Projeto Memórias das Águas: Rios e Ruas
Entrevista de Vinícius Pereira de Souza (R1)
Entrevistado por Bruno Oliveira (P/1) e Levi Andrade (P/2)
São Paulo, 28 de maio de 2026
Entrevista RIO_HV005
Transcrita por Nancy Santos
Revisada por Levi Andrade
(00:00:00) P/1 – Peço que você se apresente falando seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R1 – Eu sou Vinícius Pereira de Souza. Eu nasci aqui em São Paulo, na capital.
(00:00:38) P/1 – E a data de seu nascimento, qual foi?
R1 – Eu nasci dia 10 de julho de 1980. E tem até uma história já dessa data. Porque meu pai dizia que eles esperavam a Juliana. Minha mãe tinha certeza que era Juliana. Chegaram na maternidade e: "Ué, mas nasceu homem! E agora?" E aí, no carro, meu pai estava olhando minha mãe e eles ouviram no rádio que tinha falecido Vinícius de Moraes. Foi por conta disso que eu me chamo Vinícius.
(00:01:18) P/1 – Qual é o nome dos seus pais?
R1 – A minha mãe é Antonieta e o meu pai é Felinto. Minha mãe acabou assumindo o nome do meu pai, Antonieta Pereira de Souza, o que eu acho triste. A história do meu pai foi uma história que sempre foi muito contada lá em casa. Meu pai é um cara que era um comunicador, um cara que sempre falou muito, viveu de publicidade. Então sempre foi uma pessoa que contou muitas histórias, e as histórias da família dele são histórias que a gente conhece bem. Meu pai veio do semiárido brasileiro. As histórias do cangaço ele contava muitas. Mas a minha mãe nunca contou muito as histórias da vida dela. Por conta disso, recentemente eu comecei a cutucar a minha mãe para ver que histórias saíam dali. É difícil conseguir tirar da minha mãe as histórias. Mas a minha mãe é filha de uma síria e de um português que se conheceram aqui no Brasil e vieram refugiados das misérias dos seus países. Minha mãe, assim como eu, é filha de imigrantes, e eu sou filho de um imigrante nordestino e de uma filha de imigrantes. Minha mãe é paulistana como eu. Agora eu tenho investido mais em saber da história da minha mãe. Hoje eu estou tocando música árabe, e essa curiosidade nasceu de querer saber da história da minha família do lado materno.
(00:03:06) P/1 – E que histórias ela contou para você?
R1 – Minha mãe conta poucas histórias da vida dela, porque eu acho que eles passaram muitas privações durante a infância da minha mãe. Eu sei que é bem doloroso para ela contar. Mas eu sei que o meu avô ia de carroça lá da Vila Maria, onde minha mãe nasceu, onde eles moravam, até, acho que hoje, onde fica ali no centro. Como é que chama?
(00:03:45) P/1 – A Zona Cerealista.
R1 – A Zona Cerealista. Eu não sei exatamente aonde ele ia, mas ele saía de carroça, ia buscar mantimentos na Zona Cerealista e depois voltava lá para a Zona Norte, onde eles tinham uma pequena mercearia, onde minha mãe começou a trabalhar ali desde adolescente. Ela me conta essas histórias e conta pouco sobre as histórias da mãe dela. Por isso que agora, sempre que eu tenho uma oportunidade, eu dou uma cutucadinha para ver o que eu consigo cavucar. Descobri recentemente que onde minha avó nasceu, Dona Nejmi Abdallah, foi ali, em umas montanhas, no meio da Síria. Era uma região que era próspera em produção de comida, não era um lugar desertificado. É o pouco que eu sei da história da minha avó. Mas eu sou muito curioso com relação a isso. E tem um negócio que é muito legal pensar: os lusitanos, nossos colonizadores, foram colonizados também pelos mouros. E aí, de repente, se a gente olhar para a história da minha família – a minha avó árabe, o meu avô português, o meu pai nordestino que chega até São Paulo –, a gente tem um trajeto histórico, ainda mais da constituição de São Paulo, que é um lugar que recebe todos os imigrantes e que é um celeiro de diversidades, de várias histórias de imigração e colonização. Na minha família, a gente concentra essa história. Acho isso muito curioso.
(00:05:30) P/1 – E você chegou a conhecer seus avós?
R1 – Não. Dos meus avós, eu só conhecia a Dona Elvira, que era a mãe do meu pai. E já a conheci bem velhinha, debilitada. Os meus pais me tiveram com 40 anos – minha mãe tinha 40, meu pai tinha 35. E eles também já tinham nascido de pais mais tardiamente. Então eu não conheci meus avós. Só a Dona Vilô.
(00:05:59) P/1 – E me conte uma dessas histórias que você lembra, que o seu pai te contava, de onde ele nasceu.
R1 – Meu pai nasceu num lugar chamado Raso da Catarina, que fica no sertão da Bahia, no semiárido brasileiro. Era um lugar seco, semidesértico. No momento de chuvas, o meu avô plantava lá. Depois eles iam para Paulo Afonso, que foi onde meu pai se criou. E nas beiras, nas bordas do Rio São Francisco, meu avô tinha uma outra roça. Então eles tinham duas roças: lá no Raso, na Fazenda Olho d'Água, e na margem do São Francisco, onde meu pai se criou. Meu pai nunca nos levou para conhecer Paulo Afonso, nem o Raso, porque onde ele se criou, lá em Paulo Afonso, está debaixo d'água. Quando chegou a CHESF, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, todo aquele bairro foi inundado. Então a história do meu pai está debaixo d'água. Ele levou a gente para conhecer vários lugares do Nordeste, mas onde ele nasceu ele não teve coragem de nos levar. Minha irmã e eu algum dia ainda vamos desbravar. E tem uma história boa: quando a minha mãe estava grávida da minha irmã, meu pai foi levá-la para conhecer meus avós. Lá no sertão, tinha uma casa onde eles tinham uma cobra que morava no teto – uma caninana, uma cobra que não tem peçonha, mas ela mora ali, come os ratos, morcegos, faz o encontro de outras cobras. Essa cobra caiu do teto quando minha mãe estava lá. Minha mãe ficou apavorada, e eles foram embora. Bem no dia que minha mãe foi dormir lá, a cobra caiu do telhado.
(00:08:07) P/1 – Você contou que tem uma irmã, é só ela?
R1 – Sim, somos minha irmã e eu. Minha irmã é Janayna. Minha irmã é cantora. Canta forró, porque é filha do meu pai e a gente ouviu muito forró em casa. Todo sábado e domingo a gente ouvia muita música. Meu pai sempre gostou de ouvir músicas do mundo. E o forró sempre esteve conosco. Gonzagão, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro são figuras que sempre estiveram presentes. Quando a minha irmã começou a cantar, ela começou fazendo backing vocal de um artista chamado Miltinho Edilberto. E, sem se dar conta, ela percebeu que sabia um repertório imenso de letras, de melodias. Porque eram músicas que ela ouviu tanto na infância que já eram dela. Além de fazer backing vocal para o Miltinho, ela começou a montar o trabalho autoral dela, que era uma banda chamada Bicho de Pé. Ela cantou 20 anos no Bicho de Pé antes de sair e se dedicar ao trabalho solo dela. Ela começou a cantar por conta de ouvir o meu pai. De tanto ouvir meu pai cantando em casa e ouvindo música, ela foi por esse lado. Mas eu comecei com a música antes da minha irmã. Isso é curioso, porque eu sou 7 anos mais novo que ela. Só que eu comecei aos 10, 11 anos de idade. Eu tive vontade de tocar violão. Tem uma história engraçada. O meu vizinho de baixo, do prédio, começou a tocar violão, começou a estudar, e a mulher que dava aula para ele, a Ana Lu, era uma mulher maravilhosa. A hora que ela chegava, a gente olhava para aquela mulher e babava – dois moleques de 10 anos de idade. Mas ela era tão encantadora que não tinha como não querer tocar violão. Foi por causa dela que eu comecei a tocar violão. Mas não fui estudar com ela, fui estudar com outro cara, com o Dennis Belik, que é um baixista, um contrabaixista, toca contrabaixo elétrico, é jazzista, toca funk, grooves, slap. Um dia eu fui no estúdio dele, que era do lado de casa, uns quatro quarteirões, fazer aula de violão, e ele estava tocando baixo no estúdio. Ele tinha um estúdio dentro de casa, lá nos fundos. Ele estava tocando baixo, estava slapando, tocando uns grooves. Eu olhei e falei: "Nossa, que doida essa sua guitarra, cara. Posso ver?" Ele: "Pode". Botou no meu colo. Pesado para caramba para mim. Era um Fender Jazz Bass 5 cordas. Aí eu peguei na mão aquele negócio. Só de pegar aquilo na mão já arrepia. Comecei a tocar um pouquinho, experimentei o slap. A hora que eu experimentei, falei: "Nossa, é a guitarra do Flea, do Red Hot Chili Peppers". Ele falou: "É, então, é isso mesmo. Só que não é uma guitarra, é um baixo". Eu falei: "É um baixo?" Ele me explicou. Falei: "Nossa, eu quero tocar baixo". Cheguei em casa, falei para o meu pai: "Pai, eu quero tocar baixo". Ele falou: "Pô, mas não quer tocar violão?" Eu falei: "É, mas aí descobri esse instrumento". Um ano depois, ele falou: "Você faz um ano de violão. Se você estudar mesmo para valer, eu te dou um baixo". Eu estudei um ano de violão. Aí fui para o baixo e entrei na banda da escola. Começou assim, com 11 anos de idade, 11 para 12. Eu decidi que seria músico da vida.
(00:12:14) P/1 – Eu queria voltar só um pouquinho. Eu queria saber como era essa relação com a Janayna na infância.
R1 – A gente brigava um pouco. Na minha primeira infância, eu era a boneca da minha irmã. Ela me pegava, prendia meu cabelo, amarrava. Eu era um bebezinho de uma menina de sete anos. No começo eu fui essa bonequinha, até que depois eu comecei a crescer e pentelhar ela. Ela virou adolescente, eu já era um molequinho que atazanava a vida dela. Meu pai trazia iogurte para casa, botava na geladeira. Eu comia o meu; se no dia seguinte minha irmã não tivesse comido o dela, eu comia o dela também. Ai, nossa senhora, o que eu apanhei da minha irmã. Aprendi um bocado de coisa ali. Mas era gostosa a nossa relação. Eu era folgado, era um moleque folgado, era mimado, porque eu era praticamente um filho único. Minha irmã já estava grande, crescida, e eu era um menino. Mamãe me trata até hoje como se eu fosse o bebezão dela – por isso que estou com 45 anos de idade. Tinha essa coisa com a minha irmã.
(00:13:41) P/1 – O que seus pais faziam? Com o que eles trabalhavam?
