- 1967 a 1985 – Do sertão sergipano do rio São Francisco à Baixada Santista
Nascimento e migração
Eu nasci em 30 de dezembro de 1967 na cidade de Monte Alegre no sertão do Estado de Sergipe. A cidade é a primeira da região da Bacia do São Francisco, cortada pela Rodovia SE- 230, conhecida como rota do sertão.
No início da década de 1970, eu com três anos de idade e a família, migramos para Baixada Santista, no Estado de São Paulo, devido ao crescimento do polo industrial de Cubatão e o porto de Santos, que eram campos de trabalho em franca expansão, gerando demanda por mão de obra. Outro fator que apoiou a nossa mudança foi a presença de tios e tias já residentes em Santos.
A primeira cidade que moramos foi Santos, onde nos instalamos no bairro de Santa Maria na zona noroeste. Morávamos num pequeno quarto, nos fundos de uma oficina de bicicletas.
O primeiro emprego do meu pai foi em um posto de gasolina, o segundo foi em uma empresa no polo industrial de Cubatão, onde se acidentou e, com a indenização, comprou um bar na entrada da Vila Socó/Vila São José, na mesma cidade. Nessa vila passei a maior parte da infância, adolescência e início da minha juventude. Nesse período, mudamos para São Vicente, em 1977, e retornamos para Cubatão, em 1980.
Em São Vicente, moramos no Jardim Nosso Lar, período que vivenciei o fim da minha infância e entrada na puberdade, me aventurando em outros espaços fora dos limites do bairro; criando novos grupos de amizade, como a turma do antigo Cine Petrópolis, na Avenida Antônio Emmerick, que adoravam assistir aos filmes de Bruce Lee; e, outra da praia, que gostava de pegar cuca , brincar no antigo Luna Park e tomar banho lá na Praia da Biquinha. O meu bairro era rico em diversidade étnica e religiosa, com portugueses e colegas de ascendência indígena, africana e europeia, que juntos brincavam e participavam das várias festas católicas (festas juninas) e das...
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Nascimento e migração
Eu nasci em 30 de dezembro de 1967 na cidade de Monte Alegre no sertão do Estado de Sergipe. A cidade é a primeira da região da Bacia do São Francisco, cortada pela Rodovia SE- 230, conhecida como rota do sertão.
No início da década de 1970, eu com três anos de idade e a família, migramos para Baixada Santista, no Estado de São Paulo, devido ao crescimento do polo industrial de Cubatão e o porto de Santos, que eram campos de trabalho em franca expansão, gerando demanda por mão de obra. Outro fator que apoiou a nossa mudança foi a presença de tios e tias já residentes em Santos.
A primeira cidade que moramos foi Santos, onde nos instalamos no bairro de Santa Maria na zona noroeste. Morávamos num pequeno quarto, nos fundos de uma oficina de bicicletas.
O primeiro emprego do meu pai foi em um posto de gasolina, o segundo foi em uma empresa no polo industrial de Cubatão, onde se acidentou e, com a indenização, comprou um bar na entrada da Vila Socó/Vila São José, na mesma cidade. Nessa vila passei a maior parte da infância, adolescência e início da minha juventude. Nesse período, mudamos para São Vicente, em 1977, e retornamos para Cubatão, em 1980.
Em São Vicente, moramos no Jardim Nosso Lar, período que vivenciei o fim da minha infância e entrada na puberdade, me aventurando em outros espaços fora dos limites do bairro; criando novos grupos de amizade, como a turma do antigo Cine Petrópolis, na Avenida Antônio Emmerick, que adoravam assistir aos filmes de Bruce Lee; e, outra da praia, que gostava de pegar cuca , brincar no antigo Luna Park e tomar banho lá na Praia da Biquinha. O meu bairro era rico em diversidade étnica e religiosa, com portugueses e colegas de ascendência indígena, africana e europeia, que juntos brincavam e participavam das várias festas católicas (festas juninas) e das religiões afro-brasileiras nos terreiros e ruas como as festas de Cosme e Damião em 27 de setembro, e Iemanjá durante as passagens de ano na praia. Uma lembrança desagradável que tenho dessa fase são as cenas de violência contra adolescentes e jovens que frequentavam os bailes do Clube Beira Mar (região central) e do centro esportivo do meu bairro, praticada pelos soldados do exército, que sempre chegavam à noite com armas e cassetetes para fazer abordagens naqueles espaços; não me lembro de ter visto algo semelhante acontecer no baile do Clube Tumiaru (região central) que era frequentado pela classe média vicentina.
Em 1980, voltamos para a Vila Socó/São José em Cubatão, onde sigo vivendo com todas as minhas descobertas proporcionadas pela puberdade, que apesar da pobreza, tínhamos a presença da natureza, dos rios e mangues para nos divertir, e as histórias dos mitos e lendas oriundas dos sertões nordestinos contadas pelos meninos, a nos entreter.
Em Cubatão, também conheci o lado perverso da pobreza, apresentada pelo contexto social onde estava inserido. Morava em uma favela com casas de palafita em cima de uma região de mangue, sem saneamento básico e luz elétrica, que viria com o tempo. Essa condição já nos outorgava o direito de sermos abordados constantemente por policiais que deviam pensar naquela comunidade só moravam pessoas suspeitas. Eles não entendiam que naquela favela morava gente trabalhadora, e que pela falta de recursos financeiros não tinham outro lugar para viver. Além de morar em uma favela conhecida, angariamos outro título negativo para ampliar ainda mais a nossa estigmatização: éramos pessoas que moravam na cidade mais poluída do mundo (19).
A Vila Socó/São José ficou famosa em 1984, quando ocorreu um incêndio que destruiu metade das casas da sua área residencial. Foi horrível. Muitas pessoas de madrugada saindo de suas casas como roupas íntimas e de dormir. Naquele momento, eu e meus amigos fomos ajudar outros amigos que moravam próximo do local do início do incêndio para salvar móveis e o que podia-se retirar das suas casas.
Após o incêndio, a cidade teve um boom de crescimento. A vila assumiu o seu nome de Vila São José, ampliaram-se as ações para redução dos poluentes, melhorando a qualidade do ar e as consequências negativas da poluição industrial de Cubatão.
Eu trago esses fatos, porque tem alguns pontos da minha história que ajudaram a formar o ser político que sou hoje.
Cubatão era uma cidade conhecida mundialmente por sua poluição e isso acabou gerando discriminação para as pessoas que moravam lá, e para mim, ainda se somava o fato de morar numa favela que tinha acabado de pegar fogo. Esses dois fatos interferiam diretamente nas minhas relações pessoais em vários ambientes por onde circulava (escola, bares, boates, trabalho, etc.). Era comum ouvir de várias pessoas:
– Nossa! Como você consegue morar lá? A cidade é horrível!
Aquela favela é muito feia e perigosa!
Ainda tinham outras falas, que vinham revestidas de piadas e brincadeiras, mas, que no fundo, embutiam uma carga de preconceitos velados.
Esses fatores sociais me fizeram sentir, pela primeira vez, a discriminação. Os preconceitos relacionados à pobreza, à favela e à poluição da cidade foram os primeiros grandes desafios que enfrentei na adolescência. Acredito que por conta deste contexto acabei amadurecendo muito rápido, pois era necessário ser forte para enfrentá-los.
Adolescência e início da juventude na Cubatão dos anos 1980
E nesse turbilhão de emoções, ainda em Cubatão, eu descubro e assumo a minha orientação sexual. Foi uma decisão difícil, pois naquele momento eu percebia dois tipos de gays com visibilidade: aquele gay muito caricato (trejeitos femininos exagerados) ou aquele tipo “Madame Satã” , que se colocavam como “viados”, pois não se tinha ali o uso do termo travesti . Eram travestis fortes e bem armadas, com navalhas, canivetes e punhais, que se fossem ofendidas, partiam para a defesa com agressividade. Elas brigavam e, muitas vezes, usavam navalhas e armas de fogo; o negócio era bem violento. Em Cubatão, a Shantal, era a travesti mais famosa da cidade devido à visibilidade de muitos eventos violentos que ela se envolveu.
Lembro-me de um dia, passar por ela na saída de um mercado onde o segurança chamou à sua atenção de forma muito vulgar e preconceituosa e ela não teve dúvidas: quebrou todos os vidros do estabelecimento e ninguém tentou imobilizá-la. Acredito que Shantal agia daquela forma para poder sobreviver naquela sociedade preconceituosa, pois, além de ser travesti era negra e pobre, sofria uma tripla violência daquela sociedade conservadora e racista. Acredito que a sua história poderia ser um ótimo documentário.
Em Cubatão conheci meus primeiros amigos gays. Eles faziam parte de um grupo com muita visibilidade. Quando comecei a me relacionar com eles, percebo que eu era igual a eles, isto é, era homossexual e nesse momento pensei “eu sou igual a eles, então eu tenho de ser como eles, me comportar como eles”.
Eu tive que me adequar aquele grupo, pois aquela que era minha nova identidade, então cai na besteira de abrir mão do que eu era (moleque, o amigo da turma de meninos que não tinham gays, filho de um dos moradores mais conhecidos da vila, roqueiro, cabeludo, o amigo bacana, que não tinha trejeitos e falava grosso). E para aquele grupo de gays algumas dessas qualidades não eram bem vistas, para eles eu tinha que falar fino, andar com roupas coloridas, gesticular e fazer uma série de coisas que era específico daquele grupo, mas não eram para mim.
Analisando esse processo, hoje acredito que por um lado foi bom, devido ao encontro que tive com uma parte de mim, que eu desconhecia, mas, por outro lado, foi horrível porque eu tive meu segundo embate com a minha comunidade. Os meus amigos não aceitaram aquela nova forma de eu me expressar e isso me incomodou, porque eles aceitavam outros gays jovens, velhos, os mais violentos e os mais tranquilos, mas comigo não foi possível.
E isso gerou um enfrentamento violento, que se traduziu pela minha expulsão do grupo de amigos da minha turma do canal, pois eu fui proibido de conviver com eles. Eles se revoltaram contra mim, teve agressão física, agressão verbal e nessa época eu acabei me sentindo um pouco estrangeiro naquele lugar. Tudo isso é horrível, porque você percebe que está tendo um tratamento diferente daqueles outros gays, que andam livres e coloridos. Você pensa que o tratamento dado para eles será igual para você, mas não, o que você recebe é violência.
Esse embate violento marcou-me profundamente, gerando feridas emocionais e sociais, que foram impressas na minha alma e no meu corpo.
Acredito que a partir desses momentos da minha história, eu comecei a entender e a forjar a minha personalidade; eles me prepararam para trabalhar com HIV/AIDS hoje, por exemplo. Naquela época, eu banquei estas escolhas e, refletindo um pouco hoje, que eu paguei um preço muito alto; eu não sei se eu voltasse no tempo assumiria a minha orientação sexual como eu fiz... acho que não; mas também, seu eu não me revelasse daquele jeito, não seria eu, não seria o Jean, né.
Então, todo esse processo foi emocionalmente desgastante, mas necessário, apesar de refletir depois de um certo tempo, que paguei um preço muito alto, mas acredito que foi a resposta que aquela comunidade podia dar para mim, naquele momento e contexto social. Eu não sei se fosse outra pessoa, se fosse outro rapaz, outro colega a resposta seria a mesma, mas comigo foi assim.
As manifestações de preconceito e discriminação que sofri, fecharam-me numa armadura emocional muito pesada, semelhante aquelas usadas pelos cavaleiros medievais. Uma armadura psíquica, que me protegia da agressividade humana, mas me privava do afeto das pessoas. Ela me “protegia” de todo contato humano. Foi um período difícil para mim e para os outros que me queriam bem, pois, se você me abraçasse, iria sentir um homem gelado, mas não porque eu não gostasse de você, é que aquela armadura me impedia de expressar o meu afeto. Eu passei muito tempo com aquela armadura. Fechei-me, pois era uma forma de sobrevivência. Preferi me isolar e ter meus picos depressivos trancado na minha casa, do que pegar uma arma e sair atirando na cabeça daqueles que me agredissem. Naquela época eu tinha condições de fazer isso, porque vários colegas andavam armados, toda molecada andava com canivete na cintura. Nós frequentávamos bailes com nossas turmas e, muitas vezes, surgiam brigas com muitos garotos saindo com ferimentos graves. Eu também tinha acesso a armas, como muitos moradores lá na vila tinham acesso a revólveres. Confesso que várias vezes eu tive vontade de usar essas armas. Porque é isso, se você está encurralado, ameaçado e sozinho, e, se você não estiver muito bem, com a sua cabeça fria, se você não refletir, contar até 10 e, se não tiver uma base valorativa muito bem estruturada, você faz besteira.
Acho que é por isso, que algumas pessoas e grupos, na época, partiam para a violência. Eu poderia ter sido um garoto violento, revidando com violência as agressividades que sofri, mas, nunca tive coragem, apesar de andar com um canivete como chaveiro.
Outro fator que ajudava a não cometer violências, era a minha tese de que:
– Quem poderia tirar a vida de uma pessoa ou é a sua mãe, pois lhe gerou a vida, ou Deus, outras pessoas não tinham esse direito.
Apesar das minhas estratégias para sobreviver naquele contexto em Cubatão, percebi que alguns amigos mergulharam na criminalidade, talvez como meio para se tornar alguém de valor. Lembro-me de oito amigos que foram mortos nos embates com a polícia, em brigas de gangues; e na disputa do mercado das drogas com outros bandidos. Quando um amigo morria, eu sempre questionava e discutia com Deus:
– Por que um jovem ou uma criança tem que morrer?
Vou lhe dar um pequeno exemplo do que estou relatando, por meio de uma lembrança sobre um amigo de infância chamado Bento: numa bela noite ele estava conversando com um vigia de uma obra na entrada da vila e, segundo o relato de algumas pessoas, ele pegou a arma do vigia e começou a brincar e ela disparou, e o tiro o atingiu. Todo mundo que estava próximo dali, correu para o local, e naquela confusão eu vi a mãe do Bento surgir na entrada da favela, ela estava vindo do curso que fazia no Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). As pessoas saíram correndo e foram contar a desgraça para ela. Essa mulher gritou lá na entrada, que o grito dela ficou até hoje impregnado na periferia da minha consciência. Foi um grito de dor de mãe que perde filho. Eu vi a mãe do Bento se desmoronar e se desfazer, parecia que ela estava perdendo uma parte do seu corpo. Aquela cena foi muito dolorosa para mim. Eu sinto que quando uma mãe perde um filho, ela perde uma parte da sua alma e do seu corpo, principalmente, quando ela percebe que a morte foi devido à brutalidade da violência. A dor da mãe do Bento me ligou a dor da minha mãe, que eu presenciei várias vezes durante os velórios dos três meus irmãos.
Em outras ocasiões, as notícias da morte de amigos chegavam a mim logo pela manhã, após eu acordar com outros amigos chegando em casa para me avisar, como foi o caso do Armando, por exemplo: um grande amigo, que devido ao contexto seu familiar tinha tudo para dar certo e tudo para dar errado, só que ele não teve forças para enfrentar a sua realidade familiar e partiu para a bandidagem. Em várias noites, nós conversávamos sobre a vida e o futuro, e me lembro dele falando sobre como sua família não o valorizava. Ele comentava que a sua família fazia tudo para os seus irmãos. Eu percebia que ele era emocionalmente muito carente, sempre entrava em embates com seus pais, porém começou a ser valorizado pela bandidagem, apesar de ter 16 anos, tinha corpo, força e coragem de um homem adulto, além de ter iniciado a sua vida sexual num prostíbulo na entrada da vila, logo virou o protetor de algumas profissionais do sexo e amigo do filho da cafetina. Essa somatória de fatores transformou o Armando, de um adolescente perdido nas suas dores em um homem decidido a ser um grande bandido, mas a sua inocência e falta de maturidade lhe pregou uma grande armadilha que o conduziu à morte prematura. Em uma madrugada, ele e o filho da cafetina, foram assaltar um grupo de pessoas que estavam na fila do posto do INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) de Cubatão e, nesse momento, alguém avisou a polícia. Durante a fuga, eles trocaram tiros com os policiais e Armando acabou sendo alvejado com várias perfurações e foi levado ao pronto-socorro pela manhã. Para piorar a dor da família e a nossa, o Guto (seu irmão mais velho), que trabalhava no pronto-socorro, chegou ao local junto com o corpo do Armando e pelo seu sobrenome, os seus colegas foram lhe avisar do ocorrido. Durante muito tempo Guto sempre comentava esse episódio para nós com muita dor e lágrimas. Era horrível ver um adolescente como nós com tanta dor. Armando tinha somente 16 anos e uma vida pela frente, que foi ceifada pela violência. O filho da cafetina foi preso, mas, como a mãe tinha influências, não aconteceu nada com ele. Após esse episódio o bar da cafetina foi fechado. Nesse contexto de violências, eu era um adolescente que ficava perplexo com a crescente violência e as mortes prematuras dos amigos.
Apesar de terem passado mais de trinta anos destes episódios, este tipo de violência atravessou as gerações chegando até os dias de hoje. Dos meninos que estudaram na primeira série do primário com meu irmão mais novo, somente ele e a Bela estão vivos, os demais morreram em consequência da violência, fora ou dentro da vila. Apesar de ter passado mais de 40 anos da minha infância, ainda hoje temos adolescentes morrendo na vila e em outras favelas e bairros periféricos da Baixada Santista e do Estado, e isso continua sendo uma realidade nacional, que afeta principalmente os jovens negros dessas regiões. Essa realidade é denominada por vários militantes dos direitos humanos como genocídio negro. A violência em comunidades carentes ainda é uma realidade e eu percebi a sua dimensão quando saí da Vila Socó/São José.
Lembrei-me de outro caso: numa noite chuvosa de domingo, chegando de um jogo de bola na rua, me deparei com um corpo na frente do bar do meu pai: era do Kadu. Ele era um dos bandidos mais violentos de Cubatão e estava ali, morto na calçada do bar. Aquela era uma cena típica de reportagens destes programas policiais que são apresentados geralmente à tarde, nos canais de televisão aberta: a câmara filmando o corpo de um homem de cabeça raspada, alvejado por um projetil em frente a um bar, numa rua cheia de lama de uma favela, numa noite chuvosa com a presença de uma multidão de curiosos. Esse tipo de cena era muito comum na vila. A visão desse e de outros corpos, me chocava num primeiro momento, mas depois tudo voltava ao normal. Existia uma resignação em mim e, acho que em nós, de que aquilo fazia parte do nosso cotidiano. Eu somente consegui abstrair o real significado daquelas expressões de violência quando eu saí de casa e fui morar em São Paulo, e comecei a olhar todo aquele contexto de longe por outras perspectivas. Nesse momento eu estava com 18 anos.
