Programa Conte sua História - Projeto Vidas e Lutas Ameaçadas
Depoimento de Vânia
Entrevistada por Lucas Torigoe, Paulo Endo e Ananda Endo
São Paulo, 16 de janeiro de 2026
Entrevista número PCSH_HV1516
Revisado por Teresa de Carvalho Magalhães
P/1 - Tá, Vânia, a primeira pergunta, então… Obrigado por você estar aqui com a gente, pelo seu tempo. A primeira pergunta é muito difícil, que é: qual que é o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor.
R - Eu nasci dia 28 de agosto de 1958, na época da maior seca que teve no meu estado, no estado, na capital nossa. E meu pai falava assim: “Foi a época mais de fartura. Foi quando você nasceu, minha filha.”
P/1 - Por quê? O que aconteceu?
R - Porque deu tantos legumes, deu tanta sorte para o meu pai, que nunca tinha tido uma fartura que nem teve. Aí ele falava sempre: “você foi abençoada. Eu pensava que vocês iam passar necessidade. E vocês viveram uma vida…”, né? Isso. Toda vez que eu falo em dificuldade, eu lembro do que meu pai falava. Hoje já é falecido.
P/1 - Que ano foi que você nasceu, Vânia?
R - 1958.
P/1 - E você nasceu de parteira?
R - Nasci de parteira, mãe Frasa.
P/1 - O nome da parteira?
R - Da parteira, uma senhora morena, filha de escravo, que foi criada na fazenda do meu avô. Dali ela fazia todos os partos da região.
P/1 - E os seus pais te contaram como é que foi o seu parto, como é que foi a sua gestação ou não?
R - Não, como minha mãe contava, né? Porque... As dificuldades, assim, né? Porque não tinha parteiro, não tinha que fazer pré-natal, não tinha que fazer nada. Fazia orientada pela mãe Frasa, que morava na fazenda do meu avô, com a esposa e a família. E a alimentação, a alimentação era muito forte. Então, minha mãe, né, teve uma gravidez sem nenhum problema. Minha mãe falava assim, “Nem enjôo eu tive, porque mãe Frasa não deixava que a alimentação, as coisas adequadas.” Falava isso, né?
P/1 -...
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Depoimento de Vânia
Entrevistada por Lucas Torigoe, Paulo Endo e Ananda Endo
São Paulo, 16 de janeiro de 2026
Entrevista número PCSH_HV1516
Revisado por Teresa de Carvalho Magalhães
P/1 - Tá, Vânia, a primeira pergunta, então… Obrigado por você estar aqui com a gente, pelo seu tempo. A primeira pergunta é muito difícil, que é: qual que é o seu nome completo, local e data de nascimento, por favor.
R - Eu nasci dia 28 de agosto de 1958, na época da maior seca que teve no meu estado, no estado, na capital nossa. E meu pai falava assim: “Foi a época mais de fartura. Foi quando você nasceu, minha filha.”
P/1 - Por quê? O que aconteceu?
R - Porque deu tantos legumes, deu tanta sorte para o meu pai, que nunca tinha tido uma fartura que nem teve. Aí ele falava sempre: “você foi abençoada. Eu pensava que vocês iam passar necessidade. E vocês viveram uma vida…”, né? Isso. Toda vez que eu falo em dificuldade, eu lembro do que meu pai falava. Hoje já é falecido.
P/1 - Que ano foi que você nasceu, Vânia?
R - 1958.
P/1 - E você nasceu de parteira?
R - Nasci de parteira, mãe Frasa.
P/1 - O nome da parteira?
R - Da parteira, uma senhora morena, filha de escravo, que foi criada na fazenda do meu avô. Dali ela fazia todos os partos da região.
P/1 - E os seus pais te contaram como é que foi o seu parto, como é que foi a sua gestação ou não?
R - Não, como minha mãe contava, né? Porque... As dificuldades, assim, né? Porque não tinha parteiro, não tinha que fazer pré-natal, não tinha que fazer nada. Fazia orientada pela mãe Frasa, que morava na fazenda do meu avô, com a esposa e a família. E a alimentação, a alimentação era muito forte. Então, minha mãe, né, teve uma gravidez sem nenhum problema. Minha mãe falava assim, “Nem enjôo eu tive, porque mãe Frasa não deixava que a alimentação, as coisas adequadas.” Falava isso, né?
P/1 - Você chegou a conhecer a mãe Frasa?
R - Conheci, conheci.
P/1 - Por quanto tempo?
R - Por uns quinze, dezesseis anos. Até os dezesseis anos.
P/1 - E como é que era essa mulher?
