Projeto Memórias da Vila Nova Esperança
Entrevista de Iracema Santos da Silva
Entrevistada por Nataniel Torres (P)
Cubatão, 29 de outubro de 2025
Entrevista número MVE_HV012
Transcrita por Miriam Allodi
P - Dona Iracema, então pra gente começar, agora deixar registrado, me fala seu nome completo, sua data de nascimento e local que a senhora nasceu. Então primeiro seu nome completo, por favor.
R - Iracema Santos da Silva.
P - E qual sua data de nascimento?
R - É do dia 21 de abril.
P - E em qual local a senhora nasceu?
R - Em Pompeia.
P - Pompeia fica aonde?
R - Ah, fica pro lado de São Paulo.
P - Pompeia é uma cidade do interior?
R - É.
P - E me conta, a senhora estava me falando que nasceu aqui, mas foi muito cedo para o Nordeste, não foi isso?
R - É, meu pai me levou com menos de 18 dias para lá.
P - Então me conta essa história, como é que é isso? Fala para mim, como é que foi, como é que te contaram que foi essa mudança, que a senhora era bebezinha e foi lá para Alagoas?
R - É, meu pai me falou, né, mais minha mãe...
P - E o que ele falou?
R - Ele falou que tinha me levado com menos de 18 dias.
P - E por quê?
R - Porque eles queriam ir embora para lá.
P - Então, e o que eles iam fazer lá? Por que eles foram pra lá? O que aconteceu pra eles terem que ir pra lá?
R - Ah, porque ia trabalhar, né? Caçar serviço pra trabalhar.
P - E aqui em São Paulo, eles trabalhavam com o quê?
R - Não sei, não me disseram.
P - Mas a senhora conheceu seus pais, passou bastante... [intervenção] Conheci o meu pai, minha mãe.
P - Então, e aí eles não falaram pra senhora que eles trabalhavam aqui em São Paulo?
R - Não.
P - E lá no Nordeste?
R - Lá era nas roças.
P - Mas aí era roça de quê?
R - De milho, feijão, mandioca.
P - Mas a senhora chegou a ver essas plantações? Chegou a viver nessas plantações?
R - Cheguei, trabalhei muito.
P - Ah, mas a senhora trabalhava lá na roça também?
R -...
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Entrevista de Iracema Santos da Silva
Entrevistada por Nataniel Torres (P)
Cubatão, 29 de outubro de 2025
Entrevista número MVE_HV012
Transcrita por Miriam Allodi
P - Dona Iracema, então pra gente começar, agora deixar registrado, me fala seu nome completo, sua data de nascimento e local que a senhora nasceu. Então primeiro seu nome completo, por favor.
R - Iracema Santos da Silva.
P - E qual sua data de nascimento?
R - É do dia 21 de abril.
P - E em qual local a senhora nasceu?
R - Em Pompeia.
P - Pompeia fica aonde?
R - Ah, fica pro lado de São Paulo.
P - Pompeia é uma cidade do interior?
R - É.
P - E me conta, a senhora estava me falando que nasceu aqui, mas foi muito cedo para o Nordeste, não foi isso?
R - É, meu pai me levou com menos de 18 dias para lá.
P - Então me conta essa história, como é que é isso? Fala para mim, como é que foi, como é que te contaram que foi essa mudança, que a senhora era bebezinha e foi lá para Alagoas?
R - É, meu pai me falou, né, mais minha mãe...
P - E o que ele falou?
R - Ele falou que tinha me levado com menos de 18 dias.
P - E por quê?
R - Porque eles queriam ir embora para lá.
P - Então, e o que eles iam fazer lá? Por que eles foram pra lá? O que aconteceu pra eles terem que ir pra lá?
R - Ah, porque ia trabalhar, né? Caçar serviço pra trabalhar.
P - E aqui em São Paulo, eles trabalhavam com o quê?
R - Não sei, não me disseram.
P - Mas a senhora conheceu seus pais, passou bastante... [intervenção] Conheci o meu pai, minha mãe.
P - Então, e aí eles não falaram pra senhora que eles trabalhavam aqui em São Paulo?
R - Não.
P - E lá no Nordeste?
R - Lá era nas roças.
P - Mas aí era roça de quê?
R - De milho, feijão, mandioca.
P - Mas a senhora chegou a ver essas plantações? Chegou a viver nessas plantações?
R - Cheguei, trabalhei muito.
P - Ah, mas a senhora trabalhava lá na roça também?
R - Era.
P - Ah, e como é que era isso? Me conta, por favor.
R - Era de enxada, meu pai batia as enxadinhas da gente e a gente ia embora trabalhar. Ia bem cedo, só voltava de noite.
P - E nisso a senhora era bem pequenininha?
R - Era.
P - E como é que eles te ensinavam essa coisa de trabalhar? O que eles falavam pra senhora? Para trabalhar?
R - Para trabalhar, eles diziam que é pra não pegar o que é dos outros, tinha que trabalhar. [intervenção]
P - Vamos voltar para essa pergunta, por favor. E o que eles diziam para a senhora para trabalhar? Como é que eles explicavam isso?
R - Ah, para poder ter o que comer, tinha que trabalhar, né?
P - Mas vocês tinham o que comer lá onde vocês moravam?
R - Tinha não. A gente passou uma fome, teve um tempo que a gente passou uma necessidade muito grande. A gente andava mais, quase mais do que em Cubatão. A gente andando por dentro do mato, caçando, eu não sei se vocês conhecem, uma fruta de mandacaru, que é um pé cheio de espinho que nem palma, e bota umas frutas vermelhas, aí meu pai caçava, a gente ficava lá com o balainho, caçando aquilo dali pra nós comer.
P - E a senhora caçava isso também?
R - Pegava isso também. Era.
P - E tem alguma vez que a senhora lembra quando isso aconteceu? Tem alguma história que a senhora lembra disso? Desse momento de caçar o mandacaru, de pegar o mandacaru para comer?
R - Lembro não.
P - A senhora estudou quando morava lá nas Alagoas?
R - Não, porque meu pai não deixava, né? Era pra gente trabalhar. Aí um tempo ele botou a gente numa escola de noite, pra gente estudar à noite, mas nós não aprendia.
P - Mas como é que era essa escola?
R - Era no mobral.
P - E tinha professor?
R - Tinha. Tinha um professor.
P - Me conta lá como é que eram os coleguinhas? Era perto de onde a senhora morava? Era longe? Como é que era?
R - Não, era perto.
P - E a senhora ia como?
R - De noite, nós ía.
P - Mas ía de cavalo, de carro?
R - Não, nós íamos de pé. [intervenção]
P - Me conta como era a escola, a gente vai voltar a esse pedaço.
R - Era à noite. Nós íamos, mais os coleguinhas de escola, tinham os coleguinhas, muitos...
P - E como era esse caminho, da sua casa até a escola?
R - Era por dentro do mato.
P - Mas tudo bem vocês irem sozinhos?
R - Já tinha uns que já eram rapazes. Outras eram umas moças e a gente ia.
P - Então, mas aí era só criança, tinha mais velho, mas não tinha adulto, né?
R - Não.
P - E não dava briga?
R - Não, nós era tudo unido.
P - E na infância da senhora, a senhora brincava também? Ou era só trabalhar?
R - Só trabalhar.
P - Não tinha nada de diversão lá?
R - Não. Nessa escola que a gente estudou, aí, no final de ano assim, eles faziam uma festinha, né?
P - Que festinha era essa? Como é que era?
R - Era dança, era isso.
P - Mas era a festa do quê?
R - Do colégio mesmo. [intervenção]
P - Então, a gente estava falando das festas, vamos voltar a esse pedaço. Como é que eram essas festas lá no lugar onde a senhora morava? Tinha festa? Não tinha? Como é que era?
R - Não tinha festa, não.
P - Nem festa, assim, de santo? Nada?
R - Não, tinha terço, assim, aí nós saía a rezar pelas casas.
P - Mas aí como é que era isso? Onde é que era a casa que a senhora ia?
R - Era perto da minha mesmo.
P - Mas aí a senhora ia com a família? Como é que era isso?
R - Às vezes ia o pai e a minha mãe.
P - E como é que era esse terço? Como é que eles rezavam esse terço? Chegavam na casa da pessoa e o que vocês faziam?
R - Rezava.
P - Então, mas aí tinha alguma coisa pra comer também? Não tinha? Como é que vocês faziam isso?
R - Não, não tinha não.
P - Mas aí chegavam na casa da pessoa, rezava o terço e iam embora?
R - É isso.
P - E outras festas da igreja, tinha alguma coisa ou não?
R - Tinha não.
P - E aí, o que vocês faziam lá na cidade, além de trabalhar? Era só trabalhar?
R - Só trabalhando.
P - E depois, quando a senhora veio para São Paulo, por que veio para São Paulo? O que aconteceu?
R - Porque ele veio primeiro, depois me buscou, porque eu fiquei lá com os meninos, aí eu vim.
P - Mas quem veio primeiro?
R - Quem veio primeiro foi meu marido.
P - Qual o nome do esposo da senhora?
R - É Manuel.
P - A senhora conheceu ele lá?
R - Foi.
P - Como é que foi isso? Onde é que a senhora conheceu ele?
R - Lá mesmo, onde eu morava.
P - Então, mas como é que foi esse encontro? Onde é que a senhora viu? Como é que foi?
R - Ele passava lá em casa.
P - Mas o que ele fazia lá na cidade?
R - Ele trabalhava também.
P - Ele trabalhava de quê lá?
R - Era plantando capim, plantando cana.
P - E nessa época, a senhora também estava na roça.
R - Era.
P - E aí, vocês cruzaram o olho um do outro, e aí, como é que ele foi que chegou na senhora? O que ele falou?
R - Ah, ele falou, né? Perguntou se eu queria namorar com ele.
P - Mas assim, do nada ele olhou você e falou: “Quer namorar comigo?”
R - Não, passou um tempinho.
P - Então, mas como é que foi? Ele te viu várias vezes, é isso?
R - Aí eu até fugi de casa.
P - Não, me conta isso. Como é que foi isso? O que aconteceu?
R - Aí nós nos conhecemos, né? Aí depois nós fugimos. Fugimos de noite.
P - Você fugiu com ele?
