P - Otamires, boa tarde. Obrigada por ter vindo aqui até Brasília pra poder dar essa entrevista. Então vamos começar com você falando seu nome completo, data e local de nascimento. R - Bem, eu sou Otamires Barbosa Maia de Sousa, né? Nasci em São José dos Matões, Maranhão. P - E o nome dos seus pais? R - Meu pai se chamava Otaviano Joaquim Barbosa, e minha mãe Maria Gomes Barbosa. P - E qual que era a atividade do seu pai? R - Ah, meu pai era artesão, né? Teve várias atividades, mas a que realmente ficou no meu imaginário infantil, como referência, foi o artesanato. Ele trabalhava com couros. P - É? R - Hum-rum. P - E o quê que você lembra dele trabalhar? A oficina dele era em casa, você tinha contato com o trabalho dele, como é que era? R - Papai, foi assim, fez várias coisas. Era uma pessoa extremamente inteligente. Para mim é um referencial em termos de capacidade de se renovar, de aprender, e de empreender. Papai só teve o terceiro ano primário. E eu o conheci fazendo celas pra animais. Então eu entendo o papai na oficina dele fazendo isso, junto com o pai dele também. Depois, papai se tornou comerciante. E uma coisa que eu acho lindo lembrar, uma vez papai resolveu, decidiu, mudar de ramo. E aí já éramos todos quase adolescentes e tudo o mais, e o papai comprou um livro que ensinava a fazer sabão, e montou uma indústria de sabão. Com esse terceiro ano primário foi assim, a indústria de sabão que, praticamente, dominou o mercado naquela época de Caxias do Maranhão. E ele fazia muito bem, foi autodidata nesse sentido. Depois, voltou pro comércio novamente e do comércio, ele ficou até quando ele realmente foi acometido, teve um derrame, um AVC. Quando ele teve esse AVC, e nos momentos assim, de agonia, sempre ele dizia : “Deus, por favor, me ajuda a não perder a minha capacidade de trabalho”. Essa sempre foi a vontade dele, sempre foi a oração dele: votar a trabalhar. P - E a sua...
Continuar leituraP - Otamires, boa tarde. Obrigada por ter vindo aqui até Brasília pra poder dar essa entrevista. Então vamos começar com você falando seu nome completo, data e local de nascimento. R - Bem, eu sou Otamires Barbosa Maia de Sousa, né? Nasci em São José dos Matões, Maranhão. P - E o nome dos seus pais? R - Meu pai se chamava Otaviano Joaquim Barbosa, e minha mãe Maria Gomes Barbosa. P - E qual que era a atividade do seu pai? R - Ah, meu pai era artesão, né? Teve várias atividades, mas a que realmente ficou no meu imaginário infantil, como referência, foi o artesanato. Ele trabalhava com couros. P - É? R - Hum-rum. P - E o quê que você lembra dele trabalhar? A oficina dele era em casa, você tinha contato com o trabalho dele, como é que era? R - Papai, foi assim, fez várias coisas. Era uma pessoa extremamente inteligente. Para mim é um referencial em termos de capacidade de se renovar, de aprender, e de empreender. Papai só teve o terceiro ano primário. E eu o conheci fazendo celas pra animais. Então eu entendo o papai na oficina dele fazendo isso, junto com o pai dele também. Depois, papai se tornou comerciante. E uma coisa que eu acho lindo lembrar, uma vez papai resolveu, decidiu, mudar de ramo. E aí já éramos todos quase adolescentes e tudo o mais, e o papai comprou um livro que ensinava a fazer sabão, e montou uma indústria de sabão. Com esse terceiro ano primário foi assim, a indústria de sabão que, praticamente, dominou o mercado naquela época de Caxias do Maranhão. E ele fazia muito bem, foi autodidata nesse sentido. Depois, voltou pro comércio novamente e do comércio, ele ficou até quando ele realmente foi acometido, teve um derrame, um AVC. Quando ele teve esse AVC, e nos momentos assim, de agonia, sempre ele dizia : “Deus, por favor, me ajuda a não perder a minha capacidade de trabalho”. Essa sempre foi a vontade dele, sempre foi a oração dele: votar a trabalhar. P - E a sua mãe Otamires, ela... R - Ah, a minha mãe é uma grande mulher também. Eu acho que se um dia, quando eu puder crescer, eu quero ser igual a ela (RISOS). Foi uma mulher assim, que teve 15 filhos, morreram seis, ficaram nove. E naquela cultura do Maranhão e principalmente onde as mulheres, pelo menos na nossa família, as mulheres eram, tipo assim, o horizonte era casar, ter filhos. Então toda educação era mais ou menos orientada nesse sentido. Mas minha mãe não quis isso pra gente. Então, ela tomou pra si a tarefa de educar e de custear os nossos estudos. Então tudo o que nós somos hoje, na nossa família, e a minha família é uma família de mulheres bem valentes, a gente deve à mamãe. Eu acho que, essa valentia da mamãe passou pra gente. P - São nove irmãos, qual que é a sua colocação dentre eles? R - Eu devo ser a quinta mais ou menos, porque vários deles morreram logo nos primeiros meses. Moravamos no Nordeste e, não muito diferente de hoje, mas bem pior do que hoje, se morria muito por diarréia, essas coisas todas, essas mazelas inerentes à desassistência do Nordeste na época. E eu devo ser a do meio, a quinta, mais ou menos. P - E as brincadeiras de infância, do quê que você se recorda? Vocês foram criados nessa cidade mesmo, né? R - Em Caxias do Maranhão, né? P - Do quê que você se recorda da sua infância, nessa cidade? R - Gostosa (RISOS). Foi uma infância gostosa, né? Eu fui uma menina bem atípica. O meu companheiro de brincadeiras era meu irmão. Então assim, era tudo que meu irmão fazia. Que o IBAMA não saiba, mas era balar passarinho na época, né? (RISOS) Na época, me lembro de colher mangas, fazer jiraus pra pegar pássaros: arapucas que nós chamávamos na época. Então foi muito assim, um convívio com meu irmão, tudo aquilo que ele fazia, a gente fazia. Fazia baladeiras, enfim, essas coisas assim. Tomava banho de rio. Até hoje eu sonho, é engraçado, até hoje eu sonho; os meus sonhos são com os rios da minha terra, aliás, com o único rio que tem (RISOS), que é o Itapecuru. Não vai longe, essa semana eu sonhei com o rio Itapecuru. P - Mas vocês passam... Você depois, você se muda de lá, com a família. R - Não, a minha família ficou ainda no Maranhão durante muito tempo. Eu vim pra Belém estudar e depois, pra Manaus. E a minha irmã já estava em Manaus, que o meu tio a