Um velho poeta fuzileiro
(Mauro Leal)
De vez em quando cruza o caminho uns cabras cruéis
com crítica agressiva, desalmados, a dizer:
- Tá acabado hein! Com essa carranca prejudicada,
feição de gabão de sena e caneca amassada,
pernas cheias de varizes e pés calejados!
Eu até consigo dar aquele forçado sorriso,
fingindo não estar nem aí, mas é muito ruim,
muita maldade, é de uma indelicadeza sem fim,
poderiam ficar calados, pois não têm a mínima noção
dos anos de noites chuvosas, frias,
e nos dias de sol a pino e também subindo e descendo morro no serrado,
na caatinga, noites mal dormidas pelas escalas apertadas
com camuflado, coturno encharcados
e o fuzil no peito cruzado nas solitárias guaritas,
e nas redes de transbordo dos sucateados
navios enfrentando os temíveis oceanos bravios.
Acúmulo de experiência de vida.