Hoje, eu percebo que a violência nas comunidades não diminuiu, acredito que temos novos atores, outras cenas, mas, socialmente, penso que não houve redução. Os adolescentes e jovens continuam morrendo de forma trágica.
Durante a minha adolescência, eu tive de criar várias estratégias de sobrevivência para me proteger e seguir a minha vida, como estudar e traçar um futuro melhor.
No campo dos estudos, eu sempre estudei longe da minha casa e, isso também me fez amadurecer, devido ao contato com outras realidades sociais que, muitas vezes, eram mais flexíveis com relação à diversidade, do que aquela que vivenciava na Vila Socó/São José. Eu me lembro de que sempre fui um cara bem mais maduro do que a maioria dos meus colegas de classe.
Com 14 anos eu já conhecia a Baixada Santista inteira, viajando sozinho. Eu lia revistas de rock, futebol e carros e foi nessa época que comecei a ler biografias de grandes líderes, por meio da publicação da série Os Grandes Líderes, da editora Abril Cultural. Essa leitura me possibilitou conhecer outras realidades e novos campos do conhecimento, pois não tinha condições financeiras para ir além da Baixada Santista.
No início da juventude comecei a pensar que Cubatão já não cabia mais em mim, porque ali existia muito preconceito e eu queria viver num local onde eu pudesse ser eu mesmo.
Eu saí de casa com 19 para 20 anos e fui morar em São Vicente, deixando o meu lar e os quatro irmãos mais novos, pois a mais velha já morava em Santos.
Meus pais tiveram dez filhos. Seis vingaram e quatro faleceram: um veio a óbito em 1970, num surto de meningite que teve no Brasil; outra faleceu com um mês de vida. Nasceu com os pesinhos tortos e outras complicações que não lembro mais, pois era muito jovem; depois, tivemos um natimorto; e, antes de mim, um que faleceu em Sergipe, mas eu não conheci. Minha mãe sempre apresentava complicações no sétimo mês de gravidez, tinha hemorragias muito violentas e a gente sempre saia correndo para o hospital. Então, das três últimas gestações, o irmão mais novo conseguiu sobreviver. Eu sou o mais velho dos homens e tenho uma irmã mais velha. Um fato que me marcou muito neste período foi presenciar todos os velórios dos meus irmãos na sala de estar da minha casa, como mandava a tradição nordestina.
Meu pai foi dono de estabelecimentos comerciais quase a vida inteira e minha mãe foi dona de casa que, por si só, já é uma jornada de trabalho pesada. Quando nós fomos morar na Vila Socó/São José, meu pai comprou um bar na entrada do bairro e depois acabou adquirindo um terreno nos fundos e fez várias casinhas de aluguel.
Foi uma época boa para o comércio, pois Cubatão entre 1980 até os anos 2000, cresceu economicamente devido ao polo industrial e a sua consequente migração, principalmente de nordestinos. Quase todo final de semana tinha festa naquele bar, a vila era um bairro bem festivo. A minha adolescência também teve seu lado positivo e bacana porque fui um menino que vivia nas praias, nos rios, nos mangues pegando caranguejos, siris e pescando peixes, enfim, foi uma adolescência muito boa. Penso, que deveria ser mais ou menos semelhante a liberdade vivenciada por um adolescente que viveu há uns quarenta anos atrás nos bairros aqui de São Paulo, a diferença é que lá a gente tinha rio e praia.
A minha família ainda tem um imóvel lá na vila, onde a parte superior tem três casas, sendo uma minha e duas dos meus irmãos e, na parte inferior, temos um bar e duas pequenas casas que são alugadas. Fiz uma casinha lá, porque quando morava em Catanduva, pensava em garantir um espaço para viver e me acomodar, em caso de uma urgência ou reviravolta na minha vida. Trata-se de uma “mansão” em frente ao mangue.
Atualmente meus pais moram com duas sobrinhas em Santos, num belo lugar em frente à praia e, quando acordam pela manhã, tem uma bela vista do mar, uma delícia. O prédio deles fica próximo à residência da minha irmã mais velha, que cuida deles juntamente com as minhas sobrinhas.
O avanço do HIV/AIDS na comunidade de gays, travestis e de usuários de drogas injetáveis
Na metade da década de 1980, alguns colegas gays tinham uma forma lúdica de falar que a pessoa estava com AIDS, que naquela época ainda se veiculava na mídia a sigla SIDA. Era comum alguém comentar que o fulano estava com a tia SIDA. Isso é a demonstração que a comunidade gay sempre lidou com bom humor e deboche diante de todas as adversidades que passou. Com o tempo a sigla SIDA foi substituída por AIDS, devido a constrangimento que a primeira poderia gerar nas mulheres que tem o nome de Cida, segundo alguns militantes, essa mudança foi uma reinvindicação de algumas mulheres que estavam numa reunião em Brasília com o DIAHV.
Naquele período, os colegas gays que desapareciam do nosso convívio, que ficavam doentes, emagrecessem, ou tivessem perda de cabelo acentuada, logo eram associados aos doentes de AIDS. Para você ter uma ideia de como a tensão se instalou na Baixada, muitos gays usavam bonés nas boates para esconder o cabelo ralo, devido a queda sua imunidade e naquele tempo usar essa vestimenta não era moda, como hoje, mas, sim, um assessório do vestuário de gente que se envolvia na malandragem. Além do que muitos usavam camisas de manga longa dentro de uma boate sem ar condicionado para esconder as manchas na pele.
A ampliação dos casos de HIV/AIDS entre gays, profissionais do sexo e usuários de cocaína injetável colaborou para a cidade de Santos ser considerada, naquela época, como a capital da AIDS.
Na verdade, o HIV/AIDS se espalhou rápido pela Baixada Santista, mas acredito que Santos obteve este título pela mídia nacional, devido à sua ampla zona portuária que abrigava um grande centro de prostituição e um forte comércio de drogas. A cidade que fornecia mais espaços de socialização (bares, boates, motéis, praças e praia) para a comunidade de gays, travestis e lésbicas era São Vicente, que sempre foi a mais acolhedora da região.
Com o avanço da epidemia o clima só piorou, para você ter uma noção do que foi isso: num domingo de 1989, se não me falha a memória, eu fui visitar o Pedro, que estava morando no Parque Bitaru em São Vicente. Ele me disse que ficou sabendo da morte de um rapaz por AIDS, que era filho de uma mulher que trabalhava na COSIPA (Companhia Siderúrgica Paulista), que à época era uma das maiores produtoras de aço do Brasil e do mundo contando com cerca de 15 mil funcionários. Eu me lembro que ele disse isso muito assustado devido a rápida circulação e atenção do povo sobre esse fato. Eu fiquei assustado e logo pensei que se tratava de algum amigo. Logo telefonei para o meu amigo Antenor que morava em Cubatão para saber se aquele rapaz era conhecido da nossa turma de gays. E a resposta veio como uma bomba, o rapaz era o meu amigo Damião e ex-namorado do Pedro, que tinha comentado sobre o caso. Damião era um adolescente como eu e morava próximo de minha casa. Havia mudado para São Paulo para buscar uma vida melhor e tentar fugir da agressividade da vila, e com o passar do tempo voltou para morar com a mãe e o irmão mais novo. A mãe do Damião trabalhava numa empresa terceirizada que prestava serviço na COSIPA como várias mães de Cubatão. Depois com o tempo percebi que na verdade ele voltou como muitos voltaram para a casa dos seus pais, depois que descobriam o HIV/AIDS.
Até hoje eu fico me perguntando: por que uma notícia sobre a morte de uma pessoa anônima por AIDS, que não tinha sido veiculada na mídia, foi tão valorizada a ponto de ser discutida em várias cidades de uma região? Esse fato demonstra como o clima estava tenso na Baixada Santista
Eu não fui ao velório do meu amigo Damião, porque fiquei com medo de alguma agressividade verbal, ou do povo fazer uma associação entre eu e ele, isto é, se ele é gay e morreu de AIDS, qualquer amigo dele que é gay também tem AIDS. E essa associação poderia ganhar terreno e chegar aos ouvidos dos meus pais gerando mais desconforto e sofrimento, pois, naquele momento, estava morando com a minha irmã mais velha em Santos.
Logo após o falecimento do Damião, a Dani, minha outra amiga, também foi a óbito. Eu fiquei pasmo, pois ela tinha poucas relações sexuais, eu sabia somente de um amante que era casado e tinha filhos, morador de Cubatão e irmão de um amigo meu de colégio. Quando soube do falecimento da Dani, tomei um choque de realidade pela situação em si, mas, também, por perceber e ficar assustado com a constatação de que o HIV/AIDS não ficaria restrito ao universo de gays. Havia a possibilidade de se disseminar entre os heterossexuais que mantinham relações afetivas e sexuais com outros homens, mas não se reconheciam como gays. Para mim, os “bofes casados”, gíria usada em nosso meio, para identificar os homens heterossexuais casados que tinham ou não relações sexuais com os gays, poderiam se infectar e passar o vírus para suas esposas e isso seria o caos. Com o tempo, o HIV/AIDS atingiu vários homens e mulheres heterossexuais que se infectaram por várias vias de transmissão, não somente pelo contato sexual.
Posso apontar alguns vários motivos que fizeram o HIV/AIDS crescer naquela época na Baixada Santista, mas um dos mais importantes era o não uso de preservativo nas relações sexuais. A camisinha não fazia parte do nosso cotidiano, como é hoje. Eu me lembro de que elas não ficavam expostas nas farmácias. Naquela época, era tão comum ter Gonorreia, que é uma infecção sexualmente transmissível causada pelo agente etiológico Neisseria gonorrhoeae), por exemplo, e isso era comentado entre os amigos como algo que não era negativo, pois demonstrava que o cara não era mais virgem, tinha virado homem. E para essa doença, os garotos e adultos tomavam o antibiótico Tetrex® (tetraciclina), que era comprado livremente nas farmácias.
Com tanta falta de proteção, os casos de HIV/AIDS começaram a aumentar e várias pessoas do meu círculo de amizade começaram a adoecer e morrer, alguns se infectaram durante o uso coletivo de seringa para injetar cocaína. Os adolescentes da minha idade geralmente usavam álcool, maconha, comprimidinhos, benzina e cola de sapateiro; e, a cocaína injetável era mais utilizada pelos jovens mais velhos, mas eu nunca tive curiosidade em usar essas drogas, pois sabia do seu resultado no futuro. Eu me lembro do caso do Gerson, irmão mais velho do meu amigo Mathias, que costumava injetar a cocaína na canela ou na veia embaixo do pênis, pois não conseguia mais aplicar nas veias dos braços. O Gerson, nunca usou a cocaína em nossa frente, sempre usava sozinho ou com outros colegas em lugares fechados, ou protegidos dos policiais e das famílias.
Depois com o tempo, comecei a perceber que a cocaína era usada, também, por pais e irmãos adultos de vários colegas. Fiquei assustado, pois achava que quem usava droga era a molecada, não imaginava que um pai de família ou uma pessoa adulta também usava. Como consequência desta realidade os casos de HIV/AIDS entre usuários de drogas injetáveis começam a crescer na Baixada Santista, principalmente devido ao comércio de drogas na região do porto. Depois do episódio do Gerson e do falecimento de pais e irmãos de alguns colegas, comecei a prestar atenção na região portuária de Santos, quando passava de ônibus em direção a Cubatão, era comum ver grupos de homens fortes adultos usando cocaína na veia, muitos desses deveriam ser pais de família. Ai eu fui perdendo a inocência e percebendo que o HIV/AIDS traria consequências violentas para aqueles homens e suas famílias, a epidemia não estava afetando somente gays e, com o tempo começaram a surgir mulheres, mães e crianças infectadas.
Eu acredito que gays, travestis e todos os homens que têm relações afetivas-sexuais com outros homens, e que conseguiram atravessar as décadas de 1980 e 1990, chegaram ilesos (sem se infectarem pelo HIV) até hoje são sobreviventes. Apesar do HIV/AIDS ter gerado efeitos negativos naquelas décadas, o cenário gay de São Vicente não arrefeceu. Você via vários pontos de socialização de gays a todo vapor, tanto em Santos quanto em São Vicente. Podemos pensar que era algo contraditório, pois se o HIV/AIDS estava crescendo naquela comunidade, era esperado a redução na procura pelos locais de socialização para diversão, namoro e relações afetivo-sexuais, mas isso não ocorreu.
Correspondências com o colunista do Jornal Notícias Populares (NP)
Entre os anos de 1986-1987, ainda em Cubatão, eu comecei a me corresponder com Julian Gray, pseudônimo de um jornalista que tinha uma coluna chamada “Espaço Gay” no Jornal Notícias Populares (NP) do Grupo Folha. Era uma pequena coluna, que trazia notícias relacionadas à comunidade de gays, lésbicas e travestis. O NP era o segundo periódico a lançar uma coluna com esta temática, pois já existia a “Coluna do Meio” do jornalista Celso Curi, do Jornal Última Hora, mas eu não tive acesso a ela.
O NP, era considerado um jornal muito sensacionalista, falava-se que se você espremesse sairia sangue, mas, por outro lado, ele trazia conteúdos bem interessantes como, por exemplo, a cobertura jornalística de futebol. Quando o Corinthians ganhava o campeonato, saia estampado um pôster enorme que todo mundo comprava e colocava nos bares, botecos e casas. Eu não era um leitor assíduo do NP, mas sempre comprava o jornal, principalmente quando tinha pôster, porque lá em casa, minha mãe é corintiana roxa (risos). Você não imagina como a minha mãe ficava feliz quando o timão ganhava um campeonato. Eu também comprava o jornal, porque sempre tinha pôster de bandas de rock, que eu usava para decorar as paredes do meu quarto. Lembro que NP fazia uma boa cobertura do movimento sindical à época, segundo um estudante de jornalismo nos anos oitenta, seu conhecido. Olha que coisa interessante, não é? Um jornal que para muitos era considerado leitura de gente alienada, veiculava notícias de cunho político e social. Acredito que o jornal conseguiu se tornar popular devido à facilidade em se comunicar com o povo de forma mais direta, sem perder o bom humor e o deboche, sendo ousado por criar um gênero de coluna social direcionada a diversidade sexual.
O Julian Gray, de quem não lembro o verdadeiro nome, escrevia também de uma forma bem direta, que todo mundo entendia. Não era muito rebuscada e tratava de vários temas como: lançamentos de boates, livros, cultura, saúde, sexualidade, ações de violência e discriminação contra a gays, travestis e lésbicas.
Penso que o fato do NP ser tão popular e de orientação sensacionalista, não devia ser visto pela ditadura como um jornal subversivo, e isso deva ter colaborado para que sua coluna gay não chamasse a atenção da censura.
Foi lendo a coluna do NP, que eu comecei a ter as primeiras notícias impressas relacionadas ao HIV/AIDS, como a criação da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), que foi idealizada pelo Betinho (Herbert de Souza), do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Nesta época também comecei a me corresponder com a ABIA e, eles me encaminhavam um jornalzinho chamado “O Boletim ABIA”.
Eu me lembro de uma notícia na coluna sobre o lançamento do Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro que tinha uma foto do Jorge Beloqui, grande ativista e hoje um grande amigo. Ele foi um dos fundadores do Grupo Pela Vidda e participou da criação do GIV (Grupo de Incentivo à Vida) e GAPA, é uma das referências do movimento social de luta contra a AIDS no Brasil e no mundo.
A coluna do Julian me auxiliou no processo de conscientização do que eu realmente era e no desenvolvimento de uma percepção da dimensão política do universo gay, que não era formado somente por gente refratária a esta temática. Ela me serviu como apoio porque eu e os meus amigos gays, geralmente discutíamos temas relacionados aos confrontos com os pais, as violências, as festas, boates, concursos de miss, namoros e aventuras sexuais, menos os assuntos de militância política. Este grupo de amigos era muito unido e isso ajudava a enfrentar todas as adversidades. Acredito que essa coisa mais política, vamos pensar assim, era mais trazida, algumas vezes, pelo David, que é o amigo que registrou a maioria das nossas atividades, festas, teatrinhos, encontros, concursos de miss e todos os eventos, que muitas vezes, aterrorizavam a vizinhança onde eram realizados, geralmente nos apartamentos de uns amigos. Ele tem uma coleção de fotos de 1980 a 1990 que daria um grande livro. Ele tem parte da nossa memória guardada lá, que é maravilhosa.
O Julian foi o primeiro contato que tive com alguém de longe do meu círculo de amizades e foi ousado, porque eu era um adolescente trocando ideias com uma pessoa que nunca havia visto na vida, um jornalista adulto. Com o tempo eu comecei a trocar correspondências com Julian, que morava na Cesário Motta Junior, a rua da entrada da Irmandade de Misericórdia da Santa Casa da São Paulo, mas acabei perdendo estas cartas e o contato com ele. Na época, eu encaminhava as cartas ao jornal e depois para a sua residência. Ainda hoje lembro-me dos envelopes, mas com tantas mudanças de casas nesta minha “vida cigana”, acabei perdendo as correspondências. Eu mandei mensagens pelo Facebook, para várias pessoas que trabalharam no NP, como a antiga editora de redação, para ter notícias do Julian, mas infelizmente não tive nenhuma resposta. Sempre quando passo pela rua da Santa Casa lembro-me dele. Eu vou fazer novas buscas para encontrá-lo. Eu sei que no início da década de 1990 ele fez uma publicação sobre direitos humanos para uma instituição de São Paulo e ajudou a fazer um documentário sobre a noite paulistana também. Eu também vou perguntar para a Roseli Tardelli, que é a fundadora da Agência de Notícias AIDS, um canal de comunicação on-line fundamental para cobertura de todas as ações sociais, governamentais e da academia sobre HIV/AIDS. Ela é uma grande jornalista. A primeira mulher a comandar o programa Roda Viva da TV Cultura e criou a
Agência como instrumento para potencializar a comunicação sobre HIV/AIDS após o falecimento do seu irmão em decorrência da AIDS. Como ela transitou no meio jornalístico talvez tenha notícias sobre ele. Eu também vou falar com o Paulo Giacomini, um amigo da Rede Nacional de PVHA (RNP+), que trabalhou em grandes jornais e seu último trabalho foi uma entrevista com o Vampeta, à época jogador de futebol em um importante clube paulista para a G Magazine, revista direcionada ao público gay.