havia trazido. O meu tio é médico e havia trazido a minha irmã, isso em 1966. Ela é da primeira turma de Medicina da Faculdade do Amazonas. E aí, minha irmã também foi mandando buscar todos os outros irmãos, e a gente veio a Manaus. Era um momento de mudança. Era um momento assim, a dinâmica da economia muito boa, o mercado muito bom, ou seja, estava começando ali a época da Zona Franca de Manaus. Então um mundo de perspectiva para quem vive no Nordeste e quase não tem, por isso a gente veio. P - E a escola como que foi lá, estudar em Manaus? R - Bem, quando eu vim pra Manaus, veja bem, eu saí do Maranhão e fui pra Belém, passei cinco anos, já saí do Maranhão, de Caxias do Maranhão na sétima série do Fundamental, o que a gente chama hoje de Fundamental. Depois fiz o segundo grau, em Manaus, e aí Faculdade. Manaus. Eu estou desde 1976. E o restante, toda minha vida, praticamente, foi em Manaus. P - E alguma coisa influenciou a escolha do curso? Por que você foi fazer Administração? R - (RISOS). Engraçado, eu comecei fazendo Letras. Só que estava casada, tinha dois filhos e de repente, eu estava passando por um momento difícil, e tal. Ficava pensando, “Bem, não vai dar pra me sustentar nesse país ganhando um salário de professora”. Então, resolvi fazer Administração. Até porque eu já estava no Banco do Brasil e eu digo: isso vai ser um aporte na minha carreira. Foi essa a razão, a decisão. (RISOS) P - Ah, então você escolheu Administração depois que você entrou no Banco do Brasil. R - Foi... P - Então, e essa experiência profissional anterior ao Banco, conta um pouquinho pra gente. R - Olha, eu já trabalhava em bancos antes. Praticamente a minha vida foi em bancos. Como eu diria, quando você vem de uma cidade pequena, quando você é de família pobre, a única coisa que tu sonha realmente é com uma segurança. É ter um emprego que te dê segurança. E essa foi a motivação maior. Os bancos em 1974, 1975, estavam numa época de bastante efervescência e recrutando bastante pessoas, o mercado de trabalho muito bom. Também, assim, era a questão da segurança. E o Banco do Brasil, então, além de ser uma praga de mãe na minha vida (RISOS). Eu estou brincando falando isso, porque tem um episódio muito interessante. Minha irmã até hoje lembra que quando eu era pequenininha, uma vez minha mãe pediu que ela fizesse alguma coisa pra mim e ela não queria fazer. Aí eu dizia, “Faz maninha, que quando eu for grande eu vou trabalhar no Banco do Brasil e vou te dar muuuuito presente, viu?”. (RISOS) E isso eu era criança, e aconteceu, realmente. Pois bem, o Banco do Brasil, pra mim, foi um sonho de criança. Eu me lembro que eu tinha mais ou menos uns oito anos, na minha terra, e morava na rua Senador Clodomiro Cardoso, em Caxias. E passava na rua da minha cidade, lá, na minha rua, um rapaz chamado Antonio Gonçalves. Um rapaz muito elegante, e tal. E toda vez que ele passava com um guarda-chuva, vestido sempre de linho, eu perguntava pra minha mãe: “Quem é?”. Eu me lembro de ter perguntado várias vezes, “Quem é?”. E ela dizia, “É o Antonio Gonçalves, ele trabalha no Banco do Brasil”. E aquilo pra mim era uma coisa assim, muito importante. A maneira como minha mãe falava passava essa questão da importância e tudo o mais. E eu sempre sonhei ser funcionária do Banco do Brasil. P - Mas você teve uma experiência anterior com um banco privado, que foi o Bradesco, né? R - Ah, trabalhei, o Bradesco foi a minha escola. Só foram seis meses, porque logo em seguida eu voltei pra Manaus. Mas foi assim, não teve grandes realizações, eu fui caixa do Bradesco. Toda a lembrança que eu tenho é de uma fila enorme e de muito estresse, realmente. Ali eu aprendi o significado do que é ser bancário numa instituição privada. P - Era muito diferente nessa época? R - É muito diferente porque é voltado realmente para o mercado, tá? É bem diferente do que a gente vê no Banco do Brasil que, de qualquer forma, ainda se percebe a orientação para o Social. Se tem, vamos dizer assim, um referencial de aporte no desenvolvimento do país. Se tem essa, como eu diria assim, esse conceito ainda permeia as atividades do Banco do Brasil. Embora hoje nós já estejamos muito mais orientados para o mercado, pra concorrência, para um banco como a gente chama normalmente, um banco comercial. P - Entendo... R - Hum-rum. P - Bom, então, você falou que desde criança já tinha essa percepção, né? Do Banco do Brasil, que era uma coisa que diferenciava. Como que surgiu a oportunidade de fazer o concurso Banco do Brasil? Você já perseguia quando você trabalhava lá no banco privado ou foi o acaso? R - Não, eu entrei no BEA e sempre eu pensava assim. Quando eu comecei a trabalhar no BEA, que era o banco do estado, bem, “Eu quero ser funcionária do Banco do Brasil”. Tive várias oportunidades no banco, mas, eu sempre pensava, “Não, eu vou fazer carreira no Banco do Brasil”, e aí me orientei no sentido de fazer concursos para o Banco do Brasil. Eu fiz dois concursos e no segundo eu fui aprovada. P - E isso em qual ano? R - Devo ter sido aprovada em 1982, porque eu entrei no Banco em 1984, e estava há dois anos já esperando. P - Finalmente chegou, né? R - Com certeza. P - E aí, como é que foi essa expectativa? R - Olha, foi uma mudança imensa. Realmente vindo dum banco privado pro Banco do Brasil. Eu senti a cultura do banco é totalmente diferente, ou seja, eu tive de desaprender muita coisa que a gente havia adquirido em termos de educação bancária no Bradesco. E fui trabalhar em Manacapuru, uma cidade bem pequena. Nessa época o Banco estava muito voltado, orientado, pra recuperação de crédito, referente aos empréstimos da juta, da malva. Então assim, ali naquela cidade, a gente conseguia perceber a importância do Banco do Brasil na vida das comunidades, especificamente na vida do microprodutor. Então a gente conseguia perceber e pra mim, isso foi sempre muito importante, porque eu via no Banco, não só aquela questão de orientação pro mercado, mas o aporte naquilo que o Banco sempre falou ser o papel e a missão dele, que é o desenvolvimento nacional. Me lembro que nessa época existiam outros bancos, por exemplo, lá em Manacapuru, mas, quem