R - Era uma mulher morena, preta, né? Quando eu já conheci ela, ela tinha os cabelos já brancos, compridos, e amarrava assim, dava nó, né? Aí vinha lá, visitava tudo ali, e ela benzia a gente também. Benzia todos, visitava as pessoas.
P/1 - Tua conexão com ela era... como é que era? Porque ela ajudou você a...
R - Mãe, nós chamávamos, todos nós chamávamos de mãe. Mãe Frasa. Nós temos duas mães. Minha mãe Nazaré e falava mãe Frasa. Aí meu pai falava, “ó, lá vem sua mãe, sua mãe preta.” O meu pai falava, né? Aí chegava…
P/1 - Então, quer dizer que você nasceu e a situação mudou, assim, choveu, foi isso?
R - Choveu muito e deu muita fartura. Ninguém… Naquele ano que eu nasci, o nosso, o sítio lá da região, que era tudo, né, a família, o pessoal lá, foi uma fartura que ninguém passou necessidade e nem falta de água, que faltava. Foi a época mais cheia que teve. E veio legumes, veio tudo de fartura. E o pessoal vendeu até também os produtos que eles plantaram, que eles ficaram usando, mas sem passar necessidade.
P/1 - E por que escolheram o seu nome, você sabe? Francisca Vânia, é nome duplo?
R - É, Francisca Vânia Maia. Então, eu fui escolhida por Francisca Vânia Maia porque quando a gente era pequeno, aqui o pessoal não acredita, né? Tinha uma mulher, que não era por maldade que o pessoal falava, né? Se ela chegasse em uma casa de vida, a gente ia ser muito… Minha mãe cada mês, um ano, tinha um filho. Aí tinha meu irmão mais velho, eu e minha irmã Didi, de anos diferentes. E a mulher chegou na nossa casa e falou, “nossa, que meninas lindas!”, ficou admirando. Aí depois que saiu, nós começamos a passar mal. Passar mal, passar mal, passar mal. Aí veio a mãe Frasa e outra rezadeira que era parente dela. Eu não lembro muito quem. Eu era muito pequena na época, minha mãe que contava. Aí minha mãe fez uma promessa para São Francisco. Se eu e Didi e o Chico Francisco sobrevivessem, os cinco primeiros filhos, ela botava o nome de Francisco. Foi isso. São Francisco de Assis. Aí foi a prece. E a gente fez uma promessa de a gente usar azul e branco até os 15 anos, nós três. Fiquemos até os 15 anos. Até hoje eu sou apaixonada por essa cor. Quando eu vejo assim nas vitrines, eu tenho vontade de comprar, mas às vezes não dá, porque a gente engorda…
P/1 - Peraí, quando essa promessa aconteceu, você tinha uma certa idade e seus irmãos também.
R - É, meu irmão tinha um ano e pouco. Com nove meses, mamãe teve, depois de nove meses, mamãe disse que era nove meses, um ano, dez meses já vinha outro. (risos) Não tinha televisão não, mãe. Então, eu registro. Naquele tempo, ela registrava as pessoas depois, quando pudesse. Meu pai é sossegado, minha mãe cheia de filhos dentro de casa. Foi depois de cinco, seis anos que ela foi registrando nós. Mas o nome... Aí nasceu o meu irmão, depois nasceu outro meu irmão, Francisco de Assis. Não, Francisco das Chagas, que era o mais velho, Francisca Vânia, que seria eu, Francisca Avani, que seria a minha irmã, Francisco de Assis... Aí nasceu, que foi o outro... Depois nasceu a minha irmã, Francisca Natividade, os cinco. Colocou tudo Francisco. Mas tinha dois nomes. Um sobrenome virava....
P/1 - Mas ninguém teve que trocar o nome já sabendo que a gente tinha um nome, né? Por exemplo, se chamava João, do nada teve que chamar Francisco.
R - Não, já era de pequeno, já começaram, né? Aí botava, chamava de Vânia e, geralmente… Minha avó também era Francisca. Aí chamava a gente pelo nome, segundo nome, entendeu? Que o nome era menor. Entendeu? Aí depois eu falei para o Francisco, tá caramba, quando eu comecei a entender. Por quê? Aí ela começava a contar a história. Aí eu... E pronto, nós fiquemos. Hoje tem tudo. Mas eu gosto do que chamam de Vânia. Porque Vânia era minha tia. Irmã da minha mãe. E Assis era irmão de mamãe. E Chagas era o tio do meu pai. Aí foi botando assim, né? E Natividade, a Natividade era a minha avó, a mãe de mamãe. Era assim.
P/1 - E como é a história da família da sua mãe? Eles vieram de onde?
R - Eles nasceram lá, vizinhos. Eles não são... Saíram de outro país. Meus bisavós vieram para... Lá, naqueles negócios que vinha o pessoal foragido, os pessoal não veio fugido de outro país? Era tudo assim.
