Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Adriana Maria da Silva
Entrevistado por Lucas Torigoe (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, dia 21 de outubro de 2025
Entrevista código: MVE_HV001
Transcrita por Miriam Allodi
Revisão Nataniel Torres
P/1 - Adriana, vou começar com uma pergunta bem difícil, tá? Qual é o seu nome completo, que cidade você nasceu e que dia que foi, por favor?
R - Meu nome é Adriana Maria da Silva, eu nasci em Surubim, Pernambuco, em 2 do cinco de 1978.
P/1 - Aí você nasceu em casa, em um hospital? Como é que foi isso?
R - Eu nasci no hospital, porque a gente morava numa cidade próxima chamada Umari (Município de Bom Jardim, PE).
P/1 - Umari?
R- Umari, é.
P/1 - E os seus pais te falaram como é que foi o dia que você nasceu? Se contou essa história pra você ou não?
R - Falou que foi tranquilo. Eu nasci, não demorei muito pra nascer.
P/1 - E como é que foi a gestação?
R - Foi tranquila, porque a minha mãe morava na roça e a cada ano ela tinha um filho, né? Nós somos nove filhos o todo.
P/1 - E como é que é você nessa escadinha de irmão?
R - É, um vai cuidando do outro, é bem tranquilo. Não muito tranquilo, né? Porque um vai chegando e aí a prioridade vai ser um, ou outro, ou outro, e é assim. E a gente vai meio que se adaptando, né?
P/1 - E você é mais nova, mais velha nessa escadinha?
R - Ah, eu sou a sexta.
P/1 - E o seu irmão, ou irmã mais velha, qual é a diferença de idade?
R - Ela tem 48. Eu tenho 47.
P/1 - Você tem 45.
R - Não, 47. E ela tem 48.
P/1 - A mais velha tem 48?
R - Não, a mais velha tem 50.
P/1 - E quando você nasceu, então a casa como que era?
R - Era a casinha de alvenaria, lá já tinha, já fez bem no cantinho lá, chamada Oiteiro. Era bem distante, era bem na roça. Depois foi que a gente mudou para Umari, na cidade, no centro. Mas era na roça.
P/1 - E você consegue lembrar pra gente como era essa casa, descrever como ela era?
R -...
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Entrevista de Adriana Maria da Silva
Entrevistado por Lucas Torigoe (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, dia 21 de outubro de 2025
Entrevista código: MVE_HV001
Transcrita por Miriam Allodi
Revisão Nataniel Torres
P/1 - Adriana, vou começar com uma pergunta bem difícil, tá? Qual é o seu nome completo, que cidade você nasceu e que dia que foi, por favor?
R - Meu nome é Adriana Maria da Silva, eu nasci em Surubim, Pernambuco, em 2 do cinco de 1978.
P/1 - Aí você nasceu em casa, em um hospital? Como é que foi isso?
R - Eu nasci no hospital, porque a gente morava numa cidade próxima chamada Umari (Município de Bom Jardim, PE).
P/1 - Umari?
R- Umari, é.
P/1 - E os seus pais te falaram como é que foi o dia que você nasceu? Se contou essa história pra você ou não?
R - Falou que foi tranquilo. Eu nasci, não demorei muito pra nascer.
P/1 - E como é que foi a gestação?
R - Foi tranquila, porque a minha mãe morava na roça e a cada ano ela tinha um filho, né? Nós somos nove filhos o todo.
P/1 - E como é que é você nessa escadinha de irmão?
R - É, um vai cuidando do outro, é bem tranquilo. Não muito tranquilo, né? Porque um vai chegando e aí a prioridade vai ser um, ou outro, ou outro, e é assim. E a gente vai meio que se adaptando, né?
P/1 - E você é mais nova, mais velha nessa escadinha?
R - Ah, eu sou a sexta.
P/1 - E o seu irmão, ou irmã mais velha, qual é a diferença de idade?
R - Ela tem 48. Eu tenho 47.
P/1 - Você tem 45.
R - Não, 47. E ela tem 48.
P/1 - A mais velha tem 48?
R - Não, a mais velha tem 50.
P/1 - E quando você nasceu, então a casa como que era?
R - Era a casinha de alvenaria, lá já tinha, já fez bem no cantinho lá, chamada Oiteiro. Era bem distante, era bem na roça. Depois foi que a gente mudou para Umari, na cidade, no centro. Mas era na roça.
P/1 - E você consegue lembrar pra gente como era essa casa, descrever como ela era?
R - Ela tinha três quartos, um banheiro, cozinha, sala. A gente foi construindo com os próprios tijolos que a gente construía. A gente fazia e fazia caieira, que naquele tempo era caieira. E aí ia construindo. A família vai aumentando e a gente vai adaptando a casa. Não muda muita coisa no tempo de hoje.
P/1 - Me conta mais isso. A sua família fazia tijolo, é isso?
R - Para o próprio uso da casa. Aí as caieiras, era assim, aí quando ia queimar a caieira, arrumava, chamava a comunidade ali próximo, na vizinhança, e: “Ah, hoje eu vou queimar a caieira”. Aí ficava a noite toda queimando aquele tijolo, que era feito do barro, né? Era uma madeirinha com dois tijolinhos. E aí ia construindo seu próprio...
P/1 - Caieira era o que? Só pra explicar pra gente que não sabe.
R - Eles fazem uma extensão de... Eles colocam a terra, tira a terra, faz um buraco assim, depois envolve ele com o próprio tijolo, envolve assim, aí fica lá colocando, aí vai colocando os tijolinhos e embaixo… Os tijolos vão em cima, e a lenha vai embaixo. Aí vai cozinhando aquele tijolinho. Aí vai dando forma. Aí a minha mãe aproveitava e fazia algumas panelas de barro e quando queimava a caieira, queimava também as panelas de barro, né? E foi surgindo tudo pra aproveitar, né? Um pouquinho.
P/1 - Me diz uma coisa, os seus pais faziam mais alguma coisa, além de tijolo, eles trabalhavam na terra?
R - Eles trabalhavam no campo, aí depois, quando ele viu a família crescer, aí começou a ir pra Recife, entendeu? Aí depois veio pra cá também, meu pai chegou a vir pra cá. E a minha mãe ficava lá cuidando da gente, sempre assim, trabalhando na roça, ali próximo mesmo. E quando tinha hectare de terra, que ela ia pra um lugar bem distante pra plantar lá e pra poder colher, que os fazendeiros doavam a terra pra gente plantar.
P/1 - Fala um pouquinho mais da sua mãe. Qual é o nome dela?
R - É, Terezinha Maria da Silva.
P/1 - E ela é viva?
R - Não, ela já chegou a falecer.
P/1 - E como era a sua mãe?
R - Tranquila. Gostava muito de cantar na roça e era sempre assim, com o radinho de pilha, quando chegava, aí cantava na roça e ali ia, entendeu? Mas é uma guerreira. É uma guerreira, porque criar nove filhos sem Bolsa Família, sem água, sem luz. E era no candeeiro que o pessoal fala, o candeeiro, que elas plantavam o algodão e fazia o próprio candeeiro, fazia as tranças e colocava a gasolina. E num potinho de óleo, que num potinho de óleo era de ferro. Então, ela ali, ela fazia o seu próprio, a gente começava a produzir. E ali iluminava toda a casa à noite. Estudar era bem distante também pra todos nós. Mas a gente sempre... Ela chegou, teve a oportunidade de estudar. Ela não, só depois, ela estudou até a sétima, depois foi tendo os projetos que iam aparecendo de vez em quando. Quando a gente já estava maior, ela continuou a estudar nesse projeto que tinha. Bebê Educar, essas coisinhas assim.
P/1 - Me fala um pouquinho mais da sua mãe, como é o humor dela, o jeito dela, você falou que ela era tranquila, mas me conta mais um pouquinho de como ela cuidava de vocês.
R - Ela tinha um carinho pela gente, cada um, né? Ela nunca foi trabalhar quando eu era pequena. A gente cuidava do maior, cuidava do menor. Aí ficava na rede ali cuidando. Mas ela sempre trabalhava ali por perto. Só meu pai e meus irmãos mais velhos que às vezes iam trabalhar fora. Era assim. Aí pra levar a comida, ela deixava alguém responsável olhando e ia. Mas era sempre ali na redondeza. Aí tinha um barreiro, enchia d'água, ela lavava ali por perto mesmo. A gente fazia o próprio barreiro, fazia aquele mutirão de emergência. Cada um ia na casa de um e falava: “Ah, hoje vamos limpar o barreiro do Zefinha e vamos lá todo mundo”. Era assim. Porque a gente esperava a chuva chegar pra poder, e era assim. Depois, com o tempo, vai vindo a cisterna, que aí um foi ajudando o outro. Os homens vão se profissionalizando, vão começar a fazer a alvenaria ali mesmo. E é assim.
P/1 - E vamos falar um pouquinho do seu pai, então. Qual é o nome dele?
R - É Nelson Francisco da Silva.
P/1 - É vivo?
R - Não, é falecido.
P/1 - E o jeitão dele, como é que era?
R - Calmo, mas bem amoroso com as pessoas, de coração bom. Sempre doando as coisas, acolhendo as pessoas. Mas é bem tranquilo.
P/1 - Ele ficava muito tempo fora de casa, é isso?
R - Ele ficava de ano em ano, só que ele voltava. Ele voltava para visitar as famílias. Ele voltava, ia, era sempre essa ida e vinda. Aí, quando eu disse que eu nasci, aí disse que eu era bonitinha da casa, aí ele ficou, depois não quis voltar mais. Aí, desde lá, ele só trabalhou por ali por perto, pro Recife. Que ele foi com um ano pra cá, me deixou, acho já na barriga da minha mãe, e depois com um ano ele voltou, assim que eu nasci, e aí ele ficou por ali, trabalhando mesmo. Não quis mais vir, não, para São Paulo. Mas é...
P/1 - Agora... ele trabalhava com o quê fora?
R - Ele trabalhava como carpinteiro.
P/1 - Vocês em casa, me fala um pouquinho como era o cuidar dos seus irmãos.
R - É bem agitado, né? Mas bem tranquilo também, porque eles tinham muita vergonha. Naquele tempo, as crianças tinham muita vergonha. Chegava alguém, eles se escondiam debaixo da cama. Pra cuidar deles, assim, a mãe já deixava mais ou menos, já deixava tudo pronto, o arroz, não tinha muita coisa, mas era o feijão e a farinha e só, era assim. Mas nunca deixou de ter alguma coisa, a gente nunca chegou a passar muita necessidade, né? Não tinha tudo que precisava, mas arroz, feijão, molho de peixe, pescado, essas coisinhas. Ela arrumava, meu pai também, meus irmãos mais velhos às vezes pescavam, pescava não, pegava passarinho às vezes, a gente empanava, fritava e comia, tranquilo. E a maior alegria da gente é quando tinha a fartura de manga, essas coisas que ajudavam. A gente saía catando manga pelos pés do manga do povo e era assim. Mas nunca chegamos a passar necessidade extrema, não. Só no domingo que tinha o arroz, feijão, macarrão e aí era completo. E aí a carne. Porque o pai chegava de Recife, que era mais perto, e ele chegava todo final de semana, e aí era uma alegria, né? Porque a gente sabia que vinha com um dinheirinho. Porque naquela época o pessoal pagava acho que por semana.
P/1 - E você cresceu então na natureza, assim?
R - É, na natureza. Sempre na natureza. Porque antes de trabalhar, meu pai antes de trabalhar como carpinteiro, ele trabalhou na cana também. Aí ele vinha muito, ele vinha muito no final de semana e trazia o recurso pra dentro de casa, aí foi levando meus irmãos, primo, é assim.
P/1 - O que você gostava de fazer no mato?
R - Brincar de boneca, mais bonequinha de milho, era assim, dos sabugos de milho. Só as coisinhas assim, não tinha muita coisa, mas a gente inventava, sempre dava um jeitinho.
P/1 - Você gostava de brincar mais do que?