investia na agricultura, quem investia na juta e na malva, era o Banco do Brasil. P - O que é juta e malva? R - Juta é uma fibra que se usa pra fazer estoparia, sacarias, isso aí. P - E malva é aquela erva aromática, né? R - É são plantas que você tira as fibras pra fazer sacarias. P - Otamires, você acompanhou uma evolução tecnológica do Banco do Brasil, né? R - Ah, com certeza... P - Como é que era no início? R - (RISOS). Pois é, quando eu cheguei em Manacapuru, nós ainda não tinhamos o computador. Era a velha máquina de datilografia mesmo. Nossa, era tudo muito empírico (RISOS) Aquelas filas imensas, o banco sempre apinhado de gente. E ali o perfil do funcionário do Banco do Brasil se fazia realmente notar. O banco é um dos maiores bancos de capacidade, assim, em termos de pessoas, eu penso, eu percebo dessa forma. E tanto é que, mesmo em alguns momentos nós tivemos em desvantagem, por exemplo, com a concorrência que já estava automatizada. O nosso processo de automatização veio muito depois, mas mesmo assim nós conseguimos, vamos dizer assim, responder às situações emergentes. Pois é, nós tivemos durante um bom tempo, em desvantagem com relação à concorrência, mas mesmo nesse momento, nós sempre percebemos, que o funcionário do Banco sempre conseguiu responder aos desafios, porque conseguimos prestar os nossos serviços com qualidade e tudo o mais. Muito embora, não tivéssemos os mesmos aparatos tecnológicos. E agora então, depois disso aí, você pode ver o resultado do Banco aí. Esse semestre, por exemplo, é uma ratificação de que a gente vê o tanto de capacidade de recursos humanos, de capital intelectual, como também de aporte tecnológico. P - Você depois sai da agência e vai trabalhar no CESER? P - CESEC. R - Exato, no CESEC. P - CESEC, desculpe. Na área de informática? R - Hum-rum P - Como é que estava nessa altura a tecnologia? (RISOS) R - Pois é, eu comecei, na realidade, trabalhando no CECON, um serviço de conferência que nós tinhamos e que pra mim era um horror aquilo ali. P - Por quê? R - Que era conferir relatório. Eu passava também nesse momento, um momento bem difícil na família, os filhos pequenos, exigindo muita a presença minha e tudo mais. Tinha um filho que realmente precisava de cuidados especiais, então, eu não poderia naquele momento, investir na minha carreira no banco. Então, o lugar ideal pra quem precisava de um tempo pra si, era o CESEC. Mas o preço disso daí era terrível, porque você passava seis horas conferindo relatório. Então pode imaginar que suplício não foi isso aí. Quando eu fui pra área de informática foi muito bom, foi um desafio, foi um aprendizado. E foi desafio até porque estava começando a questão da informática no banco e pra mim aquilo era muito novo, era algo até que me metia, como é que se diz, certo medo, e tal. “Não, mas eu quero conhecer isso aí”. E aí eu fui, trabalhei como técnica de informática no banco, trabalhava junto com os aplicativos, dávamos tipo uma consultoria para os clientes sobre os nossos aplicativos. Foi um momento muito bom, de muito aprendizado. Nessa época, quando estava só conferindo relatório não, foi horrível (RISOS). P - Ninguém foge, né? R - De jeito nenhum. P - Otamires, nessa sua trajetória do banco, em algum momento você ouviu falar na Fundação Banco do Brasil? R - Não, eu ouvi falar na Fundação Banco do Brasil exatamente quando eu fui trabalhar na Superintendência. Eu não sabia nem que existia Fundação Banco do Brasil. E nesse momento, quando eu entrei pra Superintendência, eu fui trabalhar como assessor de superintendente. E aí trabalhava também junto com o Núcleo de Comunicação do Banco. Foi nesse momento que eu descobri a Fundação Banco do Brasil. P - Otamires, só pra gente entender: o quê que significa a superintendência dentro da estrutura do banco? R - A superintendência, ele é um nível tático. É onde, por exemplo, todas as diretrizes são definidas para o “Conglomerado Banco do Brasil”, depois são distribuídas nas regionais pela Superintendência que repassa para as demais unidades. É o nível tático do Banco. P - Bom, e na Superintendência o quê que chegou lá da Fundação Banco do Brasil que você teve contato? R - Veja bem, logo que eu fui pro Núcleo de Comunicação, lá já comecei ouvir falar de BB Educar. Veja bem, curioso, isso. A primeira vez que eu ouvi falar do BB Educar não foi vinculado à Fundação Banco do Brasil. Me lembro bem que eu fui solicitada pra fazer um evento, ajudar no evento do BB Educar, e realmente eu estive lá, tivemos uma certificação de BB Educar e tudo o mais. Mas, nesse evento eu não ouvi falar da Fundação Banco do Brasil. Tudo bem, isso antes de ir pra Superintendência. Depois eu fui pra Superintendencia, juntamente no Núcleo de Comunicação é que nós começamos a interagir, mas isso quem fazia mais inclusive era o analista que cuidava da comunicação, o senhor Jairo Marinho. Depois que eu fui pro Núcleo de Governo propriamente dito, é que foi repassado pra mim as atribuições de cuidar dos programas da Fundação Banco do Brasil. E foi nesse exato momento que eu tomei conhecimento mesmo, que eu tive que buscar informação, tive que estudar os programas e trabalhar com os programas da Fundação. P - E como é que foi se apropriar desse conteúdo assim, de cara? R –Realmente hoje, fazendo uma leitura de toda a minha trajetória em bancos, eu realmente não tenho perfil, não sou bancária, por orientação mesmo. Eu estava no banco como muitos outros bancários pela questão do trabalho, por ser uma empresa de respeitabilidade, de você ter segurança e ter um ambiente ótimo de trabalho. Enfim, é o sonho de todo mundo. Na minha época, era o sonho de todo mundo fazer um concurso no Banco do Brasil e passar. Me lembro que no dia que eu passei no Banco do Brasil, meu tio chegou e me deu os parabéns e disse: “Minha filha, você arranjou um casamento pro resto da vida”. (RISOS) “Sabe, porque só existe duas instituições de respeito nesse país: a universidade e o Banco do Brasil” (RISOS). Pois bem, então era isso aí. E eu posso dizer que não houve muita emoção, assim, na minha vida, enquanto bancária, até então, conhecer os programas da Fundação Banco do