Entrevista de Cíntia Machado de Oliveira
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Roque, 19 de dezembro de 2025
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV002
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revista e editada por Nataniel Torres
00:00:22
P1 - Então, pra começar, eu queria que você contasse um pouco sobre você, começando, se apresentando, o seu nome, a data do seu nascimento e onde você nasceu.
R - Meu nome é Cíntia Machado de Oliveira. Eu sou taboense da Serra e tenho 46 anos. Nasci dia 4 de abril de 79.
00:00:47
P1 - Me conta como é o nome dos seus pais.
R - Meu pai chama Nicanor de Oliveira. Ele é fluminense, de Paraty. E minha mãe, Avani Machado de Oliveira, é do Ceará, de Fortaleza.
00:01:03
P1 - E você sabe um pouco sobre essa origem deles? Você chegou a conhecer os seus avós?
R - Não conheci os meus avós. Eu sei um pouco da história deles através de conversas com os meus pais. Sei um pouquinho, assim. Sei principalmente do meu avô paterno, que era um mestre lá de reisado em Paraty. E ele era neto de escravizados, ele nasceu no século 1898, se eu não me engano, e um homem negro, e minha avó paterna era uma mulher indígena e os meus avós maternos, a minha avó teve 12, acho, ou 13 filhos, não sei exatamente, porque perdeu alguns pelo caminho. E… ela era bordadeira e o meu avô era caixeiro viajante. E o meu avô, ele não deixava a minha mãe nem as minhas tias estudarem quando nem em escola, né? E aí ele contratou uma professora pra dar aula em casa e fugiu com essa professora e largou minha avó com os 13 filhos. Partiu. E aí minha avó criou todos os filhos sozinha.
00:02:43
P1 - E como você descreveria seu pai e sua mãe?
R - Meus pais, pessoas totalmente antagônicas, diferentes absolutamente, assim. Mas eles são velhinhos já, né? Têm mais de 80 anos, os dois. Minha mãe me teve com 36 anos, na época já era velha, né? Pra ter filho na época, hoje...
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Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Roque, 19 de dezembro de 2025
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV002
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revista e editada por Nataniel Torres
00:00:22
P1 - Então, pra começar, eu queria que você contasse um pouco sobre você, começando, se apresentando, o seu nome, a data do seu nascimento e onde você nasceu.
R - Meu nome é Cíntia Machado de Oliveira. Eu sou taboense da Serra e tenho 46 anos. Nasci dia 4 de abril de 79.
00:00:47
P1 - Me conta como é o nome dos seus pais.
R - Meu pai chama Nicanor de Oliveira. Ele é fluminense, de Paraty. E minha mãe, Avani Machado de Oliveira, é do Ceará, de Fortaleza.
00:01:03
P1 - E você sabe um pouco sobre essa origem deles? Você chegou a conhecer os seus avós?
R - Não conheci os meus avós. Eu sei um pouco da história deles através de conversas com os meus pais. Sei um pouquinho, assim. Sei principalmente do meu avô paterno, que era um mestre lá de reisado em Paraty. E ele era neto de escravizados, ele nasceu no século 1898, se eu não me engano, e um homem negro, e minha avó paterna era uma mulher indígena e os meus avós maternos, a minha avó teve 12, acho, ou 13 filhos, não sei exatamente, porque perdeu alguns pelo caminho. E… ela era bordadeira e o meu avô era caixeiro viajante. E o meu avô, ele não deixava a minha mãe nem as minhas tias estudarem quando nem em escola, né? E aí ele contratou uma professora pra dar aula em casa e fugiu com essa professora e largou minha avó com os 13 filhos. Partiu. E aí minha avó criou todos os filhos sozinha.
00:02:43
P1 - E como você descreveria seu pai e sua mãe?
R - Meus pais, pessoas totalmente antagônicas, diferentes absolutamente, assim. Mas eles são velhinhos já, né? Têm mais de 80 anos, os dois. Minha mãe me teve com 36 anos, na época já era velha, né? Pra ter filho na época, hoje em dia não. Mas eles são ótimos, assim, são queridos.
00:03:17
P1 - O que eles fazem, faziam?
R - Meu pai é aposentado, ele era metalúrgico e minha mãe costureira. Ela nunca atuou profissionalmente, trabalhou em empresa, ela sempre trabalhou em casa e trabalhou comigo um período também. Eu venho dessa linhagem de costureira, bordadeira, por isso que eu seguia a profissão das mulheres da família.
00:03:43
P1 - Quando você era pequena, você via assim? Você aprendeu com a sua mãe a costurar?
R - Muito! Eu vivia dentro da máquina de costura, literalmente. Eu fazia... porque ela trabalhava numa máquina de costura que era uma caixa de madeira e era aquelas que ainda tinha pedal, né? E tem uma roda de ferro bem grande, eu entrava dentro da máquina e fazia de carro, de nave, era um brinquedo pra minha máquina. Então eu cresci acompanhando minha mãe. Ela sempre me ensinava coisas, a costurar, a bordar, a fazer roupa de boneca, eu cresci acompanhando minha mãe mesmo, assim, por isso que me apaixonei, eu acho, pela profissão. Pra ela não era uma profissão, pra mim virou uma profissão, né?
00:04:38
P1 - Mas ela trabalhava com isso ou era mais...
R - Ela fazia roupa pra gente. Porque a gente vivia uma situação... É... nunca nos faltou nada, mas não era também abundante como é hoje, assim, né? Então ela fazia roupa pra gente, e para Natal, para as festividades, ou quando a gente queria passear em algum lugar, ela fazia. Ela dava aula em igreja, em clube de mães, mas não era remunerado. Ela dá aula até hoje em clube de mães. Ela trabalhou um período dando aula de artesanato na antiga Febem, né? Que hoje é... Como que chama?
P1 - Fundação Casa.
R - Fundação Casa. Por um período, assim, eu acho que foi o único trabalho mesmo, assim, fora de casa, né? Que ela foi remunerada. E comigo, ela trabalhou um período comigo, assim, uns sete anos comigo. Fazendo, me ajudando com os figurinos. Quando eu comecei, ela era a costureira que eu tinha. Depois eu ampliei, aí... Contratei outras pessoas, mas ela ficou um tempão trabalhando comigo.
00:05:44
P1 - E você tem irmãos?
R - Eu tenho uma irmã deste casal, mas meu pai teve dois filhos antes do casamento, que eu mal conheço, assim, conheço de vista, mas não tenho nenhuma relação com eles.
P1 - E como é que era a relação com a sua irmã durante a infância? Como que é o nome dela?
R - É Ana Paula. Ela sempre foi uma referência pra mim, assim, porque ela era muito... É muito inteligente, ela sempre foi a primeira da classe, sempre foi… a gente é muito diferente, porque ela sempre foi muito mais quietinha, mais comportada, e eu sempre fui um furacão desde que eu me conheço por gente. Eu tenho algumas questões com ela, por ela ser mais velha, ela abusava de mim em alguns aspectos, do tipo, minha mãe pedia pra ela arrumar, a minha mãe ia sair: “ó, você arruma a casa, você lava a louça”, sei lá. E aí ela fazia uma mala e falava: “ó, se você não lava a louça eu vou embora”. Fazia a cara de que a gente ia embora e não ia voltar, aí eu ia lavar a louça. Ou falava que eu tinha sido achada na lata de lixo, que eu não era filha dos meus pais Essas coisas de irmã mais velha, mas ok, ela cuidava de mim, cantava pra eu dormir, me contava histórias, é uma relação boa Hoje a gente não é tão amiga, mas a gente se ama muito, porque a gente tem ideais muito diferentes, mas a gente se ama muito.
00:07:21
P1 - E me conta se tem algum cheiro, alguma festa ou alguma tradição de família que lembre a sua infância.
R - Nossa, isso é muito louco, porque eu tenho uma memória olfativa, assim, muito presente. Então, todas as minhas... boa parte das minhas memórias, boa parte das minhas memórias, eu sinto o cheiro daquilo. Então, uma coisa que a gente fazia muito era visitar a minha família na Zona Norte, de final de semana. E aí a madrinha da minha irmã, que era a minha tia Maria, a irmã do meu pai, a gente chegava no portão, ela vinha de tamanquinho, vestidinho florido, bem magrinha, linda, e aí eu sinto esse cheiro dela vindo receber a gente, sabe? Aí chegava, tinha aquela mesa posta, eu sinto esse cheiro muito. Ah, sei lá, eu sinto muito cheiro de tudo, assim, na minha família, porque a gente fazia... O meu pai ficou muito próximo da família da minha mãe, que são cearenses, né? A gente sempre conviveu muito mais com a família da minha mãe do que com o meu pai. E eles eram muito animados, muito animados. Então tinha forró todo final de semana, eles bebiam, cachaçavam muito. E aí reunia, sei lá, 60 pessoas numa casa de final de semana. Criança, mulher, cachorro. E ficava no final de semana, viajava no final do ano, ia pra praia. Sempre foi uma farra. Então eu cresci nesse ambiente mesmo, de festa. Principalmente de forró, de dançar. Eu sempre gostei muito de dançar desde pequenininha. E isso tudo me traz essa memória olfativa, sabe? De festa, de cheiro de cerveja, de comida, de macarrão. Muito, assim.
00:09:27
P1 - E tem alguma história dessas festas que tenha sido marcante? Uma festa específica?
R - Deixa eu pensar. Nossa, tem tanta, cara. Eu aprontava muito, né? Desde pequena, assim. Eu mudei meu nome com três anos. Apanhei até voltar a chamar Cíntia. De repente, eu assumi que eu ia (me) chamar Débora. Eu tinha três anos, eu me lembro disso. E meu pai falava: “Como você chama?” Eu: “Débora”. “Não, você chama Cíntia”. “Eu (me) chamo Débora”. Apanhei e aí voltei a me chamar de Cintia. Então eu sempre fui muito ativa. Aí, por exemplo, a nossa primeira viagem pro Ceará de avião. Eu tinha seis anos. Era muito difícil você ter acesso à passagem de avião na época e tal. E meu pai trabalhava o ano inteiro pra... Aí a gente ia ficar... Era o casamento de uma prima, e ia toda a família de São Paulo para o Ceará para essa festa, então sei lá, umas 200 pessoas. E aí fomos, a gente ia ficar uns 15 dias. No primeiro dia que a gente foi para a praia, a gente estava brincando no quintal, jogando bola e tal, eu quebrei meu braço, caí do muro, quebrei meu braço. Aí eu passei o resto da viagem, eu ia para a praia, eu lembro pequenininha, uma cadeirinha de praia, minha mãe colocava na beirinha, eu ia com o braço para cima, curtindo a praia e as crianças brincando. Então tem muita memória, porque, sei lá, de querer dançar forró até de manhã, pequenininha. E a minha irmã, como sempre foi mais mimadinha e tal, mesmo sendo mais velha, só dormia se fosse comigo. Aí queria dormir, começava a chorar. “Porque eu quero a Cíntia, porque eu quero a Cíntia”. Aí eu era obrigada a ir dormir com ela e puta da vida que eu queria dançar forró e não podia, tinha que dormir. Ah, tem muitas memórias boas, lembranças boas, assim.
