Museu da Pessoa - Projeto Vale do Rio Doce
Depoimento de Paulo José Lima Vieira
Entrevistado por José Carlos Vilardaga e Manuel Manrique
Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2000
Realização Museu da Pessoa
Transcrito por Beatriz Blay
Entrevista CVRD_HV073
Revisado por Fernando Martins
Fita 1 Lado A
P/1 – Dr. Paulo, a gente vai começar e a primeira pergunta que nós vamos fazer para o senhor é a seguinte. Vou pedir para o senhor se apresentar, nome completo, data de nascimento e local de nascimento.
R – É eu nasci em Ouro Preto, Minas Gerais em 11 de março de 1916, estou hoje com 84 anos.
P/2 – O nome completo do senhor?
R – Paulo José de Lima Vieira.
P/1 – O nome dos pais do senhor?
R – Meu pai era Professor Alcindo da Silva Vieira que foi durante muitos anos professor, depois diretor da escola de Engenharia da Universidade Federal lá em Minas Gerais e morreu como reitor da Universidade de Minas Gerais e minha mãe... meu pai era carioca. E minha mãe, Maria das Mercês de Lima Vieira era de Ouro Preto, filha de um médico que era um verdadeiro... enfim muito querido pela população de Ouro Preto médico a vida inteira muito humanitário muito culto, muito... muitas qualidades, que era nascido em Ouro Preto mesmo. Meu pai era carioca, minha mãe ouro pretana e o pai dela Dr. Cláudio de Lima é nome de rua em Ouro Preto.
P/1 – O senhor conhece um pouco a origem da sua família, seus avós, de onde eles vieram?
R – O pai do meu avô materno morreu na Guerra do Paraguai, era oficial da Polícia mineira, morreu na Guerra do Paraguai. A mãe dele era ouro pretana, filha do Barão de Camargo que era, foi tesoureiro da província de Minas Gerais. Do lado do meu pai, o pai dele era português, veio com treze anos para o Brasil e aqui no Rio de Janeiro então fez a vida dele toda. Tinha uma encadernadora de livros. Naquele tempo não havia o livro industrializado que se vende hoje em brochura, não é, então eram três portugueses, meu...
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Depoimento de Paulo José Lima Vieira
Entrevistado por José Carlos Vilardaga e Manuel Manrique
Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2000
Realização Museu da Pessoa
Transcrito por Beatriz Blay
Entrevista CVRD_HV073
Revisado por Fernando Martins
Fita 1 Lado A
P/1 – Dr. Paulo, a gente vai começar e a primeira pergunta que nós vamos fazer para o senhor é a seguinte. Vou pedir para o senhor se apresentar, nome completo, data de nascimento e local de nascimento.
R – É eu nasci em Ouro Preto, Minas Gerais em 11 de março de 1916, estou hoje com 84 anos.
P/2 – O nome completo do senhor?
R – Paulo José de Lima Vieira.
P/1 – O nome dos pais do senhor?
R – Meu pai era Professor Alcindo da Silva Vieira que foi durante muitos anos professor, depois diretor da escola de Engenharia da Universidade Federal lá em Minas Gerais e morreu como reitor da Universidade de Minas Gerais e minha mãe... meu pai era carioca. E minha mãe, Maria das Mercês de Lima Vieira era de Ouro Preto, filha de um médico que era um verdadeiro... enfim muito querido pela população de Ouro Preto médico a vida inteira muito humanitário muito culto, muito... muitas qualidades, que era nascido em Ouro Preto mesmo. Meu pai era carioca, minha mãe ouro pretana e o pai dela Dr. Cláudio de Lima é nome de rua em Ouro Preto.
P/1 – O senhor conhece um pouco a origem da sua família, seus avós, de onde eles vieram?
R – O pai do meu avô materno morreu na Guerra do Paraguai, era oficial da Polícia mineira, morreu na Guerra do Paraguai. A mãe dele era ouro pretana, filha do Barão de Camargo que era, foi tesoureiro da província de Minas Gerais. Do lado do meu pai, o pai dele era português, veio com treze anos para o Brasil e aqui no Rio de Janeiro então fez a vida dele toda. Tinha uma encadernadora de livros. Naquele tempo não havia o livro industrializado que se vende hoje em brochura, não é, então eram três portugueses, meu avô encadernava um outro português que era o editor e até hoje existe o nome da editora, como é que chama? Muito conhecida no Brasil inteiro, está me faltando o nome aqui, e um outro português que imprimia. Eram três amigos portugueses jovens: um editava os livros, o outro imprimia meu avô encadernava. Quer dizer fez a vida dele aqui no Rio encadernando livros e meu pai fez um curso, exame vestibular aqui para a Escola Naval, recebeu um trote que ele considerou muito despropositado, então deixou a Escola Naval e foi para Ouro Preto.
P/1 – O quê que fizeram no trote?
R – Trote que ele achou exagerado brutal qualquer coisa assim. Ele falou que desistiu da carreira naval e foi para Ouro Preto onde então fez concurso e se matriculou na famosa Escola de Minas de Ouro Preto e lá então virou mineiro por adoção, fez a vida dele toda em Minas Gerais.
P/1 – Lá que ele conheceu a mãe do senhor?
R – Conheceu minha mãe em Ouro Preto, a família de lá. Caso que já se repetiu muitas vezes. Estudante que vai estudar em Ouro Preto de fora, não tem nada a ver nem com Minas Gerais e acaba casando lá. Da turma dele, que era uma turma curiosa porque era uma turma de três alunos só. Era ele, o _________________, e Francisco Lopes que era um gaúcho, então ele dizia que era muito incômodo porque nenhum deles podia faltar a aula, porque o professor mandava o contínuo da escola saber porquê que não veio. Vai lá na casa de fulano, na república saber porquê que não veio. (risos)
P/1 – Complicado faltar.
R – Então formou-se em Ouro Preto, na Escola de minas de Ouro Preto mas foi logo para Belo Horizonte e fez a vida profissional dele toda em Belo Horizonte, como eu falei há pouco, no fim quando morreu era reitor da Universidade Federal de Minas Gerais. Professor, diretor da escola e reitor, chegou a reitor da Universidade.
P/1 – Mas o senhor nasceu em Ouro Preto? Ficou a primeira infância toda lá?
R – Não. Minha mãe pelo fato do meu avô ser médico, o pai dela, os cinco primeiros filhos dos 13 que ela teve ela ia a Ouro Preto, para ter criança, depois do quinto ficava muito difícil pra ela estar viajando pra cima e pra baixo, então os restantes, os oito restantes nasceram em Belo Horizonte mesmo. E eu estudei curso primário e ginasial em Belo Horizonte e engenharia na Escola de Engenharia da Universidade Federal. Me formei engenheiro civil em 1937. Em 38, fui convidado para professor da escola e dei aula seis anos e meio na escola em 46 eu levei o curso até metade do ano. Meu pai tinha falecido e nós éramos 13 irmãos, eu fiquei com a responsabilidade muito grande para levar toda essa tribo pra estudar pra formar, afinal de contas viver.
