Sobre mim, publicado no livro: Anos 80 pé na estrada: um respiro de liberdade.
Nasci na cidade de São Paulo, na zona norte, em 1957. Minha família era bem conhecida na região — meus avós foram professores com “P” maiúsculo, como eles mesmos diziam. Após falecerem, foram homenageados com nomes de ruas no bairro onde morávamos.
Meu tio mais velho, irmão da minha mãe, era médico, praticamente o único da região, e se casou com a irmã de um ex-governador de São Paulo, o que trouxe ainda mais notoriedade para nossa família.
Inicialmente, meu pai não foi muito bem acolhido pela família da minha mãe, que também era professora. Ele era um simples contador de origem muito humilde, com pele bem morena, o que para meu avô era motivo suficiente para reprovar o pretendente. Mas minha mãe se apaixonou perdidamente por ele e enfrentou a desaprovação do pai. O romance seguiu para o “casório”. Para que a cerimônia fosse bonita, mesmo sem apoio dos pais, ela vendeu seu adorado piano para comprar os ingredientes dos doces e salgados que mesma preparou, e ainda comprou uma belíssima seda para fazer o vestido de noiva com a costureira mais talentosa do bairro.
Muitas águas se passaram. Com a ajuda financeira da minha avó e da minha mãe, meu pai fez o curso de Direito e conseguiu um emprego melhor.
Uma Filha do Amor e dos Boleros
Meus pais desejavam ter somente três filhos. Já tinham dois meninos e uma menina linda de cachinhos negros. Mas, após uma briga feia entre eles, meu pai chegou em casa com flores, champagne e um disco de boleros debaixo do braço para fazer as pazes. E assim, eu fui gerada.
Pelas fotos iniciais de bebê, eu era bem feinha — sobrancelhas negras, gigantes, quase unidas, e cabelos espetados. Mais tarde, esses foram substituídos por uma linda cabeleira loira que me acompanhou até os seis anos, ano em que nasceu meu irmão caçula, no início dos anos 1960.
Com a casa pequena e os gastos aumentando, nos...
Continuar leituraSobre mim, publicado no livro: Anos 80 pé na estrada: um respiro de liberdade.
Nasci na cidade de São Paulo, na zona norte, em 1957. Minha família era bem conhecida na região — meus avós foram professores com “P” maiúsculo, como eles mesmos diziam. Após falecerem, foram homenageados com nomes de ruas no bairro onde morávamos.
Meu tio mais velho, irmão da minha mãe, era médico, praticamente o único da região, e se casou com a irmã de um ex-governador de São Paulo, o que trouxe ainda mais notoriedade para nossa família.
Inicialmente, meu pai não foi muito bem acolhido pela família da minha mãe, que também era professora. Ele era um simples contador de origem muito humilde, com pele bem morena, o que para meu avô era motivo suficiente para reprovar o pretendente. Mas minha mãe se apaixonou perdidamente por ele e enfrentou a desaprovação do pai. O romance seguiu para o “casório”. Para que a cerimônia fosse bonita, mesmo sem apoio dos pais, ela vendeu seu adorado piano para comprar os ingredientes dos doces e salgados que mesma preparou, e ainda comprou uma belíssima seda para fazer o vestido de noiva com a costureira mais talentosa do bairro.
Muitas águas se passaram. Com a ajuda financeira da minha avó e da minha mãe, meu pai fez o curso de Direito e conseguiu um emprego melhor.
Uma Filha do Amor e dos Boleros
Meus pais desejavam ter somente três filhos. Já tinham dois meninos e uma menina linda de cachinhos negros. Mas, após uma briga feia entre eles, meu pai chegou em casa com flores, champagne e um disco de boleros debaixo do braço para fazer as pazes. E assim, eu fui gerada.
Pelas fotos iniciais de bebê, eu era bem feinha — sobrancelhas negras, gigantes, quase unidas, e cabelos espetados. Mais tarde, esses foram substituídos por uma linda cabeleira loira que me acompanhou até os seis anos, ano em que nasceu meu irmão caçula, no início dos anos 1960.
Com a casa pequena e os gastos aumentando, nos mudamos para uma casa maior — uma construção antiga, provavelmente dos anos 40, com um grande corredor e um quintal generoso. Meus pais adoravam socializar e fizeram muitas festas memoráveis ali, como casamentos e jantares para membros da igreja. A mais aguardada, porém, era a festa de junho, quando eu e minha irmã fazíamos aniversário. Nossas festas juninas eram animadas, e um mês antes já começávamos os preparativos: cortávamos bandeirinhas, fazíamos balões coloridos para enfeitar a casa e ensaiávamos a quadrilha. Além disso, fazíamos muitos doces típicos, churrasco, fogueira e competições organizadas pela minha mãe, como corrida de saco e corrida com ovo na colher. No dia da festa, tinha apresentação de sanfoneiro, show de mágica, e para o deleite dos adultos, meu pai providenciava um barril de chopp. Este era o preferido dos padres beneditinos do Colégio São Bento, onde meu irmão estudava. Eles eram os primeiros a chegar e os últimos a sair, sempre com suas canecas, sentados ao lado do barril.
