Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa,
Entrevista de Karai Dju (Josias Carvalho Marinho)
Entrevistado por Sofia Tapajós e Diwarian Pego
Aracruz, 20 de março de 2026
Código: DCC_HV008
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
R - Josias Carvalho Marinho, data de nascimento dia 8 de maio de 1985, município de Aracruz.
P/1 – E qual é o nome da sua comunidade?
R - Faço parte da comunidade guarani, né, aldeia Boa Esperança.
P/1 – Qual é o nome dos seus pais?
R - Meu pai é José Marinho, nome da mãe é Antônia Carvalho Marinho.
P/1 – Você tem irmãos?
R - Tenho.
P/1 – Você tem quantos irmãos?
R - Sete.
P/1 – Sete irmãos?
R - Sete.
P/1 – E os seus pais, eles trabalhavam com o quê?
R - Então, meu pai é pescador, agricultor, minha mãe é artesã, trabalha juntamente com meu pai na roça também, né?
P/1 – Como é a convivência sua com seus irmãos?
R - Boa, tranquila.
P/1 – E no território, você trabalha com o quê?
R - No território, faço um pouco de cada, né. Tenho meus artesanatos, faço meu artesanato de várias coisas, colares, brincos, bichinhos de madeira, né. Faço parte de uma cooperativa, tupinikim guarani, que a gente tem um produto que é produzido aqui no território, que é o mel da Uruçu Amarela.
P/1 – E como é trabalhar nessa cooperativa?
R - É bom, porque a gente viu que já não existe mais na mata as abelhas nativas. Então, com isso, a gente viu que era uma boa oportunidade pra a gente entrar trazendo as espécies nativas pra o nosso território e uma fonte de renda também pra as famílias. Então, é muito importante.
P/1 – Você falou que não vê mais abelhas no território. Você vê uma diferença do território hoje para quando você era criança?
R - Sim. Antigamente, a gente via mais eucaliptos nesse território. Então, acho que agora estão mudando. A gente vê mais as matas. Esse projeto que está tendo nos territórios...
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Realização Instituto Museu da Pessoa,
Entrevista de Karai Dju (Josias Carvalho Marinho)
Entrevistado por Sofia Tapajós e Diwarian Pego
Aracruz, 20 de março de 2026
Código: DCC_HV008
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
R - Josias Carvalho Marinho, data de nascimento dia 8 de maio de 1985, município de Aracruz.
P/1 – E qual é o nome da sua comunidade?
R - Faço parte da comunidade guarani, né, aldeia Boa Esperança.
P/1 – Qual é o nome dos seus pais?
R - Meu pai é José Marinho, nome da mãe é Antônia Carvalho Marinho.
P/1 – Você tem irmãos?
R - Tenho.
P/1 – Você tem quantos irmãos?
R - Sete.
P/1 – Sete irmãos?
R - Sete.
P/1 – E os seus pais, eles trabalhavam com o quê?
R - Então, meu pai é pescador, agricultor, minha mãe é artesã, trabalha juntamente com meu pai na roça também, né?
P/1 – Como é a convivência sua com seus irmãos?
R - Boa, tranquila.
P/1 – E no território, você trabalha com o quê?
R - No território, faço um pouco de cada, né. Tenho meus artesanatos, faço meu artesanato de várias coisas, colares, brincos, bichinhos de madeira, né. Faço parte de uma cooperativa, tupinikim guarani, que a gente tem um produto que é produzido aqui no território, que é o mel da Uruçu Amarela.
P/1 – E como é trabalhar nessa cooperativa?
R - É bom, porque a gente viu que já não existe mais na mata as abelhas nativas. Então, com isso, a gente viu que era uma boa oportunidade pra a gente entrar trazendo as espécies nativas pra o nosso território e uma fonte de renda também pra as famílias. Então, é muito importante.
P/1 – Você falou que não vê mais abelhas no território. Você vê uma diferença do território hoje para quando você era criança?
R - Sim. Antigamente, a gente via mais eucaliptos nesse território. Então, acho que agora estão mudando. A gente vê mais as matas. Esse projeto que está tendo nos territórios também, de plantar as árvores, a gente se preocupa com isso dentro do nosso território. Então, é uma diferença grande que eu vejo.
P/2 – Você falou do seu pai, que era pescador. Tinha alguma técnica que ele usava? Como que ele pescava?
R - Então, meu pai... Antigamente, todo mundo sabe que a gente pescava de arco e flecha. Mas, até hoje, a gente tem algumas armadilhas que a gente faz, que é o jequiá, pra pegar os peixes. Mas a gente vê que a gente precisa do não indígena também, que já chegou muito perto das aldeias. Então, com isso, tem a rede, a tarrafa. Então, ele pescava muito de tarrafa.
P/2 – Como que era pescar de tarrafa?
R - Então, antigamente, ele ia muito de madrugada no rio Piraquê-Açu. Então, a gente sobreviveu com isso. Antigamente, as coisas eram mais difíceis. Então, ele sempre ia pra tirar o sustento pra a gente, criar os filhos. Então, foi tudo do rio Piraquê-Açu, que infelizmente, hoje, a gente já não pode mais pescar. É triste pra a gente.
P/2 – E o que ele plantava?
R - Então, na agricultura, a gente tem o nosso próprio milho guarani, que é o Avaxi Ete’i, que são sementes variadas, que é o milho colorido. Algumas pessoas falam que é o milho crioulo, mas, pra a gente, é o Awatxi ete'i. E aí, plantava feijão, aipim, pra o sustento, pra o consumo. Então, até hoje, algumas famílias têm ainda. A gente tem essas sementes ainda.
P/1 – E você pode falar um pouquinho da sua infância? Como que ela foi?
R - A minha infância foi boa de lembrar. Eu sempre falo que a nossa geração foi mais feliz, porque a gente vê, nesse mundo moderno que está vindo aí, a gente vê que, praticamente, a gente perdeu muita coisa. Então, sempre eu falo que, às vezes, a gente precisa voltar no nosso passado. Tem algumas pessoas que não gostam de falar que a gente tem que deixar o passado, mas eu sempre falo que sou ao contrário. Eu vou ter que ir no meu passado e trazer de volta as coisas que eu aprendi. Então, aprendi muita coisa com a minha avó. Eu perdi minha mãe quando eu tinha uns 10, 11 anos, mais ou menos. Ela faleceu. Então, eu fui criado com a minha avó, meu pai também. Então, acho que a infância era mais boa de se viver do que hoje. Então, acho que é isso.
P/1 – E como que era a sua avó?
R - Então, a minha avó, pra mim, era uma mãe, porque ela que dava conselho. Ela que era a líder espiritual daqui da nossa aldeia, da nossa Tekoá. Então, aprendi muita coisa com ela. Tanto que, através disso, a gente mantém até hoje a nossa espiritualidade, que a gente tenha a casa de reza, que toda tarde a gente se reúne pra estar pedindo, agradecer a Nhanderu Tupã por todas as coisas, pela saúde, pela vida, as crianças, os mais velhos, né? Então, a gente tem essa sabedoria através dela, que ela passou oralmente. A gente sempre fala que a gente guarda na memória, né? A gente não precisa escrever, anotar as coisas. A gente guarda na memória. Na nossa cultura guarani é sempre passado oralmente os ensinamentos. Então, eu acho que eu aprendi muita coisa com ela.
P/2 – Tem alguma história que ela te contava que você pode contar pra a gente?
R - Tem várias, né? Uma história não pode ser contada. Eu teria que fazer uma fogueira pra estar contando essa história, porque ela vai emendando as histórias. Então, com isso, talvez um dia a gente possa estar contando essa história, né?
P/1 – E essas histórias significam o que para você?
R - Então, essa é a nossa história do povo guarani, né? Então, a gente tem bastante história que é passada de geração em geração. Então, pra a gente, as histórias que até hoje ela vive no nosso modo de ser guarani. Então, é importante a gente passar pra os mais jovens, pra as crianças, essas histórias, apesar de que a tecnologia chegou muito forte nas aldeias também, né? Então, com isso, a gente se preocupa. E até hoje a gente passa essas histórias pra elas, pra que possam lembrar da nossa história também. Então, é muito importante.
P/1 – Você falou sobre as crianças, sobre a forma boa que foi a sua infância. Você tem alguma brincadeira que você poderia falar que você brincava quando era criança?
