P/1 - Pra gente começar, vou precisar que a senhora me diga seu nome completo.
R - Maria da Abadia Pereira Guimarães.
P/1 - A data de nascimento?
R - Nasci no dia 13 de agosto de 47.
P/1 - E a senhora nasceu em Paracatu mesmo?
R - Eu nasci numa região da Lagoa Rica, em Paracatu.
P/1 - Na época da infância, a senhora viveu lá em Lagoa Rica?
R - Não.
P/1 - Aí, como é que foi? Aí a senhora nasceu e foi pra onde?
R - Eu nasci na Lagoa Rica, minha tia morava no Bonsucesso. Daí, minha mãe ia pra lá, perto da casa dela, e me levava desde criança. Mas minha mãe era nascida e criada aqui no Macaco, mais a minha tia. E aí depois, eu ficava de lá do Bonsucesso até cá no Macaco. Queria nessas regiões, né? E depois morei um tempo na Lagoa com a minha madrinha, uns 6... 5 anos, mais ou menos. Depois ela mudou pra cidade e eu fiquei uns três anos, depois saí, e voltei pra Lagoa de novo, do Bonsucesso. Aquele trajeto.
P/1 - E nessa época, como era a comunidade?
R - A maioria da nossa família era do Macaco, então era quase um povoadozinho da família. E tinha outras pessoas também que faziam a casa lá, junto, e conviviam com aquela comunidade até muito boa, divertida, alegre, né? Não tinha essa brigaiada, essas confusão que tem hoje. Se tivesse alguma coisinha, pouca. Às vezes que tinha festa, minha tia rezava pra Santo Antônio, tinha alguns que gostavam de atrapalhar, aí caçava briga. Mas, graças a Deus, nunca deu morte, nem nada. Mas sempre todo mundo acomodado lá.
P/1 - A senhora tá falando que a comunidade dos Amaros começou lá no Macaco, na Lagoa?
R - Aquela regiãozinha, a maioria no Macaco.
P/1 - Como é que migrou pra cá? O que aconteceu pra vocês virem pra esse lugar que os Amaros ficaram depois?
R - Primeiramente, foi minha tia, que é minha sogra, né? Tia e sogra. (risos) Que ela teve que vim pra cá, do Macaco pra cá, os meninos eram tudo pequeno, porque o dono da fazenda botava...
Continuar leituraP/1 - Pra gente começar, vou precisar que a senhora me diga seu nome completo.
R - Maria da Abadia Pereira Guimarães.
P/1 - A data de nascimento?
R - Nasci no dia 13 de agosto de 47.
P/1 - E a senhora nasceu em Paracatu mesmo?
R - Eu nasci numa região da Lagoa Rica, em Paracatu.
P/1 - Na época da infância, a senhora viveu lá em Lagoa Rica?
R - Não.
P/1 - Aí, como é que foi? Aí a senhora nasceu e foi pra onde?
R - Eu nasci na Lagoa Rica, minha tia morava no Bonsucesso. Daí, minha mãe ia pra lá, perto da casa dela, e me levava desde criança. Mas minha mãe era nascida e criada aqui no Macaco, mais a minha tia. E aí depois, eu ficava de lá do Bonsucesso até cá no Macaco. Queria nessas regiões, né? E depois morei um tempo na Lagoa com a minha madrinha, uns 6... 5 anos, mais ou menos. Depois ela mudou pra cidade e eu fiquei uns três anos, depois saí, e voltei pra Lagoa de novo, do Bonsucesso. Aquele trajeto.
P/1 - E nessa época, como era a comunidade?
R - A maioria da nossa família era do Macaco, então era quase um povoadozinho da família. E tinha outras pessoas também que faziam a casa lá, junto, e conviviam com aquela comunidade até muito boa, divertida, alegre, né? Não tinha essa brigaiada, essas confusão que tem hoje. Se tivesse alguma coisinha, pouca. Às vezes que tinha festa, minha tia rezava pra Santo Antônio, tinha alguns que gostavam de atrapalhar, aí caçava briga. Mas, graças a Deus, nunca deu morte, nem nada. Mas sempre todo mundo acomodado lá.
P/1 - A senhora tá falando que a comunidade dos Amaros começou lá no Macaco, na Lagoa?