A coluna foi uma janela aberta para o mundo que mais tarde eu saí para conhecer, pois, naquela época eu já sabia que não iria ficar em Cubatão. Penso que o fato de ter sido um adolescente com um senso crítico muito forte também ajudou a ampliar os meus horizontes.
Vários jornalistas que trabalharam no NP lançaram o livro “Mais do que a Verdade: A extraordinária história do jornal Notícias Populares”, trazendo toda a sua história e fatos pitorescos do seu cotidiano.
A minha relação com o Julian e a sua coluna do NP foi muito boa, porque me possibilitou uma abertura para o que estava acontecendo em outros lugares, como também despertou a minha curiosidade para a leitura sobre os grandes líderes e escritores gays, o que me veio ao encontro do meu gosto por biografias. Nessa época, eu li quase todos os volumes da coleção “Os Grandes Líderes”, da Nova Cultural, que eram livros de capa dura com fotografias e uma breve biografia dos grandes nomes do século passado.
Boletim da Associação Brasileira e Interdisciplinar de AIDS do Rio de Janeiro (ABIA)
O NP, me proporcionou conhecer um pouco da ABIA, que era uma instituição que para mim, além de tratar de assuntos relacionados ao HIV/AIDS, também discutia temas ligados à diversidade sexual, principalmente a homossexualidade e a bissexualidade. Com o tempo eu entrei em contato com a instituição, que começou a me encaminhar o “Boletim ABIA”, uma das suas mais estratégicas publicações. Nessa época, eu morava com os meus pais em Cubatão e, quando comecei a receber o boletim, ele também gerou alguns atritos com a minha mãe. O Boletim tinha, se não me falha a memória, o tamanho de cerca de umas quatro folhas de papel almaço, o que lhe dava um total de 16 páginas, dobradas e lacradas com uma pequena tira de papel pardo. Essa forma de disponibilizar o Boletim, muitas vezes, deixava expostos textos que vinham com fotografias de homens seminus ou em posições eróticas com outros homens. Como eu estudava ou estava sempre na rua, o carteiro entregava as correspondências no bar do meu pai e a minha mãe geralmente era a pessoa que fazia a sua separação e, quando ela pegava um boletim com essas imagens, ela sempre gritava:
– Que coisa feia é essa! Que coisa nojenta!
Eu acho que como os recursos na época eram mais escassos, a instituição não tinha disponibilidade para encaminhar o Boletim num envelope fechado ou, então, poderia ser proposital como uma forma de provocar a sociedade para o respeito, a diversidade e a realidade do HIV/AIDS. Mas isso eu não posso confirmar, teria que conversar com o Veriano Terto ativista e membro de longa data da ABIA.
Foi por essa publicação da ABIA, que eu comecei a perceber a dimensão nacional e mundial do impacto que o HIV/AIDS estava causando na comunidade gay, além dela me ajudar a entender que a homossexualidade não era um bicho de sete cabeças restrita à minha comunidade gay de Cubatão.
O Boletim me ajudou a entender um pouco mais sobre os processos físicos, emocionais e sociais que agiam sobre os meus amigos que tinham HIV/AIDS. Foi o primeiro material impresso que eu tive acesso a informações fidedignas e mais elaboradas, com fontes que realmente conhecia e que traziam detalhes sobre a epidemia no Brasil e no mundo. Ele foi durante muito tempo, um dos grandes informativos do Brasil. Hoje, a sua circulação em papel diminuiu muito, mas acho que está sendo divulgado por meio eletrônico.
Nos últimos anos, vejo uma redução nos apoios para este tipo de publicação. Acredito que deveríamos ter financiamentos específicos para publicações como: o “Caderno Pela Vidda” aqui de São Paulo, que é um informativo com notícias daqui e do mundo sobre o HIV/AIDS, que tem a colaboração do Mario Sheffer; a “Saber Viver” que era tipo de almanaque direcionado às PVHA; e o “Caderno de Vacinas” do GIV, que ainda tem algum tipo de financiamento.
Com o advento da internet, acabamos tendo um boom de informações e materiais eletrônicos. As publicações históricas utilizadas nas décadas de 1980, 1990 e 2000 ou passaram para o formato eletrônico, ou foram suspensas devido principalmente à redução de financiamento.
Hoje percebo que na minha juventude eu não consegui ter a percepção da real dimensão do HIV/AIDS. Acho que eu não me via vulnerável, assim como não imaginava que ele afetaria as mulheres e crianças. Eu sempre vi a doença na população gay, de travestis, bissexuais e homens adultos heterossexuais usuários de cocaína, principalmente aqueles com alguma ligação com o porto de Santos. Essas eram as populações que para mim estavam mais expostas ao HIV/AIDS. Somente fui perceber que o HIV/AIDS poderia atingir as crianças quando mudei para São Paulo.
A juventude em São Vicente e Santos
A primeira vez que saí de casa foi aos 18 anos, quando fui morar em São Paulo. Mas a aventura durou pouco e logo retornei para a casa dos meus pais, o que foi constrangedor para mim, porque demonstrou minha incapacidade em vencer os obstáculos.
Em 1988 completei 20 anos e fui morar em São Vicente, num quartinho minúsculo de uma pensão horrível na região central da cidade. Essa mudança foi necessária, porque naquela época eu comecei a experimentar manifestações agressivas verbais e não verbais contra mim. Aliás, essas manifestações eram sentidas por outros amigos gays, que acabaram também deixando as casas dos seus pais e comigo não teria sido diferente, pois eu assumi a minha orientação sexual de forma muito transparente. Na verdade, não era só assumir, era mostrar o que eu era de verdade.
Na época, nós usávamos roupas coloridas, pois era a década de 1980, ápice da New Wave (estilo de música, vestuário e acessórios lançados nos Estados Unidos), com todos aqueles acessórios de borracha, pochetes e mochilas. Todos esses elementos ajudavam a marcar a presença de gays na sociedade da Baixada Santista e isso incomodava muito a moral e os bons costumes à época.
Com o tempo, o clima em casa começou a sugerir que era hora de eu partir para tomar o controle da minha vida. Neste momento, eu procurei minha amiga Dani, aquela que veio a falecer logo após o meu amigo Damião que morava em Cubatão, que se estivesse viva hoje, com certeza se enquadraria no perfil de uma mulher transexual . Dani sofreu agressões durante muito tempo. Ela contava que na infância era constantemente violentada e agredida pelos irmãos. Para mim, ela não era gay, percebia que tinha algo de diferente no seu jeito de ser que a diferenciava de todos nós, mas eu não sabia o que era. Naquela ocasião ela me falou:
– Jean, vamos sair de casa, porque já chegamos ao limite, não dá
mais para viver aqui.
Naquela época, se você entrasse muito em choque com a sua família, era rua! Então, antes disso acontecer eu acabei indo embora para São Vicente, mas a Dani não foi. Uns dois anos depois ela veio a adoecer e falecer em decorrência da AIDS.
Naquela época a maioria dos meus amigos gays que eram assumidos foram expulsos de casa. Um deles sofreu uma tentativa de envenenamento causada pela própria irmã. Foi o Pedro, que morava com essa irmã em São Vicente. Ele comentava que a irmã preparou uma comida, ou um suco, não me lembro de agora, com a planta comigo-ninguém-pode, que é tóxica. Após ingeri-la ele começou a babar e foi correndo para o hospital. Esse rapaz sofreu muito. Enfim, todos nós éramos jovens de 18 a 21 anos e acabamos nos rebelando saindo para o mundo em busca de uma vida melhor, onde pudéssemos ser nós mesmos.
Voltando a nossa história, eu fui para São Vicente tentar a vida, pois já tinha trabalhado em várias indústrias de Cubatão como: ajudante geral, ajudante de cozinha, ajudante de pedreiro, faxineiro, ajudante e mecânico de manutenção e não consegui me adaptar em nenhuma dessas ocupações. Eu sempre passava mal, não conseguia trabalhar naquelas áreas de manutenção e cozinha industriais, com certeza aquilo não era para mim, gostaria que fosse, mas não era. Como todo garoto de Cubatão, naquele tempo, tinha basicamente a primeira opção de trabalhar no polo industrial, nas várias indústrias ou empresas terceirizadas, mas, eu não consegui me adaptar. Quando fui mecânico de manutenção, os demais colegas de trabalho me chamavam de bailarino francês, porque era magrinho e cabeludo e tinha dificuldades em carregar vários equipamentos, como as chaves de boca de mais de um metro pesadíssimas. Tudo aquilo era um horror para mim. Ainda havia outro problema: quando chegava da ronda de manutenção estava todo cheio de graxa e tinha que tomar banho em um dos dez boxes com cerca de doze chuveiros cada, juntamente com uma tropa de cerca de 500 homens que aguardavam a sua vez num galpão enorme, e eu sempre falava para mim mesmo:
– Isso não é para mim. Isso não vai dar certo.
Depois dessa aventura, eu decidi partir para as outras cidades, foi quando surgiu uma vaga de faxineiro num prédio em Santos. Este prédio fica na Rua General Rondon, próximo a atual residência dos meus pais. Era o ano de 1988, e eu estava morando naquela pensão em São Vicente que também abrigava nos finais de semana, artistas do cenário gay paulistano que eram convidados para fazer shows nas boates de São Vicente. Trabalhava como faxineiro e vigia num prédio em Santos; almoçava uma marmita que era preparada carinhosamente pela minha irmã mais velha, aquecida num fogão improvisado a álcool em nosso refeitório, que era ao mesmo tempo o depósito de lixo do edifício; e, para finalizar esse belo relato, à noite cursava o segundo colegial na Escola Estadual Zulmira de Almeida Lambert, em São Vicente, onde a merenda escolar era o meu jantar.
Depois de certo tempo eu deixei o condomínio e fui trabalhar num entreposto de pesca, no porto de Santos, lavando lagostas e grandes peixes no mês de julho - o que ninguém merece! Eu sentia as minhas mãos como o corpo daqueles náufragos do filme Titanic, que caíram no mar e morreram congelados. Devido ao trabalho pesado e rude, e a falta de condições físicas para assistir as aulas à noite, dormia quase o tempo todo em sala de aula, então decidi sair do entreposto. Nesta época, fui morar em Santos com a minha irmã mais velha.
Em 1989, depois desta aventura no entreposto de pesca, fui trabalhar num grande hipermercado de São Vicente, onde passei dois anos atuando como salsicheiro, vendedor de frios, queijos, vinhos, linguiça, salsicha, carne de porco, aí começou a melhorar a minha situação. Consegui acabar o meu ensino colegial. Essa foi uma época muito boa e divertida para mim, onde criei laços de amizades com pessoas muito bacanas.
O estigma e a discriminação relacionada à população de gays e travestis
A cidade de São Vicente sempre foi a mais tolerante da Baixada Santista, lá havia uma concentração de boates, hotéis, motéis e outros espaços de socialização para gays, lésbicas e travestis. Santos sempre foi uma cidade muito conservadora, apesar de ter sido o município com o maior número de presos políticos e mulheres dirigindo ônibus (profissão quase exclusivamente de homens). Na década de 1980, essa coisa de respeito à diversidade sexual e a identidade de gênero sempre foi com São Vicente.
Como São Vicente aglutinava boa parte da comunidade gay da Baixada Santista e, nos finais de semana, também os grupos oriundos da capital e grande São Paulo, os bares, as boates e os quiosques das praias sempre estavam cheios, eu e todos os amigos que frequentávamos aqueles espaços começamos a perceber que o HIV/AIDS estava acometendo muitas pessoas do nosso meio. Essa realidade estava afetando todos nós, porque percebíamos que ser gay, naquela época, na Baixada Santista, começava a ser sinônimo de HIV/AIDS.
O contexto social ficou tão constrangedor para nós que em 1990, quando eu comecei a namorar uma pessoa que morava em São Paulo, alguns dos seus amigos falavam para ela ter cuidado comigo, pois eu era de Santos. Esse tipo de comentário reflete bem a imagem que outras comunidades gays tinham sobre a comunidade da Baixada Santista.
E, hoje, analisando todo este contexto, penso que ele também foi fomentado pelas primeiras propagandas de massa que traziam o slogan “AIDS mata”. Eram as primeiras propagandas do Ministério da Saúde que, somadas às questões fundamentalistas das igrejas católica e protestante, colocaram o HIV/AIDS como um castigo de Deus para aquele povo desviante, ajudaram a criar uma neurose coletiva na sociedade brasileira, onde os gays eram vistos como criaturas transmissoras do vírus (2,22).
Acredito que aqui nasce o estigma que marcará para sempre a vida de toda PVHA.
III - 1992 a 1997 – Formação superior em Psicologia e reflexões sobre os fatos relacionados ao HIV/AIDS na capital
Mudança para São Paulo
Em 1992, eu casei e mudei para São Paulo, vindo trabalhar numa grande loja de departamento que existia na Avenida São João, próxima do Largo do Arouche e da “Boca do Lixo” . Naquele ano, fui contratado temporariamente para trabalhar numa quinzena promocional de artigos de cama, mesa e banho, que a loja realizava anualmente. O outro motivo que acelerou a minha mudança para São Paulo, foi o meu primeiro casamento. Ao final dos 15 dias de trabalho o meu contrato foi renovado para mais 15 dias e, ao final dessa nova renovação, eu e outros colegas fomos efetivados para trabalhar em vários departamentos da loja. Eu fui trabalhar na seção de utilidades domésticas e depois passei para roupas masculinas e calçados.
Nessa época, eu convidei alguns amigos da Baixada Santista, que foram expulsos de casa para morar um tempo comigo, até que todos(as) se estruturassem aqui em São Paulo. Como o caso da Tininha, uma transexual (hoje ela se reconhece como “trans”), que naquele momento (1991-1992), foi expulsa de casa pela mãe, perdeu o emprego, que possuía na central de uma grande rede de supermercados e tinha acabado de colocar alguns litros de silicone industrial no glúteo. Em um dos encontros que tive com ela, durante um final de semana que fui visitar os meus pais, encontrei-a em desespero, pois não sabia o que iria fazer da vida e não queria entrar na prostituição para sobreviver. Esse era um dos caminhos mais trilhados por várias travestis e transexuais na época, e ainda hoje. A prostituição é um campo de trabalho que deve ser preenchido por pessoas que se identificam e gostam dessa área, e não por aqueles(as) que são forçados a escolhê-lo como única via para a ascensão social.
A Tininha acabou vindo para minha casa. Tem um fato muito cômico/trágico nesta história: no primeiro dia que ela saiu para procurar emprego, ela foi vestida de calça jeans, sapato, camisa social e gravata de crochê, ficando com a aparência de uma lésbica bem masculinizada. Hoje poderíamos achar essa situação cômica, mas à época eu acabei pedindo para ela usar as minhas roupas e acessórios, com receio dela ser descriminada e não ter acesso ao mercado de trabalho, não por sua competência, pois, era uma grande técnica em contabilidade, mas por ser uma transexual. Ela era danada. Numa das primeiras entrevistas que fez, já foi contratada para trabalhar num escritório de contabilidade, próximo à Rua Barão de Limeira, no centro de São Paulo, que a aceitou do jeito que realmente ela era. Eu achei ótimo, eles pediram para ela ir trabalhar com a roupa que lhe era melhor, que lhe desse mais liberdade para ser ela mesma.
A Tininha com o tempo graduou-se em contabilidade, casou, comprou uma casa na zona sul e realizou seu grande sonho, que era a cirurgia de redesignação sexual. Enfim, uma história com final feliz no meio de tantas outras trágicas que envolviam e envolvem mulheres e homens trans. Ela foi a primeira a morar comigo, depois convidei o casal Carlos e Henrique. O primeiro foi colocado para fora de casa por sua mãe. O segundo tinha uma boa relação com a sua família, mas, por amor, seguiu o caminho do seu amado. Eles ficaram comigo certo tempo. Depois, foram morar na Lapa. No ano passado completaram 30 anos de casamento. Isso é bem raro hoje em dia no meio gay ou heterossexual.
O caso mais complicado dos amigos que foram expulsos de casa foi o do meu amigo Pedro (esse é aquele amigo que a irmã tentou envenená-lo com a planta comigo-ninguém-pode). Ele veio para São Paulo um mês antes de mim, mas não teve a mesma sorte que eu e os outros amigos, que possuíam pessoas aqui para acolher. O Pedro, como não tinha ninguém aqui, teve que morar na Praça Roosevelt, dormindo ao relento e se prostituindo para sobreviver na noite. Se ele tivesse esperado um pouco, teria também vindo morar comigo, mas a situação em São Vicente ficou insustentável devido à demissão da loja que ele trabalhava e a impossibilidade de voltar a morar com a irmã.
Esses fatos retrataram um pouco do cenário social da intolerância à diversidade sexual e de gênero que reinava na Baixada Santista. Foi o motivo que nos levou a sair das casas de nossos familiares para vivermos uma vida digna e com menos episódios de violência ao qual estávamos expostos.
Conhecendo o Grupo de Incentivo à Vida (GIV)
Voltando para a loja de departamento da Avenida São João para falar do meu encontro com o GIV. Naquela época, eu trabalhava no período da tarde e jantava a noite naqueles restaurantes da Avenida São João, Rua Barão de Limeira e Praça Júlio de Mesquita. Nessas idas e vindas para o jantar, eu recebi um folder sobre prevenção que falava do GIV. No dia seguinte, antes de entrar para trabalhar, fui até o endereço que estava descrito no folder. Como era ao lado da minha loja, não iria me atrasar. Lá fui recebido pelo Betinho (José Roberto Pereira), um jovem ativista com cara de menino, que me deu todas as orientações sobre o GIV. Desse encontro nasceu uma amizade que dura até hoje.
