A DESILUSÃO DE PORFÍRIO
Autor: Etevaldo Vieira de Oliveira, advogado, escritor e compositor (Camapuã/MS)
Porfírio balouçava na rede, armada de trave a trave no galpão, enquanto as cigarras entoavam os seus diversos corais naquela tarde de meados de outono. A botina dava um mórbido chiado quando impulsionava a rede com o calcanhar no chão.
O xenheihem-em da corda da rede ao balançar, formava mais uma entonação diferente na orquestra das cigarras, que agredia o silêncio com os estridentes cânticos, que eram capazes de estourar os frágeis tímpanos de uma barata que teimava em esconder entre o caibro de cedro, a ripa de taboca e a cobertura de palha do galpão.
As vacas continuavam berrando na manga do curixo. Também pudera, oito bezerros morreram havia apenas uma semana, em razão do raio que caíra na cerca de arame farpado, durante a última chuva daquela região característica da mata tropical. Naquele dia, ao escurecer, os bezerros estavam deitados com as cabeças encostadas na cerca, juntamente com outra manada, quando estourou o forte trovão e a descarga tonteou os bezerros, dos quais oito morreram.
Porfírio, como matuto sertanejo, sentia pesar pelos sofrimentos das vacas, enquanto os tristes berros atingiam, em cheio, seu coração. Não se preocupava tanto, como poderia ser, com o prejuízo causado pelas mortes das crias, mas muito mais com o sofrimento das vacas.
Em momento, sozinho naquelas distantes paragens, ficou imaginando: e se a descarga elétrica tivesse vindo pela cerca do outro lado. Morreria no galpão, pois a cerca acabava justamente no esteio que dava sustentação à trave onde ele estava deitado na rede. Poderia ter morrido. Esboçou um descrente sorriso e falou em voz alta: ninguém choraria por mim...
Chegou ali e “acampou” achando que era oeste de Goiás, mas depois ficou sabendo que era no Mato Grosso. Mais recente ficou sabendo que o Estado fora divido e agora o local era no norte do Mato Grosso do...
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A DESILUSÃO DE PORFÍRIO
Autor: Etevaldo Vieira de Oliveira, advogado, escritor e compositor (Camapuã/MS)
Porfírio balouçava na rede, armada de trave a trave no galpão, enquanto as cigarras entoavam os seus diversos corais naquela tarde de meados de outono. A botina dava um mórbido chiado quando impulsionava a rede com o calcanhar no chão.
O xenheihem-em da corda da rede ao balançar, formava mais uma entonação diferente na orquestra das cigarras, que agredia o silêncio com os estridentes cânticos, que eram capazes de estourar os frágeis tímpanos de uma barata que teimava em esconder entre o caibro de cedro, a ripa de taboca e a cobertura de palha do galpão.
As vacas continuavam berrando na manga do curixo. Também pudera, oito bezerros morreram havia apenas uma semana, em razão do raio que caíra na cerca de arame farpado, durante a última chuva daquela região característica da mata tropical. Naquele dia, ao escurecer, os bezerros estavam deitados com as cabeças encostadas na cerca, juntamente com outra manada, quando estourou o forte trovão e a descarga tonteou os bezerros, dos quais oito morreram.
Porfírio, como matuto sertanejo, sentia pesar pelos sofrimentos das vacas, enquanto os tristes berros atingiam, em cheio, seu coração. Não se preocupava tanto, como poderia ser, com o prejuízo causado pelas mortes das crias, mas muito mais com o sofrimento das vacas.
Em momento, sozinho naquelas distantes paragens, ficou imaginando: e se a descarga elétrica tivesse vindo pela cerca do outro lado. Morreria no galpão, pois a cerca acabava justamente no esteio que dava sustentação à trave onde ele estava deitado na rede. Poderia ter morrido. Esboçou um descrente sorriso e falou em voz alta: ninguém choraria por mim...
Chegou ali e “acampou” achando que era oeste de Goiás, mas depois ficou sabendo que era no Mato Grosso. Mais recente ficou sabendo que o Estado fora divido e agora o local era no norte do Mato Grosso do Sul.
Chegara há quase quatro décadas, não tinha cidade próxima, pois as únicas duas eram vizinhas da estrada boiadeira que rumava para as bandas de Cuiabá, enquanto ela morava nas mais altas cabeceiras do Pantanal, nas nascentes do rio Taquari. Vez ou outra pegava a garrucha de dois canos e saia andando a esmo, não matava animal nenhum, mas era para livrar-se se fosse atacado por manada de queixada ou até para espantar alguma onça parda mais atrevida.
Gostava de explorar a região, especialmente as cavernas existentes nos baixos morros, onde era normal encontrar ossos humanos e rabiscos nas paredes e tetos, marcas indeléveis dos ferozes índios caipós que foi o terror dos primeiros desbravadores daquelas paragens.
Deu um salto para espantar a preocupação de não ter com quem se preocupar e tampouco causar preocupação a alguém.
Foi até o paiol e notou que a noite caia lentamente, enquanto as cigarras e os pássaros continuavam o show da tarde. Trataria dos porcos e depois tomaria um banho no poço do Catete.
Já de banho tomado, Porfírio tomava o obrigatório mate da entrada da noite, sentado no banco de lasca de guanandi, conhecido na região como “mangue do brejo”, que ele mesmo havia feito quando da derrubada da roça da pindaibinha.
A orquestra das cigarras e dos pássaros havia dado lugar à dos sapos e rãs, que uma vez ou outra eram seguidos pelo grito de “amanhã eu vou” dos curiangos noturnos ou ofuscados pelo alarido dos quero-queros que anunciavam alguma ronda estranha pelo espigão.