P/1 - Imigrante?
R - Imigrante, eles vinham. Eu sei que a família do meu avô era mais puxada para italiano. Bisavô. É meu bisavô, eu acho. É meu bisavô. E da minha avó, eram aquelas portuguesas. Aquelas mulheres, sabe? Portuguesas. E na parte do meu pai tinha... Meu, não dá para falar. Umas mulheres que tem… O rostinho fino, né? Ai, meu Deus. Que fala meio enrolado. Umas senhoras brancas que dava muito…
P/1 - É, mas de fora do Brasil?
R - De fora do Brasil. Todos os meus...
P/1 - Antepassados.
R - Antepassados. Não eram... não vieram... Não era daqui, no Brasil.
P/1 - E quem que tinha essa chácara? Era da família do seu pai?
R - Não, depois que meu bisavô chegou, veio para a cidade, veio para o sítio, porque eles ficaram um tempo foragidos. Eles ficaram, as pessoas morando em lugares... Aí foram se esparramando. Aí terminaram de vir parar na Ema. Meu avô veio parar na Ema. Que veio de outro lugar lá, nem sei… E vieram pra ser… Hoje, quando a gente nasceu, meu avô estava morando no Angico. Onde a gente tinha as terras e tem até hoje.
P/1 - Qual que era o nome do sítio que você nasceu?
R - Sítio Angico.
P/1 - Angico.
R - Mas meu avô veio pra Ema. Ela é da Ema.
P/1 - Ema é outro sítio?
R - Não, é outro sítio, né? É pra onde o meu avô…
P/1 - E você foi registrada em que cidade mesmo?
R - Em Luís Gomes, que na época não tinha cartório na cidade dele, que era desse tamanho.
P/1 - Isso no Rio Grande do Norte.
R - É, Rio Grande do Norte, a cidade dele. E a maiorzinha que tinha, que não tinha aquelas montanhas, não sei se você acha que não é do seu tempo, Ele deve conhecer. Não tem as máquinas, você bate os dedos assim, aí puxava assim…
P/1 - Máquina de escrever, datilografar...
R - Datilografar. Quando a gente foi renovar o registro, a gente foi pra essa máquina. Mas antes era num caderno, os nomes da gente. Que era uma dificuldade depois pra achar.
P/2 - Agora... Deixe-me perguntar uma coisa para você. Quais as figuras importantes da sua infância para você?
R - Não tinha figura. Assim, em termos de televisão, essas coisas?
P/2 - Não, não, figuras que o seu pai, sua mãe, a Frasa, quem são figuras marcantes que você se lembra da sua infância?
R - O meu avô. O meu avô se chamava Antônio Batista, né? Ele vinha todo dia pegar nós pra ir pra casa da minha tia, aquilo era uma maior felicidade. Quando chegava, era umas seis e meia, ele descia, ele pegava meu irmão, já tava já, né, nós dois éramos mais velhos, andando, ia lá pra casa da minha tia. Aquilo pra nós era uma felicidade, porque nós vivíamos ali, só ali em volta, né, de casa. E lá pra ir pra minha tia, tinha meus primos. as crianças, tudo, e ela fazia aquela festa. E minha tia fazia os bolos, uns negócios tão gostosos. Aí botava aquelas mesas. Eu me lembro, era muito grande. As mesas que davam de 10 a 15 metros. Cadeira, aí tinha as cadeirinhas, sabe? De madeira. E a gente tomava aquele café ali, sabe? Aquilo era a maior felicidade da gente.
P/2 - Isso aconteceu durante toda a infância?
R - Toda a infância, até meu avô…
P/2 - Falecer
R- Falecer, não. Ele pisou num prego e estava enferrujado. Levaram ele para a Rússia (?) e deu tétano e ele morreu. E nós fiquemos, olha, abalados. Aí ficou minha avó. Minha avó para mim também era uma figura muito importante na minha vida. Porque minha avó era aquela mulher guerreira, trabalhadeira. E o meu avô tinha muito gado. E ela assumiu. Aquilo, tinha um monte de vaqueiro, tinha um monte de gente que trabalhava, porque lá, na época, tinha várias casas. Meu avô era muito bem de vida, entendeu? Meus bisavós eram muito bem de vida. Eles mexiam com algodão, esse negócio de lã, com pele de carneiro, esses negócios. Eles faziam criações, entendeu? Prontinhos, enormes. Então, eles eram... E minha avó foi lá e assumiu. Aí, minha avó usava aqueles chapéuzão grandes, e levava o gado, os vaqueiros, vestidos com aqueles negócios de couro, marrom, e cavalos, para tanger o gado. Aí, minha avó levava eu junto com ela, E o meu irmão, por causa de nós termos pegado, o meu avô ter morrido... Aí ela continuou carregando a gente. Mas meu irmão era tão medroso que ele tinha medo do gado. E eu não tinha. Eu tinha a mesma coragem que minha avó. Aí eu ia com ela. Entrava dentro daquelas coisas, e os gados na frente, e ela vendo separando, os vaqueiros botando no lugar, e ela conferindo, tudo bonitinho, igual o meu avô fazia. Aí aquilo pra mim era uma... Felicidade.
