Celerina a pequennina e resoluta bisavó...
A lembrança se amiúda com o passar dos anos, ainda assim estão vivas na memória, as muitas recordações de momentos da minha meninice, em Mogi Mirim e Campinas, final dos anos 1950 e início dos anos1960, primeiro no velho casarão de grandes portas de madeira altas e rústicas, na conhecida rua do Mercado da tranquila e pacata Mogi Mirim, poucos anos depois, na movimentada, “Princesa do Oeste”, Campinas.
Cheirinho de avó, que é difícil expressar em palavras, talvez uma mistura de aromas; de corpo, temperos, perfumes, até odores, e todos marcados na memória, que teimam em sucumbir ao tempo.
Cheiros que são verdadeiros gatilhos revivem uma época, quando a vida era sobretudo simples e a casa dos bisavós um porto seguro, local de acolhida, repleto de amor e paz.
Lembranças, lugares, detalhes…
O luxo não existia, viviam com simplicidade, nada faltava, mas tampouco havia desperdício.
A vassoura de palha, manejada com vigor e destreza pela bisavó, levantava a poeira do quintal dos fundos, onde os dois “piás” do Paraná, divertiam-se com os brinquedos improvisados, caixas, latas e tantos outros artefatos, tudo servia e era aproveitado com criatividade por pais e tios, que artesanalmente produziam o que iria distrair e alegrar os meninos ao longo do dia.
O velho jabuti seguia seu caminho de um lado ao outro e era curiosamente observado pelos encantados meninos. Na rotina da casa, as mulheres cuidavam da faxina e da preparação do almoço que mais tarde seria servido, na grande e pesada mesa de madeira. Ainda persistia no ar o aroma do café preto, passado com maestria por tia Dalila, que agora permanecia no grande bule em um canto da chapa do quente e fumacento fogão, mas pronto para ser saboreado ou servido a alguma visita. Ana Maria Queiróz Trindade (filha de Santa Ricardo Queiróz), prima e afilhada de crisma de Dalila, contou-me que nossa madrinha conservava na cozinha uma imagem de...
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Celerina a pequennina e resoluta bisavó...
A lembrança se amiúda com o passar dos anos, ainda assim estão vivas na memória, as muitas recordações de momentos da minha meninice, em Mogi Mirim e Campinas, final dos anos 1950 e início dos anos1960, primeiro no velho casarão de grandes portas de madeira altas e rústicas, na conhecida rua do Mercado da tranquila e pacata Mogi Mirim, poucos anos depois, na movimentada, “Princesa do Oeste”, Campinas.
Cheirinho de avó, que é difícil expressar em palavras, talvez uma mistura de aromas; de corpo, temperos, perfumes, até odores, e todos marcados na memória, que teimam em sucumbir ao tempo.
Cheiros que são verdadeiros gatilhos revivem uma época, quando a vida era sobretudo simples e a casa dos bisavós um porto seguro, local de acolhida, repleto de amor e paz.
Lembranças, lugares, detalhes…
O luxo não existia, viviam com simplicidade, nada faltava, mas tampouco havia desperdício.
A vassoura de palha, manejada com vigor e destreza pela bisavó, levantava a poeira do quintal dos fundos, onde os dois “piás” do Paraná, divertiam-se com os brinquedos improvisados, caixas, latas e tantos outros artefatos, tudo servia e era aproveitado com criatividade por pais e tios, que artesanalmente produziam o que iria distrair e alegrar os meninos ao longo do dia.
O velho jabuti seguia seu caminho de um lado ao outro e era curiosamente observado pelos encantados meninos. Na rotina da casa, as mulheres cuidavam da faxina e da preparação do almoço que mais tarde seria servido, na grande e pesada mesa de madeira. Ainda persistia no ar o aroma do café preto, passado com maestria por tia Dalila, que agora permanecia no grande bule em um canto da chapa do quente e fumacento fogão, mas pronto para ser saboreado ou servido a alguma visita. Ana Maria Queiróz Trindade (filha de Santa Ricardo Queiróz), prima e afilhada de crisma de Dalila, contou-me que nossa madrinha conservava na cozinha uma imagem de São Benedito, o santo da fartura e do alimento na casa, e a cada café caprichosamente passado, a ele oferecia uma xícara.
E lá estavam dependuradas bem acima e à frente do grande fogão, as panelas espelhadíssimas pelo capricho do ariar, também algumas colheres e conchas de bom tamanho, sempre à espera das cozinheiras no santo ofício de produzir as refeições.
Lá vinha a bisavó atender os bisnetos, contrariados por alguma bobagem ou até por um aperto de dedos no descuido das muitas brincadeiras. Vestimentas simples, adornadas pelo peculiar avental, nos pés os chinelinhos de pano, e o inesquecível coque no alto e atrás da cabeça, prendendo os longos cabelos grisalhos.