R - Aquela regiãozinha, a maioria no Macaco.
P/1 - Como é que migrou pra cá? O que aconteceu pra vocês virem pra esse lugar que os Amaros ficaram depois?
R - Primeiramente, foi minha tia, que é minha sogra, né? Tia e sogra. (risos) Que ela teve que vim pra cá, do Macaco pra cá, os meninos eram tudo pequeno, porque o dono da fazenda botava gado e tudo bravo, e ela ficou com medo. Ela ficou viúva, aí teve que vir pra cá pra cidade.
P/1 - Aí veio ela primeiro?
R - Veio ela primeiro. Aí depois de muitos anos é que veio minha outra tia, a outra ainda ficou no Bonsucesso. Uns anos atrás - eu tinha uns 17 anos - que essa tia que morava no Bonsucesso foi pra Brasília. Porque eu levei a sobrinha, a filha dela que tinha problema, pra consultar em Brasília. Nisso, ela ia operar, aí eu vim, busquei minha tia e dessa feita pra cá, ela não voltou mais. Mas morava em fazenda dos outros e também trabalhava igual a uma escrava. Ela, viúva, tratando de tudo, então resolveu levar os meninos pequenos e pra lá ficou, em Brasília. Hoje reside em Luziânia.
P/1 - A gente tava falando quando começou a se formar a comunidade aqui nos Amaros, mas aí eu quero voltar só um pouquinho: quando formou lá na Lagoa, quando tinha o pessoal na Lagoa, quando tinha o pessoal no Macaco. Como é que chegou esse pessoal lá, que história que a senhora sabe desse povo ter chegado lá? Como é que era antes e como é que ficou depois?
R - Eu já cresci com esse pessoal já morando lá, então não sei como é que foi o início. Mas eu sei que a gente tava tudo bem, tudo amigo, não tinha esse negócio de convergência nenhuma. Mas aí depois dessa feita, minha tia veio pra cá pra cidade por conta disso, que o dono da fazenda botava gado. Aqueles ____ de bravo, né? E ela ficou com medo, que ela tinha ficado viúva. Trouxe os meninos tudo pequeno. Inclusive, o compadre Honório já tava rapazinho, que era dos mais velhos. Aí eles vieram, foi aglomerando pra cá. Cresceu, foi rendendo as famílias. Depois veio a outra irmã dele que morava nessa casa de cá, que era Maria. E aí foi daí por diante. Ela veio da roça também e fez a casa logo aqui.
P/1 - Aí começou a formar aos poucos o bairro aqui. E aí como é que era o bairro nessa época, como é que ele foi se formando? Você falou que foi chegando a família, né, chegou sua tia...
R - É, mas aí era assim: não é como hoje, que as famílias estão assim mais dispersadas um com outro. Mas era todo mundo junto. Tinha um aniversário, tinha uma festa, fazia surpresa. Sabe como é que é, né? A pessoa não tá sabendo, enfeitava a garrafa e botava na porta, aí eles já ficaram sabendo que ia ter surpresa, que é... Como dizem, falavam pagode. (risos)
P/1 - Eles chamavam essa surpresa de pagode?
R - É. Tinha festa na roça, era pagode. Aí vinha pra cá, todo mundo vinha pro pagode. Mas não tinha essa brigalhada. Hoje tá muito difícil.
P/1 - Na época, nesse começo do bairro, Dona Maria, era assim uma casa do lado da outra ou era tudo disperso?
R - Não. A minha tia-sogra, ela morava ali. Mas era um quarteirão quase daqui do outro lado até lá em cima, que tinha outra filha dela. Era um quarteirão praticamente da família. Aí foi vendendo, outro foi mudando…
P/1 - Nessa época quando construiu a casa, como é que ela era construída? Era assim de alvenaria? Ou como é que ela era, qual era o jeito da casa?
R - As primeiras casas eram de capim. Quando eu conheci minha sogra aqui - porque eu fui criada mais fora -, já era casa de telha. Mas eu acho que era assim: morou em casa de capim ainda. E aqui, as ruazinhas não tinha muita gente. E as casinhas eram de capim, algumas. Aí depois foi mudando. As estradas eram ‘estreitinha’, pequena, passada no mato. Depois foi melhorando.
