Programa Conte Sua História
Vida, Vozes e Saberes em Um Mundo em Chamas
Entrevista de Alexandre Gomes Teixeira Vieira
Entrevistado por Sofia Tapajós
Caetés (PE), 15/06/2025
Entrevista n.º:PCSH_HV1461
P/1 - Queria começar te perguntando o seu nome, local e data de nascimento.
R - Eu me chamo Alexandre Gomes Teixeira Vieira. Eu moro aqui no sítio Serrote, na zona rural de Caetés, agreste de Pernambuco. E eu nasci em 27 de março de 1993.
P/1 - E qual o nome dos seus pais?
R - Meu pai se chama Genesi dos Santos Vieira e minha mãe, Iranete Gomes Teixeira.
P/1 - E você sabe da história deles?
R - Sim, eu acho que eu posso começar falando da história dos meus avós, pra chegar nos meus pais. Tem um vizinho, um camarada que mora num sítio vizinho, seu pai é zinciloura, que ele tem uma piada que ele diz assim, todo um ele vem de quatro, todo um é filho de quatro avós. Meus avós maternos eram Luiz Gomes de Almeida e Irene Teixeira de Almeida. Vô Luiz nasceu em Olho d'Água de Góis, que é a zona rural do município de Correntes, também aqui no Agreste. E minha vó, vó Irene, nasceu no sítio Lagoa do Belamente, que à época era zona rural de Garanhuns, mas hoje é zona rural de Caetés. Meus avós paternos são José Vieira Filho, que ele nasceu aqui no município de Capoeiras, mas é filho de migrantes do estado da Paraíba. Rita Maria da Conceição, que era mulher indígena, lá da região de Monteiro, e José Vieira, pai. E minha avó, Vó Lourde, embora a gente chame ela de Vó Lourde, o nome dela é Maria Calado de Almeida. Ela é indígena, Chukuru do Ororubá. Nascida aqui, mas criada lá na aldeia do Jitó, no que hoje é a terra indígena Chukuru do Ororubá. Então, eu sou filho desses quatro encontros. Correntes, Garanhuns, Capoeiras Paraíba e Pesqueiras Serra do Ororubá. Meu pai nasceu na zona rural do município de Capoeiras, onde ele nasceu, se criou, saindo de lá só na vida adulta, quando se casou com minha mãe. Eles moraram...
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Vida, Vozes e Saberes em Um Mundo em Chamas
Entrevista de Alexandre Gomes Teixeira Vieira
Entrevistado por Sofia Tapajós
Caetés (PE), 15/06/2025
Entrevista n.º:PCSH_HV1461
P/1 - Queria começar te perguntando o seu nome, local e data de nascimento.
R - Eu me chamo Alexandre Gomes Teixeira Vieira. Eu moro aqui no sítio Serrote, na zona rural de Caetés, agreste de Pernambuco. E eu nasci em 27 de março de 1993.
P/1 - E qual o nome dos seus pais?
R - Meu pai se chama Genesi dos Santos Vieira e minha mãe, Iranete Gomes Teixeira.
P/1 - E você sabe da história deles?
R - Sim, eu acho que eu posso começar falando da história dos meus avós, pra chegar nos meus pais. Tem um vizinho, um camarada que mora num sítio vizinho, seu pai é zinciloura, que ele tem uma piada que ele diz assim, todo um ele vem de quatro, todo um é filho de quatro avós. Meus avós maternos eram Luiz Gomes de Almeida e Irene Teixeira de Almeida. Vô Luiz nasceu em Olho d'Água de Góis, que é a zona rural do município de Correntes, também aqui no Agreste. E minha vó, vó Irene, nasceu no sítio Lagoa do Belamente, que à época era zona rural de Garanhuns, mas hoje é zona rural de Caetés. Meus avós paternos são José Vieira Filho, que ele nasceu aqui no município de Capoeiras, mas é filho de migrantes do estado da Paraíba. Rita Maria da Conceição, que era mulher indígena, lá da região de Monteiro, e José Vieira, pai. E minha avó, Vó Lourde, embora a gente chame ela de Vó Lourde, o nome dela é Maria Calado de Almeida. Ela é indígena, Chukuru do Ororubá. Nascida aqui, mas criada lá na aldeia do Jitó, no que hoje é a terra indígena Chukuru do Ororubá. Então, eu sou filho desses quatro encontros. Correntes, Garanhuns, Capoeiras Paraíba e Pesqueiras Serra do Ororubá. Meu pai nasceu na zona rural do município de Capoeiras, onde ele nasceu, se criou, saindo de lá só na vida adulta, quando se casou com minha mãe. Eles moraram por, acho que um ano aqui, logo após que casaram, depois foram morar lá no Caetano Velho, que é onde ele nasceu, se criou, e depois eles foram morar na cidade de Caetéis. Minha mãe nasceu em Garanhuns, mas foi criada a vida inteira dela aqui. Em algum momento, durante a adolescência dela, ela foi morar no município de Ati, com parentes nossos. Retorna pra cá, continuando a vida dela aqui. E depois casa com meu pai e tem toda essa história que eu já contei. Tá bem?
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Ótimo!
R -
Pronto. Eles foram morar na cidade e algum tempo depois eu nasci. Eu não fui de imediato assim que eles casaram. Teve um tempo pra poder ter o primeiro e único filho, que sou eu. Nascido e criado a vida inteira em Caetéis, mas dividido entre esses dois lugares. O sítio Serrote, aqui no Vale do São José, na minha família materna. e o Caetano Velho, que embora seja zona rural de capoeiras, ele está só a três quilômetros da cidade de Caetéis. É bem pertinho. Então, quando eu não estava em um sítio, eu estava em outro. Às vezes as pessoas questionam porque, em teoria, eu teria morado a minha vida inteira na cidade. Mas as pessoas esquecem que eu estava no Caetano Velho, ou aqui no Cid Serrote, a cidade era um local de passagem. Eu dormia na cidade, mas eu estava nesses dois lugares. Por essa razão, eu tive um contato muito maior com meus avós paternos, porque eu estava com eles todos os dias. E, eventualmente, então, uma vez por semana, uma vez por mês, uma vez a cada 15 dias, era que eu estava aqui com os meus avós maternos. Eu tive o privilégio de conhecer uma das minhas bisavós, que foi Vó Zabé, Isabel Teixeira de Melo, com quem eu tive a oportunidade de conversar, aprender, trocar, a mãe, Vó Zabé, mãe da minha avó materna. mas foi a única das bisavós que eu conheci, tive esse privilégio também. Então, tinha um pouquinho de contato com ela também.
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E você tem alguma lembrança marcante de conviver com essa sua bisavó?
R -
Tenho. Na verdade, foi uma história posterior, mas minha mãe há algum tempo me lembrou que um dia Vó Zabeé falou pra ela. Essa falou pra família, né? A família tava reunida lá na casa dela. Era uma casa bem simples, pequenininha. Depois ela ampliou, mas nesse momento ainda era uma casa pequena. E ela disse, a única que soube dar nome pro filho foi essa. Porque eu tenho o mesmo nome do pai dela. No caso do meu, tetravô, né? Que era Alexandre. O Alexandre Brocavelho, como falam. E nesses contatos ela me presenteou, eu tenho ainda coisas que ela me presenteou, entre elas um relógio daqueles de corda, um despertador daqueles antigos, que eu recebi das mãos dela. Hoje, a gente vai fazendo algumas, como é que eu posso dizer, algumas digressões, e vai construindo também narrativas a partir dessas lembranças. Mas não sei se era porque eu gostava muito do objeto, ou se pelas coisas que eu falava, ou se ela entendeu que eu ia cuidar daquele objeto, mas existiam essas trocas. tanto afetivas quanto materiais. Ela chegou, me deu isso aqui, é seu, você gosta. É bem simbólico porque ela me deu um relógio, quer queira que é algo que representa tempo. E anos mais tarde eu viria a me tornar historiador também. Então, acho que construindo essas narrativas, essas coisas, eu acho que é bem bonito essa lembrança que eu tenho dela.
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E dos seus avós paternos, como que era?
R -
Então, Meu avô, principalmente o vô Duda, ele me ensinou muito. Eu tinha um contato muito maior com ele e ele gostava muito de mim. Isso não é mistério pra ninguém, né? Era o neto preferido. No caso, ele tinha muitos outros. Vô Duda e vô Lourdes tiveram 16 filhos. dos quais três morreram muito novos ou crianças e se criaram treze. Então, você imagina que desses treze, os netos eram muitos. Mas eu era o que morava com eles, as casas na cidade muito próximas e a gente estava todos os dias juntos no sítio. Então, o voodoo dele me ensinou muito. Muito do que eu sei sobre as plantas, muito do que eu sei sobre a caatinga, questões de usos medicinais, questão de leitura da natureza. Muito eu devo ao que Voduda me ensinou. Com Valurde, eu acho que dois indígenas não se bicavam muito bem, então a gente tinha alguns atritos, mas a gente também se dava muito bem. Inclusive, ela é a única avó que eu ainda tenho viva, é Valurde. Então, ela buscava me ensinar muita coisa também, né? Mas, às vezes, por eu ser um pouco brigueto com ela, um pouco birreto com ela, eu acabei perdendo muito. Ainda assim, minha base no que diz respeito a essas questões cosmológicas, né? Hoje eu consigo falar bonito desse jeito por causa do estudo. Mas, muitas dessas coisas cosmológicas, espirituais, da leitura da natureza, eu vim a aprender com Voduda e com ela, com Volurde. principalmente. Até o grande, deixa eu tentar fazer uma estimativa de idade aqui. Vamos colocar até meus 14 anos. Hoje eu tenho 32, mas até meus 14 anos, o sítio que a gente tinha lá na zona rural de Capoeiras, ele era o lugar que fornecia frutas para os mercados de caetéis. Então, os mercados, as quitandinhas, as bodegas, como a gente fala, os lugares que vendiam fruta eram frutas que vinham desse sítio da gente. Eu mesmo cheguei a levar carrinho de mão de laranja pra cidade pra ser vendido ou nas feiras ou nos mercados, nesses espaços. Era uma atividade, tipo, a gente vivia disso? Não. Isso era uma atividade que acontecia eventualmente na época das frutas, né? A atividade principal era o gado, Então, meu pai cuidava de gado dele, da minha avó e do meu avô, e todos os dias estávamos no sítio, mexendo na roça, colhendo uma fruta, conversando, cuidando do gado, tomando um banho de barragem. Esse contato era nesse caminho. Com os meus avós daqui tem uma história. Hoje de manhã eu contei essa história. Eu sempre conto essa história em lugares diferentes. Teve uma época que eu queria vir morar aqui com os meus avós, mas eu sou filho único, né? Então minha mãe nem queria ficar sem o filho único que ela tinha em casa e minha avó já criava outros cinco netos aqui e uma tia minha que era divorciada e também morava dentro de casa. E essa casa, ela acolheu muita gente, né? Tios, tias, irmãos do meu avô e várias outras pessoas que precisaram e passaram por essa casa. Então, minha mãe experimentou tudo isso. Ela disse, não, você não vai. Eu consigo lhe criar. Não importa o que você quer. Você vai ficar comigo e sua avó já tem muitos netos para cuidar lá. Mas sempre que eu podia, eu estava aqui. Então, quando chegava a época das férias escolares, tanto as do meio do ano, quanto às do final do ano, pode esquecer. As férias começam hoje, pronto. Então, hoje eu vou lá pro Serrote e só volto na notícia. As aulas vão começar na segunda-feira. Aí era que eu retornava pra cidade. E quando eu tava na cidade, se eu não tivesse na escola, eu tava lá no Caetano Velho, com os meus avós, com o meu pai, no caso.
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Você comentou que muito o que você aprendeu da Caatinga foi com os seus avós paternos. Você pode dar um exemplo de algum ensinamento?