R - É, isso.
P - Ah, mas por que vocês fugiram?
R - Porque meu pai não queria, né?
P - Mas como é que ele descobriu, seu pai?
R - Ah, uns dias ele... Descobriu.
P - Mas alguém contou pra ele ou ele viu? Seu pai? Vocês namorando?
R - Não, ele não viu, não.
P - Mas como é que ele ficou sabendo?
R - Ah, os povo contaram pra ele, né?
P - E aí, como é que vocês combinaram de fugir? Como é que foi isso?
R - Ah, fugir a noite, né? Nós combinamos por um dia e à noite fugir.
P - E vocês foram pra onde?
R - Fui pra casa da minha sogra. Aí, de lá, fomos para o Corrente. Aí, do Corrente, nós voltamos para trás e eu fui na casa do meu pai, aí meu pai não falava com eu, mas depois se deu a boa com meu pai, eu, mais ele. Aí ele veio se embora para aqui, eu fiquei com os meninos, depois eu vim também.
P - Então ele veio primeiro porque ele veio para trabalhar.
R - É, isso.
P - E ele conseguiu trabalho logo aqui?
R - Conseguiu.
P - O que ele trabalhou aqui no primeiro momento?
R - Ele trabalhava de capineiro.
P - Mas já era aqui na Vila Esperança?
R - Era.
P - Ah, quando ele saiu de lá, ele já veio direto pra cá, pra Vila Esperança?
R - Foi.
P - Mas e como é que vocês ficaram sabendo daqui? O que aconteceu?
R - O pai dele morava aqui na Vila Nova.
P - O pai dele já tava aqui antes?
R - Já.
R - E aí, o que o pai dele falava daqui?
R - Era muito bom, né?
P - Mas assim, ele falou pra ele vir pra cá pra trabalhar aqui?
R - É, isso.
P - E aí? Aí ele veio, trabalhou e depois?
R - Aí depois de invadir aqui, teve uma invasão dos barracos, aí invadiu, fez uma casinha. Quando eu vim, já vim pra aqui.
P - Mas aí já tinha uma casa que era, que seu esposo tinha feito que era pra senhora morar?
R - Isso.
P - E aí, a senhora queria, não queria vir pra cá?
R - Eu queria, mais os meninos, por causa que os meninos, eu, era três meninas mulher e um menino pra eu cuidar sozinha, e lá era muito ruim pra trabalhar.
P - Porque nessa época a senhora ainda estava na roça.
R - Aí já trabalhava, trabalhava... Fazia empreitada, né? Ia trabalhar de empreitada, assim, trabalhava dia.
P - E aí ele veio pra São Paulo, como a senhora falou, mas antes dessa vinda, vocês chegaram a casar lá?
R - Casou não, mas não casamos, até hoje ainda não casamos.
P - Mas depois que aconteceu essa história que a senhora contou com o seu pai, vocês se juntaram, é isso?
R - Isso.
P - Mas e como é que foi isso? Porque aí ele conversou com o seu pai, e ficou tudo bem?
R - Ficou.
P - Mas aí ele falou: “Vamos morar junto?” Quando vocês estavam lá, não quando chegou aqui, antes de chegar aqui?
P - Foi.
R - E aí, quando vocês moravam, porque aí depois a senhora ficou grávida, não foi isso?
R - Foi.
P - Então me conta o que aconteceu nesse período aí.
R - Eu fiquei grávida da primeira menina, que era uma menina-mulher, aí morreu. Depois nasceu outra, aí todos nós dava a meu pai pra ser padrinho, né? Pronto
P - E aí quantos filhos a senhora teve ao todo?
R - Doze.
P - Mas os doze nasceram lá, dona Iracema?
R - Só um que nasceu aqui, esse que morreu que eu falei.
P - E como é que foi isso dos seus filhos terem... porque a senhora teve um monte de filho lá.
R - Foi.
P - E como é que era a vida de vocês lá?
R - Ai meu Deus, só Deus mesmo.
P - Não, então me conta.
R - A gente trabalhava pra sobreviver, criava os filhos. Tinha uma senhorinha que era uma vozinha lá que morava pegado, tomava conta deles pra eu ir trabalhar.
P - E com o que vocês trabalhavam lá? Que a senhora falou da empreitada, mas os filhos trabalhavam também?
R - Não, os filhos não. Os filhos não trabalhavam não.
P - Mas como era a casa que vocês moravam lá?
R - Lá era casa de barro.
P - Mas era grande, era pequena? Como é que ela era?
R - Não era muito grande não, era pequena. Dois quartinhos, uma sala e uma cozinha só.
P - E moravam todos os filhos lá?
R - Era, dos 12, para aqui mesmo, eu só trouxe as 3 meninas, mulé e o menino homem. Os outros foi, tem uma doença, que diz que é a 7 dias, né? Aí vai morrendo, morreram, só sobrou esses que eu trouxe para aqui.
P - Mas o que a senhora falou do falecimento foi lá, que é um dos filhos da senhora que faleceu, né? Lá.
R - Aqui.
P - Ah, então. Mas lá também teve um primeiro filho que a senhora... Uma filha, né?
R - É.
P - E o que aconteceu, dona Iracema?
R - O que aconteceu, é que nem eu falo: que tem uma doença lá no norte que o povo diz que é uma doença de 7 dia, que dá, e o menino fica doentinho, doente e depois morre.
P - Foi uma filha que morreu lá, é isso?
R - É.
P - E ela era pequenininha quando ela faleceu?
R - Era, tudo era pequeno, tudo foi morrendo pequeno, só sobrou esses cinco.
P - E lá, quando morre filho, como é que fazia, Dona Iracema?
R - Não, tem o cemitério pra enterrar. A gente pagava pra fazer os caixãozinhos.
P - E como é que foi essa situação na época?
R - A mortalha, nós frequentava a igreja, aí tinha um São Vicente de Paula, era quem dava a mortalha.
P - E lá, essa igreja, como é que ela era?
R - Era uma igreja bem pequenininha de São Vicente. [intervenção]
P - Vamos falar da igreja. Como é que era essa igreja lá?
R - Era pequenininha, tinha a igreja grande também, essa de São Vicente, era pequenininha.
P - E como é que vocês frequentavam a igreja? O que que tinha lá na igreja? Tinha alguma festa? Tinha alguma... Tinha terço?
R - Tinha a festa São Sebastião. Todo ano.
P - E como é que era essa festa?
R - Era muito bonita. A festa de lá era bonita.
P - Mas a senhora ia nessa festa?
R - Ia.
P - E como é que era essa festa? Conta pra mim.
R - Ah, tinha carrossel, tinha roda gigante. Muito bom.
P - Tinha alguma dessas festas que a senhora lembra, que te marcou mais? Dessa época que você tava lá, que você lembra?
R - Não.
P - Se você lembrar, assim, você fala, teve uma que aconteceu uma coisa...
R - Não.
P - Tá bom. E aí, é... A senhora cuidou dos seus filhos e tal, seu marido veio pra cá, pra São Paulo, e logo em seguida a senhora veio pra cá também.
R - É, não, passou uns tempinhos aí e depois eu vim.
P - E lá nesse tempo que a senhora falou que passou um tempinho, a senhora ficou fazendo o que lá?
R - Trabalhando.
P - E os filhos que a senhora falou que não trabalhavam, mas o que é que eles faziam lá?
R - Ficaram dentro de casa.
P - E quem cuidava deles?
R - Deus.
P - E a idade deles é muito diferente?
R - Não.
P - A senhora lembra do nome de todos os filhos para me falar?
R - Dos que estão vivos, dos que estão mortos...
P - Então vamos registrar o nome dos filhos. Qual o nome dos filhos que estão vivos?
R - O nome é Josefa, Catiana e Argemiro.
P - Esses são os filhos que estão vivos?
R - É, estão vivos.
P - E eles estão onde, esses filhos, agora?
R - Olha, uma mora, uma tá no Rio de Janeiro, que foi pra foi pra Jundiaí, morava em Jundiaí. De Jundiaí foi trabalhar no Rio de Janeiro, tá pra lá. E a outra tá em Jundiaí. E o outro na divisa com Mato Grosso, com São Paulo. Divisa com Mato Grosso do Sul. São Paulo com Mato Grosso do Sul.
P - E aí, quando a senhora chegou aqui, a primeira vez, como é que foi a sua chegada aqui na Vila Esperança?
R - Ah, foi bom.
P - Mas aí, me conta como é que... Primeira vez que a senhora chegou na vila, o que a senhora viu? Aquele primeiro dia?
R - Ah, os vizinhos, né? Aí fiquei assim, porque eu não conhecia ninguém, depois fui pegando conhecimento com os vizinhos. Pronto.
P - E como é que era o lugar? Descreve pra mim, por favor.
R - Ah, o lugar era diferente? Não era como é hoje.
P - O que era diferente?
R - As casas, né? Era tudo diferente.
P - Mas por que as casas eram diferentes? Conta pra mim o que elas tinham de diferente?
R - Porque eram as casinhas, tudo umas casinhas velhas, tudo. Aí depois o povo foi fazendo essas casas, aí foi melhorando.
P - As casas daqui, em relação às casas de lá, de onde a senhora veio, de Alagoas, era diferente? A cidade era diferente?
R - Ah, era.
P - O que era diferente?
R - Lá era mais ruim, né? Aqui é melhor.
P - Mas mesmo nessa época que a senhora falou que aqui não era tão bom, ainda era melhor lá do que em Alagoas?
R - Era.
P - Por que aqui era melhor?
R - Porque pelo menos aqui tinha serviço para trabalhar, né? Para quem quiser trabalhar, não falta, só quem não quiser mesmo. E lá era difícil a gente arrumar um serviço pra trabalhar. A gente andava muito pra conseguir um serviço pra trabalhar.
P - E aqui, que serviços que tinha pra trabalhar?
R - Ah, que tem pra entregar uma água, tem de faxineiro, tem de tudo.
P - E quando a senhora chegou, já tinha esses serviços? Já tinha vaga pros lugares que a senhora ia trabalhar ou teve que procurar? Como é que foi?
R - Não, logo eu tomei de conta que morava uma mulher e eu fui tomar de conta do menino que ela criava, que era neto dela. Pronto, aí fiquei trabalhando, trabalhava em casa e lá na casa dela.