P/1 - E como é que vocês faziam pra fazer as coisas, pra cozinhar, pra lavar roupa, como é que era no começo da comunidade?
R - Lavar roupa, tem um córrego aí, o _____ , e lavava roupa no córrego. Era muita mulher lavando roupa. Essa praia aí foi uma mãe pra muita gente, porque todo mundo lavava roupa lá. Era aquela mulherzada tudo conversando, brincando. Não tinha briga, não tinha nada. E o matadouro era ali em cima. Aí, muitas vezes, a vaca pulava de sair aquela mulherzada correndo. (risos) Correndo e subindo no pau pra poder o gado passar. Outra hora, vinha gado bravo e a gente era obrigado a subir. Eu mesmo já corri. Quando eu comecei a trazer os meus filhos pra ficar aqui, casei e morei no Sapateiro um tempo e depois eu vim pra cá, ia lavar roupa e aquela mulherzada conversando e brincando, não tinha nada de briga. Abria as roupas no corador, cada um sabia qual era a sua, não tinha nada pra caçar briga. Aí, depois disso aí, veio o negócio da Kinross: o povo ficou mais afastado por conta do... Como é que era? Mercúrio, né? E ficou com medo. Aí foi lavando roupa em casa. Pôs água em casa e foi lavando em casa
P/1 - Pararam de lavar roupa lá na prainha?
R - É, parou mais de lavar roupa na prainha. Eu mesmo já ganhei muito dinheiro lavando roupa lá, que eu buscava as trouxa de roupa, minha sogra... Desde minha sogra, ela lavava roupa aí na praia. E eu também lavei muita: buscava a trouxa de roupa na rua e lavava aqui. Depois do povo foi parando, aí eu também, nós paramos também de lavar roupa pros outros.
P/1 - Aí a senhora lavava roupa pro pessoal da cidade, né? Aí ia lá pegava a trouxa de roupa, lavava aqui na prainha e devolvia, é isso?
R - É. ‘ Punha’ pra secar, levava a roupa sequinha, limpinha e entregava. Tinha as freguesas que a gente lavava. Começou da minha sogra, ela lavava roupa no centro. Daí depois eu mudei pra cá, não tinha outros meios assim muito, aí peguei lavar roupa também. A gente coava areia na praia, eles tiravam ouro, tudo aí nessa praia. Foi uma mãe pra todo mundo, pra um bocado de gente.
P/1 - O povo ia fazer garimpo aí, ia tentar buscar ouro…E o povo achava?
R - Achava. Meu marido mesmo tirou muito ouro. Compadre Honório tirava ouro. Minha cunhada também. Era quase a maioria da família que tirava ouro. Quando tava na roça, tirava ouro lá na praia de São Domingo e quando mudou pra cá, pegou tira ouro aqui também. Coava areia pra vender, era os caminhão de areia. Eu mesmo mais a minha sogra, já coou demais.
P/1 - Então, e a senhora tava falando que também chegou a procurar nessa época, que coava areia e tava falando que até acharam algumas pepitas. E aí, como é que aconteceu nessa época quando achava alguma coisa?
R - Era ouro de caixotinho, que todo mundo.. Muita gente tirava, não era só nós. Mas aí depois que a Kinross veio pra cá, na época era a RPM, aí proibiu o trabalho de ouro aí. Aí era assim: meu marido vendia lenha; a gente tirava lenha no mato, cortava verde, botava no quintal arrumadinho, pra poder secar pra inteirar o dinheiro, porque o ganhei era pouco, mas deu pra viver, né? Deu pra fazer… por esses meninos pra crescer, que meu marido adoeceu também, quase morreu, e eu tinha só esse mais velho aí, o Eliomar, e um outro que faleceu, mas Deus dá a gente tanta força que a gente nem sente que tá passando a perda. Na época, o outro morreu, o marido doente, eu ia trabalhar, chegava, não podia ver uma pessoa de fora que eu tava com medo: “Ah, o que que aconteceu lá?”, com medo de um ou outro. E acaba o menino morreu, e eu cheguei no hospital, achei ele morto, mas aí...
P/1 - A senhora teve três filhos?