R -
Posso. Muito do que eu aprendi foi com eles, mas eu devo também a vários outros mestres e mestras, inclusive pessoas que eu conheci já na idade adulta, que ainda estão conosco, que estão vivas. Eu devo a muita gente, mas tem uma lembrança bem emblemática com o Voduda. A gente estava na roça, lá no Caetano Velho você tinha uma parte baixa, onde nessa época tudo fica alagado, e você tinha a serra, no topo da serra você tinha uma mata de caatinga, e entre a parte baixa da várzea e essa mata de caatinga tinha os espaços meio inclinados, mas era onde se colocava roça. milho, feijão, onde se plantava palma. E um dia eu tava lá cortando palma junto com Voduda. E eu lembro que eu passei a faca e acabou cortando o dedo. E Voduda foi lá no pé de jurema, colheu as folhas da jurema, mascou as folhas da jurema, a gente limpou o ferimento. Eu lembro que a gente não tinha água, mas de alguma maneira a gente limpou. Ele pegou essas folhas de jurema preta mascada e colocou na ferida. Então, rapidamente estancou o sangue e ele disse, deixe que isso aí vai ser usado pra cicatrizar. Então, não era que a gente parava em algum momento num formato escolar, mas a todo momento, a todo momento ele falava, olha, você tá vendo essa panta aqui? Certo. Você sabe o nome? Não. Então ele ia me falar o nome e dizia ela serve pra isso, pra isso, pra aquilo. Essa você pode ferver para lavar. Essa você não ferve. Você bota água para esquentar quando a água estiver quente. Você coloca ela e pode usar internamente. Então, todo esse tipo de ensinamento. Ele tinha uns livrinhos, livretos, que eram os almanacs, os almanacs perpétuos. Então, muita coisa dele olhar para o tempo e dizer, agora está na época de Butarroça. Hoje é... tanto do mês, mas daqui a tantos dias vai começar a chover, então a gente já pode preparar a terra, sabe? Então essas minúcias do dia-a-dia, essas leituras, ele repassava sempre. E ele tinha muito marcado essa coisa dos almanacs, dos almanacs e do dia-a-dia, da roça. Essa planta serve pra tal coisa, essa você usa de tal maneira. Ou então ele nem ensinava. Acontecia um machucão. Tá machucado, pronto. Então pega isso, pega isso, vamos fazer. E ali era que eu aprendia. Mas o mesmo também acontecia aqui, né? Então, o uso do genipapo, por exemplo, eu aprendi aqui, com o vô Luiz. Ele teve um momento que... Você trabalhando no campo, você acaba se machucando muito, né? Então, ele utilizava casca, folha e fruto do genipapo para produzir a tintura preta. E aquela tintura ele colocava quando quebrava um osso, quando machucava o músculo, quando batia em alguma coisa. Então, eu aprendi esse uso aqui. Aqui no Sitserhot. Então, por isso que eu digo, muito eu devo aos meus avós paternos, mas foi um grande... Eu convivi com muitas enciclopédias. Então, eu peguei muito de todas elas. Legal.
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E aí quando você vinha, que tinha seus primos aqui, vocês brincavam de alguma coisa? Como que era?
R -
Sim. A minha grande diversão era andar no mato. Fosse onde fosse. Essa era a minha grande diversão. E se tivesse água, tomar banho. Então, se tinha água nas barragens ou nos barreiros, tomar banho. Se tinha água no riacho, banho. Se tinha água nas cachoeiras, banho. E andar dentro do mato. Mas a gente brincava muito das brincadeiras daqui da nossa região. Melo, que seria o pega-pega, brincava de se esconder. A gente brincava de barra-bandeira, que separava em dois times e tinha as bandeiras pra pegar em cada lado. Meus primos e outras pessoas da Redondeza, eles gostavam muito de futebol. Eu nunca gostei de futebol. Nunca me identifiquei. Eu gostava muito de brincar com chimbre, que é a bolinha de gude. Então, eu gostava de brincar com a chimbre. Deixa eu ver o que mais que a gente brincava. E eu tinha uma condiçãozinha melhor, então eu tinha acesso a brinquedo. Brinquedo mesmo, né? Boizinho, carrinho, não sei o quê. Mas quando a gente vinha pra cá, a gente construía nossas fazendas com material reciclado. Então, vidro de perfume virava um boi. vidro de dipirona era um bezerrinho, porque era menor e aí a gente ia construindo nossos currais com materiais reciclados, pegava gravetes, quebrava e ia enfiando no chão. e fazia esses currais. Depois de um tempo, a gente começou a conseguir comprar pequenos bonequinhos de animais também que vendiam na feira de capoeiras, que é um lugar ainda bastante central para as comunidades rurais daqui. A gente comprava e ia agregando. Então você tinha às vezes no meio um vidro de perfume, de pirona, um rótulo de alguma coisa e um brinquedinho. Então aí a gente ia fazendo esses currais. Uma coisa que a gente brincava, inclusive aqui nesse lajeiro atrás de casa, era de organizar as pedras como se fossem casas ou como se fossem carros. Então a gente construía ali, aí resolviam entre os primos e as primas quem era casado com quem, quem não era, quem era solteiro, e construíamos ali nossa pequena ficção, sabe? A gente brincava muito disso também. Eu acho que era isso, as nossas principais brincadeiras. E fora briga, porque os meninos brigam muito, brigam uns com os outros, e aí a gente brigava muito mais rápido de fazer as pazes.
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E quando você entrava na mata, você consegue descrever um pouco o que você via, qual cheiro você sentia?
R -
É, pronto. Assim, hoje, como eu falei, quando eu vou fazer a digressão, até para buscar me entender, Eu lembro que eu gostava, que eu me sentia bem, sabe? Sem tentar romantizar muito qual era a sensação. Era bom estar na mata. Era bom ir sem pressa para voltar e deixar a mata ir me conduzindo. aproveitando os varedos do gado, seguindo o curso de um riacho, sabe? Indo até um lugar que a gente já conhecia, que alguém tinha levado, né? Um primo, um tio, uma tia, um avô, e deixar a mata me guiar, sabe? Então eu lembro que eu me sentia muito bem, me dava muito prazer. Eu gostava muito de bicho, então... Bicho mora na mata. Eu tenho mais chance de ver um bicho se eu estiver na mata. Então, eu tava por ali e sempre tentando ver alguma coisa. Hoje eu sei... Hoje, né? Eu fazendo esse exercício. Hoje eu sei que... A mata, ela me acolhia. O meu lugar de estar era na mata, porque, mais uma vez volto na questão, embora eu tenha vivido boa parte da minha vida na cidade, eu tinha que estar na mata. Eu tinha que procurar algum lugar para ir para o sítio, para estar no meio das árvores e, assim, Eu lembro de pegar brigas com as pessoas. Lá no Caetano Velho, meu pai uma vez precisou derrubar uma parte inteira de mata pra vender a madeira pra se manter, né? Pra viver. E eu lembro a época que era um... Aqui a gente chama de partido, né? Então era um bosque de candeeiros. Candeeiro é um árvore. E a gente chamava de partido de candeeiro. Então tinha lá o partido de candeeiro, uma mata linda. Uma mata de caatinga na altitude, um brejo. E eu lembro que quando eu vi ele derrubando aquela mata, eu surtei, eu briguei. Eu disse, mas você não pode fazer isso. Isso era... ai, eu nem lembro quantos anos eu tinha. Porque qual era o meu prazer? Eu não gostava de tirar leite. Eu não gostava... eu gostava de subir a serra e andar na mata. Era isso que eu gostava. Então, quando eu vi aquele lugar do meu afeto, onde eu ia me refugiar no chão, aí eu surtei. Aí eu fui brigar com meu pai, não sei o quê, e na época eu devia estar... sétima série, sexta série do ensino fundamental, do segundo ciclo do ensino fundamental. E eu tinha um amigo que morava na cidade também, mas trabalhava todos os dias no sítio, com os pais. E eu lembro que ele disse, deixa de besteira. Ninguém precisa preservar esses matos, não. Isso muitos anos atrás. A gente tem que se importar com a Amazônia. Eu não sabia explicar na época, eu só estava revoltado. Mas já estava em mim aquela coisa de querer preservar, de querer conservar o que a gente tem aqui. Na época eu não sabia o que era, né? Mas eu lembro que teve esse episódio. Então assim, naquele momento era isso. Eu ainda não tinha entendido o que era. Hoje eu olho pra trás assim e eu sei que era a mata que me acolhia, que eram os encantados que me acolhiam, que era essa espiritualidade, pra usar esse termo, né? que me chamava. Ainda hoje, se você pode testemunhar isso com a minha esposa, que tá aqui com a gente, eventualmente eu tô aqui em casa fazendo alguma coisa e me dá um... Vou colocar no senso comum, né? Me dá um aperreio e eu vou pra mata. E aí, quando eu chego lá, eu encontro alguém, alguma coisa. Aí eu venho, ou tiro uma foto, ou venho chamar eles e falo, bora ali olhar. o que foi que eu encontrei, o que era esse aperreio que a mata estava me chamando. Hoje eu consigo fazer essa leitura dessa maneira, mas na minha infância não, eu só queria saber que eu queria ir pra mata.
P/1 -
E você ouvia histórias dos seus avós, dos seus pais, histórias daqui da região?
R -
Muitas. Muitas. Tanto que depois que eu entrei na faculdade, Foi justamente dessas histórias que eu fui atrás. Até porque, como eu disse, não se parava em um momento... Olha, vamos sentar aqui e agora eu vou lhe contar histórias. Não. Isso eram coisas orgânicas. Na Semana Santa, estava a família reunida aqui, os netos, então eles paravam e iam contar histórias. No próprio dia a dia. Então, a gente tinha as histórias de Trancoso, que se popularizaram. A gente tinha as histórias de Comonge, que foi como as pessoas oralizaram o nome de Camões. Então, você tinha as histórias de Comonge, as histórias de Trancoso e você tem as histórias dos próprios encantados, da própria cosmografia que a gente tem aqui no território. Então, você tinha a história das Caboquinhas, as Caboquinhas acima de todas as coisas, a principal entidade encantada aqui do nosso território. Tinha o Shiriabô, as histórias sobre os reinos encantados, que na infância eu não sabia muito bem do que se tratava, até um certo momento. A gente tinha a história da casca bui, que eu posso contar elas também, eu estou só listando, mas eu posso contar elas. Então, eu cresci ouvindo todas essas histórias, em todos esses ambientes. Tinham algumas histórias para assustar, então, do lobisomem, essas mais, vamos dizer assim, mais populares. Mas eu cresci com essas histórias. As principais que me marcaram muito eram justamente as histórias sobre os reinos encantados. Aqui no território do Vale do São José nós temos vários sítios arqueológicos com pinturas rupestres. E eu acabei me tornando um dos principais pesquisadores responsáveis por ir até esses lugares. Mas na nossa infância, na minha, dos meus primos, dos meus colegas, a história era sobre os reinos encantados. Então, dizia assim, lá no rio, lá no Shicheshu, tem na beira do rio uma pedra, essa pedra tem um moinho, e esse moinho é a porta para um reino encantado. Aí vinha, lá dentro desse reino encantado é uma cidade, lá nessa cidade tem mestres, junto com esses mestres tem princesas, Vinte anos depois eu volto para esse mesmo lugar sobre o qual meus avós me falavam e eu chego lá e você tem um sítio arqueológico com pinturas rupestres, um local que era usado de forma coletiva por as pessoas da geração deles ou mais velha do que eles. Você chega lá e você tem a rocha ao formato de uma entrada, só que a rocha está fechada. Hoje eu sei do que se tratava, um culto aos encantados, algo que hoje está na moda, a jurema sagrada, os cultos ancestrais, mas era isso que estava ali. Então essa história era contada para educar os mais novos e só chegava a esses mistérios quem ingressava nessa espiritualidade. Para quem não ingressava era mais uma história trancosa, fantasiosa, mentirosa, sabe? Essa é uma das histórias, um dos perfis de história que eu ouvia. Deixa eu ver se tem mais alguma coisa. Ah! Nossos mais velhos não costumavam contar sobre os seus ancestrais. A gente precisava garimpar muito, pegar nossos mais velhos em dias muito bons de humor, para eles contarem quem eram, como era o nome dos pais, dos avós, de onde eles vinham, de quais localidades tinham vindo. Com uma exceção. Vó Lourdes. Ela falava muito da mãe dela. Da minha bisavó que veio da Serra do Ororubá. Vó Lourdes contava. Com algumas reservas, com algumas omissões, mas ela contava. Os demais não. Você tinha que pegar eles de muito bom humor pra que eles contassem sobre suas próprias genealogias.
