Flertador ativo
(Mauro Leal}
Próximo do Natal, com o décimo terceiro na conta,
o senhor Delfim Calçada com a família foi comprar calçados.
O movimento era intenso na Sapataria Delmar.
Os vendedores felizes num frenético sobe e desce ao depósito
à pegar os “pisantes”. Sarinha, Carminha, Pedrinho, Julinha
e a senhora Lenita estavam em extrema alegria.
Calçada, discretamente circulava e de vez em quando chegava
na calçada, enquanto a "nega velha Nitinha" com sorrisos
de canto a canto, escolhia, encantada.
Mas não demorou muito para o seu marido
aprontar das suas artes, com um contato visual prolongado,
o que não prestou pois a esposa levantou com um pé calçado
e o outro nu, partindo espoletada de raiva, dando
assustadores chiliques, esbarrando nas vitrines e balcão,
deixando os funcionários, gerente e clientes com o coração na mão,
sem nada entender, e a acalmavam daqui, seguravam dali
e nada a refreava. E num gesto de dando fim no casamento,
arrancou a aliança e jogou por entre a multidão.
Delfim, sem saber aonde colocar a cara avermelhada
com blusa rasgada, pelo conflito físico, insistia que nada entendia.
No momento que deu uma aparente trégua,
a mulher, os filhos e o "arteiro", que não pode ver um rabo de saia,
não somente olhavam por todo chão, como se ajoelhavam
procurando a promessa mútua entre os cônjuges.