O GIV nasceu do encontro entre os usuários nos corredores do CRT IST/AIDS. Aliás, muitas instituições nasceram naqueles corredores. O grupo foi fundado em 1990 por um dos seus idealizadores, o psicólogo José Roberto Peruzzo, que passou a realizar as reuniões da recém-criada organização em seu apartamento na esquina da Avenida São João com a Avenida Duque de Caxias. Naquela época, Peruzzo trabalhava na Indústria de Elevadores Villares, onde abriu o resultado de sua sorologia positiva para o HIV, tendo recebido apoio e liberação para realizar as atividades do grupo, sem prejuízo salarial. Eu achava que o Peruzzo seria o primeiro caso de discriminação no local de trabalho, mas, na verdade, ele teve uma resposta positiva da sua empresa que deu uma lição para todos de como enfrentar o estigma e a discriminação, pois muitas empresas quando sabiam da sorologia de seus funcionários acabavam dispensando o profissional. Eu não cheguei a conhecê-lo, ou se conheci naquelas noites de reuniões no GIV, não me lembro da sua figura.
Naquela época, O GAPA era a ONG mais conhecida na sociedade. Uma organização que naquele momento, segundo as orientações de alguns colegas do GIV, tinha foco na prevenção às IST/HIV/AIDS e na assistência às PVHA, pois recebia muitos usuários que necessitavam de apoio emocional, jurídico e social, como o fornecimento de cestas-básicas, remédios, roupas, entre outros.
O GIV, por sua vez, foi criado para ser uma organização de ajuda mútua para outros portadores do HIV/AIDS, sendo a primeira organização com uma diretoria formada exclusivamente por PVHA. Eu percebia que o GIV, atraía homens gays e algumas mulheres com bom estudo e pertencentes à classe média paulistana, pois os debates eram sempre recheados de conhecimentos sobre medicina, tratamento, políticas públicas, entre outros. Nas poucas reuniões que participei no grupo, conheci a história de várias pessoas que quando descobriram o HIV, acabaram voltando para a casa dos seus pais, abandonando carreiras, sonhos, relacionamentos, entre outros projetos de vida, possivelmente porque à época, mais cedo ou mais tarde, a doença agravaria o seu estado de saúde e, nada melhor do que estar ao lado de alguém que pudesse cuidar de nós em momentos como esses.
No primeiro ano do GIV foram plantadas as primeiras sementes de amizade, que com o tempo se tornariam fecundas no campo da militância, como no caso do José Roberto Pereira (Betinho, esse não é o irmão do Henfil), que depois em 1994, juntou-se ao frei Reynaldo Ungareti para fundar o CEFRAN (Centro Franciscano de Luta contra a AIDS), nos porões da Igreja São Francisco de Assis, no Largo São Francisco, em São Paulo. Frei Reynaldo foi uma dessas pessoas especiais que trabalharam para reduzir as dores daquelas pessoas mais carentes, que além da pobreza viviam com HIV/AIDS.
O GIV aglutinou vários ativistas, como o Araújo (Jose Araújo), que depois vai atuar na Associação François Xavier Bagnoud dinamizando as ações de um abrigo e proporcionando cuidado integral à saúde de crianças vivendo com HIV/AIDS no Jardim Paris/Campo Limpo, região sul da cidade de São Paulo. Em 1994 tornou-se o responsável pela criação do EPAH (Associação Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada), entidade direcionada à promoção da saúde, prevenção e cuidados para o HIV/AIDS e defesa dos direitos humanos de crianças e adultos vivendo com HIV/AIDS; o Humberto Melo, que antes de entrar no GIV, já fazia grupos de ajuda mútua em Nova York com brasileiros soropositivos; a Nair Britto, primeira mulher brasileira a conseguir os antirretrovirais via mandato judicial, pelas mãos da Dra. Áurea Celeste da Silva Abadde, do GAPA; a Jacqueline Rocha Cortês, mulher trans, uma das fundadoras da RNP+, que foi trabalhar no PM IST/AIDS de São José do Rio Preto, de lá foi para o Programa Nacional de DST/AIDS e o Programa das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) e, depois, foi a estrela do filme “Meu Nome é Jacque”, da Globo Filmes; Eduardo Barbosa e Gilvane Cassemiro, que depois foram atuar no Programa Nacional de DST/AIDS; Claudio Pereira, atual presidente e advogado com forte atuação na defesa dos direitos humanos das PVHA; Sônia Rodrigues e a Beth Franco grandes psicólogas; e, o Jorge Beloqui, aquele que falei para você que tinha visto a foto dele no NP, por conta da fundação do Grupo Pela Vidda, no Rio de Janeiro. O Jorge, é um grande militante, auxiliou na fundação de várias ONG, foi cofundador do Grupo Pela Vidda São Paulo com o Jacques Buchara e Mário Scheffer e, tem uma particularidade que sempre admirei nele, que era a transcrição e tradução de vários estudos apresentados nas Conferências Internacionais sobre HIV/AIDS para o movimento social. Ah! Esqueci-me da Edna, uma menina, que já faleceu, mas que ficou marcada, pois fomos juntos, pela primeira vez numa reunião à noite na organização. Finalizando, não poderia encerrar este relato, sem falar de uma das pessoas mais especiais que conheci no GIV, o Valter Galego, psicólogo e segundo presidente da instituição, que possuía uma generosidade impar no trato conosco.
Com o passar o tempo, outros colegas do GIV foram entrando para o meu rol de amizades, alguns permaneceram na instituição e outros foram atuar em outras instituições da sociedade civil ou do governo.
Eu acabei ficando pouco tempo no GIV, pois dividia o meu tempo entre o trabalho e o meu casamento e o meu curso na faculdade e, ainda recebia críticas de alguns colegas, que acreditavam que participar desses grupos era como velar defunto vivo. Mas, apesar desse pequeno período de convivência no GIV, eu percebi que naquele apartamento do Peruzzo foi lançada a primeira semente para grandes amizades que floresceram com o tempo.
HIV/AIDS no local de trabalho
Um aspecto interessante da história da resposta brasileira ao HIV/AIDS foi a produção de ações no campo empresarial, com bons resultados. Acabamos de falar do GIV, onde tínhamos o caso do Peruzzo, que trabalhava na Villares, empresa que com o tempo vai fazer parte do Conselho Empresarial de Prevenção ao HIV/AIDS (CEN-AIDS), criado em 1998, que tinha como uma de suas premissas sensibilizar o setor empresarial para epidemia. Era um conselho bem forte, formado por várias empresas: VARIG, SESC/SENAC, Avon, MTV, SBT, Volkswagen e outras empresas sensibilizadas para enfrentar a expansão do HIV/AIDS. O Conselho era uma ação do PN DST/AIDS e foi criado tendo como base o Global Business Council on HIV/AIDS (Conselho Empresarial Mundial), que aglutinava grandes multinacionais para a luta contra o HIV/AIDS. Por exemplo, aqui no Brasil, temos a Volkswagen, que criou um programa interno para atender seus funcionários com HIV/AIDS, fornecendo tratamento completo e disponibilizando os antirretrovirais. Eu conheci essa história, por meio de um colega militante, que atua na região do ABC e é funcionário aposentado da empresa.
Em 2005, a SES-SP criou o CEAIDS (Conselho Empresarial de Prevenção ao HIV/AIDS do Estado de São Paulo), seguindo a mesma linha de atuação proposta pelo CEN-AIDS e Conselho Mundial, com a participação de várias empresas: Bancos Itaú e Caixa Econômica Federal, SEST/SENAT da Fernão Dias, Bristol-Myers-Squibb, SESC, CPFL Energia, entre outras.
Naquela época, também tivemos casos de empresas privadas e órgão públicos, que realizavam teste anti-HIV para admissão de funcionários, alguns desses, tiveram repercussão na mídia e na justiça devido à pressão da sociedade civil organizada. Vários processos de admissão foram retificados, mas outros não, gerando desgaste emocional e social para o trabalhador que vive com HIV/AIDS, pois o vírus sob controle não lhe incapacita para o exercício profissional e acadêmico. Alguns casos de dispensa de profissionais aconteceram nas forças armadas. Conheci um amigo, que foi militante do Grupo Pela Vidda Rio, passou para a reserva da Marinha em plena vitalidade.
Foi um período de intenso trabalho voltado para o setor empresarial com conquistas de direitos dos profissionais soropositivos e de ações de prevenção, como as realizadas na SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho). Enfim, toda legislação trabalhista de proteção ao trabalhador soropositivo nasce nesse cenário – do embate entre o trabalhador vivendo com HIV/AIDS e as empresas que discriminam ou apoiam sua permanência no local de trabalho.
Vários benefícios foram disponibilizados para as PVHA como a liberação do FTGS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), PIS (Programa de Integração Social), alguns municípios conseguiram a isenção tarifaria e, aqui na cidade de São Paulo, também, a liberação do rodízio de carros.
A parceria entre os programas de governo para às IST/AIDS e os conselhos empresariais voltados para esta temática, viabilizaram a criação de pesquisas, documentos técnicos que orientaram ações de prevenção às IST/HIV/AIDS, promoção de direitos humanos e combate à discriminação e preconceito no local de trabalho. Assim como, o Ministério do Trabalho pressionado pelos ativistas sociais e técnicos estatais lançou várias orientações e legislações para proteção do trabalhador.
- Caso Sheila Cartopassi
O caso Sheila foi um dos mais emblemáticos que vivenciei à distância e que me marcou profundamente no início dos anos de 1990. É um daqueles fatos que ficaram marcados em minha memória e sempre vem à tona quando discuto temas relacionados a crianças vivendo com HIV/AIDS. Esse episódio ganhou o noticiário televisivo e impresso, no início dos anos de 1990, chamando a atenção da mídia para a realidade de crianças vivendo com HIV/AIDS no ambiente escolar. Ela representava uma nova população da nossa sociedade formada por crianças vivendo com HIV/AIDS. Dessas muitas ficaram órfãs ou foram abandonadas em instituições ou hospitais pelos pais devido à doença.
Sheila era uma menina linda, loirinha, bem magrinha e devia ter uns sete anos de idade quando foi impedida de estudar na escola particular Ursa Maior, aqui em São Paulo, porque a diretoria e seus colaboradores ficaram com medo de expor as suas crianças “soronegativas” ao HIV. Esse fato retrata a falta de conhecimento de parte do setor privado de educação acerca das formas de transmissão do HIV, naquela época.
O caso da Sheila sensibilizou toda comunidade, envolveu juristas, médicos, artistas, jornalistas e a sociedade civil organizada, como o colégio São Luiz, que abriu suas portas e acolheu a menina. Esse fato deu muita mídia e mexeu muito comigo, eu não sei se foi por assistir a dor dos pais ou daquela criança sorridente.
Eu acredito que todo o movimento que o caso Sheila teve no Brasil provocou o surgimento da portaria interministerial no 796 de 1992 (Educação e Saúde), que imprimiu uma série de recomendações para reduzir a discriminação e o preconceito relacionado ao HIV/AIDS nas escolas.
No Brasil, acredito que a Sheila tenha sido um dos primeiros casos de criança soropositiva com visibilidade. Já nos Estados Unidos, teve o caso do menino Ryan Withe, hemofílico e que também foi impedido de estudar na sua escola devido à manifestação de preconceitos por parte da população e ainda teve mudar de cidade. Ryan acabou virando uma referência na luta pelos direitos humanos das PVHA nos Estados Unidos.
Casos como estes podem ser revisitados em vários filmes como: “E a vida Continua” do diretor Roger Spottiswoode, lançado em 1993 nos Estados Unidos sob o título original “And the Band Played On” e a série “Anos 80” do canal Mais+ da Globosat, que traz os principais fatos da década, entre eles o impacto do HIV/AIDS no mundo.
A menina Sheila veio a falecer em 1993, após uma curta existência. Conseguiu provocar mudanças no olhar de nossa sociedade para as crianças vivendo com HIV/AIDS, chamando atenção para defesa do direito humano à convivência harmoniosa com outras crianças, fora ou dentro do ambiente escolar.
Nós não podemos deixar uma doença nos tornar menos humanos e mais egoístas, a ponto de nós discriminarmos entre quem tem e quem não tem direito à vida em sociedade.
Centro de Convivência Filhos de Oxum
Outro fato relacionado ao HIV/AIDS e crianças que marcou na minha memória foi conhecer o Centro de Convivência Filhos de Oxum (CCI). Uma casa de apoio que nasce de um terreiro de Candomblé no Taboão da Serra, em 1987. Eu cheguei até esta casa por meio do Julião, um amigo que trabalhava comigo na loja de departamento da Avenida São João. Em um belo domingo, ele foi comandar um bingo beneficente para arrecadar recursos para a instituição, onde conheci o Babalorixá Laércio Zaniquelli. Babalorixá é a denominação dada a sacerdotes em algumas religiões afro-brasileiras, como o Candomblé. Láercio, criador e responsável pela casa, transformou sua residência e espaço religioso em um abrigo para crianças vivendo com HIV/AIDS. Naquela época, ele já fazia um trabalho voluntário com as crianças atendidas no Emílio Ribas e, com a chegada em sua casa de um bebê que foi deixado por uma mãe muito doente, ele resolve criar a casa de apoio.
O CCI cresceu e se tornou uma referência para outras instituições que se constituíram para acolher crianças vivendo com HIV/AIDS.
Eu vim reencontrar o Laércio em 1998 durante o evento “As ações falam mais que as palavras”, que comemorava os 13 anos dos anos da fundação do GAPA, no qual ele participou de uma mesa ecumênica sobre AIDS e religião.
De lá para cá foram criadas várias casas para abrigar prioritariamente crianças e adolescentes vivendo com HIV/AIDS no Estado de São Paulo: Casas Vida I e II, criadas pelo Padre Júlio Lancelotti (Paróquia São Miguel Arcanjo/Mooca) e Casas Siloé, Lar Suzane e Lar Vitória criadas pelo Padre Valeriano Paitoni (Paróquia Nossa Senhora de Fátima/Imirim), ambos militantes dos direitos humanos. Esses religiosos quando criaram essas instituições, sofreram preconceito e discriminação da própria comunidade que com o tempo foram superados. Padre Júlio, ficou muito conhecido nas décadas de 1990 e 2000, devido ao seu envolvimento na defesa dos menores abrigados nas antigas unidades da FEBEM (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor). Em muitas dessas unidades ocorreram uma série de violentas rebeliões e ele sempre surgia como representante da Pastoral do Menor para auxiliar na mediação do conflito, o que lhe custou muitos desafetos em nossa sociedade, pois era visto como defensor de bandidos. Padre Valeriano sempre defendeu a prevenção como estratégia para redução dos casos de HIV/AIDS e a solidariedade à PVHA como diretriz para enfrentar o estigma e preconceito. Sempre foram grandes militantes.
Laércio, Padre Valeriano, Padre Júlio e o Sr. João Rosendo da Casa de Apoio Sol Nascente de Guaratinguetá, entre tantos(as) outros(as) religiosos(as) dedicaram parte do seu exercício da profissão de fé para confortar PVHA e seus familiares, amigos e amores em muitos momentos em que a palavra com afeto era o único instrumento de conforto para as dores no corpo e na alma.
Eu tenho um profundo respeito por esses(as) religiosos(as), que representam os mais diversos credos, pela colaboração fundamental para a resposta ao HIV/AIDS do Brasil e São Paulo.
Graduação em Psicologia
Em 1992, eu acabei me afastando do GIV devido ao trabalho, casamento e o curso de administração na FECAP (Faculdade Escola de Comércio Alvares Penteado), que com o tempo eu abandonei para cursar o Vestibulinho no ETAPA, porque percebi que não tinha talento nenhum para ser administrador de empresas. Eu tentei entrar no curso de história na USP (Universidade de São Paulo) por duas vezes seguidas e não consegui passar. Aí eu fui fazer uma pesquisa de preços para o curso de psicologia e acabei entrando na Faculdade Paulistana de Ciências e Letras que fica ao lado do metrô Vila Mariana. Eu também tentei a UMC (Universidade Mogi das Cruzes), mas o último ano era o dia todo e não tinha subsídios financeiros para bancar e a Metodista de São Bernardo do Campo, mas ela ficava muito longe do meu local de trabalho.
Nesse período, eu me afastei dos projetos sociais para investir em minha formação e vida pessoal, mas fiquei de longe acompanhando o curso da epidemia. A formação em psicologia durou cinco anos e, no segundo ano do curso, eu tive que voltar a mergulhar no tema HIV/AIDS devido ao trabalho proposto pelo professor de Psicologia Geral. Um novo colega de classe (um enfermeiro que trabalhava no Hospital das Clínicas), optou por fazer um estudo sobre o atendimento de PVHA em hospital. Eu tentei propor outros temas para o nosso grupo, mas não teve jeito, o HIV/AIDS foi defendido por este colega e acabou ficando como tema do trabalho. Este trabalho ficou marcado para mim, pois naquele momento tínhamos um amigo na classe, o Manoel, que acabara de descobrir que estava com leucemia e isso nos mobilizou muito. Durante a apresentação do meu grupo, num determinado momento, abriu-se uma discussão sobre doença terminal, isto é, até que ponto a AIDS era ou não uma doença terminal? E o debate ficou acalorado e polarizado, de um lado o Manoel falando que sim, a AIDS era uma doença terminal e, de outro, nós falando que não, pois a cada dia surgiam novos medicamentos e pesquisas, tornando-a uma doença crônica, passível de ser tratada. Quando a aula encerrou e fui para casa, fiquei refletindo sobre o debate na faculdade e percebi que na verdade, a AIDS ser uma doença terminal ou não foi utilizada pelo Manoel de forma inconsciente, para expressar as suas dores e medos de estar diante de uma doença (leucemia) que poderia ser terminal. No dia seguinte, ao chegar à faculdade pedi desculpas a ele pelo embate de ideias que havia ocorrido na noite anterior. Ele sorriu para mim e não comentou nada. Naquele momento percebi que ele tinha entendido o que tinha ocorrido.
Apesar de parte do meu grupo colocar que a AIDS não era uma doença terminal, nosso colega do Hospital das Clínicas referia-se à doença de forma muito alarmista e negativa, o que devia fazer sentido para ele, pois era a realidade do seu trabalho, mas para nós não, devido às notícias que sempre eram veiculadas na mídia.
Este foi o único momento que me lembro na faculdade que debatemos o tema HIV/AIDS, depois não vimos mais nada relacionado à epidemia e nem tão pouco sobre diversidade de sexual ou de gênero. Nestes quesitos o curso foi bem pobre.