P - Mas como é que a senhora ficou sabendo desse trabalho?
R - Era aqui pertinho, aqui, ela me chamou.
P - Porque quando a senhora mudou já era pra essa casa que a senhora tá agora?
R - É.
P - Mas como é que era essa casa naquela época? Era assim já?
R - Era nada.
P - Como é que era?
R - Era bem velhinha, cheia de pé de pau. Cheia de pé de pau, assim. Aí, depois que a gente foi fazer isso aqui aí, nós cortou os paus. Os pés de cuca que tinha.
P - Mas como é que foi fazendo isso? Como é que vocês foram ajeitando a casa?
R - Ah, o meu marido trabalhava e a gente foi juntando, a vizinha também me dava um trocadinho, a gente ia juntando e foi fazendo a nossa casa.
P - E como é que a senhora conheceu essa vizinha? Essa que te ajudou? Essa que a senhora trabalhou?
R - Ela era, quando eu cheguei aqui que fiquei grávida desse menino que morreu, ela era madrinha. Aí a gente se conheceu, era pertinho aqui, nessa casa aqui.
P - Qual o nome dela?
R - Era Josefa, faleceu.
P - Mas faz tempo já que ela faleceu?
R - Faz.
P - Mas quando a senhora chegou aqui, que veio na casa, conheceu, porque ela era vizinha. Ninguém apresentou ela.
R - Não.
P - Mas como é que vocês se conheceram? Como é que foi esse dia?
R - Ah, nós pegamos pra conversar, conversando, ela me chamou pra lá pra conversar, tomar um café e a gente se conheceu.
P - E aí ela te chamou pra ajudar a cuidar do filho?
R - Do filho, é.
P - E aí, ela te pagava um valor?
R - Ela pagava.
P - E a senhora ficou trabalhando muito tempo com ela?
R - Muito tempo.
P - E como é que era essa criança que a senhora cuidava?
R - Era pra levar na escola, era pra ficar com ele quando ela fosse pro médico, mais o marido. O marido dela trabalhava na prefeitura.
P - E aí ela te dava um dinheiro e a senhora usava o dinheiro pra sobreviver, é isso?
R - É isso.
P - E o marido, nessa época, estava trabalhando com o quê?
R - O marido? O meu?
P - É, o seu marido.
R - Trabalhava na Cosipa.
P - Então, mas ele ficou trabalhando lá na Cosipa?
R - Ficou.
P - Como é que ele conseguiu esse trabalho lá na Cosipa?
R - O pai dele que arrumou conseguiu pra ele lá.
P - Porque a senhora falou que o pai dele já estava aqui, né?
R - Já.
P - E como é que foi? Foi bom lá na Cosipa? Ele conseguiu tranquilo esse trabalho ou ele teve que brigar pra conseguir trabalho?
R - Não, foi tranquilo.
P - O que ele fazia lá na Cosipa?
R - Ele era carpinteiro.
P - Mas ele já fazia isso lá, quando vocês moravam nas Alagoas?
R - Não.
P - O esposo da senhora é de lá, das Alagoas?
R - É.
P - E aí, quando vocês... Nessa época que a senhora trabalhava pra ela, logo em seguida, o que aconteceu? Como é que foi depois disso?
R - Aí fui arrumar vaga nos colégios pros meninos, pra estudarem, e eles foram estudar, eu fui vender nas pistas, pronto.
P - E tinha colégio nessa época?
R - Tinha.
P - E onde era o colégio?
R - Olha, tem um aqui, Santa Catarina, tem o Elza aqui em cima.
P - E conseguia a vaga?
R - Conseguia.
P - E aí, como é que foi isso aí, de conseguir a vaga? A senhora tinha que ir lá a pé e tinha que falar com a diretora? Como é que era pra conseguir?
R - Era, se tinha vaga.
P - E aí, como é que foi isso aí?
R - Ah, foi bom, né? Arrumei as vagas pra eles tudo estudar.
P - E nisso seus filhos tinham quantos anos? Eles eram pequenos ainda?
R - Ah, era pequeno. Aí depois quando sairam daqui foi pra Cubatão, estuda lá. Terminaram lá, no 31, três terminou. Agora os netos que estão estudando lá. Esse que chegou agora estuda no Lorena, desceu pra lá meio-dia, agora à tarde vai o outro, esse de 14, e o outro estuda à noite, o que tem 18, estuda à noite, e os outros já terminou.
P - E como é que são as escolas aqui?
R - É boa.
P - Antigamente era boa também?
R - Era.
P - E no bairro, quando a senhora veio, nessa época aí há 20 anos atrás, tinha estrutura no bairro? Tinha posto de saúde, tinha escola, tinha asfalto?
R - Não.
P - Como é que era? Conta pra mim.
R - Era barro, não tinha, depois foi que foram fazendo.
P - Quando a senhora chegou aqui, era de barro esse lugar?
R - Era.
P - Ah, e como é que vocês fizeram? Porque agora não tem mais barro. Como é que vocês arrumaram? O que vocês fizeram?
R - A prefeitura que arrumou.
P - E como é que foi isso?
R - Ah, o Zumbi é quem entra no meio, pra brigar, pra fazer.
P - E a senhora me contou o que foi lá em reunião. Me conta das reuniões lá no Zumbi, por favor.
R - A reunião era muito boa lá, muito boa mesmo.
P - E o que são essas reuniões?
R - Essa reunião era pra ajudar a gente numa cesta, eles davam cesta também, era pra falar da comunidade.
P - O que eles falavam da comunidade?
R - Eles falavam que tinha que melhorar, né? Que a gente tinha que lutar, eles lutavam. A gente ia assistir a reunião, e eles lutaram pra poder fazer coisa boa. O _____ não tinha, depois tem, era lá perto do Zumbi, agora é aqui. [intervenção]
P - Então, vamos voltar. A gente estava falando das reuniões e o que eles falavam de prefeito, de vereador lá na reunião? O que eles falavam?
R - Ah, com o prefeito, quando tava já perto de sair os vereadores, os prefeitos, aí ele dizia que a gente tinha que votar pra ver se outro que viesse era melhor do que o que tava, né? É isso. Os vereadores também. Teve uma eleição, duas eleições em que o Zumbi era vereador também.
P - E como foi essa época que o Zumbi era vereador?
R - Era pra gente votar nele. Aí já conseguiu muito o voto, o bichinho. Foi porque aqui é uma história de um vendido de voto, que compraram os votos do bichinho, o bichinho não ganhou.
P - Mas como é que foi isso?
R - Eu só via os povo falando que tava comprando voto, dando 50 reais pro pessoal, o pessoal vendia.
P - Mas vinham aqui pra fazer isso?
R - Não, era ali no colégio.
P - E o que que aconteceu depois?
R - Depois não aconteceu nada, que ele não ganhou, aí ficou por isso mesmo.
P - E lá nas reuniões, quando vocês falavam sobre os melhoramentos, o que que precisava melhorar? O que eles falavam na reunião de melhorar?
R - As estradas, que aqui enche d'água, aqui fica um mar d'água. Pros meninos ir, tem que ir por aqui, pra ir pro colégio, pra estudar em Cubatão, tem que ir por aqui, por aqui não passa.
P - Mas enche a casa da senhora?
R - Enche.
P - Me conta, como é que é isso?
R - É porque os povos fizeram as casas em cima das bocas de lobo, aí quando chove, enche tudo.
P - Mas a água vem de lá de cima, pra cá, pra casa da senhora?
R - Pra cá e vem subindo assim, enche tudo.
P - Mas tem enchente aqui dentro da casa da senhora?
R - Aqui fica tudo cheio de água.
P - E como é que é isso? Me conta, como é que a senhora se ajeita aqui quando dá enchente?
R - Ah, meu filho. Quando entrava água ali, eu perdi o colchão, Zumbi mais Adriana foi quem me ajudou, colchão, cama, comida, tudo o que tinha a gente trepou, mas quando a gente se levantava, era tudo boiando dentro d'água. Aí, depois, comprou os caminhão de aterro, aterrei ali, mas aqui ainda entra.
P - E aí, como é que faz?
R - Como é que faz? Antes, quando a chuva, quando a gente vê que vai chover, já vai trepando as coisas, né?
P - E com ela? Vocês têm que correr com ela? Como é que vocês fazem?
R - Se for assim, negócio pra levar ela pro médico, tem esse vizinho aqui tem um carro, né? É a salvação da gente. Aí bota no braço, leva até ali, de lá ele leva.
P - E da enchente, a senhora contou que sobe tudo, mas chegou a perder muita coisa também, o povo se ajuda, como é que é isso?
R - Não, ajuda não, isso não. Só a igreja, a igreja São Francisco me dá uma cesta todo mês, todo mês eles me dão.
P - E a senhora lembra de alguma enchente, alguma que tenha te marcado mais?
R - Ah, teve uma, tá com uns tempos já, que deu uma que a água quase cobre essa janela. Ela tinha ido pro colégio, que ela estuda em Cubatão, aí deu tarde da noite, aqui tudo cheio d'água e os ônibus ficaram parados na estrada que não podia passar com a água. Parece que foi um negócio que tiraram do rio, uma “copaça”, sei lá o que é pra soltar água, né? Foi uma enchente, meu filho.
P - E a senhora tava sozinha aqui?
R - Não, nós tava tudo... Só os que tava na escola, os que tava em casa, tava em casa, os que não tava, tava na escola.
P - E como é que a senhora fez?
R - Eita, meu filho, fiquei doida, doida com esses meninos no meio da rua, tarde da noite e tudo cheio de água, aí nós tirava água, a noite todinha nós era esgotando água de dentro de casa. Aí teve uma vez que eu digo: “Agora seja lá o que Deus quiser, agora eu não vou…” Amanhecia morta, morta, morta de sono e de tirar água de noite, não tinha mais força. Eu digo: “Meu Deus do céu”, mais esses meninos, aí teve um dia, uma noite, quando amanheceu, amanheceu tudo dentro d'água, tudo boiando, colchão, tudo.
P - E quando perde, como é que se resolve depois? Como é que faz pra resolver?