P/2 - E você tinha que idade quando seu avô morreu?
R - Quando meu avô morreu? Quando… Naldinho tinha o quê? Ai, eu devia ter uns seis anos. Mais ou menos se eu tivesse era uns seis anos. Cinco, seis anos. Negócio assim.
P/2 - E quando sua avó morreu?
R - Quando minha avó morreu eu já era... eu tinha casado. Com um ano ela faleceu.
P/1 - E os seus pais, como era a vida na casa de vocês? Vocês acordavam que horas?
R - Quatro horas da manhã eu levantava. Eu levantava, eu era molequinha, eu era muito espoleta. Como eu era mais velha, minha mãe tinha filhos todos... Nove meses, um ano, onze meses. E eu que ficava, entendeu? Junto com as mulheres. E ficava olhando, adorava enrolar, era nos panos naquele tempo, não existia fralda. Entendeu? Aí eu adorava, amarrava. Fazia enrolar eles assim, só para mim ficar, já sabe quando eu ficava fazendo assim, virando até lá. Aí depois eu fui crescendo, aos oito anos, aí eu tomei conta de fazer o café, levantava de madrugada, porque meu pai levantava cedo, minha mãe levantava para ajudar, porque tinha muito filho, e eu ia ajudar ela, eu ia botar as lenhas, botar no fogo, acender o fogo, pra ela, eu aprendia. Tudo eu aprendia fácil. Por causa que eu via eles. Tudo que eles iam fazer, eu ia e fazia. Aí eu que fazia o café, fazia tapioca, fazia tudo. Aí minha mãe fazia as coisas maiores. E eu ficava cuidando dos meus irmãos. Eu era aquela dona dos meninos pra olhar. Se o irmão meu caísse ou se machucasse, quem tomava o couro era eu.
P/1 - O seu pai trabalhava na roça?
R - Na roça. Meu pai trabalhava na roça. Trabalhava na roça e... Comprava gado, vendia gado, entendeu?
P1 - Viajava?
R - Viajava sim, mas a cavalo. Naquele tempo era um monte de cavalo. (assoa o nariz)
P/1 - Tem mais ali, tá?
R - Tá. Então... Aí meu pai viajava. Viajava sempre pra cidade. Pros sítio, né? Vizinho. Aí comprava... Aqueles... Saco de arroz, saco de feijão. Ele que vendia, ele trazia. Aí vinha nas... Ai, meu Deus, era... Besta não, agora esqueci.
P/1 - Mula?
R - Não, é...
P/1 - Jegue?
R - Não, não. Jegue não aguenta isso aí, não. O jegue era para nós carregar água do açude para dentro de casa. É o cavalo... Besta não, era... Ai, meu Deus.
P/2 - Burra?
R - Burra. As burra. As burra. Aí ele vinha, comprava, trazia. Tudo nas boas, dentro dos caçuá.
P/1 - Tinha energia elétrica?
R - Não, não tinha. Minha mãe fazia uns pavios e comprava umas lamparinas deste tamanho. Ela fazia uns pavios grandes, enfiava um negócio, tipo um arame farpado, que era de botar em cerca. Ela botava dentro e botava o pavio bem grande, para poder não apagar rápido. Aí botava em cada cômodo. Na hora da janta, botava em cima do fogão. Botava que lá as cozinhas eram todas grandes, que lá era mato, sítio. Aí ela botava para a gente comer tudo ali. As coisas eram assim.
P/1 - Vocês não tinham rádio nessa época?
R - Tinha, o papai tinha um rádio. Tinha um rádio. Eu lembro como fosse hoje. Era marrom assim, e parecia… Na frente dele, os negócios eram brilhosos, pareciam ouro. Eu estava fantasiada esse dia com o meu irmão. Eu estava falando, será que aquele raio de papai não era de ouro? E papai pegou e deu. (risos) Mas não era. Aí ele brilhava com aqueles negócios brilhosos, muito bonitos, antigos.
P/1 - E vocês ouviam o quê?
R - Ouvia só coisa de negócio de... Só as coisas de vaquejada, esses negócios assim, sabe? Aquelas músicas antigas que o meu pai gostava, ligava e tinha uns horários de passar. Aí aquilo nós achava bom, vixe maria!