00:11:38
P1 - E você sabe como seus pais se conheceram?
R - Então, a família do meu pai é de Paraty e se estabeleceu aqui em São Paulo, os irmãos, na Zona Norte, na Casa Verde, Cachoeirinha. E aí alguns irmãos da minha mãe vieram pra São Paulo e um sobrinho da minha mãe abriu uma mercearia na Zona Norte, na Casa Verde, um armarinho, alguma coisa assim. E aí eles se conheceram. E aí minha mãe veio uma época pra cá e eles se conheceram, mas meu pai era o maior safado, tinha várias namoradas e tal. Eu acho que ela morou num internato que ele morava, alguma coisa assim. Aí se conheceram, ela voltou pro Ceará e ele foi pra lá atrás dela. Só que a minha família do Ceará era meio racista e meu pai é preto. Aí o meu tio tentou atropelar meu pai, queria matar meu pai porque não queria que eles namorassem. Mas aí no fim ela veio pra São Paulo e eles começaram a namorar.
00:13:06
P1 - E te contaram como que foi o dia do seu nascimento? Você tem alguma ideia de como foi?
R - Então, tava tendo uma festa de família. Eu sei que tava todo mundo bêbado. Tanto que, na verdade, eu nasci no dia 6 de abril, no meu documento é dia 4, porque meu pai foi me registrar com os homens da família, todo mundo breaco, e ele não lembrava a data que eu tinha nascido, ele falou dia 4. Sei lá, foi um dia de festa, assim. Eu imagino. Eu sei que eu inaugurei a primeira maternidade do Taboão da Serra. Fui a primeira bebê a nascer lá. Acho que é isso que eu me lembro, sim. Eu sei que a minha mãe tinha muita dificuldade de engravidar, ela tinha perdido duas gravidez... tinha tido duas gravidez antes de ela ter minha irmã e depois ela demorou mais cinco anos pra conseguir engravidar, então foi uma gravidez bem complicada, porque ela fala isso até hoje: “Ai, você me fez sofrer”. Ela sofreu bastante, sim. E isso assim, mas é uma benção, eu sou a caçula.
00:14:33
P1 - Queria que você me contasse um pouco, se você lembra e se você quiser descrever como era a casa que você passou a infância.
R - Lembro. O que eu me lembro, foram dois momentos dessa casa. Eu me lembro dela, era uma casa amarela, com um quintal bem grande na frente, assim, no fundo uma garagem, era uma garagem de vidro, e meu pai tinha um fusca branco, e eu me lembro, inclusive, toda vez que ele chegava, ele buzinava da esquina, assim, a gente já sabia que era ele pra ir abrir o portão pra ele, e a casa amarela tinha um jardim com uma roseira na frente, e tinha uma areazinha na frente, parecia casa de vó, sabe? Essas casas de vó que tem uma areazinha, assim. E aí, só que ali era um bairro que dava enchente. Então, eu me lembro que encheu uma vez, e aí a gente se mudou de lá e foi morar no Brás, num apartamento na frente da casa de uns tios, por um período, que era um apartamento muito legal também, a gente chamava de apartamento, mas era um só, não tinha andares, que tinha um corredor enorme, assim, que eu andava de bicicleta nesse corredor, tipo, iluminado. E a gente brincava muito lá, foi muito legal esse período também. Eu tinha uns quatro anos, assim. E depois meu pai reformou a casa e a gente voltou pra lá, pra essa casa. E aí virou uma casa de lajota, tinha a mesma estrutura, só que ele construiu no fundo mais um quarto e um banheiro, pra se caso enchesse de novo a gente ter onde se refugiar. E aí a gente ficou lá até, acho que os meus 16 anos, que aí encheu de novo e meu pai comprou uma casa no Campo Limpo. [intervenção] E aí, logo que meus pais se mudaram pra essa casa no Campo Limpo, eu saí de casa. Eu saí de casa com 17 anos, que eu engravidei e fui morar sozinha.
00:17:23
P1 - E me conta um pouco como essa casa que você tá contando era em Taboão da Serra?
R - É, era São Paulo, mas divisa com Taboão. Eu só nasci no Taboão, mas a gente sempre viveu em São Paulo.
00:17:35
P1 - E como é que era a vizinhança dessa casa? Vocês tinham animais?
R - A gente sempre teve. A gente tinha uma cachorrinha que era da minha irmã, uma pequinês, que(se) chamava Puppy. Ela era linda. A gente teve o Barão, que eu não cheguei a conhecer, mas eu vi foto, que era um pastor. E depois o Tobby, que era um poodle muito doido, muito bravo, muito louco. Sempre tive cachorro. Sempre. Sempre cresci com cachorro. E a vizinhança era maravilhosa, tinha muitos amigos, a gente brincava na rua todo dia, andava de bicicleta, brincava na rua, todo tipo de brincadeira. Nossa, fazia festa junina na rua, ou quando ia ter eclipse, a gente se juntava, montava acampamento na rua pra assistir o eclipse com aquele negócio de raio-x. Era uma festa, assim. Cresci com muitos, muitos amigos mesmo, assim, da rua, de todas as idades. Muito legal.
00:18:46
P1 - E como é que era esse bairro? O nome?
R - Chama (se) Vila Prado. Jardim Jussara ou Vila Prado. E tinha um campinho, e aí tinha a inimizade entre as outras ruas, as pessoas das outras ruas. Uma vida, uma infância clássica, assim, gostosa, sabe?
00:19:08
P1 - E o que você gostava de brincar nessa época?
R - Eu gostava de queimada, gostava de jogar vôlei, porque eu queria muito ser jogadora de vôlei. Nossa, de tudo, esconde, esconde. Taco, brincadeira, uma das melhores brincadeiras. Guerra de mamona, a gente passava o dia caçando mamona pra fazer guerra, montava umas trincheiras e fazia guerra. No final do dia tinha que cortar o cabelo, tava tudo cheio de mamona, tudo machucado. Carrinho de rolemã, pipa, tudo. Nossa, muita coisa.
00:19:50
P1 - Eu queria que você contasse um pouco se nessa época você tinha convivência para além dos animais que a sua família tinha com animais na vizinhança assim ou era uma coisa mais da sua família?
R - Não, a gente tinha... Eu tinha convivência com os bichos de todo mundo, assim. Eu acho que as pessoas hoje perderam muito esse sentido de comunidade. Na minha infância, um cuidava do outro. Então, tinha aquela coisa de: "vizinha, me empresta uma xícara de açúcar?" "Vizinha, a minha filha tá com vontade de comer banana, você tem?" Senão a criança ficava doente, sabe? E como a gente tinha esse problema de enchente, isso se fortaleceu mais ainda, porque, sei lá, se eu perdia meu material escolar, o vizinho que tinha compartilhava comigo, né? E a gente convivia com bicho de todo mundo, todo mundo cuidava dos bichos de todo mundo, era uma grande comunidade mesmo, né?
00:21:02
P1 - E você se recorda dessa época que tinha enchente? Você lembra disso?
R - Eu lembro, eu lembro bem. Eu acho que eu passei por umas três enchentes. Porque era um bairro que enchia. Quando meu pai comprou a casa, ele chegou a passar por isso. Porque antes dos meus vizinhos se mudarem pra lá, umas quatro casas da rua moravam parentes meus. Pessoal que veio do Ceará e tal, alugou casas ali. Depois teve a primeira enchente. Eu não era nascida. Teve a primeira enchente, foi todo mundo embora, ninguém aguentou. Meu pai ficou e aí começaram a chegar mais vizinhos, né? Então, eu me lembro de umas três, de ser muito louco, assim. Ao mesmo tempo que era muito horrível, porque enchia tudo, a gente perdia tudo. Enchia dois metros de altura, assim. E quando a água baixava era um trampo ter que limpar tudo aquilo. Mas, ao mesmo tempo, também tinha essa coisa de todo mundo se ajudar. Então, todo mundo virava um mutirão, por exemplo. Às vezes, enchia a minha rua, mas não enchia a outra rua. Aí, uma casa da outra rua acolhia todas as crianças para passar a noite, enquanto os pais iam limpar. Foram períodos muito difíceis, mas também tinha esse sentido muito forte de comunidade, que eu valorizo até hoje.
P1 - De muita solidariedade.
R - Exatamente, né?
00:22:57
P1 - E eu queria que você contasse um pouco como foi o período da escola, quando você começou a estudar, onde que você estudou?
R - Eu me lembro a partir do jardim. Eu estudava ali perto, na região, chamava João Negrão (EMEI Coronel João Negrão, no Jardim Celeste), a escola. E eu me lembro, eu não me lembro do dia a dia, coisas que eu me lembro assim, é que eu gostava muito de cantar, então eu fazia shows, vários meus amigos da sala. Eu sempre fui figurinista. Impressionante, assim, porque eu fazia… Desde eu era artista, que dançava, que cantava, fazia os figurinos, fazia o cenário, fazia os convites, chamava todo mundo, organizava a rua, sei lá. E na escola era a mesma coisa. Eu me lembro, uma memória muito forte dessa escola é isso, assim, de eu cantar. E cantava, sei lá, uma música, eu cantava... A Xuxa tinha uma música que ela cantava pro cachorro dela. Como ele (se) chamava?
P2 - Xuxo!
R - Xuxo! E ela chorava no final e eu fazia essa performance. E eu gostava também de Flashdance e Menudo. E nessa escola eu me lembro disso, com 4, 5 anos. E aí depois eu fui pra uma outra escola que chamava de tia Nastácia, foi o pré. E depois eu fiquei da primeira à oitava série no Jacyra Moya (Escola Estadual Prof. Jacyra Moya Martins Carvalho), que era no bairro também. Que aí foi um período longo, que eu fiz grandes amizades, que eu tenho até hoje. E a maioria das crianças da minha rua estudavam, das crianças do bairro estudavam lá. Então, fiz grandes amigas, fiz grandes inimigas também. Já quase apanhei. Arrumava umas tretas, enfim. Mas foi um período ótimo. Me apaixonei pela primeira vez nessa escola. Beijei pela primeira vez nessa escola. Trabalhei na biblioteca. Me enfiava, assim, dava aula de... Eu tava na quinta série, faltava uma professora e eles me chamavam pra dar aula. “Professora substituta”. E eu incorporava muito o personagem da professora. Dava bronca, batia a régua da mesa. Ai, terrível.
00:25:31
P1 - E nessa época, você contou que você tinha vontade de ser jogadora de vôlei. Você gostava muito de vôlei.
R - Sim.
P1 - Mas tinha alguma outra coisa que você queria ser quando crescesse?
R - Artista. Eu queria ser artista. Dançarina. Eu queria ser dançarina, eu acho. Eu gostava muito de dançar e jogadora de vôlei. Eram os meus sonhos, assim, era o que eu mais pensava.