R1 – Quando meu pai chegou do sertão aqui em São Paulo, ele desenhava. Ele não terminou o ensino médio lá. Fez o ensino fundamental, e desenhava, ilustrava. Na Praça da República ele desenhava. Fazia ilustrações. O pessoal da publicidade viu os trabalhos dele. Ele era um cara muito comunicativo, muito boa praça. Já tomava uns gorós com os caras, contava causos. Se relacionou muito bem. Em pouco tempo, ele começou a trabalhar como assistente numa agência de publicidade. Entrou e virou publicitário, diretor de arte, fez carreira. Minha mãe, eles se conheceram porque ela trabalhava como secretária nessa agência de publicidade. Se conheceram lá na Norton, se casaram e compraram um apartamento no centro da cidade, uma kitnet na Rua Dona Veridiana, onde eu morei depois. Quando me casei, eles deram aquele apartamento para a gente. Minha mãe trabalhava como secretária, mas depois ela fez faculdade de Ciências Sociais. Foi trabalhar como professora na rede pública. Não deu um ano de aula e falou: "Não, isso não é para mim". Saiu. Para minha mãe, que veio daquela história de vida, fazer faculdade era uma coisa muito importante. Acho que foi por isso que ela fez faculdade – mais por ser uma conquista de ascensão social do que realmente vontade de trabalhar como cientista social. Tanto que ela nunca exerceu isso. Ela foi trabalhar como agente de viagens, que era uma coisa que ela sempre adorou: viajar, conhecer lugares novos, conhecer gente nova. Minha mãe sempre amou isso. Tinha uma amiga dela, a Berenice, que tinha aberto uma agência de viagens. Minha mãe se tornou sócia dela. A Berê estava de olho na cartela de clientes dos amigos do meu pai, que era uma galera que tinha uma grana, aquela classe média que tinha recursos para viajar. Minha mãe estava feliz da vida, porque aprendeu o ofício com a Berenice, ganhava uma graninha e estava ocupada fazendo uma coisa que a deixava feliz. De quando em vez ainda ganhava pacotes e coisas que os hotéis e as agências aéreas ofereciam. Todo ano ela tinha uma viagem boa para fazer com o meu pai. No começo a gente viajava junto, até meus 10, 11, 12 anos. Depois eles começaram a fazer muita coisa sozinhos. Deram umas voltas, eles aproveitaram bastante. Minha mãe ficou na agência de viagem até a internet acabar com esse ofício. Quando as pessoas começaram a montar seus próprios pacotes, seus próprios roteiros, comprar passagens mais baratas nos sites de busca, aí essa profissão acabou. Minha mãe acabou virando produtora cultural. Vendeu shows, tanto dos grupos que eu fazia parte quanto de alguns grupos de alguns amigos meus, um pouquinho do trabalho da minha irmã. Mas sempre foi vendedora. Ela vendia pacotes de turismo, depois vendeu os shows dos filhos e amigos, até não dar mais conta porque já está meio cega, meio surda. Minha mãe parou de vender com 82 anos. Até a pandemia ela estava vendendo shows. Em 2020 foi quando ela parou.
(00:18:08) P2 - Tem alguma viagem que te marcou, que você participou, que ela te contou na infância? Que você lembra?
R1- Eu acho que assim: teve uma viagem que a gente fez quando foi conhecer o Nordeste. Eu me lembro que a gente foi para Maceió, Salvador, Recife, essas três, acho que eram quatro capitais nordestinas. Recife, Salvador, Maceió... eu devia ter uns seis anos de idade. Foi a primeira vez que eu viajei de avião. Foi muito gostoso. Eu tenho lembranças dessa viagem e de uma viagem que a gente fez depois para o Rio Grande do Norte. Fomos conhecer Natal. Vi as dunas pela primeira vez. Foi muito chocante para mim. O Morro do Careca. Não lembro qual é o nome da praia, mas fiquei encantado com o Nordeste. O Nordeste era uma coisa mágica: as praias lindas, aquelas falésias em Natal, no Rio Grande do Norte. Eu lembro que em algum momento da minha infância viajamos para o Nordeste e para o Norte.
(00:19:50) P/1 – Seu pai contava alguma história sobre o rio São Francisco?
R1 – Não. Meu pai contou poucas histórias da relação dele com o rio, porque ele ficou traumatizado. O que ele conta é que, num determinado momento, depois que o bairro foi inundado – chamava Barra de Paulo Afonso –, só ficou para fora a cruzinha da igreja. As histórias todas da infância dele ficaram embaixo d'água. Acho que isso mexeu tanto com ele que ele não contava histórias sobre a relação com a água. É engraçado, porque em 2015, quando houve o rompimento da barragem de Mariana, do Rio Doce, foi que eu entrei em contato com o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens]. Ali por 2016, 2017, foi quando eu me dei conta de que o meu pai foi um atingido por barragens. Não por um crime ambiental – não vou entrar no mérito de discutir se a construção dessas hidrelétricas é criminosa ou não, mesmo porque a gente ainda no Brasil defende que essa fonte de energia é limpa, o que é totalmente discutível. Meu pai não contava histórias sobre a relação dele com as águas.
(00:21:59) P/1 – Que interessante pensar isso. Era uma coisa que, de certa forma, permeou a sua vida, mas ao mesmo tempo era uma coisa muito difícil para o seu pai falar.
R1 – Era uma dor para ele falar sobre as águas. E a minha relação com as águas na infância foi maravilhosa. Porque os meus pais tiveram privações materiais. Vieram de uma realidade econômica bem restritiva. Quando meu pai começou a ganhar dinheiro na publicidade, mudou. Eles viraram classe média. E queriam poder propiciar para a gente o que eles não tinham. Então se associaram a um clube que ficava em Cotia, o Santa Paula, onde a gente ia todo final de semana. Tinha, inclusive, uma kitnet que ficava lá. A gente ia no sábado, dormia lá e voltava no domingo. Essa foi nossa rotina durante muitos anos. Segunda a sexta aqui, meus pais trabalhando, minha irmã ia à escola; no final de semana, a gente ia para o clube. Quando minha irmã ficou adolescente, ela parou de ir; só eu continuei. Depois, quando virei adolescente, também deixamos de ir. E aí eles venderam a kitnet e o título do clube. Desde criancinha, eu tenho uma memória com relação às águas que é muito engraçada. Quando a gente estava saindo de São Paulo, eu me defrontava com o rio Pinheiros, que a gente tinha que atravessar. Eu nasci ali na Rua Aimberê, onde hoje é Sumarezinho, Perdizes. Para poder ir para Cotia, pegar a Raposo Tavares, a gente atravessava o rio Pinheiros. E atravessar o rio era sempre um nojo, porque era um rio super poluído, super cagado – até hoje ainda é. Então eu criei uma ideia de que rios eram coisas poluídas. Lá no clube tinham nascentes. Tem nascentes. E um lago grande. Nesse lago tinha um pedalinho. Eu chegava lá, ia para esse pedalinho e ficava pedalando em volta do lago, conhecia o lago de cor e salteado. Uns anos mais para frente, eles colocaram um barco a remo, eu passei a remar lá. Eu adorava estar ali naquele lago. Daquele lago saía um corguinho, que descia todo o território do clube até chegar lá embaixo, numa área onde tinha umas churrasqueiras. Esse riozinho ia serpenteando aquela área, tinha várias pontezinhas. Era um rio de águas cristalinas. Só que eu não me molhava naquele riozinho. Eu não brincava naquela água. Porque eu só fui me dar conta disso agora. Na minha cabeça, rio era coisa de água suja. Eu não entendia a possibilidade de brincar naquela água, porque ela era uma água de rio, e rio era poluição, esgoto. Então eu brincava na piscina. Tem uma piscina grande no clube. Eu vivia dentro d'água. Ou eu estava nadando na piscina, ou estava lá pedalando no lago, ou então estava correndo, brincando lá em volta, sempre em volta do rio. E tinha um bosque enorme lá. O clube ficava no topo da montanha, tinha esse bosque enorme, um lago no meio do caminho, e lá embaixo a área das churrasqueiras. Eu sempre chegava e sempre descia esse bosque. Eu não tinha me dado conta, mas eu passei a minha infância dentro da Mata Atlântica. E nunca tinha dado valor para isso. Era só o caminho para eu chegar lá no lugar onde eu gostava de brincar. E eu passei uma boa parte dessa infância sozinho. Me relacionando com as águas, mas sempre sozinho. Na escola eu tinha pouquíssimos amigos. Eu odiei a escola, minha experiência escolar foi péssima. A escola sempre foi um lugar de "ai, que preguiça, vamos lá". Sofri bullying para caramba na infância. Primeiro, meus pais me colocaram numa escola particular, onde eu era o filho do nordestino. Então eu era o “Piauí”. E assim, o Piauí – eles falavam com um ódio no pronunciar, "Piauí" por ser o estado brasileiro mais pobre. Tinha essa coisa. E eu não aguentava as aulas. Chegava lá, começava a palestra, eu dormia na carteira. Eu estava sempre de cara amassada, cabelo todo bagunçado, porque eu dormia. Eu não aguentava assistir aquelas palestras a tarde inteira. Eu mal via a hora de chegar em casa para pegar a bicicleta e ficar rodando pelo bairro e jogar futebol no quintal do prédio com os amigos. Até eu entrar para a banda e começar a tocar baixo elétrico foi quando mudou tudo. Aí eu virei músico da escola, passei a entrar num lugar de aceitação. Eu tinha pouquíssimos amigos. Eu era o cara que ficava por último na fila, na educação física, na escolha do time de futebol. Eu era sempre o que sobrava. "Putz, sobrou o Piauí." Era sempre um negócio assim. Minha relação com a escola nunca foi legal. Acho que talvez por isso hoje eu me interesse tanto por educação, por pensar uma educação que seja divertida, inclusiva, que se relacione com o cotidiano, com a nossa vida. Eu achava muito sem sentido aquela experiência.
(00:28:45) P/1 – E o que você gostava de brincar na sua infância?
R1 – Andar de bicicleta. Eu jogava bola com os meus amigos no fundo do prédio. Mas eu tinha uma coisa: eu tinha um carrinho de controle remoto imaginário. Por todo lugar que eu ia, eu ia com ele, ele andava comigo. Eu imaginava ele andando por todos os lugares, passando por desafios. Nos dias de chuva, eu ia de ônibus escolar para a escola. Eu ficava andando com ele pela calçada e passava por debaixo de carros e na sarjeta. Naqueles dias de chuva que a sarjeta estava cheia d'água, meu carrinho enfrentava tudo isso. Eu queria ter um carrinho. Meus pais nunca me deram – foram me dar o carrinho lá para frente. Porque eles não tiveram brinquedos na infância, então para eles não era uma coisa relevante. Eu não tive muitos brinquedos, tive pouquíssimos. Eles não davam bola para isso. E eu penso como foi bom, porque eu tinha que imaginar. Eu tinha bonequinhos de Comandos em Ação. Queria Comandos em Ação. Meu pai me deu de Natal um bonequinho de Comandos em Ação. "Caramba, o que eu faço com um bonequinho? Como ele vai interagir com o quê?" Meus amigos tinham lá tudo dos Comandos em Ação e eu tinha dois bonequinhos. Então eu amarrava cordão num lugar e no outro e fazia ali. Quando alguém comprava algum móvel no prédio, um eletrodoméstico, eu ia lá, catava as caixas de papelão e as caixas de isopor, botava uns palitinhos de dente nos buraquinhos do isopor, fazia a prisão do bonequinho ali. Sempre inventava alguma moda para brincar. Passei boa parte da minha infância brincando sozinho. Eu tinha os amiguinhos do prédio, com quem me dava bem, mas eu gostava de brincar sozinho. Gostava de inventar brinquedos com o que tinha. Tinha um amigo com quem eu tive muita proximidade, o Marquinhos, que morava no andar de baixo.
(00:30:54) P/1 – Que tocava violão.