P/1 -
Desculpa.
R -
Sem problema.
P/1 -
E aqui na região, em Caetés, quando você era criança, tinham algumas festas populares? Algumas festas voltadas para a própria natureza?
R -
Sim. Caetés, na minha percepção ao menos, ele sempre foi um lugar culturalmente diverso no que diz respeito a essas manifestações. Então, samba de coco, reisado, bandas de epífano, enfim, grupos culturais que vinham dessas tradições rurais e se apresentavam, porque chegou um momento que se você tinha um grupo cultural, você apresentava. Então, começaram a ter alguns eventos culturais, o pessoal ia para a escola, mas no próprio dia a dia, Então vai ter uma bata de feijão. O pessoal colhia o feijão, reunia esse feijão no terreiro da casa, o terreiro de chão batido, e todo mundo ia bater esse feijão. E como era que se batia esse feijão? Cantando. Então eu fui de uma geração que ainda teve contato com essas práticas da bata do feijão, dos adjuntes, que o que é um adjunte? É uma reunião coletiva, então eu vou botar uma roça hoje, vem a vizinhança todinha me ajudar nessa roça, terminou a roça é o que? Festa. Para além disso, já na minha adolescência, a gente já começou a ter shows mais comerciais, vamos dizer assim, de bandas de forró que vinham para a cidade, na época das festas juninas, as próprias bandas locais. Sempre tiveram muitos cantores de tocadores de violão e tal, em caetés, na zona rural. Então, eu tive acesso a todos esses e às festas de igreja. as festas de padroeiros e padroeiras. Essas sempre tinham, e aí ou com grupos de música não cristã, de música secular, ou com música cristã, mas sempre tinha acesso a essas festas de padroeiro, com kermesse e tudo mais. E quando eu fui ficando mais velho, tanto os shows de bandas mais comerciais aumentaram, como eu comecei a ter acesso ao festival de inverno. E aí teve acesso a toda... que é em Garanhuns, né? Então, comecei a ter acesso a uma diversidade de outras bandas, de outras coisas, outras modalidades de arte, né? Mas, tipo, eu sou cineasta, né? Eu também faço documentários. Eu vim entrar no cinema há alguns anos atrás. Eu nunca tive acesso a cinema. Eu vim ter acesso a cinema, eu já tava no mestrado a primeira vez que eu entrei no cinema. Então, o quê? 2018. Sabe? Então, teve isso, mas das festas tradicionais, de antes, era mais essa formatação. As festas de sítio, as festas de padroeiro, pouso de banda na cidade e, posteriormente, o festival de inverno.
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Legal. E aí, falando da escola, você lembra da escola? Como que foi esse período?
R -
Como eu morava na cidade, a minha mãe, ela fez muito esforço e me colocou numa escola pra alfabetização. Na época falava assim, alfabetização, que talvez seria o equivalente a uma pré-escola de hoje, enfim. Então eu passei alguns anos na alfabetização e na época, inclusive, eu poderia ter começado a primeira série com seis anos, mas não podia, eu tive que esperar completar sete anos para ir para a primeira série. Mas antes disso, a gente morava em uma das ruas mais antigas mesmo, do centro de Caetéis. Então eu via as crianças indo pra escola, que ainda hoje essa escola funciona, a escola Dom Helder, e as crianças iam passando e eu ficava pedindo pra ir pra escola. Até que minha mãe começou a deixar a professora me levar pra escola. Isso era muito pequenininho, eu tenho poucas lembranças. Eu lembro de quando eu estudava no Dom Helder, mas essas coisas mesmo eu vou lembrando mais do que ela vai me contando, e aí eu vou lembrando de alguma coisa ou outra. Então, eu comecei a frequentar esse espaço muito cedo. Quando eu fui para a primeira série, então, fui para a alfabetização, depois fui para a primeira série. Quando eu fui para a primeira série, eu lembro que o meu ensino fundamental, eu acho que foi um ensino fundamental normal, tranquilo, com os colegas, tudo que tem em escola. Então, meninos estudam, tem dia que meninos não querem estudar, tem dia que meninos brigam, tem dia que não brigam. Eu acho que foi normal. Eu não gostava de desfile cívico. Inclusive existem fotos minha com a cara feia chorando, segurando na mão da professora ou da minha mãe porque eu fiz birra e não queria desfilar. Isso era normal. Eu odiava desfile cívico. Hoje eu adoro, é uma coisa impressionante. De estar com os meus alunos, de organizar, hoje eu adoro. Eu odiava quando era criança. No segundo ciclo do ensino fundamental era sempre isso, eu tinha alguns amigos, eu acabava fazendo mais amizades fora da escola, até com pessoas mais velhas do que dentro da própria escola, mas eu sempre tive muitos amigos. E na época do ensino médio foi a grande revelação, porque quando eu cheguei na oitava série, eu perguntei para os meus primos o que era que a gente estudava no ensino médio. E aí na leitura dos meus primos foi, você vai estudar tudo que você já estudou até agora. Da sexta até a oitava. Eu disse, eu não quero não. Se eu já estudei, pra que eu vou estudar tudo de novo? Ele disse, é, no ensino médio vai aumentar filosofia e sociologia, e o que você estudou em ciência na oitava série vai se transformar em física e química. Mas é a mesma coisa, ele disse, ah, eu não quero não. Quais são as minhas opções? Então, eu tinha o ensino médio regular, e eu tinha o normal médio, que era o antigo magistério. Vamos dizer assim, seria um curso técnico em pedagogia, um curso de nível médio em educação. Eu disse, e estuda o que nesse normal médio? E aí minha tia, que morava aqui nessa casa, ela cursava o normal médio, e ela disse, normal médio você vai estudar para ser professor. Certo, vou estudar para ser professor, e estuda o que? Aí ela foi falar lá, disse, eu vou fazer normal médio. Porque eu quero estudar uma coisa diferente. Assim, eu gostava de estudar. Eu não gostava da escola. Sabe? Eu não era um aluno ruim, longe disso. Não era extraordinário também, eu acho. A gente precisaria conversar com meus professores da época. Eu acho que era um aluno normal. É dentro da média, normal, como eu digo. Dentro da média. E... gostava de ler, pedia livros. Eu lembro muito que, na escola estadual, eu consegui cursar o ensino fundamental na escola estadual, então, de tempo em tempo, você tinha pilhas de livros de anos anteriores, livros didáticos que iam para o lixo. E eu lembro que eu pedia à diretora, que era dona Sônia, na época. Dona Sônia Rocha. É? É isso. E eu pedia os livros didáticos para ler. Então, eu pegava, principalmente, livros de ciência, geografia e de história. E era o que eu gostava de ler, então eu pegava esses livros que iriam pro lixo, inclusive ainda tem livros dessa época, livros didáticos dessa época, super ultrapassadinhos, né, se comparado com o que a gente tem hoje, mas era o que eu lia. Eu acho que tem alguma coisa importante ainda sobre essa época, deixa só eu pensar. Tá, e aí vem o normal médio. Vamos para o normal médio. Se eu lembrar, eu volto.
P/1 -
Antes, posso te perguntar se teve alguma professora ou algum professor que te marcou nessa etapa?
R -
Sim. Eu lembro da maioria dos meus professores. Uma delas é Dona Luzia, que hoje ela é gestora de uma das escolas onde eu dou aula. Ela foi minha professora de ciências por um ano. Ela foi uma professora muito importante, tanto que hoje nós trabalhamos juntos e temos essa memória afetiva. Ela também mora aqui no território, mas na época ela era professora lá na cidade e eu estudava na cidade. Teve a professora Edjane Melo, que também foi minha professora de ciências, com quem a gente tinha uma excelente relação. Professora Eva, Josefa Eva, que também foi minha professora de ciências, de biologia, mas já no normal médio. E depois ela veio a fazer mestrado e fez pesquisa aqui no território junto comigo. Eu fui junto com ela. Quem mais? Quem eu poderia mencionar dessa época? Teve Tia Cileidinha, que foi uma das primeiras professoras que eu tive, né? Que foi que me alfabetizou. Tia Betinha, que também era da época da alfabetização. Não foram minhas primeiras professoras porque tinham ajuda creche, mas foram aquelas que me alfabetizaram. E tinha Tia Irenita, que não dá pra esquecer de Tia Irenita, que também foi minha professora ali no Fundamental 1. Eu tinha uma boa relação com os professores de ciências, mais do que com de História e Geografia, por exemplo. Eu acho que... porque... A atual secretária de educação de Caetá foi minha professora. Eu tinha uma excelente relação com ela, só que eu não era muito afinado com a disciplina da língua portuguesa, mas a gente tinha uma relação excelente. Então, eu tenho boas lembranças dos meus professores e professoras, mas eu acho que as tias do comecinho e as professoras de ciências do resto do processo foram, assim, mais próximas de quem eu lembro com mais frequência.
P/1 -
E o normal médio que era o cotidiano nessa época?
R -
Pronto, nessa época houveram muitas muitas questões na minha vida. Primeiro porque eu já estava mais velho, né? 14, 15, 16. Primeiro começou com o seguinte, eu fui estudar à noite, né? Sem ninguém me pedir, sem ninguém me acessar, eu fiz um acordo com o meu pai e disse o seguinte, olha, Eu vou estudar à noite e durante o dia eu vou lhe ajudar no sítio. Mas a gente tem um acordo. Quando eu quiser sair para as coisas da igreja, eu vou. Quando eu quiser sair para tocar, eu vou. E quando eu quiser viajar, fazer minhas coisas, eu vou. Mas eu vou estudar à noite para lhe ajudar no sítio de dia. E assim foi feito. Só que... Acabou que foi um período em que eu comecei a me desentender muito com meu pai. Não sei se por isso, também outras questões relacionadas ao nosso cotidiano familiar, eu, ele e minha mãe. Isso foi no primeiro ano. No segundo ano do normal médio veio a guinada que foi o seguinte, o estado de Pernambuco e os municípios, eu não sei muito bem como foi isso na época, mas meio que eles fizeram um acordo. Os municípios vão ofertar o fundamental 1 e 2 e o estado vai ofertar o médio. E o normal médio, nessa época, era ofertado pelo município. Então, a gente foi transferido para o Estado, quase que... Não, é obrigatório ser do Estado porque é um curso de nível médio. E o Estado só pode ofertar essas aulas à tarde. Então, o combinado que eu tinha feito um ano antes com o meu pai também caiu por terra, porque eu tinha que estudar à tarde. E isso agravou esses desentendimentos. Nessa época, eu já atuava com música, vamos colocar assim, de forma profissional. Eu já tocava, já saía pra tocar fora. Eu toquei na igreja, na igreja católica, porque primeiro eu fui coroinha. Minha mãe destrói essa história, inclusive, um parênteses, porque ela disse que eu entrei na igreja pra ser coroinha, não pra ser coroinha, mas porque eu queria aprender a tocar. Ela tava certa, mas a gente não precisa destruir a história, né? Deixa. Dentro da igreja, inclusive, eu fui coordenador do curso, do curso não, do grupo de coroinhas, né? Então, tive essa coisa das lideranças desde muito pequeno. E aí, saía pra tocar na igreja e tudo mais, e acabei querendo montar banda, né? Banda com os colegas. Então, eu comecei a dar aula com 15 anos. já no normal médio, mas porque eu dava aula de música para os meus colegas e dessas aulas de música a gente formava bandas que chegava a se apresentar ou na cidade ou em evento fora. Eu tocava fora porque eu tocava com outras bandas, mas com as bandas que a gente formava, tocava mais por aqui, a gente tocava Rock, tocavam MPB, tocavam coisas mais nessa linha. E quando chamavam para as festas da igreja, música católica deles. Essa era a regra. Então, no período do normal médio foi isso. E eu já me formando enquanto professor. E eu lembro que no meu terceiro ano, porque o normal médio, diferente do ensino médio, eram quatro anos e não três. Que no meu terceiro ano eu consegui um emprego. Eu já dava aula de música particular, já recebia, já ganhava um trocado por isso e conseguia um emprego no município de Jucati. Só que para dar conta desse emprego, eu tinha que faltar aula. Então, acabou que por quase um ano eu faltei todas as aulas de matemática que aconteciam na quarta-feira. E isso depois me gerou um problema terrível, porque eu entrei em progressão e fui para o quarto ano do ensino médio, do normal médio, devendo a matemática do terceiro. E aí tive que fazer prova e não passava. Fazer prova e não passava, fazer prova e não passava. Nessa época que eu comecei a namorar com a minha esposa, estamos casados há 13 anos, 12 ou 13 anos, depois eu faço as contas direito, mas é isso. E a gente começou a namorar, nós estudávamos na mesma escola, E no final do meu quarto ano do Normal Médio, eu resolvi fazer faculdade, que até então era uma coisa... Eu falei até pra minhas professoras e disse, olha, nem todo mundo nasceu pra fazer faculdade. Mas resolvi fazer. E aí eu fiquei no impasse. Faço história ou faço biologia? Faço história ou faço biologia? E acabei optando pela história. E contra todas as expectativas, eu passei no vestibular, na Universidade de Pernambuco. Nessa época, nessa saída do fundamental para o normal médio e tal, eu convivi muito com um professor de música, que acabou quase que me adotando de alguma maneira, que é o professor André Aldejan. Ele é de São João, mas mora em Garanhuns. Ele é do município de São João, mas mora em Garanhuns. E foi uma grande escola de formação para mim. A gente convivia, eu praticamente morava na casa dele. Teve um período longo, quase dois anos, talvez mais que isso, dois ou três anos, em que eu morava na casa dele. Eu ia na cidade dar oi pra minha mãe e brigar um pouco com meu pai. E é isso, esse foi o período. Até então, e aí eu fiz o vestibular, passei contra todas as expectativas, Porque reza a lenda que no conselho de classe daquele ano, como assim Alexandre passou no vestibular? Aquele que fica todos os dias tocando violão nos corredores da escola? Pois é, ele passou. A contragosto de todo mundo. De alguns, vai, todo mundo não. Muita gente me apoiava, muita gente me incentivou. Muitos desses professores que eu mencionei e outros, né? Professora Vilma, professora Roselani, que são desse período. professora socorro, que eram pessoas que me incentivavam, a professora Rosali Tenório, que nem era mais minha professora, foi minha professora de biologia do primeiro ano, então foram pessoas que me incentivaram. E aí eu passei, e aí eu acho que é outro capítulo da história.
