Adorava os rituais: saída para a praia; todos dentro do carro, os cachorros, as compras, a Maria, eu sentada no banco da frente entre ele e minha avó, no Desoto verde. Silêncio no carro e meu avô Com deus e Nossa Senhora vamos embora”. Casa antiga, de sede de fazenda, pé na areia, porão, terraço em volta da casa, piso quadriculado, as árvores enormes de jambolão que manchavam de roxo nosso pé. Cheiro de maresia e água salobra do poço, no banho de chuveiro frio depois da praia. Todas as noites depois do jantar, me avô caminhava pelo terraço, mãos atrás do corpo, cantarolava umas músicas sem letra...não consigo me lembrar de nenhuma, mas lembro do som dos seus tamancos, cadenciado...Queria muito ter tamancos iguais aos dele mas não existiam do meu tamanho. Eu andava ao lado dele me esforçando para acompanhar seus passos...Não sei quantos anos eu tinha. Adorava o cheiro da macela que recheava o travesseiro e impregnava meus cabelos todas as manhãs. Fermino, Sr .Barbosa, Belê, para mim, simplesmente, vovô, querido, amado, era o meu protetor. Lembro que fomos visitá-lo em sua casa...Deitado em uma cama hospitalar, dizia para não me preocupar, que ainda íamos viajar muito juntos. Um dos rituais era jantar uma vez por semana na casa da Rua Atibaia. Eu chegava e corria para um pote de louça branca com listras azuis e tampa. Lá estavam, sempre, os saquinhos de feijõezinhos o que eu mais gostava e outro de geleinha, eram balas e doces que ele trazia da Kopenhagen. Sentava ao lado dele, abraçada para assistir TV e nos divertíamos... Naquele dia da visita, quando ele adoeceu, antes de ir embora, contra o desejo de todos que diziam que eu iria incomodá-lo, quis me despedir dele. Subi as escadas, abri a porta, ele dormia. Dei-lhe um beijo, ele continuou dormindo. Fui me afastando de costas e fui fechando a porta, devagar, fechando aos poucos, até que via somente seu rosto sereno enquadrado na fresta. Fechei a porta,...
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Adorava os rituais: saída para a praia; todos dentro do carro, os cachorros, as compras, a Maria, eu sentada no banco da frente entre ele e minha avó, no Desoto verde. Silêncio no carro e meu avô Com deus e Nossa Senhora vamos embora”. Casa antiga, de sede de fazenda, pé na areia, porão, terraço em volta da casa, piso quadriculado, as árvores enormes de jambolão que manchavam de roxo nosso pé. Cheiro de maresia e água salobra do poço, no banho de chuveiro frio depois da praia. Todas as noites depois do jantar, me avô caminhava pelo terraço, mãos atrás do corpo, cantarolava umas músicas sem letra...não consigo me lembrar de nenhuma, mas lembro do som dos seus tamancos, cadenciado...Queria muito ter tamancos iguais aos dele mas não existiam do meu tamanho. Eu andava ao lado dele me esforçando para acompanhar seus passos...Não sei quantos anos eu tinha. Adorava o cheiro da macela que recheava o travesseiro e impregnava meus cabelos todas as manhãs. Fermino, Sr .Barbosa, Belê, para mim, simplesmente, vovô, querido, amado, era o meu protetor. Lembro que fomos visitá-lo em sua casa...Deitado em uma cama hospitalar, dizia para não me preocupar, que ainda íamos viajar muito juntos. Um dos rituais era jantar uma vez por semana na casa da Rua Atibaia. Eu chegava e corria para um pote de louça branca com listras azuis e tampa. Lá estavam, sempre, os saquinhos de feijõezinhos o que eu mais gostava e outro de geleinha, eram balas e doces que ele trazia da Kopenhagen. Sentava ao lado dele, abraçada para assistir TV e nos divertíamos... Naquele dia da visita, quando ele adoeceu, antes de ir embora, contra o desejo de todos que diziam que eu iria incomodá-lo, quis me despedir dele. Subi as escadas, abri a porta, ele dormia. Dei-lhe um beijo, ele continuou dormindo. Fui me afastando de costas e fui fechando a porta, devagar, fechando aos poucos, até que via somente seu rosto sereno enquadrado na fresta. Fechei a porta, guardando para sempre na minha memória, como uma fotografia, a imagem do meu avô ainda vivo. Vilu Salvatore
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