Brasil. Aí sim, a minha vida no Banco do Brasil, como bancária, foi ressignificada, porque ali eu me encontrei. E eu tinha ido trabalhar nesse Núcleo de Governo e, de repente, tinha BB Educar, tinha AABB Comunidade. Depois veio o Projeto Memória, Criança e Vida, que era um programa das crianças com câncer e tudo mais. Então, ali, a minha vida foi ressignificada em termos de Banco do Brasil. Sabe, eu acredito que foi o presente que Deus me deu, foram esses cinco anos que eu passei no Banco, trabalhando com os programas da Fundação Banco do Brasil. P - E assim, como que você acompanhou os programas? R - Eu trabalhei com todos eles. P - Vamos falar um pouquinho sobre cada um então? R - O BB Educar, por exemplo, quando ele veio pras minhas mãos, nós não tinhamos 500 pessoas, 500 alunos em sala de aula. Quando eu saí, mais ou menos, nós chegamos a ter três mil e poucas pessoas em sala de aula. P - Isso no Estado do Amazonas? R - Isso no Estado do Amazonas, só no estado do Amazonas. No momento que eu peguei os programas da Fundação, a primeira coisa, “O quê que eu vou fazer com isso daqui?” Aí eu fui pra casa e pensei, “Vou fazer um Projeto Piloto e com ele, por exemplo, trabalhando com o BB Educar, tentar resgatar, por exemplo, as comunidades de bairro”. E aí a gente partiu. Desenhei um projeto, e esse projeto foi realmente desenhado só comigo mesmo, na minha cabeça, e tal. Porque a realidade, é que dentro da Superintendência do Amazonas, a Fundação do Banco do Brasil, esses projetos, eles não eram, vamos dizer assim, dado tanta importância. Essa que é a realidade. Então foi mais uma iniciativa minha, nesse sentido assim, de querer dar uma conotação, de fazer alguma coisa com essa oportunidade. E aí eu tive que traçar as minhas diretrizes. Lógico que eu tive muito apoio dentro da superintendência, pra trabalhar com esses projetos. Cheguei a ficar, praticamente, por conta desses projetos. Mas tipo assim, foi muita coisa, iniciativa minha, mesmo. P - Só pra poder entender: Você tinha de pegar e implantar esses projetos no Amazonas? R - Não, a Fundação Banco do Brasil, ela tem os programas todos estruturados. O que você tem realmente é que implementar. É ver os parceiros, selecionar os parceiros, e dar o suporte. Isso, de acordo de como o projeto está estruturado. Mas na realidade, se você quer ver um projeto desse mesmo, se realizar, você tem que arregaçar as mangas e ir lá fazer. Não basta, por exemplo, você arrumar um parceiro, você tem que estar lá com o parceiro, você tem que orientar, você tem que se envolver. Por exemplo, teve momentos no projeto BB Educar que eu tive praticamente que estar coordenando junto com os coordenadores num momento crítico de um projeto que a gente fazia. Mas, graças a Deus conseguimos os objetivos, formar aquelas turmas. Por exemplo, esse caso específico era uma comunidade de bairro que nós tinhamos quase 500 alunos. E aí, chegou num dado momento, houve uma briga entre a associação e começaram a se dispersar, as cabeças pensantes do projeto na associação. E aí entra a gente, se você quer realmente assegurar o retorno social, o respeito que você tem pelos alunos, você tem que tomar pra si o projeto e estar junto e fazer as coisas acontecerem. Então foi mais ou menos assim que eu trabalhei com o projeto BB Educar. Um momento importante do BB Educar é que, no Amazonas, por exemplo, nós temos um lugar que se chama Tapauá, é o pior Índice de Desenvolvimento Humano do Amazonas. E quando, por exemplo, foi constatada a primeira vez que foi registrada essa situação crítica de Educação em Tapauá, nós já estávamos lá com o BB Educar. Isso pra mim foi extremamente gratificante. Em algumas comunidades, por exemplo, em Eirunepé, fizemos uma certificação de quase 700 pessoas. Em Tabatinga tivemos tribos indígenas também, sendo alfabetizadas. Então tivemos projetos belíssimos com o BB Educar no Amazonas. P - Depois vem a AABB Comunidade? R –. Quando peguei o AABB Comunidade, quando nós começamos, nós tinhamos, por exemplo, três projetos na AABB Comunidade; e saímos estávamos com nove projetos. Então era aquela questão de sensibilizar o gerente; de fazer ele perceber o instrumento, a ferramenta que eles têm em mãos pra poder trabalhar com a comunidade. E até legitimar o Banco, dentro da comunidade, que isso é muito importante. Porque a missão da gente é essa, cuidar do desenvolvimento do país, de estar junto. Então, trabalhar muito com o gerente nesse sentido, de conscientizá-lo disso daí. Porque é muito difícil até pra eles, dar conta das atribuições de gerente e ainda pensar no social. Então, a gente dava esse suporte enquanto Superintendência. P - Otamires, só pra gente ter uma idéia, no Amazonas, quantas ABBs existem? R - Temos Tefé, que tem um projeto belíssimo. Temos Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Parintins. Lá em Parintins nós temos a Escolinha do Boi Caprichoso que é parceria também do Projeto AABB Comunidade. E temos Manicoré, também. Mas o fato assim, que nas jurisdições de Amazonas, Acre e Roraima, nós chegamos a ter, liberado pela Fundação Banco do Brasil, nove projetos. P - Depois, o que vem em seguida é o “Criança e Vida”? R - Não, o Criança e Vida foi um pouquinho antes. Nós fizemos uma parceiria com o Hospital do Câncer, a Fundação Cecon lá no Amazonas. Veja bem, Amazonas, a situação da gente é muito crítica porque nós somos ilhados, e o Amazonas tem dimensões continentais. Então você imagina o que é estar lá e precisar fazer um tratamento, se deslocar pra fazer um tratamento. Pois bem, lá nós temos a Fundação Cecon que está se tornando referência em câncer infantil no Amazonas. E nós fizemos parceria com a Fundação Cecon pra gente equipar uma ala do Câncer Infantil. Infelizmente isso não chegou a se realizar. Isso é uma das coisas que eu fico muito triste. É uma das dívidas porque o crédito foi liberado, mas, logo em seguida, o hospital entrou em reforma. Ou seja, o programa foi concluído e terminou assim, não sendo possível equipar essa ala, essa enfermaria para as crianças portadoras de câncer. Infelizmente, houve esse acidente de percurso. Mas houve aproveitamento de recursos, mas não dentro