00:26:06
P1 - E tem alguma amizade dessa época, você falou que algumas você trouxe até hoje, que tenha sido marcante pra você?
R - Ah, eu tenho um grande amigo, que é o Davi, que ele... Na verdade a minha melhor amiga era a irmã dele. A gente se conheceu, eu tinha 4 anos e ela 3 e ele tinha 2. Nessa época a gente não era tão próximo, eu e ele, mas eu e ela éramos muito próximas e a gente ficou amiga até sempre. Até... Ela foi para o Japão e... Eu devia ter, sei lá, uns 15 anos quando ela foi embora. Então, ela era a minha melhor amiga de viajar com a minha família. Ela virou integrante da minha família. Festa, ela sempre estava dormindo na minha casa, dormindo na casa dela. Melhor amiga. Só que o Davi, aí ela foi embora e ficou anos no Japão. E o Davi, a gente se aproximou na pré-adolescência. Ele sempre conviveu com a gente. Mas era menino, né? Então na época tinha essa coisa de menina, menina. Só quando eu juntava todo mundo pra fazer brincadeiras coletivas que... Mas no dia a dia era mais, né? As meninas umas nas casas das outras e tal. Mas ele é meu amigo... Eu tenho 46? Gente, 43 anos, 42 anos. Ele tinha dois anos quando a gente se conheceu. Eu me lembro do dia que a gente se conheceu. Ele tava brincando, eu virava a minha bicicleta de cabeça pra baixo e fazia pipoqueira, assim. E eu tava brincando, eles chegaram, a gente começou a brincar. E aí a gente virou amigo na adolescência e sempre saiu, curtiu. E aí a gente trabalhou juntos com cenografia. Quando eu comecei a trabalhar com figurino, ele me ajudava na parte estrutural da cenografia, a gente trabalhou anos, acho que uns sete anos juntos. E somos amigos até hoje, assim, grandes amigos mesmo. Até hoje. A gente se vê, a gente se viu na manifestação da Semana das Mulheres, semana retrasada. Um parceiro, um grande parceiro.
00:28:13
P1 - E você estava contando que você trabalhou na biblioteca, mas nessa época você começou a trabalhar ou foi depois?
R - Eu comecei a trabalhar com... eu sempre quis trabalhar, eu sempre quis ser independente, assim, né? Desde pequenininha, tanto que eu mudei meu nome. Eu, na verdade, eu me apaixonei por um menino na escola e ele estudava à tarde, eu estudava de manhã. E, às vezes, eu tinha que... eu ia pra escola pra dar aula como substituta à tarde. E aí eu falei: "não, eu quero um emprego fixo porque eu quero ficar perto dele". Mas eu não ganhava dinheiro, eu não era remunerada. E aí eu me propus a organizar a biblioteca da escola, que não era usada. E aí eu fiquei lá, sei lá, um semestre, acho. Organizei toda a biblioteca, passou a funcionar. Só pra estar perto do menino. E ele nunca pegou um livro. E aí eu ficava lendo também. E aí eu comecei a trabalhar com 13 anos, que aí eu comecei a frequentar matinê, danceteria, assim, e aí eu conheci uma... eu frequentava uma danceteria que se chamava Enigma, que era na Henrique Schaumann, e de domingo, das quatro às dez, e aí adorava ir lá. Era uma briga com a minha família, porque meu pai não queria deixar eu sair. Eu mentia pra poder ir. Falava que ia pro shopping, me trocava, ia toda arrumadinha de shopping, mas me trocava dentro do ônibus pra ir pra danceteria. E aí conheci o dono lá. E aí comecei a trabalhar lá. Ganhava uma merreca também, sei lá. Nenhum salário mínimo, era só pelo prazer de trabalhar. E eu estava na oitava série ainda. Nossa, eu me desdobrava, porque eu estudava de manhã. Chegava em casa, almoçava, pegava ônibus, ia trabalhar, trabalhava até umas sete da noite pra ter VIP, sabe? Pra ir no domingo na danceteria. Trabalhei uns seis meses lá. E aí, com 14, eu comecei a trabalhar no McDonald's. Foi o meu primeiro emprego registrado. Aí trabalhei um período no Mc. Acho que 15, eu tava entrando no colegial.
00:30:38
P1 - E você lembra da sensação, assim? Você tava contando que você queria ser independente. Você lembra se trabalhando você sentia essa sensação?
R - Ah, sim. Sim, porque eu tinha, sei lá... Eu passei a ter as coisas que eu queria. Era tudo muito difícil. Meu pai não comprava as coisas pra gente. Não era como hoje. Minha filha, por exemplo, sempre teve tudo o que ela quis, assim, né? Na medida do possível. E meu pai, não. Meu pai… Ah, era difícil. Como é manter uma casa com duas filhas e a esposa? Então, eu tinha essa sensação de ser um pouco mais autônoma, de ser mais independente, de, sei lá, poder comprar uma roupinha, um livro, ir no cinema. Eu ajudava meus pais, sei lá, pra começar a pagar uma conta de luz. Sempre foi o meu objetivo, assim, né?
00:31:49
P1 - E o que você gostava de fazer durante a adolescência?
R - Jogar vôlei, dançar e, basicamente, jogar vôlei e dançar, ficar com os meus amigos, ler - gostava muito de ler - ir ao cinema, beijar na boca, e era isso, basicamente.
00:32:26
P1 - E tem algum livro que você tenha lido nessa época que foi marcante?
R - Nossa, eu lia muito. Eu tinha umas professoras de português que estimulavam muito a gente ler. Então eu li Agatha Christie, todos. Aquela coleção, como que chama? Que tem o Escaravelho do Diabo. Eu não me lembro o nome da coleção.
P2 - Vagalume.
R - A coleção Vagalume, todos. Então a gente tinha que ler, resumir, falar lá na frente. E eu tinha muito essa coisa de, como a minha irmã era gênia, eu não era gênia, porque eu era rebelde. Eu era inteligente, mas eu não me dedicava tanto. Eu ia bem sem precisar me dedicar tanto. Pra mim, um B tava bom, a minha irmã não, né? Mas eu tinha essa coisa de, “nossa, eu quero ser como ela”. Porque eu era muito comparada também. “Ah, sua irmã só tira nota 10”. Então a gente... Ah, então eu... Eu lia muito, né? Eu queria muito também isso, né? Mas, enfim, não é nem isso. Uma questão que veio da minha cabeça. Deixa eu ver. Aí eu gosto muito de biografia. E aí, com 14 anos, eu comecei a curtir muito rock, sei lá, virei meio hiponga, assim. Então, eu curti a Janis Joplin, Raul, Jimi Hendrix. Comecei a andar descalça na rua, meio hippie. Meu Deus! E aí eu li, a primeira biografia que eu li foi a do Raul. Esse foi o livro que me marcou, assim. E os livros do Paulo Coelho também me marcaram. Sei lá, eu comecei a olhar mais, assim, para uma espiritualidade, né? Enfim. Acho que foi. Deixa eu ver se tem mais alguma biografia que eu tenha, algum livro que eu tenha... Não, acho que não. Não nessa parte, nesse período da adolescência, não.
00:34:36
P1 - E me conta como é que foi esse momento de se tornar mãe, de ter engravidado?
R - É, então eu era adolescente, né? Eu comecei a namorar um... Eu frequentava muitos lugares no bairro, muitas tribos. Então, eu tinha uma tribo dos ripongas, que foi quando eu conheci maconha e tal, que era uma galera muito paz e amor, era muito legal, e ao mesmo tempo era num clube que tinha lá perto, balneário, chamava Balneário Mário Moraes, que a gente chamava de Mário Marola. Era um antro de maconheiro, mas era um clube, tinha piscina e tal, e eu ia jogar vôlei lá, desde a adolescência. E nesse bairro tinha uma galerinha, uns “maloqueiros”, assim, né? Galerinha da Quebrada e tal. E aí eu conheci um desses rapazes, desses meninos, não sei, deve ter sido na danceteria, que era essa danceteria que eu ia, a galera do bairro, tanto os ripongas quanto os maloqueiros frequentavam. Então, acho que eu conheci ele ali.
P1 - Como se chamava?
R - Enigma.
P1 - Ah, tá.
R - E aí a gente se conheceu. E aí eu comecei a frequentar também esses amigos que eram da quebrada. E aí eu conheci o pai dela e a gente namorou um período e eu engravidei.
00:36:31
P1 - E como foi esse momento de se tornar mãe, sair de casa?
R - Então, foi bem ruim, na verdade, porque a gente namorou um período e aí a gente separou, voltou e eu engravidei. A gente não voltou a namorar, a gente ficou juntos, foi fazer uma viagem com a família dele e tal. E aí eu engravidei e ele não quis, né? Não queria. Ele nunca quis, na verdade, a filha, né? Então foi difícil, assim, porque eu era muito jovem, eu tinha 16 anos. A minha mãe me apoiou super. O meu pai falou ou você casa ou você aborta. E aí, nesse momento, os pais dele, os avós paternos da minha filha, me acolheram e me levaram pra casa deles, porque o meu pai não aceitou a gravidez. Eu falei: “não vou casar e não vou abortar”. Então, fui morar com eles. E aí, a gravidez foi ótima. Eu fiquei maravilhosa, imagina. Fiquei linda e feliz, e saindo pra dançar, e curtir minha vida, e foi tudo ok. Só o pai dela não aceitou. Me bateu, quando eu estava de sete meses, quando descobriu que era menina. Foi bem traumático, assim, esse período. Ele acabou registrando, mas ele nunca foi um pai presente, nunca pagou pensão. A família dele era presente. A avó, porque a avó paterna dela teve três filhos homens e criou três sobrinhos. Então, eram sete homens e ela. Quando a minha filha nasceu, a primeira neta, nossa, ela era a princesa da família, assim, né? Então, a família acolheu, os avós paternos, os tios e tal, e ele nunca quis saber muito, assim, conviveu pouco com ela. Pra mim, foi isso, assim, eu já trabalhei muito isso em terapia, porque foi um período traumático, né? Sei lá. Aconteceu esse rompimento da minha adolescência, então eu fiquei um tempo sem estudar, né? Mas a minha mãe e a avó materna me ajudaram muito, assim, me ajudaram a criar a minha filha. Porque eu voltei a trabalhar, né? Tinha que sustentar, não tinha pensão, mãe solo, né? Então...
00:39:09
P1 - E como é que é o nome da sua filha?
R - Nayara. Nayara Agatha.
P1 - E por que Nayara? Você que escolheu?
R - Foi porque tem aquela lenda da... Tem gente que fala que é Nayara, tem gente que fala que é... Dão outros nomes de uma indígena que é... Que ela se apaixona pela lua. E aí ela... Alguém fala pra ela que ela vê o reflexo da lua e ela pula no rio. E aí a lua transforma ela em Vitória Régia e tal, né? E aí, como nessa época eu era meio hippie, aí eu coloquei Nayara e Agatha por conta da pedra mesmo, Agatha. Foi eu que escolhi.