R - Então, a gente brincava muito de peteca, né? A minha avó falava que peteca é a brincadeira de Tupã, os filhos de Nhanderu Tupã, quando vem relâmpago, eles estão jogando peteca, né? Por isso que vem os raios. Então, com isso, a gente aprendeu essa brincadeira que é passada de geração em geração também.
P/1 – E essa peteca era feita dentro da comunidade?
R - Sim, a minha avó que fazia pra a gente brincar, né? A gente tinha uma rocinha de milho, então ela que fazia esse peteca.
P/1 – E você sabe como que fazia?
R - Lembro ainda.
P/1 – Você pode explicar como que fazia?
R - Então, a gente pegava, como é que se diz, o casco do milho, né? Não sei se é casco que se diz. Então, a gente dobrava ela, fazia um enchimento com toda a palha do milho e depois pegava as penas, porque a gente tem criação de galinha, né? Então, dá pra tirar as penas da asa pra colocar e depois amarrava pra a gente brincar. Então, era essa nossa brincadeira na infância, né?
P/2 – E com quem você brincava?
R - Então, com as crianças da aldeia mesmo, né? Os primos, os irmãos, as irmãs. Então, a gente era tudo unido. Então, eu sempre falo que antigamente era mais as brincadeiras, né? Talvez, a dificuldade que tinha, mas porém a gente era mais feliz nas brincadeiras. Então, acho que até hoje a gente lembra disso. É uma infância boa que a gente se recorda, né?
P/2 – Você nasceu nessa comunidade?
R - Sim, nasci aqui, né? Aqui, é onde eu nasci, cresci, estou até hoje, mais de 40 anos morando aqui, né?
P/1 – Você falou sobre a sua espiritualidade, seu contato com a comunidade. E como é a sua relação com o coral, que tem essa ligação com o território e a espiritualidade?
R - Então, a gente tem o coletivo, né, o grupo de jovens tem esse... Quando a gente é convidado, a gente participa pra apresentar o canto, a dança, né? E aí tem o coral da aldeia também, que é o coral menino. As aldeias guaranis sempre têm esses corais, que são apresentados as danças, o canto. Então, a gente não pode deixar essa espiritualidade, que é muito forte, que é viva até hoje. Então, com isso, a gente sempre canta na casa de reza. A gente tem alguns encontros pra estar fortalecendo o canto, a dança, a espiritualidade do meu povo guarani, né?
P/1 – E você participa do coral há quanto tempo?
R - Então, a gente formou o grupo dos jovens, acho que tem uns três anos, né, através da luta do Marco Temporal, a gente formou esse grupo. Mas o canto, a dança, vem desde criança. Mas com esse grupo, a gente cada vez mais fortalece a nossa cultura, né? Com esse canto, a dança, tem o xondaro, a xondária. Então, isso é importante pra a gente. Praticamente, desde criança, a gente tem esse hábito de cantar, dançar, tem a casa de reza, né?
P/1 – E você tem filhos?
R - Tenho.
P/1 – Você tem quantos filhos?
R - Tenho três filhos.
P/1 – E você passa esses ensinamentos para eles?
R - Sim. A gente sempre fala que a educação vem de casa, né, e também a comunidade. A gente respeita muito os mais velhos, que são eles que dão esse ensinamento pra a gente e pra os nossos filhos, né? Então, sempre a gente tem alguma roda de conversa com os mais velhos, pra estar pedindo pra que eles dão o conselho pra os nossos filhos. Mas acaba que a gente pega também no conhecimento deles, que é passado oralmente, né? Então, isso é importante. Sempre estou falando com eles também, passando esse ensinamento que minha avó passou, meus avós, né? Então, até hoje a gente tem esse costume de estar conversando. Quando a gente está na casa de reza, a gente conversa. Passa oralmente o ensinamento que os mais antigos passaram pra a gente, né?
P/1 – Então, a comunidade também educa as crianças?
R - Sim, praticamente. A gente é uma família. Ao contrário de... talvez que na cidade seja diferente, né? Na cidade acho que é só a família que tem esse papel de educar. Ao contrário, a gente tem, todas as mulheres de guarani, quando se tem uma criança recém-nascida, que vai ter que fazer um trabalho, ir pra a roça, ela deixa com essa pessoa pra que ela possa estar cuidando dessa criança, amamentar, né? Porque o povo guarani tem esse costume de amamentar, que não seja filho dela, mas que amamenta. Então, com isso, a educação é diferente. Então, a gente sempre fala que a nossa educação é diferenciada. Então, aqui é uma família, que cada mãe, cada pai deixa com uma pessoa que educa também. Não só os pais, mas como tudo, a comunidade toda, né?
P/1 – E a escola? Você já foi para a escola?
R - Antigamente, já tem muitos anos, eu frequentei, mas talvez que, eu olhando o passado, às vezes eu penso, por que eu não estudei, né? Mas, ao mesmo tempo, olhando essa mudança que está tendo, pra mim não fez falta, porque eu trouxe a minha sabedoria de Nhanderu. O saber milenar que a gente tem do povo guarani, isso é importante pra o povo guarani. Mas, sim, agora é importante os jovens estudarem, porque a gente vê que eles precisam do papel. Antigamente, para a gente, pra o povo guarani, o que a gente falasse já era válido. Mas pra o juruá, não indígena, é o papel que vale. Então, com isso, eles precisam ter esse estudo, esse conhecimento, mas igual a gente fala, o nosso diploma não precisa, o nosso diploma é invisível, né? Os médicos do nosso povo guarani não precisam ter o diploma, porque a gente sabe que ele é médico, porque ele faz a cura, ao contrário do juruá, o juruá precisa do diploma pra falar que é médico, que é enfermeiro, ao contrário do nosso povo guarani. Então, esse conhecimento vem de milhares de anos, que a gente mantém até hoje, o nosso saber milenar guarani. Então, é muito importante.
P/2 – E você tem alguma lembrança da escola, desse período que você foi?
R- Lembro, né, a gente sempre lembra. Eu aprendi um pouco a ler, fazer alguma matemática, assinar o meu nome, que a gente fala que o nosso nome foi inventado pelo não indígena, porque a gente tem o nosso nome verdadeiro. A gente recebe o nosso, a partir de um ano, dois anos, a gente recebe o nome espiritual. Então, cada criança que mora aqui no território tem o seu nome verdadeiro, que é o nome de batismo, né? Os meninos têm Werá, tem Karaí, Tupã, as meninas têm Djatxuka, Kerexu, Tera. Então, esses são os nossos nomes verdadeiros, né?
P/1 – E qual é o seu nome de batismo?
R - Meu nome verdadeiro é Karai Dju. Esse é o nome que eu recebi da minha bisavó, né? Então, até hoje, com esses nomes, a gente se fortalece espiritualmente, porque a gente não pode chamar o nome de juruá, né? Então, entre a gente, só falamos Karai Dju. Então, a gente usa esse nome verdadeiro.
P/1 – E com o que acontece esse ritual de batismo?
R: Então, todo ano, pra os juruá kwery, pra os não indígenas, o Ano Novo se inicia em janeiro, primeiro de janeiro, né? Pra a gente não, pra a gente se inicia em agosto, setembro, se inicia o Ara pyau, que é o Ano Novo do povo guarani, vai até janeiro. E lá, quando chega o Ara pyau, que a gente tem essa preparação da cerimônia do Nhemongarai, que a gente chama o batismo, né? Tem todo o ritual, tem todo o planejamento, como que vai ser. Aqui, a gente não tem ainda as pessoas que dão esse nome. Então, tem que trazer de São Paulo, do Paraguai, da Argentina, né? Esse [Uiráidyá?] que a gente chama, que são os pajé que dão esse nome. Talvez que a gente sempre fala que o não indígena entende o pajé, mas a gente não fala pajé, a gente fala [Uiráidyá?], que é aquele que recebe, através da espiritualidade, se comunica com o grande criador, né? Então, tem toda a preparação pra receber o nome. E leva de uma semana até três dias, esse batismo, porque tem alguns que, de imediato, recebem o nome, e alguns demoram. Então, com isso, tem toda essa preparação. Não é igual na igreja, vai lá, molha a cabeça e já está batizado. A gente tem esse totalmente diferente. Eu acho que cada etnia tem um modo de preparar o batismo, né?
P/1 – Existe algum motivo para algumas pessoas receberem o nome antes e outras demorarem mais?