R1 – Isso. Ele é o cara que abriu muitas possibilidades para mim. O contato com ele foi uma coisa que me provocou um monte, abriu perspectivas. A gente se reencontrou agora, faz umas três semanas, um mês, por conta do trabalho da biografia. Eu acabei de fazer um curso chamado Germinar, que é um curso antroposófico. No último módulo, ele trabalha com um trabalho autobiográfico. E aí eles falaram: "Vai procurar pessoas de vários momentos da sua vida para te relembrar histórias". E eu liguei para ele, fazia sei lá quantos anos que a gente não se via presencialmente – acho que uns vinte e tantos anos. Foi muito legal. Ver como as pessoas mudam, mas continuam as mesmas. A essência dele continua sendo aquela mesma pessoa que eu conheci na minha primeira infância. Meu primeiro amigo da vida. Marquinhos. Foi muito legal vê-lo. Agora o cara é campeão brasileiro de jiu-jítsu, um negócio totalmente fora, nada a ver com a minha vida. O cara virou advogado. Caminhos completamente distintos, mas essencialmente ele é o mesmo cara. Foi legal ter esse reencontro com ele.
(00:32:30) P/1 – Você nasceu ali na Aimberê e a sua infância também foi ali por Perdizes. Como é que foi?
R1 – Foi por ali mesmo. Eu andava de bicicleta por ali, por todo canto. Quando a gente mudou para lá, quase não tinha prédios ali. Acho que o nosso prédio era o terceiro prédio da região. Daqueles quadriláteros de quarteirões, deviam haver três, quatro prédios. Eu me lembro que o prédio não tinha grades. Você entrava e saía do prédio, o acesso era aberto. Lá para 1986, mais ou menos, quando eu tinha seis anos de idade, foi quando colocaram grade no prédio. Até então, era tudo aberto. E tem uma figura na minha infância que foi marcante: o João, que era o zelador do prédio. Era um cara muito alto astral, bem-humorado, com um sorriso enorme. Que ser humano bom. Ele era capoeirista. A gente andava de bicicleta no prédio. Em 1986, eu com seis anos de idade, eu era o último que ainda estava usando rodinha na bicicleta. Um dia eu cheguei da escola, fui correndo catar minha bicicleta, e a bicicleta estava sem rodinha. "Ai, caramba, e agora? Como assim minha bicicleta está sem rodinha?" O João foi lá, olhou para mim e falou: "Já tem seis anos, moleque, vai andar sem rodinha". Eu aprendi. Naquele dia mesmo eu aprendi a andar sem rodinha. Porque os outros mais novos já estavam andando sem rodinha – o Luciano, o Juninho, os moleques mais novos de quatro e meio, cinco anos, estavam andando sem rodinha, e eu fiquei ali com seis, sete anos ainda usando rodinha. O João falou: "Vou resolver esse problema agora". Foi lá e tirou as rodinhas. Ele era um paizão assim. Enquanto meu pai estava trabalhando fora, minha mãe, meus pais, o João que estava ali no prédio. Ele estava sempre de olho na gente. Foi uma figura importante para a minha infância. Um homem preto, capoeirista. Ali, acho que eu tive a primeira vez que caiu minha ficha nessa história de racismo. Ele tinha um sobrinho, o Lázaro, que veio da Bahia e ficava na casa dele. O João morava no prédio com a família. Chegou o Lazinho lá. Tem uma piscina nesse prédio. E o Lazinho não podia entrar na piscina. Eu falei: "Ué, mas todas as crianças estão brincando, por que ele não vem brincar com a gente? Vem brincar com a gente". Naquela hora ele entrava. Eu naquele momento da vida não tinha processado aquilo, não entendi. Fui entender muitos anos depois o que estava acontecendo ali. Aquilo me marcou porque eu tinha (tenho) uma relação afetiva muito grande com o João. Foi um cara importante para a minha infância. Conversas boas sobre ser menino. Eu tive uma relação maravilhosa com meu pai. Ele foi uma figura masculina super importante para mim. Mas meu pai estava presente conosco no final de semana. De segunda a sexta, o João estava lá. Então foi uma figura importante.
(00:36:36) P/1 – Como foi crescer, ser adolescente no meio da música. O que você pensava da sua vida, o que estava se apresentando?
R1 – Era gostoso, era uma coisa que me dava muito prazer. A gente tinha bom reconhecimento. Eu fiz parte de uma banda, minha primeira banda com 11 anos de idade, se chamava Xuxus Anarquistas. Era uma banda de thrash metal. Thrash mesmo, pesado. Eu posso até mandar um áudio para vocês. A gente tocava bem. O baterista era um músico espetacular, o Thiago. O Estevam, o guitarrista, o cara que fazia os solos, era estudioso para caramba. O Diego cantava com a voz bem “podrona”. A gente parecia uma banda de pessoas mais velhas do que éramos. Ensaiávamos para caramba. No final de semana, a gente passava o sábado e o domingo inteiro. Foi quando eu larguei o clube, para passar os finais de semana na casa do Diego ensaiando. Ensaiávamos o dia inteiro. Um compromisso com a música muito sério. Eu adorava fazer aquilo. Eu pensei: "Nossa, se..." Aí foi naquela época que eu conheci um cara, um pouquinho depois, aos 14, 15 anos, que é um amigo meu até hoje, padrinho das minhas filhas, o André Parisi. Ele era guitarrista e fazia faculdade de música. E eu pensava “Nossa, existe uma faculdade de música?. Eu queria fazer isso. Quando eu for fazer faculdade, vai ser de música, não tem como ser outra coisa.”. Decidi isso muito moleque.
(00:38:44) P/1 – E onde você encontrava essas pessoas, as da banda, o André?
R1 – Na escola. O André não. O André eu conheci fora da escola. Ele era amigo de um vizinho meu, um vizinho do quarteirão de baixo, o Eric. O André era amigo do Eric. Eu o conheci através do Eric. A banda era uma banda que estava em formação na escola. Só não tinha o baixista. Foi a minha oportunidade. Entrei. Ali eu deixei de ser aquele cara que era zoado na escola, o bullying acabou, as meninas começaram a olhar para mim, eu comecei a ficar. Minha primeira namorada veio porque eu era da banda. Me vestia tudo de preto, usava correntes, usava um monte de brinco. Usei cabelo comprido dos 11 aos 27, acho. Depois cresceu de novo e raspei mais uma vez. Raspei o cabelo umas três vezes. Deixei o cabelo crescer algumas vezes. Ser da banda me colocou num lugar de status. Eu fui do cara que era totalmente desprezado a me tornar um “popzinho” da escola. Vivia essas duas polaridades. Mas sempre achei a escola em si uma merda. Não era um lugar que eu gostava. Depois que virei da banda, ficou legal porque comecei a ter oportunidade por causa das meninas, mas era só o que me interessava na escola. Eu gostava dos conteúdos de história. Gostava do professor de Geografia, Luiz. Tinha um professor de História, o Edson, que era incrível, porque ele realmente cativava a gente, contava histórias. Era uma aula que eu não dormia. Tinha a professora Márcia, de Biologia, um pouco tediosa, mas eu gostava do conteúdo dela. Eu me lembro que ela fez a gente fazer um exercício de taxonomia de identificação de plantas: a gente coletava folhas e colocava num caderno. Essa atividade me marcou. Eu gostava disso na escola, quando tinham atividades que tinham alguma relação com o que estava fora da escola.
(00:41:43) P/1 – E como é que sua vida seguiu? Você foi direto para a faculdade de música? Fez a faculdade? Começou a trabalhar? Como foi esse momento?
R1 – Eu comecei a dar aula de contrabaixo elétrico com 16 anos, ali na Teodoro Sampaio. Isso antes de entrar na faculdade, bem assim, um ano e meio, dois anos antes. Não por necessidade econômica – filhos dos meus pais, que tinham uma condição econômica bem razoável –, mas porque eu estava afim de trabalhar, de dar aula, eu gostava de dar aula. Era legal ter uma autonomia financeira, um dinheiro que eu não precisava pedir para ninguém. Gostei dessa experiência, foi importante para mim ser professor de baixo. Em 1998, eu decidi que queria tocar baixo acústico, nesse bichão aí. No Sesc Consolação, existiu o CEM, que é o Centro Experimental de Música. Eu me lembro até hoje: custava 32 reais por mês. Era uma coisa barata. Eu tinha uma aula por semana de instrumento e outro curso simultâneo de prática de orquestra. Então tinha uma orquestra. Eu ia para lá três vezes por semana: uma vez por semana aula de instrumento e duas vezes por semana prática de orquestra. Tem uns aquários lá. Eu podia ir para o Sesc para estudar. Todo dia eu ia para o Sesc estudar contrabaixo. Eu nem sabia que se tocava com arco contrabaixo. Eu nem sabia por que queria tocar contrabaixo acústico. Eu achava bonito esteticamente, um bagulho grande, majestoso. Acho que era mais um fetiche estético do que realmente pelo timbre do instrumento. Fui descobrir ali no CEM. Descobri o arco, aprendi a ler partitura, a ter uma relação com a música mais erudita. Porque até então eu só estudava tudo de ouvido. Essa era a minha relação com a música: totalmente intuitiva. A partir dali começou meu caminho na erudição. Aí fui para a faculdade de música, bacharelado em contrabaixo acústico – popular. Na Faculdade Santa Marcelina, onde estudava o André Parisi, que estava fundando o CA (Centro Acadêmico) da faculdade, que não tinha CA. Ele foi o fundador do CA. Meu amigo, várias coisas importantes da vida, o André era o precursor, o cara que fundou o centro acadêmico da faculdade, o cara que estudava numa faculdade de música. Era pioneiro num bocado de coisa. Aconteceu uma coisa importante ali no ano de 1999. Eu entrei na faculdade em 1999 e no ano 2000, Roberto Siqueira, violonista, me procurou na faculdade e falou: "Cara, estamos procurando um baixista para um trabalho de tango. Tem um bandoneonista argentino aí que está procurando um baixista. Quer tocar tango com a gente?" Claro, velho. Tango? Eu nem sabia que diacho era aquilo. Mas me chamaram para fazer um trabalho, estavam precisando de um contrabaixista. Fui conhecer o Martín. Beto Siqueira, Martín Mirol, Aquiles Guimarães, que era um flautista da Faculdade Santa Marcelina, e eu fundamos o De Puro Guapos, que era esse quarteto, que depois virou uma orquestra típica. Conheci o tango. Comecei a trabalhar com tango com 20 anos de idade. Primeiro show no Sesc que eu fiz na vida, primeiro trabalho de verdade, foi tocando tango em 2001. No Sesc Pinheiros, que ainda ficava na Avenida Rebouças, era uma casa antiga, um patrimônio histórico da cidade. Era uma casinha pequena, o Sesc Pinheiros. Tinha um programa – acho que era Foles do Mundo, alguma coisa assim. A gente entrou por causa do bandoneon. Foi o primeiro show que eu fiz profissional com cachê. Primeiro show no Sesc, em 2001. Nessa época era o Daniel Murray (violinista) que tocava – eram dois violões, bandoneon e baixo. Tem uns vídeos bem bonitos da gente menino. Eu tinha 20 anos de idade, 21. Comecei a trabalhar com tango boa parte da minha vida. Até hoje ainda faço parte de um grupo, o Trio Jogando Tango, tem 16 anos. A gente agora se encontra pouco, porque o Juan mora em Córdoba. Hoje a gente faz uma turnê por ano só. A gente importa o Juan. Passamos um mês, dois meses trabalhando e depois mandamos ele de volta – na hora que a gente não se suporta mais, a gente manda ele embora. Foi através do tango que eu comecei a trabalhar profissionalmente como artista.
(00:48:11) P/1 – E o que você sentiu quando encontrou o tango?