00:39:57
P/ 1 - E me conta como é que seguiu sua vida a partir dessa maternidade solo? Como é que foi que você foi seguindo assim desse fim da adolescência para a vida adulta?
R - Então, eu tive muita ajuda da minha mãe e da avó materna. E eu fui morar sozinha numa casinha com ela. Ia trabalhar e ela ficava com a minha mãe. E foi ok assim, né? Eu tinha muita ânsia de viver minhas coisas, por ser jovem e tal. Mas eu sempre carreguei ela pra tudo quanto é lugar, pra tudo que eu fazia. Mas também quando eu queria ficar sozinha, viajar e tal, eu deixava ela com a minha mãe ou com a outra avó e fazia as minhas coisas. E continuei trabalhando, eu só demorei muito, eu parei de estudar, e eu comecei a fazer faculdade com 24 anos, depois de 7 anos que ela nasceu. Porque era muita coisa, né? E aí eu achava que também tudo bem, sabe? Não precisava... E eu queria muito estudar. Na verdade, eu nem achava que eu fosse fazer faculdade algum dia na vida. Era um sonho distante, assim, né? E aí, com 24, eu consegui realizar esse sonho.
00:41:37
P1 - E você trabalhava nessa época que você voltou a trabalhar com o quê?
R - Eu trabalhei como recepcionista, como assistente administrativa, trabalhos assim. Acho que era basicamente isso, como assistente, trabalhei como assistente de arquitetura. É isso, esses trabalhos.
00:42:06
P1 - E em que momento a arte retorna para a sua vida, de alguma forma?
R - Quando eu estava nesse período, eu comecei a fazer aula de dança, quando eu tinha acho que 19 anos, de dança afro, no Sesc. E aí eu conheci o Álvaro, que é um mestre de dança afro, que é casado, inclusive, com a Imaculada, que trabalhou no Museu da Pessoa, foi aí que eu os conheci e fazia aula. Toda sexta-feira ia lá e tal. E aí um dia ele me convidou. A gente se reunia depois da aula pra tomar uma cerveja e tal, e ele me convidou pra fazer parte do grupo. Chamava Grupo Okun. E aí eu comecei a fazer parte como dançarina. Tanto que eu conheci minhas grandes amigas e irmãs nesse período também, né? Grandes amigas. E aí a gente montou um espetáculo, que se chamava “O Segredo das Yabás”, e eu fiz os figurinos. Me propus a fazer os figurinos com a minha mãe. Minha mãe era costureira, eu nem costurava ainda na época. Sei lá, não costurava, como eu costuro hoje. E aí fizemos, a gente fez os figurinos para dois espetáculos. E aí a minha ideia era fazer faculdade, eu trabalhava na área administrativa, mas fazia isso no paralelo, nem ganhava dinheiro também. E aí, nessa época eu me reaproximei também no candomblé, porque na minha infância eu apresentava muito candomblé, mas por conta das pesquisas que a gente fazia de campo e tal, a gente ia muito em terreiro de candomblé, em festa, pra se aproximar das danças, das tradições e tal. E aí eu comecei a fazer os figurinos. E aí foi quando eu resolvi fazer faculdade. Eu ia fazer de dança e foi um quebra-pau na minha família, porque ninguém queria que eu fizesse dança lá. E aí eu resolvi fazer artes visuais. E aí comecei a fazer figurino. Comecei a me enfiar, né? Aí eu, enquanto eu fazia faculdade, eu conheci o... Eu morava atrás do Sesc Consolação, que tinha o CPT, que era do Antunes Filho, e aí me inscrevi para um curso de adereço lá. Eu lembro que eles pediam pra fazer um adereço inspirado no Alto da Compadecida, que eles iam montar uma peça do Suassuna, que não era o Auto da Compadecida. E aí eu fiz uma Nossa Senhora num cone de linha, ficou linda assim. E passei, e aí entrei para o curso, e aí me chamaram para fazer os objetos de cena para essa peça, que eles iam chamar de Quaderna. E aí fui me enfiando, assim.
00:45:11
P1 - Me conta se tem alguma peça que você tenha feito o figurino que tenha sido marcante por algum motivo.
R - Tem. Aí, já na faculdade, eu conheci um professor, (se) chama Marcelo Soler, que ele tem uma companhia que chama ‘Companhia de Teatro Documentário’. E aí, a gente se curtia muito, assim, batia as ideias. E ele me convidou para fazer os figurinos de um espetáculo que foi muito legal, que eram 40 anos de 68. Era um projeto do Ministério da Cultura que ia ter uma programação no Brasil inteiro, comemorando não, relembrando 40 anos dos 68, e aí ele ia montar uma peça que chamava... “Consumindo 68”. E ele me chamou para fazer os figurinos. E eu acabei participando da peça como performer e tal. E aí a gente se apresentou no Sesc, no Teatro do Sesc. A gente fez duas apresentações lá. E foi muito legal, porque a gente entrevistou, era teatro, mas era documentário, então a gente usou como centro para montar o enredo do espetáculo a invasão que teve na peça Roda Viva, do Chico, que chamava ‘Operação Quadrado Morto’. Então a gente entrevistou os artistas, os atores da peça. Foi muito legal, foi muito importante pra mim esse momento. E aí depois a gente entrou em cartaz no Teatro Parlapatões, ficou um período, e foi muito marcante ter feito esses figurinos, ficaram muito bons. A proposta artística do figurino, dos objetos, foi bem legal.
P1 - Quando que foi? Você lembra?
R - Foi em 2008, né? 40 anos e 68? 2008.
00:47:41
P1 - E como que sua vida seguiu nesse momento como figurinista? O que você fazia? O que você fazia pra se divertir?
R - Então, eu sempre... Nessa época, eu ia muito pra forró. Eu gosto muito de forró até hoje. O Cinema sempre foi uma paixão. Cinema sozinha, melhor ainda. Adoro. Quando eu morava em São Paulo, pra mim, o programa mais gostoso de fazer era ir pro cinema sozinha, pegar a última sessão. E sair, tipo, eu ia ali ou no Itaú ou no Cinesesc, e descer e subir a Augusta depois do filme, sem precisar falar sobre o filme com ninguém, sabe, assim, só ficar... Adorava, era um programa que eu sempre gostava. Ia também pro cinema com as amigas, tomar cerveja com as amigas em boteco. Samba, sempre curti. E isso, basicamente era isso, assim, o que eu fazia. Minha vida era essa.
00:48:52
P1 - Você estava contando que, nessa época, você conheceu muitas amigas-irmãs. Quero saber se você queria contar um pouco sobre essas amizades.
R - São amigas desse período da dança do Grupo Okun. Carol, Arlete, Andréia, a outra Andréia, a Iná. Acho que essas são as principais, que são as melhores amigas da vida, irmãs. A gente se conheceu através da dança. Eu, a Carol, a Iná e a Arlete dançávamos no grupo, a Andreia e a outra faziam aula. Não participaram do grupo. E nós somos amigas até hoje. Acho que eu tinha 19. Vai fazer 30 anos já que a gente é amiga. Eu sou madrinha do filho da Carol. A Carol é madrinha do filho da Arlete, é madrinha de casamento. Irmã. Irmã. Irmã de candomblé. Sabe? Parceiras, assim. As melhores amigas. Pessoas que eu sei que eu posso contar pra vida. E elas também comigo.
00:50:06
P1 - E você estava contando que você acabou se reaproximando do Candomblé nessa época.
R - É, porque a família da... uma irmã do meu pai era mãe de santo e ela tinha um terreiro lá na Casa Verde. Então, eu passei a minha infância frequentando a casa dela. Quando eu era muito pequena, eu me lembro de ter muito medo de ver incorporações assim do meu lado e tal, mas ao mesmo tempo achar incrível, impressionante. Ver um orixá vestido, eu tinha um misto de medo e curiosidade, achava lindo, sei lá. Tanto que eu fazia roupa para minhas bonecas de orixá. E aí, por conta das enchentes, a família acabou se afastando um pouco e tal. Minha tia foi embora. Alguns integrantes da minha família também se converteram à Igreja Mormon, então isso acabou. E aí eu voltei a me aproximar quando eu comecei a dançar, por conta disso, quando eu entrei no grupo. Aí eu comecei a frequentar terreiros e tal, e aí a primeira vez que eu fui num terreiro no Jabaquara, que é da mãe Sessu, eu acho que ela é falecida já, que é um terreiro de referência em São Paulo. É uma das mães mais antigas de São Paulo. Era uma festa de Iemanjá. E aí eu… Tinha um momento que a gente ia abraçar ela, e aí eu fui abraçar ela, caí, incorporei. Foi muito louco, foi muito lindo. E desde então, eu comecei a me... Eu não pertenço a nenhuma casa, mas eu me cuido pelo... com o candomblé, assim, sempre, do meu lado, com os orixás que me cuidam.
00:52:02
P1 - E que importância a fé teve na sua vida? Se tem uma importância, né?
R - Ah, eu acho que... A espiritualidade, né? A fé tem essa função de te tirar do desespero que, às vezes, é viver, sabe? da realidade, da dificuldade de viver a realidade, o cotidiano, a rotina, as dificuldades financeiras, sei lá, as suas questões emocionais. Eu acho que é realmente um... é acreditar que tem algo que possa te fortalecer num momento de dor, de tristeza, de desespero. No caso do candomblé, tem muito a ver também com a minha relação com a natureza. Porque o candomblé é isso, você agradecer a natureza ao que ela te oferece, que é tudo, o seu alimento, a sua água, o que você veste, tudo. A natureza te oferece tudo. Então, o candomblé é isso, é você agradecer à natureza, que são os orixás, que é a natureza personificada, é você agradecer ao que eles te dão. Então, eu acho que é um acalanto, é uma segurança. E eu acredito muito assim. Eu tenho muita fé no Exu. Por exemplo, o Exu é o meu orixá que… eu sou filha de Iansã, mas o Exu é o orixá que eu boto fé, sabe assim? Toda segunda-feira eu faço a comida dele, acendo vela pra ele, rezo pra ele e ele encaminha, sabe? Ele não faz nada se eu não me movimentar, mas ele é o próprio movimento. O Exu é o movimento, então eu tenho muita fé nele, assim. E na minha orixá também.
00:54:25
P1 - E eu queria que você contasse como surgiu a “Vem-ni-Mim”.
R - A Vem-ni-Mim? Então, eu comecei a trabalhar como figurinista, ganhar dinheiro mesmo e tal. Eu estava na faculdade. E aí eu conheci uma das integrantes desse grupo, dessa Companhia de Teatro Documentário, uma atriz, que dava aula de sapateado num clube... Eu vou chegar lá, tá? Na Vem-ne-mim, é só pra contextualizar.
P1 - Não, pode contar, fique à vontade, é isso mesmo.
