardo, já decidi tudo.
P/1 - Passou a casa pro neto?
R - Para a neta e para o neto, aqui embaixo.
P/1 - Para a Joana?
R - Então, e aqui o barracão ainda está no nome do Tigrão, mas o nome é água e Luz, né? Mas o Plínio já estava me cobrando, já quer dinheiro… mas daí esses dias aí a Telhanorte (Loja de Material de construção) já esteve aí perguntando se eu queria vender… É, mas eu falei, agora não, e se eu for vender, vou vender pra pastora, se ela quiser comprar, porque ela já tá há 15 anos aí, né?
P/1 - Qual é a preocupação que a senhora tem hoje?
R - Minha grande preocupação é o Plínio. Aí ontem ele falou pra mim: “Eu comprei uma arma. Eu comprei uma pistola”, e eu falei: “O que tu vai fazer com a pistola? Ele falou: “Dar um tiro na cabeça de qualquer um”. Aí eu falei: “Mas você nunca foi disso, o pai nunca deixou você fazer isso, você tá fazendo isso agora por quê?” Aí ele falou: “Porque tem uns malandros aí que tão me desafiando”. Aí eu falei: “Mas não faça isso, vai dar um tiro na cabeça de uma pessoa, a pessoa não morre, ainda volta a te matar”. Aí, ontem de noite, ele chegou e falou: “Ó, toma o dinheiro, vendi” “Ah, é bom”
P/1 - A senhora ainda tem algum sonho?
R - Tenho um sonho de ver o Plínio casado. Mas que a mulher vai querer? Ver Plínio casado, porque ele ajudava muito a neta. Quando ele não estava nessa vida, ele ajudou muito. A neta tinha dois empregos, como a Joana falou, eu tomei conta dela porque os dois trabalhavam. A Joana era pequenininha, a mãe colocou na creche, depois colocou...
P/1 - Na verdade, já vê os filhos bem, os netos bem, né?
R - É que nem o Leonardo. O Leonardo tá lá, amanhã ele vem. Aí eu não fico sossegada enquanto ele não chega. Porque ele sai da plataforma de avião. Aí vai pra um hotel lá no Rio. E de lá ele pega outro avião pra gente ir pra São Paulo.
P/1 - E um sonho para a Vila Esperança, dona Cissa, a senhora tem algum sonho de ver aqui acontecendo?
R - Olha, quando o Miúdo estava vivo, eu tinha. Porque o Miúdo, ele trabalhava muito, batalhava muito por isso aqui. Era mal falado, porque ele era brabo, mas ele que fez, ele fazia tudo pela Vila Esperança. Aí, agora tem o Zumbi que faz, mas o Zumbi tem as coisas dele, né? É muito diferente.
Mas eu queria muito ver essa Vila bem bonita, sem drogas, sem... porque você vê. Toda hora aqui a gente pode até tomar um tiro, porque tem o povo que trabalha na linha, tudo com arma do tamanho disso aqui, os homens que trabalham na linha. E por causa do roubo que tem no trem, porque o roubo aqui é muito grande, eles abrem um vagão desse de soja e deixam cair na linha.
Aí fica, e depois quando chove, molha, aí você não pode nem passar. E o cheiro? O cheiro ruim, porque a soja molhada fede, né? E o roubo quando tem carne? Roubo de carne, né? Roubo de tudo.
P/1 - Acontece muito?
R - Muito. Muito. Muito. Não acontece agora, todo dia, porque o povo que ajudava a fazer isso saiu daqui. E mataram muita gente também.
P/1 - Hoje em dia, quando a senhora precisa de alguma ajuda aqui na Vila Esperança, a quem a senhora lhe cobra? Não digo ajuda no dia a dia, né? Se tiver que resolver alguma coisa no bairro, por que os moradores conversam, quem é a liderança?
R - Olha, eu tenho muitos amigos aqui. Morreu o Miúdo, morreu o Sérgio, o César, mas ainda tem muita gente.
P/1 - O povo se ajuda, né?
R - Me ajuda. Eu mesma, eu não ganhei fralda. Eu ganhei pro Tigrão, mas pra mim, eu não ganhei. Mas não faltou. Porque uma vem, traz um pacote, outra vem, traz um pacote, outra vem, traz um pacote. Comida. Eu tô aqui, mas elas me trazem comida pronta, me trazem marmita, me trazem... E não é só o povo da igreja, não. O povo da igreja é o menos, o que menos faz pra mim aqui é o povo da igreja. Mas as outras tudo faz.
