Identificação: “Por falta de opção, de segurança, como em Águas de S.Pedro não havia maternidade, eu nasci em S.Pedro, em casa da minha avó, nas mãos de uma parteira, D. Brígida, que fazia quase todos os partos daquela época.”
Família: “Meu pai trabalhou como pedreiro, na construção do Grande Hotel, e por ter se encantado com o projeto, fez o curso de garçon, depois passou a maître. Foi lá que conheceu minha mãe, que trabalhava na calandra, passando roupa”.
“Meu pai foi meu ídolo. Um imigrante italiano que chegou com uma dificuldade muito grande. [...] Mas ele era vereador no sentido amplo da palavra. Por quê? Ele era eleito por quem gostava e sabia que ele fazia. E ele fazia o que as pessoas precisavam. Então, ele dava assistência pra saúde, nós não tínhamos hospital.”
Infância: “Morei até os 9 anos na Vila Califórnia. O que mais me marcou nessa época foram as mangueiras existentes nos quintais das casas. Eram enormes e, pela formação dos seus galhos, dava até para brincar de casinha”.
“As ruas não tinham nomes. Tanto que a primeira rua que escrevi como meu endereço foi Rua 11, Vila Honolulu, que hoje faz parte do centro, sob o nome de Maximiliano Santin.”
“Brincamos muito no bosque. Nossas brincadeiras eram com as árvores. Subíamos nos eucaliptos até eles vergarem, assim a gente descia. Subia, subia, era como um balanço, daí eles vergavam e colocavam a gente no chão.”
Escola: “Minha escola ficava onde hoje é a Prefeitura. A sala ficava no andar de cima, então era fantástico para as crianças que viviam em casa térrea, terem uma outra visão da cidade.”
“Minha primeira professora foi Dona Madalena Mauro. Ela tinha uma forma carinhosa de tratar os alunos, de passar o conhecimento, e interferiu tanto na minha vida que escolhi ser professora por tudo isso.”
Adolescência/Juventude: “...nos finais de semana, o Grande Hotel autorizava que a gente usasse a piscina. Principalmente...
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Identificação: “Por falta de opção, de segurança, como em Águas de S.Pedro não havia maternidade, eu nasci em S.Pedro, em casa da minha avó, nas mãos de uma parteira, D. Brígida, que fazia quase todos os partos daquela época.”
Família: “Meu pai trabalhou como pedreiro, na construção do Grande Hotel, e por ter se encantado com o projeto, fez o curso de garçon, depois passou a maître. Foi lá que conheceu minha mãe, que trabalhava na calandra, passando roupa”.
“Meu pai foi meu ídolo. Um imigrante italiano que chegou com uma dificuldade muito grande. [...] Mas ele era vereador no sentido amplo da palavra. Por quê? Ele era eleito por quem gostava e sabia que ele fazia. E ele fazia o que as pessoas precisavam. Então, ele dava assistência pra saúde, nós não tínhamos hospital.”
Infância: “Morei até os 9 anos na Vila Califórnia. O que mais me marcou nessa época foram as mangueiras existentes nos quintais das casas. Eram enormes e, pela formação dos seus galhos, dava até para brincar de casinha”.
“As ruas não tinham nomes. Tanto que a primeira rua que escrevi como meu endereço foi Rua 11, Vila Honolulu, que hoje faz parte do centro, sob o nome de Maximiliano Santin.”
“Brincamos muito no bosque. Nossas brincadeiras eram com as árvores. Subíamos nos eucaliptos até eles vergarem, assim a gente descia. Subia, subia, era como um balanço, daí eles vergavam e colocavam a gente no chão.”
Escola: “Minha escola ficava onde hoje é a Prefeitura. A sala ficava no andar de cima, então era fantástico para as crianças que viviam em casa térrea, terem uma outra visão da cidade.”
“Minha primeira professora foi Dona Madalena Mauro. Ela tinha uma forma carinhosa de tratar os alunos, de passar o conhecimento, e interferiu tanto na minha vida que escolhi ser professora por tudo isso.”
Adolescência/Juventude: “...nos finais de semana, o Grande Hotel autorizava que a gente usasse a piscina. Principalmente quem era filho de funcionário. Então, nós tínhamos a parte de lazer diário, na piscina do Grande Hotel, nas quadras nós jogávamos tênis, a gente tinha um pouquinho de tudo dentro do lazer que o Hotel oferecia.”
“Por falta de opção, tínhamos muitas festinhas domésticas. Nossa vida social só começava aos 15 anos. Nossa noite ia das 19h às 22h”.
“O Hotel Avenida tinha seu salão de festas e ele permitia que nossas festinha fossem feitas lá, também.”