P/1 – O senhor é o mais velho?
R – O terceiro. Era o mais velho dos homens. Mas cheguei a conclusão que como professor eu não ganhava o suficiente pra ajudar minha mãe a levar pra frente toda essa irmandade, então eu pedi demissão de professor e passei a ampliar a atividade de construtor que eu já tinha começado também depois que formei. A nossa construtora foi crescendo com o tempo e tornou-se até essa época uma empresa muito grande, com obras em vários estados do Brasil e algumas vezes deixei a empresa para aceitar convite de vida pública, colaborar com o governo. Em 61 fui convidado pelo Jânio Quadros pra ser presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, estive lá até o fim do ano depois da renúncia dele, eu também resolvi deixar. Porque toda a política brasileira mudou. Passou a ser primeiro ministro Tancredo Neves, que era muito meu amigo, mas eu percebi que ele precisava de todos os cargos que pudesse para formar uma maioria. Porque no parlamentarismo o primeiro ministro só governa se tiver uma maioria consistente no Congresso. Então eu mesmo tomei a iniciativa de liberar o cargo pra ele, era muito meu amigo Tancredo, era uma pessoa muito boa. E depois em 64 no governo da Revolução, do Marechal Castelo Branco, eu fui convidado para presidente da Vale e a razão de eu estar aqui. E eu quando o presidente me convidou Castelo Branco eu ponderei a ele que teria melhores condições de administrar a Vale se ele me desse o direito de indicar os diretores da Vale, porque aí eu trabalharia com uma diretoria de pessoas conhecidas e com a qual seria mais fácil de eu coordenar. Porque quando você assume uma presidência mas você não conhece, os diretores são indicados por outras pessoas, por outro governo, por outras condições, você até conseguir formar um conjunto com uma certa harmonia, que trabalhe como um time é difícil. O Marechal Castelo Branco que eu tenho até hoje a melhor impressão dele, considero que foi um grande homem, ele concordou imediatamente com o meu pedido e me pediu então que sugerisse, propusesse os nomes dos diretores que eu gostaria de ter ao meu lado. Como eram seis cargos de diretor, eu pra não parecer que eu estava também exorbitando, eu levei pra ele dez nomes, desses dez nomes escolher os seis diretores. Foi o que foi feito e até com uma circunstância curiosa. Eu indiquei vários funcionários da própria Vale. Então isso repercutiu muito bem dentro da companhia, foi aí que começou esse costume que a Vale depois conservou pro resto da vida de quase sempre os diretores ou pelo menos a maioria dos diretores ser formada de funcionários que tenham feito carreira dentro da empresa. Isso na minha opinião contribuiu muito para uma certa coesão, uma certa harmonia, um certo espírito de defesa intransigente na Vale, acho que foi uma providência positiva. Bem quando eu assumi a Vale, ela já tinha feito o primeiro contrato de exportação de minério para o Japão. O meu antecessor que era o Eleazar Batista, ele já depôs aqui?
P/1 – Já.
R – Eleazar foi um grande, pelo menos sou admirador dele, foi um grande presidente que a Vale teve, depois voltou a ser presidente posteriormente, sempre com uma inteligência e uma capacidade muito grande, mas ele tinha já feito o primeiro contrato de exportação de minério para o Japão. Eu dentro de um mês mais ou menos da posse da presidência eu recebi a visita de uma comitiva de presidentes de siderúrgicas japonesas, das grandes siderúrgicas japonesas que eram as compradoras do nosso minério, tinham passado a ser as compradoras do nosso minério, que vieram aqui verificar se a Vale estava cumprindo, a Vale na minha gestão, estava cumprindo os compromissos que tinha feito com eles de fazer um porto novo com calado mais profundo para que pudessem ser frequentada pelos navios. Porque para exportar minério nessa distância tinham que ser grandes navios de grande tonelagem e grande calado para justificar um transporte tão grande do Brasil até o Japão. Se fosse feito com navios pequenos não era econômico. Então a Vale assumiu compromisso nesse sentido. E essa comitiva de presidentes de siderúrgicas veio verificar se na minha gestão a Vale ia continuar cumprindo os compromissos que tinha assumido de obras novas e tudo então eu garanti a eles que pudessem voltar tranquilos. Eles visitaram as obras que já estavam iniciadas do porto de tubarão e também outros equipamentos que precisavam ser aumentados, modernizados e voltaram para o Japão muito satisfeitos porque perceberam que a Vale ia cumprir fielmente o contrato. Eu então aproveitei essa circunstância e pouco depois fui eu ao Japão com alguns diretores e funcionários para discutir já, lançar as bases do segundos contrato de venda de minério para o Japão e foi então que começou uma série de contratos novos de fornecimento de minério da Vale para o Japão atingindo grandes tonelagens e foi uma das razões do crescimento da Vale do rio doce. Outra coisa importante que houve na minha gestão na Vale, foi a criação de um laboratório técnico de minérios. Esse eu concordei com meus auxiliares de situá-lo próximo de Belo Horizonte para que alguns professores da Universidade de Belo Horizonte pudessem auxiliar nos trabalhos desse laboratório de ensaio de minérios. Então esse também foi uma iniciativa que foi muito útil para a Vale, passamos a ter um acompanhamento em termos de ensaio de minério muito preciso, muito detalhado e nascendo disso evidentemente um controle de qualidade muito mais eficaz.
P/1 – Eu queria voltar um pouquinho, voltar bastante e entrar depois na Vale e retomar um pouquinho a infância do senhor, em BH como é que foi?
R – Ah bom! Minha infância não foi uma infância ... não teve nada de notável não. Estudei em Belo Horizonte curso primário no famoso grupo escolar Barão do Rio Branco que eram os dois grandes grupos escolares em Belo Horizonte: Barão do Rio Branco e Afonso Pena. Estudei no Barão do Rio Branco, depois passei seis anos no Colégio Arnaldo que é também um colégio histórico de Belo Horizonte, tradicional. Fiz o meu curso lá e depois seis anos na Escola de Engenharia, o curso era de cinco anos como acho que é até hoje mas tinha um ano de adaptação, pra você poder fazer um concurso pra entrar mais preparado. Então eu fiz seis anos na Escola de Engenharia.
P/2 – Como era Belo Horizonte naquela época?
R – Belo Horizonte tinha mais ou menos, quando eu me formei na Escola de Engenharia, em 1937, mais ou menos uns 250 mil habitantes e então cidade de tamanho modesto ainda e empregos não eram assim coisa assim tão fácil de conseguir não eram tão abundantes numa cidade desse tamanho de 250 mil habitantes, então eu propus a meu pai, formarmos uma firma, criarmos uma empresa de construção que existe até hoje. Naquele tempo chamou-se (Altino S. Vieira?) e Cia. Ltda. Depois recebeu outros nomes, hoje é a Convap Engenharia e Construções S/A.
P/1 – Mas ela pertence à família do senhor ou não?