A Menina que Desenhava Histórias
Mesmo com a casa agitada e cheia de gente, cresci como uma menina muito tímida, mas com forte vocação para as artes. Era comum, antes mesmo de ser alfabetizada, desenhar o que queria contar em formato de história em quadrinhos. Criava roupas para que minha mãe pudesse costurar; fazia cartazes para a escola onde minha mãe lecionava, e capas de trabalhos para meus irmãos.
Nossa casa era muito musical, cheia de problemas, mas também de muita alegria. Meus irmãos mais velhos tinham seus “conjuntos” (nome dado aos grupos musicais na época), e minha irmã e eu cantávamos. Ainda pequena, tentei aprender a tocar violão, um dos meus sonhos, mas meus irmãos monopolizavam o instrumento comprado pelo meu pai e raramente me deixavam tocar. Meu pai até providenciou um professor particular para nós: seu barbeiro, que passava horas tocando no salão quando não havia clientes. Mas ele só vinha após fechar a barbearia, e nós o aguardávamos sentadas em fila organizada por idade. Como eu era a última, ele já estava sem paciência e com muito sono, e minha única lição foi o clássico “Terezinha de Jesus”, uma música que eu odiava.
Sonhos de Ponta dos Pés
Outra grande paixão minha era o balé. Colocava um disco de músicas clássicas que minha mãe tinha na vitrola, com diversas peças tradicionais de balé, cuja capa trazia a linda foto de uma bailarina vestida com saia “tutu”, equilibrando-se na ponta dos pés. Com essa imagem na cabeça, eu saía pulando pelo corredor, imaginando um teatro lindo, cheio de gente me vendo dançar e rodopiar. O máximo que consegui nessa época foi uma ida ao Teatro Municipal com meu pai, numa manhã de domingo, para assistir à gravação de um programa de dança transmitido pela antiga TVE Brasil, canal dois, que eu não perdia por nada. Esse passeio quase foi frustrado porque meu pai não estava adequadamente vestido para entrar no teatro, sem paletó nem gravata. Fomos salvos por um segurança que, sensibilizado pelo meu choro, emprestou sua roupa ao meu pai e depois a esperou no banheiro para devolvê-la.
Anos mais tarde, por volta dos quinze anos, fiz uma última tentativa: me inscrevi em dança de jazz. Foi um desastre e não durou mais de um mês. Por fim, o balé transformou-se no meu livro de cabeceira — a memória da bailarina russa Isadora Duncan, que me inspirou não só pela dança, mas por sua entrega à arte e paixão pela vida.
Uma Casa na Penitenciária
Quando eu tinha cerca de 10 anos, nossa família sofreu uma grande reviravolta: meu pai foi nomeado Diretor Penal da Penitenciária do Estado, e tivemos que nos mudar para dentro dela, para um local muito bonito destinado aos funcionários mais importantes da instituição. Eu não tive dificuldade em me adaptar, mas minha irmã adolescente odiou, pois suas amigas não a visitavam com medo de entrar na penitenciária — para chegar até nossa casa, era necessário passar pelo portão principal e se identificar para a guarda armada.
Apesar dessa rotina “sui generis”, nossa infância dentro da penitenciária seguia o mais normal possível. Foi ali que aprendi a andar de bicicleta, brincava com meu irmão caçula em uma pequena reserva de Mata Atlântica, fazia minhas lições no presídio feminino ao lado de casa com as detentas, e assistíamos a filmes que meu pai alugava para as sessões de cinema da instituição — muitos Chaplin.
Meus irmãos mais velhos, apesar da Ditadura Militar, quando encontros juvenis eram vistos como ameaça e proibidos, faziam seus famosos “bailinhos de garagem” com muita música dos Beatles e Rolling Stones. Eu não podia participar, era expulsa pelos meus irmãos, mas adorava espionar.
A Ditadura Bate à Porta
Nossa vida na penitenciária seguia seu curso até que um dia fomos atingidos por outro vendaval. O delegado Fleury Paranhos, conhecido por sua atuação violenta no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) a partir de 1968, invadiu nossa casa de madrugada e levou meu pai para um local desconhecido. Na época, minha mãe não nos contou o que acontecia, mas soubemos depois que meu pai se recusara a facilitar a fuga de um prisioneiro a quem o delegado devia favores. A vida estava tensa. Meus irmãos mais velhos perdiam seus amigos e, nas aulas de história, as professoras se continham, dizendo que não podiam falar sobre aquilo. A violência e o autoritarismo arrancaram a alegria de nossas vidas.
