Boca murcha
(Mauro Leal)
Era véspera de Ano-Novo num tremendo calorzão,
foram às compras no principal polo comercial da Zona Norte
do Rio de Janeiro, Darlene e as primas: Pepita, Amélia e Deolinda.
No meio da multidão: agitação, crianças perdidas, enormes filas,
pessoas pelo chão com baixa e alta pressão,
e nas caixas de som: as canções:
"Adeus ano velho, feliz Ano-Novo" e "Hoje é um novo dia, de um novo tempo...", anúncios de promoção, louvores, forró...
Ao passarem em frente a uma loja com defumação, a alérgica Darlene,
deu sucessivos espirros e tosse de cão, colocou as mãos
na boca e desolada, falou baixinho:
- Saltou a minha perereca!
E no bololô do Mercadão, naquele vai e vem frenético,
as amigas gaiatas escangalhando de gargalhar,
começaram a procurar a prótese provisória da banguela,
mobilizando o locutor, que persuadia e gracejando, anunciou:
- Amanhã será a confraternização universal,
passem devagar e com atenção pois existe um pedaço
de dentadura perdida nesse espaço enfumaçado.