R – Os acionistas são ainda majoritariamente da família, depois coloquei meus irmãos lá, essa firma chegou a ser dez anos atrás doze anos atrás, mais ou menos alguns anos ela foi a décima construtora brasileira em tamanho e trabalhando em quase todos os estados do Brasil: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Estado do Rio, Espírito Santo, Bahia, Pará Goiás Mato Grosso, tornou-se uma empresa de âmbito nacional.
P/1 – Que tipo de obra? Pública, privada, todo tipo de construção ou...?
R – Todo tipo de construção, mas a partir de um certo ponto a empresa se especializou na chamada construção pesada, que é o quê? São estradas, pontes, portos, indústrias, não é? Por exemplo, praticamente todas as grandes siderúrgicas do Brasil tiveram a presença da minha empresa na sua construção porque geralmente uma obra dessas é dividida entre algumas firmas.
P/1 – Acesita, Itaipu...
R – Acesita talvez, Acesita também mas Siderúrgica Nacional, Tubarão, Açominas, Usiminas essa particular perto do Rio, do grupo, particular, do grupo Gerdau também foi construída por nós e estradas, pontes, usinas hidroelétricas, por exemplo a usina do lá no rio Tocantins, Serra da Mesa foi a última grande usina construída no Brasil foi um consórcio da Camargo Corrêa conosco com a construtora Convap Engenharia e Construções.
P/1 – Itaipu também?
R – Não Itaipu não.
P/1 – A CSN, a empresa participou da construção?
R – Participou tempos depois. Em obras de expansão. Na fundação dela não. Em obras de expansão. Nessas obras que eu citei participamos na própria implantação da usina.
P/1 – Porque o senhor escolheu engenharia? Qual foi a razão da escolha dessa profissão?
R – É difícil a gente a uma distância tão grande assim. Eu tinha 17 ou 18 anos, estou com 84 é difícil lembrar com tanta segurança porque que foi. Meu pai era engenheiro, a profissão do pai influi bastante há uma tendência dos filhos em acompanhar. O meio que eu vivia era ligado a engenharia. Eu gostava muito, sempre gostei de Matemática, de matérias ligadas a isso aí, então pra mim foi um caminho mais ou menos natural de seguir a carreira de engenheiro. A prova que eu não errei é que não me arrependi até hoje.
P/1 – ___________ bastante.
R – Onde é que nós estávamos? Voltando a Vale...
P/1 – O senhor foi convidado por quem para ser presidente da Vale?
R – Eu fui convidado pelo Jânio Quadros que pediu a indicação ao governador Magalhães Pinto. Magalhães Pinto com quem eu tinha uma boa amizade me indicou para a presidência da siderúrgica primeiro em 61. Em 64, não houve propriamente uma indicação, o presidente Marechal Castelo Branco tornou-se presidente pela revolução de 64, ele, ele pediu algumas...
PAUSA
P/1 – O senhor estava contando como tinha sido o convite do Marechal...
R – Ele então concordou eu levei para ele dez nomes, esses dez nomes ele escolheu junto comigo, perguntando e esse aqui porque que o senhor pôs na lista e eu fui dando a ele as explicações escolheu seis diretores que passaram a me ajudar.
P/1 – Mas o convite feito para o senhor como é que foi?
R – O convite pra mim eu acredito que foi o seguinte: o ministro de Minas e Energia dele ele tinha escolhido o Mauro Tibal. Mauro Tibal era de Belo Horizonte, a origem dele era a Cemig e o conhecia há bastante tempo e acho que eu fui um dos nomes que o Mauro Tibal que sugeriu a ele para eventualmente ser o presidente da Vale.
P/1 – O senhor aceitou de imediato?
R – Não foi uma indicação política.
P/1 – O senhor aceitou de imediato?
R - Eu aceitei... eu nunca recusei esses assim convites de vida pública porque eu acho que é uma obrigação do cidadão. Se alguém acha que você pode ajudar o governo num posto qualquer é uma espécie de fuga você preferir... “Não, eu estou ganhando dinheiro não quero mexer com isso não larga pra lá.” Eu sempre aceitei várias vezes esses convites porque acho que é uma obrigação do cidadão. Governo acha que ele pode colaborar, pode trabalhar pode ser um bom auxiliar, paciência vamos ajudar no que foi possível.
P/1 - A primeira experiência do senhor nessa parte de trabalhar para o Estado tinha sido com a CSN?
R – Tinha sido com a CSN em 61.
P/1 – Como foi essa experiência?
R – Ah, foi muito boa. A CSN achei uma empresa muito bem organizada, pessoal muito competente, mas os diretores não foram escolhidos por mim. Então levamos um certo tempo pra conseguir um entrosamento mais perfeito. Foi o que me levou a ponderar ao Marechal Castelo Branco que era, eu preferia, me sentiria mais à vontade para aceitar o convite se eu pudesse indicar os diretores. Agora... nós estávamos mais pra frente nos problemas da Vale.
P/1 – O senhor tinha alguma imagem da Vale do Rio Doce antes de entrar, o senhor conhecia alguma coisa dela?
R – Conhecia porque eu tinha no começo da Vale, quando ela foi criada o presidente foi o Israel Pinheiro em 42. Em 43 o Israel nos contratou, a firma era uma firma pequena, inicialmente para fazer umas obras muito modestas lá em Itabira, umas casinhas, casas de engenheiro, casa de funcionário, umas coisas assim muito pequenas mas que eram digamos, do nosso tamanho que era uma firma pequena. Então eu fiquei conhecendo muita gente na Vale. Diretores, engenheiros, fiquei bem entrosado principalmente em Itabira foi até curioso, quando eu primeira vez que eu fui a Itabira depois de empossado presidente da Vale, eles achavam muita graça porque motorista de caminhão, chefe de turma de compressores, perfuratrizes, gente muito humilde veio todo mundo me abraçar, me cumprimentar. “O senhor conhece esse povo?” “Conheço. Já vim tantas vezes a Itabira aqui anos atrás.” Comerciantes de Itabira que tinham pequenos armazéns lá. Outras pessoas, de resto já tinha um ambiente amigo lá não é, e então foi uma boa época agora pra encurtar um pouco o relato o que perturbou essa tranquilidade, essa evolução normal das coisas foi que o governo por razões que eu não tenho que detalhar ele resolveu conceder a Hanna (Mein?) que era detentora de várias jazidas importantes de minério de ferro ali próximo de Belo Horizonte aquele conjunto de minas ali mais próximo de Belo Horizonte, resolveu conceder a Hanna, a construção de um porto privativo dela aí na Baía de Sepetiba, no Estado do Rio e eu como presidente da Vale me opus a essa decisão porque eu não estava... nesse ponto não era um nacionalismo de eu ser contra estrangeiro ou a favor de estrangeiro não era nada disso, era que a Hanna era a grande competidora da Vale, então eu não podia ser a favor de uma providência que daria a ela um poder de competir muito maior, no momento em que ela tivesse um porto próprio ela se tornaria uma concorrente fortíssima e então nos atrapalhar em termos comerciais da venda. Então eu fui contra essa... falei com muita franqueza que eu era contra e aos ministros e que eu não concordava com aquela iniciativa de conceder o porto privativo a Hanna, mas como o presidente perseverou na idéia e acabou concedendo o porto a Hanna no dia seguinte que ele baixou o decreto concedendo a Hanna construir um porto na Baía de Sepetiba, eu apresente a ele uma carta de demissão, pedido de demissão. Mas não havia nisso nenhuma, não houve nisso nenhuma coloração política de eu ser nacionalista ser contra firmas estrangeiras e ele ser a favor, apenas eu achei que nós não devíamos fortalecer tanto assim a nossa maior concorrente. Ele entendeu as minhas razões e pediu para eu permanecer no cargo mais alguns dias até que ele escolhesse um substituto pra mim. Então eu fiquei lá de Abril a Dezembro, uma coisa assim, um tempo relativamente curto.
