A KOMBI DO NATAL
Nailson Guimarães
Eu ainda era pequeno, devia ter entre quatro e cinco anos e acreditava de coração em Papai Noel. Para mim, ele era real, mágico, capaz de trazer tudo aquilo que eu sonhava. Mas naquela noite, meu pai me disse que Papai Noel não existia. Foi como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés. Um choque enorme para uma criança que ainda vivia no encanto das fantasias.
Mesmo assim, não desisti. Peguei papel e caneta e escrevi uma longa carta. Lembro bem que pedi um caminhãozinho, livros, lápis, canetas de desenho e papéis, porque desenhar era o que eu mais amava. Dobrei a carta com cuidado, cheio de esperança, peguei um par de meias escondido, coloquei a cartinha dentro e os ocultei atrás da porta. Fui dormir mais cedo acreditando que, de alguma forma, Papai Noel ainda poderia me ouvir.
Na manhã seguinte, bem cedinho, acordei ansioso. E, antes dos meus pais levantarem, corri para ver se havia algum presente. Mas... não havia nada! Papai Noel tinha me esquecido. O coração apertou. Odiei Papai Noel que só dava presentes para as crianças abastadas. Por um instante senti que o Natal não era para mim. Chorei escondido. Meus pais nunca souberam da tal cartinha.
Após o café, meu pai me levou para um evento onde distribuiriam brinquedos às crianças. Uma multidão entre adultos e seus rebentos, uma grande árvore de Natal montada na praça, sol escaldante, gente passando mal. Já era quase uma da tarde e não conseguíamos pegar nada. Faltou presente, mesmo tendo um cartãozinho distribuído por um político uma semana antes. Meu pai decidiu ir embora. Meu coração partiu.
No caminho de volta para casa, ele parou no mercado. E foi ali que aconteceu a mágica: meu pai comprou uma Kombi pequenina, verde e transparente. Era um brinquedo simples, mas especial. Era tão leve que, quando o vento batia, ela capotava sozinha, como se tivesse vida própria. Naquele Natal, eu era muito criança para entender e...
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A KOMBI DO NATAL
Nailson Guimarães
Eu ainda era pequeno, devia ter entre quatro e cinco anos e acreditava de coração em Papai Noel. Para mim, ele era real, mágico, capaz de trazer tudo aquilo que eu sonhava. Mas naquela noite, meu pai me disse que Papai Noel não existia. Foi como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés. Um choque enorme para uma criança que ainda vivia no encanto das fantasias.
Mesmo assim, não desisti. Peguei papel e caneta e escrevi uma longa carta. Lembro bem que pedi um caminhãozinho, livros, lápis, canetas de desenho e papéis, porque desenhar era o que eu mais amava. Dobrei a carta com cuidado, cheio de esperança, peguei um par de meias escondido, coloquei a cartinha dentro e os ocultei atrás da porta. Fui dormir mais cedo acreditando que, de alguma forma, Papai Noel ainda poderia me ouvir.
Na manhã seguinte, bem cedinho, acordei ansioso. E, antes dos meus pais levantarem, corri para ver se havia algum presente. Mas... não havia nada! Papai Noel tinha me esquecido. O coração apertou. Odiei Papai Noel que só dava presentes para as crianças abastadas. Por um instante senti que o Natal não era para mim. Chorei escondido. Meus pais nunca souberam da tal cartinha.
Após o café, meu pai me levou para um evento onde distribuiriam brinquedos às crianças. Uma multidão entre adultos e seus rebentos, uma grande árvore de Natal montada na praça, sol escaldante, gente passando mal. Já era quase uma da tarde e não conseguíamos pegar nada. Faltou presente, mesmo tendo um cartãozinho distribuído por um político uma semana antes. Meu pai decidiu ir embora. Meu coração partiu.
No caminho de volta para casa, ele parou no mercado. E foi ali que aconteceu a mágica: meu pai comprou uma Kombi pequenina, verde e transparente. Era um brinquedo simples, mas especial. Era tão leve que, quando o vento batia, ela capotava sozinha, como se tivesse vida própria. Naquele Natal, eu era muito criança para entender e eu fiquei muito triste.
A maioria da criançada da vizinhança tinha carros grandes, brinquedos caros, bicicletas, e eu, com vergonha, escondia a minha “kombinha”. Não queria que rissem de mim. Então, eu brincava sozinho no quintal. Amarrei um fio nela e, na minha imaginação, transformei aquele brinquedo simples em um grande carro. Fingindo que dentro dele cabia toda a minha família, eu dirigia pelas ruas invisíveis da minha infância, levando todos comigo. Era um mundo inventado, mas cheio de esperança.
Naquele momento, fiz uma promessa silenciosa: um dia eu teria uma Kombi de verdade, ou pelo menos um carro de verdade. Cresci, trabalhei, conquistei e finalmente comprei um carro. Mas, mesmo com a realização desse sonho, as memórias daquele Natal nunca me deixaram.
Hoje entendo que aquele episódio não foi apenas sobre brinquedos ou presentes. Foi sobre aprender a lidar com a falta, sobre transformar a imaginação em força e sobre como os pequenos gestos - como o esforço do meu pai - podem marcar para sempre.
Aquela Kombi pequenina se tornou o símbolo de um Natal inesquecível, porque me mostrou que o amor é o verdadeiro presente. Hoje percebo que o Natal não estava apenas nos presentes lindos do Papai Noel. Estava no gesto do meu pai, na forma como ele tentou transformar minha tristeza em alegria.
O Natal, para mim, continua sendo um lembrete de que não é o tamanho do presente que importa, mas o amor que o envolve. E, toda vez que vejo uma Kombi, lembro daquele menino que sonhava grande com um brinquedo pequeno e percebo que a verdadeira riqueza está nas memórias que nos moldam.
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