R - Então, aí é o nosso espírito, que a gente sempre recebe o ensinamento, né? Quando uma família vai casar, já tem esse conhecimento, já tem esse acompanhamento das parteiras, dos parteiros, de como se comunicar com a criança. A gente sempre fala que veio nesse mundo emprestado, a gente não sabe o dia de amanhã. Algumas crianças vêm, mas elas não querem ficar nesse mundo, então elas voltam, né? Tanto que a gente fala que elas morrem, porque elas não querem viver nesse mundo, tanto que é uma loucura que a gente está vivendo esse mundo. Ela fica triste, então ela prefere voltar. Então ela volta. Tem algumas crianças que vêm, mas elas falam se meu pai e minha mãe me cuidarem bem, como eu quero, eu fico. Mas se não for, eu volto de novo. Então, com isso, a criança vem, mas, porém, ela fica triste, ela quer receber o nome, mas porém ela não está preparada ainda. Então, com isso, talvez que ela nem receba o nome no batismo, ela pode receber o nome só pra chamar ela, mas que não é o nome dela ainda, mas pra que ela fique, né? E aí, quem sabe no outro ano ela fale o nome dela, pra que ela viva nesse Yvyrupa, essa terra que é muita coisa que a gente vê de bom e muita coisa de ruim que a gente está vendo, né? Então, nossa espiritualidade é muito ligada à Nhanderu, aos rios, às matas. Então, se a gente for falar, a gente não acaba, porque é muita coisa pra contar, né?
P/2 – Você, por acaso, lembra do dia do seu batismo?
R - Eu lembro. Eu tinha uns oito, nove anos, mais ou menos, quando a minha bisavó era viva ainda. Ela tem toda uma história também. Ela caminhou durante 40 anos pra chegar aqui no estado do Espírito Santo. E ela foi uma líder espiritual, que trouxe o seu povo guarani. Ela nasceu em Paraguai, mas veio do Rio Grande do Sul, trazendo o seu povo, procurando a revelação de Nhanderu, onde ela poderia se estabelecer. Mas ela sempre falava que estava procurando a terra sem males, né? O povo guarani acredita que do outro lado do oceano existe uma terra sem males, onde a gente possa viver em paz, em harmonia, com amor, que não haja mais essa maldade que existe no mundo, né? E quando eu fui na casa de reza, que é Opy, a gente chama Opy, talvez pra vocês seria uma igreja, onde se faz, se agradece, pede a Nhanderu. Foi lá que eu recebi esse nome, porque ela sabia que eu estava precisando desse nome e também ela já não enxergava mais na época. Ela tinha problema de catarata, então ela perdeu a visão, né? E mesmo assim ela sabia quem chegava ali, os netos, os bisnetos. Então, falou: “Ah, é você que veio, meu neto. A partir de agora, seu nome é Karai Dju”. Então, com isso, eu levo pra a vida toda esse nome sagrado que a gente tem, esse nome verdadeiro, né? Então, eu lembro até hoje.
P/2 – E como você se sentiu quando você recebeu o nome?
R - Então, a gente se sente leve, se sente pertencente, não sei se é o seu espírito que se alegra com isso. Então, a gente precisa, cada ser humano que está aqui nessa terra, eu falo que está emprestado, algum dia todo mundo volta, né? Então, mas que a gente precisa desse nome. Talvez que cada povo tenha um modo de contar o nome verdadeiro. Talvez que vocês não indígenas devem ter também, mas só que vocês se esqueceram, né? Eu sempre falo que a cidade é muita coisa. Talvez que você precisa tirar um dia pra você, voltar pra você, voltar pra o seu corpo, porque o espírito já está, a gente fala que está perdido no mundo, né? Então, talvez que quando você voltar, você vai se sentir melhor, você vai respirar, você vai se encontrar com Nhanderu, com o criador. Então, acho que talvez que é esse o sentimento que a gente tem, mas depende de cada ser humano, como é que vai reagir, né? A gente sempre fala que todas as coisas, tem um porquê, tem essa conexão com a natureza. Esses colares que eu tenho, talvez que se a gente for olhar é só um colar, é só um enfeite, mas pra a gente é uma proteção. A gente chama de Ywaü'ï, essa semente, né? Não é miçanga, é uma semente que veio pra o povo guarani. Então, até hoje, a gente tem essa semente que não pode ser perdida, né? Igual às sementes que a gente planta, que faz parte da nossa cultura. Sem elas, a gente fica triste.
(ruídos externos)
P/1 – Voltando para cá, esse território aqui, esse espaço que você escolheu, qual a significância dele para você?
R - Então, é onde eu falei, agora há pouco, da nossa espiritualidade, né? A gente depende das matas. Aqui tem as lagoas. Quando eu estou meio que pensativo, meio triste, eu venho pra cá pra respirar, olhar a natureza, essa paz que a gente tem, né? Então, pra isso, eu sempre venho pra cá. Tem algumas mudinhas que eu plantei também, tem algumas árvores frutíferas, tem algumas bananas que eu plantei. Então, eu me sinto bem aqui. Talvez esse seja o lugar, o meu refúgio de pensar, de ficar bem comigo mesmo.
P/2 – Você tinha falado da sua bisavó. Eu ia pedir para você falar um pouco mais dela. Como que ela era, qual o nome dela?
R: Então, a minha bisavó, em guarani, o nome verdadeiro era Tatatxï ywa rete. Em português, Maria. A gente… (pausa). Ela passou muito conhecimento pra o povo, pra os netos, bisnetos, que é essa sabedoria que a gente tem até hoje de se comunicar com o grande criador espiritualmente, né? A gente, talvez que, de alguma maneira, o povo em geral, as etnias que existem no mundo esqueceram do grande criador, né? Mas que ela sempre passava pra a gente sempre estar conectado com Ele, pra que a gente consiga viver nesse mundo. Tanto que ela já tinha falado que iria vir muita coisa no conhecimento dela espiritualmente, Nhanderu já tinha revelado todas essas coisas que estão acontecendo nesse mundo, ela já tinha revelado, né? Que, de alguma maneira, a gente teria que se preparar, porque estava vindo muita coisa, algumas boas, algumas ruins, né? Então eu vejo o que está acontecendo, o que ela falou eu estou vendo. Então, pra a gente, ela é tudo. A gente sempre fala que o Espírito dela, onde o Grande criador ela voltou, mas, porém, o Espírito dela continua nos ouvindo, né? Se a gente conversar com ela, pedir a ela alguma sabedoria, algum caminho que ela possa iluminar pra a gente, a gente consegue. Então, esse foi o grande ensinamento que ela deixou pra o povo guarani. Se você perguntar pra as pessoas, pra os parentes que estão aqui, ela vive até hoje na memória do povo guarani, porque além de ser uma mulher, que foi uma líder, que a gente sempre fala que conheceu os parentes que existem aqui conseguiram essa luta que a gente sempre tem com as empresas. Que através da revelação de Nhanderu, a gente teve esse localzinho pra a gente fazer essa aldeia viver até hoje, né? Então, ela é uma história viva pra o conhecimento do povo guarani, onde a gente falar dela, alguns mais velhos vão lembrar dela, porque ela trouxe São Paulo, Rio de Janeiro pra lá, ela chegou onde ela ficou acampada um ano, dois anos, formou-se uma aldeia guarani, né? Então, depois disso, ela veio pra cá caminhando, através da revelação de Nhanderu Tupã. Então, até hoje o povo guarani vive aqui. A história começa dela, a gente sempre tem que lembrar desse ensinamento que ela deixou pra a gente, pra as novas gerações que estão vindo, né?
P/1 – Você falou que ela foi uma figura importante para vocês terem espaço aqui hoje. A sua avó participou da demarcação?