R - Não, eu sou mãe de nove. Tenho vivo 6: três mulheres e três homens. E aí era assim, na dificuldade, mas a gente era feliz assim mesmo.
P/1 - E dos filhos, a senhora lembra o nome de todos os filhos, dos nove?
R - É o Eleimar, tinha o Edmar, que era o segundo, tinha o Josimar, que era.. Uai... Eliane, Josimar, Jorge, que ele é especial, ele ainda é vivo, tenho... Eu falei Eliomar, né? Tenho Erlane, Júnior e Elizane.
P2 - E o que morreu, o outro?
R - O outro que morreu é o Éder.
P/1 - Ele faleceu do que, Dona Maria?
R - Faleceu o Eder, o Josimar e o Edmar, né? Na época, você sabe muito bem que o povo, a gente não sabia muita coisa de medicina, não sabia nada. Não falavam porquê que morreu, punha lá no papel: “Ó, morreu disso”. (bate os dedos) Mas de maneiras que a gente não sabe.
P/1 - Mas na época tinha hospital, tinha posto de saúde aqui na comunidade?
R - Tinha o hospital. A gente corria pro hospital. Inclusive que esse menino, o Edmar, quando morreu, tava com quase dois anos. Ele deu uma crise em casa, o marido doente, aí eles foram atrás de mim no serviço, eu vim, o menino tava desmaiado. Aí nós levamos, tinha tido um acidente que tinha gente com perna pra cima, eles deitados, a perna pra baixo, o corpo pra cima e muito sangue, eles: “Não pode atender”. Eu falei... Aí minha cunhada - minha finada - falou: “O menino tá passando mal! Como é que a gente faz?”, porque na época era meio difícil. Aí, com muito custo, abriu coisa, a gente entrou. Aí eles puseram ele lá isolado. No fim da história, eu não sei do que o menino morreu... Aí sempre eu ia pra saber como é que o menino tava. “Ah, entra lá” e eu podia entrar. Eles falaram que era meningite, era hepatite. No fim, não sabe, não pôs nem o certo que foi. Eu só sei que quando chego lá no domingo, que eu vou olhar o menino... Entrava sozinha, porque minha cunhada foi mais eu, e eles não acharam bom dela entrar. Aí falamos em chamar a polícia - pra ela também não era brincadeira - e ela falou: “Então chama, tô aqui esperando”. Quando foi no outro domingo, eu fui visitar o menino: tava morto. Então peguei nele assim na testa... Eu falo pra você a verdade, Deus dá força a gente pra tudo, o marido doente, aí meu primo, filho dessa cunhada minha, que me ajudou a enterrar o menino - porque a gente ganhava pouco, aí ele ajudou -, dessa feita pra cá, foi a gente trabalhando de um jeito, do outro, lavando roupa na rua, não entregava, e tudo com menino pequeno. E o marido doente! A gente esperava que ele morresse, mas Deus ajudou que não morreu, ainda ficou uns anos. E eu cuidei desses meninos tudo, porque ele morreu.
P/1 - Depois que os meninos cresceram, começaram a trabalhar também?
R - Desde pequeno cada um ajudava. Esse Eliomar mesmo já trabalhou no garimpo, levava o Junio pra tirar areia desde mais pequeno. Hoje, o menino não pode trabalhar… e ninguém morreu. Mas a necessidade que faz a curiosidade.
P/1 - E quando cortou o garimpo, o que que eles faziam?
R - Fazia tudo: limpeza de quintal... (barulho ao fundo) [Pausa] Até hoje, né? Não tem serviço que eles não façam. Graças a Deus, menos o serviço “vagabundagem”.
P/1 - Vamos voltar um pouquinho lá pra comunidade: e quais eram os costumes dessa época da comunidade? Vocês saíram de lá do Macaco... Vamos falar primeiro lá: quais eram os costumes lá da comunidade, no Macaco? O que vocês faziam lá? Por exemplo, as festas, as comidas. Como é que era lá?