daquela proposta que se tinha em mente. P - O projeto “Homem do Campo” você chegou a ter contato? R - Não, não cheguei a trabalhar com o Homem do Campo. P - Ele foi posterior, né? R - Hum-rum. P - Aí veio o Projeto Memória? R - É, veio o Projeto Memória. Esse foi um projeto que, nossa, tem tudo a ver. Foi um projeto que a gente se debruçou e que trouxe bastante crédito em termos de retorno social. P - Você acompanhou desde o primeiro? R - Não, eu não acompanhei desde o primeiro. Quando eu peguei o Projeto Memória, ele já estava naquela edição que se sintetizava, fazia a Retrospectiva, em 2001. Eu trabalhei desde a Retrospectiva até Paulo Freire. P - E o quê que você traz de experiência com o Projeto Memória. Assim, você chegou a acompanhar as exposições? R - Com certeza... P - A distribuição dos materiais... R - Tudo. Até a montar a exposição, ensinar a montar a exposição, a gente fazia. O Projeto Memória, pra mim, tem um significado imenso. Num primeiro momento, quando ele chegou, ele funcionava dentro do Banco. A proposta era colocá-lo nas áreas do Banco, de atendimento, essas coisas todas. Depois, na superintendência, refletimos sobre a questão do público alvo, por excelência, desse projeto. E aí se fez no Núcleo de Governo, uma parceria com o Governo do Estado, o Governo do Município, e aí ele passou a ser itinerante na rede pública estadual e municipal. Todo ano, o Projeto Memória, quando chegava já se sabia, uma exposição ia pro município e outra ia para o Estado. Independente disso tinha bastante demanda pelas universidades, por outras associações, lojas maçônicas, enfim. Até a loja maçônica Juscelino Kubitschek (RISOS), disputava a exposição. Foi um momento assim que eu achei excelente. Porque, veja bem, quando a gente começou com o Projeto Memória, primeiro ele me impactou de diversas formas. Eu havia lido alguma coisa sobre as questões dos movimentos funks, as agressividades que se constatava nesses bailes funks e tudo o mais, e me lembro que eu li algumas afirmações de um sociólogo que dizia que isso daí era uma resposta pra um país sem modelo, que era um pedido de socorro. E isso me impactou muito. E daí eu vi quando esse projeto chegou eu falei, “Puxa, é isso aqui”. Houve, em alguma época, pessoas que já se incomodaram bastante com esse país, pessoas que já tentaram, se doaram de alguma forma. Políticos que ainda se pode ter como referencial nesse país. E eu acho que os jovens precisam conhecer, principalmente nesse momento em que a gente vive uma crise de valores imensa. A Igreja praticamente já não cumpre mais a sua função de agregação social. A família também, está falida. A Educação, a crise está aí. Então, puxa vida, nesse momento eu acho que a gente pode fazer muito com esse projeto. Isso daí, vamos dizer assim, foi a mola propulsora pra todo trabalho, toda a orientação que a gente teve dentro do Projeto Memória. Ali eu vi, realmente como a gente precisa ter memória nesse país. Porque a memória permite a gente ligar o fim ao começo e reescrever a história da gente. Cada depoimento que a gente vê daqueles jovens, a gente trabalhava com as professoras, pedia que fosse objeto de redação, de peças, enfim, que não fosse só uma exposição, mas que fosse feito todo um trabalho nesse sentido. E depois esses relatórios vinham pra gente e aí a gente via o quanto aquilo impactava, o quanto aquilo resignificava; a História do Brasil pra eles. E é como se, o Projeto Memória funcionasse em alguns momentos, como justiça para aqueles que trabalhavam, como o Josué de Castro e que era desconhecido nesse país, uma pessoa que pensou a fome, falou a fome, lutou por isso muito tempo. E, praticamente, não se sabia nada de Josué. Isso foi uma descoberta pra gente. Inclusive teve momentos que a gente observou nos alunos a perplexidade de saber que isso não era uma coisa agora, do Programa Fome Zero, porque ele saiu dentro do contexto do Programa Fome Zero, de que, a algum tempo atrás, alguém já havia se incomodado com isso. Foi muito gratificante ver isso nos jovens. Há outra questão também, outro momento muito bonito, foi o momento do Juscelino Kubitschek. Aquela exposição foi uma das maiores visitações que nós tívemos no Amazonas. E o perfil do Juscelino, aquele homem visionário, aquele homem determinado, impactou muito os jovens. Os depoimentos que a gente ouvia. Enfim, se resgata com isso, toda uma parte praticamente perdida que a gente tinha da História do Brasil. Com isso, um símbolo de um político que não se pode pensar nele como um ser humano perfeito, mas que, pelo menos, quando se envolve, em termos de História retrógrada, você vê que se tem um bom referencial de político. Isso é muito bom pros jovens, principalmente na atual conjuntura. P - Alguma coisa, experiência dessas exposições, dessas coisas que você se recorde, que você queira registrar, alguma pessoa? P - Ou algum momento também... R - Da Exposição? P - Das exposições itinerantes do Projeto Memória? (FIM DA PRIMEIRA FAIXA DO CD). R - Muitas foram às experiências, mas tem uma que eu guardo com muito carinho. Quando da exposição do Juscelino Kubitschek, eu falava com um grupo de alunos de uma escola bem pobre, de um bairro bem pobre, lá na Zona Leste. E falava que o Juscelino Kubitschek andava muitas vezes a pé, quilômetros a pé, pra estudar e tal, e falava um pouquinho do sacrifício dele. E um garoto falou pra mim, “E ele foi médico, não é?”