P/1 – Por quê que o governo apoiava a Hanna?
R – Não me cabia, o governo é uma coisa, a companhia é outra. Não me cabia discutir o princípio ele apoiava para achar que seria razoável conceder um porto a Hanna. Apenas eu atuei no interesse da empresa que eu presidia. Ia passar a ter um concorrente muito forte para o qual provavelmente ela perderia algumas vendas, não é? Então como eu recebia no fim do mês os meus honorários da Vale, eu tinha que defendê-la, não podia ficar passivo frente a uma situação desse tipo.
P/1 – A diretoria da Vale, os superintendentes, os gerentes como é que eles...?
R – Os homens de carreira da Vale evidentemente eram contra também, mas não tinham razão pra tomar uma posição tão drástica de pedir demissão até porque eles viviam daquilo quer dizer era a carreira que eles tinham escolhido, eram pessoas muito competentes. A Vale tinha um corpo de auxiliares muito competentes. Um homem desses que já tem dez, quinze, dezoito, vinte anos de Vale não vai jogar fora esse patrimônio que é o emprego dele por tanto tempo numa empresa por causa de uma coisa dessas. Tem que se limitar a cumprir ordens. Mas eu que estava lá convidado de fora para defender os interesses da Vale, achei que a melhor maneira que eu teria de defender os interesses da Vale era exatamente me opor a essa concessão de um porto privativo a Hanna. Essa minha posição teve algum fruto porque realmente depois disso o projeto de um porto próprio da Hanna demorou um pouco a se efetivar, ela acabou fazendo sociedade com mineradoras nacionais e enfim não foi uma coisa assim que saiu facilmente não. Porque criou... deu assim uma visibilidade ao conflito e contribuiu para que esse aparecimento da Hanna como grande concorrente se atrasasse um pouco.
P/1 – Teve até CPI do caso Hanna, não teve?
R – Não por causa disso acho que não. Mais pra frente pode ser que tenha tido não acompanhei detalhadamente não, mas eu só me justifico dizendo que era a posição que no momento que me cabia tomar. Não sei se cabe num depoimento assim mas eu cheguei ao presidente assim: “Mas o senhor não quer cumprir ordens?” “Cumprir ordens? No fim do mês o meu salário, meus honorários vêm da Vale, então eu estou aqui para defendê-la no momento que o senhor me colocou na Vale, me desculpe mas eu tenho que vestir a camisa dela.” E ele também não... achou que era justo, achou que a minha posição era justa. Tanto que quando eu efetivamente saí, ele me fez uma carta muito elogiosa então não guardou também, percebeu que não era um ato de oposição política, fazer oposição a ele, apenas estava interpretando a meu modo, a minha obrigação de presidente da empresa. Então aí voltei para as minhas atividades em Belo Horizonte das quais eu tinha me licenciado e o capítulo Vale ficou encerrado.
P/1 – Dessas diretorias que o senhor escolheu em conjunto com o presidente o senhor lembra de algumas dessas pessoas?
R – Ah lembro de todos eles! Era gente muito competente, muito boa. A diretoria da Vale de modo geral tem sido muito boa, era uma empresa... Porque costuma-se às vezes criticar não é uma empresa estatal, como se aquilo fosse... de modo depreciativo, não é, mas não era um pessoal que tinha um espírito de luta muito grande, lutava pela Vale com unhas e dentes, era um pessoal competente, extremamente competente, cada um na sua tarefa. A lembrança que eu tenho dessa época é muito positiva, muito positiva. Não gostaria de destacar nomes, mas era um grupo homogêneo e competente sem dúvida nenhuma. Tanto que quase todos eles continuaram e alguns chegaram a ser presidentes da Vale também. Era gente muito boa.
P/1 – Essa Vale que o senhor conheceu em 43 e depois quando o senhor chega na década de 60 era muito diferente a estrutura dela? Ela cresceu muito, como é que era?
R –A Vale, a minha definição pelo menos a seguinte. Eu acho que a Vale além de ser uma grande exportadora de minério hoje tornou-se a maior exportadora de minério de ferro do mundo, além de ser uma grande exportadora de minério ela exerceu no Brasil um papel muito importante como uma espécie de companhia regional de desenvolvimento, por que? Nas regiões onde ela atuou, quer dizer, primeiro Minas Gerais, Espírito Santo onde era a ferrovia, onde é até hoje a ferrovia Vitória Minas, o porto, a mina lá em Itabira, etc., e depois na região de Carajás, no estado do Pará até o porto dela lá no Maranhão, a estrada de ferro ela sempre cumpriu um papel de companhia regional de desenvolvimento, quer dizer, ajudava as prefeituras, ajudava os governos estaduais, escolas que precisavam de verba de auxílio para sobreviver ou para melhorar e comunidades ou municípios que também só com esse auxílio podiam resolver seus problemas, entende? Então ela tinha esse papel de companhia regional de desenvolvimento e também ela criou muitas empresas pioneiras e nem sempre o capital privado gosta de criar empresa pioneira, porque a empresa pioneira tem um grau de risco muito grande, não é? Ela sempre foi, criou várias subsidiárias em vários campos que foram pioneiras e ajudaram portanto a que surgissem outras atividades, não é? Então por isso mesmo é que eu acho que a privatização da Vale no fundo não foi uma coisa muito... não foi uma decisão muito boa porque como empresa privada depois de vendida ela não tem mais essa obrigação de funcionar como uma companhia que desenvolve as regiões. Ela faz aquilo que... aplica o capital, faz as obras que lhe interessam mas não tem compromisso com a região. Ela tem um certo compromisso porque parece que permanece a obrigação dela aplicar anualmente uma porcentagem dos lucros nesse tipo de coisa mas de uma maneira muito mais desobrigada digamos assim, do que a Vale estatal fazia. Então já é um assunto que foge a qualquer assunto de natureza mais política. Na minha opinião teria sido melhor se ela continuasse com maioria de capital do governo e... Bom também depois disso voltei às minhas atividades habituais e não tive também... como eu nunca disputei cargos políticos também nunca me considerei obrigado a discutir esses temas e passou a ser um campo que é reservado a quem faz política, executivo e legislativo são os poderes não teria como assumir posições públicas.
P/1 – O senhor teve um cargo importante na Vale num momento de grande turbilhão político...
R – Turbulência política, é.
