Wajãpi: histórias que fortalecem a memória entre gerações

Projeto do Museu da Pessoa em parceria com Instituto Iepé e Apina (Conselho das Aldeias Wajãpi) mobiliza jovens para registrar histórias, saberes e práticas dos anciãos Wajãpi e preservar essas memórias para as próximas gerações.

Em 2026, o Museu da Pessoa se uniu com Instituto Iepé, que atua há quase 25 anos em projetos colaborativos com o povo Wajãpi, para atuar junto a este povo indígena do Amapá no registro de suas histórias de vida, saberes e práticas culturais. A iniciativa faz parte do projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais, desenvolvido pelo Museu da Pessoa junto a territórios e grupos que possuem patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo Iphan e pela Unesco. 

O projeto busca contribuir para a salvaguarda desses patrimônios e de seus contextos culturais por meio do registro de histórias de vida e das memórias de seus detentores. Para isso, a mobilização de jovens dos territórios é uma parte estruturante da iniciativa. O Museu da Pessoa e o Instituo Iepé estão realizando oficinas com esses jovens nas quais estão sendo trabalhados conteúdos sobre memória, escuta, registro e preservação para que eles atuem como multiplicadores das ações de registro, preservação e disseminação das histórias e memórias de seus povos e comunidades.

Cerca de 28 jovens estão participando do processo e, ao longo de 2026, já passaram por diferentes etapas: primeiro, participaram de uma formação; depois, realizaram entrevistas com anciãos em diversas aldeias da Terra Indígena Wajãpi; por fim, voltaram aos registros para selecionar e editar as histórias que irão compor uma série de vídeos e uma coleção no acervo do Museu da Pessoa. Para Lucia Szmrecsányi, coordenadora do Programa Wajãpi do Instituto Iepé, esse movimento tem um significado especial para as comunidades: 

“O registro das memórias dos mais velhos que vem sendo feito pelos jovens wajãpi com apoio do Museu da Pessoa tem sido muito importante para dinamizar o diálogo intergeracional e a troca de saberes entre os diferentes subgrupos que convivem na Terra Indígena Wajãpi. Acreditamos que o acervo produzido ao longo do projeto será muito valioso para as comunidades, para as novas e futuras gerações, e esperamos que os jovens possam dar continuidade a esse trabalho de diálogo e registro após o encerramento do projeto”.

🔗 Patrimônios culturais são feitos das histórias de quem os mantém vivos

Jovens Wajãpi e equipe do Museu da Pessoa e Instituto Iepé, segunda etapa da formação, julho/2026. 

Primeira etapa: formação dentro da Terra Indígena

A primeira etapa da formação aconteceu em maio, no Centro de Formação e Documentação Wajãpi, dentro da própria Terra Indígena.

Durante sete dias, os jovens participantes de diferentes aldeias estiveram reunidos  para a formação. Nesse período, aprenderam sobre memória, escuta e registro e refletiram sobre a importância de preservar os conhecimentos dos mais velhos e fortalecer sua transmissão para as novas gerações.

Depois dessa primeira etapa, os jovens levaram o aprendizado para suas próprias comunidades.

Segunda etapa: as entrevistas nas aldeias

O Museu da Pessoa e o Instituto Iepé estiveram presentes em diversas regiões da Terra Indígena, acompanhando as equipes de jovens durante o trabalho. Entre o fim de maio e o início de julho, foram realizadas as rodadas de entrevistas com os mais velhos nas aldeias. Ao todo, os jovens já realizaram mais de 25 entrevistas com anciãos em diversas aldeias espalhadas por toda a Terra Indígena.

Entre histórias de vida, saberes e práticas do povo Wajãpi contadas pelos mais velhos, os jovens foram aprendendo sobre memória, escuta, registro e preservação.

Para Tapeke Wajãpi, jovem participante da região do Mariry, as entrevistas também revelaram histórias que ele ainda não conhecia por completo:

“Gostei muito das entrevistas que fizemos na minha região, primeira vez que ouvi o Waiwai contando tantas histórias. Quando eu era criança ele me contava só um pouco das histórias, não contava bem. Mas agora durante a entrevista que fizemos ele contou tudo, foi muito importante pra mim. Por isso vamos guardar para sempre no Museu da Pessoa, para ficar para as futuras gerações Wajãpi”.

Jovens da região de Mariry revisitando as entrevistas para editar as histórias, segunda etapa da formação, julho/2026. Aline Scolfaro

O relato de Tapeke mostra como o processo de registro também cria novas oportunidades de escuta entre as gerações. Ao entrevistar os mais velhos, os jovens conhecem histórias e conhecimentos que fazem parte da memória de suas comunidades.

As entrevistas também favorecem um espaço para que os anciãos compartilhem aquilo que aprenderam com seus pais e transmitam esses conhecimentos aos mais jovens.