Em 1997, último ano da faculdade, voltei para o universo social do HIV/AIDS, devido a minha entrada no GAPA.
IV - 1997 a 2000 - Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS de São Paulo (GAPA BR/SP): ponto de partida
GAPABR/SP: de voluntário a conselheiro
Em 1997, eu cheguei ao GAPA pela via da Faculdade e acabei entrando para a vida da instituição. Naquela época o GAPA, localizava-se na Baronesa de Itu, bairro de Santa Cecília. Antes de ir para a instituição eu conheci o José Carlos Veloso, que já pertencia ao quadro da diretoria, num churrasco na casa de uma amiga na Penha. Um dia, logo nas primeiras semanas, eu estava sentado na recepção esperando a Psicóloga Meiga Maria Salerno Rosa, que fazia parte da equipe da psicologia, quando o vi passar. Conversamos e ele me deu as boas-vindas. A partir daí já havia mais uma referência dentro da instituição, além do Valdemar Alves que eu havia acabado de conhecer e fazia parte da diretoria.
Um dos grandes nomes do GAPA foi Paulo César Bonfim, idealizador e fundador da instituição, que fez parte daqueles construtores da resposta brasileira e paulista ao HIV/AIDS. Eu não cheguei a conhecê-lo, pois ele faleceu em 1992, no mesmo ano da morte do ativista Herbert Daniel, do Grupo Pela Vidda/RJ, outro grande ativista que cunhou o termo “Morte Civil” para chamar atenção dos efeitos da discriminação e estigma sobre a pessoa que vivia com HIV/AIDS. O Paulo Bonfim foi coordenador do PM IST/AIDS de São Paulo que, se não me falha a memória, foi um dos primeiros militantes a atravessar a ponte que separa as organizações não governamentais e o Estado, para trabalhar numa instituição de governo. Mas, pelo que sei, ele continuou atuando no GAPA. Aliás, a instituição contou durante muito tempo com voluntários que trabalhavam em vários serviços públicos, como o psiquiatra Theodoro Israel Pluciennik, que com o tempo virou nome de prêmio criado pelo NEPAIDS (Núcleo de Estudos para Prevenção da AIDS) da Universidade de São Paulo (USP) no final da década os anos 1990. O Paulo era funcionário do Hospital do Servidor Público Estadual. A formação do GAPA contou com a participação de vários ativistas, intelectuais, professores, artistas entre outros atores, juntamente com alguns profissionais da SES-SP.
No GAPA, além do Paulo, tinha a Áurea Celeste da Silva Abadde, advogada e militante, que entrou com o primeiro mandato de segurança contra o governo do Estado de São Paulo para adquirir os antirretrovirais para a militante Nair Brito. Essa ação abriu o caminho para outras pessoas e militantes entrarem com o mesmo processo para garantir a manutenção de suas vidas. A Áurea abriu um novo “campo” do Direito, que foi aquele relacionado às PVHA. Ela é a única fundadora que está viva.
A Nair, com tempo também foi trabalhar na gestão pública (CRT IST/AIDS), ampliando o rol de ativistas que foram atuar na gestão pública. Eu, quando cheguei ao GAPA, boa parte deste corpo de técnicos e voluntários ou já havia saído, ou foram a óbito. O GAPA foi uma das primeiras grandes instituições brasileiras voltadas para o HIV/AIDS, apoiadas, inicialmente, por agências e instituições internacionais, tais como a Fundação Ford, Fundação MacArtur, Fundação Levi Strauss, entre outras. Naquela época não havia financiamento governamental, como existe nos dias de hoje.
O GAPA também auxiliou várias instituições a se constituírem em muitos estados da nação, e, muitas dessas, com o tempo formaram a Rede GAPAS que ampliou o campo social e político de apoio às pessoas vivendo com HIV/AIDS, prevenção e suporte jurídico, assim como à defesa dos direitos humanos e da política nacional de saúde para o enfrentamento da epidemia.
Coordenação do Grupo de Ajuda Mútua no GAPA
Assim que entrei no GAPA, logo comecei a auxiliar a coordenadora do Grupo de Ajuda Mútua em suas atividades, mas confesso que não me lembro do nome dela agora. Era uma grande psicóloga.
O grupo tinha uma função terapêutica, mas não pretendia ser um espaço de psicoterapia em grupo. Foi constituído para ajudar as pessoas soropositivas e seus familiares, amigos e amores a lidar com o HIV/AIDS, principalmente aqueles que haviam descoberto há pouco tempo o seu status sorológico. As reuniões aconteciam uma vez por semana numa ampla sala da instituição (Figura 3). Se não me falha a memória, todas as quartas-feiras das 19 às 21hs. O grupo também acolhia as pessoas que não eram soropositivas e que vinham acompanhando algum parente ou amigo. Ali você encontrava: mães, filhos, avós, gestantes e gays, enfim uma comunhão de pessoas que estavam sendo afetadas pela epidemia naquele momento. O grupo era um espaço de passagem, aonde as pessoas chegavam, se fortaleciam e iam embora. Algumas ficavam, mas a maioria não. Outros paravam de frequentar as reuniões para fazer psicoterapia individual que era oferecida pela instituição.
Um dos casos mais emblemáticos, que me lembro do grupo, foi de uma gestante que havia descoberto o HIV no seu sétimo mês de gestação. Ela havia ficado viúva e casado novamente, e, pelos exames realizados com atual parceiro, constatou-se que ela havia sido infectada pelo ex-marido. Essa gestante procurou o GAPA para lhe auxiliar naquele processo de descobertas e incertezas, pois ela carregava uma menina que iria nascer e poderia ser infectada no momento do parto. A nossa gestante estava fazendo todos os acompanhamentos necessários e a sua saúde estava ótima, o que reduzia as possibilidades de a criança ser infectada no momento do parto, mas a angústia morava no seu coração, e isso, era compartilhado e trabalhado no grupo. Uma das pessoas especiais que ajudou a nossa gestante a lidar com aquele turbilhão de emoções foi a psicóloga Nair Kaminski que fazia um trabalho corporal para auxiliar o grupo a liberar as suas angústias que enrijeciam os músculos da maioria dos seus participantes. Em um destes encontros eu me emocionei com a nossa gestante, pois, ela chorou compulsivamente a dor causada pelo medo ancestral de uma mãe perder o filho e, essa cena, ficou marcada para sempre em mim. Nessa noite, em especial, tivemos também outras narrativas: uma avó que estava angustiada, não pelo HIV/AIDS, mas pela possibilidade de não conseguir namorar mais; um jovem casal heterossexual que estava bem unido e disposto a enfrentar a aquela nova realidade, mas não me lembro se ambos eram soropositivos ou somente um dos parceiros; e, um jovem profissional do sexo muito revoltado, que estava encerrando um tratamento para tuberculose e tinha abandonado o seu trabalho na Itália devido ao HIV/AIDS.
O grupo de ajuda mútua me proporcionou vivenciar a expressão da dor do outro causada pelo HIV/AIDS, e seus impactos na vida presente e futura de cada um. Cada pessoa criava suas respostas para enfrentar os seus desafios de viver ou conviver com a doença. Isso me auxiliou a conhecer um pouco de mim mesmo e orientar a minha práxis na defesa do direito à saúde da PVHA que começava a criar forma na minha consciência política.
Atendimento como psicólogo no GAPA
Com o tempo eu acabei assumindo o grupo de ajuda mútua, após a saída da psicóloga que também coordenava o grupo de psicólogos do GAPA. Devo muito ela, pois me ajudou muito na minha formação como psicólogo.
Depois de formado, comecei a atender como psicólogo, principalmente pessoas que também chegavam à instituição encaminhadas pelos serviços de saúde, por indicação de outras pessoas, ou espontaneamente após saber pelos meios de comunicação. Um caso interessante, que me lembro, foi de um menino que começou a questionar a mãe sobre o excesso de medicamentos que tomava todo dia. Esse garoto, não sabia que era soropositivo, e a mãe nos procurou para lhe auxiliar naquele momento de revelação diagnóstica. A revelação diagnóstica para crianças e adolescentes foi, e a inda é, um desafio para vários profissionais de saúde e pais. Outro caso interessante, foi de um homem adulto, que não nos procurou para lhe auxiliar, e sim, para ajudar o seu amigo e confidente, que estava muito angustiado, pois, não podia dividir com ninguém as suas angústias, que na verdade eram geradas pelo amigo soropositivo.
No GAPA, eu comecei como voluntário e passo a ser
psicólogo e conselheiro. Nesse momento, os militantes e membros da diretoria José Carlos Veloso, Áurea Celeste da Silva Abadde, Wildney Feres Contrera e Valdemar Alves, começaram a perceber que eu possuía algumas competências e me colocaram em alguns trabalhos de mais visibilidade.
Grupo de Ajuda Mútua da Penitenciária Nilton Silva II de Franco da Rocha
Um dos trabalhos importantes no GAPA foi a minha ida para auxiliar o José Carlos Veloso e a Wildney Feres Contrera num treinamento sobre prevenção às IST/HIV/AIDS para os profissionais e estagiárias de Serviço Social da Penitenciária Nilton Silva II de Franco da Rocha, realizado em 1999. A penitenciária fica na Estrada Edgar Máximo Zambotto, km 44,5 no 354 – Fazenda São Roque, cidade de Franco da Rocha (Figura 4). Esse treinamento foi solicitado pelo Marcos, um psiquiatra que procurou o GAPA para realizar ações de prevenção pois percebia o aumento dos casos de HIV/ADS na penitenciária. Na época, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) estava realizando ações de prevenção às IST/HIV/AIDS, por meio da técnica de psicodrama, conhecido na época como “drama”, mas, esse projeto ainda não havia chegado naquela unidade prisional, que tinha sido uma das últimas construídas pelo governo estadual. O treinamento foi um sucesso. Todos os profissionais das várias áreas da penitenciária foram capacitados para realizar ações de prevenção e atenção aos presos com HIV/AIDS. As estagiárias de serviço social reproduziram o treinamento para toda população carcerária, repetindo o mesmo sucesso e colaborando para ampliação da testagem para HIV e melhoria do clima em alguns dos raios , segundo informações do Marcos.
As estagiárias começaram a realizar os treinamentos e eu passei a fazer supervisões e reuniões com o Marcos para acompanhar essa nova rotina de trabalho de prevenção na penitenciária, e me lembro de que numa dessas oportunidades, perguntei para o Marcos:
– Você não acha interessante criar um grupo de ajuda mútua com os presos soropositivos para trabalhar a adesão ao tratamento do HIV/AIDS?
Marcos gostou da ideia e me pediu para preparar uma proposta para apresentarmos ao diretor da penitenciária. Conversei com a diretoria do GAPA e todos acharam interessante e autorizaram o trabalho. Preparei a proposta para o Marcos, que validou e marcamos uma reunião com diretor, a coordenação da educação e coordenação da carceragem, para apresentar a proposta, que objetivava promover a adesão ao tratamento de presos soropositivos com vistas a redução da morbimortalidade relacionada ao HIV/AIDS. O diretor aprovou a proposta e partimos para os cumprimentos protocolares e os acertos para torná-lo uma realidade, onde tivemos um grande apoio da coordenadora de educação, que viria se tornar uma das grandes parceiras do projeto. A partir daquele momento, estava criado o Grupo de Ajuda Mútua da Penitenciária Nilton Silva II de Franco da Rocha. Eu acho que ele deve ter sido um dos primeiros trabalhos desse gênero no Brasil.
O trabalho começou com o Marcos fazendo o convide para todos os soropositivos da penitenciária para participarem do grupo. Os que aceitaram foram encaminhados para uma reunião individual ou coletiva comigo. De posse dos nomes, eu estudava os prontuários dos indicados e, nas reuniões, apresentava o projeto e conhecia um pouco da história de vida de cada membro como um meio para adequar os trabalhos à realidade do grupo. De todos os convidados, somente um não quis participar do grupo.
O grupo era bem diverso. Havia os faxinas, que eram as lideranças e responsáveis pela limpeza e apoio na condução da cozinha, oficinas, futebol, etc.; uma liderança de uma organização criminal; um segurança, três jovens, sendo um deles bem debilitado de decorrência das sequelas da AIDS, um grande traficante da região de Campinas e zona norte de São Paulo, um taxista, que acabou sendo auxiliar dos enfermeiros e técnicos de enfermagem no cuidado dos presos que ficavam internados na enfermaria, um jovem que foi violentado duas vezes por mais de vinte homens e três homens adultos na faixa etária dos 35 anos que eram líderes nas oficinas de trabalho.
As reuniões do grupo aconteciam aos sábados, das 14 às 17hs, numa sala de aula da penitenciária, esse dia, também era dedicado à limpeza dos raios, pois, as visitas eram realizadas aos domingos. Na sexta-feira eu encaminhava à coordenadora da educação a relação dos participantes do grupo para ela comunicar a carceragem, que no sábado às 13h45min... passava em cada cela para acompanhar os reeducandos à sala que usávamos para as reuniões do grupo. Para as reuniões ficou acordado que um carro da penitenciária me pegaria todos os sábados ao meio-dia, após os meus atendimentos no serviço de psicologia, na porta do GAPA, que nesta época tinha mudado para a Avenida Pompeia, para me conduzir a Franco da Rocha; eu levaria os materiais informativo-educativos e preservativos; o Marcos compraria e disponibilizaria as bolachas; a penitenciária forneceria o café; e, o Marcos me conduziria até a estação do Metrô Barra Funda após o encerramento das atividades. Definimos o dia e horário das reuniões de acordo com os plantões do Marcos, que eram todos os sábados.
Nos dois primeiros meses, o trabalho em grupo foi muito difícil, pois, eles me viam como um “salvador da pátria” faziam uma série solicitações desde entrar em contato com a família para pedir algum tipo de apoio até advogados para reduzir o tempo de algumas penas. Foram meses difíceis, pois além dessas solicitações os funcionários da penitenciária achavam que não deveríamos investir em ações para saúde de bandido, pois, eles eram criminosos e não mereciam a nossa atenção. Além de tudo isso, vivenciei o medo de acontecer uma rebelião enquanto estivesse trabalhando. O medo era uma realidade devido às várias rebeliões nas penitenciárias do Estado de São Paulo, que estavam acontecendo entre os anos de 1999 e 2000. Se não me falha a memória, a única que ainda não tinha tido uma era a nossa. A penitenciária Nilton Silva I, que ficava em frente a nossa, já havia experimentado uma rebelião.
Todas estas impressões e vivências me faziam refletir sobre o meu papel de educador e profissional de saúde naquela penitenciária, pois parecia que estávamos nadando contra a corrente, até que num encontro percebi qual era a minha real colaboração.
Naquele sábado, chegou ao grupo um dos participantes em cadeiras de rodas, bem debilitado. Sua presença fez o grupo fazer um silêncio constrangedor. Percebi que todos ficaram impactados com aquela situação. Penso que, naquele momento, todos perceberam a face do HIV/AIDS presente naquele espaço, isto é, não tinha como fugir de uma realidade que poderia vir a ser de cada um. A partir daquele momento, eu tomei o comando do grupo, com a permissão de todos as várias solicitações foram encaminhadas para assessorias jurídicas gratuitas. Quando podia eu entrava em contato com as famílias de alguns.
Para cada reunião de grupo tínhamos um tema que conseguíamos trabalhar na maioria das vezes. Por exemplo: adesão ao tratamento, alimentação, prevenção às IST/HIV/AIDS, entre outros. Porém, algumas vezes, não conseguimos fazer nenhuma discussão envolvendo temas relacionados ao HIV/AIDS. Nesse momento, o tema era substituído por alguma discussão urgente, como por exemplo, uma briga que gerou desconforto afetando o clima na penitenciária. Essas discussões me fizeram perceber que não era pelo fato de ter um grupo formado por soropositivos que todas as reuniões seriam em torno de temas relacionados ao HIV/AIDS. Aquelas pessoas tinham outras necessidades e, por ser um grupo que aglutinava reeducando de todos os raios, era esperado que eles utilizassem aquele espaço para discussão de temas caros ao convívio social. Lembro-me de um desses dias onde eles trouxeram o caso de um faxina que cuidava dos esportes e, num belo dia à tarde, durante um jogo de futebol, ele foi massagear um preso (aquela liderança de uma facção criminosa, que fazia parte do grupo), que havia levado uma entrada brusca de outro jogador e, segundo o relato do grupo, no meio da massagem se empolgou e passou a mão nas partes íntimas do jogador. Aí a situação ficou tensa. Ele foi levado a julgamento, com “júri” e tudo, e foi considerado culpado por dois “crimes”: um pelo assédio sexual, e, o outro, por mentir para bandidagem sobre a sua orientação sexual. Ali, nenhum homossexual, ou travesti, ou mulher trans poderia ser faxina, era uma regra tão rígida que esses se alimentavam em cumbucas de cor diferente (eu acho que eram vermelhas) de outros presos. Esse era um dos códigos utilizados para discriminar a posição social de cada membro daquela população. Apesar dessa discriminação, os gays e travestis e mulheres trans eram bem considerados, os demais presos não gostavam de gays não assumidos.
Naquele grupo conheci histórias de homens, que me faziam refletir sobre a nossa humanidade, tais como, um rapaz que descarregou uma arma na cabeça de uma menina de 16 anos por acreditar que ela o havia infectado com o vírus HIV; de outro, que incinerava aqueles que lhe traíam para a política, pois era uma forma de sumir com essas testemunhas; o outro se soubesse que o crime compensava tinha começado bem mais cedo; um que gostaria de saber se poderia processar o Estado, pois, se ele é responsável pela sua guarda e o deixou ser infectado pelo HIV nos dois estupros coletivos que sofreu; e um que, quando saiu de liberdade, caminhou sozinho da penitenciária até a Vila Mariana, mais ou menos 50 km de distância. Vi homem com poder assumir a sua bissexualidade ativa para aos demais, isto é, o fato de se relacionar com outro homem exercendo o papel social masculino, aquele que penetra, não lhe maculava a sua masculinidade e o poder de liderança. O caso do jovem que foi violentado sexualmente duas vezes por mais de vinte homens, uma dessas violências ocorreu quando estava preso no Cadeião de Pinheiros e a outra foi em Franco da Rocha, segundo o seu relato, e, com o tempo, foi transferido para o regime semiaberto, mas acabou fugindo. Apesar da sua fuga, eu sempre tinha informações sobre ele e, numa dessas comunicações, ele mandou perguntar se fosse fazer seu tratamento em unidade de saúde poderia ser preso. Eu mandei avisá-lo que não, mas não sei se ele realmente foi procurar um serviço especializado em IST/HIV/AIDS. Eu não entendi por que ele fugiu, pois no semiaberto você está prestes a sair, não sei se ele ainda continuava a ser molestado, e devido a isso preferiu fugir. São relatos como esses que muitas vezes eram trazidos para o grupo.