R - Era assim ó: minha tia rezava pra Santo Antônio e tinha que fazer os biscoitos pra dar o café pro pessoal. Aí era socado o milho no pilão, ‘punha’ de assim pra fazer fubá, socava, aí peneirava, deixava o fubá secar pra fazer bolo. Fazia brevidade, fazia pão de queijo, era aqueles biscoitos de peta. Tudo eles faziam pra agradar o pessoal. Mas, com tudo isso, entrou um tal de um elemento, que era o filho do fazendeiro, metido a ser valente, aí teve um dia que ela fez esse trabalho todo e pôs a mesa lá, tudo arrumadinha, café com os biscoitos: o infeliz chegou e virou a mesa com tudo no chão. E pra eles não tinha punição. Dinheiro pra eles era melhor, eles podiam fazer acontecer e nunca teve punição pra eles. Depois disso, ela adoeceu e não pôde seguir muito, eles buscaram ela da roça e pôs aqui, que era do lado de Felisbina, então, compadre Honório pegou a reza pra fazer... Ou foi Maria, eu não sei, não tô lembrada. Só sei que o outro pegou a bandeira pra fazer a reza. Marinez também. E aí...
P/1 - E essa reza, como é que ela acontecia, Dona Maria? Como é que fazia?
P/1 - Tinha os rezadores. Os rezadores, profissional de rezar. A gente chamava os rezadores, eles rezavam. E aí vinha gente de outro lugar pra poder participar também da reza. E era desse jeito.
P/1 - E a bandeira era a bandeira do Santo?
R - É bandeira do Santo.
P/1 - Aí carregava a bandeira do Santo e...
R - Não! A bandeira do Santo é de São João. Agora, de Santo Antônio, que a minha tia rezava, era a imagem do Santo no altar. Aí era assim.
P/1 - Aí eles rezavam pra quê, pra curar, pra lavoura?
R - É uma devoção que tinha, minha avó que rezava. Depois minha avó morreu, minha tia pegou. Depois minha tia morreu, e o outro pegou. E aí, depois adiante. Era uma devoção.
P/1 - Foi passando de geração em geração essa devoção. E a senhora sabe de onde sua avó pegou isso?
R - Não.
P/1 - Mas provavelmente também alguma coisa que veio antes dela, não foi ela que criou isso.
R - É. Deve ser, né?
P/1 - Sua vó pegou de alguém, talvez da sua bisavó, aí passou pra a vó, que passou pra filha.
R - É porque eu nem conheci minha avó, né, mas...
P/1 - A senhora não conheceu nenhum dos seus avós?
R - Não.
P/1 - Eles não eram daqui, nessa época?
R - Não sei.
P/1 - Quando chegaram aqui no Macaco, na Lagoa, já foi essa geração dos seus pais?
R - É, foi. Eles rezavam, aí minha mãe... Aí os filhos cresceu, a minha tia pegou a devoção pra poder seguir. E depois que ela morreu, o outro pegou. E depois parou.
P/1 - Hoje, tem alguém que continue essa tradição ou não tem mais?
R - Não. [Pausa]
P/1 - Aí parou como? Quando parou isso aí?
R - Ah, a época certa eu não sei, mas já tem uns anos que não faz mais essas rezas, né?
P/1 - Aí os netos, os bisnetos, nada pegou mais esse costume?
R - Não, muitos mudaram de religião.
P/1 - Não segue mais.
R - Não.
P/1 - E vou te perguntar agora um pouquinho das festas. Tem as festas que aconteciam lá e depois que vieram pra cá... Como é que eram essas festas?
R - Sempre tinha uma que rezava pra Senhora da Abadia, mas não era parentada, não era muito da família. Rezava, aí toda festa tinham as comidas. Era comida, era doce. Depois da comida, tinha tutu de feijão, que era tradicional do pessoal. (risos) E frango, carne de porco, carne de gado. Era um banquete. E aí o pessoal ia, comia, todo mundo ficava satisfeito.
P/1 - Aí essas festas aconteciam lá na época do Macaco, da Lagoa. E quando veio pra cá, continuou?