R1 – Tango é um gênero musical muito intenso. Os argentinos têm uma energia passional, são muito passionais. A energia do tango é muito forte. Tocar tango tem uma pegada muito visceral. É um gênero musical que mexe muito com a gente. Eu adoro o tango. Abriu muitas portas para mim. Através do tango, comecei a trabalhar como artista, aprendi o espanhol. O espanhol abriu um universo para mim. Porque imagina: a gente está no Brasil, cercado de países que falam a língua espanhola, e a gente está desconectado deles por uma barreira idiomática. A partir do momento que você aprende a falar o idioma deles, abrem-se portas para culturas que antes eram inacessíveis. Eu sou muito grato ao Martín, um cara com quem já briguei muito nessa vida. Nos reconectamos agora, faz pouco tempo – acho que ano passado. A gente chamou ele para tocar num show conosco, o Trio Jogando Tango convidou o Martín, que foi o cara que nos apresentou aos três – a mim, ao Juan e ao Ricardo. Ricardo Pesce, o acordeonista do trio. A gente tocou juntos também muitos anos em outro grupo, no Araticum, que era um quinteto de compositores. O fole é um instrumento que, na música brasileira, é foda. Se a gente for olhar para a música nordestina, o fole sempre foi uma peça muito importante. Quando o Martín chegou, com aquele ethos mais sombrio, noturno – me parece que o forró está mais para o sol e o tango está mais para a lua. A aridez do sertão, o calor do Nordeste. Na Argentina é frio. Quando eu fui lá, em 2001, pela primeira vez – a gente foi em julho, quando eu estava fazendo 21 anos –, nunca tinha visto um negócio daquele. Nunca mais fui para um lugar tão frio. Eu fui uma segunda vez para a Argentina em 2010, com a mãe das minhas filhas, quando ela estava grávida da Rosa, da nossa primeira. Mas aquela sensação dessa temperatura tão baixa e aquela umidade de Buenos Aires... "Que coisa horrível. Não sei como as pessoas são capazes de habitar aquele lugar." Enfim, habitam lugares muito mais ermos. Mas ali, para mim, já é o limite do aceitável fisicamente. A estética da arte manifesta essas questões ambientais. A dança do forró é quente, e a frieza, essa coisa mais fechada, mais para dentro, me parece ter a ver com aquele frio, com aquele ambiente. O Martín, que é um baita contador de histórias, sempre contou que, quando aqueles imigrantes europeus estavam construindo a América, vinham homens para cá, e vinham pouquíssimas mulheres. A história da traição, o cara que perdia a mulher não ia achar outra, porque não tinha. Dizem que tinha algum documento, mas eu me lembro do Martín contar essa história: era uma coisa de dez para um. Dez homens para cada mulher, naquele ambiente machista. Tudo isso faz parte desse cenário onde o tango nasceu, onde a mulher era um objeto de disputa, super de consumo, os bordéis. O tango nasceu ali. Tudo isso está na plástica, na estética do tango, esse sofrimento do homem abandonado. É uma música que tem um sofrimento. Eu sempre fui, o André Paris sempre fala, que eu sempre fui das músicas em tons menores – aquela música mais melancólica, um tipo de harmonia mais melancólica. Isso sempre me tocou mais. A gente ouvia muito Baden Powell na infância. Meu pai era super fã do Baden. E o Vinícius de Moraes, meu Deus, quanta tragédia, quanta tristeza. Que repertório triste, difícil. Eu cresci ouvindo aquilo tanto, sempre adorei aquele repertório. O tango também se relaciona muito com esse repertório. O violão brasileiro, o violão do Baden, e os violonistas argentinos – o Roberto Grela, pelo amor de Deus, esse cara que tocava junto com o Aníbal Troilo. Eles tinham um duo, Troilo e Grela. Na década de 40, a Argentina estava num momento econômico maravilhoso. As orquestras típicas de tango eram tocadas por orquestras. Tinham lá quatro violinos, uma viola, um violoncelo, um baixo, um piano e uma fileira de bandoneons, quatro bandoneonistas. Era uma camerata. Aníbal Troilo foi um compositor importantíssimo na década de ouro do tango, nos anos 40. Tinha sua orquestra típica, era uma figura. Aconteceu que, lá pela década de 60, a Argentina entrou numa recessão que começou a tornar inviável do ponto de vista econômico manter uma orquestra típica. E aquele rei do bandoneon começou a sofrer. Mesmo aquela figura emblemática começou a se sentir. Ele começou a tocar, não só por questões econômicas, mas também por afinidade, com um violonista. Porque o violão não fazia parte das orquestras típicas. O violão fazia parte dos grupos Crioullos, do tango crioullo. Era o tango que acompanhava os cantores. Tinha muito essa coisa do cantor tocar com violão. Também os cantores cantavam em orquestras típicas. Mas tinha uma coisa dessa relação do violão com a canção, que é uma coisa fortíssima na cultura argentina. Eles são os melhores cancionistas que eu conheço. Tem um duo, Luna Monti e Juan Quintero, cantores e violonistas, que foram os caras que me fizeram voltar a olhar para a canção. Teve um momento enorme da minha vida em que eu fiquei tão embrenhado na música instrumental que abandonei a canção. E foram esses argentinos, esses cancionistas argentinos, que me fizeram voltar a ouvir canção num determinado momento, lá pelo ano de 2010, 2011, quando a Rosa estava nascendo. Foi ali que eu voltei a ouvir canção na vida. Porque desde quando comecei a trabalhar, sempre trabalhei com música instrumental. Era um grupo de tango instrumental, depois fui tocar em cameratas, em orquestras jovens, sempre tocando música instrumental. Quando eu tocava nessas cameratas, nessas orquestras, era um músico sempre bolsista, porque eram orquestras jovens. Toquei na Jazz Sinfônica Jovem do Estado, depois na Banda Sinfônica, depois numa camerata, mas sempre eram grupos que eu era o mais velho. Geralmente o baixista é o mais velho – o cara que toca o instrumento maior e o cara mais velho da turma. Eu com vinte e poucos e a turma com 17, 16, 19. Mas essa coisa do tango, da canção e do violão – o nosso violão brasileiro e o violão argentino, que coisa maravilhosa que a gente criou aqui na América do Sul. A gente herda esse instrumento dos europeus e, quando chega aqui, a colonização nos trouxe tantas desgraças, mas essa é uma coisa maravilhosa que a colonização propiciou: o encontro das culturas aqui. Quando esses povos se encontram, nasce um negócio novo desse atrito. A música da América do Sul, em especial o violão e o fole, são duas coisas maravilhosas que acontecem aqui. A minha relação com o fole brasileiro e com o violão brasileiro sempre foi de muito amor, por conta da minha relação com meu pai. Depois, quando aparece o Martín com o fole argentino, com o bandoneon, e com o violão argentino, fiquei encantado por aquilo, fiquei tomado. Voltei a tocar violão. Hoje em dia eu também toco violão. E, de alguma maneira, voltei a cantar também por causa dos argentinos. Tenho uma relação de muito carinho pela cultura dos argentinos. Apesar de não ter no meu sangue nenhuma relação tão direta com eles, tenho uma relação de afinidade – são literalmente meus irmãos assim. Lo quiero muy bien.
(00:59:54) P/1 – Vem pela música, que é tão forte quanto o laço sanguíneo.
R1 – É, uma relação afetiva profunda.
(01:00:05) P/1 – Tem uma apresentação que você queira contar e que foi marcante para você logo no início.
R1 – Um show?
(01:00:20) P/1 – Sim. Um.
R1 – É tão difícil um…
(01:00:32) P/1 – Pode contar mais de um também.
R1 – …Para amarrar um pouco essas histórias todas, posso ir um pouco mais para a frente?
(01:00:44) P/1 – Pode, claro.
R1 – Eu acho que antes de chegar no show eu preciso voltar um pouco…
(01:00:52) P/1 – Vamos lá. Pode voltar.
R1 – …enquanto eu trabalhava como instrumentista contrabaixista, tocando tango, eu também trabalhava como educador, como professor de percussão. Lá no Alves Cruz, que é uma escola estadual onde eu terminei o meu colegial. Depois que eu entrei na faculdade e fiz aula de percussão, eu acabei voltando para lá como educador. Voltei para dar aula de maracatu. Comecei com um grupo de percussão com os instrumentos que eles tinham. Estava na moda o maracatu, porque o Baque Bolado estava super difundindo o maracatu em São Paulo, e tinha outro grupo, o Batuntã, que também estava difundindo. Eu fiz parte do Batuntã, porque um dos integrantes, Conrado Goys, guitarrista, falou: "Cara, o Batuntã está precisando de um diretor musical. Você está na faculdade de música, eu vi suas composições para percussão". Na aula de percussão eu escrevia umas pecinhas, tudo bobagem. Mas eu gostava de sintetizar; eu acho que tenho um bom poder de síntese. Apesar de estar aqui super divagando, eu tenho a habilidade de olhar para alguma coisa e reproduzir essa coisa sinteticamente. Então eu ouvia ritmos, ouvia coisas musicais que me interessavam esteticamente e tinha a habilidade de escrever aquilo, transcrever para formações de percussão. Comecei a fazer umas pecinhas – a composição é isso, nada se cria. Eu pegava umas ideias estéticas de percussão que me interessavam, misturava com outras e fazia umas pecinhas. O pessoal do Batuntã falou: "Legal, os meninos do Batuntã estão precisando de alguém que ajude eles". Fui para lá, comecei a trabalhar no Batuntã. Foi meu primeiro trabalho de direção, novinho, com 21 anos. Na mesma época que eu estava começando com o tango, eu estava começando a dirigir grupos de percussão. Nesse grupo de pessoas que nasceu no Colégio Equipe – onde minhas filhas estudam hoje –, a mãe da Flora, uma das participantes, dava aula de percussão no Alves Cruz. Ela falou: "Cara, gostando do que aconteceu com o Batuntã depois que você entrou. Vem aqui. Eu acho que esgotei o meu repertório no Alves. Pega você eles aqui e continua tocando." Eu aprendi o maracatu no Batuntã. Aprendi um bocado de coisa. O Batuntã pegou meu repertório de tradições da cultura popular e abriu. Depois eu fui me aprofundar. Mas eles que semearam essa abertura. Ali com eles eu tive contato com o mestre Daniel Reverendo, que é um jongueiro, um preto velho que ensinou a gente a construir os tambores. Eu falei para os meninos do Alves: "Vocês querem tocar maracatu? Então primeiro vocês vão aprender a construir os tambores. Depois que vocês construírem dez bombos, a gente começa a tocar maracatu. Vocês não vão tocar maracatu com um instrumento de samba." Levei o Daniel Reverendo lá, meu mestre, para ensiná-los. Ele ensinou a fazer um primeiro bombo e depois foi embora, e a gente fez mais dez. E aí começou o maracatu lá na escola.
(01:04:57) P/1 – Que bonito isso.