R - Ainda bem que tem aquela filha de Deus lá embaixo, que é a Adriana, ela ajuda. Quando ela vê que entrou água dentro de casa, qualquer coisa, ela faz de tudo, mas vem e ajuda.
P - E a senhora contou dessa enchente que foi bem forte. E no outro dia, pra limpar, como é que foi?
R - Pra limpar, tirar a água, tiramos de balde em balde, sacudindo aqui na frente. E ela ia descendo, depois passava um pano na casa e pronto.
P - Mas nesse primeiro momento aí já não tinha nada?
R - Não tinha mais nada.
P - E aí pra conseguir as coisas, às vezes a Adriana ajuda?
R - É, os povos da igreja também ajudam.
P - E a senhora aconteceu isso, mas com os vizinhos aconteceu isso também?
R - Isso, também aconteceu porque a água entrou na casa de todo mundo, só não nessa. Nessa daqui entrou também., tá vendo?
P - Que essa é mais alta, né?
R - É.
P - Tem o segundo andar.
R - É isso.
P - Mas a parte de baixo também encheu?
R - Encheu. Essa daqui, ó.
P - E como é que fez com os vizinhos? Porque todo mundo perdeu um monte de coisa, né?
R - É.
P - E aí como é que resolveu isso?
R - Esse daqui o marido morava na prefeitura, né? Esse daqui, esse daqui não, esse daqui já é, esse outro que eu tô dizendo que comprou da prefeitura foi-se embora e ele comprou a casa e ficou, encheu tudo também, perdeu tudo, mas ele trabalhava, os filhos trabalhavam.
P - Aí com o tempo foi melhorando?
R - É, foi melhorando, graças a Deus.
P - Mas ainda tem enchente até hoje?
R - Até hoje. Quando dá uma chuva, aqui fica tudo cheio.
P - E quando começa a chover, que a senhora falou que quando a chuva é mais forte pode acontecer enchente, como é que a senhora se sente?
R - Ah, logo cedo a gente trepa, tem uma mesinha, aí nós trepa as coisinhas que tem tudo em cima dessa mesinha, pronto. Só aqui, lá não enche não, graças a Deus.
P - Hoje mesmo tava chovendo, né? A senhora ficou com medo hoje?
R - Ah, eu fico.
P - Porque o esposo da senhora também nem estava em casa hoje.
R - Estava não. Tinha que puxar as contas de luz, porque eles não entregam aqui.
P - Mas por que não entregam aqui?
R - Eu não sei, diz que... Lá na rua São Leopoldo entrega, mas aqui na da a gente entrega.
P - Mas não explicaram porque aqui não entregam?
R - Não, diz que não, diz que é mal da água. Nem todo dia tá chovendo pra mode dizer que é mal de água na estrada.
P - Mas aqui vocês tem um relógio.
R - Tem.
P - E de água?
R - De água, tem também, lá dentro.
P - E quando a senhora chegou aqui, tinha já luz e água ou como é que era? Lá no passado, agora?
R - Não, tinha não, tinha não, aí depois nós pedimos água. Nós usávamos a água da serra com as mangueiras, aí nós usava as águas de lá. E luz, era das outras casas que tinham, né? Aí depois nós pedimos o relógio pra gente.
P - Mas isso demorou pra ter o relógio? Ou foi logo que a senhora chegou?
R - Não, demorou ainda.
P - E essa água que a senhora falou que pegava lá na mangueira, quem que inventou essa coisa de pegar água na mangueira?
R - Todo mundo, não tinha água aí, puxava dessas mangueiras.
P - Mas quem pôs essa mangueira lá? A senhora sabe?
R - Os moradores daqui.
P - E essa água vinha de onde?
R - Eu não sei não, diz que vinha da Serra, de uma mina que tem pra lá, não sei se é.
P - E como é que vocês faziam pra pegar essa água?
R - Passava as mangueiras, ainda hoje passa, lá pro lados de Zumbi ainda tem essas mangueiras.
P - Ah, é uma mangueira que saía da serra e entrava por aqui.
R - Era.
P - E pra chegar na casa da senhora?
R - Chegava, tinha uma mangueira, chegava.
P - Ah, acho que eu entendi. Então, vinha uma mangueira e vinha uma outra que vocês ainda puxavam pra casa.
R - É.
P - E pra acumular água, como é que vocês faziam?
R - Enchia os baldes d'água.
P - E tomava banho como?
R - Tomava, ó “raboiava”, né? Tomava banho não. Agora é que toma banho, por causa que tem água.
P - E pra fazer comida?
R - Fazia também.
P - Tudo com essa mesma água?
R - É, tudo com essa água.
P - E a luz, que a gente falou da água agora, e a luz, que a senhora puxava a luz, né? Às vezes do vizinho.
R - Era.
P - E o que que acontecia? Como é que era isso? De puxar a luz do vizinho?
R - Não, ele deixava a gente puxar.
P - E tava tudo bem?
R - Tava. Enquanto não botava o relógio da gente. Depois que botasse, aí tirava.
P - E demorou pra senhora pôr seu relógio?
R - Não, demorou não.
P - E como é que foi? Quando pôs o relógio?
R - Nós fomos lá na Eletropaulo e fizemos o pedido do relógio, aí veio, eles vieram colocar.
P - Mas a senhora teve que ir lá pra pedir?
R - É, teve que ir lá pedir.
P - E agora a luz é boa?
R - É, graças a Deus, é.
P - Só que pra pagar foi o que a senhora falou, não chega, né?
R - A conta... Ah, chega não, tem que ele, todo mês ele vai pra Cubatão pra puxar lá e paga pra gente puxar, pra poder pegar, tem que pagar lá na Eletropaulo, ou naquelas bancas de jornal, a gente puxar ali. Tem que pagar três reais cada conta, a minha e a dele dá seis.
P - Ele tá até mostrando a conta. Chegou.
R - Veio quanto é essa? (Voz externa - marido Manuel - “Trezentos e alguma coisa”)
P - E esse é o valor que vocês pagam por mês? É alto!
R - Oxe, essa daqui tá boa, essa daqui, 300 e pouco, vem 500, 550. Agora isso foi depois que chegou uns povo da Eletropaulo que nunca mais eles entram na minha casa. Tá com uns três meses, ou quatro, que eles chegaram: “Deixa eu dar uma olhadinha no seu relógio” Eu disse “No meu relógio não. Eu tenho ordem do fórum pra vocês não entrarem na minha casa. Aqui só quem entra é o medidor, mas vocês não”. Por causa que eles entraram e pediram para entrar, abriram o relógio e deixaram aqui aberto, e a pessoa com criança desse jeito, né? Arriscaram levar um choque, morrer e eles deixaram aberto. Até hoje tá amarrado com um araminho que a gente amarrou, pra mode não ficar aberto. Aí eles disseram que tá tudo quente e foram-se embora e deixaram o relógio aberto. Se a gente tivesse se tocado, tirado uma foto como eles deixaram, como eles mexeram. Não.
Quando eu pensei que não, fui puxar a conta de luz: “A sua conta de luz tá em novecentos e cinquenta”. Eu disse: “De quê? Porque todo mês eu pago a conta de luz. Tá, mas antes eu ficar sem comprar cinco quilos de arroz, mas a água e a luz eu pago”. Aí disse assim: “Não sei”. Aí eu fui na Eletropaulo em Cubatão, de lá mandaram pra São Vicente, depois mandaram pra outro lugar, eu disse: “Quer saber de uma coisa? Seja lá o que Deus quiser, vou embora pra casa”. Eu com fome, deixando essa menina em casa pra resolver esses negócios em Santos, São Vicente, aí vim embora.
Aí eu fui lá, fiz um acordo, pra ir pagando, mas eu digo: “Eu vou pagar uma coisa que não fui eu que fiz isso no relógio?” Aí mandaram eu ir no fórum, eu fui no fórum, aí o homem do fórum disse assim: “Ó moça, não é só com a senhora não, o negócio é que quando eles chegarem lá, a senhora não deixa eles entrarem, porque eles estão ganhando em cima de todo mundo, não é só da senhora, não. Ele se combinam com a Eletropaulo e vai olhar o relógio da senhora e dizer que tá desmantelado e tá desse jeito”. Eu digo: “Porque nunca ninguém mexeu no meu relógio. Até quando queimam um fuzil aqui, a gente tem que chamar um eletricista pra vir colocar, porque a gente tem medo de bulir, e eles fizeram isso”. Olha, foi tempo, o tempo mandou eu pagar essa continha. É porque nós fizemos acordo, né? Eu fiz acordo, que esse é o meu e esse é o da casa dele, porque agora nós estamos separados, mas mesmo assim nós conversa, ele puxou uma conta de luz minha, uma conta de água, mas ele tem a casinha dele lá e eu fiquei com essa daqui mais os meninos.
P - Não, quem tem a casa?
R - O meu marido.
P - Ah, vocês não moram juntos hoje?
R - Agora não, agora nós estamos separados. Um mora na casinha dele e eu moro na minha. Só que ele faz as comprinhas quando recebe o pagamento dele, faz as comprinhas e eu é quem cozinho, lavo, tudo.
P - E aí o relógio também é separado, como a senhora tá falando.
R - É, o meu é esse e o dele é esse daqui.
P - E os dois relógios dá esse problema?
R - Não, o dele não, só o meu.
P - Mulher, mas é um valor muito alto essa conta!
R - Essa veio barata! Essa veio que dá pra pagar. Olha, quando eu pego o benefício dela, eu pago essa conta de água, a conta da internet, pra mode eu não ver os meninos pulando de casa em casa, porque quando eu não tinha internet, aí os bichinhos ficavam de casa em casa, aí os povo via eles assentados roubando internet, né? Pegava, desligava a internet. Os bichos chegavam todos desconfiadinhos. Aí eu fui, fiz de tudo, pedi tudo, pedi internet, tem em casa. Aí eles ficam dentro de casa, não saem pra canto nenhum, pra canto nenhum, ficam dentro de casa.
Aí eu pago a internet, a energia, a água e a fralda dela, que eu ganho do PAMOS um pacote de fralda, 15 pacotes de fralda. Mas fraquinha, fraquinha, tem que comprar 400, todo mês, todo mês é 400 reais de fralda.
P - Então vamos falar dela. Ela é filha de um dos filhos da senhora?
R - De uma filha, da filha mais velha.