R - Que era a Camila, e ela era... dava aula de sapateado no tênis clube de Alphaville. E aí eles estavam precisando de uma figurinista, E eles me convidaram pra fazer alguns figurinos pra duas turmas, meio que um teste, assim, né? Eram cem figurinos, eu acho, no final do ano. “Você quer fazer?” Eu não tinha estrutura nenhuma, de nada. Falei: “quero”. Como boa ariana, né? “Vou”. E aí fiz esses primeiros figurinos, eram 100 figurinos, para um espetáculo que era em homenagem aos Beatles. E aí é um curso de dança dentro do clube. São 400 alunas, desde baby class, de dois anos até adultas. E aí comecei a trabalhar com eles e trabalhei 15 anos lá. Eu saí depois da pandemia. E a gente fez muita coisa legal. E eu fazia a cenografia e os figurinos. E foi muito legal. Muita gente legal passou por mim, pelo meu trabalho. Trabalhei com pessoas incríveis durante muitos anos. Costureiras, aderecistas, uma galera muito legal. Foi um período incrível. E aí, em 2016, 2016 ou 2017, era proibido o carnaval em São Paulo, mas tinham alguns blocos que saíam. E aí eu fiz, nesse ano, eu fiz fantasia com sobra de figurino, que sobrou, do espetáculo eu fiz para mim e para umas amigas. E aí eu lembro que a gente saiu num bloco que chamava “Lira da Vila”, que é lá na Vila Buarque, que era meia dúzia de gato pingado tocando, e a gente fantasiada. Cada esquina que a gente passava, a polícia parava a gente. Porque não podia. Aí eu sei que a gente foi parar num puteiro, que não tava funcionando, fizemos o final da festa nesse puteiro, sem puta, e ficou lá e tal. E aí foi super legal, pô! Super funcionou! Fantasia, tal, tal, tal… “Ah, o ano que vem e tal, por que você não faz pra gente? A gente compra e tal”. E aí eu fiz de novo pras amigas e comecei a fazer adereço, fotografei nelas e tal, comecei a divulgar. E aí criamos o nome no coletivo, assim e virou a “Vem Ni Mim Purpurina” e desde então, todo ano, eu trabalho nesse período do pré-carnaval até o carnaval, que aí no carnaval eu me jogo no rochedo.
00:58:01
P1 - E o carnaval sempre foi importante pra você?
R - Desde criança. A gente fazia festa à fantasia na minha casa. Minha mãe fazia as fantasias pra todo mundo da rua. Sempre curti. Meu pai sempre curtiu muito samba, né? Martinho da Vila, Agepê. Eu cresci no meio do samba e do forró, de muita festa. Então a gente sempre fazia carnaval na rua, assim. Sempre curti. Mas aí teve um período que não tinha bloco em São Paulo. Eu curtia escola de samba, mas assistir. Não gostava de carnaval de clube. Eu desfilei em umas escolas de samba. Fiz figurino, fantasia, pra uma escola de samba, para Mocidade. Para uma ala, na época da capoeira. Nossa, eu joguei capoeira também. Quase 20 anos. E muita história. E sempre foi. Amo o carnaval. Eu acho que hoje em dia o carnaval, para mim, tem um papel mais fora de se divertir e tal, mas muito também de político, de ocupar as ruas, de liberdade. Acho que a fantasia traz esse sentido mesmo de você trazer o que você quiser, da forma que você quiser. Se você quiser mostrar seu corpo, você mostra. O que você quiser, tá liberado. Eu acho que traz muito esse sentido político de estar na rua, de estar feliz, de compartilhar com o outro, de se divertir, de abraçar, eu acho que tem muito isso, acho que o carnaval traz muito isso. Eu tenho um grupo de amigas que a gente se chama de mini bloco dentro do bloco. Todo ano a gente faz uma fantasia para todas com um tema. E aí a gente tem até estandarte, mini bloco dentro do bloco, a gente invade uns blocos. Aí a gente vai no bloco do Uó do Borogodó, que é no pré-carnaval, que é um bloco mais tradicional, com muita criança e muita gente fantasiada, né? A pessoa gosta da fantasia mesmo. E a gente sai, todo ano a gente cria um tema. Então a gente já foi de Elke Maravilha. A gente fez umas perucas gigantescas, coloridas. A gente já foi de mini-bloco Bacurau. Cada uma foi com um personagem do Bacurau. Foi incrível! Não foi? Foi o melhor ano, sim! Nossa, a gente já foi com muitos temas. Esse ano, acho que a gente vai de circo. Elas queriam um tema político. Eu falei, “não, gente, pelo amor de Deus, né? Vamos relaxar um pouco”. Acho que a gente vai de circo.
01:00:57
P1 - E você estava contando desse trabalho de 15 anos que você fez como figurinista do clube? Como é o nome do clube?
R - É Alphaville Tênis Clube.
01:01:08
P1 - Ah, você contou. É. E daí, depois que você saiu do Alphaville Tênis Clube, você trabalhou só com a A Vem Ni Mim ou com outras coisas também?
R - Não, então, nesse período da pandemia, final da pandemia, eu conheci o Wesley, antes da pandemia. E aí a gente passou a pandemia juntos, na minha casa, com um grupo de pessoas que eu mal conhecia, mas foi muito louco. Porque antes da pandemia eu me separei de um casamento. E aí eu morava numa casa gigante, com cinco quartos, meu ateliê e tal. E aí eu aluguei, comecei a alugar quarto. Então, antes da pandemia, em dezembro, eu conheci o Wesley, aluguei um quarto pra um rapaz, e no carnaval aluguei um quarto para um outro rapaz que recebeu um namorado no carnaval, na mesma semana que ele alugou. E aí entrou a pandemia, fechou. Então quer dizer, eu estava conhecendo todo mundo. Estava todo mundo morando junto, se conhecendo. E passamos assim a pandemia, dois anos, juntos nos conhecendo, todos nós. E o Wesley é do High Line, andava de High Line. E aí no final da pandemia, quando começou a abrir, a gente ia pra trips de High Line. Poucas pessoas no meio do mato, era aberto e tal, acampava, passava final de semana, não sei o quê. E nesse período eu conheci a escalada. E aí eu comecei a escalar. E aí eu comecei a escalar e a gente usa uma bagzinha na escalada pra colocar magnésio, pozinho branco, que a gente usa na mão pra aderir melhor na terra, na pedra e tal. E aí eu achava todo mundo umas bag... a gente chama de chalk bag, né? Horrorosa, tipo preta, tipo... Cinza. “Ah, não, vou fazer a minha e a do Wesley”. E aí fiz uma toda colorida pra mim e uma toda colorida pra ele. E aí a galera começou a curtir e a encomendar. Aí virou uma marca, que chama Magnela. Então, quando eu parei de fazer os figurinos e saí do clube, eu tinha a Vem-ni-mim e tinha a Magnela. E eu... Nossa, tem uma outra coisa. Na pandemia, eu fiz um curso de massoterapia tântrica. Então eu trabalhei um período, um ano, com massagem tântrica também.
P1 - E esse negócio de...
R - E aí eu fiz isso. Nesse período eu fiz isso. Agora eu tô só com a Magnela e Vem Ni Mim.
01:04:06
P1 - E esse negócio, você contando essa história, muitas das coisas da sua vida tem a ver com movimento e com o corpo.
R - Sim. Total
01:04:19
P1 - E eu queria saber o que você sente, se você pudesse descrever, o que você sente escalando?
R - Nossa, escalar é muito louco. Porque… Eu tenho um amigo que fala assim, não romantize a escalada. Porque a galera fala, nossa, uau. A escalada dói. Você usa uma sapatilha apertada. Você fica com medo de morrer. Então a escalada é tudo, é tudo em você, pra mim, né? É tudo em mim, assim. Por exemplo, se eu tô numa semana ruim, ansiosa e tal, e aí eu vou escalar no final de semana, eu sinto na escala. Quantas vezes eu já decidi tá mó deprê na semana, tal, estressada, vou escalar, parar no meio da via, o Wesley já viu isso muito, e ter crise de ansiedade, de chorar. Então, a minha relação com a escalada é essa. Ela me mostra muito como eu estou. E eu trabalho muito essas emoções na escalada. E também é libertador, porque é um esporte de risco. Então você passa a valorizar muito a sua vida quando você escala. Por exemplo, eu gosto de escalar a montanha, que é a escalada onde tem mais risco de vida, de morte. Por conta de diversos fatores. Então você passa a valorizar muito a sua vida. Porque a segurança, ela faz parte do esporte. É um procedimento do esporte, não é só escalar. Todos os procedimentos de segurança que você tem que aprender pra poder escalar, eles fazem parte. [intervenção] Então, você passa a valorizar muito sua vida. Porque você quer viver pra poder correr risco de vida. Não sei explicar. É maravilhoso. Eu acho que também tem uma explicação química, que dizem que esses esportes de aventura, eles produzem quimicamente no seu corpo os mesmos efeitos (como) que se você fosse viciado em droga né, drogas químicas. Então, vicia, né, é um negócio que vicia, assim.
01:07:25
P1 - Você lembra a primeira vez como foi?
R - Lembro.
P1 - Onde foi também?
R - Então, a gente tava numa trip de highline e aí tinha um rapá... A gente frequentava, na verdade assim, a gente frequentava uns lugares que tinha escalada e eu achava aquilo achava muito distante da minha realidade. E aí a gente estava numa trip de highline. Nossa, e a primeira vez que eu vi um escalador, a gente estava numa trip de highline em Minas Gerais, na Pedra do Elefante, que é uma pedra muito alta. A gente estava lá na via, a gente estava no cume dessa montanha, porque a gente montava o highline ali. E aí eu vi dois escaladores subindo. Uma pedra gigantesca, acho que tem 270 metros, se eu não me engano, essa via. E aí eu olhei aquilo e falei: “caraca, mano!” Eu nem sonhava que ia escalar na minha vida. Eu achei, assim, surreal. Aí beleza, passou. Depois de um período, a gente foi numa pedreira, que é onde eu achei a Fênix, e tinha um rapaz escalando. Aí ele falou: “você quer subir?” E era uma via muito fácil, assim. Falei: “quero!” Aí subi, na metade da via eu comecei a sentir adrenalina num grau, minha perna tremer, uma loucura assim, eu nem consegui subir, eu subi uns dois metros no outro final de semana eu já tava com cadeirinha, sapatilha, corda, equipamento. E aí teve um encontro de escaladores no outro final de semana e aí já escalou tudo que tinha ali de uma forma mais segura, né? Que tem vários tipos de escalada e aí desde então eu não parei mais. Nunca mais.
01:09:17
P1 - E tem alguma escalada que tenha sido,algum pico que tenha sido marcante pra você por algum motivo?
R - Pode falar dois?
P1 - Pode.