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Mas por que que você acabou indo pra história?
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Não sei. Eu não faço a menor ideia. É... Como eu mencionei, eu sempre tive essa proximidade com a natureza e eu gostava muito de bicho e eram as matérias com as quais eu me identificava mais, embora eu sempre tenha sido uma pessoa da cultura. Eu via o grupo de reisado e eu achava aquilo o máximo. Meu Deus, como é que eu faço pra participar disso? Eu via o samba de coco da família da minha esposa tocando, via o avô dela tocando cavaquinho e dizia, cara, como é que eu faço pra para somar nisso aí, sabe? Como é que eu faço para estar fazendo parte disso? E o meu professor de música, que eu mencionei, que eu praticamente morei com ele muito tempo, fui adotado por ele, ele era historiador. E não é que eu me dava mal com os professores de história. É que eu gostava muito de história. Mas, assim, eu estava ali dividido. E na hora de fazer a escolha, eu ponderei talvez no momento eu tivesse mais com afinidade maior para as questões culturais, para a questão da história, para as minhas questões pessoais. E as minhas questões pessoais são história e resvalam nesses aspectos mais gerais da história. Acho que nesse momento eu fiz essa escolha e não me arrependo de maneira nenhuma. Eu acho que Escolher entender de história, tecnicamente, cientificamente, me salvou de muita coisa. Inclusive, me possibilitou viagens de volta pra lugares que, sem ela, eu acho que não seria possível. Não pelo que eu vejo no mundo fora dessa bolha, sabe? Então, não me arrependo de maneira nenhuma. Se você quiser usar uma outra explicação, já foram os encantados e os meus ancestrais que estavam me puxando pra algum lugar onde eu deveria estar. Porque essa é a minha... Eita, meu Deus. Essa é a minha resposta. Essa é a minha resposta. Eu não tenho religião. Porque nas coisas nas quais nós acreditamos, a gente não tá precisando religar nada com nada, sabe? Então a gente não pode chamar essa experiência de religiosa. Por isso, essa é a minha resposta. Mas, se quiser fazer a interpretação nesse caminho, eu acho que é totalmente plausível.
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E você quer falar por que os encantados te levaram para a história?
R -
Posso. Primeiro, eu tive aquele momento do curso de História que todo estudante de História vira ateu. Não acredita mais em nada além da ciência. Mas há pouquinho tempo eu estava conversando com a amiga Cassandra, parenta Cassandra Funiol, e uma das falas que eu fiz junto com ela foi, olha, quem tem um pé na aldeia sempre vai ser chamado pela sua espiritualidade. Sabe? Aí ela brincou. Imagina quem tem os dois, como você. Então, primeiro houve uma... uma reconstrução daquele menino que participava das coisas da igreja e tal, e foi cercado por uma experiência de vida mística, com todas aquelas histórias de reinos encantados e tudo mais. Então, houve uma reconstrução para aquele historiador, para aquele pesquisador em formação. Mas aquele historiador e aquele pesquisador em formação, ele sentia prazer nas coisas do seu território. E ele vinha de um período de inquietação, de conflitos com a família paterna, que despertaram muitos comentários e que despertaram muitas inquietações nele. Eu vou tentar traçar uma linha dessa questão aqui agora. Um episódio que me marcou muito, inclusive eu coloquei um trechinho disso na minha dissertação, no mestrado, que estava passando, e aí eu não vou lembrar o ano, se eu estava no fundamental ainda ou se eu já estava no médio, mas foi na minha adolescência. Estava passando a novela Cabocla. Estava lá passando a novela Cabocla. Meu pai chegava do sítio, sentava no sofá da sala, minha mãe ficava costurando na máquina e a TV ligada e eu ali brincando, estudando na frente da TV. E passando a novela Cabocla, meu pai solta um comentário que não era um comentário inédito, mas naquele momento aquilo me pegou. Ele disse, a mãe de mamãe era cabocla legítima, lá da Serra de Pesqueira. A essa altura da vida, eu já sabia que lá na Serra de Pesqueira existia um povo indígena chamado Xucuru. E eu liguei dois mais dois e disse, pera, vó maroquinha era cabocla nascida na Serra de Pesqueira. E lá na Serra de Pesqueira mora o povo Xucuru. Eu disse, pai, como é essa história? Sua bisavó, Quitéria, Quitéria Cordeiro dos Santos, chamada de Maroquinha, ela era caboca legítima, nascida lá na aldeia, dentro da serra. Aquilo virou um turbilhão na minha cabeça. Como assim? E aí eu entrei no curso de história, fui estudar temática indígena, conheci outros parentes, só que durante todo esse período eu estava rompido com a minha família paterna, com meu pai. Meu avô, a quem eu devo tanta coisa, havia falecido e eu não conversava mais com minha avó. Então, tudo que eu tinha era um quebra-cabeça de várias memórias, de vários ensinamentos que ela própria tinha me passado ao longo da infância e muito poucos que meu pai passou. E por que isso? Ele sabia de tudo, todas as tradições, todos os costumes, ele sabia e sabe. Mas, para sobreviver, povos e comunidades precisaram negar, muitas vezes, suas tradições. Depois eu descobri que isso explicou porque minha bisavó desceu da Serra do Ororubá. Isso explicou. Porque minha bisavó desceu da Serra do Ororubá para constituir casamento com um homem branco em Garanhuns. E quando esse homem branco morreu, minha tetravó veio buscar as netas, no caso, vó Lurdes e tia Luzia, para criá-las dentro da aldeia do Gitão, na Serra do Ororubá. E aí eu precisei desromper e voltar a conversar com minha avó, já muito velha, já sendo cobrada pelos vários anos, e entender que história era essa. E aí, no mestrado, descobri que caboclo é um sinônimo para pessoas indígenas, foi um sinônimo, foi um termo oficial para as pessoas indígenas aqui no Nordeste e entender os processos de retomada e reorganização dos povos indígenas aqui em Pernambuco e entender que todos eles eram caboclos. Em algum momento foram transformados em caboclos porque eles não podiam ser indígenas. E me debrucei sobre outras histórias, porque o que era que tinha na minha mente até esse momento? Isso era uma história individual, era uma peculiaridade minha. Na universidade e no mestrado eu encontrei um monte de colegas desse território e de outros que tinham histórias muito parecidas. Não, eu sou neto de uma mulher que foi pegar a dente de cachorro. Só que não era uma mulher sem nome. Não. Minha bisavó, Nonta, ela foi pegar ali, no sítio Ouro, e a família dela morava embaixo de um pé de jiquiri. Jiquiri é um árvore que a gente tem aqui na nossa região. E ela foi pega, forçada a constituir casamento com meu avô, e aí dão todo, sabe, toda a genealogia. Eu disse, não, então peraí. Tem uma coisa, tem uma questão, não é uma história minha. Eu não sou um maluco sozinho. E aí retornei a isso. Subi a Serra do Ororubá e fui conversar com as pessoas. Fui entender o que é que eu era, fui perguntar pra aquelas pessoas que me acolhiam e entender que... E aí sim, entender que era isso que eu era. Entender que quando eu tinha por volta de 6, 7 anos de idade, eu via uma mulher que me acompanhava e minha mãe, como uma pessoa muito sensata, me levou pra um psicólogo. Primeiro, ela me levou pra igreja dela. católica e na igreja dela sugeriram que ela me levasse para um psicólogo. Na época tinha uma psicóloga que atendia no posto em Caetese e ela me atendeu e por alguma razão eu parei de ver essa mulher. Depois de adulto eu entendi que a obrigação nem era dela, era do meu pai, não de ter me levado para um psicólogo ou para um padre, mas ter me levado para um terreiro na Serra do Ourourbá. Só que O objetivo era negar. Era dizer que é branco, que não é mais indígena e todos os dias pedir permissão às caboquinhas e aos encantados para entrar na mata. E tirar e poar para usar o mel e a cera para ofertar para as caboquinhas. Mas no registro civil, na autodeclaração e na sociedade é uma pessoa branca. E negar até a morte as tradições que tinha. Então, essa foi outra virada de chave na minha vida. Descobrir que nem eu tinha uma história individual, não era uma loucura minha. E entender por que eu vivia e percebia a realidade da forma que eu percebia. Por que eu me organizava da forma que eu me organizava. E por que o meu apego tão grande às tradições fossem as minhas. fossem a dos meus pares ou aquelas que eu achasse interessante. O Reisado, o Samba de Coco, as bandas de pífano, etc. Então aí eu consegui entender. E pra mim tá tudo bem. Você não pode querer cobrar que uma pessoa que não tem essa espiritualidade entenda ela. E você não pode cobrar um cético que entenda o que é isso que eu tô falando. Mas esse foi o caminho. Foi esse caminho guiado pelos ancestrais.
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E aí, voltando um pouco, o que mudou na sua vida quando você entrou na universidade, no cotidiano?
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Primeiro, uma grande mudança foi que eu casei no ano que eu entrei na universidade. Quando eu estava no segundo período da graduação, eu e Gisele nos casamos e fomos viver nossa vida. Foi nesse ano também que meus pais se divorciaram. Eles se divorciaram antes, bem antes, no começo do ano, e a gente veio a casar no mês de julho. Nós vamos no mês de junho e casamos no mês de julho. É... Então, tem uma vida de casado, né? Agora, era assim, o Alexandre, eu tinha uma esposa e a gente tinha uma família, que éramos nós, pra dar conta.
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E me fala como foi o dia do casamento.