“Para ir a Piracicaba, pegávamos o trem, uma Maria Fumaça com dois vagões, que levava umas 3 horas para chegar lá; era um programa muito gostoso. Ele ia tão devagar, principalmente nas curvas, que muitas crianças desciam para pegar goiabas. Passava tão devagar que, na beira da estrada, as mulheres ficavam com as marmitas de seus maridos prontas, cada uma coberta com um pano de uma cor, entregavam para o maquinista e mais adiante os trabalhadores apareciam e gritavam qual era o pano da sua: panos xadrezes, azuis, com bolinhas, etc. e o maquinista entregava, tudo isso sem parar o trem”
“Nos bailes de Carnaval, o Grande Hotel abria as portas para a comunidade.Vinham muitos artistas para se hospedar lá. Toda a turma da Jovem Guarda. Já imaginou dançar com o Roberto Carlos?Nossa”
“Meu pai foi o primeiro a ter TV na rua. Então, todos os finais de semana, minha mãe fazia café, chá, os vizinhos traziam bolos e passávamos muito tempo juntos vendo televisão.”
“Meu pai foi vereador por 32 anos e só deixou de concorrer à vereança quando o vereador passou a receber salário. Ele dizia que ele queria servir ao povo e não ser empregado do povo.”
“Eu fui candidata uma vez, a vice-prefeito. Mas, eu me desiludi tanto... no meio da conversa, falando da tentativa da gente mudar uma situação, a primeira coisa que as pessoas me perguntavam: mas quando você entrar, você vai dar trabalho pro meu filho? [...] Quando eu perdi a eleição, eu agradeci a Deus. [...] Porque eu ia sofrer muito. [...] Eu tenho esta liberdade de falar o que eu sinto e o que preciso. E lá dentro eu teria que camuflar”.
Trabalho/Estudo: “ Águas de S.Pedro só tinha até o 4º ano do Grupo Escolar. Fiz o ginásio em S.Pedro e depois a Escola Normal. Depois fui para Rio Claro fazer a faculdade de geografia.”
“Aí eu morei 4 anos, fazendo faculdade em Rio Claro; lá conheci meu marido”.
“Foram 6 anos e meio de namoro e depois nós nos casamos. Aí eu fui morar em S.Paulo, eu comecei a lecionar lá em S.Paulo, e eu fui em [19]74 para São Paulo. Nós começamos a namorar em [19]71 e no finalzinho de [19]73 eu fui embora para S.Paulo. Ainda fiquei lá uns 2 anos sozinha, e depois ele foi, ele começou a trabalhar numa indústria e aí nós nos casamos, bem depois. Fiquei 6 anos e meio nisso. Agora em maio fizemos 29 anos de casados.”
“E aí eu me especializei também, em Turismo. Fiz Geografia, não cheguei a fazer faculdade de Turismo. Eu fiz especialização, já com 22 anos eu fui morar em S.Paulo e nas Faculdades Anhembi/Morumbi fiz o curso. [...] Eu me especializei em Geografia Humana, sou pós-graduada pela Unimep, quando ainda era Instituto Piracicabano, em [19]78 mais ou menos. Depois, eu fui para a ESALQ e fiz Geografia do Meio Ambiente, uma das disciplinas que eles aprendiam dentro da Agronomia e da Engenharia Florestal”.
“Eu nunca fiz outra graduação, mas eu me meti em tudo o que era outras faculdades, sendo aluna ouvinte, aluna especial, fazendo especialização. Na ESALQ eu fiz essa, depois administração doméstica, na Unicamp, fiz a parte do meio ambiente, em S.Paulo, na época, fizemos um trabalho na USP com urbanismo e urbanização”.
“O meu 1º emprego, eu tinha 18 anos e era aluna lá em Rio Claro e eu fui ser aplicadora de teste em psicotécnico”.
“Como professora, mesmo, foi em S.Paulo. Dei aula já numa escola que tinha desde a 5ª série até o 3º colegial”.
“A favela Ordem e Progresso pegava todo aquele espaço de onde hoje é o Play Center. A clientela da minha escola era dali. E o nosso primeiro trabalho social, que eu acho que foi marcante, foi o de orientação às famílias sobre planejamento familiar”.
“Eu dei aula numa escola que me deu muita condição também de pé no chão, que foi a Escola Paulista de Agrimensura, quando começou a construir o Metrô em S.Paulo”.
“E eu dei aula também para o CAP vestibulares, que é o Anglo hoje.”
Atualidade: “Eu tenho 2 meninos: o mais velho é o Carlos Henrique e o mais novo Luís Gustavo. Um nasceu em S.Paulo porque eu morava lá, e outro nasceu em Rio Claro, porque quando eu voltei, eu fiquei ainda os 6 meses que faltavam da minha gestação em Rio Claro, e ele nasceu lá”.
“Eu agora estou como professora coordenadora, já fui também coordenadora do ensino fundamental quando a escola estadual tinha a escola padrão”.
“Nós temos grupos diferenciados na cidade: grupos muito envolvidos, grupos envolvidos, e grupos alienados. Mas eu acho que falta também liderança administrativa, falta envolvimento maior”.