R - O primeiro foi... porque assim, tem... a escalada ela tem... Vários tipos, né? Tem a indoor, que é em ginásio, academia, tem a escalada em rocha, tem boulder, que são vias baixinhas que você não precisa de corda, que você cai no colchão, né? Que eu não faço esse tipo de escalada. Tem a esportiva, que são vias de até 30 metros na rocha, né? Passou disso, é montanha. Então, porque a corda, geralmente, os tamanhos de corda que existem, você consegue escalar até 30 metros, e aí pra você poder continuar subindo, você tem que subir a pessoa que tá fazendo a sua segurança, montar todo o procedimento pra fazer. São cordadas, que a gente chama, que é a escalada tradicional. E eu só escalava esportiva. E aí você tem que aprender procedimento, nó, procedimento de segurança... pra poder se preparar para escalada tradicional. E aí eu tava num... E aí eu ia escalava com Wesley a princípio, quando a gente começou a escalar. E aí a gente fez um treinamento de escalada tradicional num campo escola, em Pedra Bela, numa cidade chamada Pedra Bela, que é uma escalada de 200 metros. A gente treinava bastante, assim. E aí, eu passei por um… Logo depois disso, eu passei por um período bem difícil, assim, a gente tava num período muito difícil da minha vida pessoal, e aí tinha um grupo que ia escalar o Dedo de Deus. E eu nem sabia porra nenhuma, não sabia nada. Eu sabia alguns procedimentos de segurança, nó, o básico, fazer rapel pra poder descer da montanha. Eu não sabia o que era uma escalada tradicional. Pra mim, a escalada tradicional era o que eu tinha feito no campo escola. Só que era um campo escola. Ah, eu vou. Beleza. Uma semana antes, a descida do Dedo de Deus, você tem que fazer um rapel negativo, que é... Um rapel negativo é quando você fica pendurado na corda, você não coloca os pés na parede. Não tem, né? E você tá a 800 metros de altura. E eu nunca tinha feito um rapel negativo. Aí eu fui… Tinha feito na Sumaré, mas diferente. Aí eu fui treinar no Mariporã. Machuquei meu joelho. Começou a chover, meti meus joelhos, não sei o quê, parei de andar e eu já estava com a viagem marcada. Falei, “puta, mano, não vou poder mais”. Aí um dos amigos que ia me deu um remédio de cavalo pra eu tomar. Fiquei tomando uma semana, fui pro dedo de Deus. Só que assim, quando você faz uma escalada tradicional, Você tem o croquis, que é tipo uma planta da via, para você identificar os caminhos, quantas proteções tem, se têm proteção ou não tem. Você tem que estudar. Você tem que estudar que horário que faz sol, que horário que faz chuva, que via que tem do lado caso você precise abandonar, se tem alguma via do lado que você possa montar. Você tem que estudar muito pra você fazer. E eu não sabia porra nenhuma. Não sabia que tinha que… e fui fazer o Dedo de Deus, que é uma das montanhas mais difíceis do Brasil. Por quê? Porque ela é praticamente... As proteções dela são exatamente iguais (as) da época que ela foi aberta, essa via. Não mexeram nela. Então é uma escalada quase 100% natural. Não tem quase nenhuma interferência humana. Tanto que é uma via de... Tem 2.700 metros de altitude, 870 metros de escalada, com 20 chapas só. É pouquíssimo. E lá vou eu. Iniciante e tal. Muito terreno. Subimos, subimos. Só que a gente foi também num período que não pode, porque tem época de montanha que é no inverno, porque não chove. A gente foi em dezembro, véspera de Réveillon. Só que tinha uma janela de 12 horas, sem chuva. E aí, um das pessoas que foi, eu também não fui tão irresponsável, é um escalador muito experiente, que foi o responsável de ter levado a gente, mas ele é free solo, ele escala a montanha sem corda. E ele já tinha solado 26 vezes o Dedo de Deus, então ele conhecia ali como a palma da mão, se não fosse ele eu tinha morrido com certeza. Enfim, Como demorou muito pra gente subir, foram cinco pessoas. É muito “adrenante”, foi muito, você passa muito medo, muito medo mesmo. Foi ali que eu vi a morte de perto, eu disse: “eu vou morrer.” Foi muito louco. E quando faltava acho que uns 200 metros pra chegar no cume, começou a chover. Então a gente fez o resto da escalada de 200 metros, que já é muita coisa, embaixo de chuva. E aí, geralmente, as pessoas levam de 10 a 15 horas pra subir e descer o dedo. A gente fez em 30 horas. Então, acabou comida, acabou água, a gente todo molhado. E a descida são muitos rapéis. E como estava tudo molhado, a parte da trilha, a gente teve que montar rapel também, não dava pra descer, porque é trepa pedra, não é trilha marcada, é bem natural. Então essa foi muito marcante. E aí quando você chega lá no chão, no asfalto, você fala: “eu quero ir de novo”. Eu não fui lá de novo, mas eu quero ir de novo, agora sabendo... Depois eu escalei muito mais montanha. E a outra foi uma viagem que eu fiz esse ano, porque aí eu comecei, aí me apaixonei por escalar montanha. E aí existe um livro que chama “50 vias clássicas do Brasil”, que foram dois escaladores, um casal de escaladores, que escalaram o Brasil inteiro durante um período. E eles escolheram 50 vias que eles consideram clássicas. E são vários critérios: as mais bonitas, os picos mais legais, grau de dificuldade. Não é uma regra, mas é uma referência pra escalador que... E aí, depois de um período, eu comecei a escalar com amigas. Mulheres. E hoje eu escalo com mulheres. E a gente tem até um grupo. E eu tenho um grupo de amigas que está na busca dessas clássicas, dessas 50 clássicas. E aí eu passei a escalar com elas, a fazer trips para escalar essas vias. E já escalei 25 em menos de dois anos. Cheguei na metade. E esse ano a gente resolveu ir pro Nordeste, pra quatro estados, eu e mais duas amigas, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, escalar as clássicas de lá, que são oito clássicas, oito montanhas, em 14 dias. Sem guia, independentes, e aí foi “a viagem”. Tanto que vai virar um... Documentário. Essa viagem foi uma trip incrível, assim. Escalar no Nordeste foi surreal. Escalar com as minhas amigas, né? Mulher. Montanha de 600 metros. Lindo, assim, lindo. Foi emocionante. Tá muito presente, assim. Todas as montanhas que eu escalei foram incríveis, mas essa viagem também foi demais.
01:17:44
P1 - Tem algum momento especial? Eu sei que a viagem foi muito especial, mas tem algum momento que você sentiu assim, “poxa, é aqui” com as suas amigas?
R - Tem um momento que é assim. A gente foi pro Ceará, primeiro. Tem dois momentos. A gente escalou a Pedra da Galinha-Choca, foi a primeira via. Que eu não sei se você sabe, ela passa num filme dos Trapalhões. Os Trapalhões e a Galinha dos Ovos de Ouro. E eles mostram essa pedra, que tem o formato de uma galinha, e tem uma cena do filme que ela bota um ovo de ouro. E aí, pra mim e pra uma outra amiga minha, que tem mais ou menos a minha idade, a gente queria muito escalar essa via, porque faz parte da nossa infância esse filme, né? E aí, quando a gente... Essa via são duas cordadas. Ela tem 90 metros. E a gente escala pelo cu da galinha, assim, né? E aí a minha amiga, a outra amiga, não tinha muita experiência de montanha ainda. E ela estava com medo de guiar. Porque tem alguém que vai levando, a pessoa que guia vai levando a corda, monta o procedimento e puxa o outro. O outro vai escalando, mas ele tá seguro pela corda. A pessoa que guia, ela tá segura, mas de baixo. Então, se ela cair, é ela que vai levando a corda e vai prendendo a corda. E essa via, eu guiei as duas cordadas direto, eu nem parei. E cheguei no cume. A hora que eu cheguei no cume é um visual... Puta, foi muito emocionante, assim. Foi muito lindo, assim, e as três no cume. E a gente tem uma foto clássica do nosso grupo, que é quando a gente chega no cume, a gente tira uma foto com as tetas de fora, de costas. Todo cume, então a gente tem muita foto de cume assim, da mulherada. E esse dia foi incrível, porque foi o primeiro dia lá no Nordeste, escalada, e porque foi essa pedra e essa montanha, e foi lindo, assim. E eu consegui guiar a via toda, sabe? Foi muito legal. E aí depois tinha mais duas montanhas, no Ceará, que lá são três clássicas. Uma que é uma pedra linda, parece que tá na neve, assim, um amarelo quase branco, lindo, só que ela tem 600 metros. E o Ceará, o Nordeste no geral, tem muito cacto e macambira, né? Que é tipo uma... Sabe, né? espinhenta lá. Então, a vegetação é muito diferente do que a gente tá acostumado. Então, a gente sofreu muito com o calor e a gente não foi com... a gente escala de legging, a gente tinha ido com calça grossa, a gente não foi preparada, né? Pra tanta macambira, porque também são vias que as pessoas não escalam muito, né? Então (tem) a vegetação muito fechada, foi muito sofrido, assim. E aí primeiro a gente fez essa, que era menor, aí no segundo dia a gente fez a de 600 metros, que a gente sofreu, se perdeu, tal, foi incrível, mas... E no terceiro dia a gente fez a Ziguezeira, que é linda também, que ela é toda assim, ó. Eu tenho foto aí, se você quiser eu te mostro. Ela é toda em zig-zag, é pedra escura, cinza escura, tal. Só que para você escalar ela, você tem que colocar braço e perna assim. Então dá muita cãibra. E a gente não fez um período de descanso entre uma via e outra. E um dia anterior a gente tinha sofrido muito na de 600 metros. E aí quando a gente chegou quase no cume, na última cordada da Ziguezeira, já estava escuro. E eu comecei a ter muita cãibra. E faltava 30 metros para subir, para chegar no cume. E eu não consegui. Essa eu não consegui. E elas foram. E aí elas chegaram lá em cima e começaram a filmar. “Ah, Cíntia”, fizeram uma festa e tal. E foi emocionante também. Não deu pra mim, mas foi muito feliz ver elas chegando no cume e a festa que elas fizeram também pra mim. Foram esses momentos. Foram muitos, mas muita coisa pra contar. Espero que dê certo o nosso filme dessa viagem.
01:22:44
P1 - E me conta em que momento você se encontra com a dorminhoca, a Fênix.
R - Então, foi quando eu comecei a escalar e aí a gente tava indo pra uma pedreira aí, em Rio Grande da Serra, que (se) chama Pedreira da Fênix. E eu e Wesley, a gente já tava pensando em adotar um cachorrinho e tal, mas a gente chegou à conclusão que, se aparecesse, a gente pegava. A gente não ia atrás. E aí a gente tava indo pra essa pedreira, passamos assim pertinho da pedreira, tinha um ponto de ônibus, e aí Wesley viu. “Nossa, acho que eu vi um cachorrinho dentro de uma caixa de papelão no ponto de ônibus”. Aí eu falei: “volta”. Aí a hora que a gente voltou era ela. Aí ela já veio, abraçou. Ela era muito pequenininha, cheia de verme, barrigão. Ela era toda preta. Toda pretinha. E aí a gente levou. E a gente foi atrás de ração. Não achamos, só achamos ração de gato. Ela comeu ração de gato no final de semana. Um amigo nosso, que a gente fala que é padrinho dela, levou um vermífugo à tarde. E ela ficou no final de semana com a gente. Já. E já era. Ela adotou a gente.