R - É, pega-pega, essas coisinhas de brincadeira de roda. Ia pra casa à noite, enquanto os pais contavam histórias, a gente brincava. Normal, igual toda criança da roça faz, né?
P/1 - O que você viveu nessa época de criança, Adriana, que te marcou mais? Tem alguma história, algum dia que você lembra mais quando você pensa?
R - O que eu lembro mais é do movimento que a gente participava fora da comunidade. Quando tinha TV, aí a gente ia pra casa do vizinho assistir lá, bem longe, atravessava o rio pra poder... Todo mundo. Aí chegou a era da tecnologia e o pessoal começou a sair mais um pouco de casa. Mas o que marca mais é assim, era as idas pra gente, quando tinha terço, na comunidade, já tinha um... A cidade ainda tinha algumas pessoas que gostavam de fazer noiteiro, né? Noiteiro. Era assim, tipo assim, você passava o meio de maio todinho, aí era alegria pra gente. Ou quando tinha o São João, que aí eles se juntavam, faziam o movimento e a gente participava. Aí ficava a noite todinha, era assim. E o terço a gente ia, era um movimento também católico, mas cada movimento que tinha lá dentro da comunidade próxima, a gente participava. Meus pais iam, uns ficavam em casa. Era onde algumas pessoas se aproveitavam para roubar a casa. Eu tinha muito isso. “Roubou minha galinha”. Eu saí de casa e era assim. Mas era tudo... Naquele tempo, para dizer que não era tão normal. Mas é tranquilo.
P/1 - Você gostava de sair de casa?
R - Gostava. A noite a gente ia. Quando não ia, ia com a vizinha que ia também. Era assim.
P/1 - E você se lembra...
R - Eu ia dormir na casa dos outros, porque os outros não podiam, a tia, a minha tia, porque às vezes ela não conseguia dormir sozinha, era só... A gente sempre fazia isso, a mãe sempre mandava alguma filha pra ficar: “Manda uma filha pra ficar porque eu tô sozinha hoje” Era assim, um cuidando do outro, na redondeza por ali mesmo. Era longe, mas dava pra conciliar.
P/1 - Como que era a sua casa? Ela ficava perto do quê? O que tinha ali na redondeza?
R - Ela tinha só um córrego. Passava a enchente, quando dava a enchente passava, mas não chegava nela não, porque ela é mais em cima do... Era bem um córrego assim, só que uma subidinha a gente fez a casa ali. Construiu, né? Meu pai, minha mãe...
P/1 - Tinha água perto?
R - Só quando chovia. Aí, quando não chovia, tinha um… Acho que era um cano dessa véspera, da época, que estourava e ficava muito tempo. Eles não conseguiam arrumar e a gente usava essa água pra... Aí todo mundo usava dela. Bebia, era assim.
P/1 - E era longe de Surubim ou não?
R - É longe, mais ou menos uns cinco minutos de carro, por aí, cinco é pertinho, não é tão... Se for da Toyota, que a gente fala, né? Porque desde o tempo que a minha mãe nasceu ainda já existia, já existia a Toyota, a famosa Toyota, que o pessoal pegava condição, pagava, ia. Quando não tinha, deixava pro mês que era assim. Mas, quando era para ir para a roça, era sempre de cavalo, burro, era assim, charrete.
P/1 - E vocês tinham bicho também?
R - Tinha, a gente criava vaca, para poder ter o leite, para poder manter a casa, era assim. Era sempre assim, sempre um casal, um boi, uma vaca.
P/1 - Tem algum bicho desses que você gostava mais assim ou não?
R - Só a vaca que dava leite.
P/1 - Mas você não chegou assim a... “Ah, essa minha vaca que nem o Choquito (cachorro da família)” assim, era de estimação.
R - Não, só algumas galinhas. Algumas galinhas eu...
P/1 - Mas você fazia o quê? Dava nome? Como é que era isso?
R - O que? É, dava nome pra galinha.
P/1 - Teve algum bichinho que te marcou na memória? Você criou?
R - Ah, teve. Teve o bode também. E a gente dava nome para os bode. E era isso.
P/1 - Você quer contar uma história de um desses bichos para a gente?
R - Ah, uma história que me marcou muito foi uma burrinha que a gente tinha e que meu irmão começou a... Ali é a fé, né? Eu acho que começa a gente... Como é que se diz? A falar um pouco, né? Daquilo que a gente vive, mas é tipo uma coisa bem marcante, assim, como que num momento certo, numa hora certa, as coisas acontecem e a gente vive, mas como que aconteceu aquilo. Aí, às vezes, eu falo pra ele e ele não lembra. É meu irmão. Ele tava amansando uma burra. Porque ele queria amansar. Porque quando ela nasce, ela nasce bem... Ela nasce já bem braba e morde. E aí, ela nasceu e ela era muito braba. Ninguém amansava. Meu irmão disse: “Eu vou amansar hoje essa burra”. E minha mãe tinha saído, meu pai tinha saído, e era eu e ele. E eu corria atrás dele, dizendo: “Cuidado com a burra. Ela vai te derrubar”. Então, quando ele ia descendo a ladeira com a burrinha, bem próximo, assim, de um córrego, aí eu vi a morte dele ali na frente. Aí, quando ele falou assim: “Valei-me, minha Nossa Senhora” Aí a burrinha parou no meio da serra e ela atravessou assim. Aí ali foi a mão de Deus, naquele momento. Pela intercessão de Nossa Senhora. Porque ela é só intercessora.
P/1 - Ele ia cair?
R - Ele ia cair, ali ele ia, entendeu? Porque como que você vai descendo numa ladeira com a burra disparada. Aí de repente quando ele chama o nome, ela atravessa. Aí eu falei assim: “Caramba, como é místico, né? Porque a gente fica pensando assim, mas como que aconteceu aquilo?” Mas que ele ia, ele ia, eu presenciei que ele ia mesmo cair de ladeira abaixo, seria talvez o fim dele.
P/1 - E você tinha quantos anos, mais ou menos, sabe? Era pequena.
R - Tinha uns, acho que uns nove anos, pra oito, por aí.
P/1 - E vocês aprontavam muito ou não?
R - Aprontava. Bastante. Uma aprontava com o outro e era sempre assim.
P/1 - Você aprontava mais com quem?
R - Sempre com o mais novo, né? Era assim.
P/1 - Judiava dele?
R - Não, a gente chegava só a fazer brincadeira mesmo, de irmão. Rodava com força. Corria atrás deles com pedaço de pau. Mas era tudo...
P/1 - Na brincadeira.
R - É, não é mais brincadeira. Tipo assim, porque a gente dormia, tinha aqueles colchão de capim, né? E aí dormia seis de um lado, às vezes três de um lado e três do outro. Assim, as meninas dormiam pra cima, dormia. Aí quando alguém mijava, alguém... Ah, agora sim. Aí tirava um do lugar e botava no outro pra dizer que era o outro. Era sempre as coisinhas, mas é coisa boba de criança. É tranquilo.
P/1 - Vocês chegaram a ter rádio? Alguém tinha rádio lá perto?
R - Teve, teve. Chegamos. Assim que o pessoal vinha pra cá trabalhar, meu pai levava um rádio, um espelho, essas coisinhas assim, que eles achavam bem interessantes. Aí foi onde começou lá também ter as coisas, lá perto, Recife. Aí Surubim tem uma feira grande também, que a gente participa. Ia lá, comprava as coisinhas, era sempre assim. E meu pai sempre fazia feira, e a feira dele era sempre farinha, carne seca, eu gostava muito. Fubá, milho. Às vezes demorava um pouco pra ter milho. O milho era pra fazer o angu. Botar no moinho, fazer o angu. Que a gente levava pros moinhos, que era próximo. E as mandiocas, quando ele fazia umas farinhas, mas quando não tinha, ele comprava próximo. Abacaxi, essas coisinhas que ele comprava, peixe.
P/1 - E quem cozinhava mais na sua casa?
R - A minha mãe. Muito boa a comida.
P/1 - Era boa?
R - Carne seca, era secada assim no tempo mesmo. Botava no tempo pra estender, estendia a carne, batia ela, temperava, estendia e depois assava. Era ótimo.
P/1 - O que ela fazia que você gostava mais?
R - Essa carne frita.
P/1 - Frita?
R - É, carne frita.
P/1 - Ela fritava no óleo, é isso?
R - Era, fritava no óleo. No próprio sebo, assim, às vezes tinha uma banha de porco, que eles guardavam quando matavam porco. Ele criava porco também.
P/1 - E o que vocês ouviam no rádio, vocês se lembram? Era música?
R - É, música e notícias também.
P/1 - Vocês gostavam de ouvir música na sua casa, cantar ou não?
R - É, escutava, né? Cantava também.
P/1 - E o que eles ouviam nessa época?
R - Na época, era Chitãozinho e Xororó, era... Amado Batista, logo assim quando... Roberto Carlos. Tinha outros cantores lá, Reginaldo Rossi, sempre... E via muita moda de viola. Bastante. E os próprios pessoal do regional cantavam, né? E algumas notícias, mas era pouco. Era mais regional.
P/1 - E o que você gosta mais desse povo aí?
R - De notícias, na época, não?
P/1 - De música mesmo.
R - De música... É, eu gostava de ouvir. Roberto Carlos, Amado Batista, essas coisas no tempo, na época.
P/1 - Entendi.
R - Na época, agora... É bastante diversificado. Eu escuto de tudo um pouco. Eu gosto.
P/1 - E vocês, nessa época de criança, vocês já iam pra igreja?
R - Já, já. A gente, de pequena, minha mãe já levava todos pra batizar, que era o primeiro. Aí dava madrinha, tudo, tinha isso. Ela já ia, a missa lá era uma vez por mês, mas a gente sempre ia, porque tem a capela, que é pra nossa hora do descanso, e a outra capela também. Nossa Senhora de Lourdes, que tem uma gruta lá, que o pessoal fala muito da gruta, que é onde a gente morava no Umari, né? Era isso.
P/1 - E vocês, além de ir na missa, vocês rezavam todo dia? Como que era isso?
R - Rezavam o terço todo dia.
P/1 - O terço?
R - É.
P/1 - Seus pais são bem católicos?
R - É, bem. Toda a família. Nunca chegaram a... E aí eu perguntava uma vez, eu perguntei pra ela. Falei: “Mãe, por que é assim?” Foi a pergunta que eu perguntei. Agora eu não lembro, mas depois eu posso lembrar.
P/1 - Mas você perguntou a ela sobre Deus?
R - É, eu perguntei sobre religião. Aí ela falou: “Não, Deus é um só, entendeu? Se você tá na sua, não precisa de... Se Deus é um só, não precisa de você tá mudando, pra lá e pra cá, se você vai pra outra, você vai encontrar Deus, porque Ele é um só. Se for pra outra, qualquer caminho, mas o importante é seguir o caminho”. É isso. Acho que foi essa bem, mais ou menos, mas teve uma palavra que ela falou. Ela falou assim, como é que se sabe: “Se você... Deus está em todo lugar, mas se você está lá na igreja, pra que mudar se você... Se o Deus, onde você vai encontrar, é o mesmo. O outro lugar é o mesmo. Não muda Deus. Deus não muda, Ele é o mesmo. A gente é que às vezes muda pra encontrar Ele, mas Ele é o mesmo”
P/1 - Você perguntava muitas coisas pro seu pai, pra sua mãe? Você conversava com eles?
R - De vez em quando perguntava algumas coisinhas. Mas nem sempre muito, não. Eles eram mais tranquilos. Eles falavam só na hora. Meu pai ficava pra lá e pra cá falando, dando conselho pro mais velho, a gente escutava. Ele só falava, é uma coisa que ele fala muito: “Quando você vê a barba do vizinho arder, põe a sua de molho”, era assim. Era sempre assim, que a gente sabia que se a gente passasse, fizesse o que acontecia de errado, fizesse alguma coisa errada, iria acontecer coisas piores, era assim.