Outro ponto bacana deste trabalho foi a transformação do espaço da enfermaria com cartazes e preservativos que deixávamos expostos para os presos, e a ampliação do número de testes anti-HIV que eram solicitados para mim.
Durante o trabalho na penitenciária eu somente fiquei apreensivo duas vezes quando cheguei para o trabalho e fui impedido de ir para a sala de aula, devido a possibilidade da cadeia “virar”, isto é, de ter uma rebelião, nesses momentos, ficava trabalhando na enfermaria com o Marcos.
O grupo foi uma experiência muito rica e muito intensa, eu ficava numa sala com todos os reeducandos, sem a presença dos carcereiros e com toda liberdade para realizar o meu trabalho.
Ações na RNP+ (1998/2005)
A RNP+ é um coletivo de pessoas vivendo com HIV/AIDS, que nasceu em 1995, durante o encontro nacional dos grupos Pela Vidda Rio e Niterói, conhecido como “Vivendo”, na cidade do Rio de Janeiro, principalmente nas dependências do Hotel Glória. Nesse espaço dez militantes brasileiros lançaram a ideia para constituição de uma rede de pessoas vivendo com HIV/AIDS, semelhante às redes que estavam se constituindo em várias partes do mundo, seguindo o modelo preconizado pela GNP+ (Global Network for and by People Living with HIV/AIDS).
Em 1996, a RNP+ começa a se ramificar pelo país, fortalecendo-se a cada encontro de ONG e PVHA, como o Encontro Nacional de ONG (ENONG) em São Paulo e o VI “Vivendo”. Em 1997, em Brasília 65 membros articulam os objetivos principais para esse movimento social, contando com os apoios do GADA (Grupo de Apoio ao Doente de AIDS) de São José do Rio Preto e DIAHV, que viabilizaram a realização de cinco encontros regionais: Região Sudeste em São José do Rio Preto/SP (1997); Região Nordeste em Recife/PE (1997); Região Norte em Belém/PA (1998); Região Sul (1998); e, Região Centro-Oeste em Goiânia/GO (1998).
Eu fui convidado para participar do encontro de São José do Rio Preto, onde foi aprovada a carta de princípios e eu ganhei o concurso do logotipo da RNP+ (Figura 5). Aliás, eu ganhei em primeiro e segundo lugar. A marca foi concebida em parceria com um grande amigo e homem de propaganda, o João Candido.
Nesse encontro, tive oportunidade de conhecer as maiores lideranças do MOVAIDS, apesar de ser um encontro da Região Sudeste, concentrou militantes das várias partes do Brasil.
Os(as) ativistas idealizadores(as) da RNP+ queriam um movimento social de PVHA, que pudessem falar por si mesmas e não por meio de interlocutores das ONG. Apesar de ser uma rede PVHA, esse movimento social sempre contou com o apoio de várias instituições públicas, privadas, ativistas de vários seguimentos sociais e pessoas que não viviam com HIV/AIDS.
A RNP+ começa a criar vários grupos de ajuda mútua, capacitações, encontros e seminários por todo Brasil. Eu passo a ser convidado para participar e apoiar com temas específicos, como: saúde emocional de militantes, adesão ao tratamento, política de financiamento para às IST/HIV/AIDS, comunicação visual, entre outros (Figura 6). Essas capacitações e debates auxiliaram na minha formação técnica e política como um militante em construção, pois, me ensinou que todo encontro pode ser uma oportunidade para aprendizagem, isto é, sempre estamos aprendendo. A RNP+, também me ensinou, que na militância, devemos cuidar uns dos outros por meio, do afeto e acolhimento e suporte, nos momentos difíceis e nas alegrias. Por que não?
Na minha passagem pela RNP+ conheci mais uma legião de ativistas e ganhei novos amigos, como o Beto Volpe, autor do livro: Morte e Vida Posithiva.
Para mim, a RNP+, foi uma grande escola de militância, acho que a segunda, pois, a primeira foi criada pelas ONG das décadas de 1980/1990. Ela me ampliou os horizontes do ativismo. Foi o GAPA que me deu a oportunidade de acessar os grupos de militantes da rede, onde eu tive a oportunidade de aprender mais profundamente sobre o universo da militância do HIV/AIDS.
VI - 2000 a 2008 – Trajetória profissional no Programa Municipal de IST/AIDS de Catanduva
Acesso à gestão pública pelo PM IST/AIDS de Catanduva
No início do ano de 2000 tive a oportunidade de trabalhar numa casa de apoio para crianças e mães vivendo e convivendo com HIV/AIDS, numa cidade da região metropolitana de São Paulo, antes da minha mudança para Catanduva. Eu atuei na instituição, durante um curto período, que me proporcionou entrar em contato novamente com crianças soropositivas e suas mães ou cuidadoras residentes em casas de apoio. Essas pessoas eram oriundas das camadas sociais mais carentes, com várias narrativas de violência em suas trajetórias de vida. Nessa organização tentei ser um psicólogo de cerca de quarenta e cinco crianças e uma dúzia de mães e cuidadoras. Confesso que não foi nada fácil, pois, tinha mais demanda do que condições para atender aquela realidade. Eu me lembro de alguns processos dolorosos que muitas daquelas crianças vivenciaram como de uma que viu a mãe ser morta por traficantes numa região do extremo leste da capital e, outras, que estavam esperando seus pais saíram das instituições onde estavam fazendo tratamento de dependência química. Ali percebi, que por mais carentes que fosse o lar daquelas crianças, mesmo assim elas preferiam as suas casas do que aquela organização onde estavam longe dos seus familiares e amigos.
Espero que todas aquelas crianças, mães e cuidadoras, possam ter evoluído para uma situação social melhor, voltando aos seus lares ou de pessoas que possam lhe proporcionar carinho e uma possibilidade de futuro.
Apesar da minha curta estadia naquela organização, eu tinha a consciência que era necessário vivenciar aquela experiência para poder seguir em minha estória em Catanduva.
Sobre Catanduva, para enriquecer o nosso texto: a cidade se localiza na região Noroeste a 396 km da capital do Estado de São Paulo; conta com 112.843 habitantes, sendo desse total: 54.777 o número de homens e 58.066 de mulheres, de acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2010; é cortada pela Rodovia Comendador Pedro Monteleone (SP-351), conhecida como a Rodovia da Laranja, e a Rodovia Washington Luís (SP-310); tem um polo industrial variado, com forte presença da produção de ventiladores (é conhecida como a “Capital dos Ventiladores”) e é a quarta maior região sucroalcooleira do Estado; possui 32 unidades de saúde que atendem o SUS e quatro hospitais, sendo três prestadores do SUS, com 628 leitos. A cidade ainda é a referência para à atenção ao HIV/AIDS para 18 municípios da microrregião.
A minha relação com a cidade de Catanduva, começou em 1997, quando conheci alguns ativistas que militavam em instituições com base no município. Desse grupo, conheci o Jair Affonso, que viria a se tornar um grande companheiro e a pessoa que me indicou para o Dr. Ricardo Santaella Rosa, então coordenador do PM IST/AIDS e da área de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal da Saúde. Em julho de 2000, a ADT (Assistência Domiciliar Terapêutica) do PM IST/AIDS, abriu uma vaga de psicólogo para compor a sua equipe multiprofissional (Figura 7).
A ADT, fazendo uma livre conceituação, pode ser considerada uma assistência prestada no domicílio para pacientes com sequelas decorrentes da AIDS. Esses pacientes, geralmente, obtiveram alta hospitalar, porém ainda necessitam de cuidados de baixa complexidade ou paliativos, que serão realizados por uma equipe formada por vários profissionais como: médico, psicólogo, enfermeiro, assistente de enfermagem, assistente social, fisioterapia, motorista, entre outros, dependendo da missão da ADT, que na maioria dos casos, é definida por uma unidade especializada em IST/HIV/AIDS, ao qual está subordinada.
O Jair conversou com o Dr. Ricardo e, num desses encontros que a vida proporciona, comentou que se ele precisasse de um psicólogo, lembrasse-se dele, pois havia um profissional para indicar. O Dr. Ricardo comentou que realmente estava precisando, pois, a psicóloga da ADT tinha acabado de se desligar da equipe. Depois desse encontro, Jair me ligou e solicitou que encaminhasse o meu curriculum para o Dr. Ricardo, que, na sequência, já agendou uma entrevista numa tarde de domingo daquele mesmo mês. Dessa conversa saiu a minha contratação para a ADT, o meu ingresso na saúde pública e o início da minha transição do movimento social para o movimento estatal de luta contra a AIDS.
Em 1º de setembro de 2000, eu assinei meu contrato para atuar, primeiramente, como psicólogo na ADT, depois, passaria a responder pela área de prevenção e em 2005 pela coordenação geral do PM IST/AIDS.
Catanduva me proporcionou conhecer uma das muitas epidemias do HIV/AIDS do Estado de São Paulo, pois, a cidade e região, apresentavam taxas com alta prevalência de AIDS entre homens e mulheres heterossexuais e usuários de drogas injetáveis, com baixa escolaridade, pertencentes às classes sociais mais empobrecidas. Essa epidemia era diferente daquela existente na capital, mais centrada em populações de homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e usuários de drogas, segundo os dados epidemiológicos da época.
Assistência Domiciliar Terapêutica (ADT)
Na ADT, passei a atender um grupo de usuários do Serviço de Assistência Especializada em IST/HIV/AIDS, que ficava no Hospital Emílio Carlos, conhecido na época como “MI” (ambulatório de moléstias infecciosas), que recebiam alta da internação para a realização do acompanhamento em sua residência. Esses pacientes apresentavam sequelas decorrentes de doenças oportunistas, geralmente com comprometimentos motores, neurológicos, respiratórios e emocionais. A maioria dos pacientes eram oriundos de famílias bem empobrecidas, residentes em bairros mais periféricos da cidade. E alguns casos, pertencentes a igrejas neopentecostais cristãs que asseguravam a cura por intermédio de Deus o que para nós era um obstáculo à mais a ser superado, pois tínhamos de trabalhar com a expressão humana de uma “fé cega”. Nesse caso, eu sempre procurava utilizar algumas interpretações do senso comum sobre várias passagens bíblicas, como tentativa de abertura para um possível diálogo sobre a importância da adesão ao tratamento, como por exemplo: Não cai uma folha de uma árvore se Deus não permitir, que pode ter sido uma interpretação do livro de Ezequiel 17:24: Então, todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o SENHOR, que abate a árvore soberba, e exalta o humilde arbusto, que seca a árvore verde, e faz florescer a árvore seca. Eu, o SENHOR, o disse e o farei” . Eu ainda colocava para alguns destes pacientes que se Deus deu a sabedoria ao homem para criar a medicina, será que não foi para o próprio homem curar as suas doenças? Esse e outros artifícios eram usados para tentar demovê-los da ideia de abandonar o tratamento devido a cura divina e, ainda pedia que alguns mostrassem os resultados de exames de CD4 (contagem dos linfócitos T-4, que são células conhecidas como os “generais” do exército em nosso sistema imunológico) e Carga Viral (quantificação do HIV no plasma sanguíneo) para os seus pastores, após os milagres, mas, isso era rechaçado por todas as suas convicções.
Eu penso que atribuir a cura de uma doença crônica a Deus, pode ser uma forma de negar a sua existência e, por extensão, abrir mão do tratamento medicamentoso. No caso do HIV/AIDS, ainda existe o peso de seu estigma. Uma das falas recorrentes desses pacientes, que me lembro, era sobre a sensação de aprisionamento do seu corpo numa cama ou cadeira de rodas. Eles e elas se sentiam presos num corpo enfermo, inválido, sem liberdade para transitar pela cidade, amar e ter relações sexuais. A sensação de impotência diante do HIV/AIDS era algo que marcava muito o discurso dos pacientes e a religião se apresentava como uma saída para essa realidade. Religião e saúde eram temas que perpassavam pelo atendimento psicoterapêutico aos pacientes e seus familiares, onde a primeiro era visto como aporte emocional e social para a sustentação do segundo, isto é, no auxílio ao viver e conviver com o HIV/AIDS.
Na tentativa de fazer o meu trabalho como um profissional laico, eu já cheguei a ser expulso várias vezes da casa de uma paciente pela sua mãe, que não gostava da nossa presença em sua residência. A mãe se utilizava de cabo de vassoura, água e xingamentos para me retirar da sua casa e falava que nós mais atrapalhávamos do que ajudávamos a sua filha. Essa própria mãe também era alvo do nosso auxílio. Claro quando ela estava receptiva, pois apresentava em uma das pernas uma ferida que nunca curava e era “protegida” por faixas de gazes sujas, além de ter unhas enormes e sujas e um cabelo embalado por lenços sujos. Enfim, era uma senhora que também havia se abandonado, pois não cuidava de si e nem da sua filha e netos. Essa família residia num barraco à beira da linha do trem sem saneamento básico e com esgoto a céu aberto à sua porta. Dormiam em camas sustentadas por lixo reciclável recolhido nas ruas do bairro. Um dos moradores da casa, um menino com cerca de 11 anos, que era especial, costumeiramente transitava sem roupas pela linha do trem, o que lhe proporcionava acidentes. Era comum vê-lo com um dos braços ou pernas quebradas. Outro medo que nos assombrava era o fato desse menino poder ser vítima de violência sexual, pois estava sempre sem roupas. O desfecho desse atendimento da ADT foi o recolhimento do menino a uma instituição social de crianças; a paciente e sua família foram transferidos para um novo bairro com casas de alvenaria, mas sem luz elétrica, asfalto e transporte urbano; o filho mais velho da paciente começou a usar drogas ilícitas mais destrutivas, passando da maconha ao crack; depois de mais ou menos um ano após a mudança, a mãe e a paciente vieram a óbito. A paciente morreu acreditando na cura divina para o seu HIV.
Encontrei outros cuidadores e pacientes, que me mostraram como a fé pode ser um instrumento individual ou coletivo para estimular à PHVA a lutar pela sua vida diante de contextos sociais excludentes, como a extrema pobreza e a fome. Pessoas que criaram pactos para enfrentar a patologia do outro ente querido e o seu contexto social, unidos pela fé e a certeza de um porvir melhor. E isso é maravilhoso, essas pessoas me ensinaram muito sobre a vida humana e a capacidade de superação. Várias dessas pessoas não tinham completado seus estudos básicos, mas, tinham uma sabedoria peculiar sobre a vida e o viver com dignidade. A ADT me fez conhecer uma face da epidemia, que até então conhecia à distância, do HIV/AIDS no seio da população heterossexual e empobrecida.
Outro caso interessante que vivenciei na ADT, foi o de um jovem, que tinha acabado de fazer o tratamento para tuberculose e consumia diariamente pedras de crack em um barraco numa praça próxima da sua casa, com outras pessoas, além de reclamar que não tinha sono e apetite. Diante desse cenário propus a ele uma ação para reduzir os danos do uso do crack, já que ele tinha resistência a qualquer possibilidade para trabalhar a sua dependência em espaços terapêuticos, ou grupos de ajuda. Foi um desafio para todos, pois, com o uso constante do crack, a dificuldade para se alimentar e dormir, possivelmente, o seu quadro de saúde que começara a se estabilizar voltaria a piorar e, nesse caso, poderia ter consequências gravíssimas. Eu acabei propondo para o nosso paciente começar a substituir, dentro das suas possibilidades, o consumo de crack pela maconha, que devido a produção da famosa “larica” , ela abriria o seu apetite e poderia ajudar a melhorar o seu sono, assim como, conversava com ele para evitar usar as “pedras” coletivamente naquele barraco, pois, haveria um grande risco de reativação da tuberculose, fora as outras infecções que ele poderia se expor naquele local sujo, mal ventilado, cheio de ratos, fezes humanas e lixo.
Esse jovem era refratário a fazer tratamentos convencionais para abandonar o consumo de crack e, diante desse desafio, eu fiz uma proposta focada na Redução de Danos, o que me gerou grandes embates com minha equipe de profissionais da ADT, pois, alguns achavam que eu tinha uma parceria com algum traficante. Eles não entendiam o benefício da estratégia para aquele jovem.
A Redução de Danos, como política pública ou ação pública de saúde, visa promover ações para prevenir as sequelas à saúde provocadas pelo uso de drogas, sem interferir na oferta ou consumo. Essa ação foi reintroduzida na saúde pública pelos usuários de drogas injetáveis na Holanda, antes do surgimento do HIV/AIDS, como estratégia para redução das infecções pelo vírus da hepatite C. Quando a epidemia do HIV/AIDS começa a infectar vários usuários de drogas pelo mundo, países como a Austrália e Holanda, retomaram essa estratégia, com o intuito de quebrar a cadeia de transmissão do vírus, por meio da disponibilização de seringas e agulhas associadas às medidas de prevenção, promoção dos direitos humanos e vários tratamentos para redução dos danos causados pela ingestão indiscriminada e incontrolada de drogas. No caso daquele paciente, o uso de drogas ilícitas, para mim era secundário, pois, buscava alternativas dentro das suas possibilidades, para a redução ou substituição do uso do crack, com vistas a melhoria sua da saúde, a redução de novas infecções oportunistas e o agravamento do quadro de AIDS, que poderia leva-lo a óbito. Acredito que se ele quisesse, por livre e espontânea vontade, parar de usar drogas, tínhamos todas condições de encaminhá-lo para uma clínica, mas naquele momento essa possibilidade não existia.
O final dessa história foi bem feliz, pois, o jovem reduziu drasticamente o uso de crack, passando a usar somente no dia do seu pagamento e na sua casa, voltou a ter um sono e alimentação de qualidade e teve alta da ADT. Esse caso demonstrou para nós que a estratégia da Redução de Danos para aquele jovem foi uma ação que ajudou na manutenção do seu tratamento e redução de fatores que poderiam aumentar a morbimortalidade por HIV/AIDS.