. Eu digo, “Foi; ele conseguiu, ele foi médico e depois deputado, e depois Presidente do Brasil.” E ele falou, “Eu também posso”. (SUSPIRO). E isso é uma coisa que realmente eu acho que me marcou muito no Projeto Memória. É lógico que dentro desse programa da Fundação Banco do Brasil tem muitas coisas boas. Tem uma, por exemplo, do BB Educar. Nós fomos fazer uma certificação e lá em Itacoatiara e uma senhora e pediu a palavra. E muito emocionada ela chegou pra gente e disse, “Olha, eu quero aqui agradecer ao Prefeito, eu quero agradecer aqui ao Secretário, porque me deu essa oportunidade maravilhosa... E também pro pessoal do Banco do Brasil. Por que você sabe de uma coisa? Durante a minha vida todinha, eu morria de vergonha, que toda vez que eu vinha receber o meu pagamento, eu tinha que pôr o meu dedão numa almofadinha. Agora, o meu dedo numa almofadinha nunca mais, viu”. (RISOS). E você precisava ver o orgulho que ela tinha de falar isso, sabe? Isso é uma coisa muita bonita. A gente ver isso numa pessoa quase de 60 anos, o que é uma vida todinha pondo o dedo numa almofadinha, o quanto de vergonha, o quanto de sentimento, guardado aí. Enfim, o resgate, vale a pena lembrar dessas coisas. P - Então Otamires, eu estou imaginando assim o papel das agências, né? Nesses projetos. Porque você estava lá na superintendência. Qual o papel daquele funcionário que estava lá na agência ou do gerente, nesses projetos que chegavam? R - Olha, eu lamento muito dizer que realmente, em termos de agência, não é uma questão de descaso, é uma questão que realmente os funcionários das agências, eles não têm nem condição de pensar em projeto, de conhecer a fundo e até aproveitar melhor esse instrumento que são os projetos sociais. A demanda dentro das agências são grandes. Então o quê que acontecia, por exemplo, enquanto eu estive na Superintendência, o papel que era pra ser feito pelas agências, eram feitos na Superintendência, no meu núcleo. Ou seja, nós tomamos pra nós exatamente esse papel, pra ver as coisas realmente acontecerem. Lógico que eles nos davam um apoio muito grande no sentido de que articulavam. Por exemplo, tinha projetos que nós trabalhávamos no interior, então teria de vir a partir dos prefeitos, dos secretários de educação e tudo mais, e nisso as agências nos apoiava. Mas, em termos de implementação, de todos os processos necessários, não era feito porque eles não têm condição de fazer isso. A realidade é isso, quem está nas agências hoje não tem condição, até de se dedicar para isso aí. P - Vamos entrar agora um pouco no Banco de Tecnologias Sociais. Você acompanhou o nascimento dele, o início? R - Acompanhei o lançamento do Banco de Tecnologia Social. No Amazonas, por exemplo, tivemos tecnologias certificadas. Mas o quê que eu acho da Tecnologia Social? Pra mim também é um instrumento muito grande de inclusão social, de mudança social mesmo. Veja bem, são tantas alternativas que você coloca à disposição dessas comunidades. Agora o grande problema ainda é a questão da participação dessas pessoas, de como fazer com que essas pessoas estruturem projetos. Ou seja, estruture o seu fazer, que acontece às vezes da maneira mais empírica possível na comunidade. Estruture isso em forma de projeto e inscreva no concurso. Então, por exemplo, tem muitas tecnologias, que elas não são aproveitadas, ainda, por essa impossibilidade das comunidades. Agora, temos, por exemplo, no Amazonas, tecnologias que se tivessem sido levadas realmente a sério, se tivesse sido implementadas, elas poderiam, por exemplo, ter resolvido já o problema da merenda escolar. Porque nós tivemos uma tecnologia, uma das que eu acho muito importante, uma proposta de uma prefeitura do Amazonas em que se fez um projeto para se fornecer produtos com aproveitamento das matérias-primas, naturais do Amazonas. Então, a pupunha, a farinha de macaxeira, o próprio peixe, enfim, todas as frutas que se pudesse aproveitar e transformar pra fazer farinha de massa e depois fazer bolos, e tudo o mais. Então isso foi trabalhado pra substituir a merenda escolar. Esse projeto foi, inclusive, certificado como Tecnologia Social, esteve na mídia e tudo o mais. Mas dentro do município mesmo, ele não foi implementado. E, com isso, se perdeu uma oportunidade muito grande de se fazer uma economia, de se dinamizar a economia do próprio município. Porque no momento em que eu aproveito os recursos naturais, e coloco isso, compro isso aí, coloco na merenda escolar, faço a matéria-prima da merenda escolar, eu estaria dinamizando a economia do município e estaria, também, aproveitando os recursos que nós temos em abundância. Porque nós temos, o Amazonas é rico em opção alimentar, o que nós não temos é aproveitamento. P - Então fica essa frustração... R - É sim, isso é uma frustração. Outra coisa também, a gente vê, por exemplo, não é desmerecendo não, mas por exemplo, a borracha nossa. A história da borracha é a história do Amazonas. E, no entanto o Tecbor, uma tecnologia que está fazendo o maior sucesso aí, ela não chegou à Fundação Banco do Brasil, ela não chegou ao concurso por uma Universidade do Amazonas. Que, pra mim, seria sido um compromisso moral em resgatar essas tecnologias sociais e tudo o mais. E, no entanto, não foi o que aconteceu. Ou seja, foi a Universidade de Brasília que apresentou essa tecnologia. E a gente fica perguntando assim, “Puxa, o quê que está acontecendo, por exemplo, com os nossos pesquisadores?” Por que que de repente não se vê tantas amostras, ou tantas inscrições no Banco de Tecnologia Social, de tecnologias geradas, por exemplo, dentro da Universidade do Amazonas. E nós temos, só pra você ter uma idéia, no primeiro concurso que nós tivemos no Banco de Tecnologia Social, foi na época da crise da energia, estávamos com problema de energia no Amazonas e tudo o mais. E eu me lembro que eu conversava com um dos pesquisadores da Universidade do Amazonas, e lá nós tinhamos projetos e ele me falava que já vinha trabalhando nesse projeto há muito tempo. Trabalhávamos com matéria-prima, tentando, por exemplo, gerar energia com óleo de andiroba e tudo o mais, e no entanto, nenhuma dessas tecnologias chegou, por exemplo, ao Banco de Tecnologia Social. No último concurso, por exemplo, visitamos, inclusive, a Universidade, tivemos notícias de tecnologia que vinha melhorar muito, por exemplo, a qualidade das pessoas que trabalham com farinha. O modo de assar a farinha, de torrar a farinha, sem produzir o fumaceiro normal. Veja bem, esse processo é um processo muito empírico e por exemplo, quando, se faz o processo de torrar a farinha com lenhas e que gera um resíduo de fumaça que equivale a mais ou menos, a você fumar 300 maços de cigarro, em termos de nicotina. E nós temos tecnologia, que tipo assim, faz você realizar esse mesmo processo de modo limpo, sem produzir essa toxina, nessa quantidade. E no entanto, por mais que a gente insistisse, isso não foi inscrito no Banco de Tecnologia Social. E a gente vê também a questão ainda das pessoas, em termos de pesquisadores, relutar, porque sempre a questão das divisas. “Como é que vai ser os royalties?”