R - Então, no nosso conhecimento, no nosso saber da nossa história, sempre a gente fala que, pra você ser um povo, você tem que saber da sua história, né? A gente, ela veio, é uma história cumprida, porque daqui vai pra Minas, de Minas volta, né? Então, tem todo esse caminho que ela fez. Não porque ela quis, porque Nhanderu Tupã já tinha revelado que a aldeia seria aqui, nesse espaço onde a gente está, beira do mar, né? Sempre o povo guarani caminha ao lado do mar, que é a praia do Para rëbe, que a gente chama, porque a gente acredita que do outro lado do oceano existe uma terra sem males, né? Então, com isso ela trouxe o povo pra cá, mas, na época, existia o SPI [Serviço de Proteção do Índio], que é a Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas] agora, né? Pegaram o povo guarani e o povo tupiniquim e levaram pra Minas Gerais, pra que, não sei se era pra tomar o espaço, que antigamente já estava ocupado pelos não indígenas, tinha muito eucalipto. As empresas não queriam que ninguém entrasse, né? Na época, tinha muito eucalipto. Então, com isso, ela falou, pediu a Nhanderu a sabedoria, como é que seria, como é que seria essa luta, né? Então, através de revelação, ela falou que a gente poderia, os mais antigos poderiam entrar, porque já estava tudo preparado, que a demarcação iria acontecer. Ela rezou, pediu a Nhanderu como é que seria. Então, com isso, a primeira autodemarcação foi tranquila, né? Tanto que, até hoje, o povo tupiniquim, o guarani, tem esse espaço pra a gente viver até hoje. Mas que alguns jovens não sabem dessa história, dessa realidade que a gente conta, né? Talvez que se lembrassem, sempre eu falo que é uma história viva que a gente tem, não só pra o povo guarani, mas pra as duas etnias, tupiniquim e guarani, pra que a juventude lembre disso, como é que foi a luta, o que que nossos Txe ramoï, Txe djaryi kwery, né? Nossas lideranças o que fizeram pra a gente. Talvez que lembrar disso, de não deixar que a gente vê que a luta continua, a luta não vai parar, tanto que tem os parentes até hoje lutando na trilha do trem, porque sem luta, a gente não consegue nada. Isso foi um ensinamento dos mais velhos até hoje, que a gente tem que carregar pra a nova geração também, né? E essa luta, às vezes, a gente fica triste, mas a gente não pode desanimar, porque tem o nosso criador, que ele que fez esse mundo, pra que a gente possa viver. Mas que ele, com a sua sabedoria, já dividiu todos os povos, os juruá kwery, né? A gente vê que um fala inglês, outro espanhol, outro, né? Então, com tudo isso, Nhanderu colocou de uma forma que pra a gente viver bem, mas que o ser humano, com a ganância que a gente vê que esqueceram do ensinamento de Nhanderu. A gente fala que a gente tem essa sabedoria, que a gente é inteligente, mas, ao mesmo tempo, a gente esqueceu do ensinamento do nosso criador. Eu sempre falo que talvez os animais sejam mais inteligentes porque, até hoje, eles mantêm o modo de viver, de ver as coisas, os pássaros, até hoje. A gente vê que eles acordam pra cantar, se alimentar, cuidar dos filhos, né? Mas, quando chega a noite, eles já procuram a moitinha, as árvores pra dormir. Eles estão em silêncio, fazem silêncio, mas que a gente esqueceu disso. A gente também, pra o povo guarani, quando é à noite, a gente se recolhe. Você vai pra a casa de reza, pedir a Nhanderu a proteção ou você fica na sua casa, conversando, tomando seu chimarrão, fumando seu cachimbo, né? Mas que a gente esqueceu do ensinamento no mundo geral dos povos, em geral, não só dos povos indígenas, mas do mundo todo, acho que esqueceram do ensinamento. Por isso que, até hoje, existem essas guerras que a gente vê na TV. É triste, mas, infelizmente, a realidade é essa que a gente está vivendo.
P/1 – E você, já presenciou alguma disputa territorial, uma autodemarcação?
R - (risos) Já. Não vou saber contar a data exata, né? Na segunda, se eu não me engano, na segunda autodemarcação, a gente fez a retomada, que foi a Olho d’Água, a Areial. Então, nessa época, eu fui também morar na Olho d'Água, pra a gente ter um espaço onde a gente consiga viver em paz, é importante, né? Lá tinha uma nascente, que todo mundo usava lá, os parentes tupiniquim, não indígena ia lá também, porque a água é mineral. Então, esse espaço era bom pra a gente. Então, na época eu fui morar lá, mas que, infelizmente, quando eu fui morar lá, a empresa, não sei o que aconteceu, que mandaram a tropa de choque ir lá destruir as nossas casas, derrubou tudo, né? A cabana que era linda lá, que tinha no centro. Eu vivi essa.. A gente fica triste. Essas coisas que acontecem. A gente sabe que Nhanderu, o criador, deixou pra a gente essa mata, os rios, né? pra que a gente possa viver tranquilo, com harmonia com a natureza, mas que o ser humano é ganancioso. As matas que eles veem, eles veem como lucro, como dinheiro, mas pra a gente, a nossa riqueza é vê-la em pé, né? As águas limpas, porque nenhum dinheiro vai comprar quando a mata acabar, os rios secarem, e de onde eles vão sobreviver? Porque eles dependem também, né? Então, com isso, sempre a gente fala, onde tem povos indígenas, existe a natureza, os rios vivem até hoje. Isso é uma proteção que a gente passa, porque a gente tem esse respeito, mas que aconteceu isso comigo, né? Foi triste, porque alguns parentes Tupiniquim foram, de alguma forma, foram presos, outros levaram tiro de borracha, praticamente foi uma guerra. A gente vê a guerra que está tendo do outro lado do oceano, parecia uma guerra, porque corria pra lá, tentando, de alguma forma, se proteger. Então, isso, até hoje eu lembro também. Isso eu senti na pele o que é ser despejado da própria terra, do seu próprio, onde você nasceu, onde tem a nossa história. Então, a gente fica triste. Então, até hoje a gente vê que em Mato Grosso não existe os parentes guarani-kaiowá que sofrem até hoje, né? Vários povos em geral, mas que talvez que o ser humano precisa voltar pra si, pensar, refletir, o que o povo indígena está fazendo. Porque, sem as matas, não vai ter uma sobrevivência da humanidade. Porque meus filhos vão precisar da mata, dos rios, né? E não indígena também vai precisar, pra que ela possa viver, pra que ela conheça o que é mata, o que são os animais. Então, tudo isso pra a gente é importante, quando a gente fala, tem algumas que a gente lembra das coisas boas, mas tem muita coisa que é triste de a gente lembrar, mas que foi a realidade. Foi triste, na época quando a gente foi expulso da própria terra, né? A gente foi. É uma coisa horrível que a gente passou na época, da destruição da retomada das casas. Não sei se tem alguns documentários que falam sobre isso, da destruição que teve na Olho d'Água.
P/1 – Essa comunidade Olho d'Água, ela foi retomada? E como foi para vocês?
R - Então, ela foi retomada, mas eu mesmo fiquei com medo de voltar pra lá. Apesar de que as lideranças falaram que “Não, agora é tranquilo, você pode voltar”, mas talvez que, de alguma forma, deixou um trauma em mim, na época, pros os meus filhos. Tinha um que era pequeno. Então, talvez de alguma forma eu fiquei triste e ao mesmo tempo não fiquei preparado pra voltar, né? Mas que os meus parentes, algumas famílias voltaram, então até hoje essa aldeia agora está construída de novo, que são os parentes guarani. Então, eu fico feliz com isso.
P/2 – Josias, eu queria voltar um pouco para o coral. Quem que te ensinou a música guarani?
R - (risos) Então, as músicas que a gente tem do povo guarani, ela não é criada, não é escrever. Não é você falar: “Ah, não, vou ter que escrever uma letra”, fazer uma letra, né? Cada pessoa tem uma ligação espiritual, os xeramoi kwery, os líderes espirituais que existem no Opy. Através da revelação, ela recebe o canto, os cantos guarani. Com isso, a gente recebe esse canto espiritualmente. Ela é mostrada. A gente ouve o canto. A gente não escreve, a gente não, mas ela vem, né? Sempre eu falo que estou nesse caminho da espiritualidade, de me comunicar mesmo com Nhanderu. Então, os cantos já vêm de muitos, muitos anos que são passado, a gente não pode criar uma música, porque já tem aquela música que a gente vai levar pra a vida toda, que é passado de geração em geração. Mas se Nhanderu revelar pra você, aí você pode ter uma outra música, cantar com as crianças, uma dança. Mas se não for, a gente não pode inventar porque não tem como, a nossa espiritualidade é ligada ao canto, à dança, né? A gente tem um canto que não tem letra. É um som que a gente só pode na casa de reza, esse canto é diferente. Agora, tem esse coral que tem as letras, a gente pode traduzir, mas não tudo também, né? Tem alguns cantos das crianças, dos corais que sempre a gente apresenta tem como traduzir, mas alguns já não tem. Mas é voltado a tudo, à natureza, à nossa espiritualidade, aos nossos grandes líderes. A gente canta pra que a gente tenha essa força, pra que essa luta não pare, né? Então, a gente é ligado a Nhanderu mesmo. Essa espiritualidade que é bem forte, que ela vive até hoje, mais de anos, é importante a nossa espiritualidade, esse canto, né?