P/1 - É a música Caipira, é isso?
R - Caipira, Caipira do Mato mesmo.
P/1 - Tinha alguma outra coisa assim, história, telenovela, jornal?
R - Não, não existia isso aí, ainda não. Isso começou a existir depois de muitos anos.
P/1 - E vocês faziam o que para se divertir nessa época? Não tinha luz, por exemplo? De noite, de dia, o que vocês brincavam, quando tinha tempo?
R - Correndo, não tem aquelas cordas. tem as cordas, tem umas pedrinhas que a gente fala lá no norte, é de chibiu, a gente jogava pra cima e quem ia parar, sei lá, entendeu? Mas aí começava. Aí ficava um monte de menino, que tem a calçada enorme lá no meu pai, né? Aí vinha meus primos de frente, minhas primas, todo mundo se reunia lá em casa. Aí era tudo assim, molequinho. Aí a gente ficava jogando, aí aquele que perdia saía e o outro entrava. Aí aquele que era meio chorão, que era mais pequeno, ele queria brincar duas, três vezes, não podia. Aí a gente, às vezes, para poder... Aí eu estava, às vezes, eu era mais velha, às vezes tinha a minha tia também, que já era mais velha do que eu, aí era obrigado a deixar ele para poder… Minha mãe, meu pai ou minhas tias não brigavar, né? Era assim.
P/1 - E de noite vocês contavam histórias entre vocês?
R - Papai contava, meu papai, mamãe, meus avós, que eles se reuniam, né? Quando a gente não ficava em casa, ia lá para a minha avó. Na minha avó, na casa da minha tia embaixo. Cada dia a gente ficava só, porque é pertinho do... uma descida, uma no canto, no outro. A gente ia pra lá. Aí eu gostava muito da minha avó, ficava muito lá na minha avó. Só pra ficar em companhia com ela, porque a minha tia estudava, né? E eu ficava mais na minha avó. Aí lá a gente ia, todo mundo, né? Ficava tudinho. Meu pai ia lá pra ficar só.
P/1 - E você se lembra que histórias os mais velhos contavam nessa época?
R - História de trancoso, que via visagem, que via não sei o quê. Era uma... É assim. Visagem. Vocês nem sabem o que é isso, né? Vocês sabem o que é visagem?
P/1 - Tipo fantasma.
R - É, tipo fantasma, né? (risos) Eles contavam esse negócio. Mas eu vi.
P/1 - Você viu?
R - No casamento do meu tio até hoje… Até hoje eu tenho gravado. A gente estava... Era 11h30, né? E lá onde meu avô morava... Primeiro eu vou falar do meu avô. Como ele tinha uma sala enorme e os quartos eram assim, eu dormia com a minha avó, e meu avô, à noite, depois das seis horas, ele estendia aquela mesa com coalhada, com cuscuz, com pão de ló, essas coisas, aí juntava todo mundo e ia comer. Aí ele tinha a maneira de falar assim: “Eita, Lé, vamos lá comer coalhada!” E eu escutava meu avô. Igual meu avô batia na panela, chamando a gente, chamando quem estava. “Vamos lá, gente! Vamos lá! Eita, Lé! Vamos comer aqui a coalhada!” Eu via meu avô falando. De noite, eu e minha avó, batendo na mesa, igual ele fazia, servindo o povo. Aquelas panelonas, sabe? Aí a gente aí, eu ficava assim com medo. “Não, não, deixa o seu avô. Ele veio visitar a casa.” Falava assim. E no outro dia estava tudo limpo. Parecia que era batendo em panela, batia nos tachos, porque eram tachos grandes, assim, que eu não sei nem... Parece... O que é que eu esqueço o nome. A gente segurava assim, né? Aí eles levavam, porque quem pegava era o... Ele não era de alumínio, era uma cor meio amarronzada que brilhava quando eles viravam, entendeu? Aí ele batia direitinho. E aquelas colchonas pra tirar coalhada, eu via ele do mesmo jeito que ele fazia, eu escutava ele fazendo lá. E minha avó também.
P/1 - Mas você não sabia pra quem?
R - Não, a gente não sabia. Aí, minhas tias católicas, aí ia pra igreja, ia pra cemitério, acendia as velas pra ele.
P/2 - E todo mundo via?
R - Não, nem todo mundo via. Tem um tio meu que via, um irmão meu via, se tivesse lá. Essas coisas não aparecem para qualquer pessoa. Eu via. Outra vez aí, e a roça era enorme, as roças ali. A gente tem que ir para ir lá para o meu pai, para a minha tia, a gente pegava um corredor e tinha uns pés de árvore, né? A gente via. O pessoal via também. Pessoas assim, vaqueiros assim, sabe? Era muita coisa. Todo mundo tinha medo.
