Patrimônios culturais são feitos das histórias de quem os mantém vivos

Das aldeias Wajãpi, no Amapá, ao Complexo Cultural do Boi-Bumbá de Parintins, o Museu da Pessoa amplia o registro de histórias de vida para contribuir com a preservação dos patrimônios culturais brasileiros.

Os patrimônios culturais existem através das pessoas. Eles vivem nos conhecimentos transmitidos entre gerações, nas celebrações, nos modos de fazer, nas memórias e nas histórias de quem mantém essas tradições vivas.

Há mais de 30 anos, o Museu da Pessoa reúne, preserva e compartilha histórias de vida como forma de valorizar a memória social brasileira. Hoje, a instituição abriga o maior acervo de histórias de vida do Brasil e, por meio do projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais, amplia essa atuação junto a povos indígenas e comunidades tradicionais detentoras de patrimônios culturais reconhecidos.

Nos últimos meses, duas iniciativas desenvolvidas em diferentes regiões do país mostram como esse trabalho acontece na prática: uma junto ao povo Wajãpi, no Amapá, e outra no Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins.

Entre os Wajãpi, histórias que fortalecem a memória entre gerações

As ações junto ao povo Wajãpi tiveram início em 2026, em parceria com o Apina (Conselho das Aldeias Wajãpi) e o Instituto Iepé, organização que atua há quase 25 anos em projetos colaborativos na região.

Os Wajãpi são detentores da Arte Kusiwa, reconhecida pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e, posteriormente, pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. A tradição gráfica Wajãpi, aplicada na pintura corporal e na ornamentação de objetos, reúne conhecimentos, narrativas e significados fundamentais para a identidade desse povo.

A partir desse contexto, o Museu da Pessoa iniciou um processo de formação de jovens para registrar histórias de vida, memórias, saberes e práticas culturais narradas pelos anciões de diferentes aldeias.

Ao todo, cerca de 28 jovens participaram da formação e já realizaram mais de 25 entrevistas em diversas regiões da Terra Indígena Wajãpi. Entre o fim de maio e o início de julho, eles percorreram aldeias, trilhas e rios para chegar aos anciões, registrando histórias sobre modos de vida, conhecimentos tradicionais e a relação do povo Wajãpi com seu território.

Para os anciões, esse processo também representa uma oportunidade de compartilhar conhecimentos e fortalecer a transmissão entre gerações. Como conta Ajareaty Wajãpi, anciã da região de Aramirã:

“Essas entrevistas, esses registros são importantes para mim, pois eu tenho conhecimento. Quando esses jovens me perguntam, eu falo o que eu aprendi com meus pais. Eu gosto muito de fazer esse tipo de trabalho, de falar para os jovens, porque quero passar o conhecimento para os mais novos.”

Na segunda etapa da formação, realizada em julho, os participantes revisitaram as entrevistas para iniciar o processo de seleção e edição das histórias. Como resultado, serão produzidos vídeos sobre os anciões entrevistados e será criada uma coleção dedicada ao povo Wajãpi no acervo do Museu da Pessoa.

Mais do que registrar memórias, a iniciativa fortalece o diálogo entre gerações e contribui para que conhecimentos tradicionais continuem sendo compartilhados dentro das próprias comunidades.

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Em Parintins, histórias de quem faz o boi-bumbá acontecer

No Amazonas, o Museu da Pessoa iniciou sua atuação junto ao Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins durante o Festival de Parintins, realizado em junho.

Em parceria com o Mercado Livre, a instituição promoveu uma ação de registro de histórias de vida na Casa de Vidro e no camarote da empresa no Bumbódromo, convidando moradores, artistas, trabalhadores, mestres da toada, brincantes, torcedores e visitantes a responderem à pergunta: “Qual foi a história mais marcante que você viveu em um festejo de boi?”

As histórias compartilhadas revelam como o boi-bumbá atravessa trajetórias pessoais, relações familiares e memórias construídas ao longo de gerações. Entre os relatos registrados está o de Acilnelson Duarte das Neves, conhecido como Seu Patinho, que compartilhou lembranças de sua relação com a tradição do Boi Garantido:

“Eu e meu irmão crescemos dançando nas ruas, nas fogueiras e nas festas de São João. Mantendo sempre a nossa tradição, a tradição da nossa cultura e do nosso povo. E hoje a gente brinca com o Garantido no dia de São Pedro. Que coisa linda, né? O Garantido festejou hoje, serenando hoje, em dia de São Pedro. E agora dançamos no Bumbódromo, como ele dançava na Baixa do São José.”

A iniciativa também marcou o início de uma atuação de longo prazo no território. Jovens dos municípios envolvidos têm sido formados pelo Museu da Pessoa para registrar histórias de vida de mestres do boi-bumbá e de outros detentores desse patrimônio cultural, ampliando o acervo sobre uma das manifestações culturais mais emblemáticas do país.

O projeto também envolve o Núcleo Mestres da Toada, iniciativa que integra a Rede de Núcleos do Museu da Pessoa e que produz entrevistas, pesquisas e produção audiovisual para preservar as memórias de personagens fundamentais da história do boi-bumbá, valorizando as trajetórias de quem mantém viva essa tradição.

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Preservar patrimônios culturais é preservar as histórias de quem os mantém vivos

As ações desenvolvidas junto ao povo Wajãpi e ao Complexo Cultural do Boi-Bumbá compartilham um mesmo compromisso: reconhecer que a preservação dos patrimônios culturais passa também pelo reconhecimento das pessoas que lhes dão continuidade.

Ao promover o registro das histórias de vida, formar jovens em seus próprios territórios e construir acervos acessíveis às comunidades e ao público, o Museu da Pessoa amplia o reconhecimento de mestres, anciões, artistas e detentores de saberes como protagonistas da memória cultural brasileira.

Afinal, os patrimônios culturais permanecem vivos nas histórias das pessoas que os constroem, transformam e transmitem todos os dias.

O projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais é uma realização do Museu da Pessoa, viabilizado pelo Programa Nacional de Apoio à Cultura (Lei Rouanet), por meio do Ministério da Cultura, com apoio financeiro do BNDES e patrocínio do Mercado Livre. O projeto também conta com cooperação técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), UNESCO e Museu Nacional dos Povos Indígenas da Funai.