P/1 - A revolução... Como é que foi estar na posição do senhor nesse contexto conturbado no Brasil. Chegava até o senhor na administração da estatal?
R – Em geral essas oscilações da política se refletem na troca do executivo, não é isso? É o mais comum e como eu já relatei aqui no caso da siderúrgica sobreveio o parlamentarismo então eu achei que era melhor para a empresa que eu não constituísse um obstáculo à formação da maioria parlamentar que o governo precisava para se manter pra governar. Então... mas não chegou... Ah sim! Quanto ao funcionamento da empresa acho que essas mudanças políticas não chegaram a afetar a produção de aço no caso da siderúrgica ou a exportação de minério não chegam a ser afetadas porque a empresa tem uma dinâmica que continua funcionando independentemente de quem a esteja presidindo com alterações com o tempo, cada um tem um diagnóstico cada um tem uma ideia um pouco diferente mas todos, todas as pessoas com um empenho muito grande em conseguir melhores resultados possíveis para a empresa.
P/1 – E a obra de Tubarão? Tubarão estava iniciado? Ela corria algum risco?
R – Estava iniciado. Estava sendo feito um pier do porto de Tubarão e estava iniciada construções do porto propriamente. Como eu falo, como eu disse há pouco, como eu percebi que era uma solução muito conveniente para a Vale, aumentava enormemente a presença dela na siderurgia mundial como fornecedor de minério eu tive todo o interesse em dar o melhor andamento possível a todas as providências que visavam isso, que eram compromissos que a Vale tinha assumido como os compradores de minério.
P/1 – _______________________
R – A siderúrgica... meu tempo de presidente da siderúrgica foi curto nós iniciamos um pequeno plano de expansão. Não era um plano de expansão grandioso, e nem tive tempo para isso, mas era um plano de expansão que visava equilibrar melhor os diversos setores da empresa. Uma siderúrgica tem uma coqueria que prepara o coque que é usado no forno, tem o alto forno, os altos fornos que produzem o ________ que depois vai pros fornos de aço para ser transformado em aço e esse aço então vai então pras laminações para ser transformado em chapas enfim no produto que a siderúrgica fábrica. Isso tudo, esse equipamento tem que ter um certo equilíbrio, tem que procurar um equilíbrio de maneira que não haja pontos fracos no meio dessa cadeia de equipamentos que a gente consiga o melhor rendimento possível dele todo. Então qualquer usina siderúrgica está sempre projetando adaptações aumentos, fora os grandes aumentos que visam os planos de expansão aí sim, já é outra coisa, mas no dia a dia existe uma procura permanente dos melhores resultados, da maior tonelagem viável com aqueles equipamentos que você tem.
P/2 – Quando o senhor assumiu a presidência da Vale do Rio Doce existiam que tipos de problemas?
R – Não existiam problemas, existiam soluções em andamento que eram os acréscimos necessários para atender os contratos de venda do minério para o Japão. Quer dizer, compromissos que tinham sido assumidos pela Vale quando assinou esses contratos e que ela só lhe cabia cumprir e eu diligenciei para que eles fossem cumpridos da melhor maneira possível, com a maior rapidez, e com a maior eficiência possível.
P/1 – Essas __________ o senhor lembra quais eram?
R – Eram o novo porto, o aumento da capacidade dos navios que implicava também aumento de calado, melhorias de operações nas minas, nas jazidas de minério para aumentar a produção, providências referentes à qualidade do minério. Então aí influi na britagem, no peneiramento, nos tipos de minérios que são produzidos isso tudo tem que ser... isso é um conjunto que tem que funcionar harmoniosamente. Se você tiver ao longo desse conjunto algum equipamento defeituoso ou menor do que o necessário ou menos eficiente, você quebra negativamente a cadeia de produção, então a ferrovia, os vagões, a velocidade com que o minério vai da mina até o porto... A ferrovia da Vale tornou-se, é até hoje, tornou-se a nossa melhor ferrovia do Brasil em termos de eficiência. Ela chegou ao ponto do vagão ir até o porto descarregar e voltar a mina, em tantas horas, num prazo... Me lembro em uma época em que se conseguia em 58 horas o mesmo vagão saía da mina carregado ia até o porto lá em Vitória descarregava e voltava a mina, pra ser carregado de novo. Para se conseguir resultados assim coerentemente de maneira normal, não é, é preciso uma administração muito competente, muito atenta, muito interessada que a Vale sempre teve, o pessoal da Vale eu aprendi a admira-los, era gente muito boa, muito experiente.
P/1 – O senhor participou do segundo contrato, o senhor que assinou e tudo mais
R – Não, não cheguei a assinar, eu apenas lancei as bases do segundo contrato.
P/1 – Como é que foi _______________?
R – Não, foram conversações lá no Japão levei uma equipe lá nós conversamos dez dias seguidos naquele sistema japonês, tudo muito bem explicadinho, depois pensa que entendeu ele vai e volta atrás “E aquele ponto como é que ficou?” Enfim eles são muito detalhistas e muito eficaz e muito eficiente conhecem muito bem o assunto então são conversações técnico-econômicas mas que tem que ser feitas com muita minúcia, com muita competência pelos dois lados para daí chegar aos melhores resultados possíveis pro vendedor e pro comprador.
P/1 – Os japoneses colocavam em dúvida em algum momento a capacidade da Vale de cumprir esses contratos?
R – Não, não. Depois que eles viram que a Vale estava cumprindo rigorosamente os compromissos que tinha assumido de melhorias... acompanham tudo minuciosamente é da maneira de ser do japonês, acompanham tudo minuciosamente e muito eficientemente, mas o relacionamento sempre foi muito bom, muito positivo, bom para o Brasil.
P/2 – Os japoneses fora a mesa de negociações eles tinham algum tipo de atenção com a equipe da Vale, levavam a equipe da Vale para ciceronear, conhecer algum lugar turístico.
FITA 02
R – Isso aí é um detalhe muito pouco importante no assunto mas evidentemente tratavam bem as equipes da Vale que iam tratar que iam lá discutir detalhes, resolver preço, teores de minério, tonelagem, navios. Os japoneses são muito delicados nesse negócio eles tratam sempre muito bem e com grande característica é a grande minúcia, quer dizer procuram esgotar o assunto até o seus menores detalhes para ter certeza que está tudo bem, bem combinado, bem contratado, bem resolvido e que a gente só tem que admirar e achar que é isso mesmo, é obrigação.
P/1 – E o corpo jurídico e técnico da Vale dava conta dessa...?
R – Ah, sempre deu, sempre deu. Pessoal da Vale só tenho palavras assim de elogio, gente muito boa, muito experiente e com uma característica que é especial. Com um interesse, espírito de luta que desmente completamente essa ideia de que o pessoal ligado às estatais não é tão eficaz quanto das empresas privadas. O pessoal da Vale é extremamente eficaz. Se alguém tem que ser elogiado por isso são os presidentes que me antecederam _____________ e outros o fundador, o primeiro presidente Israel Pinheiro e outros que passaram por lá e que conseguiram implantar na empresa esse espírito de luta, de seriedade de integração isso é muito importante. A Vale não merece em nenhum momento, pelo menos até o tempo não merece nunca a crítica assim de que por ser estatal seja menos eficiente do que uma empresa privada.