P - Ah, ela é filha da filha mais velha.
R - É, mora em São José dos Campos, pra lá, perto da Aparecida do Norte.
P - E o que aconteceu dela ficar com a senhora? O que é essa história? Conta pra mim.
R - Ela nasceu, quando ela nasceu, ela não era junto, né? Isso é uma história que chega a me dar desgosto aí, ela apareceu de gravidez dela, aí quando ela teve a menina, arrumou um rapaz, eu falei que ela já era mãe de família, já tinha uma menina. Aí depois ela disse que ia me dar a menina, fui no fórum, ela me deu a guarda dela, aí eu criei desde de novinha, eu criando aqui. E ela já tem três filhos. Tem um com 20, outro com 18, tem outro com 11, e tem ela.
P - Qual o nome dela?
R - Dessa é Awana.
P - E por que que ela deixou a Awana com você? Por quê?
R - Porque quis mesmo, deixar.
P - Desde novinha?
R - Desde novinha. Todos eles, as mães deixaram. Com ela, eram seis netos que eu criei. Um tá no exército, a outra mora aqui, que arrumou um rapaz, tá morando com o rapaz, Já tá com 7 meses de gravidez, Aí mora ali, trabalha em Cubatão, o marido dela também trabalha em Cubatão de guarda. E um dos meus netos, o mais velho, tá no exército, o outro trabalha entregando água em Cubatão, e é assim. E as mães tudo no meio do mundo, e eu que fique com essas cruz pra criar. Aí o povo pergunta assim: “Cadê sua mãe?” com todinho, com essa eles não falam, que ela não sabe, mas os outros... Aí eles dizem assim “A minha mãe não é essa daqui? É essa daqui.
E às vezes perguntam: “Sua mãe como é que tá?” “Tá bem, tá em casa?” “Ah, ela chegou”, “Foi, tá em casa” “Tá na casa da sua mãe?” “Não. A minha mãe é a minha avó”.
P - Por que a senhora acha que deixaram os filhos para a senhora criar?
R - Sei lá, safadeza dessas sem-vergonha, hein? A desses meninos aí, ela saiu, não vou mentir, nem ela que queria sair, foi eu que disse, esse que chegou, ele era bem pequeninho assim, quando ela foi embora que deixou ele, ela fumava muita droga. Não vou mentir, fumava muito, era doidona no meio da rua. Aí, olha, se aparecesse um roubo na Praia Grande, era ela que pagava. Aí eu disse assim: “Desse jeito não vai dar, é o jeito tirar ela aqui”. Deus abriu os caminhos dela, que ela parou com essas drogas, agora tá trabalhando, pronto.
P - Mas aí o neto ficou aqui?
R - Aí ela deixou os meninos, mas às vezes o povo diz assim: “Ah, ela abandonou o filho”. Não, porque ela tinha abandonado, se ela tivesse ido embora, tivesse deixado, mas já foi eu, pra não ver ela morrer, já fui eu que tirei ela daqui.
P - E os filhos te ajudam financeiramente a cuidar dos filhos deles que estão com a senhora?
R - Não, nunca me deram nada, nada. O maior exemplo é esse que tá no exército, a mãe mora aqui, agora tá pro lado de Jundiaí, só tá a irmã aqui. Você vê, ele tá no exército hoje, ele tem que dar graças a Deus, a Deus e a eu, porque eu quem ajudava a pagar um carro pra levar ele pra São Vicente. Até hoje ele mora na Cota, então a minha carteirinha eu dou pro bichinho, até ele receber pra andar porque eles não dão a passagem, o exército não dá.
P - E de dinheiro pra nesse momento sustentar esse povo todo, como é que a senhora fazia?
R - Não, o vô deles é aposentado, ele ajuda. Quando ele recebe o benefício dele, o pagamento dele, ele vai pro Krill (supermercado em Cubatão) e não volta com nada.
P - E renda da senhora? Como é que a senhora faz pra ganhar um dinheiro seu?
R - Ah, só recebo o da menina e esse que eu faço lá que ajuda ele a comprar. Às vezes falta um arroz, eu compro um pacote de arroz, compro açúcar, compro pão. Todo dia, todo dia eu que dou o dinheiro para eles comprarem o pão, para eles comerem.
P - Então vamos falar sobre essa questão da pista. Como é que a senhora teve a ideia de vender lá na pista?
R - Olha, tinha uma senhorinha aqui que ela dizia, todo dia que ela passava, era que nem essa, ela era mais velhinha, aí ela pedia: “Bora para a pista, bora para a pista vender, mulher” “Não, vou nada”.
Eu tinha medo, né? Depois ela disse: “Vamos embora”. Aí a gente fazia aquelas bandejas de cocada. Aí depois essa daqui morreu, ficou outra, já morreu também, fazia aquelas bandejas de cocada, nós ía. Um dia eles iam filmar a gente, aí ela dizia: “Some daqui. Deixa eu”. Aí um dia um homem sentou e filmou, passou a gente na televisão, uma mulher, uma moça lá de São Vicente, parece que foi, ela compra água, suco: “Ó eu”. Ela é minha cliente, que tá aí, que tão filmando ela lá em cima, foi, aí perguntou se eu conhecia o Zumbi? “Conheço muito”, eles viram também.
P - E como é que foi o primeiro dia, a senhora lembra? Dessa primeira vez que a senhora foi vender lá na pista?
R - Nós fomos por pedágio lá no Humaitá, pegava um carrinho, botava um isopor e saía arrastando de pé até lá e uma bandeja de cocada na cabeça e ia-se embora. Quando nós voltávamos, era de noite. Era bonzinho, vendia, não tinha muita gente que nem tem agora, tem muita gente, às vezes não, já que os de lá vêm para cá. É assim.
P - Mas naquela época era só vocês que vendiam lá?
R - Era.
P - E como é que era? Vocês vendiam só para os carros? Como é que era? Porque a gente precisa visualizar como é que era essa época.
R - Quando parava lá no pedágio para pagar, num para para pagar? Aí quando nós ficava lá, ficava de lado de lá enquanto estava parado para pagar, depois passava para frente e assim ia. Às vezes engarrafava aí, nós vinha caminhando, vendendo.
P - Mas lá o pedágio é longe.
R - É longe. Nós ia de pé e vinha de pé.
P - Carregando mercadoria?
R - Era.
P - Mulher, que vida!
R - E é uma vida, meu filho, esse irmão meu, que chegou aqui, ele disse assim, ele telefonou do Norte, que ele era do Norte, também ficou lá, aí diz que comia lixo que o povo jogava assim, espremia laranja, né? Assim, resto de comida, de jogar no lixo que ele ia catar, ele e um neto, um filho. Aí ele pediu: "Minha irmã, pelo amor de Deus, me ajuda, meu Deus! Hoje eu tenho alguma coisa pra comer em casa e amanhã só quem sabe é Deus, né?” Aí pronto.
Aí tira o pedaço arrastando esse carrinho e essa bandeja de cocada, a mulher fazia as cocadas, enchia uma bandeja para mim e outra para ela, aí o dinheiro que eu vendia, nós partimos para nós duas, aí, daquele dinheiro que eu ficava, já comprava o coco, açúcar, mó de ela fazer para mim, aí quando eu ia vender, já era a minha pra eu vender. Aí fui e fiz o dinheirinho das duas passagens, mandei perguntar quanto era, aí tinha um homem, eu nem dei a ele, senão ele ia comer o dinheiro e não vinha mais, e ficava me pedindo. E eu disse “Meu Deus, eu só tenho que pedir a Deus para me dar força nas minhas pernas mó de eu ir para esse pedágio”, que fiz o dinheirinho, mandei ele embora, está aqui agora, agora mora ali em cima, pertinho dele. Mas eu sofria, meu filho, no pedágio.
P - Mas isso faz bastante tempo que a senhora tá falando?
R - Faz, faz.
P - Mas faz assim, quanto tempo? Mais de 10 anos?
R - É.
P - Faz uns 20 anos já ou mais que a senhora faz isso? Foi porque a senhora chegou aqui e cuidou da criança, que a senhora falou.
R - Era.
P - Ficou um tempo cuidando da criança.
R - É.
P - E como é que veio essa história de ir pra pista? Demorou ainda?
R - Não demorou, não. Aí a senhora que morava ali já vendia, né? Aí ela dizia “bora, bora, mulher, “digo: “Eu tenho um medo” e ela “Não, não, bora” - Aí nós saíamos, aí depois ela faleceu, ficou a outra. Aí nós ia para o pedágio, ia lá para cima, perto da Cota, nós íamos por ali tudo.
P - Mas não era perigoso ir para lá?
R - É, mas nós ia por o acostamento.
P - A gente estava falando do perigo de ir para a pista.
R - É, mas a gente vai por o acostamento e... e assim bora.
P - Mas nunca aconteceu nada assim?
R - Não, graças a Deus, não.
P - E pelo acostamento, e depois quando tem que circular entre os carros…
R - Não. Nós tem muito cuidado. Ainda mais das motos, porque quando as motos vêm, se pegar, voa gente longe.
P - Mas nunca aconteceu nada?
R - Não, graças a Deus, não. [intervenção]
P - Ah, eu tava falando, como é que aborda os clientes lá?
R - Não, eles param pra comprar. E quando eles não param, nós saímos caminhando com as pipocas, com as águas e saímos vendendo. Uns dizem assim: “Eu não tenho”. A gente vende uma aguinha dessa a cinco reais. A pipoca cinco também. Aí tem gente que diz: “Eu não tenho cinco, só tenho quatro” “Vai, me dá”.
P - Aí negociam com a senhora. E aí, mas a senhora ainda vai com dinheiro de papel lá? Ou como é que vocês fazem?
R - É, com dinheiro de papel.
P - Porque agora a maioria, às vezes, é celular, Pix, não sei o quê.
R - É, ela anda com a... Essa que passou aqui, que pegou o gelo, ela anda com maquininha.
P - Aí quando vai vender, eu uso a maquininha dela.
R - Não, ela não deixa. Eu uso o Pix da minha neta.
P - Mas a senhora tem acesso ao PIX dela?
R - Tenho. Ela tirou um xerox e me deu, né? Lá no Cubatão. Ela fez um e me deu.