P/2 – Se você puder falar como você se sente quando você canta?
R - Eu sempre falo que a gente precisa dessa proteção, dessa força, que, quando a gente canta, não é você ali, não é essa pessoa que estou vendo aqui, né? Ela se transforma, porque ela está recebendo espiritualmente o canto, a dança, a força do grande criador. Então, é aí que você recebe toda a revelação de Nhanderu, do criador, como é que você tem que viver, o que você vai passar. Nem por isso, você tem que desanimar, pra os plantios, que a gente tem até hoje. As sementes, que é o Awatxi ete, o amendoim, as batatas, que tem várias variações de batata doce, que é do povo guarani. A gente fala que o canto, a natureza, o plantio, é ligado, é só um, né? A terra é ligado em todas, porque a força vem da natureza. A gente tem esse respeito. A gente tem que estar sempre preparado, pra que a gente receba esse canto, a espiritualidade. Você não pode entrar de qualquer maneira, a gente tem toda essa preparação. Então, cada um tem a sua forma de se comunicar desses cantos, mas que a gente sempre fala que o canto, talvez que ela não vai ter a letra, mas se realmente você se comunicar com o seu espírito, ela vai entender. E aí vai passar o que o canto, né? Ela fala o que significa. Então, você vai se emocionar. Você vai chorar. Você vai agradecer. Então, é isso. A gente fala que Nhanderu Tupã fala todas as línguas, né? Nosso espírito tem como se comunicar, mas que a gente não acredita nisso. Ah, ele é de uma outra etnia, né? Talvez que, acho que as únicas pessoas... Como é que se diz? São os espíritos que dá pra se comunicar um ao outro. Mas a gente, assim, a gente tem que falar o português, né? A gente tem que falar o nosso idioma pra que a gente possa se comunicar. Então, o canto é ligado a tudo, à espiritualidade. É uma força que a gente tem que ter diariamente, pra que a gente não... A gente precisa nesse dia a dia, que é uma loucura que a gente tá vivendo nesse mundo. Então, o canto traz leveza, a sabedoria, o caminhar que você vai ter que fazer, né? Então, é isso.
P/1 – E tem um canto específico que te faz bem, assim, que você se sente bem?
R - Tem vários, né?
P/1 – Mas você poderia cantar um? Que você normalmente vem aqui nesse espaço e canta?
R: Pode?
P/1 – Você quer pegar o...
R: Pode?
P/1 – Pode.
R - (entrevistado canta em guarani e toca um instrumento)
P/1 – Poderia falar um pouco sobre essa música?
R - Então, esse canto, falei um pouco da minha bisavó, da caminhada em busca da terra sem males, né? “Orema” significa nós. “Roota”, vamos. “Para rowai”, do outro lado do oceano. “Takwary porã” significa que tem uma bebida sagrada, que é onde quando a gente for conseguir alcançar do outro lado do oceano, da terra sem males, a gente consiga beber essa água sagrada, que significa takwary porã. A gente acredita que tem uma água sagrada que a gente possa estar bebendo, né?
P/1 – Como é a forma que vocês cantam essa música no coral?
R - De? [risos]
P/1 – É o formato que vocês se posicionam, como vocês cantam, se existe a dança. Você falou que no coral tem a dança.
R - Sim, sim. Então, geralmente nessa dança é em pé, todo mundo em pé, em fileira, né? Onde o sol vem, sempre a gente agradece aonde o sol vem, o Tupã é onde o sol se põe. Às vezes a gente pode fazer agradecimento, né? Se for preciso, a gente agradece oTupã, mas é sempre voltado aonde o nascer do sol, que a gente sempre agradece ao Nhamandu, que é o sol, né? Cada povo tem um ensinamento, tem um saber diferente, né? Tem algumas pessoas que falam que a lua é uma mulher, né? pra o povo guarani ela não é mulher. É homem, né? O sol é homem. A gente tem toda essa história, milenar do povo guarani. É aonde o sol vem trazer a luz pra o mundo, não só pra um povo, mas sim pra o mundo todo. Então a gente tem que agradecer, porque é ela que traz vida, pra que você levante, pra que você trabalhe, né? A noite, ela vem pra a gente descansar. Então, a gente procura a casa de reza pra estar agradecendo a Nhanderu, né? Então lá a gente agradece ao Nhamandu, o sol, pelo dia, pelo trabalho, talvez que isso que precise pra o mundo, de sempre lembrar, agradecer, né? Quando acorda, se deu certo, se não, continua agradecendo a Nhamandu, porque ele às vezes fala que, já ouvi muitas pessoas falando que “Ah, deixa, é minha vida, eu que mando na minha vida”, mas ele não manda. É o grande criador que manda, por isso que a gente fala que pra você morrer basta estar vivo, né? Quando o Nhanderu falar: “Não, agora você não respira mais”, aí ele te tira. Então, ele que manda, a gente não manda no nosso corpo. Então, a gente tem todo esse respeito, talvez que a gente não está vendo ele, o grande criador, mas a gente acredita, porque ele que fez o mundo, né? Todas as coisas que a gente vê nesse mundo, que se mexe, as formiguinhas, as folhas, a água, a terra, tudo, ele que fez. Então, com esse saber, a gente tem todo esse respeito com a natureza, com essa formiguinha. A gente pede licença ao entrar na mata, de cortar alguma árvore. Então, esse é o ensinamento milenar que a gente tem, que é passado de geração em geração. Então, tá vivo até hoje o ensinamento que os mais velhos passaram pra a gente, que é a nossa minha avó, minha bisavó, que é [Tatatin Guaretena?]. Então, com isso, até hoje, a gente leva esse legado pra Tenondé.
P/2 – Você falou também dos seus filhos, como você passa. O que você sente que mudou na sua vida quando você virou pai?
R - Então, quando a gente é mais jovem, a gente não tem uma visão de como seria formar uma família, né? Será que eu vou ser bom pai? Como é que eu vou educar? Mas que, graças a Deus, com esse ensinamento do meu pai, que meu pai até hoje ele é vivo, então, ele também foi ele que ensinou todas as coisas a caminhar nesse mundo, que a gente vê que as coisas, igual eu sempre falo, antigamente pra mim era mais feliz, porque a gente vivia bem com a natureza, os plantios, né? Mas que, agora, a nova geração que está vindo é difícil, eu vejo que é complicado se comunicar com os jovens, porque eu acho que ao longo desses anos também se perderam essa roda de conversa com os mais velhos, com os mais antigos, que sempre eles passam oralmente os ensinamentos. A gente, aqui no povo guarani, a partir de 13, 14 anos, a gente já considera um adulto, não é mais adolescente, não é mais uma criança, né? Então, ela já tem que ter a responsabilidade. A gente, desde adolescente, 15, 16 anos, já tem esse ensinamento, como é que quando você vai casar, formar uma família, o que você tem que fazer, né? Então, tudo isso foi passado pra a gente. Então, através disso, eu acho que eu fui um bom pai, acho que eduquei bem os meus filhos, tanto que até hoje eles já estudaram, já terminaram os estudos, agora só falta fazer a faculdade. Eu espero que eles façam a faculdade. Então, com isso, eu sempre falo o que aprendi com meu pai, com meu tio, a sabedoria que ele passou, como é que vai ser um pai, como é que tem que tratar a esposa, quando ele nasce, o que tem que fazer, o que não tem. A gente tem todo o ritual, quando a gente tem a esposa, quando tem um recém-nascido, tem todo o ritual que a gente tem que seguir, né? A gente não pode se alimentar de qualquer jeito. Se tiver o irmão, ela não pode comer qualquer tipo de carne. Então, a gente segue até hoje essas regras que a gente tem. Então, a gente passa pra eles, pra que, futuramente, quando eles formarem uma família, pra que sigam esse ensinamento que foi passado de geração em geração, né? Então, de alguma forma, a gente tenta passar as coisas da melhor forma possível, porque, vendo essa geração que está vindo, é complicado. Só Nhanderu Tupã mesmo, pra mudar o coração das pessoas, a cabeça deles, né? Mas que sempre eu peço a Nhanderu essa proteção, pra que não se perca nesse caminho que a gente vê, não só nos povos indígenas, mas no mundo todo, na cidade principalmente, né? Os jovens que a gente vê, muita coisa ruim acontece também, eles se envolvem, então isso é preocupante pra a gente, né? Então, a gente não esquece de estar passando esse ensinamento que é bom, que a gente pegou, que a gente tem. Então, a gente repassa pra eles, né? Acho que é isso.