P/1 – E o laboratório, Senhor Paulo já existia antes do senhor assumir a presidência?
R – Não, o laboratório foi uma decisão tomada... Existia uma ideia de implantar um laboratório, essa implantação foi feita no meu tempo, a escolha do local o dimensionamento desse laboratório, toda a maneira dele se entrosar com setores comerciais e técnicos da empresa começou... Evidentemente não se faz num dia nem nos dez meses, é um trabalho que vai sempre se aperfeiçoando todo dia. Você tem um laboratório que é destinado a prestar informações da mais absoluta importância da vida da empresa você tem sempre que continuar dando a esse laboratório os meios mais modernos de ação para que ele continue sempre uma coisa muito atualizada, muito eficiente que seja pra empresa o apoio que precisa ter. As providências que me couberam, no caso do laboratório apenas, como eu fiquei lá pouco tempo depois já se desenvolve nas gestões seguintes, não é?
P/1 – Que outro tipo de solução foi adotada, além da escolha do lugar, ____________ professores também, corpo técnico?
P/1 – É. Eu achei, quer dizer nós achamos, eu e o pessoal incumbido disso nós achamos que sendo perto de Belo Horizonte facilitava muito a que nós conseguíssemos que trabalhassem lá professores especializados em vários aspectos em mineralogia em química enfim uma série de outras coisas, características físicas e químicas do minério que se você pusesse longe de Belo Horizonte provavelmente não haveria em Itabira uma equipe tão grande, pessoas tão competentes como tem numa cidade como Belo Horizonte, com universidade, isso foi então...
P/1 – Mas havia _____________ querendo que fosse em Itabira?
R – Não me lembro de ter surgido divergências quanto a isso não. Outra característica que é preciso lembrar é a seguinte, que a quantidade de minérios que vão a um laboratório pra ser examinadas são modestas e cabem sempre em caminhões quer dizer não há necessidade de você mandar para os laboratórios vagões inteiros, são amostras. Amostras são de tamanho e de um peso tal que pode ser tudo resolvido com o transporte rodoviário, então esse laboratório ficou localizado na margem da rodovia Belo Horizonte-Vitória, Belo Horizonte-Itabira BR 262, porque não havia nada que indicasse que ele teria que ficar junto a ferrovia. Pelo menos era nossa convicção.
P/1 – E quando o senhor sai da presidência da Vale, o senhor retoma as atividades?
R – Retomei minhas atividades privadas, era ainda o governo Magalhães Pinto, e o governo Magalhães Pinto me nomeou vice-presidente do conselho Estadual de Desenvolvimento, cujo presidente era o próprio governador. Então eu fiquei, a pedido dele fiquei ajudando o governador naquilo tudo que ele achava que minha experiência, meus conhecimentos podiam ser úteis para o governo dele.
P/1 – Qual que era a função desse Conselho?
R – Conselho Estadual do Desenvolvimento. Era ajudar a estudar toda e qualquer iniciativa que resultasse no que devesse ser implementado para o desenvolvimento do estado. Foi uma época boa também porque tivemos, fiz muita coisa variada, entre elas uma coisa curiosa. O governador me chamou à noite, me chamou à noite em casa e a Companhia Siderúrgica Mannesmann estava passando por crise muito grave, uma crise que não tinha nada a ver com o assunto siderúrgica, uma crise administrativa, econômica, financeira e o governador Magalhães me chamou no palácio onze e meia, meia noite pra me dizer que eu ia ser nomeado no dia seguinte, interventor na Mannesmann, cargo que eu não podia recusar. Aliás ele não chamou interventor ele pôs delegado do governo do Estado junto a Mannesmann para ajudar a debelar aquela crise e normalizar a vida da Mannesmann. E eu gosto de contar isso porque pessoa inteligente como era o governador, sabe resumir as coisas em poucas palavras. Eu perguntei a ele: “Qual é o objetivo? O quê que o senhor quer que eu faça.” Ele resumiu brilhantemente em poucas palavras o objetivo. “Você não deixe a usina fechar. Porque a usina continuando aberta nós vamos acabar conseguindo resolver a crise e ela continua, se deixar fechar aí você reabrir uma usina que já fechou já é outro assunto, provavelmente será muito difícil.” Resumiu em poucas palavras o quê que era pra fazer. Não deixar a usina fechar. Então perguntei a ele: “Bom mas governador, para esse fim o senhor me autoriza a usar o nome do Estado?” O Estado tem que pelo menos moralmente aparecer como avalista não é? “O senhor me autoriza a usar o nome do Estado?” “Você pode usar o nome do Estado do jeito que você quiser, contanto que não deixe a usina fechar.” Então no dia seguinte eu fui para lá me deram uma sala lá pra trabalhar e começamos um trabalho que foi muito importante e que realmente permitiu que a Mannesmann continuasse funcionando até hoje e foi uma das coisas que ele me pediu pra fazer e outros episódios assim que...
P/2 – O senhor lembra de outros?
R – Lembro. Outro foi, outro foi a construção da usina de metalurgia de níquel pelo grupo, esse grande grupo de São Paulo...
P/1 – Votorantim?
R – É da Votorantim sim do José Ermírio, do Antônio Ermírio. Essa usina estava demorando muito a ser terminada. O grosso das obras dela tinha sido feito e ela não acabava foi se prolongando a fase de implantação da usina e Magalhães estava sendo muito pressionado para desapropriar e torná-la uma usina do Estado. E Magalhães não era de maneira nenhuma um estatizante. Ele me convocou e me pediu vai lá e procure examinar isso e procure saber o quê que está fazendo a construção dessa usina demorar tanto. Eu convoquei a Belo Horizonte o Antonio Ermírio de Moraes que é uma excelente pessoa, um líder, um administrador extremamente competente e verifiquei que o que estava impedindo a conclusão da usina era a falta de umas licenças de importação que eles não estavam conseguindo e que eram indispensáveis para a conclusão, equipamento que não tinha no Brasil e que precisavam ser importadas. Expliquei isso ao Magalhães ele influiu no governo federal para que essas licenças de importação fossem logo expedidas para o grupo do Antônio Ermírio, as dificuldades foram provavelmente políticas na época e pouco tempo depois elas estavam funcionando normalmente e estou citando isso como exemplo porque ele me pediu várias vezes coisas assim, que eram um pouco extra a ação do governo, marginais à ação do governo mas que eram importantes para o Estado.
P/1 – Essas ações de desenvolvimento do Estado de Minas, elas giravam principalmente em torno de siderúrgica, mineração ou tinham outras...?