P - Aí o povo da senhora fala, vai vender a água e dá a chavezinha?
R - Aí eles perguntam: “É cartão ou é o PIX?” Aí eu mostro o papelzinho, aí eles passam.
P - E quando é cartão? Porque a senhora não tem a maquininha, né?
R - Tem, não. Aí eles dizem: “Não tem cartão, não?” Eu digo: “Tem não, meu filho”. Aí eles não compram, porque só é cartão mesmo. E vão-se embora.
P - E vende bastante lá na pista?
R - Às vezes vende, domingo estava tão ruim, tão ruim. Aí na segunda tava melhor, aí eu não fui, já fui de noite, porque nós da igreja temos um curso de corte e costura, né? E a gente tá lá toda segunda feira, aí na segunda deu a fila e nós estava lá! perdido. Aí, quando cheguei, eu disse assim “Riquelme, bora lá, tá parado. Bora lá!” ele disse “Bora, vó!” Aí eu já tinha trocado ela, aí já tinha dado o remédio dela, já era de noite, aí fui e ainda fizemos R$50. “Bora simbora!” Chovendo. [risos]
P - E daqui como é que vocês sabem se a pista tá virando ou não tá virando?
R - Ele olha no celular. Ele olha. Aí ele diz: “Olha vó, tá parando”. Aí nós vamos lá.
P - Porque o legal é quando tá parando e faz uma fila de carro?
R - É.
P - Porque aí você fala, lá agora que a gente vai conseguir. E como é que faz pra comprar os produtos que vai vender lá?
R - O dinheirinho que a gente faz lá, a gente compra, compra um saco, dois de pipoca, um pacote de água, aí vai vendendo e vai fazendo dinheirinho, e vai comprando de novo, de lá mesmo eu mando ele comprar por adega, pro mercado, por aí.
P - Mas aí compra aqui dentro mesmo da vila?
R - É, tem um mercado, tem uma adega ali embaixo.
P - Aí o próprio dinheiro que ganhou já investe para...
R - É.
P - E a senhora estava me falando, como é que ganha esse valor por dia, que a senhora estava dizendo, “ah, tem dia que dá x valor”, como é que é isso?
R - Tem dia, assim, nós faz mais um dinheirinho assim no ano novo, no Natal, né? No Natal nem tanto, só no ano novo, quando eles tão subindo, na descida não, nós não vai não, porque não dá para parar tudo, se para, para mais longe daqui, mais longe, agora, na subida para mesmo, a semana todinha.
P - E aí nessa época de festa é a época que a senhora trabalha?
R - É.
P - E como é que a senhora aproveita as festas?
R - Nas pistas.
P - Mas já teve ano novo que a senhora teve que ficar na pista?
R - Teve.
P - Não, me conta como é que é essa história.
R - Opa, tem, tem, tem ano que quando dá a fila, a gente assim na descida, eu já amanheci o dia, saía daqui, umas 6h e só vinha chegar no outro dia as 6h da manhã, 7h, lá no Vale Verde, no Vale Verde, dormia por lá, essa menina que mora aqui, bem cedo, ela amanhecia assim: “mulher, vai vender o seu restinho de água, povo tudo pedindo água”, aí “a da mãe já acabou”, e ela: “tô com sono, mãe, aí nós vendia as aguinha dela, vinha caminhando e vendendo e vinha se embora.
P - Isso virou à noite lá?
R - Virou à noite.
P - E pra comer, pra fazer as coisas de necessidade, como é que vocês encontravam lugar?
R - Ia pro mato. Era. E comida, bebia uma água, comia uma pipoca. E comida só em casa.
P - Mulher e os filhos em casa, as coisas todas, como é que resolvia?
R - Ficava em casa.
P - Mas dava dinheiro? Valia a pena?
R - Valia.
P - Porque vendia tudo?
R - Vendia tudo, era.
P - E quando voltava pra cá, no outro dia, estava cansada?
R - Isso tava que.... Quando passava por uma padaria para comprar um pão para comer quando chegasse em casa, os homens “Eita mulher, tu virou a noite na pista, e eu digo “Foi” e eles “Deus, Benza a sua coragem, minha filha!”
P - Muita. De ir trabalhando assim.
R - Só Deus, meu filho.
P - Aí, vamos fazer uma diferenciação, que quando a senhora começou há 20 anos atrás, a senhora falou que tinha pouca gente vendendo na pista.
R - Era.
P - E o que que diferenciou? O que que aconteceu que a senhora falou que agora tem mais?
R - Agora tem mais, porque os do Humaitá, do Parque das Bandeiras, vêm tudo pra aqui vender. E os daqui, gente que não vendia, tão vendendo agora também.
P - Mas por quê? O que que aconteceu?
R - Porque eles tá precisando de dinheiro, né? Muitos nem têm essas precisões todas, mas vai.
P - Mas no começo era basicamente a senhora e meia dúzia de vizinhos.
R - Era.
P - E era bom porque não tinha concorrência, né?
R - Era, mas agora não, agora tem gente, viu? E quando os de lá vem, eles chega e diz assim “Você tem que vender essa água por R$7 e a pipoca, você tem que vender a R$7, chega dando ordem, aí eu disse assim: “Mas, imagina, rapaz, vocês lá, vocês vendem o de vocês, no preço que vocês quiser, nós aqui, é o preço da gente ,aqui.”
P - E a senhora veio antes, né?
R - Pois é. E eles ainda falam isso.
P - A senhora que tinha que estar dominando o ponto lá.
R - Eles vêm de lá e vêm fazer isso.
P - Dá briga isso ou fica tudo tranquilo?
R - Não, tem deles que fica com raiva, né? Porque a gente não quer acompanhar o preço deles.
P - E como é que resolve isso?
R - Ah, nós sai andando, vamos embora, “Sai, vai embora, vai pra lá” e outros vai andando e passa deles e deixa eles pra lá e a gente pra cá. Porque eles querem que a gente venda água a sete reais. É muito caro a água dessas por sete reais.
P - E teve algum dia dessas da pista que a senhora lembra que te marcou mais? Algum acontecimento, algum cliente?
R - Teve um ano passado, passou, sacudindo “50 reais pra cada pessoa que tava assim”. Um filho de Deus. Foi eu, foi essa mulher, foi outro velhinho que mora ali, um bocado de gente que tava assim, tudo num lado só. Tudo elas deram notinha de 50 reais.
P - Ah, mas elas não compraram, elas doaram, assim, 50 reais?
R - Elas doaram.
P - Mas era época de festa, alguma coisa assim?
R - Era, no ano novo.
P - E como é que foi esse dia?
R - Eu só via um: “Ó mulher ela te deu dinheiro? A mulher te deu dinheiro? é a fila tava parada, e ela saía sacudindo assim “Ó, isso aí, é seu.” À meia noite, ela chamou e disse assim: ó, isso aqui é seu”.
Outro dia foi bom, outro dia teve um lá, eu estava sozinha em cima de uma biquinha, já na subida para São Paulo, já aí, que é tudo subida, mas lá já fica perto dos túneis para lá. E eu estava lá, aí, chovendo, chovendo e parou um homem ou mulher, acho que uma mulher, e disse ”vá se embora para casa”, aí eu disse “vou já, se continuar assim chovendo, eu vou me embora” - ele botou a mão no bolso e me deu R$500 e disse “Vá se embora, vá se embora para casa.” Aí eu vim me embora mesmo nesse dia, disse “não vai mais vender de jeito nenhum, vá se embora.” Aí comprou umas coisinhas eu, aí ficou olhando, aí mandou eu ir me embora, eu disse eu vou já, aí ele botou a mão no bolso e disse “vá se embora”. Aí eu disse: “indo embora”.
P - E esse foi um dia de chuva. E quando é muito sol? Porque quando é muito sol também arde. Como é que vocês fazem?
R - Ah, nós temos que levar o guarda chuva pra ficar debaixo, debaixo dos pés do pau.
P - Mas na hora que para, vai lá mesmo no sol?
R - É.
P - E aí eu vi que passou a vizinha, a senhora ajudou, né? Deu as garrafas. Como é que é isso?
R - A gente ajunta as garrafas vazias, né? Às vezes pede, as pessoas dão. Aí quem tem um freezer, aí bota. Elas trazem uma garrafinha e a gente ajuda, né?
P - Mas pra que que é essa garrafa?
R - Pra quebrar, nessas garrafinhas aqui, dentro da caixa de isopor.
P - Pra deixar gelado a água?
R - A água, é.
P - E vocês se ajudam aqui? Tipo assim, os vizinhos gostam da senhora, que a senhora conhece. O povo se ajuda?
R - Não. Não se ajuda, não. Essa... Hoje ela me deu dez reais. Dessas quatro garrafas de gelo que ela levou, ela me deu dez reais. “Toma”. Foi. “É o dinheiro do pão amanhã pra os teus filhos”.
P - E por que a senhora não foi hoje pra pista?
R - Não, no meio da semana eu não gosto de ir, mas é hoje, mó dela também, porque é assim, quando é dia de domingo, aí esse Henrique vai mais o avô dele, o avô dele vai também. Aí ele vai e eu fico em casa, faço a comida, dou banho nela, dou remédio dela controlado de 2h. aí, depois de 2h, quando eu dou banho, dou comida e dou remédio dela, aí eu vou e ele vem embora, aí ele fica, eu já deixo o remédio, a continha de dar de noite, que ela toma 3 vezes o dia o remédio. Aí à noite é 3 comprimidos, aí bota um copinho d'água de 5ml e dá pra ela beber, bota um "açuquinha" e dá. Ele sabe, dar ele dá. Já deixei ela trocada, tudo.
P - Mas aí só fim de semana.
R - É. Só no domingo. [intervenção]
P - Mas por que a senhora prefere o fim de semana? Eu sei que tem que cuidar dela, mas é melhor lá?
R - É, é.
P - Mas por quê? Como é que é lá?
R - Por causa que no final de semana agora, aí quando tá sol, né? Todo domingo para, todo domingo, todo domingo.
P - E dá dinheiro lá?
R - Não dá, muito, mas dá, né? Mais dá pra pessoa comprar as outras coisinhas, comprar o pão deles.
P - A senhora tinha vontade de fazer outra coisa na vida?