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Tá. Vamos lá. Foi um... Nós nos casamos de dia, foi um casamento civil, no fórum, tinham outras pessoas casando no mesmo dia. Fomos para a casa da minha mãe, nós moramos bastante tempo com a minha mãe antes de irmos morar de aluguel e depois virmos morar aqui. Teve um jantar à noite que ela organizou, onde tinha a maioria das pessoas da minha família. quase ninguém da família de Gisele, só uma tia que também é madrinha e alguns primos, e a maioria das pessoas, a maioria esmagadora da minha família e os nossos amigos em comuns. Os meus amigos tornaram amigos dela e vice-versa. Não que ela tivesse muitos amigos, porque ela era recém-chegada aqui, mas nós tínhamos esse ciclo de amigos em comum, que muitos deles ainda são nossos amigos em comum, até hoje. Mas foi isso, casamos pela manhã, o tio dela foi buscar as coisas dela, levar pra nova casa, que seria a casa da minha mãe, e à noite teve esse jantar, que foi uma coisa simples, não foi uma grande festa nem nada. É isso, esse foi o dia do casamento. Ok.
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Eu tava falando da sua entrada na universidade, desse momento que você casou.
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Pronto. Então, tiveram essas duas questões, o casamento, que mudou bastante a minha vida, e entrar na universidade, que também mudou bastante a minha vida. A universidade, ela foi determinante pra mim, porque ela conformou muitas inquietações que existiam na minha pessoa, E, no primeiro período da graduação, eu descobri que eu podia ser cientista. Eu entrei num curso de licenciatura em História, mas eu descobri que eu podia ser cientista, que eu estava me formando para ser cientista. E teve uma aula de campo ao município de Iati, para o sítio arqueológico do Boi Branco. E lá, na época, há quem dissesse que eu queria ser arqueólogo. Só que não foi bem isso. Quando eu cheguei naquele lugar, eu vi tudo familiar. Lageiro, caatinga, o riacho, aquela areia no riacho e as pinturas rupestres. E eu disse, cara... E eu olhava de lá pra cá e avistava as serras aqui, do Vale e do São José. E eu dizia, rapaz... Tem essas coisas na minha região. tem isso na minha região. E, nessa altura do campeonato, eu já estava super inquieto. Por quê? Eu queria saber da história do meu lugar. Não tinha nada escrito. Eu queria saber da biodiversidade do meu lugar. Não tinha nada escrito. Existia um trabalho sobre a Caatinga, mas ainda muito gerais, ou era tudo sobre a Serra da Capivara e o Catimbal. Eu disse não. tenho que fazer alguma coisa a respeito. Então reuni uns quatro malucos igual eu, alguns que já tinham terminado a graduação e estavam na especialização, alguns que estavam cursando a graduação. E criamos o grupo de pesquisa Vale do São José. Nomeamos com o nome do nosso território, fizemos uma primeira aula de campo para o sítio arqueológico, que a gente nem sabia o nome, Depois, conversando com seu jurandir Taveira, lá no sítio malhado da Jurema, no bar, tomando um juru temperado, que é um vinho de jurubeba que ele tempera com plantas nativas e especiarias, ele disse, aquele lugar se chama Tayado da Letra, que é esse painel que tá tatuado aqui na parte de baixo do meu braço. Faz sentido, Tayado da Letra. Só que isso já foi mais adiantado. Criamos o grupo de pesquisa Vale do São José, 2012, segundo período do meu curso de graduação em História. E o que é que nós queremos? Vamos ganhar o mato, procurar pintura rupestre, e achamos várias. Só que nós não começamos de lugar nenhum. Nós começamos das portas para os reinos encantados. Nós voltamos naqueles sítios sobre os quais meu avô falava. A Pedra do Moinho, a Pedra da Letra. Começamos por eles. E deles encontramos, de fato, todo um reino encantado material. Só que, nessa altura do campeonato, a gente já não estava mais só andando dentro do mato e procurando pintura rupestre. a gente estava conversando com os nossos, a gente estava realizando entrevista, a gente estava documentando as histórias dos nossos mais velhos, a gente estava fazendo as nossas genealogias e entendendo quem nós éramos. Então, o Grupo de Pesquisa Vale do São José, que hoje, com certeza, ele é um marco na minha identidade pessoal. Eu fundei esse grupo Busquei uma experiência outra, uma outra possibilidade de viver uma experiência comunitária. Como qualquer coletivo, como qualquer busca por esse bem viver, por essa emancipação das comunidades, elas têm flutuações. Mas foi onde eu me situei. Pode ser que amanhã eu acorde com outra ideia e mude completamente, mas até então parece ser o lugar para onde os encantados estavam me conduzindo. E aí o grupo ganhou outra proposta. Agora a gente não estava falando mais só de pintura rupestre. A gente estava falando da história atual. A gente estava falando de biodiversidade, de planta, de caatinga, de brejo de altitude, de geodiversidade. Então, nossas cachoeiras sagradas ou recreativas agora eram geocítios. E a gente tava entendendo, a gente tava produzindo aquilo que a gente queria ter chegado na universidade e encontrado. E como não encontramos, começamos a produzir. Devidamente orientados, né? Acho que vale muito mencionar o professor Clóvis Gomes, que foi diretor do campus Garanhuns da UPE. Ele já é falecido, mas ele foi alguém que convocou, ele disse aos nossos professores, chame esses meninos aqui porque eu quero conversar com eles. entender o que é que eles estão fazendo. Vale agradecer demais ao professor Bruno Câmara, à professora Marina, ao professor Daniel Dantas, que foram os três grandes mobilizadores ali para nos orientar, porque eles olharam para a gente e disseram, olha, eles têm um volume de dados muito interessante, isso na linguagem acadêmica, e eles estão fazendo uma coisa que precisa ser publicada, que precisa ser orientada, tanto que na época eu fui bolsista de iniciação científica do professor Daniel Dantas, mas ele era professor do curso de geografia, e eu era da licenciatura em história. Mas por todos os problemas estruturais internos, o professor Clóvis e o professor Daniel disseram, não, Alexandre tem que ter uma bolsa. Ele não pode só estar fazendo esse trabalho e dando aula, trabalhando de professor, e tirando de pagar as contas, ele precisa ter uma bolsa, ele não pode tirar do que ele está pagando as contas para fazer isso. E me conseguiram essa bolsa. Isso já em 2014, então eu dei esse salto 2012, 2014, porque 2013 foi justamente esse momento, vamos para dentro do mato, vamos estudar, vamos formalizar esse grupo, vamos entrevistar nossos familiares, bora iniciar. Só que em 2014, começou a chegar mais gente, porque a gente estava estudando coisas muito diversas, então tanto demandava mais pessoas, como aos pouquinhos, de forma muito tímida, algumas pessoas não acadêmicas começaram a se chegar no nosso coletivo. Agricultores, parentes, amigos, alguém que ouviu falar do que a gente estava fazendo, alguém que A gente foi na propriedade dessa pessoa, né, então posso citar o Dedê, que é aqui da Cachoeira Grande, que já é um sítio no município da Pedra, mas que é bem próximo daqui da gente, né, tá no nosso território. E o Dedê super recebia a gente, a gente ia tirar foto das pedras da propriedade do Dedê, das rochas e das plantas e tudo mais. Então foi chegando. A gente levou as nossas experiências desde 2013 para as escolas. Então, principalmente os estudantes do ensino médio, a gente levou num formato de curso de curta duração, palestra, atividades extras. Então, muitos desses estudantes que eram daqui do território começaram a agregar ao coletivo. Eu e outros colegas do grupo estávamos na sala de aula. Então, nossos alunos, da época, começaram a se chegar no coletivo. E chegou um momento que a gente percebeu que o que a gente estava fazendo era organizar nossas comunidades a partir desse marco do nosso território e das nossas criações. Hoje se fala muito em ancestralidade e tá certo, é isso mesmo, mas foram essas pessoas que nos educaram, que nos criaram, que nos contaram essas histórias que pavimentaram isso aí. Então, essa criação que a gente teve, ela pavimentou esse lugar. E aí, em 2016, 2016 e 2017, nós descobrimos que precisávamos nos tornar uma instituição. não dava só pra ser um grupo de pesquisa, não dava só pra ser a sociedade civil organizada, a gente precisava ser uma instituição. Porque quando a gente quisesse dialogar com a prefeitura, a gente iria dialogar de CNPJ pra CNPJ. Quando a gente quisesse dialogar com o SESC, com a universidade, com quem fosse, a gente precisaria ser uma instituição. Então escrevemos um primeiro estatuto, um primeiro regimento, porque, gente, associação tem que ter estatuto e regimento. E como éramos um grupo de pesquisa, com muitas questões, criamos também um código de ética de como proceder. Então, quem participou da pesquisa participa do trabalho final. Quem assumiu a liderança de determinado trabalho é o primeiro autor. Sabe esses arranjos? Pra coisa poder funcionar. E aí, em 2017, a gente teve o grande momento do Grupo de Pesquisa e Associação Vale do São José, porque nós já tínhamos desenvolvido uma maturidade, então a gente já tinha bastante coisa publicada. Muitos de nós já tinham terminado o ensino superior, muitos dessa primeira geração, né? E estávamos entrando na pós-graduação, ou tentando, ou nesse intermeio entre graduação e pós-graduação, e a gente estava num pico de produção fantástico. A gente estava escrevendo muita coisa, a gente estava publicando muita coisa, apresentando muita coisa fora, fazendo trabalhos incríveis nas escolas, enfim. Estava algo bem conformado. É... E aí veio um episódio, 2016, ainda nesse momento, que a nossa casa, esta, ela foi roubada. Minha esposa estava na cidade e eu estava tocando na festa da igreja daqui, nessa capelinha onde vocês passaram. E isso nos lesou muito porque levaram minha câmera, meu notebook, alguns instrumentos que a gente tinha, uns trocados que eu tinha guardado para ir fazer a seleção do mestrado em Recife. e desestabilizou, né? Que a gente entendeu, descobriu quem foi, entendeu o que foi, quais foram as motivações. E é um pouco daquilo, você ter um professor, meia dúzia de malucos, dentro da zona rural, dizendo que é proibido caçar e dizendo que a gente precisa conservar a catinha em vez de botar ela no chão, isso incomoda. E isso