R1 – Foi bem bonito, foi bem especial. O maracatu está lá até hoje, com 26 anos agora. Eu já não faço mais parte, há muito tempo – fiquei uns 5, 6 anos lá. Mas um parceiro que trabalha comigo hoje com permacultura, que produz hoje os cursos que a gente dá, é um parceiro que eu conheci lá no maracatu no ano 2000. Era um aluno meu de percussão e é o cara que apita o maracatu até hoje. Por um lado, o tango me levou para a música instrumental. Por outro lado, o maracatu me levou para a música de Pernambuco. Quando você pega a música de Pernambuco e a música instrumental e junta, você chega numa figura: o maestro Moacir Santos. Ele era um cara preto, que nasceu no semiárido de Pernambuco. Ele era o "escravo" da família. Não foi criado pelos pais, foi criado por uma família de brancos, que tratavam ele assim... Na cidade onde ele nasceu, Flores do Pajeú, tinha uma banda que tinha um coreto. Aquele cara era louco por música, o Moacir. Ele perturbava os caras do coreto, queria tocar os instrumentos de todo mundo: tocava trompete, trombone, clarinete, sax, não deixava os músicos em paz. Era tão perturbador que os caras adotaram o que a gente deve fazer quando tem uma criança dessas: "Vem cá, você agora é o guardião dos instrumentos". Todo ensaio ele estava lá. Até que um belo dia algum bendito ser deu para ele uma clarineta de presente e ensinou o básico para ele aprender a tocar. Não sei que idade ele tinha quando ganhou essa clarineta, mas sei que aos 14 anos passou um circo pela cidade e ele fugiu com o circo. Fugiu porque provavelmente não devia ter uma infância muito legal. Esse cara acabou se tornando maestro da Rádio Nacional. Foi um cara que estudou muito música, escrevia para metais, para sopros. Recomendo que você que está assistindo esse vídeo escute o maestro Moacir Santos. Vinícius de Moraes conta no Samba da Benção: "O maestro Moacir Santos, que não é um, mas tantos, como a Bahia de Todos os Santos e Saravá". Esse tal de Moacir Santos, eu entrei em contato com a música dele perto do ano de 2001, porque um dos músicos do Batuntã, o Daniel Nogueira, era apaixonado por ele. Ele entrou na faculdade Santa Marcelina também. A experiência que eu vivi com o André, meu amigo, de fazer faculdade de música, o Dani viveu comigo. Ele era um dos meninos do Batuntã, tocava djembe super bem, estava começando a tocar sax e descobriu a música do Moacir Santos. O Daniel é um cara que, quando começa a fazer alguma coisa, mergulha de um jeito. Ele começou a transcrever e adaptar os arranjos do Moacir Santos para uma formação. Ele me convidou. Muitas vezes a gente conversou sobre isso. Um belo dia na faculdade: "Vamos montar uma banda para tocar Moacir Santos?" Montamos uma big band. No ano de 2007, acho, nasceu o projeto Coisa Fina, uma big band que nasceu com o propósito de tocar a música do Moacir Santos. A gente tocou bastante. O Dani adaptou sei lá uns 50 arranjos do Moacir para a nossa formação. Moacir era um pernambucano que foi maestro primeiro da Rádio Tabajara, na Paraíba, depois foi para a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. Na Rádio Nacional ele já escrevia arranjos para tudo que era artista que estava em ascensão na década de 60, até que foi chamado para fazer trilha de filme em Hollywood. Foi lá para fazer um filme e acabou ficando por lá, trabalhando como ghost composer no time do Henry Mancini – aquela trilha do 007. Esse é o Moacir Santos. Tem tantas coisas do Moacir que ninguém sabe. Ele chegou lá, foi cooptado pela indústria do cinema, deve ter ganhado um dinheiro que nunca tinha visto na vida. Virou o cara. Ele era incrível mesmo. Eu me lembro do show de estreia do Projeto Coisa Fina tocando Moacir Santos. É um show que me marcou muito na vida. Foi no Café Piu-Piu, uma casa que existe até hoje. Toquei lá no passado. A casa deve estar com uns trinta e tantos anos de idade. Várias das pessoas que trabalham lá agora são as mesmas: o técnico de som Roberto é o mesmo, a Tati continua no balcão, a Eli continua lá na gerência da casa. Tenho boas lembranças desse show de estreia do Projeto Coisa Fina no Café Piu-Piu. Vou passar para vocês o vídeo desse show de estreia, tem lá uma música que a gente tocou, "Camba". O Projeto Coisa Fina abriu portas. A primeira vez que eu fui tocar na Europa foi por causa do Projeto Coisa Fina, porque o maestro Moacir Santos é reconhecido no meio do jazz – é o cara do jazz brasileiro. Teve um projeto de dois músicos cariocas, Zé Nogueira e Mário Adnet, que resgataram a música do Moacir Santos através de um disco chamado Ouro Negro, lançado em 2001, se não me engano. Foi quando eu conheci o Moacir. Moacir começou a ser reconhecido por essa nova geração aqui no Brasil. Quando a gente começou a mostrar a música do Moacir através da nossa big band para os festivais internacionais, foi quando tive a oportunidade de ir para a Europa tocar. Moacir Santos abriu essas portas. É a conexão entre essa música instrumental, que tem a erudição europeia, ao mesmo tempo a liberdade do jazz estadunidense, e ao mesmo tempo o ritmo, a ancestralidade, essa coisa africana, pernambucana, do maracatu pernambucano misturado com o jazz, misturado com a erudição europeia. Você põe tudo isso numa batedeira e é a música do Moacir Santos. É uma fusão louca. Incrível a música do Moacir. Acho que tem uma outra história legal. Esse negócio de ter aprendido a falar espanhol por causa do tango me fez, em algum momento, naquelas trocas pela internet. Tinha uma época na internet, no começo do século, que a gente usava uns programas, uns servidores. Dentro do meu computador, eu tinha um servidor, meu HD ficava disponível. Todas as minhas músicas em MP3 ficavam disponíveis para outras pessoas baixarem. Muitas pessoas tinham servidores abertos na internet.
(01:14:23) P/1 – Como o “Shareaza” [programa gratuito para Windows de compartilhamento de arquivos]?
R1 – Na época se chamava Hotline, o que eu usava. Mas tinha na Appstore, alguns. Eu usava um específico, esse tal de Hotline. Comecei a baixar um monte de tango. Um monte de gente vinha no meu HD baixar tango. Comecei a procurar músicas de outros países da América do Sul. Em algum momento, por curiosidade, conheci um cara que é o Michael Mendoza, um bandoleiro venezuelano. Começamos a trocar uns MP3, e ele começou a me apresentar o joropo llanero, a música da Venezuela, e o merengue venezuelano, que é um 5 por 8, um ritmo que não tem em outro lugar do mundo – é deles, muito particular. A maior parte das culturas populares tem ritmos binários ou quaternários, que você conta em dois ou quatro. O samba, o maracatu, o jazz, o blues, o merengue, a salsa, o tango, o choro – a maior parte das músicas populares do ocidente são binárias ou quaternárias. Se não é isso, são ternárias, que nem a valsa: um, dois, três. Mas na Venezuela me aparecem esses caras tocando um cinco por oito. Coisa que, agora que estou tocando música árabe, música do Oriente Médio, é bem comum: tem cinco, sete, nove, onze, vários compassos ímpares. Mas aqui na América do Sul não é comum compassos ímpares, salvo o ternário – o chamamé, a guarânia, a zamba argentina, a cueca chilena, que são todos ritmos ternários. Esse foi um grande parênteses para dizer que o tal do cinco só tem na Venezuela. Não tem nenhum outro país da América do Sul que tenha um ritmo ímpar que não seja o tal do três, que todo mundo tem. Quem fala português só toca em dois ou em quatro. Os caras que falam espanhol, as músicas tradicionais são todas em três. Na Venezuela aconteceu alguma coisa que nasceu um ritmo em cinco. Quando eu ouvi aquilo pela primeira vez, aquilo mexeu comigo. "Nossa, que swing louco têm esses venezuelanos." Não sabia o que era aquilo. Até que um dia eu fiz as contas e percebi que é um ímpar. Me apaixonei pela música dos venezuelanos. Em um determinado momento, o Benjamim Taubkin, que é um pianista incrível, um compositor, um pesquisador das músicas das Américas, promoveu um encontro no Centro Cultural São Paulo e trouxe vários músicos de vários países. Ele tinha um grupo na época – não lembro o nome. Ele trazia um músico de cada país diferente da América do Sul, juntava todo mundo e fazia uma bagunça. Coisa maravilhosa. Ele trouxe um cara, Álvaro Paiva Bimbo, que é um violonista, produtor musical, compositor, um cara com uma baita visão não só musical mas de mercado, um produtor sério. A gente se conheceu. Levei o Álvaro para a casa do Léo Nascimento, um amigo músico mineiro que mora aqui em São Paulo, e fizemos lá um sarau no quintal, acendemos uma fogueira, fizemos uma bagunça no quintal do Léo. Acho que isso foi em 2008. No final, a gente trocou, tocamos umas músicas deles, umas músicas nossas. O Álvaro veio com o trio Capicua: Álvaro, Jorge Torres (bandolim) e Edward... não lembro o sobrenome, um cara que toca quatro. Álvaro é um baita produtor. Ele tinha dois meninos mais novos, Jorge e Edward, dois animais, dois ultra virtuosos. Álvaro devia ter uns 30, e os meninos 21 e 22. O trio era o Álvaro administrando os hormônios dos dois meninos. Era uma loucura aquele trio. Quando eu ouvi os caras tocarem – já não eram os caras que tocavam “El joropo llanero", não eram os caras que tocavam a música tradicional, eram os caras que já dialogavam com o jazz, já misturavam essa world music com a música tradicional venezuelana. Eu falei: "Cara, preciso ir tocar com vocês". Eles falaram: "Pô, por que vocês não vêm para Caracas tocar com a gente?" Eu falei: "Vou". "Quando?" "Em janeiro." "Vamos pegar 20 dias em janeiro e vamos arrebentar." "Sério?" "Sim." Cheguei em casa, troquei ideia com meus pais. Não tinha condições de ir. Eles me arrumaram milhas. Arrumei uma passagem para Caracas, alugamos um contrabaixo lá. Passei 20 dias com eles. Acho que foram 17 shows em 20 dias – uma loucura. A gente deu umas oficinas na universidade lá de Caracas de música brasileira e percussão corporal. O povo é apaixonado por música brasileira. Eu era metido a besta, dessas histórias de ter dirigido o Batuntã há tantos anos, ter dirigido o Projeto Coisa Fina. Achava que sabia alguma coisa. Dei uma enganada no povo lá em Caracas – que na verdade eram uns baita músicos. A formação musical em Caracas, a música na Venezuela a gente conhece pouco aqui, mas eles são foda. Acho que vale a pena pesquisar a música venezuelana. Quem quiser começar, procure Ensamble Gurrufio. Os caras me chamaram para ir lá. Chegando lá, conheci Lamal, que era a Movida Acústica Urbana. Era um coletivo de grupos de Caracas que trabalhavam com música contemporânea autoral. Eram grupos de pessoas jovens. Por causa da Lamal, a gente teve uma puta agenda de show, porque cada grupo tinha um canal num lugar. Tinha também a Valentina Hidalgo, uma assessora de imprensa incrível. Lamal tinha condições de contratar uma assessora de imprensa porque eram vários grupos juntos – um custo que uma banda sozinha nunca pagaria, mas um coletivo sim. Lamal foi a primeira vez que eu tive contato com um coletivo, com essa ideia de coletivo. Até então eu me compreendia como um músico independente. Ali eu tomei contato com o conceito de interdependente. "Tamo todo mundo junto construindo um cenário que, quanto mais forte for a cena musical, mais trabalho todo mundo vai ter." Foram 17 shows, não sei quantas pautas de imprensa. Não paramos de trabalhar, foi uma loucura de intensidade, do momento que eu cheguei até a hora de ir embora. Quando voltei para o Brasil, cheguei no Daniel, meu amigo saxofonista do Projeto Coisa Fina, e falei: "Cara, a gente tem que montar um coletivo de big bands. Esse negócio vai dar potência." A gente montou o Movimento Elefantes, que éramos 10 big bands, cada uma com uma estética diferente, 140 músicos, uma loucura. A partir do momento que montamos o Movimento Elefantes, contratamos uma assessoria de imprensa e o negócio cresceu. A gente começou a trabalhar e ganhar um mínimo fazendo música instrumental. Porque até então, fazer música instrumental no Brasil era dificílimo fechar. A gente começou a fechar curadorias. Quando eu vendia para o Sesc, não vendia um show, vendia seis, vendia dez. Ali eu também comecei a ganhar uma grana como produtor. Alguma coisa da minha autonomia econômica começou a surgir quando nasce o Movimento Elefantes, em 2009, assim que volto de Caracas. Por conta do Movimento Elefantes, a cena da música instrumental paulista deu uma levantada na época. Aquilo abriu portas para a gente tocar nos festivais internacionais, porque a gente tinha um clipping de imprensa no Brasil. Rodamos pelos festivais de jazz no Brasil. Isso ajudou a gente a fazer as vendas, foi um trampolim para ir para fora. Ir para a Europa pela primeira vez foi em 2012.