Sempre havia um sorriso naquela face já marcada pelo tempo, sempre um gesto de carinho, impossível esquecer o delicado toque daqueles pequeninos dedos, de uma mulher criada na rudeza de tempos tão difíceis, um carinho que possivelmente não houvera experimentado quando menina.
Mãos calejadas, de grossos dedos, que colheram café, podaram e plantaram, muito sovaram e trabalharam, enrugadas e marcadas, de palmas ásperas e dorsos manchados pelo tempo, mãos que oraram segurando o terço nos momentos de súplica e temor, mãos corajosas e resolutas.
Seguia a rotina da casa, agora os aromas são outros, o cheiro forte de penas molhadas que exala da galinha, que era limpa em grande bacia, de onde levantava o vapor de água quente, o aroma de cebola e alho, fritos na frigideira avantajada, tomate, salsa e cebolinha picados… O vai e vem das mulheres que conversavam ou “tagarelavam” sobre tudo e todos.
E lá ia Celerina, preocupada se os bisnetos já haviam comido “pon”, seu modo peculiar de pronunciar pão, mas atenta e auxiliando no preparo da refeição que se avizinhava.
Impávido e não menos sisudo, Sílvio, o bisavô, vindo do ofício de comerciante de fumo e cigarros de palha, preparava um “lanche”, uma porção grande de pão, aberta ao meio, onde eram acrescidas fatias de cheiroso queijo ou linguiça, pimentas vermelhas e o “fedido” vinagre de vinho, tudo que seria devorado pelo patriarca acompanhado de uma generosa jarra de limonada fresca recém -espremida com os bonitos limões colhidos no quintal. E lá vinha Celerina servir o marido.
O ritual do bisavô se encerraria em seguida com umas boas baforadas no “pito” o cachimbo do qual não se separava, quando a fumaça de aroma intenso e agradável do fumo em corda pelo ambiente se espalhava...
E lá vinha Celerina buscando ou estendendo roupas no varal, colhendo pequenas porções de salsinha e cebolinha, na pequena horta, entre um afago ou outro nas cabecinhas dos bisnetos que sorriam, na inocência da primeira infância, e pouco entendiam a razão de tanta atividade.
Olhos sempre brilhantes e alegres, seguia a bisavó a sovar uma grande porção de mistura de pão, mas ouvindo e palpitando sempre, no “converseiro” da mulherada que se misturava ao som das panelas e do fogo da lenha queimando, de tudo se falava e sim, de todos certamente…
Quantas histórias e causos ali foram contados e se perderam ao longo do tempo, e que o menino Carlos Eduardo, hoje atento, não percebeu… ou se escutou, pouco entendeu.
Enfim a mesa estava posta, com a simplicidade característica da família, farta com singeleza, aromática e aconchegante, e muitos são os personagens à sua volta, Celerina e Sílvio os patriarcas, alguns dos seus filhos, Dalila, Nesca com o marido João, a neta Neide com o marido Joselfredo e os bisnetos Josenei e Carlos Eduardo e alguns outros que a memória trai na vã tentativa de identificar, talvez os tios Olga e Pedro, quem sabe…
Católica fervorosa, devota e muito religiosa, mantinha um pequeno oratório no quarto do casal, com algumas imagens, vela e lamparina, flores e o terço, frequentemente podia ser vista fazendo orações.
Além de toda a lida doméstica, ainda encontrava tempo para produzir flores de papel e pano, muitas iriam enfeitar igrejas e seus altares, além de decorar festas, como os casamentos.
A vida tomou seu rumo e o ciclo “mogiano” do casal Celerina e Sílvio encerrou-se, a maioria dos filhos já não mais estava na cidade. Armando (o primogênito), Romeu e Maria Inês (a caçula) casaram-se, indo residir e tocar a vida em Campinas, assim como Guido e Mário, estes na capital paulista, e Líbera (a Nesca), já casada, seguia seu marido João, militar de carreira em suas muitas andanças pelo país. Restavam em Mogi, Dalila, solteira, e Olga, casada com o inesquecível “Tio Pedro Missaglia”.
Venderam a casa no ano de 1960 e seguiram para Campinas, indo inicialmente residir em um casarão antigo na rua Barão de Itapura.
Celerina Malvezzi Furegatti, faleceu em Campinas, estado de São Paulo, no dia 5 de agosto de 1980, aos 96 anos, deixou um legado muito bonito de dedicação à família e ao próximo, era humilde, delicada e prestativa, mas também, valente, resoluta e dedicada. Mesmo diante de tantas dificuldades e obstáculos, nunca se deixou abater, era uma mulher de fé e princípios, analfabeta, tinha a sabedoria adquirida ao longo da vida e, com simplicidade, amor e perseverança, sempre seguia adiante. Ficaram as maravilhosas lembranças e muitas saudades!
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