P/1 – Você falou sobre que 13 anos já é considerado adulto. Existe um ritual para essa mudança?
R - Então, existe. Nem todos... Talvez que o pai e a mãe tá vendo que o adolescente é muito levado, que fala muito palavrão, que não escuta o pai e a mãe quando vai pra a escola, está respondão, então, o pai e a mãe, porque levam, onde é o Txe ramoï, que a gente chama o líder espiritual, comunica que ele está desobediente, né? Então, tá falando muito, falando coisas que não devem. Então, faz um ritual que é furado o beiço, que a gente chama de tëbekwa, que é o rito de passagem da adolescência pra adulto, mas que faz parte da nossa cultura, né? Isso daí é só pra quem é mais levado, mas você pode estar furando quando... Como é que se diz? Esqueci a palavra. Puberdade. Então, é aí que você está preparado pra receber o furo no beiço. Os bagunceiros que respondam, ficam de um mês a dois meses com o beiço inchado, né? Então, com isso, ele não pode falar, ouvir mais os conselhos dos mais velhos, da mãe, do pai. Então, seria uma forma de um castigo. Não que seria um castigo, mas é um modo de parar um pouco a boca, de não falar muita besteira, de ouvir mais o conselho, né? E aí, com isso, fica de dois, três meses. Então, ele aprende. É uma forma de educar. É uma educação do povo guarani, né?
P/1 – Isso daí é para os homens, né? Não para mulheres?
R - Isso. Pra as mulheres, existe, quando a menina tem a primeira menstruação, a mãe ou a avó leva pra a mais velha pra que ela dê conselho e também o que vai ser feito com ela, o ensinamento que vai ser passado pra ela. Então, os cabelos dela são todos cortados, ela fica careca, né? Antigamente, os mais velhos conseguiam fazer um tymã kwaa, do cabelo, uma trança que os homens usariam, né? Pode ser o pai da família ou o cacique, que usava tymã kwaa, feito do cabelo da menina, né? Então, ela fica de um mês a dois meses ali, de resguardo. Ela não pode sair, não pode falar. Então, ali é feito um tipo... não sei como seria. Uma cama alto, porque ela não pode ter contato com o chão, né? Então, é acompanhado pela mais velha, que é passado o ensinamento pra ela. Todos os dias ela está ali pra levar uma taquara pra ela fazer uma cestinha, uma imbira pra tecer, um [tambião?], uma saia pra fazer pra ela. Então, ela está ali todo dia, de alguma forma, fazendo seu trabalho, pra que quando ela sai do resguardo, ela já, de alguma forma, aprendeu alguma coisa, né, pra ser uma responsável. Porque já dali, não é mais adolescente. Ela tem que ter... A gente já não vai ver mais ela como uma menina. Já é uma mulher, um homem. Então, tem que todo o tempo ter esse respeito, né?
P/2 – Para você, o que é indispensável transmitir para os seus filhos e para os mais jovens?
R - Indispensável é não esquecer da nossa cultura, da nossa história, que a gente sempre fortalece os jovens principalmente, né? Às vezes, a gente tem os encontros dos jovens, que a gente chama os xamãs de _____, que são os mais velhos, que ela tem, a gente fala que é o nosso dicionário vivo do povo guarani, né? Então, quando a gente tem alguma dúvida, as mais velhas aqui são os nossos psicólogos da aldeia. A gente sempre fala que a gente não pode esquecer isso, de procurar coisas mais velhas, né? Sempre eu falo isso pra eles, porque eu aprendi muito com os mais velhos. O ensinamento que eu sei, que eu levo, que carrego até hoje, veio da minha bisavó, dos meus tios, das lideranças, mas que cada dia é um aprendizado, né? Todas as coisas que acontecem no dia a dia, esse dia exemplo já é um aprendizado que a gente vai guardar pra a gente, vai levar pra a vida toda, né? Então, a gente sempre fala que o principal é não esquecer do nosso grande criador, porque ele que vai dar sabedoria, porque sem ele a gente não tem o rumo certo, porque esse mundo é um mundo de ilusão, né? Então, você pode se iludir com qualquer coisa. Então, pra não se perder, a primeira coisa é se comunicar com o grande criador, que faz parte da nossa vida. Então, não esquecer disso. Então, eu sempre estou falando isso pra eles, né? Não só pra eles, mas pra os jovens também, que eu faço parte desse coletivo, do grupo de jovens. Então, a gente está sempre repassando isso pra eles também.
P/2 – E como surgiu esse coletivo?
R - Então, esse coletivo, a partir da luta que a gente ia ter sobre o Marco Temporal, com isso, a grande preocupação que alguns jovens tiveram de estar trazendo esse coletivo, de montar o coletivo, mas que já existia, né? Talvez que é uma forma de falar pra as pessoas que existe. Mas que a gente, no dia a dia, a gente sempre está conversando, falando o que está vindo, mas que a gente, a nossa preocupação é que os grandes líderes, os mais velhos, já estão cansados, né? Eles precisam descansar também. A luta não foi fácil pra eles. Então, com isso, veio essa preocupação de saber o que é essa luta que eles sempre repassam pra a gente. A luta, pra os povos indígenas em geral, a luta nunca foi fácil, né? As coisas que a gente tem que conquistar, nunca foi de uma pessoa chegar lá e falar “Não, esse daqui é seu”. A gente tem que lutar. Quando a gente vai pra a BR, a gente é chamado de vários nomes, de vagabundo, índio preguiçoso, mas que, na realidade, eles não sabem o que a gente está lá, né? É pela nossa geração, pelas crianças que estão vindo, de mostrar como é que a gente vai ter que lutar. Como é que a gente vai ter que lidar com esse mundo que está vindo, porque, infelizmente, a gente fala que não foi a gente que invadiu o Brasil. A gente já estava aqui, né? Quem foram os invasores vieram do Portugal. A gente chama de [Iowai?], vieram de lá, né? Mas que a gente não tem esse descanso, igual um deputado falou: “Vocês não vão ter descanso. Vocês vão ter que lutar pra a vida toda”. Talvez que é por isso que é importante a gente se apegar ao grande criador, porque ele, por mais que venham esses sofrimentos, mas que a gente está preparado espiritualmente, né? O escanto que a gente tem, isso fortalece espiritualmente as crianças, os idosos. Então, pra que venha essa sabedoria do grande criador, que essa luta não é fácil. Então, com isso, a gente formou esse grupo, [Urentian Khan?], com jovens, de estar discutindo a questão dos juruá kwery lá fora, de direitos, né? Praticamente, a gente não entende muito bem, porque é complicado o modo dos deputados, senadores, presidentes, de falar uma fala que é difícil. Então, com isso, de alguma forma, a gente está tentando falar pra os jovens que a luta não vai ser fácil, pra que eles estejam preparados, porque senão a gente, de alguma forma, fica triste, né? Os mais velhos estão indo embora. Então, eles ficarem nesse espaço de levar essa luta à frente, de entender os nossos direitos, de alguma forma, de se fortalecer mesmo, cada vez mais, o grupo.
P/1 – E você falou sobre os xingamentos que recebe na BR. O preparo dos jovens para lidar com as questões lá fora. Como você enxerga a relação da população de Aracruz em relação ao povo guarani?