01:24:21
P1 - E ela escalou nesse dia?
R - Ela fez trilha. Correu pra lá e pra cá. Nossa, ela adora lá. Lá tem uns brejos, ela se enfia no meio do brejo com o pai dela. Ela ama. Sobe e desce. Uma vez a gente tava escalando embaixo, de repente a gente vê ela lá em cima, no cume, assim. “Meu, Fênix, o que você tá fazendo aí?” Ela foi, meu. É que ela não escala, ela faz trilha. Ela vai. Ela ama. Desbravadora, assim, muito. Ela ama a natureza, sempre gostou. E desde então, a gente sempre levou ela para todos os lugares que a gente ia, ela ia junto. Que pode ter cachorro, ela ia junto.
01:25:07
P1 - E ela tá em todos os momentos com você, se fumou, ela acompanhando você durante a costura?
R - Não, então, a escalada em si ela não faz, né? Porque a gente escala na vertical e tal, não tem como. Mas ela faz as trilhas assim… Ah, você tá falando da costura? É o que na escalada a gente chama de costura.
P1 - Ah, que legal!
R - Quando a gente grampeia a corda na parede, é costura. Desculpa, o que você perguntou?
01:25:36
P1 - Não, que eu estava perguntando se ela fica em todos os momentos com você, né?
R - Ah, fica. 100%. Ela tá sempre presente, assim. A gente tem guarda compartilhada, né? Então ela fica uma semana comigo, uma semana com ele. Como eu viajo mais, quando ela não pode ir, ela fica na casa dele. Mas quando ela tá aqui, ela é minha parceira. É minha parceira pra qualquer coisa. Eu vou no correio, ela vai comigo. Eu vou no mercado, ela vai comigo. Já passear, brinca o dia inteiro, treina. Tô costurando, ela tá do meu lado. Parceiraça. Dorme junto. Dorme junto.
01:26:17
P1 - E tem alguma trilha que você tenha feito com ela que foi marcante?
R - Ah, eu acho que no Guarujá, quando a gente foi, que ela foi na mochila, ela era bem pequenininha, assim, e a gente acampou num lugar muito roots, muito ruim, assim, em cima de umas folhas de bananeira, era um chão irregular, e ela ficou com a gente, assim, firme e forte, muito louca. Essa foi bem marcante, porque ela era bem bebezinho. E teve uma vez também que a gente foi lá pra Pedreira da Fênix, que ela chama Fênix por conta da pedreira. E aí o pai ia ter um festival de Highline lá. Então a gente geralmente ia no final de semana antes pra ajudar a montar as vias de Highline e tal. E o pai dela sempre participou da montagem. Só que pra montar uma linha que eles tinham que montar lá, ele tinha que se enfiar num brejo assim, de água até a coxa. E ela acompanhou ele o tempo inteiro. Se enfiou no meio do brejo, nadava. E enquanto ele ficou lá na montagem, ela ficava também. Pra lá e pra cá. Pulando. Que nem uma louca. Correndo. Pulando. Muito louca.
01:27:43
P1 - E tem alguma história de alguma coisa que a Fênix já aprontou aqui com você? Ou alguma história engraçada também com ela?
R - Lembra aí, Preto. Tô pensando aqui. Ah, ela não apronta muito. Ela é bagunceira, assim, mas ela é muito educada. Ela é muito, por exemplo, a gente ensinou ela, como ela vai e ela não gosta de andar na coleira, ela vai. Só que a gente assobia, ela vem. Então, quando a gente vai pra qualquer lugar, no meio do mato, não sei o quê, ela vai embora, mas ela sempre para, olha, confirma que a gente tá e segue. É assim, sabe? Ela não apronta muito. Ela é naturalmente livre, assim.
01:28:52
P1 - E você tava contando que sua amiga vai treinar ela? Como é que é essa história?
R - Então, a minha vizinha que se mudou pra cá, ela foi embora, mas quando eu mudei pra cá, ela morava aqui. Ela é adestradora, treinadora de cães pra competição. Tem um hotelzinho, tinha um hotelzinho aí. E aí ela treina os cachorros dela pra competição, que são dois pastores, um malinois e um pastor alemão, que são muito maravilhosos, campeões, assim. Só que aí um dia ela foi desafiada, porque ela falou assim: “ah, você só ganha porque você compete com os pastores. Eu quero ver você competir com uma vira-lata”. E aí ela já tinha observado o comportamento da Fênix e propôs de treinar ela pra começar a competir. E aí ela vai treinar para competir.
01:29:55
P1 - E como é a rotina de vocês aqui? Você falou que você viaja bastante, mas quando você tá em casa, como é que é?
R - A gente dorme juntas, geralmente, na minha cama ou ela dorme no sofá e eu na cama. Aí eu acordo umas cinco e meia, seis horas. Ou ela me acorda. Primeira coisa eu abro pra ela pra fazer xixi. E aí faço meu café da manhã e tal com ela. Oito horas ela toma café da manhã. Aí antes, na hora do café, eu faço um café, acendo um tabaquinho, vou lá fora, abro pra ela, fico fumando, olhando a natureza e ela vai desbravar, no quintal, na rua, ela tem uns amigos na rua, que ela se encontra, brinca e volta. E aí eu vou trabalhar, trabalho aqui, eu começo a trabalhar umas 10 da manhã. E nesse ínterim, a gente brinca, porque ela quer brincar o tempo todo. E aí quando eu saio, ela já sente, por exemplo, quando eu vou escalar, que ela não vai, quando eu vou viajar, que ela não vai, ela já sente. Tipo, eu tô preparando o equipamento, aí separo corda, ela já fica me olhando com aquela cara. “Eu vou ou não vou? Vou ou não vou? Não vou ou não vou?” Aí tem um momento que ela deita em cima da corda, tipo: “eu sou o equipamento, você vai me levar?”. Enfim, a gente brinca muito. Eu treino ela também, comandos e tal, e a gente adora passear. A gente vai muito pro Minhocão passear de domingo também, quando eu tô em São Paulo. Passear na praça com o pai. E é isso, ela tá sempre comigo. Toda hora. E como eu vivo sozinha aqui, eu converso com ela o dia inteiro. É parceira mesmo. A gente tá aqui o dia inteiro.
01:32:09
P1 - Tem alguma coisa que seja de vocês? Algum ritual que seja de vocês? Um momento que vocês se entendem?
R - Eu acho que esse momento que eu vou tomar meu café e pitar lá fora, que ela vai pro rolezinho dela e tá sempre olhando pra mim, não sei o quê. E à noite, assim, quando eu paro de trabalhar, sabe? Que eu vou ver um filme, deito no sofá, a gente deita juntinho e fica se curtindo. Ela gosta muito de carinho no bumbum, na barriga. Eu faço muita massagem nela. A gente tem vários momentos íntimos, assim. E eu sinto, por exemplo, agora com a chegada da Princesa, que ela sente falta de momentos com ela. Então eu tento manter minha rotina com ela também, sabe? Então eu deixo às vezes a Princesa lá e vou fazer o que eu fazia com ela, o que eu faço com ela todo dia pra ela não se estressar, sabe? E eu gosto também de ter meus momentos com ela. Porque ela é maravilhosa. Ela é muito inteligente, ela é muito parceira. Muito companheira, muito engraçada, sabe? Ela é foda.
01:33:38
P1 - E quando você conheceu, você a encontrou, você já morava aqui em São Roque ou ainda não?
R - Não, eu morava em São Paulo.
01:33:45
P1 - E como é que foi essa mudança pra cá? Como que você decidiu vir pra cá? Como é que foi a adaptação dela aqui?
R - Então, na verdade, um dos motivos de eu ter vindo pra cá foi para essa casa, foi por ela, por conta do quintal. Porque eu queria uma casa que fosse barata, né? Porque o Wesley, a gente se separou, ele foi morar na casa dele, e eu ia morar sozinha. E aí eu estava procurando uma casa em São Paulo, barata, mas que tivesse um quintalzinho pra ela, um lugar pra ela correr e tal. E não achava nada, assim, que eu gostasse, que ela fosse ficar confortável, que eu fosse ficar confortável, enfim. E aí eu já tinha esse desejo de me mudar para o mato, desde que eu comecei a escalar, a gente sempre falava nisso. E aí eu comecei a procurar casas por aqui. E aí vim conhecer aqui. Você vê, o quintal é maior do que a casa, né? Ela foi meio que prioridade, assim, né? E ela se adaptou super bem, porque ela é acostumada a mato e tal. No começo, ela não tinha muito limite ainda do território que era dela, então ela pulava muro, pulava pra lá uma vez. Isso é uma situação engraçada. Eu fui conhecer minha vizinha, e estavam todos os cachorros soltos dela lá, e eu prendi a Fênix aqui atrás, e eu conversando com a vizinha e os cachorros, pastor, pit bull, um monte, ela tem sete cachorros. De repente me aparece a Fênix, pulou um muro, rouba um brinquedo deles e volta! Falei: “mano, esse pastor vai engolir essa cachorra!” Mas aí ela super se adaptou, assim. E tanto com a rotina também da guarda compartilhada, dela ficar comigo e com o Wesley. Uma semana aqui, uma semana lá. Ela é super acostumada, assim. Não tem... Ela é de boa.
P1 - Super quietinha também.
R - Ela é. Ela é muito fofa.
01:36:01
P1 - E como é que é o momento de alimentação dela? O que ela gosta de comer?
R - Então, ela gosta de comer tudo. Mas ela come ração, basicamente, com sachezinho de carne, com legumes e tal. Aí ela tem uma rotina de comer às oito da manhã e às oito da noite. Porque antes a gente deixava comida o dia inteiro, mas não é bom. Descobri que não é bom. Então, ela come duas vezes por dia. E aí eu dou brócolis, ovo cozido, às vezes, fruta, de vez em quando. Mas, basicamente, ração. Né, filha?
01:36:55
P1 - E tem algum truque pra fazer ela comer?
R - Ela super se adapta. Ela não é gulosona. Ela é bem delicada pra comer e tal. Nem um truque. Ela é de boa. Ela é muito educada. Eu falo que se ela fosse uma pessoa, ela seria muito legal. Muito gente boa. Né, filha?
P1 - E você tava me contando antes que você tem uma neta também.
R - Eu tenho, a Maria Luísa.
01:37:29
P1 - Como é que foi se tornar avó?
R - Foi incrível. Primeiro porque foi uma surpresa porque a minha filha namorava uma garota, namorou seis anos com uma garota. Então eu achei que minha filha era sapatão. E aí ela conheceu o parceiro dela, o companheiro dela na faculdade, e a minha filha é meio nerd, assim, então eles faziam jogatina de xadrez na minha casa, e games e tal, e ela estudou, ela fez faculdade, ela não atua nessa área, mas ela estudou TI, né? Então era um monte de homem, e só ela de mulher, então eu achei que era tudo amigo, era tudo “parça”, e eles dormiam em casa, E aí, um belo dia, eles me chamaram na cozinha e falam: “Mãe, eu tenho uma coisa pra te contar. A gente tá grávido”. Foi uma surpresa. Mas foi incrível, assim. A Maria é a minha melhor amiga. Eu sou a avó que brinca, sabe? Brinca no chão, rola. Ela é minha parceira, assim. Ela é maravilhosa. Ruiva. O pai dela é ruivo, né? Ela é ruiva, com cabelo laranja. Ela é perfeita, nossa.