R – Não, bom ele utilizava a minha ajuda quando achava que era necessária, eu não tinha uma função burocrática de todo dia. ____ ando num horário determinado e com, em cima de... ele escolhia os assuntos que me passava ou para os quais ele solicitava a minha colaboração, mas foi uma época muito boa porque trabalhou-se muito, conseguiu-se várias soluções importantes. Nós estamos falando aqui de Vale, mas outra época que eu ajudei bastante o governo foi no governo Rondon Pacheco ele me nomeou Secretário de Planejamento e Coordenação Geral e no governo Rondon conseguimos trazer para Minas Gerais uma série de empreendimentos industriais da maior importância, inclusive a Fiat. Foi no governo Rondon.
P/1 – Como foi essa negociação?
R – Essa eu não liderei essa negociação mas várias vezes fui chamado para auxiliar nas negociações e nas decisões, mas foi pra Minas uma vitória muito grande. Primeira grande fábrica de automóveis que se implantou no Brasil fora de São Paulo.
P/1- Como foi...
R – Aí nós já estamos fugindo muito do assunto aqui que é Companhia Vale do Rio Doce.
P/1 – O assunto é a vida do senhor.
R – Não. O assunto ligado a Vale.
P/2 – E depois que o senhor saiu da presidência teve participações em outras áreas, o senhor teve alguma participação com a Vale, algum projeto?
R – Não assim diretamente não.
P/2 – Não foi chamado...?
R – Eu não me lembro por exemplo como Secretário de Planejamento do Estado de Minas no governo Rondon ter tido necessidade de discutir algum assunto com a Vale não tenho lembrança de ter havido essa oportunidade ou essa necessidade não.
P/1 – Mas ______ vindo com esses projetos do Estado de Minas, essa verba da Vale do Rio Doce, ou esse papel de desenvolvimento regional da Vale era levado em consideração como? O senhor...
R – Não aí não, aí não tinha nada a ver com Vale. Era governo Rondon, a gente teve conversações com várias grandes indústrias, vários grandes grupos brasileiros e estrangeiros, inclusive Fiat que é estrangeiro, italiano, mas não tinha nada a ver com Vale não, eram mesmo empresas que, indústrias, iniciativas que a gente procurava levar para Minas Gerais dentro de um programa de governo do Rondon de desenvolvimento e com bastante sucesso. Ele levou para Minas, o governo Rondon levou para Minas algumas vezes com minha colaboração levou para Minas muitas indústrias novas. Eu fui a São Paulo várias vezes para reuniões com industriais paulistas. Um trabalho de vendedor não é, pra vender o Estado de Minas.
P/2 – Nesse tempo o senhor não nunca teve a tentação de ter algum cargo político, alguma aspiração?
R – Eu era. No governo Rondon eu era secretário de Planejamento e Coordenação Geral então eu atuava dentro desse cargo, desse título de secretário.
P/1 – Cargo político o senhor nunca teve.
R – Cargo eletivo, não nunca me animei a... não que eu não tivesse acesso a, atração por isso não, mas é que enfim, eu fiquei mesmo, eu sou absorvido no meu trabalho principal que foi de construção e atendi aos chamados que me fizeram algumas vezes larguei de lá e fui atender a convites a chamados que me pareceram que eram importantes e que seria... acho que o cidadão não deve recusar porque estão pedindo uma ajuda, estão chamando para ajudar, quando a gente pode colaborar, quando a gente pode ter alguma importância, então vamos colaborar, vamos trabalhar junto com outras pessoas para conseguir as coisas, mas cargo eleitoral nunca disputei não.
P/1 – Na empresa do senhor, o senhor tinha __________ qual a função que o senhor era presidente da empresa?
R – Presidente da empresa, tenho sido presidente.
P/1 – O senhor se licenciava, como o senhor administrava as duas coisas?
R – Não, não eu não administrava as duas. Eu pedia licença mesmo e deixava na mão dos auxiliares a firma. Não era viável e nem até muito aceitável mesmo que não tivesse uma coisa nada a ver com a outra mas eu sempre procurei dar tempo integral. Tanto que eu mudei, mudei para o Rio quando eu fui presidente da siderúrgica, mudei para o Rio, depois quando fui presidente da Vale mudei pro Rio de novo com família. Família pequena, minha mulher e três filhos. Meu filho pequeno ficou em Belo Horizonte, os outros dois foram comigo pro Rio e enfim foram ocasiões em que... foi destino ocasiões em que se lembraram de me pedir pra ajudar eu acho que o cidadão não deve, não pode recusar.
P/1 – Depois do cargo de secretário do governo Rondon Pacheco ainda teve alguma participação desse tipo?
R – Não.
P/1 – Não.
R – Governo não. Continuo trabalhando até hoje na empresa e estou começando a pensar em descansar, porque com 84 anos acho que já mereço. Estou com... saúde permite viajo pra cá e pra lá, trabalho ainda oito horas por dia, dez horas por dia sem sentir nenhum cansaço excessivo nem nada, não vejo razão pra parar. Mas de uma hora para outra, evidentemente vou, é natural, que chega uma hora bom agora chega não é.
P/1 – Esse tempo que o senhor morou no Rio que impressão _____________
R – Gostei. O Rio é uma cidade agradável, gostei, gostei. É uma cidade alegre e boa de se trabalhar, não achei ruim não.
P/1 – Já era casado?
R – Já, já. Filhos grandes e tudo. Mas me dei muito bem no Rio, me senti... não afetou minha vida particular quase nada.
P/2 – Toda a família gostou, os filhos gostaram?
R – É. Minha mulher é nascida no Rio também.
P/2 – Ah, ela é daqui? Conheceu aqui ou conheceu em ?
R – Não, conheci em Belo Horizonte, mas ela é nascida aqui no Rio, então ela gosta do Rio. Então eu também gosto do Rio, nunca tivemos nenhuma dificuldade com isso.
P/1 – Como o senhor conheceu a sua esposa?
R – Ah, isso lá em Belo Horizonte no tempo que ainda era estudante, nos últimos anos da escola de Engenharia. A família dela morava lá, ela é nascida no Rio mas a família toda é de lá, é mineira e morava em Belo Horizonte então um conhecimento espontâneo, natural.
P/1 – O senhor tem quantos filhos?
R – Três.
P/1 – Três filhos. Fazem o quê?
R – Ah, são todos (homens?). A mais velha é professora na Universidade Católica em Belo Horizonte, o do meio é industrial, até há pouco tinha uma oficina mecânica muito boa lá das melhores de Belo Horizonte e o mais moço veio estudar no Rio, formou-se no Rio em Arquitetura e esse trabalha na empresa de construção.
P/2 – Tem netos?
R – Tenho. Nove netos, sendo umas mocinhas trigêmeas, eu tenho netas trigêmeas, estão com dezenove anos, interessante, não é? Uma até está em São Paulo estudando em São Paulo e dois bisnetos então já estou mesmo na hora de pensar em descansar.
P/2 – O senhor gosta de fazer quando não está trabalhando?