P/1 - Esse é o resultado das histórias que vocês construíram aqui dentro, né? Da amizade.
R - Da amizade, boas amizades. Outro dia até o filho do Miúdo veio e falou pra mim assim, “Dona Cícera a senhora tá precisando de cesta?” Aí eu falei, “não, nem quero, deixa pra quem precisa, né? Eu não preciso”.
Aqui o Patrique trabalha, o Plínio faz bico, né? Eu tenho meu salário, ainda tenho o salário aqui, ainda tenho, né? Os gelos que vendo, a roupa que eu vendo.
Tem gente que precisa mais do que eu, então, eu tenho muita vontade de... Eu tinha vontade que viesse uma pessoa pra cá pra ajudar, cuidar da Vila, igual o Miúdo fazia, essa é a minha vontade. Porque o Miúdo, ele falava pra mim, “Dona Cícera, vão fazer outra linha”.
E eu falava, “vai nada, Miúdo, isso é história” Ele falava: “Vai, senhora, vai ver.” e eu vi, outra linha chegando.
E quando foi... O tempo de colocar a luz, ele falou aqui, “ó veia, vão colocar a luz pra nós”. Eu falei, “quando isso?” Aí ele falou, “tu vai ver, tu vai ver tudo isso aqui ainda com o posto iluminado.”
Tá aí, né? Ele correu muito atrás. Ele falava: “Vão colocar água encanada pra nós. Vão colocar telefone.” Quando veio o telefone, o Hélio falou, “Só na tua cabeça e do miúdo que vai passar aqui, vai vir uma linha de telefone pra cá. Por que que vão botar linha de telefone aqui?” E veio. Hoje em dia ninguém quer, porque todo mundo tem celular, né? Então ninguém quer, mas veio…
P/1 - A senhora imaginava, no dia que a senhora chegou aqui na Vila Esperança, que isso tudo ia acontecer no dia de hoje?
R - Não. Não acreditava, não. Primeiro (antes), a gente não tinha ônibus, não tinha ônibus, não tinha água, não tinha luz, não tinha nada, né? Você ia na feira, voltava por São Vicente!
O ônibus dava a volta porque fechavam a pista ali, fechava a pista. Fechava aqui, né? Aí não passava o ônibus. O ônibus dava a volta pelo Ocian (Bairro de Praia Grande - Santos) pra vir pra cá.
P/1 - Não dava pra imaginar, né?
R - Ave Maria! Era difícil, era difícil e com sacola, com criança, era difícil… Os meninos eram pequenos, aqui, quem ia em Cubatão buscar pão, trazia pra todo mundo. Passava, a pessoa passava gritando nas portas: “Tô indo pra Cubatão, quer pão? Quer pão? Quer pão?
O Tigrão, ele tinha uma perua, ele, a perua, a perua velha, numa noite, ele levou 4 mulheres pra ganhar neném. Pro hospital, numa noite só, as primeiras crianças que tava, que nasceram aqui, ele levou. Uma noite, ele levava uma, deixava lá no hospital, que nem era aquele hospital, era um hospitalzinho, né, que tinha ali. E depois voltava, aí chegava o marido. “Ô, Tigrão, pega aqui, vamos lá buscar uma criança, o Plínio machucou várias vezes. Eu corria pra pista pra pedir.
P/1 - Muita coisa mudou aqui, dona Cissa.
R - Muita coisa. Mas mudou para melhor. Pra pior, assim, o que mudou foi que aqui não tinha esse negócio. O trem podia passar aqui, não tinha roubo.
P/1 - E esse muro tá cheio de desenho, de grafite?
R - Foi a prefeitura que mandou fazer.
P/1 - Você gostou da paisagem?
R - No começo era bonito. Mas depois os meninos derrubaram ali porque a polícia vinha se esconder ali atrás do muro. Porque esse muro ali tinha a altura daqui.
P/1 - O muro foi pra proteger, né?
R - Foi. O muro foi pra proteger e ali tem uma escadinha que sobe e lá tem um barranco do outro lado.
P/1 - Foi bom ter tido o muro?
R - Uma parte foi, né? Porque... Acidente já não tinha mesmo, com o trem. E depois do muro, aí a gente ficou mais tranquilo.
P/1 - Mas aí, quando fizeram esses montes de pintura, foi pra deixar a vila mais bonita, né?
R - Foi, foi. Mas o povo sujou tudo.
P/1 - A gente terminando, dona Cícera, o que a senhora mais gosta daqui?