motiva pessoas a querer desestabilizar essas questões. Como assim? Então uma terra que poderia ser minha vai ficar na mão desse povo? Que quer manter a Caatinga em pé? Eu quero isso pra mim, esse povo tem que desaparecer daqui. E aí teve esse episódio, que foi bastante traumático, não só para eu e para minha esposa, mas para o coletivo, porque esse lugar sempre foi e ainda é a sede desse coletivo. A essa altura, nós já convivíamos com as torres eólicas. Estou falando de 2016, então isso já era outro problema na nossa história, para a gente dar conta. Mas tudo bem, vida que segue, vem 2017, a gente tem o melhor momento do grupo de pesquisa e associação Vale do Sul José. E o trauma foi superado com muito sucesso. Em 2018, aliás no final de 2017, abriu a seleção para a primeira turma no mestrado em culturas africanas da diáspora e dos povos indígenas aqui em Garanhuns, aqui na UPH Garanhuns. E eu não tinha nenhuma pretensão de fazê-lo. Eu tinha tentado o mestrado em Extensão Rural e Desenvolvimento Local na UFRPE em Recife, e não tinha passado, foi justamente nesse momento do roubo, nesse momento do trauma, e eu não tinha nenhuma intenção em tentar a seleção em 2017. Só que aí minha mãe me mandou o edital. Eu disse, tá, abri o edital, olhei, 150 reais a inscrição. Eu, mal das pernas, professor contratado, tentando reaver as coisas que tinham sido roubadas, pagando prestação de computador novo, de equipamento novo, enfim. Aí um ex-aluno meu, integrante do grupo de pesquisa, amigo, que é o Rafael, que também é do audiovisual, curiosamente, me manda o edital. Aí eu, tá, beleza. Minha mãe, meu amigo. Normal, né? uma ex-colega de escola, uma professora, me manda eu editar. Eu disse, não, eu vou fazer. Aí eu olhei, 150 reais. Eu disse, meu Deus. Eu disse, quer saber, Dilma? 150 reais não vão pagar todas as minhas dívidas. E não vão resolver meus problemas. Fiz a inscrição. No primeiro dia da seleção, eu acho o máximo, acontece e chora, é por isso que eu tô contando. No primeiro dia da seleção, saímos da prova, teve a primeira etapa que a gente mandou o projeto, a documentação, e teve a prova de conhecimento, que não foi uma prova, ele foi um relato de experiência. Poxa, eu fazia pesquisa desde 2012, era professor da rede pública de Caetés desde 2013. Toda essa experiência de vida, eu tenho um relato de experiência bacana, do ponto de vista científico e educacional, eu vou fazer essa bendita seleção. Quando a gente sai, todos os que estavam concorrendo, a gente fez, se eu não me engano, o relato de manhã à prova de língua à tarde. Salvo engano, foi uma coisa assim. Posso estar errado, né? Mas foi algo desse tipo. Quando a gente sai, todos os concorrentes estão ali conversando, trocando, E assim, eu já considerava que eu tinha uma experiência bastante robusta, né? Poxa, desde 2012, não sei o quê, professor, eu escutava os colegas que estavam concorrendo falando assim, eu não passo nesse povo, não. Eu não tenho nem roupa pra andar no meio dessa galera, esse pessoal vai passar e eu, mais uma vez, vou ficar ao deus dará. Aí vem a entrevista, faço, passei nas primeiras etapas. Aí eu disse, tá, vou pra entrevista. Fiz a entrevista, saio da entrevista assim, eu disse, eu sei se eu passo. Com esse meu projeto, querendo falar de caboclo brabo. Sai o resultado final e eu passei. Aí eu disse, tá. E uma boa parte daquela galera que tava assim, em outro nível da escala acadêmica, não entrou. Eu disse, então bora lá, né? Então bora lá. E aí em janeiro de 2018 a gente desce a Serra de São José até a casa de um cidadão chamado Zé Preto do Pé da Serra. E lá eu nem tinha começado o mestrado ainda, só tinha passado na seleção e estava aguardando para fazer a matrícula. Mas sabia o que ia pesquisar, já vinha com essa experiência desde 2012, liguei meu gravador, que eu acho que na época foi até um celular, Zé Preto, seu nome completo, José Donato. Ela falou. O senhor autoriza que eu utilize essa entrevista pra minha pesquisa, pode usar, não sei o que. Me diga uma coisa. Você conhece alguma história sobre o Caboclo Brabo? Aí ele deu uma risada. Esse Caboclo Brabo, você tá falando com... E aí ele começou. Narrada a avó que tinha sido pega embaixo do pé de jurema. Ali, apontou aquele pé de jurema ali dentro do rio. E daí saiu meu mestrado. Isso em 2019. E para aquela pessoa que não ia passar, eu recebi a menção honrosa na minha dissertação. Foi a primeira pessoa a concluir o mestrado. Primeira turma com menção honrosa. E a gente vivia um momento assim muito bom do grupo de pesquisa e associação, porque a gente tinha entendido o que era que a gente precisava fazer. A gente não sabia ainda o que era que a gente queria. Mas a gente já estava organizado coordenação de pesquisa, ensino e extensão, agroecologia, cultura. Então, as linguagens que a gente entendia que eram prioritárias para o nosso território. que isso veio a se conformar, principalmente agora, no momento em que a gente está, nos últimos três, quatro anos, a gente entendeu que quais são os temas estratégicos para o nosso território, o que é que a gente foi construindo nesse percurso de 2012 até 2025. a gente entendeu que ter uma associação, porque é uma linguagem que as pessoas já conheciam. A gente podia ser ONG, a gente podia ser fundação, a gente podia ser instituto, mas escolhemos ser uma associação, porque a comunidade já entende a linguagem de associação e a gente quer a comunidade. Coordenação de pesquisa, porque a gente nasce de um grupo de pesquisa e a gente tem que continuar pavimentando a história do nosso território. Entender quem somos, quem são essas pessoas que estão aqui, qual é a nossa biodiversidade e tudo mais. Ensino extensão, porque não faz sentido nenhum a gente descobrir um monte de coisa e não ensiná-las a ninguém. Então, precisa ter essa coordenação porque a gente precisa estar nas escolas, precisa estar nas associações, precisa estar no terreiro das casas, sabe? A coordenação de cultura, a coordenação de audiovisual, a coordenação de agroecologia, que é outro lugar de onde a gente nasce, entendendo a agroecologia como essa área possível de apreensão da nossa realidade sociocultural, agrícola e tudo mais. A coordenação do museu, do Museu Isabel Teixeira de Mello, que leva o nome da minha bisavó, que tem um detalhe sobre o museu, mas eu vou terminar aqui para poder a gente entrar nessa questão. E a coordenação de diversidade e relações étnico-raciais. Então, a gente entendeu que sete eixos, esses sete temas são os temas Não sei se temas, mas os locais de atuação do nosso território. Sobre o museu, fecho essa fala e abro para você perguntar mais alguma coisa. O museu surge de uma necessidade que a gente nem sabia. Mas depois estudando, se eu não me engano, o Benedict Anderson, o sociólogo, quando ele vai falar das sociedades imaginadas e tudo mais, ele tem lá uma coisa que diz assim, olha, mais ou menos dessa maneira, né? Para uma sociedade, para um Estado dizer que ele é alguma coisa, ele tem três dispositivos. O mapa, o censo e o museu. Então, mapeamento era uma coisa que a gente fazia desde 2012. Vários mapas mesmo, dizendo, olha, isso é o Vale do São José. Esses sítios estão no Vale do São José. Esses locais isso, esses locais aquilo. Criamos o museu. Porque a gente já vinha acumulando ao longo de 12 anos um monte de coisa, inclusive objetos do nosso dia a dia. Era uma ferramenta indígena encontrada numa roça que o pessoal chamava de curisco, levava o curisco pra dentro de casa, porque o curisco foi mandado do raio. Quem manda o raio é Tupã, então se eu deixar o curisco dentro de casa, o raio não vai bater na minha casa. Então esse curisco, na verdade, é uma ferramenta lítica. E, do nada, chegava um pai de um aluno, um agricultor. Encontrei na roça, vocês que estudam com isso aqui. Meu Deus, o que a gente vai fazer com isso? Então, precisamos criar um museu. Encontramos um bicho morto. Pega o bicho, higieniza o bicho, leva para as escolas para dar aula, mas a gente precisa ter um lugar para guardar isso. documentos antigos, a entrevista com o Seu Zé Preto, a gente falando, falando do nada, chega a esposa de Seu Zé Preto naquela ocasião em que eu estava falando, olha, isso aqui era do meu avô, isso era do meu tio, entregou assim um monte de orações escritas a bico de pena, caligrafia do século XIX, o papel se desmanchando na nossa mão, E ele disse, olha, você, na maior humildade, você me empresta pra eu fotografar e depois eu lhe devolvo? Ela disse, não, pode levar pra você. A gente... É uma memória, é uma coisa que foi passada, que chegou até a gente, que precisa ser resguardada. E a gente quer que os bens que são do nosso território permaneçam nele. Nada de estar engavetado numa reserva técnica sem sentido nenhum. Eles têm que estar aqui. Porque quando os estudantes vêm ter aula de campo aqui nessa propriedade, eles têm acesso a tudo. Olha, essa ferramenta foi encontrada no sítio tal, esse documento veio do sítio tal, essa oração foi escrita no livro tal, foi doada por uma pessoa tal que mora em tal sítio lá no sítio São José, Então, esses bens têm que estar no nosso território. Então, precisamos de um museu. Falta a gente fazer o censo. Mas isso é um projeto recente. A gente quer, dentro dessa lógica, já que a gente precisa existir, a gente precisa dizer quem são essas pessoas. Mais do que a gente já vem dizendo. Até porque essas pessoas somos nós. E aí eu vou fazer só um link. Essas torres eólicas foram instaladas aqui sob o mesmo pretexto que existia antes delas. Aquela região lá, ela é longe, é no meio do mato, é desabitada, não serve pra produzir nada. Você quer um lugar melhor pra habitar a torre eólica? O problema é que quando o problema chega aqui, a região é densamente povoada, tem uma história muito complexa e rica, tinham outros problemas para serem resolvidos no lugar. E o coletivo Vale do São José, o grupo de pesquisa e associação Vale do São José já estava no território, formado por pessoas majoritariamente do território, pensando um projeto de lugar para esse território. E aí nos vem um outro problema na nossa história. Pra gente dar conta, algo que não estava nos nossos planos. Sabe? Então é isso, eu vou fazer esse corte aqui.
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Eu vou te perguntar como você se sentiu quando você soube da construção das turbinas.