Para localizar meu pai, minha mãe recorreu ao meu tio, o médico, que cuidava da saúde do então arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns — que fazia frente ao sistema na tentativa de salvar perseguidos pela ditadura. O arcebispo e o cunhado do meu tio ajudaram a localizar meu pai e organizaram um encontro de minha mãe com um militar mais moderado e de alta patente.
Um dia, quando eu e meu irmão caçula saíamos da escola, minha mãe veio nos buscar e disse que iríamos visitar um homem importante do exército e que devíamos nos comportar bem, ficando sentados e calados. A casa era linda, e sobre as mesas ao lado de um enorme sofá dourado, havia compoteiras de cristal cheias de bombons coloridos e brilhantes. Ficamos encolhidos, olhando para os doces com desejo, quando a mulher do general, comovida, nos chamou de “anjinhos” e ofereceu os chocolates. Sob o olhar severo da minha mãe, recusamos salivando: “Não, obrigada!”
O general conseguiu autorização para nos levar onde meu pai estava, no DOI/CODI do Ibirapuera. Lá, vi meu pai abatido, debilitado e muito assustado, mas confiante de que sairia dali. Passados alguns dias, ele voltou para casa, mas não era o mesmo — tinha explosões emocionais ocasionais, e isso criou em mim uma relação de medo com ele. Somente muito mais tarde, já adulta e mãe de três filhos, consegui perceber em seu olhar muita doçura e sofrimento, e tivemos bons momentos juntos.
Como disse, tive muitos sonhos ligados à arte: queria ser dançarina, cantora e pintora. Mas, como filha da zona norte — região quase sem acesso a equipamentos culturais da cidade e dominada pela ideia de meus pais que funcionários públicos, achavam que eu deveria trilhar o mesmo caminho deles para ter segurança e benefícios —a realidade de viver de arte era quase inatingível. Apesar de ter me aproximado dos meus objetivos quando estudei no Liceu de Artes e Ofícios, não fui autorizada a cursar Artes Plásticas e aceitei a proposta de fazer Arquitetura.
Santos e o Canto da Liberdade
Naquela época, havia poucas faculdades de arquitetura: em São Paulo, só a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e a da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A única condição imposta pelo meu pai era que eu estudasse apenas em São Paulo, nem pensar em outra cidade! O único filho que pôde estudar fora foi meu irmão mais velho, pois o sacrifício valia a pena para Medicina... afinal, ele era homem!
Não passei por um ponto na segunda fase da FUVEST e não me inscrevi no Mackenzie, que para mim era reduto de reacionários. Então, uma amiga do Liceu me convenceu a fazer inscrição no curso de Arquitetura em Santos, uma solução que me agradou, apesar de eu nunca ter ouvido falar dessa faculdade. Secretamente, minha mãe autorizou minha inscrição, mas duvidava que eu fosse passar e sair de casa. Passei na primeira lista, e em casa, quando souberam do resultado, o clima foi de velório — foi a primeira luta que enfrentei para sair de casa, mas valeu a pena.
Santos foi uma das melhores épocas da minha vida. Fiz amizades com outras “ovelhas negras” e vivi muitas emoções e descobertas. Quanto à arte, ainda que não desenhasse como queria, me entreguei ao canto, outra das minhas paixões. Cantei em diversos lugares, organizei um show na faculdade e participei do famoso Madrigal “Ars Viva”, que interpretava músicas contemporâneas e organizava o Festival de Música Nova em Santos, sob a batuta do compositor Gilberto Mendes, um dos principais nomes da música de vanguarda no mundo. Com o madrigal, viajei e participei de diversos concertos, incluindo o Festival de Inverno de Campos do Jordão, outro importante evento de música erudita no país.
No Litoral e na Estrada
Foi nessa época que surgiu a forte ideia de viajar pelo Nordeste brasileiro de carona, coisa comum na minha geração. Muitos amigos tiveram experiências mágicas assim e encantavam-me com suas narrativas. Como Santos tem um grande complexo portuário, alguns até conseguiram viajar de navio trabalhando com o destino para diversos países.
Com o desejo de explorar o Brasil em seus mais longínquos vilarejos, conhecer sua gente, seus cotidianos e modos de vida, essa vontade foi se fortalecendo com o tempo — embalada pelos filmes, canções e livros que exaltavam a beleza e a complexidade do nosso país. Finalmente, em 1982, lá estava eu, saindo pelo mundo em busca desse Brasil profundo, que pulsava em mim como um chamado antigo.
Era mais que uma viagem: era uma travessia. Um rito. Algo entre o sonho e a militância. Uma busca por pertencimento, liberdade, encontros. Uma vontade de ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos, sentir na pele e no coração a alma do Brasil — com toda sua diversidade, suas contradições e encantos.
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