P/1 - E essas histórias também cê ouvia bastante.
R - Ouvia bastante. Outra coisa que até hoje... Eu falei que queria encontrar uma “butija”. “Butija”, que antigamente eles enterravam... Teve umas tias do meu avô que enterrou... Tinha aquele negócio de ouro, garfo de ouro. Entendeu? Colher de pau, esses negócios. Muito ouro. Tipo moedas de ouro. Eles tinham uns... Faziam uns baús, todos de... Não é bem zinco, é tipo um zinco. Aí eles enterravam. E quando morria, eles voltavam pra dar pra uma pessoa. Aí minha mãe falava e meu pai. Meus tios também falavam. Aí eles deram pra uma pessoa, pro tio da minha avó. Aí eles vieram tirar isso aí. Só que eles vieram junto com outras pessoas. E quando chegou lá, disse que tinha cada coisa feia, cada animal urrando, que quando eles deram a primeira coisada, onde estavam os negócios de ouro em cima, que eram os garfos de ouro, cruzados, eles viraram pó. Viraram pó e viram os bichos tudo em cima, aqueles lobos, aqueles negócios muito feios. Aí eles iam embora com muito medo. Isso era de madrugada. Tinha que ser meia-noite. Aí eles vieram. E no outro dia, não tinha nada.
P/1 - Agora vocês também iam pra igreja, ou não?
R - Tinha. Ia pra igreja, tinha. Na cidade, a igreja era na cidade. Só que mamãe fazia... O pessoal mais velho, antigamente, eles faziam, tipo assim, umas orações. Entendeu? Viam freiras lá, oravam em cada casa. Aí pegava aquele santo e saía. Cada dia era numa casa. Fazia novena.
P/1 - Vocês eram bem devotos?
R - Toda a vida fomos devotos. Meu pai, muito devoto. Muito.
P1 - E você?
R - Nós acompanhávamos junto, né? Ave Maria. São Francisco de Assis era o nosso... Entendeu?
P/1 - Mas você, nessa época, quando você era pequena, você cultivava mesmo ou você não gostava de ir na igreja, só acompanhava?
R - Não, não ia na igreja, deixava de ir. Eu cuidava do meu irmão menor, mais uma, duas moças que trabalhavam na minha vó. Quando minha mãe ia para a igreja, eu ficava cuidando do meu irmão, porque eu era a mais velha. Aí eu fiquei sempre mais reservada para cuidar dos meus irmãos.
P/1 - Mas você já era devota a Deus? Já ou não?
R - Já. Eu já me entendia. Eu rezando, a gente de joelho. Minha mãe botava todo mundo para rezar. Minhas tias, onde tivessem ali, porque minha tia só era... Meu pai dava, o quê? Uns 20 metros para a minha tia, e a gente não via a casa. Aí a gente ia para lá. Era assim.
P/2 - E Vânia, e como é que aconteceu nessa época os namoros, as relações amorosas?
R - Ah, mas era complicado! Minha mãe mesmo namorou meu pai… Era tudo assim, o pai e a mãe, a família convidava, né? Aí jogava pra poder, porque não tinha esse negócio, nem pegava na mão, nem nada. Aí minha mãe dizia que meu pai jogava uma pedrinha ali e começava a namorar. (risos) Aí o pai dele, aí se encontrava, mas não podia... Aí meu avô veio embora pra São Paulo, aí foi lá e pediu minha mãe sem namorar, sem nada assim. Só... Aí casou.
P/1 - E você cuidava muito dos seus irmãos?
R - Cuidava de todos eles.
P/1 - Você chegou nessa época aí pra escola ou não?
R - Ia pra escola. Porque tinha uma escola, um grupo. Tinha um grupo. A gente ia pra escola.
P/1 - E até que idade você estudou nessa época?
R - Nessa época, eu estudei até uns 10 anos. Não, eu estudei até casar. Antes de casar, eu larguei e fui embora.
P/1 - Nessa época, você tinha essa idade, era pequena, você sonhava em ser alguma coisa já? Você tinha algum plano ou não? Como que era?
R - Não, o plano da gente... Lá no norte, todo mundo tinha que ser professor, né? Pra ser professor. Aí depois, acabou.
P/1 - Você se lembra de alguma história, algum dia que te marcou nessa época, antes de você casar? Alguma coisa de muito marcante que aconteceu na sua vida? Até hoje você se lembra?
R - Não, assim...
P/1 - Especificamente, não?
R - Não. Que minha mãe não queria que eu casasse com o meu... Entendeu? Meu marido foi pedir... e meu pai ficou por ali e deu, deixou, minha mãe não. Minha mãe não autorizou.
P/1 - Por quê?