A ADT foi uma oportunidade para mergulhar na história de vida de cada usuário e aprendi muito com as suas narrativas. A técnica da história de vida foi utilizada, por exemplo, para auxiliar uma menina soropositiva de 11 anos a vivenciar o luto do pai, que também era soropositivo. No primeiro atendimento que fiz para menina, após o enterro do pai, eu entreguei um caderno para ser utilizado como diário durante o período de luto, nele ela poderia expressar suas angústias, dores e lembranças do seu pai. Combinamos que se ela quisesse me mostrar alguns escritos não teria problema, pois eles poderiam ser tema para as nossas conversas, o que ocorreu durante alguns encontros, mas, depois foi se reduzindo até ela abandonar completamente o diário. Esse processo ajudou a menina a superar a sua dor.
A técnica da história de vida pode nos auxiliar no processo de ressignificação de fatos da nossa história que geraram desconforto e mal estar e, esse processo pode ser terapêutico, isto é, pode nos apoiar a aliviar ou curar algumas dores causadas por esses fatos mal resolvidos no passado.
A menina se transformou numa adolescente e jovem, porém, trazia da sua meninice a dificuldade em aderir ao tratamento. Ela não conseguia tomar os medicamentos na hora correta, faltava muito às consultas e não tinha apoio da mãe, que também era soropositiva e não fazia seu tratamento correto, o que tornava o nosso trabalho mais difícil. A jovem somente passou a aderir ao tratamento quando teve um filho. O nascimento da criança despertou-a para a vida e, a partir daquele momento, ela passou a valorizar a vida. É interessante pensar que, para algumas mulheres, a vida somente começa a ter valor quando ela gera outra vida.
A ADT me proporcionou conhecer várias formas de enfrentamento do HIV/AIDS, viabilizadas por famílias empobrecidas, mas com a esperança da melhoria da saúde daquele ente querido ou tolerado. O HIV/AIDS também pode reacender inúmeras mágoas e feridas no seio das famílias afetadas.
E hoje, olhando para minha atuação na ADT, percebo que ela proporcionou um encontro entre a psicologia e a história de vida, como campos que podem ser percorridos para auxiliar na busca de alívio alguns sintomas incômodos, ou a cura de processos patológicos emocionais gerados num passado, e cristalizado em áreas da consciência humana.
Na época além de atuar na ADT também assumi a coordenação da área de Prevenção do PM IST/AIDS, que em 1998 tinha participado do acordo com o Banco Mundial “AIDS II”, juntamente com outros 35 municípios e a SES-SP. O acordo proporcionou a criação da equipe gestora dá área da Secretaria Municipal de Saúde de Catanduva para às IST/HIV/AIDS.
Projetos de Prevenção às IST/HIV/AIDS, Promoção de Direitos e Articulação Política
Iniciei meus trabalhos no campo da prevenção tendo como base o POA (Plano Operativo Anual), que era o planejamento anual de ações para o controle das IST/HIV/AIDS criado pelo município para acessar os recursos financeiros do acordo de empréstimo do Brasil com o Banco Mundial (“AIDS II”). O POA foi fundamental para a melhoria da infraestrutura do PM IST/AIDS e possibilitou ampliar as ações de assistência, vigilância epidemiológica, gestão, prevenção, direitos humanos e articulação com a sociedade civil.
No primeiro ano às ações foram um pouco tímidas, ficando direcionadas às grandes datas como carnaval e dia mundial de luta contra a AIDS, palestras, oficinas e disponibilização de insumos de prevenção, além das já realizadas pela ONG local. Com a ampliação física e estrutural do programa, deixamos a sala da ADT para ocupar todo o prédio de um lindo sobrado na esquina das ruas Paraíba com a Treze de Maio, no centro de Catanduva.
Do espectro das ações realizadas no município de Catanduva, gostaria de citar quatro de prevenção às IST/HIV/AIDS e promoção de direitos e uma de fortalecimento da articulação entre governo e sociedade civil, que considero as mais importantes que aconteceram durante a minha estadia no PM IST/AIDS.
A primeira foi o Projeto de Redução de Danos “Semeando”, estratégia direcionada aos usuários de drogas injetáveis, que respondiam por cerca de 35% dos casos de AIDS no município. O projeto teve como base outras experiências realizadas em vários municípios do estado, principalmente em Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Sertãozinho, Rio Claro, Santos, São Vicente, Franca e São Paulo. O primeiro passo para criação do projeto foi apresentar a ideia a equipe do PM IST/AIDS, que à primeira vista achou interessante, mas com um certo receio, pois, tratava-se de promover algumas ações delicadas, como a disponibilização de seringas e agulhas para usuários de drogas. Apesar do receio da equipe, o projeto seguiu na sua construção com a minha ida e de três colegas que chamei para atuarem como Redutores de Danos , pois, tinham histórico com o uso de drogas licitas e ilícitas, para participar de um treinamento da APRENDA (Associação Paulista de Redutores de Danos) em São José do Rio Preto onde ficamos uma semana tendo capacitações e vivências no campo e aprendendo como abordar as várias populações mais vulneráveis que faziam uso de drogas. A APRENDA foi a primeira associação de redutores de danos criada no Brasil. O treinamento foi uma experiência muito rica que produziu conhecimento e grandes amizades que trago até o momento. Da capacitação até o início dos trabalhos em Catanduva, levamos cerca de um ano entre a elaboração e a apresentação do projeto aos vários parceiros estratégicos para torná-lo uma realidade, como: o PE IST/AIDS de São Paulo, PM IST/AIDS de Catanduva, Secretário da Saúde, Conselho Municipal da Saúde, Promotoria Pública, Delegacia Seccional e todas suas unidades regionais da Policia Civil, Batalhão da Polícia Militar e todos os seus efetivos, os líderes das comunidades e traficantes. Em 2003, finalmente colocamos o Projeto de Redução de Danos “Semeando” na rua, depois de uma longa jornada de negociações. Acredito que o projeto foi costurado politicamente de uma forma muito astuta, pois envolvemos todos os atores estratégicos que atuavam nos setores estratégicos da sociedade imbricados com o tema “uso de drogas”. Além de ter como um dos apresentadores do projeto o Dr. Ricardo Santaella Rosa, médico de renome na cidade, que dava legitimidade ao projeto. O nosso foco era a redução da transmissão do HIV pelo compartilhamento de seringas durante o uso coletivo de cocaína, pois, se cada um usa individualmente a sua seringa, evitaria receber e transmitir o HIV e outros agentes patológicos.
Nos dois primeiros meses do projeto, trabalhávamos dois dias na semana, no período da tarde, no entorno da Favela do Parque Iracema, distribuindo insumos de prevenção e apresentando o nosso trabalho para os moradores e pessoas que transitavam pela região. No início, o projeto era visto com muita desconfiança entre os moradores, mas até que um dia, encontramos uma moradora e paciente do serviço especializado em IST/ HIV/AIDS, que nos levou para dentro da favela. Eu fui parar num churrasco de um jovem líder da comunidade, onde só havia homens, pois, as mulheres ficavam do lado de fora embaixo de uma árvore observando aquele novo movimento no lugar. Em meio a carnes, cervejas e estórias e feitos valentes daqueles garotos, apresentei o projeto e fiz uma oficina de sexo seguro. Foi uma das oficinas mais singulares que fiz na minha vida, pois, fazia demonstração do uso correto do preservativo masculino em uma prótese peniana em cima de uma mesa com travessa de carne assada e garrafas de cerveja e, em outro momento, enquanto eles comiam e bebiam, apresentava as fotos de várias IST de um álbum seriado. Desse momento rico, saiu uma das permissões para trabalhar naquela parte da cidade discriminada pela sociedade. Os outros dois colegas foram apresentar o projeto à grande liderança do bairro, que também autorizou e nos deu os primeiros códigos de convívio e trânsito no lugar como, por exemplo, à noite, ao adentrar a favela, todos deveriam posicionar a luz da lanterna somente para baixo, pois, quem usava as lanternas para cima e para baixo são os policiais; deveríamos conhecer a Dona Nicinha, que possuía um barraco com forno à lenha que a galera usava para incinerar as agulhas e seringas; e, por fim, o respeito aos moradores. As seringas que não eram incineradas eram entregues para os Redutores de Danos dentro de garrafas de plástico.
O Projeto Semeando, foi uma das mais valiosas experiências profissionais e humanas que tive nestes meus anos de trajetória na gestão e na militância. Ele me proporcionou conhecer um pouco das bases biológicas, psíquicas e sociais que forjam um dependente em álcool e outras drogas; e, de como cada camada social reconhece os seus usuários e aqueles que pertencem as outras classes. Eu percebia que as classes média e média-alta denominavam os seus usuários como doentes, pessoas com problemas ou problemáticos e aqueles pertencentes aos bairros mais pobres, como drogados, craqueiros, viciados e outros rótulos estigmatizantes; que a saúde pública deve dialogar com os moradores de áreas vulneráveis para pensar coletivamente em ações de prevenção às IST/HIV/AIDS e promoção da saúde; e, que quando se trabalha em parceria com a polícia militar e civil, nunca mais somos barrados em suas blitz na cidade.
Durante a minha estadia em Catanduva, sempre que trocávamos de agentes Redutores de Danos apresentávamos o novo membro às lideranças da comunidade para seguirmos com segurança nas ações de campo. A relação entre os Redutores de Danos e os usuários cresceu e floresceu e, eles eram comumente chamados para casamentos, batizados, festas de aniversário e, em muitos momentos, também faziam mediação de brigas de casais e escutavam e orientavam homens, mulheres e travestis sobre outros assuntos. Lembro-me de um caso interessante, de um senhor usuário do projeto, que foi chamar a Zezé, uma das melhores Redutores de Danos que o projeto teve, para acompanhá-lo na sua internação numa residência terapêutica, e isso, demonstrou o nível de confiança entre a equipe e os usuários do projeto. A Zezé acabou falecendo num acidente automobilístico na Rodovia da Laranja e, na tarde do dia anterior a tragédia, ela passou na minha casa para conversar e fechar alguns detalhes para finalização dos relatórios do mês, que sempre encaminhávamos para o Núcleo de Populações Mais Vulneráveis da CE IST/AIDS. A Zezé foi uma dessas pessoas especiais que conheci em Catanduva, que além de Redutora de Danos era Agente de Saúde da Estratégia Saúde da Família (ESF) do Solo Sagrado.
A Favela do Parque Iracema, com o tempo foi destruída pela prefeitura e seus moradores foram remanejados para o Jardim Eldorado, onde continuamos o nosso trabalho, mas numa semana que antecedeu essa mudança, um grande líder local, combinou com os Redutores de Danos que iria montar um palco no centro da comunidade para a realização de uma grande oficina de sexo seguro. Em troca iria entregar cestas-básicas para os moradores, mas, infelizmente isso não chegou a ocorrer, devido ao remanejamento dos moradores para o Jardim Eldorado. No novo bairro, foi impossível realizar a oficina naquele momento devido à junção de outros moradores oriundos de várias regiões da cidade.
O projeto também começou a ampliar as suas atividades (Figura 10), passando a agir em outros bairros periféricos, pontos de prostituição de mulheres, travestis e garotos de programa, batalhas de Funk e Hip-Hop e eventos da cidade. Fizemos parcerias com outros projetos sociais que trabalhavam com usuários de drogas e suas famílias, o que nos abriu as portas para encaminhar aqueles(as) que buscavam um tratamento fechado em clínicas ou grupos de ajuda mútua. Desta parceria saiu a tentativa de criar um Fórum Catanduvense sobre Drogas, que culminou com o Primeiro Encontro Catanduvense Sobre Drogas, realizado no Hospital Psiquiátrico Espírita Mahatma Gandhi (30/11/2007), contando com a presença de todos parceiros, com o objetivo de criar uma agenda coletiva para ampliar as ações de prevenção e assistência aos usuários de drogas, mas, com a minha destituição do cargo de coordenador do PM IST/AIDS, logo após o evento, o projeto não vingou. O projeto encerrou as suas atividades durante certo tempo e foi reativado em 2016.
A segunda foi o Projeto Dama da Noite (2002), criada na mesma linha de ação do Projeto Semeando. Porém, como foco nas mulheres, mulheres trans e travestis trabalhadoras sexuais. As mulheres trabalhavam em casas noturnas conhecidas como “chacrinhas” e as travestis e mulheres trans, em sua grande maioria, nas principais ruas do centro de Catanduva. As atividades eram realizadas durante o dia, geralmente a partir das 14 horas das sextas-feiras, em suas residências ou local de trabalho das profissionais. Neste trabalho descobri que as travestis e mulheres trans transitavam entre Catanduva, Araraquara e Ribeirão Preto, formando uma rota comercial para ampliar os seus ganhos, devido ao arrefecimento, em alguns momentos, do mercado sexual de Catanduva ou a alguma atividade turística das outras cidades. Constatei, também, que travestis, mulheres trans ou gays que queriam trabalhar na Itália, eram subsidiadas por outras travestis a peso de ouro; que Catanduva era o destino escolhido para várias travestis e mulheres trans menores de idade, que já buscavam a colocação de silicone industrial e ingestão de hormônios femininos para deixar o corpo mais atrativo para o trabalho sexual; e, por fim, a dificuldade de sensibilizar alguns profissionais de saúde para orientar as travestis e mulheres trans sobre hormonioterapia e aplicação de silicone industrial.
As travestis e mulheres trans eram formadas por três grupos, segundo as suas próprias classificações: o grupo das antigas e aceitas pela sociedade; o grupo das europeias, que tinham ou estavam trabalhando na Europa; e, por último, o grupo formado pelas novas, que geralmente, despertavam a ira de alguns setores da sociedade, pois, costumavam usar poucas roupas e fazer escândalos nos principais pontos de prostituição. O primeiro e segundo grupos eram bem unidos, pois, tinham a mesma origem e vínculos de amizade, mas, o terceiro, não era bem visto por esses, devido às poucas roupas que usavam e a demonstração dos seios nos pontos de prostituição na cidade.
Apesar de toda a discriminação vivida pelas travestis e mulheres trans no Brasil, acredito que Catanduva era uma cidade bem tolerante, pois, todas estavam presentes em vários bairros, dialogando com seus vizinhos, com vínculos familiares bem enraizados e sem atos de violência física. Isso foi um dos aspectos que me chamou a atenção quando fui morar na cidade, que não se comparava às minhas experiências da Baixada Santista e São Paulo, locais onde sempre presenciei cenas de violência física e verbal.
O trabalho com as mulheres ocorria em suas casas, que eram anexos das boates, sempre após as 14 horas, quando iniciávamos as atividades com: aferição de pressão, revisão da carteira de vacinação, agendamento de exames e consultas, principalmente o Papanicolau, entrega de insumos de prevenção, orientações sobre prevenção das IST/HIV/AIDS e direitos trabalhistas, e, algumas vezes, também fazíamos oficinas de sexo seguro para as novas funcionárias e clientes. O que me impressionou e quebrou meus preconceitos é que, naquele momento, fora do ambiente de trabalho, eu percebia que por traz daquelas mulheres profissionais do sexo, existiam pessoas com desejos, anseios, medos e sonhos, que até ficavam envergonhadas com uma informação sobre os cuidados que todas deveriam atentar para realização de sexo mais seguro. Eu fui percebendo que meus preconceitos não tinham me deixado perceber essas mulheres como pessoas comuns como eu, que também sonhavam com uma vida de realizações como casamento, mudança de trabalho e, também, tinham aquelas que adoravam a sua profissão, comentavam que não eram profissionais do sexo coisa nenhuma, eram putas.
Percebi que algumas profissionais do sexo, acabavam se infectando por IST, por não usar preservativo com seus namorados, que na verdade, tinham outras parcerias ou eram casados, mas para elas, eram aqueles que realizavam os momentos do desfrute ou namoro, de relaxar e viver um amor que fazia bem.
Muitas mulheres defendiam a denominação puta para as trabalhadoras sexuais, como Gabriela Leite, grande ativista, fundadora da Rede Nacional de Prostitutas e da ONG Davida, do Rio de Janeiro, assim o fazia pela sua militância no Brasil e pelo mundo, conforme descrito na reportagem cedida ao Jornal O Regional de Catanduva.
A terceira foi o Projeto Eva (2001) que nasceu para ampliar a divulgação e a disponibilização do preservativo feminino e masculino para as mulheres que acessavam as unidades básicas de saúde.
Os anos 2000 é um marco da entrada do preservativo feminino como mais um insumo à disposição das mulheres para ampliar o leque de ações de prevenção às IST/HIV/AIDS. Inicialmente, o preservativo feminino foi disponibilizado para as mulheres seguindo um critério orientado pelo Ministério da Saúde, com algumas perguntas evasivas relacionadas a quantidade de relações sexuais no mês, entre outras, que não me recordo agora. Hoje, analisando essa situação, pergunto-me qual foi a finalidade desse inquérito? O que fizemos com esta informação? Ela contribuiu para melhorar o que na prevenção às IST/HIV/AIDS para as mulheres? Ainda bem que o Ministério da Saúde abriu mão deste questionário para liberação dos preservativos.
O projeto teve bons resultados inicialmente, acredito que devido ao surgimento do novo insumo, mas com o tempo a sua procura diminuiu. Muitas mulheres relatavam o desconforto causado pela sua introdução no canal vaginal e ruído durante a relação sexual entre outras queixas, apesar das orientações e do marketing que fazíamos sobre os benefícios do preservativo feminino, como aquele apresentado na reportagem do jornal O Regional de Catanduva.
Desde o seu lançamento, observo que o preservativo feminino não pegou no Brasil, além de ser um insumo com valor de mercado muito alto, chegando a custar de cinco a sete vezes mais do que o masculino, que fez o Ministério da Saúde centralizar a sua compra para distribuir aos estados e municípios.
O projeto serviu de apoio para quebrar as barreiras que tínhamos na disponibilização dos preservativos, tais como: definição de quantitativo por população; exigência de carteirinha de saúde ou documento; e, distribuição somente nas unidades de saúde ou ONG. Percebemos que o preservativo deve estar mais próximo da população de forma livre, sem nenhuma barreira impeditiva para o seu acesso e cada um deve pegar a quantidade que quiser nos lugares mais próximos da sua residência ou local de socialização.