P/1 - E me diz uma coisa, você, desde quando você acredita em Deus, desde quando você tem uma relação com Deus?
R - Desde pequena, eu acho. Acho que foi o que os meus pais passaram pra gente, pra minhas irmãs. Acho que ficou bem marcado. Ajudou muito na caminhada, porque eles nunca podiam estar com a gente. A gente podia ir para onde for, mas a gente tinha uma direção. Poderia até se desviar, mas a gente sabia a direção.
P/1 - E você falou que era difícil ir para a escola, não é isso?
R - Era difícil.
P/1 - Era em Surubim a escola?
R - Não, era distante. Da onde a gente morava, era bem na cidade. Na cidade que a gente fala, Umari era próximo. Mas a gente descia, subia a ladeira, era assim. Mas nunca assim tão difícil que a gente não pudesse ir. Porque na época a gente tinha bem fôlego, assim, de estar correndo pra lá e pra cá, criança, né? Então, pra criança nunca tem dificuldade não. Elas enfrentam qualquer coisa. Chuva, vento.
P/1 - Você foi até que ano?
R - Eu estudei até a sétima série lá. Aí eu fui trabalhar na casa de família, que tinha quando eu era maiorzinha e a minha irmã mais velha foi, e a gente foi seguindo, aí ela vai arrumando outras. Outras donas de... A gente fala em patroa, né? Outras patroas pra ir. E a gente acabava ficando lá. A gente dormia lá, ficava lá. Só vinha final de semana pra casa. Que era em Surubim. A gente morava em Umari e em Surubim a gente vinha trabalhar. Era, que era mais próximo. Aí a minha irmã ia pra Recife, às vezes ia pra Recife, arrumava algumas coisinhas pra lá pra gente também. E assim, uma foi chamando a outra. Mas eu trabalhei em casa de família lá, eu trabalhei mais ou menos... Comecei a trabalhar aos 13 anos, mais ou menos, por aí. Porque onde já aprendeu a lavar uma roupa, varrer uma casa, e assim. Só que aí o estudo a gente nem liga mais, né? Aí a gente acaba deixando um pouco de lado, entendeu? Porque aí ela falava: “Você quer escolher, você quer estudar ou você quer trabalhar pra ajudar na casa? Aí você que sabe, se você não quiser estudar, vai ter que trabalhar. Uma coisa ou outra, ou trabalhar na roça”, que era o único jeito de... Aí a gente escolhia, tinha três opções: trabalhar na casa dos outros, mas também a gente ganhava pouco. Mas era o pouco que às vezes chegava e ajudava eles também, mas não mudou muita, né?
P/1 - Voltar só um pouquinho, só antes de você falar de como foi esse trabalho, né? Como é que era você na escola? Como era a escola, os professores?
R - Era bem assim, era mais... Eles davam mais... Acho que a gente tinha mais... Porque na época lá não tinha muita tecnologia, né? Então a gente tinha que estudar mesmo. Não tinha moleza, não. A gente acabava aprendendo mais e se envolvendo mais. É isso. Eu tinha a hora do recreio, mas o mais que eu gostava era a merenda, né? Que é onde a gente comia mais. Porque em casa era sempre o de sempre, era o caldo de feijão, feijão, arroz quando tinha, mas a gente também não ligava não.
P/1 - E a merenda do que?
R - Era sopa. Era a sopinha. Muito boa. Macarrão com sardinha de lata.
P/1 - Era diferente.
R - É, era diferente. Bacana.
P/1 - E você gostava de alguma matéria mais que outra?
R - Eu gostava mais de português. Sempre.
P/1 - Sempre?
R - É. Só a matemática não gostava muito, não. Mas a gente acabava passando porque um ajudava o outro. Mas era bem rígido. A professora pegava no pé porque sabia que tinha que passar. Não tinha moleza, não.
P/1 - Me conta um pouquinho mais dessas festas que vocês faziam. Mutirão, São João...
R - Mutirão é quando a gente ia ajudar o pessoal. Mutirão de emergência é quando o governo local falava: “Vamos pegar umas mãos de obra aí pra trabalhar e fazer emergência, mutirão de emergência”. Aí ia. Porque a gente tinha que desativar, os barreiros ficavam muito com lama e tinha que tirar aquelas lamas dos barreiros todinhos. E todos os barreiros todinho a gente ia. Tipo aquele trabalho de formiguinha. Aí dava o dinheiro pro coordenador, o coordenador saía dividindo. Era assim. Mas é assim, ajudava, na época.
P/1 - E vocês foram ajudadas?
R - A gente participava. Já, já. Mas era uma vez de enquanto, era assim. É um mutirão de emergência. Porque naquela época podia, né? Agora não tem um trabalho formal. Só quando tem movimento comunitário.
P/1 - E essas festas, quais eram as festas mais legais?
R - Era vaquejada, era o festejo de Nossa Senhora, que tinha, o dia de Nossa Senhora de Lourdes, dia Nossa Senhora do Descanso, era assim.
P/1 - E você participava dessas festas como?
R - Quando tinha festa, tinha festa também, “Festa do ramo”, festa que os fazendeiros locais faziam essas festinhas. Eles falavam assim: “Ah, tem uma Festa do Ramos”, que é o senhor que eles chamavam do Ramos, né? E aí: “Tem festa de Seu Severino”, que é o Seu Severino que fazia a festa. Todo ano ele fazia uma festa, que aí vinha aqueles balancés, vinha a roda gigante. E é isso. E a gente se encantava com aquilo. Aquelas bolas coloridas. E a gente começava a se encantar com isso. E a gente ia. E cada um era assim. Mas sempre tinha que ficar alguém cuidando de casa e levava a gente. Só que a gente ia mais cedo. Meus pais... Aí a gente ficava em casa e meus pais iam à tarde. Porque ficava até 10 horas, 11 horas. Nunca passou. Mais ou menos.
P/1 - O circo passou por lá já?
R - Passava.
P/1 - É?
R - É. Próximo.
P/1 - Você foi?
R - Fui, cheguei.
P/1 - O que você achou?
R - Bacana, eu achei legal. A gente passa a sonhar, né? Sonhar de fantasia.
P/1 - E que festa que você gostava mais? De participar, de festejar? Tem alguma preferida?
R - Tem a Nossa Senhora da Conceição, ela em Orobó (PE), que tinha umas festas lá que a gente ia todo ano, só que a gente ia pra ilha, pra lá, a gente ia a pé. Então, mesmo que vocês fossem longe, era quase três horas de pé, mas a gente gostava de ir. Quanto mais longe, parece que o desafio era maior. Acho que a gente gostava ainda mais, né? Porque passava por muitas... Passava por debaixo de... Passava... Debaixo que a gente fala assim, debaixo de... A gente passava por sítios e mais sítios, né? E tinha sítio que a gente tinha que passar por um bando de boi, essas coisas. Bando, não. A gente passava pelo sítio, né? E aí, lá a gente passava por esses... A gente sempre tinha que passar por debaixo de alguma coisa pra poder passar para outro lado, pra cortar o caminho. A gente fala que é cortar caminho. Só que cortar caminho é mais... É bem perigoso, às vezes. Pra chegar mais rápido. A gente achava... Só que aí a gente às vezes levava uma carreira do boi ou do... Era assim.
P/1 - E você gostava dessa festa por que mais?
R - Porque ia muita gente. Ia gente de todo local. Muita gente. O festejo era bem fervoroso, assim. Gostava de ir. Era uma vez por ano.
P/1 - Que data que é que tem essa festa?
R - Dia 8 de dezembro.
P/1 - Teve alguma que você lembra mais? Alguma edição dessa festa que você se lembra?
R - Tem a festa de Surubim também, que era de São José.
P/1 - E me conta uma coisa, como é que você decidiu que você ia sair de casa, então, pra trabalhar? Ficou com 13 anos, né? Mas como é que foi essa decisão? Como é que foi a conversa?
R - É, eu conversei com o meu pai, eu falava: “Não, eu não quero estudo. Vou deixar o estudo, eu vou trabalhar”. Ele disse: “Mas você vai deixar o estudo? Se você quiser, você termina”. Porque a irmã que é mais nova, as novas que ficaram lá terminaram, e eu não. Aí eu falei: “Não, mãe. Vou tentar porque quero ter minha renda, eu quero comprar minhas coisinhas”. Coisa de adolescente. Adolescente assim, quer comprar alguma coisa, não quer depender. Ou você vai trabalhar na roça, era a única opção. Foi mais uma opção mesmo. Mas a gente chegava a conversar, aí ele falou: “Tá bom”. Aí ele ia lá, levava, conversava com a dona, tudinho, com a patroa, falava: “Olha, vou deixar a responsabilidade na mão” Ele ia lá, levava, minha mãe também me levava pra conhecer a patroa, que é a casa onde eu ia ficar, o endereço, tudo direitinho. Pra não ter esse negócio de... né? E aí eu dormia. Era. Aí... foi a opção. Mas porque lá também não tinha esse negócio de fiscalização, essas coisas, mas sempre normal. Mas isso é opção minha, meu pai nunca me obrigou, ninguém sai de casa. Ele falou: “A porta da serventia da casa é a porta da rua. Se você quiser”. Ele falava: “Mas não é opção. Você tem opção. Trabalhar na roça é porque assim, se você não for estudar, é a única opção. Ou trabalhar como empregada doméstica, ou trabalhar na enxada”. E a gente acho que fugia daquilo tudo, não queria estudar, mas foi a opção. Ele nunca obrigou: “Ah, você tem que ir trabalhar.” Aí ele sempre falava: “Olha gente, o estudo muda a vida da gente”. Porque se eu tivesse a caneta hoje eu não estaria aqui, talvez eu estaria em outro lugar. Mas como opção eu tenho que trabalhar, mas trabalhar honestamente, sem pegar nada dos outros, esses conselhos assim. Aí, quando eu fiquei grandinha, minha irmã quis trabalhar na casa de família, aí eu também vi aquilo ali como um sair de casa, aí pronto. Uma opção de sair de casa, aí eu fui. Mas ele sempre falava: “Se quiser terminar o estudo, termina. Porque tem que terminar”. Sair de casa era assim, terminar e depois arrumar um casamento.
P/1 - Mas você... Você tinha alguma coisa que queria fazer, alguma profissão? Tinha algum sonho já nessa época?
R - Na época, não.
P/1 - Queria sair de casa?
R - É, queria sair de casa, porque eu vi os outros saindo, o pessoal começaram a sair pra cá e eu fiquei com muita curiosidade de saber como é que era.
P/1 - E você foi trabalhar aonde essa primeira vez?
R - A primeira vez foi em Surubim, ela tomava conta da gente como se fosse filha também. A gente dormia lá. Foi onde eu comecei a assistir a novela. Foi assim. A gente passou a ser parte da família também. A gente nunca tinha aquilo: “Ah, você tá me obrigando a fazer”. Quando era a hora deles pararem pra sentar pra assistir novela, a gente assistia. A gente passava a ser parte da família também.
P/1 - E quem era essa patroa?
R - Ela já é falecida. A gente falava com ela “Dadá”, mas era Hilda. Chamava-se Dadá, só que era Hilda o nome dela.
P/1 - Você gostava dela?
R - Gostava. Aí eu tomei conta da menina dela, da pequenininha. E da mais nova, mais da mais nova. Ela nasceu com síndrome de down e o povo falava que ela não ia andar. Acho que foi mais o incentivo. Ela começou a andar cedo. E aí eu comecei a cuidar dela. Quando eu vim pra cá, pra São Paulo, eu deixei ela lá já tinha uns 6 anos mais ou menos. Ela já era grandinha.
P/1 - Você ficou bastante tempo nessa casa então?
R - É, fiquei. Quantos anos?
P/1 - 10 anos?
R - Dos 13, mais ou menos 16, por aí. Acho que, mais ou menos, 7 anos. Aí cheguei a deixar, às vezes eu deixava ela, às vezes ia para Recife, mas às vezes não dava certo, aí voltava para a mesma dona. Mas como lá era informal, o pessoal... Na época, a gente já estava começando o emprego doméstico.
