Vida na periferia
(Mauro Leal)
São distrações, importunações e inspirações garantidas,
logo cedido e ao longo da noite ateiam fogo nos quintais
é fumaça e cinza se espalhando pelos imóveis e varais;
é matilha sarnenta pra cima e pra baixo
desesperada se esfregando nos muros e nas calçadas;
gritaria com os animais; e
indolentes areados, assoviando para os pássaros cerceados.
Ambulantes na luta pelo pão de cada dia:
- Olha o gás passando na sua rua;
- Chegou o carro da pizza somente dez reais;
- O carro da vassoura está passando aqui na sua rua:
duas vassouras de piaçava por apenas quinze reais,
é isso mesmo que a madame ouviu, por apenas quinze reais;
- Grita a vizinha: não demora, hoje tem igreja;
- Os alunos se despedindo alto e bom som, indo pra escola;
- Passando aqui o carro da panela, todas as peças
da sua panelas e reparo na parte elétrica do seu fogão;
- Criatividade do vendedor de ovos;
- Alô você! está passando na sua rua o carro
da promoção: jogo de edredom com cinco peças
por apenas sessenta e oito reais;
- Está passando na sua rua o carro do
travesseiros e colchões, com preço bom;
- Buzinadas do padeiro;
- Verdureiro;
- Bananeiro;
- Peixeiro;
- Sorveteiro feito um bode velho: picoléééé, picoléééé, picoléééé
A gurizada dando estrelinhas e boladas nos portões,
festejando gol e gritando burro; e
Nos assentos improvisados nas entradas das moradias,
dia e noite, a rodInha dos trocadores de informações
é só ostentação ínútil
e gargalhadas sem graça.