R - Não, pra cá nunca teve mais essas festas, porque as coisas foram ficando mais difícil, os outros foram largando, foi deixando. É igual a caretada também, o meu cunhado, esse que era dono dessa casa, que fundou a caretagem e depois, entrava um: “Ai eu vou, eu quero seguir”, foi a razão que, no fim da história, era só homem que dançava, mas eu fui a primeira a dançar, porque eu falei: “Não, compadre Honório, deixa eu dançar”, eu era mais nova e gostava demais de ver eles dançar. “Não, mulher não pode dançar ”. Aí eu falei: “Não, deixa eu dançar”. Aí meu marido, que é irmão dele, que era o tocador, falou: “Não, compadre Honório, pode deixar ela dançar”. Eu falei: “Uai, que que tem dançar? Dançando com respeito, não tem problema nenhum”. Aí foi indo e ele abriu mão. Mas parece que foi uma coisa que Deus mandou, porque quando nós fomos lançar o DVD em Belo Horizonte, aí um dos par, um dos meninos faltou. E aí eu já tinha treinado, que eu ensaiava com eles. “Ah, então a comadre Maria vai”. (risos) Eu falei “Ô coisa boa!”, aí eu fui. E dancei bem uns anos com eles, mas parou.
P/1 - Como é que tá essa coisa agora da caretagem?
R - Agora, meu filho, vou te dizer a verdade, porque na realidade não tá compensando seguir uma coisa dessa mais, porque você vê que hoje em dia você não conhece as pessoas que entram e que sai “Ah, eu quero entrar”. Um dos dançantes mesmo, nós dança, ele não foi, não participou e entrou com outro, uma outra pessoa conhecida dele lá, que eu acho que era do ramo deles, e veio querer atrapalhar a dança. Veio dali de cima até aqui querendo atrapalhar. Aí compadre Honório mesmo falou: “Eu acho que vou parar com isso, porque o povo não quer se responsabilizar. São João não é brincadeira, não é brinquedo de menino que põe pra aqui, põe pra acolá e joga pra”. Eles estavam faltando com respeito. Respeito tem que ter em toda parte, em todo lugar. Agora eles entram pra poder fazer avacalhação, ele falou: “Eu vou largar isso”. Ele fundou, já tinha uns 30 e tantos anos que ele seguia, todo ano de São João. Aí depois ele falou: “Acho que eu vou parar”.
P/1 - Ele parou?
R - Ele parou, que ele também adoeceu. Meu marido morreu primeiro, passado uns anos, ele também adoeceu, morreu. Aí os comandantes morrendo, não adianta, ainda mais com a avacalhação que tá hoje, você não conhece ninguém.
P/1 - Mas ainda existe a caretagem, que não é mais essa que foi fundada. Mas não tem mais a festa agora?
R - Não.
P/1 - Parou de vez?
R - Aqui não, dos Amaro não, mas tem no São Domingos...
P/1 - E dessas festas tradicionais, todas pararam agora, Dona Maria?
R - Eu não sei, né, porque a gente fica mais pra cá, não sabe como é que tá o trajeto deles. Mas eu sei que nós paramos.
P/1 - E qual é a diferença da comunidade naquela época pra agora? O pessoal que veio pra cá, pros Amaros, ainda tá aqui?
R - Não tá, porque uns morreram, outros mudou. Não tem quase as coisas, parece que dificultou mais, então não fica aquele entrosamento que tinha, mas nos afastou. Outra hora, tem outras coisas pra fazer, outras afinidades também.
P/1 - E como é que era o bairro antes e o bairro agora? Tá do mesmo tamanho? Ele aumentou ou diminuiu, como é que ficou?
R - Ixi Maria, é o bairro maior daqui. Eu acho que pondo Paracatuzinho junto com Paracatu (risos) lá, eu acho que ele fica bem igual ou maior um pouco.
P/1 - Mas aí depois foi chegando gente que não era da comunidade.
R - Não, mas aqui espalhou muita gente, mas não era da comunidade.
P/1 - Que era o pessoal que foi chegando depois, não é os descendentes dos Quilombolas, outras pessoas.
R - Não, outras pessoas. Por isso que é bairro, né?
P/1 - Sim. E esse pessoal que era descendente, muita gente já foi embora?
R - Foi. Uns morreram, outros mudaram, e aí pronto, né?
P/1 - Era isso que a gente queria saber: um pouco da sua história. Muito obrigado. Ela é muito importante de ser preservada. A gente agradece a sua participação. Muito obrigado!
R - Eu é que agradeço, né? Obrigado a vocês.
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