P/1 - Me fala um pouquinho mais dessa... A casa dela como que era? Era diferente da sua? Como era a relação lá?
R - Ela morava num prédio, um prédio. Embaixo tinha uma... Embaixo era uma venda, só que era de outro dono. A gente morava em cima. Mas a gente dormia mais na casa da mãe dela.
P/1 - E você cuidava de toda a casa, é isso?
R - É, toda a casa. Isso porque a minha irmã já tinha trabalhado lá e eu já fui indicada pela minha irmã. Era assim, porque a minha irmã também já saiu pra outra, já saiu pra cá na época, pra tentar um emprego aqui também. Só que aqui também foi como casa de família. A gente falou: “Vai ser diferente”, mas não. Como a gente já tinha experiência com casa de família, quando a gente chegou aqui, nosso primeiro emprego foi em casa de família. Enquanto isso, só que a minha irmã conseguiu estudar. Mas elas falavam: “Se vocês quiserem estudar, vocês têm a opção de estudar à noite, se você quiser ir estudar”. A minha irmã teve a opção, ela fez, ela conseguiu, que é mais velha do que eu, uma ano. A Marisa, ela conseguiu estudar nessa casa, fizeram todo o trabalho, a formatura dela, tudo. Tem foto hoje dela, nessa mesma casa em que eu trabalhei.
P/1 - E ela ou o pessoal dessa casa te ensinou a fazer alguma coisa?
R - É, cozinhar um pouquinho.
P/1 - Você já não sabia fazer isso antes?
R - Mais ou menos. Cozinhar assim, uma comida mais diferente da nossa, que a gente não tinha. A gente vai pegando experiência. O tempo do cozimento. Tinha muita festa, a gente fazia aqueles docinhos.
P/1 - O que mais você gostou de aprender com ela?
R - Eu acho que foi os encontros que tinha no final de semana, que só tinha festa. Mas o encontro é mesmo com a própria família. Eu gostava daquilo. Acho que eu levei como uma experiência. Porque todo final de semana se juntava todo mundo na família e ia... Um trazia um prato, outro trazia outro. Era assim. E quando tinha um jantar também, eles sempre promoviam isso. E a gente gostava de cozinhar porque a gente também fazia parte, né?
P/1 - E você se lembra da primeira vez que você foi pra Recife?
R - Pra Recife eu fui, mas eu fiquei uns 15 dias só, porque eu não gostei de ir lá. Aí eu acabei voltando pra minha irmã.
P/1 - Mas o que você achou da cidade?
R - Achei assim, muito agitada. E lá em Surubim não era tão agitada. A casa já era mais... A agitação, o local, tinha muito prédio. E aí a gente ficava meio perdida, né? Só ia pro lugar se tivesse alguém.
P/1 - Você achou bom ou ruim isso?
R - Pelo desenvolvimento eu achei bom, que o pessoal tinha muitas coisas bonitas, muito prédio, muita venda. Vinha o pessoal pra lá. Assim, tinha praia, tudo perto. Tinha muito movimento, né? Quando tinha carnaval, essas coisas. Gostava, mas não saía não, porque eu tinha muito medo… Também eu sozinha. Mas foi poucos dias que eu fiquei lá também.
P/1 - Você chegou aí na praia, Adriana?
R - Lá eu ia só quando tinha caravana. Lá de lá mesmo. “Ah, vamos pra caravana, vamos pra praia”. Aí eu ia. Era assim. “Vamos pra São Severino”, aí ia todo mundo, a caravana. É perto de Recife. É um lugar que o pessoal tem como... É um lugar religioso. Vai lá, reza missa, quando tem um festejo, fala, né? É assim.
P/1 - E me diz uma coisa, nessa época de adolescente, quase maior de idade, você namorava? Começou a namorar ou não?
R - Eu namorei só uma vez, comecei a namorar uma vez, mas também foi poucos tempos.
P/1 - Surubim mesmo?
R - Não, foi mais em casa. Em casa não, o namorado era de próximo de casa. Surubim era só paquera, de vez em quando, ficava um pouquinho nas festas, depois voltava, mas tranquilo.
P/1 - E você gostava de sair nessa época, que você já estava mais autônoma, né?
R - É, gostava, saía. Mas era só quando tinha as festas ali por perto mesmo, saía, voltava, com as próprias meninas que tinha, que era a Ilda também, que era a irmã da outra. Isso aí é com a minha patroa.
P/1 - E quem eram suas melhores amigas, amigos nessa época?
R - Na época, era só a... Deixa eu ver aqui. Tinha duas, mas que a gente... Ela só tem o nome apelido, só. Era a Cristiane. Porque ela trabalhava na casa da outra irmã. Era assim, vamos sair juntos. É só isso mesmo. Só saía todo mundo junto. Ou quando alguém lá de casa vinha, eu saía com a minha irmã também. Mas era sempre assim, com a irmã ou com a patroa. Ela gostava de ir, às vezes, nas festas.
P/1 - E, Adriana, como é que foi, então, a sua vinda para São Paulo?
R - Ah, foi quando meu irmão já estava aqui. E aí eu vim morar aqui na Ilha Bela (Vila Ilha Bela - Cubatão), primeiro, onde eu vim morar, foi na Ilha Bela.
P/1 - Na Ilha Bela?
R - É. Não, minto. Desculpa. Não posso esquecer. Era a Rose, era a minha prima. Ela casou, aí tinha uma casa no centro, ali perto do Parque Anilina. Aí eu fiquei na casa dela porque o meu primeiro emprego aqui era na padaria.
P/1 - Em Cubatão?
R - É, em Cubatão, é. Aí depois eu saí da padaria, aí fui trabalhar na casa de família. Aí eu vim, quando eu fiz trabalho na casa de família, foi que eu vim pra cá, porque eu não queria ficar só na casa da minha prima, né? Eu passei acho que uns três meses, mais ou menos, só pra, por enquanto, até achar um cantinho pra mim, que meu irmão veio e falou que tava invadindo por aqui, aí ele invadiu um barraco. Porque na época podia invadir. Pra morar, podia, não podia vender. Aí a gente ficou. Aí ficou eu, ele e a minha outra irmã, a Marisa.
P/1 - Isso, aqui na Vila?
R - Isso, na Ilha bela, aqui próximo. Porque esse bairro é um núcleo de quatro... de quatro nomes, né? Tem quatro núcleos. A Vila Esperança tem quatro núcleos: Ponto Final, Ilha Bela, Sítio Novo, Morro do Índio, em Ilha Bela, lá no pontinho, perto do Sítio Novo, onde era um barraquinho de taipa, aí foi que eu vi a dificuldade…
Eu digo: - poxa, saí de um lugar achando que era ruim e fui para um lugar bem pior, com falta de água, saneamento, bem difícil a realidade, né? Porque o povo falava tão bem daqui que a gente acabou se iludindo... mas não mudou muito, não, eu achei que era bem pior, porque é bem dificultoso, sem contar com a falta de segurança que tinha, lá não, lá todo mundo conhecia. Lá no Norte todo mundo conhecia todo mundo, aqui não, então eu tinha mais segurança lá do que... aqui, porque aqui já era mais... porque assim, vinha gente de todo local, de todo lugar e a gente não sabia, né, quem, e era assim.
P/1 - Eu só ia perguntar um pouquinho antes dessa história. Então, você tava lá no Nordeste e o seu irmão mandava notícias daqui, é isso?
R - Isso, mandava notícia: “Não, aqui é bom, prosperidade, vai aqui eu ganho dinheiro. Aqui a gente trabalha, o dinheiro é mais” Porque lá realmente se for com... Só que era um pouco, mas um pouco com segurança. Às vezes aqui era assim. Aí aqui já ganhava, já era fichado, ganhava o salário que a gente sonhava, fichar, essas coisinhas.
P/1 - E a viagem você foi como pra cá? De ônibus?
R - Foi de ônibus, né? Itapemirim.
P/1 - Aquele ônibus amarelo, né?
R - É.
P/1 - Você pegou do Recife até São Paulo?
R - Na época eu parava aqui, já parava aqui em Cubatão, na Rodoviária de Cubatão.
P/1 - Como é que foi essa viagem?
R - Ah, bem longa, bem difícil, o pé inchava, o pessoal às vezes fazia sujeira no ônibus. Foi bem difícil, mas eu achava bonito porque eu gostava de ver as belezas dos locais, parada, tudo, eu achava bem bacana. Eu digo: - tá bem, tá indo bem, até aqui tá bom. Aí quando eu cheguei aqui já teve... Entendeu? A casa da minha prima, tudo bem, né? que era asfaltada, tudo, mas quando eu fui morar para a realidade, aí é o sonho de você ter um emprego melhor e juntar o dinheiro pra fazer uma coisinha melhor, né? Aí é isso, a gente sempre sonhando nisso, de melhorar o espaço onde vive e o local, sempre nesse intuito, daí o trabalho era pra isso, agora pra voltar, viajar, já era mais difícil, pra voltar de volta, né? Só quando era final de ano, que ganha
P/1 - Você me fala um pouquinho, como era a Ilha Bela quando você chegou? Se puder descrever pra gente, até pra registrar isso.
R - A Ilha Bela era só casas de madeira mesmo, de madeirite, que a gente fala, a gente invadia um dia e no outro dia vinham os guardas para destruir… E aí a gente só podia ter... (Os guardas falavam:) - Se você estiver morando tudo bem, aí pode.
Aí era assim, derrubava, depois a gente construía de novo e era assim… mas aí tinha a Sociedade de Melhoramento (organização de Moradores) e eu tinha muito medo, - mas a Sociedade de Melhoramento… só que aí eu via falar das reuniões cidadã…, das reuniões das... café das sextas, que era um tipo de reunião que tinha na comunidade, foi aonde eu conheci o Sebastião, o Zumbi (Sebastião Ribeiro Nascimento, conhecido como "Zumbi", presidiu a Sociedade de Melhoramento). Aí lá dava a declaração, comprovante de residência, como você tivesse, porque se não tivesse aquele comprovante de residência, vinha um guarda e derrubava aquele barraco. Meu irmão ia lá sempre quando precisava pra gente ou pra ele, pegava a declaração com ele, com o Zumbi, só que eu não conhecia na época, eu só ouvia falar, ia lá, precisava, mas não chegava, meu irmão que pegava. Era assim, porque a gente trabalhava e só dormia, porque só trabalhava, chegava, dormia, só tinha uma folga por semana, por isso que a gente também...
P/1 - Que é o nome desse seu irmão?
R - É o Evaristo.
P/1 - E como é que é essa história de derrubar e construir, derrubar e construir? Vocês construíam como essas casas? É tão rápido, né?
R - É…. Construía com madeira mesmo, derrubava e aí a gente construía de volta. Era assim, mas só com o meu irmão, ele falava que quando eu cheguei já estabilizou mais, por conta que tinha por trás a Associação dando esse apoio, aí ficou bem melhor, o pessoal foi reconhecendo mais, entendeu?
P/1 - Ah, mas você não chegou a construir uma casa dessas com suas próprias mãos? Ou você teve que fazer isso?
R - Não, a gente só reformava ela, porque com seis meses a madeira já... com seis meses já não dá mais pra usar. Aí tem que comprar dois, três madeirites pra dar uma reformada, dar uma batida, reformada. Era assim. Aí o dinheiro que você pegava era tudo pra ali, né? Era pra água, luz e alguma coisa. Só que na época, como não pagava água nem luz. Depois foi que a gente veio regularizar.
P/1 - A sua primeira casa foi um barraco desses enquanto isso?
R - É, foi um barraco desses.
P/1 - E onde que estaria esse barraco hoje na Ilha Bela?
R - É perto da associação mesmo. É pertinho, próximo, não muito. Perto.
P/1 - Você se lembra a primeira vez que você dormiu lá, que você botou suas coisas?