R – Eu tenho uma fazenda perto de Sete Lagoas que é onde eu produzo leite, mas estou querendo encerrar porque o leite está sendo pago a um preço pouco abaixo do custo dele, então produzir leite passou a ser uma forma de ter um prejuízo mensal. Então eu estou projetando parar com o leite e transformar a fazenda em pura e simplesmente de engorda pra vender pra carne, não é, pra vender o boi, não é, estou até mexendo com isso e quando mais moço sempre gostei muito de esporte. Quando estudante joguei basquete alguns anos, depois joguei tênis muitos anos depois de casado, fui diretor do Minas Tênis Clube durante quatro anos seguidos e enfim sempre gostei de... sou fã do galo até hoje. (risos)
P/1 – O senhor praticava basquete onde?
R – Em Belo Horizonte.
P/1 – Na escola mesmo ou...?
R – Não, nós tínhamos um time lá, um time que já até não existe mais e disputava o basquete em Belo Horizonte e depois naquele tempo não precisava ser tão alto como hoje exige. Tenho mais ou menos 1,80 mas naquele tempo 1,80 já dava pra jogar basquete, hoje se tiver um jogador de 1,80 é pequeno em relação aos outros e tênis, joguei tênis uns cinco ou seis anos seguidos, já depois de casado, disputar jogo de basquete depois de casado já não dava.
P/1 – O senhor mora com quem hoje, o senhor sua esposa?
R – Hoje eu e minha esposa sozinhos em casa. Apartamento até acabou ficando muito, o tamanho dele muito acima do que precisa, os filhos vão saindo vão casando, mas mudar de casa, mudar de apartamento nessa idade também dá uma preguiça total. É chato mexer com isso. (risos)
P/1 – O seu cotidiano hoje como é?
R – Trabalhar diariamente. Acordo cedinho, sete e meia da manhã já estou no escritório, e fico às vezes até seis e meia, sete horas da noite, quero dizer vou almoçar em casa. Em Belo Horizonte é fácil almoçar em casa, não é, mas trabalho muito ainda.
P/1 – Nessa sua trajetória de vida tanto profissional quanto pessoal se o senhor tivesse que começar de novo, se o senhor tivesse que mudar alguma coisa o senhor mudaria ou não?
R – Mudaria. A coisa que eu mais gostei depois de tudo que eu fiz foi dar aula, foi meu tempo que eu fui professor da escola, fui professor seis anos e meio, de tudo que eu já fiz, foram coisas muito diferentes umas das outras, passando por essas estatais, o que me deu mais prazer pessoal foi dar aula. E larguei porque meu pai morreu, meu pai morreu muito cedo, morreu com 57 anos e eu fiquei como irmão mais velho homem de um grupo de treze irmãos, o mais moço tinha dez anos. Então tive que ajudar minha mãe a criar esse povo todo, orientar, fazer eles estudarem, formar então com o ordenado de professor não dava pra mexer com isso tudo, como eu já tinha a empresa então eu solicitei dispensa do cargo de professor e fui tratar de desenvolver a empresa. Porque professor tradicionalmente ganha muito pouquinho não dava pra encarar uma família muito grande cheia de...não é solução pra isso.
P/1 – Por quê que o senhor gostava tanto de dar aula?
R – Prazer que eu tive gostava muito de dar aula e como eu era muito moço e os alunos muitos eram até mais velhos que eu, outros mais ou menos da mesma idade, outros um pouco mais moços mas foi também uma coisa muito boas porque nessas sete turmas que eu dei aula eu fiz um número muito grande de amigos. Ainda hoje antes de vir para aqui fui visitar um deles que mora aqui no Rio, coitado está bastante doente. Mas então você põe aí uma média, naquele tempo as turmas não eram grandes, você põe uma média de 30 alunos, sete anos seguidos, são 200 e tantos engenheiros, não é, então fiz um relacionamento muito bom, amizade, facilidade de convivência com esse povo todo, é bom na vida da gente essas coisas ajudam. Fui presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros na época de mais ou menos 49, 50, 48, 49, 50, fui presidente do Sindicato da Indústria da Construção civil de Belo Horizonte e tenho sido do Conselho da Santa Casa lá de Belo Horizonte também muitos anos seguidos, ajudar lá o presidente durante oito anos foi um grande amigo meu Celso Mello Azevedo que foi também prefeito de Belo Horizonte anos atrás, então como membro do conselho andei ajudando e enfim atividades assim complementares que a gente não tem muito como recusar porque não pagam coisa nenhuma é só o trabalho que a gente tem que colaborar.
P/2 – E o senhor tem um sonho?
R – Ah, nessa altura com 84 anos não tenho não, sonho assim de futuro não pode ter, não é...
P/2 – Não tem ________?
R – Não, não. Coisas novas na minha vida não, acho que moro razoavelmente, trabalho bastante, um sonho de quem nessa altura da vida é mais ligado à família, de ver os filhos e netos irem pra frente serem felizes casarem bem, ter uma vida harmoniosa isso enfim todo mundo realmente não é sonho isso é desejo de todo mundo é nesse sentido.
P/2 – O senhor tem quantos anos de casado?
R – Sessenta e um, me formei em 37, casei em 38, Dezembro de 38, vou fazer 62 anos de casado.
P/1 – Beleza!
R – Agora vamos encerrar porque senão não volto pra Belo Horizonte hoje.
P/1 – Qual é a imagem que ficou para o senhor da Vale do Rio Doce, lembrança mais marcante que ficou?
R – A imagem da Vale pra mim é muito positiva, uma empresa bem dirigida isso é um elogio para os presidentes que me antecederam, desde o primeiro que foi Israel Pinheiro, depois foi, teve uma época que Juracy Magalhães foi presidente, como é que se chama o outro, minha memória está me traindo, vários outros, mas enfim tenho uma, sempre tive uma impressão muito positiva da Vale encontrei lá uma identificação dos empregados, dos funcionários todos com a empresa muito grande, tão grande quanto qualquer empresa privada, espírito de luta, de defesa da empresa, enfim isso eu dou um testemunho muito aberto é o que eu encontrei é o que eu sinto. Não percebi nenhuma diferença pelo fato da Vale ser estatal, pessoal pudesse ligar menos pra ela, mas não, todo mundo... isto deve ser creditado aos presidentes, aos diretores que me antecederam que conseguiram criar esse espírito lá dentro.
P/1 – O que o senhor acha desse projeto da memória da Vale do Rio Doce e de ter prestado o seu depoimento?
R – Acho que esse projeto de memória é bom, porque a tendência se a gente não faz projeto desses, é essas lembranças se perderem e lembrar sempre das mais críticas seja em sentido negativo ou positivo mas sem ter uma visão mais completa, mais ordenada da coisa, então o projeto é muito bom porque depois que vocês ouvirem os interessados e transformarem isso num relato coerente preserva uma coisa que eu acho que foi, que tem sido importante para o país, para as regiões onde ela atua e enfim não tenho restrições a fazer a esse projeto da memória da Vale, acho que ele é até necessário. A siderúrgica CSN fez recentemente e esse ano mesmo fez uma festa aqui no Rio de congraçamento e editou um livro sobre a história da CSN livro que eu tenho dois exemplares dele então acho que foi bom e a Vale fazer uma coisa parecida acho que é muito positivo, pelo que eu vejo aqui está em boas mãos também. Vamos embora?
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