(01:25:08) P/1 – Em que momento surge esse ativismo seu voltado para a questão da água? É nesse caminho ou tem alguma coisa que acontece?
R1 – Tinha acabado de acontecer tudo o que eu estou contando. Estava indo para a Europa, estava vivendo essa experiência. Estava indo pela segunda vez para a Europa. Em 2014, já com o Araticum, que era um quinteto de música instrumental, os cinco eram compositores. Eu já estava cansado do Coisa Fina, cansado de tocar, cansado dos 140 músicos, queria fazer um negócio autoral. Não queria mais ficar tocando só música de outros maestros além do Moacir Santos. Nasceu o Araticum. Estou voltando de uma turnê colaborativa que a gente fez lá, foi a segunda vez que a gente foi tocar fora. Estava editando um vídeo numa praça, porque minha filha pequena não me deixava em paz, eu precisava terminar essa edição. Falei: "Vou para a rua". Conheci um cara que olha para mim – o cara veio todo de branco, com os livros debaixo do braço, eu editando o vídeo. Eu levanto a cabeça, olho, o cara vem vindo. Estava no Parque Raposo. O cara olha para mim: "Você está editando vídeo?" "Estou." "Ah, que legal." Eu pensei: "Que saco, por que eu quero trabalhar? Vim aqui para ter privacidade e vem esse doido aqui me alugar". Até que chega uma hora que ele começa a falar – "Ih, que isso? Livro de água?" Ele estava com um livro debaixo do braço. "Nossa, eu me amarro nos negócios de águas, é super importante para mim." O que estava acontecendo naquele momento é que chovia do lado de fora e nas torneiras não tinha água. A gente estava passando por aquela crise de gestão hídrica de 2014, que foi um momento muito chocante. Eu tinha uma criança de três anos em casa, as torneiras estavam secas enquanto chovia. "O que está acontecendo?" Digitei no Google: "Instalador de cisterna". Nada. "Cisterneiro". Não. "Captador de água de chuva". Não. Como é que vou encontrar um prestador de serviço que me instale uma cisterna? Não encontrava, porque não existia. Uma coisa tão específica. No Nordeste sim – lá onde meu pai nasceu, tinha os cisterneiros, os pedreiros construíam suas casas e faziam cisternas. O tal do Mumu – o cara de branco – veio pregar a palavra da permacultura para mim. Ele chegou e falou da importância das águas. Eu: "Pô, que legal. Você já instalou uma cisterna?" "Já." "É mesmo, cara? Vamos instalar lá em casa então?" "Bora." Peguei o contato dele, comprei os materiais e a gente veio aqui em casa e instalamos a primeira cisterna. Ele nunca tinha feito isso, claro. A gente não colocou nenhum filtro nem nada. Eu já de cara comprei uns caninhos – depois mostro para vocês ali fora. Fiz uma micro irrigação por gotejamento. "Já vou botar a cisterna nos meus vasos, já vou irrigar, já vou captar água por gravidade, já botei em cima, já fiz o projeto." Na primeira chuva, entupiu tudo. "Puta merda." Então fui conhecer o Edson Urbano, que é o cara que é o pai da minicisterna. É o cara que inventou esse negócio de olhar para o conceito da norma técnica de captação de água de chuva e adaptar isso para o contexto urbano, para uma bomba de 200 litros, igual vocês veem ali fora de casa. Contratei o Edson para dar um curso aqui em casa para mim, para o Mumu e para meu vizinho Waldir. Nós três fizemos a capacitação com o Edson.
(01:29:40) P/1 – Já era aqui?
R1 – Aqui, nessa casa. Isso foi outubro ou novembro de 2014. Começamos a divulgar "instalador de cisterna". Instalei cisternas. Quando chegou na centésima vigésima terceira, parei de contar. Waldir e eu – no começo nós três, depois o Mumu parou –, a gente instalou cisterna. Chegou uma hora que a gente participou da fundação do Movimento Cisterna Já, um grupo de cisterneiros que se juntou e começou a dividir a cidade: "Você ataca na Zona Oeste, você ataca na Zona Leste, você na Zona Sul, você na Zona Norte, vamos atender a demanda e instalar cisterna em todo lugar". Foi quando nasceu Permacultores Urbanos. Porque o Mumu falou: "Cara, água de chuva é massa, mas não é nada, velho. Tem muito mais. Tem que conhecer a tal da permacultura". Ele começou com essa permacultura na minha orelha. Quando fui ver o que era, falei: "Nossa, esse negócio tem solução para o nosso problema das cidades". Em março de 2015, o Perma Sampa deu o primeiro PDC, que é o Permaculture Design Course, um currículo que tem no mundo inteiro, que os australianos na década de 70 inventaram e que até hoje é divulgado. Fiz a formação, a primeira turma do Perna Sampa, e me apaixonei. Na segunda turma já fiquei para dar uma canjinha – "não, eu quero trabalhar com esses caras" –, dar uma canjinha na aula de água do Gui, ensinar a galera a instalar cisterna. Na terceira, já peguei a aula inteira. No quarto, o Gui já me passou uma outra aula. Comecei a fazer cursos de saneamento, mergulhei nessa história de águas. Virei discípulo do Gui Castanha, que é um mestre das águas. Só que aí aconteceu uma outra coisa também, em 2015, que foi o estouro da barragem de Mariana. Um grupo de permacultores – naquela época eu estava instalando tanta cisterna que eu tinha um carrinho pequenininho, um Corsa, não cabia tanta bombona no meu carro, então comprei uma Kombi. Comecei a usar a Kombi – era o carro da família, o carro de trabalho, tudo. Quando estourou a barragem, a gente juntou sete permacultores, botamos dentro dessa Kombi e fomos fazer o Rio Doce todo, ensinando as pessoas a captar água de chuva. Ali eu entrei em contato com o MAB, Movimento dos Atingidos por Barragens. Ali meu contato com essa questão da água se ampliou. Eu vi o Rio Doce lá enlameado. Ali comecei a me reconectar com a história do meu pai, da barragem da usina de Paulo Afonso.
(01:33:09) P/1 – Como foi esse momento de ir para lá?
R1 – Foi horrível. Quer dizer, foi maravilhoso a gente poder se encontrar com as pessoas e compartilhar o que a gente sabia. Foi maravilhoso a gente poder oferecer escuta ativa para aquelas pessoas que estavam em sofrimento. Mas foi uma tragédia. Morreram muitas espécies endêmicas – tipos de peixes, de sapos, de bichos que só tinham ali no Rio Doce e foram extintos. Vários grupos de pessoas que tinham hábitos estritamente conectados com o rio foram muito violentados. Em especial os Krenak, que estavam ali na foz do Rio Doce. Foi ali que eu comecei a ouvir o que o Ailton Krenak tinha para dizer. Foi difícil. No ano seguinte, a gente voltou e capacitou uma turma numa vila no município, lá na foz do Rio Doce. Não estou lembrado o nome da cidade. Cidade linda, que é o estuário das tartarugas, onde as tartarugas vão botar ovos – um lugar que não poderia ter sido destruído. Lá eu voltei com um amigo meu, o Léo Tanus, engenheiro ambiental, e a gente fez um primeiro projeto de capacitação da comunidade para instalar cisternas e filtros lentos de areia. O filtro lento de areia potabiliza a água, deixa a água da chuva própria para consumo. Depois, em 2017, teve o rompimento de Brumadinho. A gente foi para Brumadinho, o Léo e eu de novo, capacitar a comunidade local também para instalar cisternas e filtros de areia. Nesse momento eu já tinha feito alguns cursos de saneamento com o Gui. Comecei a mexer com essa história do saneamento. Nessa época foi quando a gente começou a mexer com as águas das nascentes do Água Podre aqui. Foi em 2017, 2018. É aí que eu me conectei com as águas daqui, da bacia hidrográfica de onde eu moro. O Água Podre tem esse nome porque é uma água avermelhada, muito ferruginosa. Dizem que é um nome antigo. Os guaranis chamavam de Ipuera, que me parece que é um sinônimo de água podre. Eu tinha ouvido uma outra história, que foram os bandeirantes que haviam dado esse nome para o rio. Por que se passava por aqui? Porque aqui, na Eras Garcia, essa avenida que passa aqui atrás, é o caminho do Peabiru. Peabiru é um caminho ancestral dos indígenas daqui que conecta o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. Esse negócio vem lá de São Vicente, se não me engano, sobe, passa aqui do lado de casa, passa aqui do lado do Ipuera e vai parar no Peru. Em algum momento esse foi um trajeto muito utilizado por esses povos que viviam aqui antes da chegada dos colonizadores. Os bandeirantes utilizavam esses caminhos. Ouvi a história de que tinham sido eles que tinham dado o nome de Água Podre – não sei qual é a história verdadeira. O que sei é que eu achava que se chamava Água Podre porque era um rio poluidíssimo. Aí a história me revelou que não era por ser poluidíssimo que ele era água podre, mas por ser muito ferruginoso. Quando a gente começou a mexer nas nascentes aqui atrás, no Parque da Joia, elas também são nascentes do Água Podre. Tem a cabeceira do rio que fica ali atrás do Céu Butantã, que dá o início no parque linear do Água Podre. Aqui do ladinho, a gente também faz parte da mesma bacia hidrográfica. Na nossa microbacia são as nascentes da Joia, do córrego da Joia, que é um afluente do córrego do Água Podre, que por sua vez vai dar no Jaguaré, que vai dar no Pinheiros, que vai dar no Tietê, que vai dar no Paraná, que vai dar no Rio da Prata, que vai dar no Atlântico. A minha relação com esse rio com o qual eu cuido hoje começou em 2014 por conta da crise hídrica. Ali tomei contato com a permacultura, comecei a cuidar das águas por conta da captação de água de chuva, aí fui mexer com saneamento, fui trabalhar com capacitação de pessoas em águas rodando o Brasil, especialmente olhando para os atingidos por barragens, pelos crimes ambientais do rompimento de barragens de mineração – deixemos bem explicitado. Olha que loucura. Em 2022, comecei a trabalhar para o IPESA, Instituto de Projetos e Pesquisas Socioambientais, com saneamento em comunidades que têm seus rios poluídos. Comecei a trabalhar num projeto no município de Socorro com saneamento do Rio do Peixe. Lá a gente está capacitando a população para instalar biodigestores e sanear o Rio do Peixe. Desde quando o projeto começou, já foram mais de 600 famílias contempladas. Comecei a trabalhar com saneamento rural. Não era uma coisa que eu imaginava que estava nos meus planos. Quando a gente teve a crise hídrica aqui em 2014, eu era um cara que era um contrabaixista da noite paulistana, que de repente comecei a subir em telhado e instalar cisterna. Comprei uma Kombi. Em 2016, aconteceu um negócio que eu falei: "Caramba, eu preciso botar verbo na minha música. Não pode acontecer tudo isso no mundo e eu só ficar tocando música instrumental. Eu preciso falar sobre essas coisas." Comecei a botar verbo na música e montei um grupo de forró, que era o Bando de Seu Pereira na época, onde eu cantava canções agroecológicas falando muito sobre as águas. Vou compartilhar com vocês uma música que é o "Chote dos Recursos", a primeira música que eu compus na época do estouro de Mariana, que fala dessa relação do esgoto como fonte de recurso. Vou deixar para vocês ouvirem a música – ela fala por si. Alguns anos depois, de ver esse trabalho com manejo de água, com capacitação de comunidades, e essa música, essa história, a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) me liga. Recebo uma ligação de Brasília. Olho: “Código 61? O que é isso? Atendo, não atendo, atendo, não atendo – atendi. Era da tal da Agência Nacional de Águas. O que esses caras estão falando comigo? Por que comigo?" "Olha, a ANA está fazendo 20 anos e a gente está com um tema que é 'Água é uma Só', e estamos pedindo para algumas pessoas se manifestarem artisticamente sobre esse assunto." "Você está me fazendo uma encomenda de uma canção?" "É." "Legal, então está ótimo." Na semana seguinte eu já estava mandando para ela a música. Foi a música da campanha de 20 anos da ANA. Eu uso muito ela hoje nas aulas. Acho que foi importante para mim ter feito essa música. Foi uma provocação boa. Adoro uma missão para cumprir. A ANA me deu uma missão legal. Vou mandar essa música para vocês também.