R - É, eu fiquei meio tonta, né? A gente fica meio tonta, né? Porque a gente fica pensando se vai cair, se vai dormir, a gente não dorme, né? A gente fica pensando: - Ai meu Deus, será que eu tô bem firme, né? A gente fica com um certo de medo, porque a maré vinha, enchia toda a casa: - A maré tá subindo! aí vamos subir as coisas, é assim, a maré sempre voltava a encher a nossa casa.
P/1 - Estava um pouquinho como é que eram as estratégias que vocês tinham pra não alagar tudo dentro de casa, né? Então você já deixava tudo meio preparado.
R - É, É …Aí morava eu, meu irmão, aí meu irmão... Foi na época que se juntou com a mulher e fazia outro barraco. Aí ele foi pro barraco próximo do meu, aí eu fiquei eu e minha irmã morando. Só que aí a gente achava aquilo ali bem mais difícil pra gente, porque toda hora a gente tinha que arrumar, de 6 em 6 meses, aí o dinheiro ia embora também, mas... Deu no mesmo, porque aí a gente foi... Disse: - Ah, vou pagar aluguel… porque aluguel já tem uma estrutura, tudo, aí juntava eu e ela pra pagar aluguel, e aí a gente foi morar na cidade, aqui mesmo, próximo do trabalho.
Aí ficava bem mais fácil. A gente passou bem uns 8 anos, depois a gente viu que também não daria pra ficar só pagando aluguel, água, luz, tinha todo o custo. E aí, quando um ano a gente disse assim: - ah, vamos comprar um barraquinho, aí a gente juntou o dinheiro e compramos um barraquinho também, lá no Caminho do Papa, aqui na Vila Esperança, mas aí, já foi de alvenaria, era pequenininho, era um quartinho, mais ou menos, quatro por quatro, com banheirinho dentro só, não tinha área, não tinha nada, era só um pedacinho. Porque antes o pessoal dividia e vendia, né, uma casa. É assim.
P/1 - Vocês ficaram 18 anos morando em um Cubatão ali no centro, é isso?
R - Oito anos morando em Cubatão, mais ou menos. Assim, nessa mudança, aí não gostava do local, mudava pra outro, era assim.
P/1 - E trabalhando em casa de família?
R - É, casa de família, minha irmã na padaria. Às vezes era assim.
P/1 - Que padaria?
R - Era Europa na época. Ela chamava Europa. E aí a gente foi conhecendo as patroas e o pessoal foi indicando a gente. Ou trabalhava em casa de família ou na padaria.
P/1 - E o que de diferente você vivia ou vive aqui que não tinha lá?
R - Diferente é que lá a gente tinha o apoio de pai, mãe, entendeu? A gente sabia que ele estaria por perto lá. Aqui não, a gente tinha apoio só quando fazia amizade mesmo, ou quando tinha os primos, a prima. Depois minha irmã mais velha começou a morar aqui também, ela foi uma das primeiras também que veio, só que ela foi morar... ela já casou de imediato e já morou atrás da casa da sogra dela. E aí a gente só ia só pra ajudar ela e era assim, mas nunca chegou também… lá a gente dormia ou ficava uns 15 dias, mas não ficava muito, porque ela já morava na casa de outra pessoa… era difícil.
P/1 - Nesse tempo todo que você morava mais pro centro, você vinha pra cá ver seu irmão ou não?
R - Vinha, vinha visitar meu irmão. Não, depois eu vim morar aqui. Depois que a gente comprou o barraco pra cá, ali no Sítio Novo perto, que é o Caminho do Papa. Aí foi que a gente foi os quatro irmãos. Juntos. Aí se juntou todo mundo e foi morar. Pra não pagar aluguel.
P/1 - E era mais ou menos como... Só.
R - Que já é, já tinha bastante barraco já. Daquela época pra cá, já tinha bastante barraco. Bastante gente. O barraco era de alvenaria também. Quando a gente fez, já era de alvenaria. Não enchia, né? Mas só morava no beco mesmo. Igual o pessoal ainda mora até hoje, né?
P/1 - Agora que você conhece o bairro, qual parte veio primeiro?
R - Foi o Sítio Novo. Aí depois veio esticando um pouquinho mais pra cá. Aqui era bem mais, só tinha duas, três casas. A casa do miúdo, da dona Cissa, que era do Tigrão. Mas eu não conhecia essa parte de cá, não. Morava, ficava mais pra lá. Mas aqui, o Sítio Novo. Mas tudo que a gente precisava, a gente precisava de uma associação, que era a do Sebastião, o Zumbi. Tudo era lá, o pessoal, tudo que precisava, tanto de regularizar alguma declaração ou de alguma sopa, que já tinha o trabalho comunitário lá. Já existia.
P/1 - E qual era o nome dessa associação?
R - A Sociedade de Melhoramento da Ilha Bela.
P/1 - A Associação de Melhoramento da Ilha Bela?
R - É. Depois passou para a Associação de Educação Ambiental, De Bem Com o Mangue. Mas depois, acho que uns 20, 23 anos, mais ou menos.
P/1 - Fala uma coisa assim, de verdade, assim, você gostava daqui quando você chegou? Ou não?
R - Não. Quando eu cheguei pra cá, não. Aí depois... Tanto que eu tentava fugir, mas não tinha jeito. A falta de dinheiro vai empurrando a gente meio que...
P/1 - Mas você gosta hoje, você acha?
R - Hoje, já. Hoje eu só saio daqui no último pau de arara, como é que se diz no Nordeste.
P/1 - E você começou a gostar dessa região quando?
R - Porque eu fui trazendo mais desenvolvimento, as pessoas foram se ajudando mais, eu acho que essa aproximação das Associações e as Instituições que existem e vinha visitar a gente, aí começou assim, entendeu? Começou a se desenvolver e também tinha muita liderança. E aí foi ajudando, foi trazendo o poder público pra dentro do bairro também. Foi... Eu acho que foi melhorando mais.
P/1 - Me diz uma coisa, você quando voltou pra cá, então, foi aí que você conheceu o seu marido atual?
R - Sim, quando eu voltei pra cá, eu morava em Sé, acho que mais ou menos estava comigo, até 4 pessoas morando no mesmo barraco… Eu achava que... - Ah, eu vou ter que ir embora para o Nordeste, fazer alguma coisa, sair daqui para não ficar todo mundo aqui junto, nós não vamos fazer nada. Quando um ficava desempregado, o outro apoiava o outro e ali vivia, né? Mas a gente sempre queria sair daquele estado onde estava. Aí... aí eu... Mas antes eu arrumei um namorado, ele não deu certo, arrumava outro, não dava certo, aí foi onde eu arrumei o Sebastião, que é o Zumbi hoje, que é o atual esposo.
P/1 - Você conversou, começou a conhecer ele como?
R - No movimento comunitário que teve lá, que foi uma reunião da sexta que falava. A reunião da sexta, do café. Tinha um café lá que era a reunião, que hoje é a reunião de cidadania, mas antes era a reunião da sexta, era do café. Tinha um cafezinho lá e a gente gostava porque tinha um café e aí onde eu encontrei todas as lideranças lá, que eles participavam dessa reunião.
P/1 - Mas aí você, enfim, você começou a se interessar pelo Zumbi quando? Não foi nesse momento, né?
R - Não, não. Na época ele era candidato, aí visitou lá o meu local onde eu morava. Aí meu irmão disse assim: - ó, vamos votar nele porque ele é daqui do bairro.
E aí eu falei: - ah, é mesmo, aí votei, mas não conhecia ainda, votei porque meu irmão falava que era daqui do bairro, que meu irmão morava lá enquanto a gente pagava aluguel, ele morava no barraco onde a gente comprou, porque a gente tava arrumando ele ainda.
P/1 - E quando é que vocês começaram a se conversar?
R - Foi só quando eu comecei a caminhar no trabalho comunitário lá que tinha. Eu fui numa reunião, mas eu ficava de longe. Assim, eu só via de longe. Aí depois a gente se encontrou uma vez também na igreja. Eu vi também ele na igreja, mas também não rolava. Só quando eu vi a foto dele na candidatura, eu achei estranho. Eu falei: “Ah, legal”. Mas também não... Foi pela foto. Aí depois, a gente se encontrou ali perto onde era o Manoel Bispo, onde ele morava ali por perto, ali em frente à minha casa mesmo, só que na rua mesmo. Ele ia passando e a gente se conversou. Mas eu já sabia que ele era do movimento comunitário. Mas aí até então não tinha conhecimento, depois que ele me levou para conhecer lá a associação, direitinho, lá por dentro, que eu só conhecia por fora, ficava de longe. Porque era muita gente que participava e eu fazia... Era isso.
P/1 - E vocês começaram a namorar como? Quem conversou com quem?
R - É, a gente, os dois, conversaram e ficamos a noite. Conversamos bastante, namoramos uma noite. Uma noite. E depois, no segundo, terceiro, terceira vez, aí vinha. Foi a época que ele estava na Ilha Bela, depois ele comprou esse cantinho aqui. Há 20 anos. Aí ele comprou esse local. E aí ele era bem de taipa e aí eu vinha todo final de semana, porque eu trabalhava na casa da minha patroa e vinha todo final de semana. Mas isso eu já participava da igreja, já participava do grupo de oração, eu cantava no coral, entendeu?
P/1 - E vocês se casaram?
R - Não, é união estável. Estamos se preparando ainda.
P/1 - Ah é?
R - É.
P/1 - E o que te chamou a atenção de você nele?
R - Foi a força de vontade de ajudar as pessoas. De ajudar, de estar sempre ajudando. Certo que no momento que eu encontrei ele, a dona Martinha, que hoje é a falecida, a mãe dele, ela me apoiava muito. Ela dizia: “Não, já tá na hora dele arrumar alguém. Fica por aí mesmo”. Eu só vinha de 15 em 15 dias pra casa dele, que eu morava ali. Eu morava aqui próximo, num Sítio Novo, no Caminho do Papa. Aí eu vinha. É bem estranho o nome do caminho: Caminho do Papa. Aí eu vinha pra cá a cada 15 dias. Às vezes toda semana. Aí a gente foi se gostando. Aí a dona Martinha falou: “Fica aí mesmo. Não vai pra lugar nenhum. Já tá na hora dele arrumar alguém pra ficar” Já tinha 30 anos na época. Aí foi quando começou a história.
P/1 - E você imagino que tenha visto muita mudança durante esse período todo que você tá aqui.
R - É. Bastante, eu vim transformar, eu vi bastante transformação, tanto no local, mas também como das pessoas, as pessoas vinham, conversavam com a gente, se desenvolvia e ia. Aí foi onde começou o trabalho comunitário, até então, porque, aqui não é normal, a gente fala que não é a família normal, é uma família que cuida de outras famílias também, quando chega, abraça, conversa, outras pessoas também, outra Instituição vai chegando, a gente vai acolhendo, e elas vão se desenvolvendo e vão criando asas, certo?
P/1 - Quais são os amigos que você fez aqui, está fazendo, que mais te marcam?
R - Você fala do dia-a-dia?
P/1 - De dia-a-dia, quem são os seus companheiros?
R - Companheiros.
P/1 - Companheiros, companheiras.