. Sempre essa questão, “Quem é que vai pagar os royalties?”. É uma Tecnologia Social, “Mas vai haver algum pagamento disso pra comunidade?”. E se têm muitas dessas interrogações. O fato é que, você olha a potencialidade do Amazonas, você olha a quantidade de tecnologias que nós temos lá e poucas delas estão no Banco de Tecnologia Social, poucos projetos nós recebemos. Essa é a grande frustração, porque nós estamos num momento em que nós precisamos melhorar a qualidade de vida das populações, nós precisamos socializar esse conhecimento e precisamos fazer isso de um modo muito urgente. Não estou querendo, de jeito nenhum, desprezar a pesquisa, mas nós precisamos de soluções imediatas pra muitas coisas, pra muita das nossas mazelas sociais. E, infelizmente elas não chegam ao Banco, que é o veículo que a gente poderia socializar isso com as demais comunidades. Por outro lado, acho que precisamos trabalhar melhor esse banco, ele precisa ser mais conhecido das comunidades. Se precisa fazer um trabalho junto às comunidades. Não é só fazer o concurso, não é só captar as tecnologias. Eu sei que temos feito muito. Só o fato de nós termos estruturado esse Banco de Tecnologia Social, isso já foi um salto muito grande. Mas precisamos fazer muto mais, precisamos possibilitar a replicação dessa tecnologia. E aí eu estou falando é de apoio pra isso, porque algumas precisam de apoio mesmo, precisa um engajamento muito grande da Fundação com as comunidades, com os governos, pra que a gente possa fazer isso aí, pra que esse banco possa cumprir realmente a sua missão. P - O seu contato com a Fundação. Com quais as pessoas você se relacionava aqui em Brasília pra receber esses projetos lá na Amazônia e implementando? R - No BB Educar trabalhei com Beatriz, depois trabalhei com o Célio. Projeto Memória, Maria Helena, sempre foi uma pessoa belíssima nesse sentido. Sempre que a gente chegava, “Olha, Maria Helena, precisamos de mais uma exposição, tal”. “Não dá, e tudo o mais só dá pra ir uma”. Mas sempre terminamos ficando com duas exposições pra fazer o projeto como a gente queria e tal. Então foram sempre essas pessoas com quem a gente teve relacionamento. Na questão da Geração de Trabalho e Renda teve também Ricardo Braune, por sinal eu passei hoje na Fundação e queria vê-lo. Porque é a primeira vez que eu vim na Fundação é agora. Eu trabalhei seis anos é, mas nunca tinha ido à Fundação. Sempre conversava com eles, às vezes discutíamos (RISOS). Mas não, mas não os conhecia. A Germana também, trabalhei com Estação Digital tentando implantar uma Estação Digital em São Gabriel da Cachoeira. Vocês podem imaginar o quê que é isso? Nossa, gente. É um lugar que a gente só vai, praticamente uma vez por semana, área de difícil acesso mesmo. Então lá nós temos uma Estação Digital e tudo isso eu tive trabalhando junto com Germana. Olha, várias foram as pessoas que tiveram conosco durante esse tempo. Às vezes eu fico até com medo de citar nomes e de repente, não lembrar de todos (RISOS). P - Todos eles falaram a mesma coisa (GARGALHADAS). R - Porque acho que é muito importante reconhecer o trabalho dos outros; é muito importante reconhecer o trabalho do pessoal da Fundação porque é muita dedicação. P - Otamires, você agora se aposentou, recentemente... R - Hum-rum P - Dentro do Banco do Brasil, como você avalia a sua trajetória de funcionária do banco e que pôde ter oportunidade, de estar tendo contato com projetos sociais da Fundação Banco do Brasil. R - Eu posso te dizer o seguinte, acho que realmente foi Papai do Céu tentando me dizer, “Bem, esse aqui é o presente pra você antes de voltar pra casa”. (RISOS) Meu momento de identidade com o Banco do Brasil ocorreu quando eu comecei a trabalhar com os programas da Fundação Banco do Brasil. Aquele momento foi assim, o momento onde eu me encontrei no banco. E toda essa vivência que a gente teve, tudo isso que se fez junto, foi elemento muito motivador, até em momentos muito difíceis da minha vida, ter os projetos da Fundação Banco do Brasil comigo, foi muito importante. Eu posso te dizer que nesses 22 anos, os seis últimos anos, realmente eu estava fazendo o que eu nasci pra fazer, e o que eu gosto de fazer. P - Otamires, o quê que você acha que significa a Fundação Banco do Brasil, pro Brasil? R - Quem dera que nós tivessemos mais Fundações Banco do Brasil. É uma pena que ela só seja uma Fundação Banco do Brasil. De repente, foge até as palavras pra dizer isso aí, porque ela significa muito. Eu nunca vi uma Fundação, nunca vi nenhuma outra instituição que pense os seus programas, que pense os problemas do Brasil, que pense o Brasil em termos de tentar responder às problemáticas dele, como a Fundação Banco do Brasil. Eu não vi até agora, por exemplo, uma fundação que consiga estruturar os seus programas como ela faz. Essa questão de perceber, de ter essa leitura do Brasil, de um modo bem nítido, bem claro. Eu vejo isso quando ela faz, por exemplo, o Projeto Memória. Nossa, gente, quantas vezes eu ouvi as pessoas dizer, por exemplo, mesmo lá no banco, algumas pessoas não conseguiam aprender a importância desse projeto, vamos dizer assim, o valor que ele tem. Nesse contexto social em que a gente vive e, de repente, a Fundação, ela tem “enes” demandas sociais, “enes” mazelas sociais nós temos pra responder, mas ela pensou numa coisa que é super importante, a memória desse país. Um país sem memória, o que é? Uma pessoa sem memória, o quê que é? Então é muita sensibilidade, isso realmente, é muito lindo. A questão, por exemplo, da Tecnologia Social, nesse momento em que o tecido social está tão esgarçado, em que a gente já não tem tanto tempo pra esperar projetos a longo prazo, ela pensa, num Banco de Tecnologia, um local de referência, onde as pessoas possam, “Puxa, eu tenho esse problema, vamos lá no site da Fundação Banco do Brasil, lá tem alguma coisa pra gente”. Eu acho que ela é a cabeça pensante do Brasil, em termos