R - O que eu mais gosto daqui é do sossego.
P/1 - Mesmo tendo barulho de trem?
R - Barulho de trem, barulho de moto. Esses dias mesmo, eu dei uns gritos no meu quarto. Dei uns gritos aqui. Eu estava encostada aqui no meu portão, fumando, brigando, discutindo com os namorados. Aí eu: “Cala a boca, gente! Tem gente doente aqui!” Nem falei quem era. Aí, o povo daqui é outro, eu sou bem conhecida aqui. É o respeito. O respeito que tem. Porque se eu for ali, se eu disser: “Eu não tenho pão, eu quero pão, me vendem pão fiado?”, eles vendem. Conhecimento. É isso que eu gosto daqui. E não quero sair daqui não, né?
P/1 - Aqui é o seu cantinho.
R - É, aqui é o meu cantinho. Se tirar o barulho do trem...
P/1 - O que acontece?
R - Eu fico tranquila. É muito barulho. Você tá dormindo na madrugada, escuta uma buzina dessa, sem contar as ambulâncias, né? Barulho de ambulância na madrugada, ninguém aguenta. É muito.
P/1 - Tem alguma história que a senhora não me contou que é muito importante?
R -Tem os colégios, né? Que quando foi feito, o Miúdo brigou tanto pra fazer escola. E ele dizia, “ainda vai ter colégio aqui, ainda vai ter parquinho, ainda vai ter creche”. E ele brigou, ele fez o colégio, começaram a fazer o Elza (Unidade Municipal de Ensino Elza Silva dos Santos), veio a população e tomou o pedaço que ele tava fazendo. Era pra ser maior, né? A quadra era pra ser grande….
E um dia ele me botou um dia todo lá, sentada numa cadeira pra ficar olhando pra ninguém fazer. Eu falei, “você tem que pedir um guarda pra prefeitura”. Aí ele pediu, mandaram o guarda, porque aqui antes não vinha polícia, só vinha quando... A gente tava fazendo barraco, né? O Passarelli mandava, derrubando os nossos barracos Mas as outras coisas, é tudo bom, tudo, sabe?
E essas drogas que em todo lugar tem, esse daqui tá demais Quando o Plínio saiu da casa de recuperação, o diretor... O diretor lá falou pra mim: “Não deixe o Plínio, dê ocupação pro Plínio, não deixe o Plínio se misturar” Eu falei, “como? Ele não precisa nem sair. Basta esticar a mão, que vem. Porque ele conhece. Conhece todo mundo. A biqueira é aqui.” Era aqui, daí mudou pra cá, e ele não precisa nem de dinheiro pra comprar…Fica devendo, fica devendo. Depois os caras passam aqui e falam: “- E aí, Plínio?” “- meu amigo”. Eu falo: “- vocês são amigos? Aonde? Amigo?”
P/1 - É difícil, né?
R - Não tem amizade, não. Mas comigo, eles me respeitam. Me respeitam. Outro dia, o Plínio entrou, apareceu num tal de Canobre, estava fumando, estava usando, e passava mal, e veio um trazer o Plínio aqui. O Tigrão ainda estava doente, aí falou, “Dona Cissa, o Plínio estava caído lá no ponto do ônibus e os meninos estavam rindo dele. Os mesmos que vendem para ele estavam rindo”. Aí eu falei pra ele: “Você tá vendo? Os mesmos que estavam rindo de você”. As outras coisas, tudo bem.
P/1 - Como é que a senhora se sentiu lembrando da tua história desde menininha, lá no Rio Grande do Norte, chegando aqui na Vila Esperança?
R - É uma história que eu nunca esqueço. Nunca esqueço, e hoje eu lembrei muito mais. Que tinha coisa que eu nem lembrava que ainda falei pro Patrique: “O que é que eu vou falar?” Ele falou: “Todas as mentiras que a senhora fala. Acho que tudo isso aí é mentira. Ninguém sabe de tanta coisa assim”.
P/1 - Como é que a senhora se sentiu lembrando disso tudo?
R - Eu estou contente de lembrar. Aí o Patrique falava assim: “Mãe, o povo não vai vir amanhã” - foi a semana passada - “porque só vai vir dia 27, segunda-feira”. Aí eu: “Ah, meu Deus, tomara que não venha. Tomara que não venha, o que eu vou falar?" Ele falou: “Eles vão ficar aí e vão perguntar pra senhora”. A senhora fala demais também. Mas tá bom.