R - De amigos, é mais ou menos minhas irmãs mesmo, porque elas moram aqui próximas. E é assim, ela vem, a gente conversa, desabafa, é assim. Porque como a gente tem aquele olhar público, também se você ficar falando, pode ser assim, você tem amigas, mas você fala algumas coisinhas, tudo, mas a dona Ana, que era a minha amiga, tem 80 anos. Hoje eu acho que ela tem 82, mais ou menos. Mas a gente pedia muito conselho pra ela. Ela foi assim... Quando eu ia namorar, ela falava: “Não, tá certo, já tá na hora mesmo”. Entendeu? Eu ia lá, ela conversava, eu desabafava com ela. Ela ainda é viva ainda. Ela tá morando com a filha dela. Mas assim, a minha... O que eu tenho mais de amizade é com ela. Tudo eu combinava com ela. Quando eu falava que vinha dormir na casa do Zumbi, eu falava pra ela que vinha dormir na casa do meu zumbi, eu falava assim: “Eu posso falar que eu dormi na tua casa?” Pra minha irmã não ficar preocupada. Porque a preocupação era de pegar alguma barriga e não assumir e ter aquele problema. Então, a minha irmã tinha aquele problema de a gente não pegar barriga. Meu pai era bem rígido: “Se tiver, vai ficar aí mesmo, porque pra cá eu não vou aceitar. Porque você tem um exemplo”. Eu acho que foi um marco muito importante da parte deles, de criar aquele medo, criar aquele respeito. “Você se respeite, porque assim, se você vai tendo um filho, filho, filho pra mim cuidar, eu já não tenho uma idade, eu já criei nove, não tenho condições” Então a gente tem que ter muito cuidado de se proteger, de se cuidar pra não ter filho, só ter filho quando realmente achar que o marido vai tomar conta, eu vou ter essa responsabilidade de cuidar do filho. Por isso que elas tinham todo esse cuidado até hoje. São seis mulheres e três homens da minha família. E aí elas tinham esse cuidado de não ter... Porque hoje tem proteção pra tudo. Antes era mais difícil, mas hoje não. Então, vai ter, vou cuidar, vai cuidar, vamos arrumar um parceiro que também vai ajudar a gente a cuidar. É certo que nem todo caso tem um que larga pra lá, né? Tem as adversidades da vida.Porque às vezes a mulher arruma uma pessoa achando que vai dar certo e depois não dá. Mas tem que ter muita fé em Deus e confiar só em Deus, porque as diversidades vêm, as brigas vêm, as discussões vêm e a gente tem que conciliar ali e saber, ter uma pessoa para orientar. Eu ia muito na igreja e também tinha orientação com o padre, que a gente fala que é a confissão. E lá a gente também desabafava, conversava. Essa importância de você conversar com os mais velhos, conversar com as pessoas que têm uma certa direção, é bem melhor. Dá um pouco de segurança pra você. E quando eu queria deixar o Zumbi ele falou: “Não, você não pode deixar ele”. Aí eu levei pra minha vida toda, porque você não pode deixar, porque dificuldade você vai encontrar. E é isso.
P/1 - Quem que era o padre mesmo ainda, daquela época?
R - Daquela época que me deu esse conselho, foi... Não, hoje ele tá em Santos, Paulo Valdeci. Ele falava: “Não, você não pode deixar” “Mas eu posso sim, eu vou largar, eu não quero mais movimento comunitário, é tudo misturado, eu não tenho sossego” Aí ele dizia: “Mas você escolheu. Então escolha, é missão. Deus tem um projeto pra vocês, vai dar certo”. E aí eu tô até hoje.
P/1 - E quando você vai na igreja aqui perto, você vai em qual igreja?
R - Eu vou mais na São Francisco.
P/1 - É onde fica?
R - Fica aqui na Vila Nova. E a capela sempre no final de semana, no sábado, às vezes. Cada quinze dias. É assim.
P/1 - Você, então, manteve a sua fé, é isso?
R - Mantive a fé.
P/1 - Você falou que você canta no coral, é isso?
R - Eu cantava antes, mas depois que eu casei, só o movimento comunitário mesmo. Porque o movimento comunitário acho que entrou na nossa vida quando ele já estava... O Zumbi já estava há 20 anos lá na Ilha Bela, já ficou muito tempo. A mãe dele dava apoio pra ele lá. E lá ele doou pra capela Nossa Senhora Aí lá é a Irmã Dulce, que é o mesmo trabalho que eles fazem lá Aí ficou a capelinha, a Irmã Dulce. A gente doou porque eu falava pra ele: “Como é que a gente vai ficar lá e cá? Associação lá, associação aqui, já que você resolveu” Aí eu morava aqui na frente, aí eu fui deixando o trabalho um voluntário aqui. Passei pra trás assim que a dona Martinha faleceu, a gente passou pra casinha dela. E parece que ela já tava de despedida, porque ela carregou minha roupa todinha pra lá antes de ir embora. Falava: “Não, eu tô só aguardando aqui”. Ela passava, arrumava tudinho.
P/1 - Quem que é a dona Martinha?
R - É a mãe do Zumbi, o Sebastião.
P/1 - Me fala um pouquinho, então, dessa sua virada para o movimento comunitário. Você se juntou com o Zumbi?
R -É, e ele já tinha o trabalho, e aí eu pensei, não, vai ser família normal, eu vou ficar aqui, ele vai trabalhar lá, não, só que não, só que ele trouxe tudo, né? Quando a gente arruma uma pessoa, a gente vem com a bagagem e a gente acaba assumindo. E aí foi quando começou o movimento aqui com o galpão velho, aí tinha a sopa, aí começou a doar a sopa, tanto lá no Miúdo doava a sopa, aqui também doava, tinha na dona Rosália que era falecida também doava a sopa, aí depois aqui também, isso era os pontos que as prefeituras deixavam nos locais, no Sítio Novo também tinha. Sempre deixava um pouquinho em cada lugar, que era o “Projeto Nosso Pão” que já tinha lá na Ilha Bela, que era o inglês, lá tinha o inglês, capoeira, essas coisinhas de movimento. Aí passou a ser aqui. E aí era todo dia, a gente esperava a sopa, às 8h. Aí uma pessoa comia aqui ou levava pra casa e as doações chegavam, né? Chegava alimento, aí a gente dividia, e a gente nunca saía pra trabalhar. Eu também não pude trabalhar porque comecei a ter filhos, né? E aí tive a Marisol, depois a Francisca, o João, aí foi... Aí foi… Aí tinha reunião cidadania, a gente acolhia as pessoas, conversava, dava orientação, onde tinha que ir, onde tinha que chegar, dava conselho, via muitas coisas, né? Vinha com dificuldade, a gente conseguia… não resolver, né? mas o que a gente podia fazer, a gente se dividia, a gente se doava. Aí vinha as doações, a gente dividia direitinho, Deus sempre derrama a benção, eu falo que aqui era a casa da benção, né? O pessoal precisava, tinha uma referência, tinha a gente como referência e ficou até hoje.
E a gente trazia muitas coisas de fora, como castração, oficinas e tudo isso, como tá tendo agora, né? Os projetos sociais, que vêm pra dentro da comunidade.
Então, eu acho que aqui é aberto 24 horas, porque quando a gente dava a declaração, a gente não tem hora, a relação com a comunidade que a gente tem, eu falo com o Zumbi, eu sempre falo isso, que ele fala também que a relação com a comunidade é de mãe, pai e filho, não tem hora. Tem hora que chegar, se a gente puder atender, é assim. É certo que às vezes a gente fica magoado com algumas coisas também, mas a gente enxuga as lágrimas, põe um óculos escuro no rosto e vamos pra frente. A gente tem que seguir, porque isso aí vai acontecer, adversidade da vida.
P/1 - E quais são os maiores problemas que vocês enfrentam ou que vocês ajudam as pessoas a enfrentar aqui na vila?
R - Ainda é a falta de planejamento familiar. A gente fala planejamento, porque a gente não se planeja, a gente vai empurrando com a barriga, né? Porque a gente tem filho, tudo da gente é meio desordenado porque a gente não tem, a comunidade às vezes ainda não tem aquele pensamento de crescer. O maior desenvolvimento é o desenvolvimento local da comunidade. O desenvolvimento local quer dizer que a gente não tem condições de cuidar, de arrumar. Então tem que vir um poder público para urbanizar, porque a gente foi crescendo irregularmente. A gente foi crescendo irregular, a comunidade. A falta de organização. Mas ainda era a fome. Por isso que o Zumbi, enquanto secretário, criou dois Bom Prato. Então, ele tinha muito cuidado com a fome. Porque a fome é o que você não pode esperar. A gente combatia com o que tinha, era assim. Chegava as cestas, doações, ele sempre fazia palestra pra conseguir cesta pra dividir. Era assim. Aí depois ele viu que isso aí não ia levar ninguém, senão ia criar aquele vício. As pessoas iam ter aquilo como vício, não ia se desenvolver. Aí por meio da educação, a gente foi reeducando, Foi criando a moeda no local, criando o mangue, criando os projetos. Que é pra poder as pessoas se desenvolverem enquanto... E buscar o seu rumo, né, buscar sua renda, trazer sua renda pra dentro de casa. Por meio do desenvolvimento, do estudo, do trabalho também, que ajuda muito. Pra não ficar só pedindo. Porque a gente só dá, dá e aí chega uma hora que você tem que mudar. Porque o nosso tinha bazar, a gente tinha um bazar e era tudo gratuito. Aí hoje não, hoje a gente ajuda outros bazar quando chegam doações pra poder se manter, pra ter uma renda. Tem que ter uma renda. Mas é isso.
P/1 - E como é que é essa história de moeda local?
R - Foi em 2011, aí o Zumbi se juntou, até aqui o Miúdo também: “Vamos dar um incentivo, ter essa moeda local. Vai ser bacana pra vocês, pra gente ter uma moeda local” Que a gente queria criar uma moeda local, mas não sabia como. Aí, pra adquirir ela, a gente, com a nossa associação de educação ambiental, criamos uma moeda local, que se chama “mangue”. São quatro moedas, aí pra adquirir ela com material reciclável. Era uma forma também de combater. Tinha muito lixo no mangue e tudo. Ele fazia a limpeza do mangue todo ano, mas só isso não dava pra... pra reeducar. Foi mais pra reeducar a comunidade. Hoje já tem outros ferros velhos, tem outros... é isso. É só mais pra incentivar. Tudo que a gente cria aqui é pra incentivar, é pra ver que pode, que é possível a gente criar até dinheiro quando se tem dificuldade. Que a gente tá com uma dificuldade, a gente...
P/1 - E ela tá existindo até hoje ou não?
R - Ela existe até hoje, só que a gente só cata mesmo de casa mesmo. Porque assim, deu certo, porque até então eu vejo muita gente ainda reciclando. Foi mais pra incentivar porque tinha muito lixo realmente no mangue e nas casas. E a gente foi reeducando, passamos quase 10 anos conversando com a comunidade sobre a importância da reciclagem, do lixo. O lixo vale dinheiro. Aí criamos o banco do mangue. Então, aqui a gente está em movimento o tempo todo. Constante movimento.
P/1 - Nessas ações comunitárias, você tá mais em algum lado, mais em alguma frente, ou você tá em todas?
R - Assim, todas, porque a gente acaba se envolvendo. “Não vou me envolver”. Cada um trabalha o seu cantinho, mas a gente acaba se envolvendo. Ajudando ali, conversa.
P/1 - Mas tem algum que é a sua menina dos seus olhos, que é mais especial, que te marca mais? Alguma ação que você goste mais de fazer?
R - De fazer aqui dentro? Com as crianças. Apesar de que não tinha muita criança, assim. Mas a gente sempre se junta pra fazer oficina, essas coisas. É mais com criança.
P/1 - Oficina do que vocês fazem aqui, por exemplo?
R - Aqui a gente fazia o Dia de Brincar. Aí deu uma parada por conta do trabalho. Dos outros trabalhos. Mas era isso.
P/1 - E o que você gosta mais das crianças?
R - Para tirar um pouco da realidade de onde elas vivem. Por isso que a gente expandiu um pouco, foi para a praça agora para poder estar mais junto delas e conversar com elas. Acaba se envolvendo mais. E todo ano a gente faz a Festa das Crianças para levar um pouco de alegria para elas.
P/1 - E tem alguma pessoa que marcou vocês, que vocês ajudaram bastante, que mudou a vida dessa pessoa? Tem alguma história que você pode contar pra gente?