R - Então, o preconceito, infelizmente, existe, né? Não sei se faz parte do ser humano, mas eu acredito que talvez não existiria, se você realmente se apegasse ao grande criador. Talvez você teria esse respeito com os povos indígenas né? Tanto eles também. Talvez essa pessoa não tenha esse respeito nem com o próprio parente deles, né? Talvez com isso ele acabe falando essas palavras que são feias pra a gente. A gente sempre fala que a gente... A minha avó falava: “Não aprende a falar essas coisas”. Uma palavra feia não faz parte do nosso dia a dia, né? Então, eu sempre falo isso também pra as crianças, de pensar muito bem antes de falar essas coisas. Que, às vezes, uma palavra machuca mais do que uma pessoa ir lá e te espancar, te bater. Talvez que uma palavra você leva pra o seu coração e fica lá guardado, né? Dói mais do que... Então, com isso a gente sempre fala. Mas por isso que é importante a gente estar preparado, porque as lutas sempre foram assim. Várias lideranças morreram por causa das nossas terras, mas até hoje está indo dessa forma. Então, a gente tem que estar preparado mesmo, né? A gente sempre fala que essas pessoas, pra falar uma coisa de você, porque você é indígena, ela tem que te conhecer, né? Tem que ir na sua casa, conversar com você, o porquê desse movimento que você está fazendo. Talvez as pessoas pensem que “Ah, por que não vai lá em Brasília? Ah, por que não vai lá em Vitória, onde os deputados existem?”, mas que eles não entendem isso, né? Só a gente mesmo, o que está passando ali, que vai entender. Então, talvez que essas pessoas que criticam a nossa luta de falar mal dos povos indígenas, talvez que ela teria que vir na aldeia, conhecer qual é a realidade, o porquê, né? Talvez que nem ele saiba a lei que existe no Brasil. Então, talvez que ele teria que estudar isso também, pra que tenha esse conhecimento das leis que existem no Brasil.
P/1 – E você falou anteriormente sobre o seu pai ser pescador E que não se pode mais utilizar o rio. Por que isso?
R - Então, antigamente, até eu mesmo ia pescar nas pedras ali na praia, mas a gente sabe que a mineradora, a Samarco, a gente viu que, infelizmente, a gente viu o que aconteceu, né? A barragem estourou e matou várias pessoas, o rio, que está morto até hoje. Então, não tem mais os peixes nesse rio, como é que a gente vai estar pescando? As pessoas falam que pode pescar, mas, porém, a gente não tem esse... Como é que eu vou dizer? Essa confiança de estar indo pescar, porque a gente sabe que ela foi contaminada com minério, né? Então, praticamente pra o povo tupiniquim guarani, não só matou o rio, mas afetou a nossa espiritualidade também, como povo, porque a gente tem esse respeito, a gente respeita até hoje, né? Quando a gente olha pra lá, a gente fica triste, porque a gente não pode pescar, tirar o caranguejo, tirar o marisco, né? Tem algumas famílias, alguns guaranis que consomem também e é mais os parentes tupiniquim que o caranguejo, o marisco, né? Mas que até hoje a gente fica triste. Os dois povos ficam tristes com essa realidade. Então, a gente fica realmente triste. Até hoje a gente fala pra os nossos filhos que a gente não pode pescar, a gente não pode comer os peixes, os mariscos, porque o rio está morto, né? Talvez que pra os juruá kwery, não indígenas, a praia, o rio está lá, o peixe está lá, mas, porém, pra a gente, a gente não tem mais essa confiança. Porque a gente vê que o peixe também, às vezes, aparece morto. As tartarugas, a gente vê muito isso, né? Então, essa é uma realidade triste. Todas as coisas que acontecem nesse mundo, nessa terra, não foi Nhanderu que fez essas barragens, né? Não foi Nhanderu que falou: “Não, você vai lá e faz isso, mata o rio, mata as matas, destrói os rios”, né? Então, a gente é muito ligado a isso. Então, a gente fica triste. Quando lembra, eles choram de lembrar como foi antigamente e realidade de agora. Então, é triste, né?
P/2 – E como é seu dia a dia hoje?
R - Meu dia a dia é ficar em casa, cuidar das abelhas, que ficam perto da minha casa. Fazer meu artesanato, né? A gente sempre fala que é a nossa terapia, quando se fala de um artesanato também. Tem algumas pessoas que falam: “Nossa, tá caro esse artesanato”, mas ela não vê como é que a gente fazendo. É uma terapia. Como é que se diz? As sementes que são coletadas, as matas. A gente tem tudo de como fazer, quantos dias que leva. Então, tudo isso faz parte da nossa espiritualidade, né? Não é um artesanato qualquer. Tem uma proteção ali. A gente faz com tanto amor, com tanto carinho. Então, por isso que a gente fala que tem que dar valor, porque não foi uma máquina que fez, né? Se fosse uma máquina, acho que poderia vender um real, dois reais, porque foi a máquina que fez, mas a gente é feito na mão, tudo na mão, né? Com a faquinha, vai entalhando os bichinhos de madeira. Faz a corujinha, a oncinha. Então, é isso.
P/2 – Com quem você aprendeu a fazer isso?
R - Os bichinhos de madeira eu aprendi com o meu tio, né? Na época, eu tinha uns 10, nove anos. Ele estava cortando a madeira pra fazer, mas não entendia o que ele estava fazendo. Pra mim, ele estava brincando com a madeira, mas depois eu vi que ele estava formando um animalzinho ali, né? Foi aí que eu entendi que era uma arte que estava fazendo. Então, esse é um ensinamento que já veio de geração em geração, que ela não pode ser perdida. Porque a gente vê que a natureza já não oferece mais esses animais, que a gente vê que tem algumas espécies que já foram extintas, né? Então, com isso, a gente faz a oncinha, o tamanduá, a anta, a queixada, a tartarugazinha, o peixe, né? Então, com isso, quem sabe, não sei como vai ser daqui mais uns anos. Será que vão existir os animais ainda? E talvez que só nas madeiras, na minha miniatura, no artesanato que você vai conhecer: “Não, esse daqui existia”, igual os dinossauros. A gente foi extinto. Quem sabe, daqui mais uns anos, as crianças só vão conhecer o artesanato de madeira, os bichinhos de madeira, né? Falar o nome de cada bichinho. Talvez por isso que é importante. Eu aprendi com ele e vários artesanatos que são passados de mãe. Meu pai e minha mãe são artesãos até hoje. Minha mãe já é falecida, mas ela fazia muito também. Vendia ali na praia, Santa Cruz, Aracruz. Então, com isso, ela deixou esse ensinamento pra gente, que todos os filhos fazem o artesanato, brinco, colares, chocalho. Então, até hoje, ela vive o nosso artesanato, né?
P/2 – E quais seus sonhos para o futuro?