R - Não. Ah, eu tinha vontade de ir embora pro norte pra trabalhar de enxada de novo.
P - Ah, entendi. A senhora preferia isso?
R - Eu preferia.
P - Não, então me conta isso. Por quê?
R - Porque eu acho bom amanhecer o dia, tá nas roças trabalhando ou fazendo negócio de serviço. Às vezes eu vou em Cubatão pagar uma conta, vou, já distraio a minha cabeça mais. Não lembra de muita coisa ruim.
P - O que a senhora não queria lembrar?
R - Ah, desse filho que tá, desses outros filhos que moram tudo longe. O pai tem problema de diabetes, pressão alta. E não tem, cara, ele não tem um por aqui pra dizer assim: “Eu vou ajudar a minha mãe e o meu pai”. Nenhum.
P - E como é que a senhora faz pra esquecer?
R - Ah, só, sei, esqueço nada, não esqueço não.
P - Eu sei que a senhora é uma pessoa de fé, que a senhora frequenta a igreja até hoje?
R - Frequento.
P - Como é que é a sua relação com Deus?
R - Ah, quando me levanto, converso com Deus, né? Entrego a minha vida, a vida dos meus filhos tudo. Tudo a Deus, a Nossa Senhora.
P - O que a senhora fala com Deus, Dona Iracema?
R - Ah, agradeço por a noite, por o dia.
P - Quando a senhora era pequena, a senhora tinha algum sonho? Queria ser alguma coisa quando crescesse?
R - Queria aprender. Aprendi a ler, mas não aprendi.
P - Mas a senhora chegou a alfabetizar quando a senhora era pequena?
R - É.
P - Mas a senhora queria ter estudado, é isso?
R - Era.
P - E por que não voltou depois?
R - Ah, a cabeça não dava.
P - E a senhora falou que gostaria de voltar para o Norte de novo.
R - Porque a gente vai assim no dia de segunda-feira. O único serviço que desocupou a cabeça um pouquinho, e é nesse corte e costura que tem ali na Vila Natal que a gente vai, que é da igreja também.
P - É um curso que a senhora faz?
R - É, para aprender a costurar.
P - Ah, mas a senhora já costurava antes ou tá aprendendo a partir de agora?
R - É agora, aprendendo agora.
P - Ah, e como é que é esse curso? Conta pra mim.
R - Tem uma mulher da igreja que ensina.
P - E o que a senhora gosta de costurar lá?
R - É emendando coberta pra fazer... Coberta de pano, né?
P - Pra fazer uma colcha de retalho?
R - De retalho, a gente corta, eles doam a roupa para a igreja e aí nós corta aquelas roupas, as que dá para usar, ela doa pro pessoal, tem um brechó dela, também da igreja aí, as que não dá, nós corta, faz e faz avental, faz tapetinho, faz tudo.
P - Ai, que bonito! É uma coisa nova que a senhora tá aprendendo. Tá vendo como a cabeça tá boa ainda?
R - É.
P - Ah, quem sabe também é no futuro um jeito de ganhar dinheiro.
R - É, ela diz que... Costurando. Ela diz que uma baia de calça que o povo tá cobrando onze reais, doze. A gente paga pra fazer.
P - A senhora tem máquina?
R - Tem nada.
P - A senhora tem vontade de ter uma máquina?
R - Ah, eu tinha.
P - Às vezes tem numa máquina. Por exemplo, agora que a senhora está com ela, não pode sair durante a semana. A senhora podia estar costurando. A senhora gosta de costurar?
R - Eu gosto de cortar os paninhos lá, os paninhos para as meninas. É um divertimento para a gente.
P - E com as meninas, como é que é lá?
R - Lá é tudo alegre, tudo conversando, tudo dando risada.
P - E quem são essas meninas que fazem o curso com a senhora, dona Iracema?
R - Duas da igreja, duas mulheres da igreja, duas, e as outras, as vizinhas mesmo, uma pra aqui, outra pra acolá, uma mora lá em cima, outra mora aqui, outra mora lá também, outra mora pra lá. Eu acho dez pessoas, dez mulheres.
P - E como é que junta essas mulheres?
R - Tem as mesas, nós chegamos lá e espalhamos as mesas e cortamos. Uma diz assim: “Hoje eu não vou costurar, hoje eu vou cortar pano mais fulana”. E nós cortamos, todos vamos costurando, e é assim.
P - Isso é lá dentro do espaço da igreja que acontece isso?
R - Não, no Vicentino, aqui na Vila Natal. A mulher que ensina da igreja vem de Cubatão pra ensinar a gente aqui na Vila Natal. É uma casa bem grande, um espaço bem bom.
P - E tem máquina lá?
R - Tem.
P - E essas outras mulheres que se encontram com vocês lá, como é a vida delas? O que elas falam?
R - Que é bom, né? É um divertimento pra gente.
P - Ah, lá sim. Mas a vida delas fora de lá também é boa, é ruim? O que elas falam? As mulheres que vão lá. Você acha que elas têm a vida melhor que a da senhora ou a vida delas é difícil também?
R - Não, é melhor, né? Uma sim, outra não. Tem delas que é aposentada. Trabalhava, recebe um aposento. Mas tá tudo lá, tudo costurado.
P - E é de várias idades ou é só senhoras mais velhas?
R - Não, tem uma mais nova, outra mais velha.
P - É que vocês estão começando um negócio aí. Às vezes é um jeito de vocês ganharem dinheiro.
R - É.
P - A senhora gostaria de trabalhar assim, costurando? O que a senhora acha sobre isso?
R - Não, eu gostava.
P - O que a senhora gosta de costurar? O que é que a senhora sente quando está costurando? A senhora falou que gosta de cortar, gosta de costurar. O que a senhora sente quando está costurando?
R - Ah, me sinto bem.
P - E os filhos, quando eles foram criados aqui, como é que foi a criação deles aqui na vila? A senhora falou que eles estudaram, mas o que aconteceu nessa época que eles eram todos pequenos, até eles crescerem?
R - Não, não sai de casa, não, eu não criei meus filhos pro que procurar, não, eles se separaram agora, depois de já adultos, já mãe de família foi que separou, aí eu fiquei com os netos, os netos também não saí de casa, agora estão saindo por causa que um tá trabalhando no exército, o outro trabalha em Cubatão, entregando água, trabalha numa casa de água, entregando água, já está com 18 anos, tem que trabalhar, já livra de eu comprar uma roupa para ele, um calçado, já é ele que compra com o dinheiro dele.
P - E as crianças nessa época que eram pequenas, elas brincavam aqui na vila? Ou também não tinha nada pra brincar?
R - Não tinha não. Agora que tem aquele negócio lá embaixo do Zumbi, não sei se vocês foram lá, aquela pracinha, aí eles vão pra lá, vão jogar bola, vão brincar de pula-pula, sei lá. Aí vão pra igreja, aí de meio dia pra tarde, no sábado ia estudar o catecismo, fazer o catecismo. Pronto.
P - Seus filhos seguiram tudo a igreja?
R - Tudo.
P - Até hoje?
R - Até hoje.
P - E aí o senhora estava contando que lazer não tinha quando eles eram pequenos?
R - Não.
P - Não tinha nada? Não tinha praça?
R - Tinha o parque Anilina. Quando ele dava pra eu levar eles, eu ia. Quando não dava, tinha outra vizinha aqui que ajuntava eles, enchia uma mochila de pacote de salgadinho, umas águas e tirava com eles pro parque Anilina. Mas ela eu deixava, ela mora ali. Quando dava pra eu ir, eu ia. Quando não dava, ela levava.
P - E aqui vocês estão perto do litoral. Vocês iam pra praia, não iam?
R - Nós nunca fomos. Eles que estão, esse de 18 anos, os dois, eles já vão. Todo final de ano eles vão. Mas a gente nunca foi, não.
P - A senhora conhece o mar?
R - Não, eu conheço, mas um dia, eu fui no Guarujá mais outra colega e quando entrei naquela balsa que eu olhei, que eu vi aquele rio, digo: “e que rio é esse?” Aí ela disse “o mar”, eu disse “se nós cair daqui, morre, nunca mais, eu tenho fé em Deus, que nunca mais você vai me levar para passar naquele rio, dentro da água!”. E eu tenho uma vizinha que mora na Praia Grande, agora ela tá no Norte, aí, de vez em quando, ela chama a gente, aí é perto da praia, ela mora aí, ela diz “bora” - eu digo, “eu vou ficar bem de longe”, aí levo ela e me sento lá em Guarujá, e nós fica sentada e esses 2, eles querem ir, mas eu fico rouca, eu digo “nunca mais de ir na sua casa, você chega lá e inventa de ir para a praia, para os menino ir” com medo deles morrer.
P - Mas praia aqui perto, então vocês nem iam? Você não tinha o costume de ir?
R - Não tem, não tem praia perto aqui não. Não ia não.
P - E uma coisa legal que a gente gostou quando a gente passou por aqui é que a gente viu que tem um jardim bem bonito aqui na frente da sua casa. Me conta desse jardim.
R - Esse jardim nós arrumamos um pezinho e planta em um canto, em outro, em outro e vai plantando.
P - A senhora falou que seu esposo também planta, né?
R - É, viu ele chegar com um pé de rosa? Não sei onde ele pediu esse pé de rosa que já chegou. E já tem, deve ser diferente.
P - Que eu vi, cês plantam no vasinho, mas cês plantam no chão também, aqui no bequinho, né?
R - É.
P - E o que que as pessoas falam dessas plantas também?
R - Oxe! Carrega tanto! Tem uma mulher que mora lá perto de Zumbi, que diz que é crente, eu nunca vi crente andar roubando aqui, nunca vi, nunca vi dizer que crente, anda roubando. Quando amanhece o dia, aqui mesmo tem um vaso que estava com um pé, tava aquela coisa a maior linda o pé de planta, com flor já, oxe, mas tá salvada ali, pega e leva embora, vai embora. Ela ia lá com a bicicleta e uma bolsa de feira.
P - E deixa eu te perguntar, hoje o Beco tá lindo com as suas flores. Suas flores são lindas aqui. Mas era assim também antigamente?
R - Era não.
P - Como é que era antigamente?
R - Tinha só umas carreirinhas daquela papoula. Você sabe o que é papoula?