R - Porque os pais dele, o pai dele era muito ruim. Vinha de família ruim para as mulheres, de agressão, de mal, de tudo, batia nas mulheres. Então, eles tinham um péssimo... Era bem mal visto, de ignorância, de valentes e tudo. Minha mãe não deu. Mas, mesmo assim, eu casei.
P/1 - E você conheceu o seu marido na época como?
R - Ele morava num sítio mais pra frente, assim como fosse... O que diferenciava era o rio. Entendeu? Aí a gente não passava por lá nem nada. A gente passava na estrada, assim, por trás. O meu sogro… Eu estava varrendo o terreiro, varrendo o terreiro, sempre mandava cavalo, sempre ia pro açude assim em frente. Eu que ia lá buscar água. Eu sempre fui uma pessoa muito ativa. Aí eu ia fazer um serviço que, às vezes, meus irmãos não faziam, eu fazia. Eu ia lá, porque eu ia rápido, eu era rápida. “Eita, essa aí é a minha nora.” Meu sogro falava isso. Essa vai ser minha nora, essa trabalheira. Falava assim. Começou esse tipo de elogio e terminei casando com ele.
P/1 - E qual que era o nome dele?
R - Era José de Anchieta.
P/1 - José de Anchieta.
P/2 - Como é que você conheceu ele, Vânia?
R - Conheci lá... Ele não passava cavalo? Passava cavalo pra lá e pra cá. Aí a gente foi numa missa lá perto, num povoado. Aí ele tava lá. Ele tava aqui em São Paulo e ele apareceu. Eu não sei... Eu via ele passando, né? Mas eu... A gente não tinha conversa com… Naquela época, a rigidez era muito grande.
P/2 - Mas teve namorico, teve coisa assim? Como é que vocês se aproximaram?
R - Não se aproximamos, porque ele começou a andar lá em casa, a começar amizade com meus irmãos, aí começou a vim, aí mandava recadinho, essas coisas. Aí começou a andar com meus irmãos, querendo jogar bola lá perto, aí começou. Aí fazia um jogo lá no campo, lá de frente, porque meu pai tinha um campo grande, sabe? Meu pai era muito jogador. Meu pai, meus tios, aquele povo da região, aqueles homens, jogava muita bola. Aí os moleques iam, rapaziada ia tudo. Era o jogo dos mais velhos, aí depois entravam os rapazes e depois iam as crianças. Era assim. Aí ele mandou um bilhete para mim.
P/1 - Mas você gostava dele?
R - Gostava. Gostei dele. Gostei.
P/1 - E?
R - Casei. Aí casei.
P/1 - Com que idade você casou?
R - Casei com 17 anos.
P/1 - E ele era mais velho ou mais novo?
R - Tinha 19.
P/1 - 19. Você falou que ele estava em São Paulo.
P/1 - Ele veio para São Paulo com 17 anos.
R - E retornou. E retornou. E chegou lá, namorou comigo.
P/2 - Que tipo de homem? Qual o nome dele?
R - José de Anchieta.
P/2 - Que tipo de homem era José de Anchieta?
R - Era uma pessoa trabalhadora, né? Bem alegre, extrovertido, essas coisas. Mas era muito namorador. Ele tinha fama. A fama dele era muito ruim. Aí, mamãe, “você vai querer isso para a sua vida? Vai casar? Se amanhã, depois, se você estiver sofrendo, as portas estão fechadas. Se você casar com o filho de Chico Batista, esses cabras safados, você vai sofrer”. Eu falei, quem vai sofrer é só eu, não é a senhora. Paguei minha língua.
P/1 - Vocês se mudaram já de casa com seus casais?
R - Não, já fui para São Paulo. A gente veio. Eu casei dia 13 de outubro de 1976. Aí fui embora, casei com... dia... dia 16, dia 13. Dia 18, parece, nós viemos embora. E dia 26 de novembro, eu comecei a trabalhar no Brás como ambulante. Em 1976.
P/1 - E ele trabalhava do quê?
R - Garçom. Ele era garçom.
P/1 - E como é que foi esse plano de vir para São Paulo?