É o que conta Ajareaty Wajãpi, anciã da região de Aramirã:

“Essas entrevistas, esses registros são importantes para mim, pois eu tenho conhecimento. Quando esses jovens me perguntam eu falo o que eu aprendi com meus pais. Eu gosto muito de fazer esse tipo de trabalho, de falar para os jovens porque quero passar o conhecimento para os mais novos”.

A fala de Ajareaty reforça uma das principais dimensões do projeto: estimular as trocas intergeracionais e valorizar os mais velhos, suas histórias e seus saberes.

Enquanto os anciãos compartilham conhecimentos que receberam de outras gerações, os jovens aprendem a escutar, registrar e preservar essas memórias.

Entrevista com Ajareaty Wajãpi, Aramirã, TI Wajãpi, maio/2026. Crédito: Aline Scolfaro.

Terceira etapa: voltar às histórias e aprofundamento da edição

Na segunda quinzena de julho, entre os dias 17 e 24, foi realizada uma nova etapa da formação.

Nesse momento, os jovens revisitaram as entrevistas realizadas nas aldeias e começaram o processo de escolha e edição das histórias.

A etapa também trouxe novas reflexões sobre a importância da preservação da memória e dos conhecimentos dos mais velhos e sobre a transmissão desses saberes para as novas gerações. Para Aline Scolfaro, coordenadora do projeto do Museu da Pessoa, esse processo de escuta e registro também é uma oportunidade de aproximar os jovens de suas próprias histórias e fortalecer o vínculo com sua cultura:

“Acho que um dos pontos mais importante desse trabalho é despertar nos jovens o interesse genuíno pelas memórias e histórias contadas pelos mais velhos e desenvolver com eles a escuta ativa e o sentido da preservação dessas memórias por meio dos registros que estão realizando. E isso ganha uma importância ainda maior quando consideramos os desafios atuais relacionados às mudanças no modo de vida e ao uso e consumo crescente das redes sociais com conteúdos que muitas vezes distanciam esses jovens de sua própria cultura e dos contextos em que a transmissão dessas memórias e saberes entre as gerações se dá”. 

Etapa de entrevista. Crédito: Gutcha.

Da entrevista ao acervo

Como resultado desse trabalho, os jovens irão produzir vídeos a partir das histórias de cada ancião entrevistado.

Além disso, será criada uma coleção com histórias Wajãpi na plataforma de acervo do Museu da Pessoa.

Todas as histórias de vida registradas no projeto passam, assim, a integrar o acervo do Museu da Pessoa, preservadas como parte de um acervo permanente de histórias de vida. O material registrado ficará disponível para outras ações e produtos que os Wajãpi queiram fazer no âmbito dessa parceria entre o Museu da Pessoa, Instituto Iepé e Apina. 

Como disse Tapeke, ao falar sobre a entrevista realizada em sua região, “vamos guardar para sempre no Museu da Pessoa, para ficar para as futuras gerações Wajãpi”.

O registro amplia, portanto, as possibilidades de preservação e disseminação dessas memórias. 

Prática de filmagem durante primeira etapa, maio/2026. Crédito: Aline Scolfaro.

Os Wajãpi e a Arte Kusiwa

Os Wajãpi do Amapá são detentores da Arte Kusiwa, reconhecida em 2002 pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e, no ano seguinte, como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Trata-se da tradição gráfica do povo Wajãpi, que se aplica à decoração de corpos e objetos e possui profundos significados cosmológicos.

As ações do projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais partem desse contexto para contribuir com a salvaguarda do patrimônio e de seus contextos culturais. Para isso, o trabalho valoriza as histórias de vida, os conhecimentos e as memórias de seus detentores.

Uma trajetória de preservação da memória indígena

A ação com os Wajãpi integra o programa Patrimônios Imateriais – Vidas Indígenas, iniciativa do Museu da Pessoa que reúne projetos de registro e preservação das histórias e memórias de povos indígenas.

Ao longo dessa trajetória, o Museu desenvolveu ações com diferentes povos e territórios, como Indígenas pela Terra e pela Vida, Vidas Indígenas Maranhão, Patrimônios Imateriais do Rio Negro e, dentro do projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais, ações com os povos Enawenê Nawê, Iny Karajá e Wajãpi.

Atualmente, o projeto também está presente no Médio Amazonas, junto às comunidades que mantêm a tradição do Boi-Bumbá, ampliando o trabalho de registro, preservação e disseminação de patrimônios culturais e histórias de vida.

Em comum, essas iniciativas têm a formação de jovens para registrar as histórias dos mais velhos, fortalecer as trocas entre gerações e contribuir para que esses conhecimentos permaneçam vivos e acessíveis às próximas gerações.

Revistando as entrevistas para o processo de edição, segunda etapa da fromação, julho/2026. Crédito: Diogo Pereira.

As ações do projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais com o povo Wajãpi estão sendo viabilizadas através da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, apoio financeiro do BNDES, patrocínio do Mercado Livre, cooperação do Iphan, Unesco e Museu Nacional dos Povos Indígenas-Funai e parceria do Instituto Iepé e Apina (Conselho das Aldeias Wajãpi).