Sozinho, Porfírio quase não tinha pensamentos, sua vida xucra e arredia era o que ele mais gostava. Às vezes ficava mais de mês sem ver uma alma humana, já que os vizinhos eram distantes e a estrada boiadeira ficava há mais de dez léguas daquele remoto lugar.
Esporadicamente ouvia o barulho de um avião, que sangrava aqueles céus perdidos. Ficava olhando aquele pássaro de aço se equilibrando no espaço e muitas vezes até tinha medo “daquilo” cair. Carros motorizados não passavam naquela inóspita região, pois era um pedaço ermo e abandonado do Brasil Caboclo.
Porfírio era um homem de meia idade e nos seus mais de quarenta janeiros não esperava mais nada da vida. Estava do jeito que queria: isolado do mundo, com animais domésticos que lhe davam leite e carne, com saúde para plantar a roça anual e zelar do quintal, além de fazer outros alimentos agradáveis e gostosos derivados do leite das vacas, da fauna e da flora, abundantes em sua propriedade.
Que bom, pensava e às vezes até dizia para si mesmo: nem vizinhos tenho para me perturbar... A única voz que ouvia todos os dias era a sua, não só quando falava em voz alta, mas também quando cantava suas modas caipiras prediletas. Era a sua origem mineira, entretanto, passava meses sem dedilhar a velha viola, presente de seu falecido avô.
Antes tinha o “forasteiro”, que morrera mais ou menos há um ano. Foi a morte que mais sentira em sua vida. Forasteiro era o seu cachorro, companheiro e verdadeiro amigo, que não resistiu à picada de uma cascavel. O guizo da cobra estava dependurado num prego da trave da cozinha.
Enquanto tomava o mate, como ele Porfírio gostava de falar, o arroz com mandioca e carne de porco estava secando no fogão à lenha.
O rádio “Semp”, com sua grande caixa de madeira, anunciava “A Voz do Brasil”, que, aliás, pouco importava para Porfírio. Gostava mesmo era do programa de Edegar de Souza, da Rádio Nacional de São Paulo, quando as duplas sertanejas cantavam as boas músicas do sertão. Lá vinha Torres e Florêncio, Zé Carreiro e Carreirinho, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Nhana, Nhô Pai e Nhô Fio, Moreno e Moreninho, Tião Carreiro e Pardinho, Liu e Léu, Zico e Zeca, Vieira e Vieirinha, Pedro Bento, Zé da Estrada e Celinho e tantos outros. Tinha que economizar pilha “as amarelinhas” pois o mascate somente passava uma vez por ano, época em que comprava uma caixa com 24 unidades, que era a conta limite anual que podia gastar.
Porfírio não queria outra vida e também não queria ninguém em sua vida. Era solitário, egocêntrico, homem matuto e bruto. Cantarolou, “gongunando”, uma moda que lhe amenizava, mas às vezes lhe causava certa tristeza: “uma veis eu fiz um ranchinho; prá mim e a cabocla morá; pois era ali nosso ninho; bem longe desse lugá”.
Parou subitamente, pois a história dessa moda era igual a sua. Igual não, quase igual, pois à traição da mulher, não a matou, apenas a expulsou da casa e depois sumiu no mundo, vindo apossear-se daquela longínqua terra, perdida nos confins do mundo e sem dono. No “nortão do Mato Grosso” como ainda falava.
Veio tocando suas seis vacas e um touro. Hoje tem quase uma boiada, criada nos campos e nas pequenas pastagens por ele formadas naqueles cerrados de campo aberto e sem dono.
Nunca mais voltara à terra da tristeza, à terra dos morros de pedregulhos e serras de pedras enormes. Nunca mais vira seus parentes, sequer tinha notícias e também não queria saber notícias daquela terra e daquele povo que ficaram muito além, em outro estado, mais de oitocentas léguas de distância.
Ninguém daquele povo o veria mais, jamais saberia onde morava, tinha poucos vizinhos conhecidos e pouco os encontrava. E ninguém ali sabia a sua origem, embora o sotaque mineiro evidente nos cortes das palavras.
Nem seu estado natal era o mesmo, pois o progresso já devia tê-lo modificado. Enquanto ele estava no mais alto norte, próximo à selva amazônica, na divisa de Mato Grosso do Sul com o Mato Grosso.
Por um momento Porfírio olhou para o céu estrelado e sentiu a necessidade de se aproximar de alguém e em voz alta, embora sozinho, disse a romântica frase: “até as estrelas se juntam e eu não posso continuar uma ilha...”
Antes de dormir, ao leve balançar da rede, Porfírio começou a pensar em sua vida, não poderia viver mais tão isolado, precisava aproximar-se da vida e do mundo. Adormeceu sem perceber.
Acordou feliz, durante a noite havia reencontrado o seu passado, os seus amigos e os seus parentes. Passara a noite junto com o seu povo, como nos tempos de outrora... Como na época de sua juventude.
Mais uma vez, apesar de solitário e perdido na distância infinita falou em voz alta: “vou visitar a minha terra natal e os meus familiares. Vou fazer do sonho desta noite uma feliz realidade”.
Dois meses depois Porfírio estava feliz com seus familiares, entre serras e morros das proximidades da Serra da Canastra, nos chãos de Minas Gerais.
FIM.
Autor: Etevaldo Vieira de Oliveira, advogado, escritor e compositor (Camapuã/MS)
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