“Eu acho que a mudança, pelo que a história conta, foi só administrativa. Porque antes ela era administrada por S.Pedro, pela cidade de S.Pedro e depois ela passou a ser administrada por pessoas indicadas. A parte econômica e social permaneceu a mesma. Só mudou a parte administrativa. Com o tempo, com uma certa autonomia maior, ela foi diferenciando um pouco, mas a dependência que Águas de S.Pedro tem de S.Pedro sempre foi muito grande, por ela estar inserida dentro do município”.
“A parte comercial não satisfaz a todo mundo, então não é só de S.Pedro que ela depende, ela depende de Piracicaba. A geografia urbana do nosso entorno, nós somos o ponto de atração turística e até por conta da gente é que S.Pedro recebe também turistas. Mas, do ponto de autonomia da população, da comunidade, nós é que dependemos dos outros: serviços médicos, escolas, comércio... Ela só foi crescendo, mas essa situação nunca mudou. Até hoje é assim”.
“Primeiro de tudo eu ia [...] tirar essa rodovia do meio da gente aí. [...] Uma outra coisa que talvez eu tentasse mudar é com respeito ao bosque [...], que vivo tentando há muitos anos, já fiz uns três, quatro trabalhos com a escola, com o grupo escoteiro (que nós tínhamos aqui em Águas, o Grupo Escoteiro Jacurici), nós tentamos pelo menos alertar, conscientizar, mas o bosque, se não houver um manejo legal, ele vai acabar. Por que uma árvore derruba 10. E nenhuma é reposta, o que está sendo reposto, às vezes, não condiz com a realidade ali”.
“Eu acho que ela deveria ser conhecida sim como a estância menor do Brasil e de boa qualidade de vida, coisa que a gente não está garantindo muito ultimamente”.
“Eu acho desnecessário trazer coisas para Águas que não sejam para melhorar a saúde , melhorar a educação e mantermos essa situação de hoje com respeito à qualidade, que era o foco do Dr. Otávio. O que ele queria era uma ilha de saúde”.
“Eu sou professora, da escola municipal e do Colégio Anglo. Então, eu me divirto muito dando aula [...] Eu dou aula em 2 escolas, eu tenho um período das 7 da manhã às 18 horas, diariamente”.
“Eu viajo bastante com a minha família”.
“...sou professora, sou chefe escoteiro, sou voluntária do Greenpeace, porque eu sou louca para colocar o dedinho na ferida de quem mexe nas coisas. Por ter assim uma parte de conhecimento com respeito a turismo, eu faço o roteiro. [...] Às vezes, eu dou aula particular, por que eles precisam”.
“Ajudo uma instituição de Rio Claro que faz parte da Rede Feminina de Combate ao Câncer.
“A igreja. Eu sou uma católica participante na medida do possível”.
“Eu sou voluntária de algumas escolas também. [...] Nas campanhas eu estou sempre envolvida, eu fazia parte de um monte de conselhos: Conselho da Educação, Conselho do Idoso, [...] Conselho da Merenda Escolar, fui do Contur”.
“Além esposa, mãe, escoteira, eu sou secretária do marido. Dá tempo. Eu costumo dizer que o que você faz por amor, sempre sobra espaço. Sempre, sempre, sempre e eu não consigo começar uma coisa e não acabar. E quando eu faço, tenho que fazer bem feito”.
Futuro/Avaliação: “Se a gente conseguir manter uma ilha verde no meio, um verde de natureza, não de plantação, no meio desse espaço, que a tecnologia chegue e que vai até oferecer melhores condições de vida para o nosso jovem, porque o nosso jovem também tem que espirrar de Águas de São Pedro. Porque, conforme a formação que ele tem, ele tem que sair”.
“Meu sonho de consumo é um trailler, porque quando eu me aposentar, eu quero sair andando... Mas a gente tem tantos sonhos, né?”
“Eu sonho com uma educação mais igualitária, como eu sou professora de escola particular e de escola pública, eu fico no meio do caminho, porque estes têm tantas chances e estes não têm tantas chances? Eu sonho por uma Águas de São Pedro mais unida, para voltar a ter aquelas coisas que nós tínhamos antes, que eram umas festas tão gostosas. Eu sonho com um mundo até melhor. Eu penso num monte de coisas e por isso que eu me envolvo, porque enquanto a gente puder melhorar, eu tô lá mexendo. Eu acho que enquanto a gente estiver aqui e possa fazer a diferença, a gente sempre está sonhando”.
“Eu gosto de contar o que foram as coisas, como a gente tinha uma vida diferenciada, eu continuo com uma vida muito boa, porque eu faço o que gosto, eu tenho pessoas que gostam de mim também, sou sempre reconhecida naquilo que faço, mas contar como foi antes é emocionante. Porque é uma vida inteirinha.. eu brinco muito com os alunos, eles me perguntam assim: A gente pode te chamar de vó? E eu falo assim: Ah, mas eu tenho cara de vó? Acho que eu não sou bem avó... de mãe, de tia, tudo bem. Mas, no coração acho que sou tua avó, não sou?. Eles falam assim: É, professora, sabe por quê? Porque a senhora trata a gente como gente...[choro]”.
(Texto publicado em 29 de maio de 2008.)
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