(01:43:28) P/1 – E como começa a sua história com a academia?
R1 – Chegou um momento que, ali perto da pandemia, eu estava com vontade de me aprofundar mais nessa história da permacultura. Estava afastado da universidade desde 2007, quando concluí. Em 2020, 13 anos depois, aparece uma especialização em permacultura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Quando tomei conhecimento da coisa, já tinham esgotado as inscrições. Veio a pandemia também. Essa primeira especialização foi online – ainda bem que perdi, porque foi ruim. Em 2022 teve a segunda edição, presencial. Me joguei. Entrei. Uma vez por mês... Não, foi diferente. Em 2022, abriu uma especialização em educação para sustentabilidade, que era o curso do Gaia Education amarrado com a Universidade Federal de Alfenas. Entrei. Era híbrido: boa parte online, uma parte presencial. Acho que foi 2021, 2022, um ano e meio. Fiz a especialização, fiquei feliz de ter voltado para a academia. Em 2023 reabriu o da UFSC. Terminei a primeira especialização e engatei na segunda, a especialização em permacultura da UFSC. Tinha feito a primeira em educação para sustentabilidade, o curso do Gaia. Fui para a UFSC todo mês – só um final de semana por mês, sexta, sábado e domingo. Quando terminei a especialização da UFSC, eu tinha saído de uma... Tinha uma amiga que tinha um restaurante, o Chu, que estava desmontando uma cisterna que estava lá. Tinha uma árvore imensa em cima do telhado, toda hora entupia, a qualidade da água estava ruim, não estava dando certo ali. Ela falou: "Você conserta para mim?" Falei: "É muito caro. Não vou desmontar tudo, limpar tudo e refazer. Acho economicamente inviável. Melhor você trocar." "Está bem, você quer levar embora?" "Putz, o que vou fazer com esse trambolho? Mas tá, eu vou levar e doar para as hortas urbanas." Levei e comecei a fazer uma campanha no Instagram: "Doamos cisternas para hortas urbanas. Quem tiver interesse, manda inbox". A Thaís Mauad, que é a minha orientadora hoje, na época estava envolvida na Horta do USP Sustentabilidade. Ela falou: "A gente não tem uma cisterna aqui. Você não quer trazer?" Fui lá, dei uma pequena oficina de captação de água de chuva e falei: "Poxa, Thaís, estou procurando uma pessoa para me orientar no mestrado. Você conhece alguém que poderia me orientar? Você teria interesse em me orientar?". Ela: "Qual é o seu assunto?". Eu: "Estou pensando em mexer com permacultura urbana, fazer uma pesquisa do trabalho que está acontecendo na regeneração do Parque da Joia, que era um aterro, e a comunidade está transformando aquilo num parque. Estamos cuidando das águas, compostando, plantando." Ela falou: "Vai no meu departamento terça-feira, duas da tarde." Chego lá. Ela falou: "Olha, vem para o doutorado direto. Eu aceito orientar a sua pesquisa. Tem bolsa da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Você vai passar quatro anos trabalhando. Vamos tocar esse projeto. Tem interesse? Vem para o meu departamento." E eu fui parar dentro da faculdade de medicina, no departamento de patologia. Que loucura o que veio da música. Eu sempre tive relação com educação, entro pela educação pela sustentabilidade, passo pela permacultura, chego na Thaís e penso "Por que será que essa mulher está me aceitando aqui no programa?". Eu não me lembrava que o bairro dela, os vizinhos dela tinham me contratado – eu e a Andrea Pesek – para dar uma oficina de manejo de água numa praça assoreada do bairro dela. Isso era em 2017. Tinha uma praça lá que, toda chuva, a chuva lavava a praça e a rua de baixo ficava toda vermelha de terra. Eles chamaram a gente para dar uma oficina de manejo da água e do manejo do solo. Fizemos uns terraceamentos, ensinamos eles a fazer os terraceamentos, fizemos o primeiro jardim de chuva lá. Eles começaram a plantar, seguiram as nossas orientações, continuaram o trabalho, e acabou o assoreamento. Agora a praça retém solo, resolveu o babado. Quando fui no escritório dela, ela falou: "Você não está lembrado, que eu conheço o seu trabalho? Você deu uma oficina lá na Villa Beija." Eu falei: "Nossa, você estava naquela oficina?". Quem diria que um dia eu dei aula para a minha orientadora – quer dizer, dei aula, facilitei a oficina que ela participou. Ela acompanhava o meu trabalho também nas redes sociais. Ela já sabia que eu trabalhava com aquilo há bastante tempo. Ela falou: "Ó, eu considero as suas duas especializações como seu mestrado. Vem para o programa e vem pesquisar." Entrei lá. Agora, a pesquisa que estou fazendo: entreguei o documento da qualificação ontem. Vou fazer a defesa daqui a duas semanas, dia 10 de junho de 2026. Estou fazendo uma pesquisa sobre o processo de regeneração do território com o qual eu trabalho com os meus vizinhos desde 2017. Uma pesquisa que usa a permacultura como ferramenta de capacitação de uma comunidade para fazer a regeneração de um território e transformar esse território num espaço promotor de saúde. A transformação de um aterro num espaço promotor de saúde. É isso que estou estudando agora. Só fui me dar conta agora que estou mexendo com saúde desde 2014. Nunca tinha me dado conta. Fui me dar conta depois que a Thaís me convidou para entrar no programa. Esse é o momento em que estou exatamente agora. Trabalhando cada vez menos com música. Chegou um momento em que eu falei: "Não quero mais trabalhar como músico profissional. Quando eu crescer, quero ser um músico amador. Só fazer música por amor, não depender de dinheiro nenhum, não misturar música com dinheiro." Fiquei uns anos sem trabalhar com música. Agora trabalho com música quando uma vez por ano a gente chama o Juan para o Brasil para fazer uma turnezinha, tocar tango e matar saudades. E o mestre Mário Alfonso III, que é um cara que é um mestre dos sopros e da música árabe aqui no Brasil – passou pelo Mário, ele foi professor de todo mundo que trabalha com música oriental do Oriente Médio. Ele me ligou e falou: "Cara, estou com um trabalho que é você". O cara está me chamando para trabalhar? Eu já trabalhei muitos anos com ele no passado, quando quis começar a ver a história da minha mãe. Quando montei o bando, eu cantava o forró, a música da história do meu pai, do Nordeste. Foi através da linguagem nordestina que comecei a botar verbo nas minhas músicas. Ao mesmo tempo, comecei a me ligar na relação entre a música nordestina e a música árabe. As influências da música árabe chegaram aqui através do contato com os portugueses, que tiveram 700 anos de dominação moura. Esses caras vêm para cá. No final das contas, a música nordestina é super árabe. Comecei a procurar o Mário para poder tocar música do Oriente Médio. Trabalhei muitos anos com ele e depois parei. Quando parei, foi em 2017, se não me engano. Agora, sei lá quantos anos depois, o cara me liga e fala: "Cara, estou com um trabalho que é você". Eu não estava trabalhando mais com música, só com o Jogando Tango quando o Juan vem. Falei: "Para tocar com o Mário, vou voltar a trabalhar com música". Recentemente, faz poucos meses, estou tocando no Tahir, que é esse quarteto – eu toco baixo, o Mário toca todos os sopros (saxofones, clarinete, clarone, flautas, ney, naias, flautas árabes), o Ian Nain, que é o filho dele, toca alaúde, e o Malcolm Oakley, o batera. Malcolm tem 70 anos de idade, era um cara que estava aposentado do trabalho com cenografia. Para tocar com o Mário, a alegria – puta, que bom, vou tocar lá com os caras. Estou tocando com os caras. Mário tem 63, Ian é mais novo que eu. Estou tendo oportunidade agora de voltar a fazer o negócio por prazer. Não ganho grana com o Tahir e não estou nem aí para ganhar grana com eles. Porque ganho grana agora com educação ambiental, ganho grana fazendo permacultura. Posso fazer música só por amor mesmo. Consegui realizar o meu objetivo de me tornar um músico amador.
(01:54:16) P/1 – Eu queria que você me contasse – a gente tem feito no Rios e Ruas, nesse projeto, uma brincadeira que não é bem uma brincadeira, mas é uma decisão de tornar os rios sujeitos nas nossas histórias também, para além das pessoas que a gente está entrevistando. Em vez de perguntar "qual", eu queria perguntar: quem são os seus rios?
R1 – O Ipuera é um deles, com certeza. E o Pinheiros é outro. Eu tenho muito carinho pelo Rio Pinheiros. Eu ainda vou remar no Rio Pinheiros. Tenho certeza disso. Nem que eu tenha 90 anos de idade, um dia eu ainda vou remar no Pinheiros. Remei no Tietê ano passado, numa bagunça que o SOS Mata Atlântica fez – a gente tudo paramentado de alien para conseguir remar no rio. Mas eu espero que algum dia a gente seja capaz de despoluir esses rios. Que a gente possa voltar a praticar esporte neles e ter contato com as águas como há pouco tempo atrás se tinha. Oitenta anos atrás, as turmas nadavam no Pinheiros.
(01:56:34) P/1 – E que histórias o Parque da Joia e o Ipuera te contam?