R - Tem várias pessoas, só que algumas a gente marca mais, porque assim a gente viu elas se desenvolvendo. Ela estudou, aí depois comprou a casinha, saiu daqui e comprou a casinha dela na Vila Natal. Achei ela bem... Assim, porque ela falava que ouvia muita gente na reunião de cidadania desse desenvolvimento. E teve algumas pessoas também que foram fazer faculdade por conta disso, por conta que o Zumbi falava que a gente tinha que ter uma caneta. E aí quando a gente estava nesse movimento comunitário, a liderança era o Ademário, que foi prefeito duas vezes. E pra nós é um orgulho, porque na reunião cidadania a gente falava: “Tem que ter uma caneta. A gente tem que ter uma caneta”. Aí o Zumbi foi o primeiro, começou a fazer a faculdade dele, com o maior sacrifício. Estudou na Educafro, depois foi fazer a faculdade dele. Então, ganhou a bolsa e foi estudar. Mesmo com três filhos, ainda deu conta da casa e aí foi onde começou a se desenvolver. Com isso, outras pessoas também foram se desenvolvendo. O Anderson começou a estudar também, outras lideranças começaram a ir, por conta disso.
P/1 - Você foi estudar também?
R - Eu também fui estudar, porque como eu deixei o estudo para trabalhar, e aí aqui eu comecei do zero, tive que começar de novo. Por conta do Zumbi, ele falava: “Você tem que estudar. Você não pode. Hoje a gente estuda, melhora muito”. Aí eu fui estudar, fiz, terminei. Depois, quando eu tive meus três filhos, eu falei: “Eu vou fazer faculdade quando você terminar a sua, passar tudinho”, dar esse apoio pra ele, pra depois... Aí quando ele parou de estudar, eu fui estudar faculdade.
P/1 - Você cursou o quê?
R - Assistência Social.
P/1 - E fez sentido?
R - Fez porque eu já trabalhava, agora é só exercer a função. Fiz porque eu já lidava com isso, O tempo todo vi essas demandas sociais dentro e fora. Algumas pessoas se desenvolveram com o exemplo da gente de voltar a estudar. Outras colegas começaram a estudar também. Foi se desenvolvendo.
P/1 - Estamos indo já para o final da entrevista, mas eu queria te fazer algumas perguntas sobre a Vila Esperança também, até para quem não conhece, vai começar a conhecer melhor. A Vila Esperança, como um todo, tem parcerias com quais institutos, empresas? Como é essa relação da Vila Esperança com o lado de fora dela?
R - Então, a nossa vida é pedir. O Zumbi fala que a gente pede muito, né? A gente pede para instituições locais, empresas locais que venham ajudar a gente, que seja um braço a mais dentro da comunidade. E uma delas a gente pedia muito para a RUMO, pedia muito para a Ecovia, pede para a Prefeitura para poder fazer essa estrutura. E a Prefeitura está fazendo a parte dela, que o nosso legado é o nosso sonho, de trazer a urbanização para dentro da Vila Esperança e hoje ela está sendo realizada. Hoje já tem uns apartamentos que já estão sendo feitos. E a RUMO com o trabalho que eles têm com as instituições que pleitearam. Foram lá e ganharam a lista, né? Como é que fala?
P/1 - Edital?
R - Edital e veio trabalhar, pra trabalhar aqui dentro da comunidade. Isso pra gente é bom, porque a gente sempre pedia projeto pra dentro da comunidade, pedir alguma coisa pronta. A gente pedia muito pra fazer a praça, pra arrumar a praça, pra poder a gente ter um espaço a mais pras crianças. Então, pra gente leva um pouco de luz na escuridão pra ver se a gente desenvolve mais um ao outro. É isso. Eu consigo, pelo menos, dar um pouco de... como é que se diz? De esperança, de falar. E aí agora tá com esse projeto, que é do Gerardo Falcões, com o Museu da Pessoa agora, com esse projeto maravilhoso pra conhecer a história da vila. E tem mais o projeto de rua, agora com as crianças. Então pra gente veio assim, veio agregar mais tudo aquilo que a gente faz, que pedia para fazer.
P/1 - As pessoas aqui da Vila Esperança, elas vieram de onde, em sua maioria, você acha?
R - De vários locais do Nordeste. Eu acho que tem um pouco de cada local aqui.
P/1 - E isso ajudou vocês a se sentirem em casa aqui ou não?
R - Ajuda que a gente vai se comunicando, se conversando. Acho que ajudou muito. Uma do Maranhão, outra do Recife, outra do Pernambuco. Então, a gente se aproxima. Tem muita gente do meu lugar também, entendeu? Que acaba a gente ficando, a gente fala que fica em casa, né? Tá em casa.
P/1 - Você falou que era o Zumbi e o Miúdo.
R - É.
P/1 - O Miúdo, é isso?
R - É isso.
P/1 - Você pode contar um pouquinho desse Miúdo, quem ele é?
R - Miúdo era a liderança, era o Miúdo, Zumbi, Ademar, na época também era a liderança da Vila Natal, eles se juntavam e fazia, o Manuel Bispo também, eles se juntavam todo mundo para fazer essas reuniões cidadãs e foi onde a gente começou a se conhecer, mas o que eu via o Zumbi andar mais era com o Miúdo. Era mais um movimento comunitário, assim, de ir lá para buscar água, para conseguir água, conseguir luz, regularizar, era isso. Sempre nesse intuito de buscar algo pra dentro da comunidade. Festa, festa do mangue, essas coisinhas assim, eles sempre corriam atrás. Me trazer pra dentro da comunidade alguma coisa, né? E eles brigavam mesmo, brigavam.
P/1 - Brigava mais com quem? Com a prefeitura, com as empresas?
R - É, com as empresas e prefeituras. Brigava mesmo. Mas era normal de todos nós. Olha, tá faltando água, olha, tá faltando luz. É, precisa, né? Com instituições locais que prestavam serviço, mas que não dava serviço de qualidade. Elas iam lá e... Quando tinha reunião, eles iam e eles ficaram bravos. Ele queria trazer alguma coisa pra dentro de casa. Pode deixar alguma coisa. Porque às vezes as coisas demoram tanto pra acontecer, igual ele fala, às vezes o projeto vai pedindo, pedindo, aí demora tanto pra acontecer, como você vai ver, o menino já tá grande. E aí já foi. Então, quanto mais envolvimento com as instituições, com as associações, isso ajuda muito pra poder você equilibrar um pouco, aqui melhorou bastante. Da época que eu conheci, do tempo pra cá, ela se desenvolveu muito. Foram 20 anos. Mas, é que não... Assim, um pedido que eu faço é que não demore tanto pras coisas acontecerem. Os projetos dentro da comunidade. Porque, às vezes, demora. “Tá bom, vou mandar, vou mandar”. E essas coisas... Por isso que eu fui estudar, pra depois entender como é que faz um projeto. Como é que eu posso pleitear um edital também, pra poder ajudar. É uma forma também de a gente ter um conhecimento pra gente trazer pra dentro e também poder ajudar outras pessoas, né?
P/1 - E quais são as maiores brigas que vocês fizeram? O que você acha?
R - Foi pra conseguir a urbanização. Aí ele conseguiu a 15 quilômetros de cerca. Digo, ó, pra conter teu povo era ali, que o Zumbi conta que era ali, na época era promotora… Então, era para ter urbanização, porque mais que a gente tenha feito irregular, não foi porque a gente queria, a necessidade. A gente faz um cantinho pequenininho ali, não tem, o pessoal vai dando um pedacinho, a gente vai fazendo, e aí vai acontecendo por conta das necessidades. E aí tomou uma proporção tão grande que a gente não conteve. E aí quando tinha essas reuniões de urbanização, aí o Zumbi ia lá junto com as lideranças. “Vamos lá!” Aí ele ganhou 15 quilômetros de cerca junto com a Prefeitura, a Petrobras. Eles vieram e fizeram, mas pra conter teu povo, que era, tinha que conter, é um tacto de ajustamento de conduta, que você tinha que ter dentro da comunidade pra conter invasões, pra ela não... não ter mais invasões, aí era que eles iam conseguir água e luz com isso. Ele conteve as invasões, mas o interesse público não dava muita atenção, conseguiu conter um certo tempo. Fez 15 quilômetros de cerca, conteve, congelou a área, tudo, mas depois voltou porque o poder público na época não dava muita atenção. Só agora com… A comunidade elegeu um de nós pra poder fazer a diferença dentro da comunidade e agora ele tá responsável por isso. E é isso. A gente tem essa esperança de dizer: “Não, tá acontecendo”. Mas é isso. Mas tem que ter a caneta, tem que ter o conhecimento, tem que estudar. Tem que fazer, no mínimo, uma faculdade, duas, ter experiência, conversar com um com o outro, para a gente ter experiência. Nem que seja trabalho voluntário, para a gente começar a ter um pouco de se desenvolver mais um pouco. É que eu sou meio calada, sou meio tímida, não gosto. Eu só gosto muito de ouvir e escutar.
P/1 - Mas, qual foi a maior vitória que vocês tiveram, você acha, nesse tempo todo aqui?
R - Daqui da vila? É a urbanização. É uma delas. Eu acho assim, vai ajudar muito a gente. Eu sei que pra um falar: “Agora eu vou pagar água, agora eu vou pagar luz” Mas vamos ter que se adaptar. Como tudo na vida, a gente tem que... Não tem onde correr.
P/1 - Se te oferecessem alguma coisa, você sairia daqui, você acha? Hoje?
R - Ah, pra sair? Acho que não. Eu poderia ter outra coisa fora pra ajudar na renda e trazer pra dentro aqui. Ao longo, a gente vai aprendendo a gostar do local.
P/1 - Você não se vê... Porque às vezes.
R - Porque às vezes a gente, com certas coisas a gente fala: “Não, vou sair, já não dá mais pra mim”. Igual quando eu conheci o Zumbi, era sempre essa: “Vou embora pro Norte. Não quero saber” A mala já tava até pronta. Aí eu conheci o Zumbi no outro dia. Aí eu fui gostando e fui ficando, até hoje. É assim, a gente sempre acha que não dá, mas quando... E é engraçado que quando eu falei assim: “Ah, vou embora, não dá mais pra mim”, é porque eu já tinha passado por umas boas decepções, da vida, amorosa, de falta de emprego. Fiz curso de cabeleireira, fiz curso de manicure, essas coisinhas assim, que a gente sempre faz. É o tanto curso que a gente é igual... É igual o Bombril, vai mil e um de utilidade e vai juntando tudo para ver se no final... Mas é para o longo da vida, porque se precisar, a gente toma ali. Por isso que às vezes os cursos também ajudam, porque se você não precisar, não vai fazer alguma coisa, pode fazer outra também.
P/1 - E aí, pouco tempo depois, você conheceu o Zumbi.
R - É. Aí foi que eu fiquei: “Vou dar uma chance, vou ficar por aqui mesmo” “Tu não ia embora com a mãe?” Porque a mãe sempre vinha visitar a gente. Eu não ia embora. É, eu acho que eu vou ficar por aqui mesmo. Eu fui gostando. Mas eu sempre pedia pra Deus nas minhas orações que eu arrumasse uma pessoa que realmente fosse dar certo. E a gente sempre tem esse.
P/1 - Posso te pedir uma coisa? Você falou que você cantava no coral. Tem uma música que você possa cantar pra gente que você cantava na época? O que você se lembra, assim, que você...
R - Eu lembro de várias. Assim, que você... que eu cantava no coral e...
P/1 - O que você cantava no coral que você gosta de cantar, que você acha que representa a sua relação com Deus?
R - Eu gosto muito de cantar a música da... Eu esqueço o nome da cantora, mas eu sei mais ou menos um pedacinho dela. É... Vai cantar? É pra cantar? “Acredite que nenhum de nós já nasceu com jeito pra super-herói. Nosso sonho a gente é quem constrói”. É por aí. Sei mais ou menos.
P/1 - Você gosta dessa música por quê?
R - Porque, assim, a gente fala muito de superação, né? Acreditar que a gente pode vencer. Pra poder ser campeã, a gente tem que vencer. Mas, enquanto isso, a gente vai driblando as dificuldades. Vai, né? É isso.
P/1 - E como é que foi pra você, Adriana, se tornar mãe?