Atualmente a disponibilização dos preservativos nas unidades de saúde foi ressignificada, ganhando outros pontos de distribuição como bares, saunas, boates, cinemas, banca de jogo de bicho, salão de beleza, terreiros de Candomblé e Umbanda, entre outros locais de socialização.
A quarta foi a capacitação contínua para as equipes da ESF.
A prevenção às IST/HIV/AIDS para ser efetiva devia buscar a capilarização das suas ações aos rincões da nossa sociedade, principalmente naqueles onde o agente de Estado tem dificuldade em acessar, como as comunidades mais carentes e as populações mais vulneráveis. Pensando nesse desafio, realizamos capacitações em 2004, 2006 e 2008, para os profissionais da ESF, que envolveu os agentes de saúde, enfermeiros, assistentes de enfermagem, psicólogos e médicos (Figura 13). O foco do treinamento era o acolhimento das populações mais vulneráveis: gays, lésbicas, travestis, mulheres trans e homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e usuários de drogas, numa proposta construtivista, onde o conhecimento era dinamizado a partir do saber individual e coletivo, gerando mais possibilidades de sensibilização das práticas cotidianas daquelas equipes. Nestes encontros percebi que vários profissionais tinham discursos conservadores acerca da diversidade de orientação afetiva-sexual e de gênero. Para alguns, Deus tinha criado o homem para a mulher; que respeitavam a pessoa que gostava de outra do mesmo sexo, mas, não concordavam com aquilo, entre outras percepções. Diante dessas falas eu provocava o grupo:
– Como vamos conseguir reduzir às IST/HIV/AIDS, a gravidez não programada e as sequelas decorrentes do uso abusivo de drogas, se não conseguimos respeitar a diversidade de seres-humanos que vivem nos territórios onde vocês atuam? Como eu posso orientar uma adolescente sobre saúde sexual e reprodutiva, sem abrir mãos das minhas verdades e dogmas religiosos, que permeiam a minha subjetividade? Como eu posso falar em defesa de direitos, se eu não respeito o direito dos outros(as) de serem como eles(as) desejam ser? Estes debates aconteceram durante as capacitações e foram muito ricos, pois, cada um percebeu que poderia ser um agente de prevenção e promotor da saúde, utilizando seus conhecimentos, suas práticas e recursos disponíveis na comunidade, sem afetar as suas convicções morais ou religiosas.
Ao final das capacitações sempre presenciamos atitudes de reflexão e falas que nos motivam a pensar que podemos semear boas práticas, como aconteceu e um ano, que não lembro qual foi, onde na avaliação do treinamento, uma profissional revelou sua orientação sexual e como se sentia constrangida pelos comentários dos colegas e, naquele momento, se sentia livre para falar abertamente. E ela também deu oportunidade para as colegas falarem sobre como elas a percebiam no grupo e, nesse diálogo, abriu-se uma possibilidade de melhoria na relação de todos. Foi muito rico.
Um dos resultados que posso comentar desse trabalho foi a ampliação do número de preservativos disponibilizados nas unidades de saúde e nas atividades de promoção de saúde realizados pelas equipes, o PM IST/AIDS passou a realizar mais atividades em parceria com as equipes, vários profissionais capacitados foram contratados para trabalhar como Redutores de Danos, ampliou os encaminhamentos para testagem para HIV e Sífilis nas unidades e o suporte às PVHA residentes nos territórios de abrangência das equipes da ESF.
A capacitação foi um marco para a resposta catanduvense ao HIV/AIDS, pois, foi a primeira vez que o PM IST/AIDS, entrou nas unidades da ESF para realizar uma formação continua, segundo o Dr. Ricardo, e se não me falha a memória, essas eram sempre as primeiras capacitações realizada pela Secretaria de Saúde, após a contratação das equipes, que ocorriam a cada dois anos.
A quinta ação foi o Fórum de OG/ONG das Regiões Norte e Noroeste do Estado de São Paulo (FORUMOGONG). Em 2002, durante o Seminário Estadual “Parcerias e Sustentabilidade de OG e ONG” da CE IST/AIDS de São Paulo, realizado entre 07 a 09 de março de 2002, no Hotel Estância Lynce em Atibaia, um grupo de PM IST/AIDS, Vigilância Epidemiológica das Direções Regionais de Saúde (VE/DIR) da SES-SP e ONG resolveu criar o FORUMOGONG, com o intuito de fortalecer a articulação entre as instâncias de governo e da sociedade civil daquela parte do interior do Estado de São Paulo. O Fórum foi secretariado, inicialmente, pelos articuladores do PE IST/AIDS das VE/DIR de São José do Rio Preto (Zulmira Meireles) e Araraquara (Marcos Ribas), PM IST/AIDS de Ribeirão Preto (Fátima Neves) e Catanduva (eu) e da ONG SEIVA - Serviço Esperança e Incentivo à Vida de Ilha Solteira (Mauro Alves e Edson Gomes). Durante a existência do Fórum, foram realizadas geralmente duas ou três reuniões ano, nas cidades de: Ribeirão Preto (duas vezes), Cedral/São José do Rio Preto, Marilia, Catanduva, Araçatuba, Bauru, Laranjal Paulista, Olímpia, Araraquara, Brotas (Figura 14), Mirassol, Barretos (duas vezes), Jaboticabal e Botucatu.
O FORUMOGONG auxiliou no fortalecimento da articulação entre as instituições estatais e da sociedade civil, com suporte e apoio mútuo aos gestores e ativistas, sempre trazendo a CE IST/AIDS para dialogar sobre pautas relativas a epidemia do HIV/AIDS do interior paulista. Acredito que esse coletivo foi concebido pela conjunção de forças resultantes do imbricamento das vontades políticas de gestores, técnicos e ativistas em responder as nuanças de uma epidemia de HIV/AIDS, particular com elementos específicos apresentados pelo contexto social e político das regiões norte, noroeste e sudoeste do interior de São Paulo. Acredito que é com esforços coletivos que crescemos e nos tornamos gestores, técnicos e ativistas mais unidos, sempre respeitando as especificidades de cada seguimento na defesa de suas ações.
Naqueles anos de atividade, não tínhamos esse contexto político atual que prima pela polarização política e até maniqueísta, onde costumo presenciar alguns discursos de representantes da sociedade civil descredenciando ações, dados e informações produzidas por agentes públicos e vice-versa, atores públicos desqualificando o discurso de ativistas, por motivos políticos, ou puro preconceito. Percebo que para alguns ativistas o que é trazido por alguns representantes de governo não deve ser confiável, mas sim somente aqueles produzidos pelas próprias ONG ou pela academia. Essa postura política, não deve ser boa para a resposta brasileira ou paulista ao HIV/AIDS, pois, pode alimentar as teses das bancadas conservadoras dos poderes legislativo e executivo, que desaprovam ações voltadas para promoção da saúde sexual e reprodutiva nas escolas; ações de prevenção, promoção e direitos humanos voltados para travestis, transexuais, gays, lésbicas, bissexuais, usuários de drogas e profissionais do sexo; e, a redução dos investimentos públicos nos programas estatais e nos projetos sociais para o HIV/AIDS. A crítica a gestão pública deve ser a arma da sociedade civil, porém, não podemos deixar de realçar e valorizar a manutenção da política do SUS para às IST/HIV/AIDS, se não, corremos o risco de jogar fora a água da bacia com a criança junto.
As atividades do fórum foram encerradas em 2008, durante os preparativos para a reunião na cidade de Catanduva devido a minha saída da coordenação do PM IST/AIDS. Infelizmente, o fórum nunca mais se reuniu. Na época, eu não sei se isso ocorreu. Se foi porque ele cumpriu com a sua missão, que era fortalecer a articulação regional entre as instituições públicas e a sociedade civil, ou pelo desinteresse dos seus membros em reativá-lo?
No ano passado o movimento social começou a manifestar a vontade de recriá-lo como instrumento para investir na melhoria da articulação com os gestores, sendo assim, a missão do fórum ainda é bem atual. Para o ano de 2018, Grupo de Trabalho Assessor para Articulação OG/ONG da CE IST/AIDS (GT OG/ONG) vai realizar um encontro para discutir a recriação do FORUMOGONG, que acredito, seja muito bom, pois, vivemos um momento de insegurança diante da política do SUS para às IST/HIV/AIDS e somar forças é fundamental para nos fortalecermos em sua defesa.
O encerramento das atividades em Catanduva
Em 2005, fui convidado a assumir a coordenação do PM IST/AIDS em substituição ao meu mestre Dr. Ricardo Santaella Rosa, com o desafio de gerenciar a gestão da resposta municipal até o início de 2008, quando me desliguei e voltei a atuar na área de prevenção. No dia 30 de junho de 2008 encerrei minhas atividades no município para atuar no Centro de Referência e Treinamento em IST/AIDS e Coordenação Estadual de IST/AIDS de São Paulo, na capital.
Acredito que a minha estadia no município de Catanduva foi muito rica, pois, a sua gestão do SUS me proporcionou as competências para atuar hoje, na gestão pública da CE IST/AIDS e CRT IST/AIDS. Como se trata de uma cidade de médio porte, a máquina pública oferece condições de um técnico acompanhar mais de perto os trâmites dos processos para realização de projetos e a criação de políticas públicas, nos poderes executivo e legislativo, com vistas a atender as demandas locais e da sua microrregião.
O meu projeto em Catanduva teve início, meio e fim vivenciando as emoções mais extremas que senti na vida, desde aquelas que me afagaram o coração, proporcionadas pelo reconhecimento profissional dos meus pares e instituições parceiras, até aquelas vividas que dilaceraram o meu coração por dois anos quando perdi a pessoa que amava em meus braços, devido a um Aneurisma de Aorta Abdominal, em junho de 2003. O falecimento se deu no penúltimo dia do encerramento do acordo de empréstimo com o Banco Mundial e o nascedouro da recém-criada política de incentivo às IST/HIV/AIDS do Ministério da Saúde.
Na manhã do enterro, Catanduva amanheceu iluminada por um sol maravilhoso que me falou à alma.
– O tempo não cessa para que possamos velar nossos mortos e receber a atenção das pessoas que nos querem bem. Ele segue a sua trilha, e nós vamos chorar e sofrer o tempo subjetivo, sempre com ele ao nosso lado, lembrando que a vida continua, e há pressa para enxugarmos as lágrimas e voltarmos a tomar as rédeas de nossa vida.
Catanduva foi a minha porta de entrada para a gestão pública, onde obtive as primeiras ferramentas que colaboraram na minha formação técnica e política imprescindíveis para atuação na resposta local, regional e estadual ao HIV/AIDS.
Para sempre, Catanduva estará comigo.
VI - 2008 até o momento – Trajetória profissional: Coordenação Estadual de IST/AIDS (CE IST/AIDS) / Centro de Referência e Treinamento em IST/AIDS (CRT IST/AIDS) da SES-SP e Programa Municipal de IST/AIDS de São Paulo
A nova trajetória na CE IST/AIDS e CRT IST/AIDS da SES-SP
No primeiro semestre de 2008, já com as minhas convicções em retornar a São Paulo, tive um agradável encontro com Nair Brito, que foi a primeira brasileira a conseguir por meio de mandato judicial contra o Estado de São Paulo, impetrado pela Dra. Áurea Celeste da Silva Abbade, advogada e membro fundadora do GAPA, o fornecimento da terapia tríplice (coquetel) em 1995, um ano antes de ser apresentada ao mundo, pelo virologista David Ho, durante a XI Conferência Internacional sobre HIV/AIDS, no Canadá. A conquista de Nair e Áurea colaborou na abertura de caminhos políticos e técnicos para que o Ministério da Saúde começasse a disponibilizar universalmente os antirretrovirais às PVHA, marco esse, consolidado pela Lei nº 9.313, de 13 de novembro de 1996, apresentada pelo ex-presidente e Senador José Sarney, que disponibilizou gratuitamente os medicamentos aos portadores do HIV/AIDS.
Naquele encontro, Nair convidou-me para atuar na Direção do Núcleo de Articulação com a Sociedade Civil da Gerência de Planejamento da CE IST/AIDS porque estava saindo para assumir outras atividades na coordenação, e me disse:
– Jean, você seria um cara interessante para ocupar o meu lugar, pois tem experiência de movimento social e está na gestão.
Após esse encontro encaminhei um currículo para a Sara Romera, à época, Diretora da Assessoria de Planejamento da CE IST/AIDS (atualmente Gerência de Planejamento) e, marcamos uma entrevista, que participaram a Nair e a Vilma Cervantes (assistente da Sara) e, desse encontro, saiu a minha contratação para atuar no CRT IST/AIDS.
Eu combinei com Sara e Nair, que precisaria de cerca de um mês para fechar o meu contrato e encerrar as minhas atividades no PM IST/AIDS de Catanduva e nos vários grupos sociais que atuava, assim como, preparar a mudança e a despedida da cidade que me acolheu por oito anos.
Minha despedida deu-se numa manhã de sexta-feira, quando parti para São Paulo com uma pequena parte da mudança no meu carro juntamente com a Princesa, minha cachorra e fiel escudeira.
No dia 1º de agosto de 2008, iniciei a minha trajetória profissional na gestão do SUS do Estado de São Paulo para às IST/AIDS, sendo recebido por uma grande equipe de profissionais e velhos amigos de trabalho, como a Maria Clara (coordenadora da CE IST/AIDS e diretora do CRT IST/AIDS); Artur Kalichman (coordenador adjunto da CE IST/AIDS e do CRT IST/AIDS); Marcia Gioaventti (in memoriam), Cáio Westin e Alexandre Yamaçake (equipe do Núcleo de Populações mais Vulneráveis da Gerência de Prevenção); Dreyf Gonçalves (Comunicação Interna); Mara Vilela, Sara Romera, Vilma Cervantes e Nair Brito (Gerência de Planejamento); entre os novos companheiros de atuação como a Valéria Silva, Sonia Pizarro e o Alessandro Santos, que também faziam parte do grupo do Planejamento. Meu novo campo de atuação no Estado era a articulação entre o governo e a sociedade civil, quando considerei as estratégias: assessorar as áreas técnicas e diretoria do CRT IST/AIDS e CE IST/AIDS na articulação com as ONG; apoiar as ações para o fortalecimento técnico e político da resposta social a epidemia do HIV/AIDS; e, contribuir para redução da discriminação e o preconceito contra às PVHA e demais populações mais vulneráveis às IST/HIV/AIDS. As minhas atribuições eram: a estruturação de processo seletivo público para financiamento de ONG (elaboração de edital, habilitação e análise das propostas e apoio ao Comitê Seletivo Externo); realização de monitoramento técnico dos projetos selecionados; coordenação do processo de descentralização dos recursos para ONG; prestar assessoria aos municípios descentralizados na estruturação da política municipal para financiamento das ONG; coordenação das reuniões mensais do GT OG/ONG; participar das reuniões da Câmara Técnica do Conselho Estadual de Saúde; apoiar a elaboração da Proposta Estadual para financiamento das Casas de Apoio Adulto tipos I e II para aprovação na Comissão Intergestores Bipartite; apoiar o monitoramento das Casas de Apoio em parceria com os municípios e GVE; monitoramento dos projetos das Casas de Apoio para crianças e adolescentes com foco na inclusão e reinserção social; apoiar ações de promoção da autonomia e reinserção social das PVHA em Casas de Apoio; assessorar os GVE e PM IST/Aids no monitoramento dos projetos de ONG financiados; e, participação no monitoramento presencial da política pública para às IST/HIV/AIDS nos municípios prioritários.
Atuação no campo da Gestão, Articulação com a Sociedade Civil, Direitos Humanos, Transmissão Vertical do HIV e Sífilis e Ética em Pesquisa.
Nos últimos anos estou à frente da Gerência de Planejamento, realizando suporte à Diretoria Técnica, as Secretarias Municipais de Saúde, aos Grupos de Vigilância Epidemiológica, as Organizações da Sociedade Civil. Destacamos também a atuação junto a área de Planejamento da CCD da SES/SP, ao Grupo de Vig. em Saúde da CIB/SP, Comissão de DST/Aids, Hepatites Virais e Tuberculose do Conselho Estadual de Saúde e a Comissão de IST/Aids do Conselho Municipal de Saúde/SP, as oficinas de regionalização da Saúde das Macrorregiões de Presidente Prudente, Campinas e Grande São Paulo, as Regiões de Saúde do Alto Capivari/RRAS de Pres. Prudente, Circuito das Águas/RRAS Campinas e Vale da Cachoeiras/RRAS de Rib. Preto da Regionalização da Saúde. Coordenador da Comissão Estadual de Validação do Processo de Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical do HIV e/ou Sífilis e Selos de Boas Práticas do DATHI/MS; Técnico da Comissão Nacional de Validação para Certificação da Eliminação da Transmissão Vertical do HIV e/ou Sífilis e Selos de Boas Práticas do MS; Coordenador do GT para Articulação das OG/ONG. Coordenação dos processos seletivos de projetos sociais das seleções públicas de 2008, 2009, 2012, 2014, 2016, 2017, 2020 e 2023 e 2025; Parecerista dos processos seletivos de projetos sociais da UNESCO/Brasil/MS de 2020 e 2022, da cidade de SP 2012, Ribeirão Preto/2021 e Piracicaba/2019; Apoiador do Projeto de intervenção para o Fortalecimento das Regiões de Saúde rumo à Redução da Sífilis Congênita no Estado da OPAS/Cealag/MS-2021 e do Projeto Fortalecimento da Resposta Municipal à Sífilis Congênita no Estado Universidade Federal do Rio Grande do Norte/MS-2022; Consultor técnico da Cooperação Trilateral Brasil, Japão e Moçambique do Projeto Planificação, Monitoria e Avaliação com foco na resposta moçambicana ao HIV/Sida para as Províncias de Gaza e Nampula de 2015 a 2018;Co-autor do Manual do Ponto Focal para o HIV/Aids do CNCS de Moçambique.
Obs. Texto extraído da Dissertação apresentada ao Curso de Pós Graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo para obtenção do Título em Mestre em Saúde Coletiva. Tese de Mestrado de Jean Carlos de Oliveira Dantas, publicado no site: https://fcmsantacasasp.edu.br/vemprasanta/mestrado-profissional-saude-coletiva-dissertacoes-de-mestrado/
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