de Social. Eu sempre dizia, pra todo mundo, que no Banco do Brasil, ela era a cabeça pensante. Mas realmente, em termos de Brasil, eu vejo, a Fundação Banco do Brasil como a cabeça pensante. E digo mais, nesses últimos três anos, muito mais. P - Você disse que você teve o coroamento da sua carreira, indo trabalhar com os projetos da Fundação, né? R - Hum-rum P - O quê que você aprendeu com isso? R - Aprendi muito. Aprendi a lidar com o outro, aprendi a respeitar o outro. Aprendi a aprender com a simplicidade do outro. Aprendi que esse país é feito de gente muito bonita, e eu não estou falando aqui de estética, de medidas, eu estou falando de beleza interior, de garra, de determinação. De pessoas que às vezes até que a gente encontra já adaptadas pelo sofrimento, mas que quando você chega e diz assim, “Poxa, existe essa proposta, existe essa perspectiva...”, ele responde. Ele demonstra uma sensibilidade, e aí você vê que não obstante a pobreza, não obstante ao abandono em que as massas sempre estiveram, mas existe no brasileiro uma sensibilidade pra responder, pra construir, pra se repensar. Eu aprendi isso, eu aprendi a me reconhecer no outro, acima de tudo. E aprendi a respeitar a nordestina que eu trago comigo. P - Otamires, como que você, com poucas palavras, poderia comentar a diferença que a Fundação fez lá no Estado do Amazonas? R - Eu posso te dizer o seguinte, no estado do Amazonas, antes da gente trabalhar, anteriores a esses últimos seis anos, até 1999, eu não ouvia falar de Fundação Banco do Brasil. Eu não ouvia mesmo. E quando nós saímos, nós somos referência no Amazonas. Sempre tivemos apoio da Fundação. Pra você ter uma idéia, quando você chega numa comunidade, e eles chegavam pra mim e dizia assim, “A gente ia pruma reunião”, eles iam ao banco, à superintendência e dizia: “Doutora, vá comigo à reunião, a gente vai fazer uma reunião assim... “Vá” lá e tal”. E eu dizia: “Mas eu não posso me envolver com os problemas internos, por exemplo, da sua comunidade. Assim, questão dentro das associações comunitárias, e tal”. Porque eles tinham que aprender a fazer isso. Eu não poderia estar assistindo o tempo todo, porque eles teriam de aprender a caminhar, resolver seus próprios problemas, e tal. Ele dizia assim: “Doutora, se eu chegar lá dizendo...”. Quando era uma idéia, alguma coisa assim; “Doutora, se eu chegar lá dizendo isso, as pessoas não vão dar importância, mas a senhora é a Fundação Banco do Brasil.”. Eu me lembro que uma vez eu estava numa reunião do BB Educar, e aí a presidente da Associação dizia assim: “Porque a Doutora Otamires está aqui, a Representante do Banco do Brasil, a Coordenadora do Banco do Brasil...” Já teve momentos que eu era a Diretora do Banco do Brasil, enfim (RISOS). Eu chegava pra eles e falava, “Escuta, por favor, só Otamires, não precisa falar essas coisas e tal...” E mal eu tinha falado isso e tal: “Pode chamar só de Otamires e tal”; aí ela dizia: “A doutora Otamires da Fundação Banco do Brasil”. E depois eu percebi a necessidade que eles tinham de falar da Fundação Banco do Brasil. Porque a Fundação do Banco do Brasil aportava, em termos de credibilidade, a iniciativa deles. Aí então eu deixei. (RISOS). Sempre. A Fundação Banco do Brasil foi um diferencial. Muitas vezes, alguns deles chegavam pra mim e diziam, “Doutora, eu não vim buscar recurso, eu só quero que a senhora vá participar do meu evento, porque eu quero dizer que a Fundação Banco do Brasil vai estar lá”. E às vezes acontecia de estar até cansada, porque isso acontecia muito nos finais de semana, me tomava os finais de semana com a família e tudo o mais. Mas eu ia, porque eu acho que era o mínimo que a Fundação poderia fazer naquela circunstância, mas que tinha uma resposta tão grande prá comunidade. Então eu sempre ia. O significado dela é esse, é muita credibilidade, é muito significado prás comunidades. P - Otamires, você pode traduzir a Fundação em poucas palavras? R - A Fundação, ela é o instrumento que o Banco do Brasil tem pra se tornar mais humano, pra se tornar mais identificado com as camadas sociais. É o instrumento que o Banco do Brasil tem pra, de fato, cumprir a missão dele. Isso, se ele realmente aproveitar a potencialidade que tem a Fundação. P - Você falou muito do “Projeto Memória”. E a Fundação agora está fazendo esse resgate dessa trajetória, desses 20 anos, né? O quê que a senhora acha de estar fazendo parte dessa história, aqui contando pra gente? R - Pra mim é um elogio da vida. Eu tenho 50 anos, e eu não sei muito lidar ainda com elogios, mas esse foi um elogio que não me violentou. Esse foi um elogio que veio tão natural e que, quando eu recebi, eu falei: “Puxa vida, nossa”. Porque ele é verdadeiro. Porque ele significa um pedaço da minha vida. Porque ele significa muitos sonhos meus e eu estou muito feliz por isso. Eu sou muito feliz pela vida, por ter sido funcionária do Banco do Brasil durante esses 22 anos. Eu sempre dizia assim, “Olha, eu tenho muito motivo pra brigar por essa instituição. Primeiro porque ele é o banco do meu país, depois eu sou acionista. Parcas ações (RISOS). E depois ter a instituição que é a Fundação Banco do Brasil”. Então pra mim realmente é muito importante fazer parte, e ficar na memória dessa Fundação. P - Gostou? R - Gostei Muito (RISOS). No início foi um processo de parir, viu? (RISOS). P - Tem alguma coisa que você queira falar e que a gente não te perguntou? R - Uma coisa que eu queria falar, eu só gostaria de que essas cabeças pensantes da Fundação Banco do Brasil e que às vezes até, tipo ser muito dinâmico na Fundação, porque ela está sempre trocando. Mas que ela continuasse orientada em pensar o Brasil como ela vem pensando. Com essa sensibilidade, com esse feeling para as questões sociais. Eu quero é que ela permaneça Fundação Banco do Brasil (SUSPIRO). P - Otamires, então, em nome do Projeto dos 20 anos da Fundação, eu gostaria de agradecer muito o seu depoimento. R - Eu que agradeço todos vocês. P - Obrigada. R - De nada. P - Quer dizer que foi difícil no começo, né? Que você ficou nervosa? R - Demais FIM DA ENTREVISTA.
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