R -
Pronto, eu tive contato, a primeira notícia que eu tive, eu estava inclusive em trabalho de campo, com um grupo de pesquisa, no lado sul do vale, E a gente saiu de uma trilha e tinha uma marcação em uma rocha. E aí eu perguntei a um dos colegas que estava comigo, que morava lá mais próximo. Olha, o que é isso? Você não está sabendo, não? Vão implantar a torre ólica aqui. Quando foi que começou isso? Ele disse, não, já faz quase um ano que o pessoal está aí nas casas, colhendo assinaturas, conversando com o pessoal, fazendo marcação. Aí eu fui conversar com minha mãe, com minhas tias, e elas disseram, faz muitos anos, que foi colocada uma torre animométrica aqui, e outra lá do outro lado do vale. Elas fazem muitos anos que essas torres foram colocadas aqui, muito, muito tempo, certo? E aí, essa primeira notícia eu tive em 2013, final de 2013, dessa chegada dessas torres eólicas. Em 2014 foi que começou realmente a abrir estrada, iniciar o processo de implantação das obras lá no lado sul do vale. O daqui foi mais tardio, se eu não me engano começou em 2015. Eu lembro muito bem que em 2014 eu subia lá no lageiro com a minha câmera e fotografava as obras acontecendo no outro lado do vale. Olha, eu fiquei muito confuso na época, mas não me identifiquei com o que estava acontecendo. Primeiro porque assim, eu temia, vê, eu temia por a derrubada de determinadas árvores, eu temia por quase aquele menino lá que foi brigar com o pai porque ele estava derrubando os candeeiros. Então eu não gostei daquilo. Eu não me identifiquei com aquilo, mas começou. Estava rolando lá no lado sul do vale, lá no sítio Kuati, lá na malhada da Jurema, lá no Sobradinho. E beleza. E aí, se eu não estiver enganado, em 2015, 2014 para 2015 talvez, começou do lado de cá. E aí eu comecei a conviver com isso. E aí foi que eu não gostei mesmo. eu percebi que isso que estava se formando aqui era contrário aos ideais do nosso coletivo. Era contrário aos ideais do Grupo de Pesquisa e Associação Vale do São José. E eram contrários aos nossos ideais como pessoas, sabe? Dessa história que eu contei para você até agora. Era contrário a isso, era contrário à minha ancestralidade, à minha criação, E foi quando começaram os primeiros conflitos. Quando ligaram os dois complexos, as torres começaram a funcionar, e os comentários começaram a surgir, aí eu percebi que as confusões acabaram. Porque a gente fica com dúvida. Ora, por mais que eu já fosse professor, por mais que eu tivesse estudado, por mais que eu tivesse acesso a informação, eu nunca tinha visto um complexo eólico na vida. A gente pega, enche um ônibus de estudantes e sai daqui pra Paulo Afonso pra ver as hidrelétricas, que foi outro impacto nas sociedades que lá viviam. Então, tinha todas essas questões e talvez uma fragilidade, uma deficiência enquanto cientista de ter que me distanciar da coisa para entender o que está acontecendo e não perceber que a coisa está acontecendo enquanto eu estou ali esperando. E aí os conflitos começaram e nós, enquanto moradores do território, enquanto coletivo, enquanto associação e grupo de pesquisa, precisávamos tomar um partido. E o nosso partido foi ser contra. Diametralmente oposto à presença das torres eólicas. Isso tem muitas implicações. Uma delas é que Caetées institucionalizou ser a terra da energia eólica. É lei, é uma lei municipal. Sabe? É uma lei municipal. É algo institucional que diz que Caetées é terra da energia eólica pernambucana. Torre Ólica decora o pátio de eventos, a entrada da casa de eventos, a prefeitura municipal, o fórum, várias secretarias e algumas escolas. Eu era professor da rede municipal, professor contratado, como eu sou hoje, nesse momento, e em 2015, 2016 e 2017, por exemplo, eu tive que vestir roupas, fardas da prefeitura, do desfile cívico com Torre Ólica. algo que não me representa, que não representa o meu coletivo e que não representa o nosso território. Falei e vou repetir, as torres eólicas foram um problema que aconteceu na nossa história. Ela não nos representa. E a gente tinha que lidar com isso. E não só eu, somos um coletivo, então você tem um monte de pessoas, professores ou outras profissões que dependem de um trabalho, muitas vezes, como servidor público, contratado. E como é que você vai contratar aquilo que é a identidade do município? Do município que te contrata, que paga teu salário, que paga tuas contas. Então, esse conflito, ele existe nesse minuto. Nesse momento, ele tá em curso desde 2015, quando ligaram, 2015 é o 16, quando ligaram a chave dos complexos eólicos. Que começou a rodar, que começou a zoar, que começou a adoecer a população, que começou a prejudicar a produção agrícola local. Só que, em qualquer lugar, você vai ter o conflito de discursos. Então você tem pessoas de dentro do território que dizem não, dá pra conviver tranquilamente com isso aí. Não assumem a surdez progressiva, não assumem que conseguem produzir leite porque tem mais recurso do que o resto da população e conseguem investir na sua produção pra sua produção render. Mas e a dos outros que não tem tanto recurso quanto você? Que para os padrões locais pode ser considerado um fazendeiro? Então, você tem esses conflitos. Gente, Caetége não é a terra do Vale do São José, não é a terra do pastorio, não é a terra do reisado, não é a terra do samba de coco, não é a terra do agricultor, é a terra da energia eólica. Então, Esse problema veio com a gente, porque nós, academicamente, culturalmente, a gente estava reivindicando outras coisas, outros marcadores para a nossa identidade. A gente escolhe estar dentro do território, morar no território, produzir no território, continuar tradições dos nossos ancestrais. Eu crio abelhas aqui porque meus ancestrais criavam. Tio João criava abelhas aqui, outras pessoas. Então, a gente foi estudar e entender para voltar a criar as espécies que eram criadas. A gente mantém nossas tradições, a gente assume essa relação com os reinos encantados. Muito mais como um respeito a essa nossa memória do que qualquer outra coisa, qualquer outra espiritualidade. São nossas tradições. E nossas tradições, nossa cultura, nossa espiritualidade, nossos modos de fazer, de viver, nossas sementes, a gente precisa cultivá-las aqui. Não é tão simples como muitos dizem, indeniza meia dúzia de agricultores e bota esse povo pra morar em outro lugar. Minha gente, nossas raízes estão literalmente aqui. Quando meu bisavô comprou essa casa, a casa já existia, já tinha gente vivido nessa casa, já tinha uma história aqui. E ele veio, tô aqui a quarta geração, desde a presença dele, e eu quero continuar nesse território. Toda Brauna, ela é preciosa, mas é aquela Brauna que tá ali com a qual eu tenho uma relação afetiva, espiritual. Em qualquer casa se mora, mas eu tenho o direito de morar nessa casa, que é dos meus antepassados, que é minha. Ou eu sou dela, jamais saberemos. É nosso direito. Só que chegam as torres eólicas aqui primeiro, no momento que a gente estava passando por uma seca terrível. e mesmo que já tivesse começando a chover, não deu pra... não deu ainda, naquele momento, pra ter recuperado os danos que a seca tinha causado, chega-se com uma proposta milionária, que eu particularmente odiei, porque você, enquanto empresário, chegar em um agricultor e dizer, olha, o senhor tem quantos anos? Eu tenho 70 anos. Oxi! Isso aí pra você vai ser uma aposentadoria. Você vai morrer e isso aí vai ficar para os seus descendentes. Eu vou estar agora na morte dos outros. Veja que coisa absurda. E é esse tipo de proposta. Então você vai receber tudo de uma graninha, você vai morrer e isso aí vai ficar para os seus filhos recebendo. Veja que coisa absurda. Como se falar que agora é na morte das pessoas. Propostas maravilhosas. Não! A gente vai botar as torres, mas vocês vão poder continuar criando embaixo. Mentira! Vocês passaram, tá tudo cercado, com placa de perigo, risco de choque elétrico, outra coisa. A torre tá lá, mas o barulho chega em um monte de gente. Chega aqui. Então, assim, a gente tem... que conviver com isso não gostando e nem de forma pacífica. Se dependesse de nós, desse coletivo, do Grupo de Pesquisa e Associação Vale do São José, a solução era simples, desliga, desmonta. E se na época nós soubéssemos o problema que isso iria se tornar, nós teríamos feito mais voada naquele tempo. O problema é que a gente não sabia muito como agir. Ninguém sabia o que era um complexo eólico. Nossa região ainda não tinha passado esse tipo de impacto. E eu falo pra qualquer pessoa. Uma coisa é você pegar um manual de etnografia e ver um antropólogo descrevendo o impacto. Outra coisa é você viver. Por isso, inclusive, que eu digo a todo mundo. Eu não respeito ninguém que diga que está estudando os impactos dos complexos eólicos e não dormir pelo menos uma noite em uma das comunidades rurais onde eles estão instalados. Não dá pra respeitar. Porque uma coisa é você ler o manual, uma coisa é você passear aqui durante o dia e perguntar às pessoas se tem ou não tem impacto. Outra coisa é você experienciar. E digo mais, com base no meu próprio trabalho de campo. Eu fiz várias entrevistas, conversei com várias pessoas, fiz várias observações participantes, mas uma delas me marcou demais. Eu estava na casa desses vizinhos, conversando, entrevistando, e fiz a pergunta clássica. Olha, a presença das torres eólicas aqui incomodam vocês? Aí eles disseram, não, elas fazem uma zoadinha, mas a gente já se acostumou. Então dá pra conviver com elas? E eles disseram, dá pra conviver tranquilo. Eu disse, tá bom. Aí fomos andar na roça, dentro do cercado. Quando chegamos dentro do cercado, a gente estava embaixo das linhas de transmissão de energia. Aí o proprietário mudou completamente o discurso. Olha, tá sem condições isso aqui. Negócio passando dentro da nossa terra. Se a gente bota um arado pra arar, não pode. Se a gente solta o gado aqui pra criar, não pode. Nem nasce nada embaixo dos fios, porque eles estão limpando, nem a gente pode plantar nada e tá aí o problema pra gente. Então quando você pega certas entrevistas, certas reportagens, certas falas arbitrárias por aí, se não, certas estatísticas, porque tantos por cento da população que mora lá foi entrevistado a tantas famílias e tantos por cento disseram que não tem impacto. Beleza, mas se além de entrevistar você foi andar dentro da roça com essas pessoas, porque as mesmas pessoas que dizem que o impacto não existe, experenciam ele de outra maneira. E quando estão experenciando, comprovam que ele existe. Existem dados científicos, meus e de outras pessoas. Principalmente de outras pessoas. Eu quase não escrevi nada sobre o assunto. A gente sabe dos impactos, a gente sabe dos problemas. Não se trata de uma transição energética. É uma questão de mercado, é uma tendência de mercado. A Microsoft quer dizer que vende um notebook que foi produzido com energia renovável. Não é transição. A que custo? Polui menos e tira a gente do nosso território. Nós somos semente, semente só germina na terra. Se a gente não estiver nessa terra, a gente não vai crescer e prosperar. É como você pegar um embuzeiro e querer plantar ele lá na Índia. O embuzeiro é daqui. Nós somos dessa terra. Como é que você quer tirar a gente dessa terra para que a gente cresça, floresça, frutifique em outros lugares? A gente tem que fazer isso aqui. E a presença das torres eólicas ameaça isso. Ameaça toda essa nuance de cultura, de tradição, de espiritualidade, de memória. Nós temos aqui no território várias comunidades rurais com todos os elementos de tradicionalidade para serem reconhecidas como comunidades quilombolas. E as torres eólicas estão literalmente passando por cima delas. Nós temos aqui no território núcleos familiares indígenas. Não só dentro dessa perspectiva minha, que é uma outra questão, mas pessoas que sempre estiveram por aqui. Essas pessoas vão falar pra quem? Como as comunidades rurais que falam vão ser ouvidas com o barulho das torres eólicas? Sabe? Gente, a agricultura, quem alimenta as mesas da cidade é essa região. Mais cedo nós comentávamos sobre a produção de queijo. O pessoal viaja pra Recife, passa no município de Cachoeirinha e lá se compra queijo coalho de toda qualidade, de todos os jeitos e tamanhos. Boa parte desse queijo coalho sai daqui desse território. Pelo horário, nesse momento, vários produtores estão lá colocando coalho no leite para produzir o queijo. Nesse minuto. Não há desenvolvimento das comunidades rurais a partir das torres eólicas. Não há. Há uma ameaça à nossa existência, à nossa permanência nos territórios. Se a ideia é emancipar a nossa população, se a ideia é que haja desenvolvimento, invista nesse formato de produção, naquilo que a gente vem fazendo aqui já há um bom tempo. Caatinga é um dos melhores lugares da galáxia para se criar abelha. Negócio extremamente rentável. Temos a chegada do gado no nosso território, que é algo com o qual as pessoas estão acostumadas. Não é a melhor produção, na minha opinião, mas é algo que está enraizado culturalmente no território. As pessoas vivem disso, criam famílias com isso. Nós somos agricultores. Quem não é agricultor hoje é filho de agricultor. Nós estamos dentro desse território. Então, assim, são duas formas completamente diferentes de perceber a realidade. Uma que quer ficar no território, que quer permanecer aqui, por todas as razões que eu falei e qualquer outra pessoa do território poderia falar razões tão convincentes quanto, qualquer uma delas, sabe? E um modo de perceber a realidade que nos quer fora daqui. É simplesmente isso. E a gente precisa ter uma posição. É algo bem escolar. Se tem uma situação de opressão, se você fica calado, você tá do lado do opressor. Então, a nossa posição, a minha enquanto indivíduo, enquanto representante de um coletivo, é ser contra a presença delas aqui. porque nós já estávamos antes, inclusive enquanto coletivo organizado, com outros planos para o nosso território, que, em parte, foram frustrados pela presença delas. Aliás, não é que eles foram frustrados, é que se tornou mais difícil efetivá-los com a presença das torres eólicas aqui.
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E como que você vê o futuro desse território?