01:38:54
P1 - Quantos anos ela tem?
R - Ela tem cinco.
P1 - E ela mora em São Paulo?
R - Mora, no Taboão. Eles moram juntos há cinco anos. Assim que ela engravidou, eles foram morar juntos. Ela é tatuadora, ele ficou na área de TI e ela é tatuadora, psicanalista também.
01:39:17
P1 - E me conta, queria saber o que é importante pra você hoje, na sua vida? Agora é uma parte mais reflexiva.
R - A escalada é uma das coisas mais importantes da minha vida, porque ela abraça tudo o que eu amo, que são as minhas amigas, a natureza, viajar e trabalhar todas as minhas emoções. Você vê a minha camiseta: “Aceita ouvir a palavra da escalada?” As minhas cachorras. Minha neta e minha filha. E, é... E as minhas... Principalmente as minhas amigas. As mulheres... Eu vou mudar. As mulheres da minha vida. Tanto cachorro, tanto, né? As fêmeas da minha vida. É o que eu tenho de mais valioso na minha vida, assim. Quando eu fiz 45 anos, é, 45 anos, eu decidi… que eu ia sempre me rodear de pessoas e de lugares que me fizessem bem, que me trouxessem amor e felicidade. Eu fiz um voto assim. E desde então, faz pouco tempo, né? Eu devia ter feito isso antes. É assim que eu vivo. E é isso, pra mim, o mais valioso é estar com essas mulheres, com essas fêmeas.
01:41:35
P1 - E você estava contando também que você tem outra cachorra, a Princesa. Eu queria que você contasse um pouco dela, como você a conheceu, como ela veio compor essa família.
R - A princesa era da minha vizinha. Na verdade, minha vizinha resgatou ela de uma casa e a manteve na casa dela como lar temporário. Então, eu era como eu ajudava a minha vizinha nos cuidados dos cachorros, às vezes. Ela passava alguns dias na minha casa, era visita, assim, né? Passava uma semana e tal. E desde o começo, a gente se apaixonou. Só que eu tinha muita dúvida. Aí ela falava: “adota, adota” e tal. Eu tinha muita dúvida por conta disso, de eu viajar, né? E tal. Aí o Wesley queria muito adotar ela, mas também tinha essa questão, né? “Como vai ser duas, porque a fêmea não curte muito outras fêmeas” e tal, a gente ficou nessa dúvida. E aí, há duas semanas atrás, há três semanas atrás, a minha vizinha, que mudou, agendou a castração da Princesa pra cá, para Vargem Grande, e perguntou se eu podia levar a Princesa, porque ela ia competir com os cachorros. Eu falei: “ah, beleza”. Aí ela veio pra cá e não foi mais embora. A gente passou o final de semana com ela. Ela não conseguiu castrar aqui. E aí a gente passou o final de semana, eu e Wesley, conversando. E aí, “não sei o quê”, mas, viu... Ela é apaixonante, assim. E aí a gente fez uma adaptaçãozinha das duas. E aí a gente conseguiu castrar, marcar a castração pra outra semana. Ela ficou na casa do Wesley. Aí a Fênix foi pra lá. E aí elas se aproximaram e hoje estão irmãs. E aí já era. A família não tradicional brasileira. E a gente resolveu compartilhar também a guarda da Princesa.
Cuidar e criar as duas.
01:44:03
P1 - E como é seu dia a dia hoje?
R - Bom, eu trabalho em casa. Eu gosto de acordar muito cedo pra poder fazer tudo que eu preciso fazer de manhã com calma. Eu gosto de tomar café devagar, pitar meu tabaquinho, fazer minha comidinha saudável. Eu voltei a treinar agora porque eu estava sentindo muita falta de treinar. E passear com a Fênix. E cuidar da casa, colocar comida pro passarinho. Curtir. Eu fico esses momentos de manhã assim mesmo. Ouvir música e acender vela. Eu gosto desse... Por isso que eu acordo cedo, assim. Porque eu começo a trabalhar às 10. Aí eu trabalho o dia inteiro, só que eu trabalho com… Eu uso um método que se chama método Pomodoro. Que eu, eu determino uma quantidade de trabalho, paro durante 15, 20 minutos pra fumar, pra relaxar, pra descansar, pra ficar com ela, pra brincar, pra ver celular e tal. Porque senão eu não consigo produzir, eu perco o foco. E trabalho, aí paro, faço meu almoço, eu gosto de cozinhar, então eu cozinho todos os dias, tanto almoço como janta. Tomo café da tarde, gosto de parar pra tomar café da tarde. E nesses períodos que eu paro, eu sempre brinco com ela. E aí paro às oito, tomo um banho, como, coloco um filme ou leio um livro ou uma série e durmo cedinho. Tipo nove horas da noite eu já tô dormindo e acordo cinco horas, cinco e meia.
01:45:59
P1 - E o que a Fênix gosta de brincar? Qual é a brincadeira favorita dela?
R - Ela gosta que jogue o brinquedo pra ela pegar. Adora. Você já ataca, ela sai correndo. E quanto mais longe você jogar, melhor. Porque ela vai embora. Ela gosta de ir embora. E pega e traz pra você. Só que ela não te entrega. Aí ela quer que você brinque de pega-pega. Que você vai… E ela gosta dos comandos também. De brincar de treino, dos comandos. E agora ela tá gostando de brincar com a irmã dela. Né, filha?
P1 - Estão criando uma relação.
R - É. E ela... Eu tenho muito orgulho dela, porque ela... Ela foi muito legal de receber a Princesa assim, a forma como ela recebeu, sabe? Ela aceitou, porque até então, né? São quatro anos de exclusividade, né? E a gente... Eu mimo mesmo. Tipo, ela é parceira, assim, né? E ela aceitou. Claro, com certo… Ela tá mais grudada agora comigo e tal. Mas ela... Ela é muito legal, cara. Ela aceitou a irmã e ficou parceira. Ela é gente boa. É demais.
01:47:18
P1 - Cintia, e você tem sonhos?
R - Tenho. É muito legal falar sobre a minha vida, a gente fala porque a gente reclama muito, né? E olhando pra minha vida, assim, eu vejo que eu já realizei muitos sonhos, né? Ter vindo pra cá, ter vindo morar no mato é realizar um sonho. E que os meus sonhos, eu acho que eles são realizáveis. Eles são realizáveis, porque não são sonhos impossíveis, né? Então, são coisas... Pra mim, acho que isso é muito mais valioso do que, ah, eu quero ir pro Egito. Sei lá se “eu vou pro Egito”, mas eu não... Meus sonhos são muito reais, assim, eu acho, sabe? E é bom falar, porque… Falar, “nossa, por que a gente reclama tanto, né, cara?” Sei lá. É porque é difícil viver, né? Também, né? Eu passo muito perrengue com grana, assim. Então, é foda. Mas eu tenho, eu tenho... Eu quero voltar a estudar. E vai ser um sonho que eu vou realizar logo mais. No ano que vem eu quero voltar a estudar Psicanálise. Ah, eu quero ter saúde pra poder escalar até os 80 anos e ver minha neta crescer. E eu espero que ela seja escaladora... Tô brincando. Projeções, né? Ver minha neta crescer com saúde. Ver minha filha bem, realizada. E é isso. Não tenho grandes sonhos, assim. Quero... É... Dois sonhos... Dois sonhos próximos, assim, que eu espero conseguir realizar antes dos 50 anos é ir pra Colômbia, ir pra Bolívia escalar. Eu já fui fazer mochilão, nesses dois países, mas eu quero escalar lá. Ah, só. Queria ter uma casa pra parar de pagar aluguel. Coisas assim, o sonho do pobre. O sonho do trabalhador. Do pobre, não, do trabalhador.
P1 - E tem alguma coisa que... a gente já tá caminhando pro final. Tem alguma coisa que eu não tenha te perguntado que você queira contar?
R - Acho que não.
01:50:12
P1 - E tem alguma mensagem que você queira deixar?
R - Eu estava conversando com o Natan hoje de manhã, sobre eu ter vindo para cá e tal, e uma das coisas que eu observei, ou passei a observar aqui, sentir aqui, é a minha relação com o tempo. Porque, como você pode perceber, eu sou uma pessoa muito agitada mesmo, do movimento. Mas a minha relação com o tempo mudou, o tempo das coisas. E a gente estava falando disso, que eu, por conta desses pequenos rituais que eu criei na minha rotina, eu passei a sentir mais a presença das coisas. Então, eu até coloquei um exemplo desses vídeos do Instagram, que a galera posta mexendo em embalagem ou cortando comida, que eles aumentam o som, né? Dizem que isso é pra acalmar, sei lá. Aqui, quando eu tô sozinha preparando meu café, quando a Fênix tá aqui na cozinha, sentada, olhando pra mim e tal, eu consigo ouvir cada som de cada coisa, sem precisar editar. Então eu percebo, assim, que eu tô presente naquilo. A escalada me traz muito isso também. Porque ali você tem que resolver o problema na hora. Você tem que estar presente integralmente, senão você pode cair, se machucar. Então, por mais que seja difícil o nosso cotidiano, principalmente para quem vive em São Paulo, eu vivi a minha vida inteira em São Paulo e talvez volte, tentar observar muito o presente, o momento do que você está vivendo. Eu sei que é difícil, sei lá, até meio utópico, mas… E não olhar só para o que falta, olhar para o que você já tem, para as relações que você já tem, para os amores que você já tem. Sei lá se é meio coaching, mas para o presente mesmo, sabe? Para poder saborear melhor a vida que já é dura, né? Acho que é isso.
01:53:00
P1 - E como foi para você contar um pouco dessa história hoje para o Museu da Pessoa?
R - Foi legal. Foi legal porque… é muito louco, você tá falando de um assunto, assim, da minha infância e tal. Vem um monte de imagem, que você poderia ficar o dia inteiro, assim, falando. E me faz pensar, assim, no quanto minha vida foi muito legal. É muito preciosa a vida. E as pessoas que a gente encontra no caminho e que fazem com que você, com que eu seja quem eu sou hoje. Todas essas pessoas, né? Desde os meus pais, os meus amigos de infância, os meus amigos da escola, os meus amigos da dança, os meus amigos da escola. Sou eu, né? Sou eu hoje, né? E eu também faço parte disso da vida deles, né? Muito legal. Muito bom. Fiquei feliz.
P1 - Cíntia, em meu nome, em nome do Natan, do Ali, do Mayo, em nome do Museu da Pessoa. Eu agradeço muito você contar a sua história hoje pra gente poder fazer esse recorte de duas horas da sua história, mas muito bonito.
R - Eu que agradeço. Obrigada, gente.
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