R1 – Eu gosto de contar uma. Era uma vez uma floresta que estava no caminho de pessoas que não tinham onde morar. Eles construíram a Favela Joia nessa floresta. Só que essas pessoas não tinham se dado conta que esse lugar, quando chove, recebe todas as águas do bairro. Então eles aprenderam, de uma forma trágica, que fazer suas casas ali era perigoso. Eles sofriam bastante com as chuvas que vinham e levavam os barracos embora. Duas irmãs, a irmã Lázara e a irmã Pompéia, se mudaram para a Favela Joia e começaram a trabalhar com aquelas pessoas que estavam numa área de risco. Ajudaram aquelas pessoas a montar um movimento de moradia. Esse movimento de moradia conquistou moradia digna. Essas pessoas foram para um conjunto habitacional construído graças ao esforço desse movimento, muitos anos de suor. Quando a Favela Joia sai daqui, que essas famílias foram para lá no 19 e meio do Raposo, a prefeitura aterrou esse lugar. Aterrou as nascentes. Desde 2010, quando eu mudei para cá, comecei a me relacionar com esse lugar, que era um aterro que tinha um campo de futebol em cima. Imagina: aquela área que era um talude super agudo recebeu restos de construção da cidade inteira, foi aterrada, virou um campinho de futebol. Na parte de cima fizeram uma pracinha, que nunca fizeram manutenção. A gente começou aqui consertando os brinquedos da pracinha. Especialmente no ano de 2013 comecei a mexer com isso, porque a Rosa nasceu em dezembro de 2011. Eu estava com a criança, tinha a pracinha – "vamos brincar na praça". Começamos a consertar os brinquedos da pracinha em 2012, 2013. Em 2014, o grupo começou a fazer o primeiro abaixo-assinado. A gente fazia pequenos mutirões de limpeza e de conserto dos brinquedos da pracinha. Em 2017, quando a gente começou a participar – quando eu já estava cantando nos outros coletivos que estavam fazendo os festivais, os festivais da Praça da Nascente –, eu comecei a cantar lá. Com aquele grupo que parava a Kombi, abria as portas, a gente saía da banda, a gente dava uma oficina de captação de água de chuva e, na sequência, fazia um show. Foi há muitos anos que eu fiz isso. Comecei a participar dos festivais de lá. Falei: "Caramba, a gente tem que fazer um festival lá na Joia". Em 2018 fizemos o primeiro festival da Joia. Depois o segundo em 2019. Veio a pandemia, a gente parou. Em 2024 a gente fez o terceiro. Em 2025 a gente fez o quarto. O coletivo A Gente Joia nasceu mesmo na pré-produção do primeiro festival de 2018. De lá para cá, esse coletivo cuida dessa área. A gente está conseguindo transformar esse aterro num parque cogerido com a comunidade. Hoje ele é gerido pela comunidade. O nosso objetivo é que esse parque seja um parque municipal cogerido entre a comunidade e o poder público, e com eventuais dinheiros da iniciativa privada – aqui não pode falar nada, é só bancar mesmo os projetos que a gente apresentar. É isso que a gente está construindo. Está dando certo. A Heineken bancou os jardins de chuva que têm aqui, o Sesc está bancando um monte de coisas que a gente implementa através de cursos. Nosso plano está rolando. Agora a gente acredita que vai conseguir ajudar a prefeitura a normatizar um modelo de parque que foi proposto em 2014 no PLANPAVEL (Plano Municipal de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres), que é o parque de vizinhança, um parque cogerido entre a comunidade e o poder público. Só que isso não está regulamentado, não tem normatização de como operar. Esse meu projeto de doutorado pretende contribuir, através dessa pesquisa, dar subsídios para o poder público normatizar esse modelo de parque e para a gente espalhar por aí essa experiência de transformação de áreas degradadas ou ociosas em parques cogeridos pela comunidade e pelo poder público.
(02:02:02) P/1 – Que mensagem você deixaria para as nascentes que você cuida?
R1 – Que difícil. Eu espero que nós, seres humanos, consigamos reverter esse nosso olhar para as águas, de que água de rio é água suja, de que rio é um negócio que faz mal. Que a gente possa tratar as nascentes com o devido respeito que elas merecem. É onde nascem os rios. Que a gente possa reatar a nossa relação com as nascentes e cuidar delas com muito carinho para que os nossos rios voltem a ser o que já foram. Que a gente possa voltar a se relacionar com os rios como nos relacionávamos antes. Acho que um amigo meu, o Lincoln, um dia me falou assim: "Nós somos ribeirinhos privados dos nossos rios". Eu acho que é maravilhosa essa afirmação. Eu sou um ribeirinho. Tinha nojo do rio com o qual eu me relacionava e não conseguia chegar perto dos rios limpos com os quais eu me relacionava, porque as águas estavam estigmatizadas por mim, pela minha relação com o Pinheiros, pelo cheiro do Pinheiros. Eu espero que a gente agora seja capaz de mudar essa visão, de mudar essa relação com as águas. Que a gente possa voltar a ter carinho pelas águas. Que a gente possa voltar a olhar para elas e estimá-las, ser grato porque elas estão ali, porque estão limpinhas, porque a gente pode se refrescar, se banhar. Porque todo o resto da natureza com a qual a gente convive também pode. Cuidar delas não só por nós, e não só por elas, mas por toda a vida que se relaciona com o que elas nos oferecem, que é a água, a fonte da vida. Sem a água não tem nada.
(02:05:09) P/1 – Qual nome das suas filhas?
R1 – A Rosa é a mais velha e a Joana é a mais nova.
(02:05:22) P/1 – Como foi se tornar pai? O que isso significou na sua vida, a paternidade?
R1 – Estava esperando tanto para ser pai. Ser pai era um sonho. É maravilhoso ter uma relação com as minhas filhas incrível. Elas são duas pessoas generosas, cuidadosas, bem-humoradas, são uma joia, uma preciosidade. Esses instrumentos que estão espalhados pela casa aqui, elas tocam comigo. Especialmente a Joana. A Rosa não – a Rosa canta. Ela agora está na adolescência, não quer cantar para ninguém, só canta sozinha trancada no quarto. De vez em quando, com a gente aqui na sala, ela dá uma ensaiadinha. Mas não como na infância, que ela cantava para lá e para cá. Joana, que vai fazer 11 agora em agosto, toca bateria, toca piano. Se diverte assim. Eu não dou muitos brinquedos para elas também, porque eu também cresci assim sem. Os instrumentos da casa são os brinquedos da Joana. Ela chega em casa, está com a música na cabeça, abre o piano e tira as melodias. Senta no piano, tira os grooves na bateria. Senta na bateria, tira os grooves. Se estou fazendo algum groove na bateria, vou embora fazer alguma coisa; quando escuto, ela está lá tocando a bateria, coisa que eu acabei de tocar. Elas cresceram numa casa... Fico muito feliz de ver que tudo isso que é essa casa reverbera como elas absorvem, e como elas são quem elas são. Elas são uma coisa e outra, que não sou eu. Elas são muito a mãe e muito eu. Mas ao mesmo tempo não são nem a mãe nem eu. Cada uma tem uma personalidade totalmente diferente da outra. Elas são muito parceiras. É bom demais ser pai. Agora sim, finalmente vou poder propiciar para elas a oportunidade de cada uma ter um quarto próprio. Hoje, aqui nessa casa, moro eu, o Gilberto, o Joca (que é o filho dele), e as meninas. O Joca fica meio aqui, meio na casa da mãe, e as meninas ficam meio aqui, meio na casa da mãe – muito mais na casa da mãe do que aqui. O Gilberto e Joca vão se mudar. Agora elas vão poder ter um quarto cada uma. E agora elas também têm mais autonomia para se transportar, tomar ônibus. Acho que agora vai começar a acontecer o movimento delas ficarem mais aqui. Não estou com muita pressa. Deixa ser o tempo que for para ser. Não vou ficar acelerando processos. Mas acho que elas têm essa possibilidade de terem um quarto próprio, que é uma coisa que elas não vivem na casa da mãe. Pode ser que seja um bom estímulo para elas quererem passar mais tempo aqui. Estou com essa expectativa mais guardadinha numa caixinha.
(02:08:47) P/1 – E quais são os seus sonhos?
R1 – A minha vida é um sonho. Eu vivo um sonho. Eu faço as coisas que fazem sentido para mim. Sempre trabalhei com um negócio que encheu meu coração de alegria, seja nos períodos em que eu dependia de música, seja agora quando trabalho com educação ambiental. Tudo o que ponho na minha cabeça que quero viver, eu vivo. Tudo o que te contei até agora foram sonhos que se materializaram. Meu amigo André, eu, Vitor e Valéria (outro casal, compadres meus), meu amigo Márcio (que faz a produção comigo, que conheci lá no maracatu), mais a Cris, mais o Jorge e a Cláudia – nós somos seis famílias que compramos juntos um terreno em Peruíbe. Estamos montando um sítio. Compramos o terreno da Dona Fátima e do Senhor Nicleto, que são duas figuras incríveis e maravilhosas – daria mais uma hora de prosa só falando deles. A gente almeja em algum momento construir uma comunidade lá em Peruíbe, na praia do Guaraú. Sítio na praia. É uma maravilha. Hoje, todo mundo correndo atrás do rabo, pagando contas, pagando dívida, sustentando, criando filhos. Ninguém tem grana. A gente não conseguiu construir uma casa ainda lá. Temos uma casa lá que é um alojamento – todo mundo vai e fica lá num quarto só. É uma bagunça boa, a gente vai para lá. O nosso sonho é que cada família possa construir sua casa e que nós, os mais velhos, possamos conviver, morar juntos nesse lugar, no sítio ou na praia. A nossa agrofloresta já está de pé. Seu Nicleto plantou centenas de pés de cacau, de uvaia e mais um monte de outras frutas nativas lá. É um lugar maravilhoso, abraçado no Parque da Juréia. Estamos na área de amortecimento do parque, num lugar que é uma reserva maravilhosa. Hoje a gente vai pouco, mas eu sonho em um dia poder morar com os meus amigos lá. E minhas filhas poderem escolher se vão querer morar lá, se vão morar aqui, se vão morar em qualquer lugar do mundo que elas quiserem. O sonho é ver minhas filhas suficientemente autônomas para tomarem decisões assertivas por elas mesmas. As educamos para isso, para que elas se tornem seres autônomos.
(02:11:56) P/1 – E como foi contar um pouco dessa história hoje para o Museu da Pessoa?
R1 – Uma delícia. Poder contar a nossa história, poder revisitar momentos importantes, bonitos, é uma coisa que faz bem para a gente. É um baita presente que vocês e eu estamos dando especialmente para mim. Porque daqui a sei lá quantos anos, daqui a 10, 15, 20, 30 anos, quando eu assistir isso, vai ser emocionante. Agradeço muito. Agradeço ao meu querido amigo Zé Bueno por ter me indicado para poder compartilhar essa história com vocês. Ele é um amigo queridíssimo do coração, um grande zelador das águas urbanas. Que bom que ele me indicou para vocês, que bom que estou tendo essa oportunidade de contar essa história para mim mesmo.
(02:13:07) P/1 – Eu queria saber se você quer tocar alguma música?
R1 – Com certeza. Vou cantar para vocês aquela música que fiz por encomenda para a ANA. (Canta): "Caio dos céus pelos trovões anunciado, abre caminhos, rasga a terra averdejada. Ela me leva, eu é que a levo. A vida sem ela não existe, meu amigo. Se mata a minha sede ou se vai me banhar, se está lá na geleira ou no fundo do mar, meu mundo sem ela viraria pó. Amiga, não se engane, a água é uma só. Se mata a minha sede ou se vai me banhar, se está lá na geleira ou no fundo do mar, meu mundo sem ela viraria pó. Amigo, não se engane, a água é uma só."
Agradeço pela oportunidade. Que vocês façam muitas outras entrevistas lindas com pessoas que tenham histórias emocionantes.
(02:15:16) P/1 – Muito obrigada. Em meu nome, do Museu da Pessoa, do Levi, do Ally e do Vitor.
R1 - Eu que agradeço.
[FIM DA ENTREVISTA]
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