R -
Olha, Tem uma piada entre os historiadores que o si não faz história e a gente não vê o futuro. A história é um profeta com os olhos virados para trás. Com os olhos da história, eu percebo o futuro de uma maneira muito pessimista. Nós não temos no Brasil nenhum histórico de conflito entre produção de energia, entre grandes empreendimentos energéticos e comunidades, povos e comunidades, em que os povos e comunidades se saíram assim bem desses conflitos. Então, com os olhos da história, que é um profeta com os olhos virados para trás, eu vejo o futuro de maneira muito pessimista. Como antropólogo que está concluindo um doutorado analisando justamente esse conflito, eu vejo um futuro incerto. Porque eu sinto entre as comunidades o mesmo medo em relação às torres eólicas que eu via em relação aos coronéis de outrora. No entanto, quanto pessoa, Eu alimento dentro de minha crença que o coletivo, o Grupo de Pesquisa e Associação Vale do São José, a Escola dos Ventos, o Seu Simão, a Quitéria, as pontas de rama que são a nossa geração mais nova, que a gente vai se rebelar. Porque nós somos muito educados e muito diplomáticos. Como qualquer grupo sensato, como qualquer população sensata, a gente tenta resolver as coisas no diálogo. Mas nós somos tratados com a violência para a qual a gente vai precisar responder, de alguma maneira. Então, dito isso, eu vejo um futuro complicado, mas para essas torres eólicas continuarem rodando no nosso território, eles vão ter que lidar com muita gente ainda. Elas podem até permanecer. Os empresários multimilionários que continuem enriquecendo muito mais com elas podem até continuar enriquecendo, mas não vai ser tão fácil assim não. Nós tivemos pequenas conquistas. Graças à mobilização de muita gente, elas foram desligadas. O estado de Pernambuco não tinha renovado a licença e garantiu que elas seriam desligadas e foram mesmo. E acho que por uns oito dias, talvez menos, mas por uns oito dias, elas estavam desligadas. Parecia o mundo antes delas. Elas ainda estavam ali, mas em silêncio. porque a voz dos povos e comunidades foi mais alta. Mas foi preciso bater na porta dos grandões lá em Recife, dos grandões que de vez em quando passam por aqui para constatar que tem gente, mas voltam para lá. Então foi preciso mobilização, foi preciso zoada, foi preciso posição firme e muita luta. Em dezembro de 2023, salvo engano, a gente teve uma visita de uma comissão do governo federal aqui. Acho que foi em 2023, quase certeza. Foi sim. E, à época, eu usei uma anedota. A gente passou três dias rodando aqui no território. Aliás, um dia rodando no território, um dia nos reunimos em Garanhuns e um dia fomos para Recife, lá para o FPE, lá para o auditório do SEFICH, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas. E eu estava nesses três dias. E eu usei uma anedota local para explicar o seguinte. Olha, um lá no nosso território, eu estava em Recife, né? Lá no nosso território, a regra é clara. Se ligou, tem como desligar. Se sobe, desce. Não tem mistério. E aí lembrei de um detalhe muito importante. Naquele momento fazia todo sentido falar. Talvez agora faça também. A gente não pode perder de vista que Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, é natural de Caetéis. Se não fosse ele presidente, talvez ele fosse um afetado pelas eólicas. O quanto isso importa, eu não sei, mas vale a reflexão. Vale muito a reflexão. Há uma proposta de criação de um novo assentamento de reforma agrária aqui nesse território, no qual As próprias pessoas que militam em favor disso já disseram, não, o presidente vai estar na inauguração. Como é que um projeto de reforma agrária vai conviver com Torre Ólica? Como é que o nosso projeto de vida convive com elas? Então, assim, eu acho que no Brasil a gente precisa lembrar que Torre Ólica não vota. E quando a gente vota, a gente vota porque acredita na resolução de problemas. Embora o Brasil tenha esse problema em sua concepção. Ele não foi pensado para a diversidade. Ele foi pensado para um elite, para um único perfil de gente que queria justamente essa diversidade morta, silenciada, acabada. Veja, então não tem como você querer que meia dúzia de agricultores, alguns professores, alguns indígenas e pretos que conseguiram entrar na universidade tenham mais razão do que um empresário. Não no país que foi criado para a burguesia. Não no país que foi criado para as elites. Se esse fosse um país pensado e criado para as diversidades, nossa voz já teria sido ouvida. Mas eu acho que temos aí esse grande problema, sabe? Essas grandes contradições. Mas é como eu disse, o futuro, ele é incerto, mas eu tenho alimentado o sentimento de que não vai ser tão fácil essas coisas rodando aí por muito tempo. E se permanecerem, não vão permanecer sem luta.
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E como você vê que a sua história de vida pode ajudar nessa luta?
R -
Olha... É... Se a gente usar o senso comum, tá? Muitas pessoas questionam. Porque, por exemplo, eu moro aqui. Ora, você tá terminando um doutorado, você é professor, não sei o quê. É... Gente, eu poderia estar em qualquer lugar do mundo, mas eu pertenço a esse território. Eu tenho o direito de escolher aonde eu quero estar. O que é que eu tô querendo dizer? Eu não tô aqui por falta de opção. Eu tô aqui por opção, por intenção. Sabe? Todo mundo aqui foi criado. Todo mundo. É certo. Todo mundo aqui foi criado. Se você tinha menos melanina, você já podia começar a dizer que é branco. Pode? Você é branco. O lugar não presta. Você tem que ir morar na rua. Não, você completou certa idade, vai pra São Paulo pra ir trabalhar, pra fazer sua vida lá. Todo mundo aqui foi criado nessa vida. Chegou um momento, vê que coisa. Chegou um momento que é assim, 18 anos, você é um menino tão trabalhador, se alista no exército. Vá, você vai ganhar bem, você vai melhorar de vida. E, de fato, as pessoas melhoram economicamente. Mas a que custo? A que custo? são realidades muito complexas, eu tô simplificando muito no que eu tô falando e talvez sendo injusto ao falar da maneira que eu tô falando, mas até que ponto minha vida aqui ela é menos digna do que quem foi daqui pra São Paulo que precisa acordar às quatro da manhã, voltar às nove da noite pra às quatro da manhã tá acordado de novo? Até que ponto A minha vida é menos digna do que o meu vizinho que se alistou no exército e tem uma qualidade de vida do ponto de vista econômico melhor do que a minha. Eu durmo bem. Não fossem as torres eólicas, eu dormiria muito melhor. Eu tenho uma profissão na qual eu me sinto realizado. Eu moro no lugar Extremamente barulhento, como vocês podem ver. Extremamente desagradável e feio, como vocês podem ver. Então assim, o que eu vou querer mais? Talvez a minha história de vida e as minhas percepções enquanto indivíduo, ela não represente tanta coisa. Mas minhas impressões não são só minhas. Hoje eu vivo esse momento das torres eólicas da mesma forma que eu vivia aquele momento descobrindo que era indígena. Eu não estava sozinho. Então, não é tanto sobre a minha, o meu grande exemplo de vida. É o fato de que há uma coletividade, pode não ser uma totalidade, Perfeito. É aceitável, é factível. Pode não ser uma totalidade, mas há uma coletividade que pensa, sente e vive como eu. Se eu não estou sozinho, eu posso estar meio errado, mas totalmente eu não estou. Então é sobre essa coletividade. Esse sentimento de pertencimento que não é só meu, de poder estar nesse território, é sobre isso. Eu acho que é mais sobre isso. Não sobre eu sozinho, mas sobre as várias pessoas que querem.
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E você tem algum sonho ou projeto.
R -
Para o futuro, para o seu futuro? Olha, talvez questões imediatas. Mas... Eu fui muito feliz com a vida que eu tive. Até agora. Eu espero ainda ter muito mais vida pela frente. Mas... Como eu falei, no meu ensino fundamental, eu não sabia o que eu queria para o médio. Eu sabia que eu queria uma coisa diferente. Então, eu fui fazer o normal médio, que foi uma surpresa. No final do meu normal médio, eu não sabia o que eu queria da vida. Mas escolhi a história. Foi uma grata surpresa. Graças aos letreiros pintados pelos encantados, muita gente botou na minha cabeça que eu queria ser arqueólogo. Graças aos acasos do destino, eu me tornei antropólogo. E foi uma excelente surpresa. Os sonhos que eu tenho para o futuro é conseguir permanecer no território de forma digna, ver as comunidades do meu entorno se tornarem a potência que elas são, viver bem com a minha esposa, com minha mãe, com minha família, honrar a memória dos meus ancestrais, respeitar a luta e as perseguições que eles sofreram fazendo minha bisavó descer da Serra do Ororubá, Continuar honrando a memória das pessoas desse território, seja dando o nome da minha bisavó ao museu, seja homenageando uma mulher negra quilombola em um festival que a gente faz. Seja juntando avós e netos aqui no terreiro dessa casa, aqui nessa sala ou ali no nosso espaço para manter vivas nossas traduções culturais. Eu acho que meus sonhos são simples. Um sonho imediato, eu preciso terminar minha tese e meu doutorado, passar em algum concurso aqui perto, estar aqui perto, continuar contribuindo com a formação desse país, que não foi pensado para mim e para os meus pares, mas continuar contribuindo, sabe, enquanto professor e continuar criando minhas abelhinhas. Eu acho que meus sonhos são esses. E pra esses sonhos eles se efetivarem, eu acho que o meu maior sonho é que se desligue e desmonte essas torres eólicas. E que as pessoas entendam que nossos marcadores de identidade, eles são vários outros e muito mais bonitos e honrosos do que isso aí. Eu acho que esses são os meus sonhos. Eu não tenho grandes ambições não. Viver bem e boa. Sabe? Não passar necessidade, não ter que me apertar, por exemplo, por umas coisas básicas. Eu acho que os meus sonhos são esses. E continuar fazendo coisas que me dão prazer. Ser professor me dá prazer. Me cansa, claro. Não me dá prazer. Viver o grupo de pesquisa e associação Vale do São José me dá prazer. Estar nesse território me dá prazer. Então é isso, ter uma vida digna, que continuem me dando prazer, que eu consiga continuar fazendo coisas que me alegrem, que me façam felizes. Esses são os meus sonhos. Ser uma pessoa melhor. Por quê? Porque a gente tem que sempre ser uma pessoa melhor. É isso. Esses são os meus sonhos.
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Alexandre, o que você achou de contar essa história hoje?
R - Eu gostei. Eu já tenho o costume de contar minha história, principalmente quando eu sou convidado para dar palestras ou para falar principalmente da temática indígena. Por eu estar em um contexto bastante peculiar em relação ao povo qual eu faço parte, ao povo da minha origem, a minha própria origem dentro desses contextos complexos, eu já estou habituado a contar a minha história. E eu gosto muito da minha história. E eu cresci ouvindo histórias, como eu já falei. Então, é bom. Hoje eu me senti bem, porque eu consegui contar alguns detalhes da história também, sobre os quais eu não falo. Pelo menos não todos os dias, né? Talvez não tenha contado tudo sobre a minha história, até porque... Não são muitos, mas são 32 anos. As sequelas da Covid não me deixaram com a melhor das memórias, mas é bom, é sempre bom. É sempre bom falar, falando a gente lembra, e lembrando a gente consegue fazer esses exercícios de pisar mais leve no chão. principalmente hoje, a gente está tão acelerado quanto as turbinas eólicas, a gente está tão acelerado quanto o mundo. Contar a minha história ajuda a ir para trás, pisar para trás, ir mais devagar. Isso é bom, isso é importante.
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Você acha que faltou contar alguma coisa que você queria colocar?
R - Eu falei muita coisa. Talvez tenha faltado falar o seguinte. Ah, essa é a história de Alexandre. Mas a minha história não é só minha. Ela é de várias pessoas. Da minha esposa, da minha mãe, do meu pai, dos meus avós, dos meus amigos. De pessoas que estavam aqui algumas horas antes de vocês chegarem. De outras pessoas para quem eu também contei alguma coisa sobre a minha história. Então, aí eu venho e falo, ah, eu passei em uma seleção de um mestrado, de um doutorado, sim, mas quantas pessoas à minha volta não capitanearam isso, não possibilitaram isso? Ah, eu moro nessa casa, eu moro nessa casa porque isso foi me oportunizado por quantas outras pessoas? Por quantos outros antepassados? Outra, eu saí da minha história porque tive acesso à educação mais formal, no sentido da educação mais formal. Então, entendi que eu precisava aprender mais sobre a minha história. Então, é mais isso. Não é só... Quando eu conto a minha história, eu tô contando do sucesso de tantas outras pessoas que me ajudaram. É até misquinho. Quando tiver lá na entrevista disponível a transcrição tudo. Alexandre. Sou eu e muita gente, sabe? Sou eu e muita gente. Eu tenho pintado no meu braço sinais de pessoas que eu não sei como eram, como falavam, quem eram, como se comportavam. Mas tá aqui. Isso faz parte da minha formação. Então é a minha historialidade e muita gente. Não é só minha. Pronto. Tá aí uma pergunta que a gente pode responder. Por que eu escolhi a história? Por que eu escolho fazer essas coisas? Porque não é sobre mim. Né? É sobre o coletivo. É sobre a coletividade. É sobre eu olhar pra uma determinada família do território e dizer, mas, rapaz, esse povo precisa buscar um reconhecimento como comunidade quilombola. Eu podia muito bem armar minha rede, ficar deitado, abrir meu livrinho e não me importar com o mundo. Mas eu olho e me importo. Então, eu acho que é mais sobre isso.
[Fim da Entrevista]
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