R - Foi bacana. Foi um sonho que a gente tem em mente. Quando a gente se junta, ou casa, a galera quer ter um filho pra dar continuidade aí ao trabalho, quem sabe, né?
P/1 - Mudou muito a sua vida ou não?
R - Mudou, mudou. Mudou a ser mais responsável e parar mais. Porque a gente fica no trabalho, em casa, vai pra rua. Tipo assim, a gente ficava mais assim, quase balada da vida, a gente fala, aí agora tem que... É assim. Mas não era que eu ia muito. Aqui é só quando tinha festa, mas não era muito. Tipo assim, a gente é para ficar um pouco mais em casa. Porque é bem mais difícil pra gente sair como mãe, tá indo pros lugares, é assim. Tem que ir, mas tem que ir junto.
P/1 - E você falou rapidinho o nome dos seus filhos, mas você pode repetir pra mim?
R - É a Marisol, a Francisca e o João.
P/1 - E que idade eles têm?
R - A Marisol tem 16, a Francisca tem 12 e o João vai fazer 11, tem 10.
P/1 - E como é que eles estão hoje?
R - Hoje eles estão bem. A Marisol já está começando, como todo adolescente, a querer trabalhar, querer ter sua renda. Mas é mais ela quer estudar. A gente fala assim, põe na cabeça que ela... Ela fala: “Não, mãe, eu quero estudar, eu quero fazer uma faculdade.” Porque é possível. Porque ela que me ajudou a fazer a minha. Volta e meia eu pedi ajuda, porque ela ainda tava estudando. A gente acaba ajudando. E hoje, com a faculdade à distância, ajuda muito também.
P/1 - E eles gostam daqui, Adriana?
R - Gostam. Ele gosta. Ele fala que é bem envolvido, porque você não para o tempo todo, é bem misturado, aí às vezes ele sente falta de que ele veja as pessoas como uma família normal, que só cuida do pai, da mãe, do filho, vai viajar, vai passear. Então eu falo, mas o passeio vem dentro de casa, a missa é dentro de casa. Volta e meia tem missa, volta e meia tem um curso, tem um projeto para as crianças, você acaba se participando. Depois ele vai entendendo. Hoje mesmo, um dos projetos que ela está fazendo é o Kondzilla, ela tá gostando, que é dentro de casa. É uma oportunidade dela também se desenvolver aqui dentro. Quer dizer, não precisa sair lá pra fora pra ter esse desenvolvimento. É só querer, né? O conhecimento entre um e outro. Porque ela é bem tímida, eu falo pra ela pra se envolver mais. Porque ela criou com a gente, com o movimento. Sempre a casa cheia de gente. Nunca foi vazia, né?
P/1 - Adriana, eu tenho mais umas três perguntas pra você antes da gente finalizar, tá?
R - Não, tranquilo.
P/1 - Tá valendo a pena esse trabalho todo?
R - Que a gente tá fazendo? Tá, tá.
P/1 - Por quê?
R - Porque a gente vê as outras pessoas se desenvolvendo. Tanto pessoa, quanto liderança. Eu falo assim, eles se desenvolvem entre si mesmo. As pessoas começam a desenvolver o trabalho dentro da comunidade e também fora da comunidade, porque eles vão vendo que é bacana participar também junto, dentro da comunidade, tanto fora também. Bacana o que eu falo, é desenvolvimento. Desenvolvimento quanto pessoal e também quanto instituições também.
P/1 - Quer fazer uma pergunta?
P/2 - Eu quero voltar para... Você estava falando dos seus filhos, você falou da sua filha mais velha, mas tem a questão da Francisquinha ser uma escritora, isso é muito legal a gente voltar. Ela tem um livro publicado, conta um pouquinho isso, por favor.
R - Essa história começou quando teve o “Guerreiro Sem Arma” aqui com o pessoal do Elos, por isso que a gente fala desse movimento, vem pra dentro de casa e a gente acaba se envolvendo, não tem como se envolver. E aí o sonho dela, um show de talento, que o sonho dela era ser escritora. Aí cada um pergunta qual é o seu sonho, né? E o dela era ser escritora. E aí ela passa a, como é que se diz, ter esse sonho junto com a comunidade. O pessoal do Elos também abraçou essa causa, disse: “Vou publicar esse livro, vou fazer o livro dela, a historinha”. Ela escrevia com oito anos, ela começava a escrever a historinha dela. E hoje ela conseguiu o livro por conta que o Elos conseguiu uma parceria com a Lua, com o pessoal que já fazia esse trabalho. E aí fez esse livrinho pra ela. A Lua é uma escritora também.
P/1 - E qual é o nome desse livro?
R - É o “Baú de Histórias da Francisca”.
P/1 - E ela fala sobre o quê? Que histórias são essas?
R - Fala do convívio que ela tem com a mãe, com o pai, a historinha, a convivência local mesmo. Fala de sabor, de comida. Tem bastante.
P/1 - Ela fala sobre você, é isso?
R - Também, um pouquinho. A sopa, a sopa do papai. Fala algumas coisinhas. Mas é mais a historinha dela. Convívio, eu acho, com o local. Porque ela brinca muito por aqui. Ela gosta muito de brincar.
P/1 - Tem alguma coisa que te chamou a atenção, você lendo esse livro?
R - Lendo o livro dela?
P/1 - É. Você consegue ver por que ela escreveu tal coisa?
R - Eu acho que o convívio. Convivo, assim, com a família, com as pessoas que vinham aqui. Eu acho que isso ajudou muito.
P/1 - E ela escreveu com quantos anos?
R - Ela tinha nove anos quando concluiu. Mas ela começou com nove. Com oito escrever, depois juntou a historinha. Aí lá tinha um baú que ela guardava tudo. Essa historinha dentro do baú. E doava. E aí fizeram.
P/1 - Adriana, quais são os seus sonhos hoje?
R - Hoje é alcançar a santidade, que é difícil, a gente fala. Porque o que leva ao céu é você buscar a santidade. É em busca, né? E aí melhorar a cada dia. E o segundo é fazer um livro.
P/1 - Fazer um livro?
R - É. Sobra uma historinha mesmo daqui mesmo. Nossa, nossa, eu falo nossa. Aí eu posso falar o nome do livro?
P/1 - Pode, claro.
R - O corrupto não é aquele que se corrompe, é aquele que se deixa corromper. Eu acho que pode até marcar aí depois.
P/1 - E por que tem esse nome? Qual é a ideia?
R - Porque é possível você fazer, ir, você pleitear qualquer trabalho, qualquer, eu falo assim, qualquer instituição, onde você estiver, aonde você for, qualquer poder público, você ter um trabalho no poder público, aonde você for, é você não deixar se corromper, porque aí você, aí é o que dá diferença. Então o que eu achei muito, eu admiro muito meu esposo por ele passar por onde ele passou e hoje ele não ter saído pela porta da frente. Passou sete anos na secretaria, que eu falei que a gente trabalhava sempre voluntário, são 20 anos, eu e ele trabalhando voluntário, eu vivia do voluntário, a gente vivia do que a gente vendia, a gente vendia, a gente tentou de tudo, a gente saía vendendo coisa de bazar, mas nem sempre dava certo, aí a dona Martinha falava: “É melhor porque vocês não tem dom pra isso” O dom da gente era mais se doar, era a gente falar assim, né? Porque assim, a gente ajudando as outras pessoas, as pessoas também, a gente também seria ajudada. É mais nessa parte de... levar para o outro que a gente não precisa ter o que tem hoje para se corromper. É isso. Você tem a sua luta, tem o seu trabalho. Você tem que buscar com luta, com coragem. E é possível até ser rico hoje sem precisar disso.
P/1 - E esse livro iria contar as histórias dessa caminhada, que é isso?
R - Também. Zumbi e outros, que é possível ser honesto sem precisar passar. E era engraçado, falavam: “Não, vai melhorar, porque aqui vai ter cursos e mais” Mas não podia. Porque você não pode vincular associação com o trabalho. Aí ele acabava ajudando do trabalho dele, ele ajudava aqui a associação, ajudava em casa, na prefeitura, porque nem sempre lá tinha as coisas. E ele acabava ajudando do próprio bolso. Porque, às vezes, ele não gosta muito de ficar esperando. Porque demora, tem uma licitação vindo pra você arrumar, pra ter as coisas dentro de onde ele trabalhava.
P/1 - Então o seu sonho é escrever esse livro?
R - É.
P/1 - E é contar a história que você contou pra gente também de antes?
R - É. Algumas. Ah, da minha história, algumas também.
P/1 - Que história você quer deixar marcada nesse livro? Tem alguma específica? Alguma passagem?
R - Tem a história do Zumbi, do que ele vive, que eu sou testemunha daquilo que muitas vezes a gente pensa: “Ah, tá roubando, tá pegando” Então, quando você trabalha num trabalho comunitário ou alguma coisa, você tem muito isso. Então, tem aquilo, aquele julgamento que a gente fez em tudo. E tudo aqui é às claras: “O que eu tenho, eu dou. O que eu não tenho, também o que não é meu também”. O que é meu era meu, eu sempre dividia isso. Isso que eu conseguia com o meu suor, com o meu trabalho, apesar de eu ter que pegar para tu. O que é meu é meu, o que é dos outros é dos outros. É dividir. Aí eu tenho esse desafio, dividir o que é meu, o que é da minha família e o que é dos outros. Aí era engraçado quando vinha aquelas coisas, bicicleta, aí vinha aquele óculos maravilhoso pra assistir filme. Aí a minha filha até hoje, ela dizia: “Mãe, a senhora deu aquele óculos”, e eu: “Era pra dar no Dia das Crianças”. Eu digo: “É pra dar pro Dia das Crianças, não é pra você. O dia que eu puder comprar pra você, aí você vai ter. Um dia que eu puder comprar, você vai ter um óculos pra você assistir lá, que é o óculos 3D”. A gente fazia um pedágio solidário e ganhava muitas doações. E a gente dirigia tudo pra comunidade. Sexta mesmo, se era pra comunidade, era pra comunidade. Eu comprava mesmo porque eu tinha o meu dinheiro, eu corria atrás. E era sempre assim.
P/1 - Histórias desse tipo, né?
R - É, histórias desse tipo. São coisinhas poucas que vai levando. Porque é assim, quando você deixa de confiar, aí começa uma vez, duas, aí começa. Então, não é medo, mas se você confiar em Deus, é possível você ser honesto, ter o que tem hoje, sem precisar mexer em nada. Isso é de berço, de casa. É possível.
P/1 - Tem alguma coisa que eu não perguntei se gostaria de falar?
R - Eu acho que não.
P/1 - Acho que não?
R - Não.
P/1 - Mesmo?
R - Mesmo? Deixa eu ver.
P/1 - Sem pressa, viu?
R - Não, acho que eu não lembro agora.
P/1 - É, tá bom. Mas como é que foi contar um pouquinho dessa história pra gente hoje?
R - É, passa um filme, né? Vai passando um filme, vai lembrando, esquece algumas coisas também. Porque a memória não é mais a mesma, né?
P/1 - Gostou?
R - Gostei. Obrigada.
P/1 - Eu quero agradecer a você. Obrigado.
R - E a última também. São três sonhos, né? Ver meus filhos formados e caminhados. Bem encaminhados. Aí eu já posso dizer que a vida aqui já foi cumprida. Para ir para outro plano, né?
P/1 - Estudarem também.
R - Ou estudarem, fazer na faculdade deles e seguir, né?
P/1 - Parabéns.
R - Deixar ele bem caminhado antes de eu ir. Deu a partir daqui. Porque a vida aqui é rápida, né? “É um trem-bala parceiro, né?” Rapidinho vai embora. Quando você vê e se demorar muito, já foi. Por isso que às vezes a gente tem pressa e as coisas acontecem, mas é por conta disso que a idade vai chegando e a gente vai ficando mais com pressa de querer as coisas, de ansiar as coisas pra dentro da comunidade. É só por isso. Desculpa aí que eu não sei...
P/1 - Obrigado por você falar com a gente. E, na verdade, foi uma honra conversar com você.
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