P - Sim.
R - Então, era só aquilo. Aí nós fomos arrancando e fomos plantando assim.
P - E o bequinho aqui já era estreitinho? Como é que vocês construíram aqui?
R - Era mais larguinho, mas essa mulher, você vê esse muro aqui, ela era muito grande pra ficar com o quintal dela maior, puxou o muro pra cá.
P - Mas a prefeitura fala alguma coisa disso ou ela nem se mete aqui?
R - Nem se mete, a gente cansa de ligar pra vim desentupir essa caixa que tem por aqui. Às vezes vem, às vezes diz que não dá pra entrar o caminhão.
P - E quando precisa resolver as coisas aqui, como é que vocês resolvem?
R - Tem que ir lá, ligar pra lá.
P - Ligar pra onde?
R - Pra prefeitura.
P - Mas aí a senhora falou que eles não vêm, como é que faz?
R - É, eles dizem que vêm, mas não vêm.
P - Então, mas aí vocês têm que resolver, aí como é que vocês resolvem?
R - Tem que comprar um arame, um ferro nas caixas de material e se ajuntar e limpar as caixas.
P - E essa coisa da construção, que a senhora falou, o bequinho era mais largo, né? Mas aí depois o pessoal vai avançando. Dá briga isso ou não?
R - Não dá briga não, porque nós não vamos brigar por... Às vezes a gente só faz falar, assim: “Mulher. Deixa pelo menos um carro, uma pessoa, não dá pra uma ambulância entrar nem nada”. Mas... Quer nem saber.
P - Mas quando vocês foram construindo, a casa era de um jeito. Por exemplo, a casa agora é diferente do que era quando vocês vieram pra cá, não é?
R - É.
P - Então, aí como é que vocês combinam de não avançar o espaço um do outro? Porque, como a senhora falou, o beco era uma cor, agora o beco é outra.
R - Esse daqui, esse terreno da gente, era mais pra lá ainda. Aí o homem que morava ali tomou um pedaço e pronto. [intervenção]
P - Fala, a gente tava falando da construção, a senhora tava falando do vizinho, como é que é isso?
R - É, porque o quintal da gente era maior, né? Aí eles e... Era o homem da prefeitura. “Aí, não, eu vou ficar com esse pedacinho, vou fazer a garagem, não sei o quê”. A gente ia brigar? Não ia brigar, né? Aí, ficou.
P - Porque a casa da senhora também era de madeira, que a senhora tava contando. Mas agora eu tô vendo que é de alvenaria.
R - É.
P - Como é que vocês fizeram essa casa de alvenaria?
R - Olha, dinheiro que a gente ajuntou também, o meu filho que mora na Praia Grande ajuda também, ajudou também.
P - E quem construiu a casa?
R - Pagou o pedreiro.
P - E tudo no bolso de vocês?
R - É, tudo no bolso da gente.
P - E a casa aqui tem documento, não tem documento? Como é que resolve essa questão aqui? Como é que é esse ponto dos documentos?
R - Não tem, não. A gente só tem as contas aqui, o papel assinado, a gente só tem das contas de água, de luz.
P - Mas, assim, aqueles documentos do terreno e tal, não tem?
R - Não, tem um papel assinado pela prefeitura.
P - Ah, da prefeitura. E quando o marido chegou aqui, como é que ele escolheu esse lugar? Como é que foi que ele conseguiu aqui?
R - Não era invadir porque estava desocupado, né? Era só bananeira por aqui.
P - Aqui?
R - Era.
P - E como é que ele conseguiu o lugar?
R - Esses vizinhos que já moravam aqui, tinha deles que já moravam, aí já roça e faz uma casinha aí.
R - Nesse pedaço que é onde essa casa agora?
P - É. Aqui a gente plantava, era coentro, era couve, tudo aí. Essa filha que não tinha onde morar: “Faz, embala aí também, faz outra casinha”.
R - E a prefeitura dava problema com essa coisa de ter invadido? Não. Mas o que que acontecia?
R - Eu não tava aqui ainda quando deu mais. Diz que vinha aqui com polícia, com tudo, era pra derrubar mesmo. Nesse tempo parece que era Nei Serra ou era Passarelli, que era um dos dois, que era prefeito.
P - Mas seu marido já tava aqui nessa época?
R - Já.
P - E o que que ele contava dessa história?
R - Ah, contava que brigava, discutia mais eles. Eles iam-se embora, depois voltava de novo. Até que deixaram.
P - E só pra gente voltar pra um pedaço que a gente tá falando dessa coisa da briga, né? A gente sabe das manifestações que tiveram na pista. Muitos anos atrás, a senhora chegou a ver isso ou não tava aqui nessa época? Quando pararam a pista?
R - Tava.
P - A senhora lembra desse episódio?
R - Não.
P - Tá bom, não tem problema. É o que a gente lembrar, não tem problema. Então, vamos voltar pra coisa do lugar, daqui, do local. O que tem de diferente na vila quando a senhora chegou e agora? O que a senhora vê de diferente? Se a senhora parar pra pensar assim, olhar pro passado e falar, “nossa, isso tá diferente”.
R - Ah, as ruas, as casas, que não tinha... Essas casas, tudo, as casinhas, a coisa, ela tá diferente mesmo.
P - Mas como eram essas casas antes?
R - Era tudo casinha de madeira, taquinho de pau, era assim.
P - Mas tinha bastante gente assim como tem agora?
R - Tinha.
P - Já era cheio assim?
R - Já era cheio.
P - E lá na Avenida Principal, o que a senhora viu de diferente?
R - Lá mudou muito, né? Não tinha aquelas casas, não tinha aqueles asfaltos, né? Que asfaltaram tudo, agora tá bom.
P - E o trem, já tinha lá?
R - Já. O trem, já.
P - E como é que era lá o trem? Porque aqui a gente quase não escuta o trem. Como é que era lá?
R - Escuta, só quando ele vai sair, que os meninos veem, que eles gostam de cortar as borrachas, né? Aí para poder roubar, aí a gente vê quando eles vão, e passa, quando a gente vem da pista que tá parada, a gente tem que ir por aqui, por onde essa outra foi.
P - Então, porque quando a senhora vai pra pista, passa por lá também, né?
R - É, por a linha. Aí nós tem que arrodear, fizeram uma passarela.
P - E quando não tinha passarela?
R - Tinha que esperar, né? A hora que eles saíssem era que nós saíamos da beira da linha.
P - Mas acontecia alguma coisa nessa época? Que tinha que esperar tudo? Que não tinha passarela?
R - Não. Às vezes morria gente, mas era as que ia se trepar no ônibus, né? No ônibus, no trem. Aí...
P - Mas a senhora nunca viu nada?
R - Já, eu vi... O que morreu ficou lá, os pedaços lá, eu vi.
P - Ah, mas como é que foi essa história?
R - Ele ia em cima do trem, eu acho que foi pular de um vagão pro outro, caiu no meio.
P - A senhora chegou a ver isso?
R - Os pedaços, ainda vi os pedaços.
P - O que que a senhora achava disso? Dessa coisa?
R - Ah, ficava triste, né? Era que era filho de uma vizinha também, que mora lá também, a bichinha chorando.
P - E aqui pra vila, o que a senhora acha que precisa melhorar hoje? Na sua vida?
R - Ah, aterrar, vir limpar essas bocas de lobo, né? Pra essas águas descer, pra não entrar mais. Isso que a gente queria.
P - Essa é a coisa que a senhora acha que é mais importante hoje?
R - É, mais importante.
P - E... Só pra gente equilibrar, o que a senhora acha que tem de bom na vila?
R - Ah... Não, tá tudo bom. O único problema é só essa água.
P - Então, aí vamos falar uma coisa que a senhora fala, “isso aqui é bom na vila”. Vamos tentar dar um exemplo, que pra senhora é bom.
R - Os ônibus, que não tinha, a gente aí ia de pé pra Cubatão. Agora a gente vai por aqui, chega aqui, para o ônibus aqui em cima, a gente pega. Tem outros ali na principal. Tudo é bom.
P - Mas pra ir vender na pista ainda tem que ser a pé?
R - Ah, é a pé. Arrastando no carrinho.
P - Então falta um ônibus pra levar vocês pra lá também.
R - É, mas esse não tem não.
P - Tem alguma coisa que a senhora queria contar da sua vida? Ou qualquer coisa que a senhora queria falar que eu não perguntei? Que eu não cheguei no ponto? Qualquer coisa.
R - Não, só tem essa que eu disse que nós passamos muita fome, né? Quando morava no meu pai, que saía pro mato caçar essas coisas, só isso.
P - Então, conta mais sobre isso, porque a senhora ficou com vontade de contar. Como é que era isso? Pode falar, fica à vontade.
R - Ah! A gente não tinha, não tinha dinheiro, não tinha nada, aí tinha que sair com os balainho e meu pai com uma vara para tirar essas coisas. Eu saí como daqui no Parque das Bandeiras, atrás de um bolo de massa para fazer, para minha mãe fazer uns beijus para nós comer e quando minha mãe acabava de tirar a panela do fogo, já não tinha mais beiju, não tinha mais nada, de tanta necessidade que a gente passou.
P - Seus pais já faleceram?
R - Já.
P - Do que que eles faleceram?
R - Ele já era velhinho demais. Meu pai foi de câncer, agora minha mãe não.
P - E se a senhora voltasse pra lá?
R - Pra lá mesmo, pra onde eu morava? Não, porque é pra ver a casa do meu pai, da minha mãe. Eu não tenho mais coragem de vir.
P - Mas a senhora falou que iria pro Norte, por exemplo. Pra onde no Norte?
R - Assim... Pra Viçosa, Maceió.
P - Seria pra uma cidade maior.
R - É. E eu tenho família lá também.
P - Como a senhora se sente hoje na Vila Esperança?
R - Eu me sinto bem, né? Com saúde, com essas cruz. Pelo que já passei não mão desses filhos, mas…
P - Tá certo, Dona Iracema, a gente agradece a sua entrevista. Foi muito bom, muito obrigado, viu?
R - De nada.
P - Boa sorte na sua vida. E olha que a senhora pode costurar ainda, que eu acho que a senhora tem talento, hein?
R - Tá bom.
P - Obrigado, Dona Iracema.
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