R - Meu sonho, talvez, é viver em paz. É difícil, mas, ao mesmo tempo, a esperança que a gente tem é isso, né? Futuramente, viver em harmonia. Não ter essa luta que, até hoje, a gente tem. Essa luta que, infelizmente, não foi a gente que começou, mas que é preciso, porque a gente sente essa luta que os parentes têm. A gente fala que, pra Mato Grosso, eles têm mais esse conflito com os fazendeiros. A gente sofre quando vê uma notícia que um parente guarani-kaiowá foi morto, foi decapitado por fazendeiros, pistoleiros. A gente fica triste. O nosso espírito fica triste, né? Então, com isso, eu peço, eu tenho esse pensamento que, daqui a mais uns anos, quem sabe a gente consiga viver nessa harmonia, de não ter mais essa briga por terras. Eu sempre falo que não é briga por essa terra aqui, mas sim pela natureza que a gente preserva muito, as água, né? Tanto que, rico, pobre, indígena, negro, vai pra um só lugar, que é debaixo da terra. Ele não vai levar aquela terra que ele comprou, aquela terra que ele tem. Ele só vai levar um pedacinho quando ele estiver ali no caixão. Então, às vezes eu fico triste. Por que essa briga por terra? Nhanderu deixou o mundo. No começo era bom de se viver junto com a natureza, com os rios, mas a ganância do ser humano acaba destruindo a natureza, os rios, né? E aí, a natureza está gritando por socorro, está gritando de alguma forma. Ela está mostrando a força que ela tem, né? A chuva inunda os barrancos que deslizam, porque ela está procurando o caminho dela, onde tinha uma nascente, onde tinha um córrego. A gente vê que a cidade colocou o concreto em cima da terra, porque a terra precisa respirar também, né? Ela está querendo respirar. Com isso, ela sabe o caminho dela. Por isso que tem alguma cidade que inunda tudo, porque ela sabe que o lugar dela é ali, mas que de alguma forma o ser humano foi lá e destruiu. A pedra que existe tem dono. Uma árvore tem espírito. Pra cortar uma árvore, a gente tem que pedir licença. As pedras a mesma coisa, né? Se a gente for trocar ela de lugar, a gente tem que pedir licença. Porque tem o espírito ali que está cuidando dela, né? Então, pra que de alguma forma o ser humano, talvez que se aprender isso, daqui a mais uns anos ele vai saber viver nesse mundo, com respeito à natureza, né? Os netos, os filhos vão saber que foi seu pai. Ele aprendeu com a natureza. Ele está respeitando a natureza. E aí, talvez que acabe o sofrimento. A gente sempre fala que às vezes vem um grande vento, um grande vendaval, mas que a gente não é atingido. Por que será? Porque a gente está protegendo a natureza, e a natureza sabe disso. Então, ela dá a volta, né? Sempre falo que, quando um vento forte vem daqui, ela sempre vai por lá, dá a volta, mas a cidade, ela destrói, né? Mas a gente está aqui. Pode a gente estar fazendo uma casinha aqui debaixo de uma árvore, ela vai cair, mas pra lá. Não é na nossa casa. Então, a natureza tem todo esse respeito com o ser humano. Então, a gente tem que dar o respeito a elas também. Então, é importante falar, porque a gente é ligado à natureza, todo ser vivo depende da natureza, porque sem as matas, a gente não vai ter ar pra respirar, né? A gente precisa de uma sombra pra descansar. Dá água pra a gente viver. Os animais, os peixes. Então, com isso, eu sempre falo isso. Às vezes, a gente fica triste de pensar. Será que futuramente as coisas vão melhorar ou vai piorar? Mas tem que estar preparado. Se vir uma coisa boa, vai ser bom, mas se não for também, você tem que estar preparado, né? Então, com isso, a gente sempre está se comunicando com o grande espírito. O grande criador que é o Tupã, porque ele sabe de todas as coisas, né? A gente tem essa revelação dele, dos xeramoi, os grandes líderes que falam. Agora, vocês não podem sair pra a cidade. Vocês não podem fazer isso, porque está vindo uma coisa de ruim. Então, a gente tem que escutar, né? É igual à covid. A Covid veio. A gente não viu bastante parentes: “Ah, os indígenas morreram quase todos”. A gente viu a cidade. Por que será? Então, eu sempre falo que Nhanderu sabe de todas as coisas, né? Então, se vir uma doença, Nhanderu vai saber. “Não, aqui não. Aqui são os meus filhos. Aqui, você não vai mexer”. Por isso que a gente tem que sempre lembrar do criador, porque ele que dá a vida, né? Ele pode tirar a sua vida e pode devolver a sua vida também. Então, com isso, eu sempre falo que quando eu vou sair, eu pego o meu cachimbo, eu pego o meu maracá pra se comunicar. Será que eu vou? Será que não? Então, pra fazer uma visita, eu tenho que me comunicar aonde eu vou, né? O caminho que eu vou seguir, eu falo com Nhanderu pra ter essa proteção, porque nesse mundo que a gente vive hoje, a gente vê que existe muita coisa de ruim. O que a gente vê e o que a gente não vê também. Então, é uma proteção que a gente faz no dia a dia.
P/2 – Qual que é o seu legado?
R - O legado seria o quê? Não entendi.
P/1 - O seu destino.
R: O legado talvez que, essas falas que eu tenho, que eu aprendi com a minha vó, bisavó, o ensinamento que a gente guarda na memória, que ela vive até hoje, né? Então, eu acho que talvez é isso que eu vou deixar, né? Esse meu legado de se comunicar com as pessoas, com os jovens. De alguma forma, eu estou... Eu sempre falo que vou ter que fazer alguma coisa de boa pra a minha comunidade, pra os jovens, pra que futuramente, quando o Nhanderu me levar, eu fale: “Não, o xeramoi Josias fez alguma coisa. Ele falava disso”. Então, talvez que, eu sempre falo que eu, a gente, o povo guarani, como é que se diz? O juruá fala que é povo nômade, que não para em lugar nenhum. Eu já morei em Três Palmeiras, Olho d'Água, depois fui pra Reserva. Mas que eu sempre plantava as coisinhas, árvores frutíferas. E aí, as pessoas falam: “Ué, você plantou aí, você vai deixar tudo?”. Eu falo: “Não, deixa aí. Um dia, meus netos, meus parentes vão lembrar. ‘Meu avô Josias plantou esse daí. Estou comendo, colhendo’”. Então, isso que importa, né? É uma coisa boa que você deixou, uma lembrança que você deixa. Então, eu sempre falo que eu quero... Ao longo desses três anos que eu estou à frente dessa juventude, de alguma forma, eu estou passando oralmente esse ensinamento que eu aprendi com os mais velhos, né? E também, a gente fala que, em Nhanderu, eu sou apenas um ser humano, como qualquer pessoa, mas que a gente tem esse dom de estar conversando, de dar conselho. Porque se você não tivesse, você não vai falar nada. Você não vai ter essa sabedoria de como falar de Nhanderu, da criação que ele fez, né? Então, eu sempre falo que cada um tem esse ensinamento que Nhanderu deixou pra gente, pra cada pessoa.
P/1 – Você falou sobre o cachimbo, qual é a importância?
R - O cachimbo, a gente usa na casa de reza, que é a igreja, né? Toda tarde a gente se reúne. Quando uma pessoa está doente espiritualmente, fisicamente, o curandeiro faz a cura com esse cachimbo, que através da fumaça ele faz a cura. Na verdade, é o grande criador que faz a cura. Ele é um instrumento, que seria um médico aqui na terra, né? Ele cura, mas, porém, quando não é pra ele, ele manda pra cidade, que vai ser um doutor, um médico de fora que vai fazer essa cura, né? Então, a gente tem todo esse conhecimento do ser humano. Por isso que a gente fala que os nossos curandeiros não precisam ter o diploma pra falar que ele é médico. A gente sabe, a gente conhece. Então, ele é um médico da nossa aldeia, né? Ele que faz os remédios tradicionais que a gente tem nas matas, as medicinas que ele ensina pra gente. Então, é importante estar conectado com esse conhecimento, com a natureza. A natureza dá tudo. Ela que dá a vida pra gente, né? Se você for pensar, analisar mesmo, a terra a gente precisa pra plantar, as grandes empresas dependem da água, os grandes que plantam soja, que tem gado, precisa da terra pro capim crescer pra que tenha o alimento, né? Mas, infelizmente, ele esquece que, se ele destruir a mata, a água, até os animais, até ele vai sofrer as consequências, né? Então, a gente sempre fala, os povos indígenas são ligados à natureza, à Nhanderu Tupã. A gente sempre fala que a luta não vai parar, a luta continua, até a última gota do sangue de um parente, a gente continua. Às vezes, é triste lembrar, falar, porque a realidade é essa, mas que faz parte, mas que é preciso falar, de alguma forma, pra que a sociedade entenda o porquê que a gente está nessa luta, né? E, talvez, se essa fala for pra os juruá kwery, pra que eles, de alguma forma, pensem, que escutem a fala, pra que essa fala não é só pra mim, mas sim pra humanidade, de repensar como viver nesse mundo, que a gente precisa de paz, de amor, da natureza, né? Então, é isso.
R/2 – Tem mais alguma coisa que gostaria de falar?
R - Respeito, respeito a todos os povos desse mundo, né? Acho que o respeito acima de tudo, o respeito leva o amor a Nhanderu. O respeito, o amor, que ele leva. Igual falei no começo, talvez que o ser humano precisa voltar, porque ele está perdido nesse mundo. O espírito dele está pairando. Ele precisa voltar pra se entender, pra se encontrar com o grande criador, né? Então, é isso que falta pra humanidade. E aí, quando a humanidade tiver uma só voz, aí sim as coisas vão melhorar, né? A espiritualidade vai se entender, a força vai vir. Então, a gente, o povo indígena, a gente precisa disso, de alguma forma, quando tiver uma só fala, um só canto, aí que as coisas vão melhorar, né? Então, é isso.
R/2 – Tem mais alguma música que você queira tocar?
R - (entrevistado canta em guarani e toca um instrumento) Esse é um canto que fala [Peme?] Nhanderu. A gente vê que tem muitas pessoas que pegaram nossas terras, né? Então, a gente está pedindo pra que devolvam, pra que a gente possa viver em paz, em harmonia, pra que a gente não tenha essa briga com eles, né? Então, a gente só precisa de paz, do respeito, viver em harmonia, que é isso que o mundo precisa, né?
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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