P/1 - A história da senhora vai ficar guardada na internet, lá no Museu da Pessoa. As netas da senhora vão poder ver. Todo mundo vai ouvir a nossa conversa. A gente tá registrando a sua história de vida. Vai ficar guardadinha lá.
R - A Joana vai ver. A Joana, o Léo. Pena que o Léo não tá aí pra vocês conhecerem. O Léo tem assim, a altura dele, é moreninho assim, bonito. Bonito assim que nem ele. Gente boa, viu? Aí chega, me dá muito cheiro. Amanhã ele vem. Amanhã, essa hora, ele já chegou, não. Ele chega à noite.
P/1 - O coração fica até mole perto dos netos.
R - É. Tem um que é briguento, briga comigo, me dá cada bronca e manda jantar. “Vó, sai dessa cama! Vó, procura andar! Vó, não come isso! Vó, não come aquilo!” Eu falo, “Já chega o Patrique”, que já me controla em tudo…
O Patrique, eu fui no médico, perguntei pro médico, “por que o senhor me proibiu da coisa melhor? Aí ele falou, “mas o que é melhor pra senhora? do que é sua saúde? Eu falei, “Coca-Cola”. E o Patrique proíbe. Aí ontem de noite ele comprou e falou “Amanhã vai fazer entrevista, vou dar uma coca-cola, pra você tá bem calminha.”
P/1 - E a senhora gosta de tomar uma coca-cola?
R - Eu gosto. Eu tomava um litro inteiro. Aí o médico falou que não posso porque faz mal. Mas eu gosto.
P/1 - E tem muitos anos pela frente, né, dona Cícera? Tem que tá bem, né?
R - Tenho 80 anos já, não tem muita coisa. Não tem tanta coisa assim não. Se a saúde ainda estivesse boa, né? Eu tive muita saúde, muita mesmo. Aí, hoje em dia, o povo diz que beber água não sei de onde, tem que ser água filtrada, água não sei de quê…
Eu bebi tanta água de poço, que tirava aqueles bichinhos que vinham dentro pra beber, passava num pano, quando não tirava, tava com medo de engolir, a minha mãe falava, “isso não tá barriga d'água”. Dá nada, muita gente.
P/1 - Dona Cícera, minha última pergunta, porque eu quero chegar aos 80 assim tão bem quanto a senhora? O que é importante na vida? Olha... Pra viver bastante?
R - Eu acho que não beber. Não beber bebida alcoólica. Eu nunca fumei. Beber, eu cheguei até a beber, bebi muita cerveja, mas nunca fumei.
Nunca botei minha vida em risco assim. Só quando eu subi no trem, né? Mas nem tinha ideia do que tava fazendo, né? Não tinha nem ideia, porque se fosse hoje eu não ia fazer, né? É, não é entrar em briga, ser bom vizinho, né? Porque eu acho que eu fui uma boa vizinha, tava sempre ajudando a vizinhança, tava sempre trabalhando aqui pra vila, né?
Mas isso daí foi o Miúdo que me ajudou, né? Sinto muito a falta do Miúdo. Porque se o Miúdo estivesse vivo… no dia que ele faleceu, eu conversei muito com ele. Faleceu, mas eu conversei muito com ele, né? Um dia antes, uma noite antes, ele estava internado em São Paulo. Aí foram buscar ele, não sei por que foram buscar ele, né? Mas foram buscar. E no outro dia ele faleceu, eu falei pra ele, “viva bastante que eu preciso de você” e ele respondeu “tá certo, tá certo, tá certo”. Mas faz muita falta, muito. Muita mesmo.
P/1 - E o conselho pro pessoal da vila?
R - Pessoal da vila? O conselho é pro pessoal da vila não destrói as coisas que a prefeitura faz, porque o povo daqui tem mania de destruir as coisas que a prefeitura faz. Eles reclamam, mas me chamam, estragam ônibus, estragam coisa de água, luz, roubam os filhos de luz. Esse pessoal tem que mudar, isso tem que mudar. E enquanto não mudar, vai ficando assim mesmo.
P/1 - O conselho é cuidar da vila, né?
R - É, cuidar bem da vila, dos colégios, das crianças, porque aqui é o lugarzinho que tem criança, viu? Isso daqui tem criança. Os meus outros dia eram pequenininhos, mas já tá tudo homem, já tem neto. O Patrique ainda não tem, mas o Plínio já tem quatro.
P/1 - Essa criançada tem que crescer num lugar bom, né?
R - É, tem que ter um lugar bom. É isso.
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