R - Porque ele estava aqui já, né? Trabalhava nessa... Chamava Sopa Vitória, na Rua Vitória. Eu nunca me esqueci. 525. Lá ele trabalhava à noite, tomava de conta. Espanhol. Minha vó é espanhola. Espanhola, agora lembrei do espanhol. Eu fui trabalhar de caixa com ele uns tempos. Fiquei uns dias trabalhando lá à noite. Era muito pesado aquilo lá. Era uma coisa feia. Não dá para ficar aí, não, isso aí é muita... Porque é muita prostituição. Lá só tinha a zona ali da Rua Vitória, com a Rua dos Gumbau, só tinha cafetão. Quando chegava meia-noite, uma hora da manhã, eram tudo umas coisas estranhas. Aí eu terminei saindo. Aí meu cunhado, o irmão do meu marido, tinha comprado uma banca na Praça da Sé. Aí um conterrâneo meu começou a fabricar cintos. Aí ele trouxe serviço. Eu falei, “leva um serviço pra mim, né?” Esse aí tinha sido o noivo da minha irmã, esse rapaz, Gregório. Aí eu comecei a fazer os cintos, né? Aí ele falou, “Aí Vânia, você poderia ir no Brás e levar esses cintos pra entregar lá pro Pedrinho.” Aí eu falei, tá bom, então. Aí eu levei e entregava os cintos. Aí ele fabricava os cintos. Eu fazia em casa, porque eu botava no… Encaixe... O meu irmão encaixou um ferro grande no chão, no quintal onde eu morava, e botava... E fez uma armadilhinha assim, sabe? Dobrou. Porque os cintos eu tinha que fazer assim, enrolado. Fazer tipo trança. Era tipo um traço, mas aquilo era uma coisa terrível... Aí eu comecei a fazer. Aí eu ía entregar lá. Aí eu conheci uma mulher que... Trabalhava perto do ponto de ônibus, no número 42, do Largo da Concórdia. Aí eu fui lá e ofereci pra ela. Aí ela falou assim, “mas eu não mexo com esses cintos, eu mexo com cintos de couro.” Coloca aqui perto de mim e vai vendendo aí. Aí, não é que eu… Eu tava com três dúzias de cintos pra vender pra ela, e eu não vendi as duas dúzias e meia no mesmo dia, no mesmo horário. Eu vim à tarde, cheguei e vendi tudo. Ela falou, “encosta aqui em mim.” Aí ela botava uma ararinha, cheia de prego, aí eu botava no canto e ficava vendo.
P/2 - Vânia, qual foi a impressão que você teve de São Paulo quando você chegou?
R - Eu fiquei assim, assim, meio assustada quando eu cheguei na rodoviária. Assim, quando eu vi aquelas luzes, aqueles negócios, que eu não tinha ideia disso. Aí eu fiquei, meu Deus do céu, onde eu vim parar? Aí depois eu acostumei e... E hoje, né? Você falar que eu amo São Paulo, eu não amo São Paulo. Eu gosto mesmo é do meu Angico, onde eu nasci.
P/1 - E antes da viagem, antes de chegar, conta pra gente como é que foi a viagem também, quantos dias foram?
R - Quatro dias de viagem, senão a gente não chega, entendeu? Bem complicado. Aí tinha que parar nas paradas, tinha que comer rápido, tinha que tomar banho rápido, era uma confusão danada. Mas nós chegamos.
P/1 - E tava só você e o seu marido?
R - E meu marido.
P/1 - Voltando um pouquinho, o que ele fala para você de São Paulo? Ele fez alguma promessa? Como é que ele descrevia a cidade?
R - Não, vinha… O meu irmão mais velho já estava aqui em São Paulo. Ele fazia o curso de Técnico de Óptica. Ele já tinha vindo do Goiás, onde meus tios moravam. Ele veio fazer e o meu ex-marido pegou e... Mandei ele arrumar um local para morar. E ele arrumou. Minha tia, que já morava aqui há muitos anos, meu tio. Aí ele conseguiu.
P/1 - Vocês foram morar... Qual foi o primeiro endereço que vocês tiveram?
R - Foi na Rua Zulmiro, número 118. Só que eram três casas. A gente morava no último degrau. Era tipo um porão. Não era um porão, mas era parecido. Mas tinha janela, tinha tudo, sabe? Quem estava na rua, a calçada que era alta, né? A gente, a pessoa chegava e a gente via só os pés dela.
P/1 - Onde que é? Rua Zulmira?
R - Rua Zulmira…
P/1 - Que bairro?
R - Número 118. Vila Isolina Mazzei.
P/2 - Vânia, você sente que foi feliz no seu casamento? Feliz durante um tempo? O que você pensava do casamento e o que você encontrou?
R - Eu nem tinha noção de como era um casamento, como que não era. Fui vivendo conforme eu vi meus pais vivendo, né? Só que... Era... Foi tudo bem. Aí começou... O meu marido era quengueiro, namorador. E isso aí começou, isso foi... E agressivo, ele agredia. Não podia falar nada. Ele agredia. Se fosse hoje, ele era preso quase todo dia. Pelo que ele me fazia. Eu era dominada por ele de tal maneira que eu tinha... Chegou o final da história, eu cheguei a ter síndrome do pânico. Quando eu via ele, começava a me tremer todo. Por isso que eu fiquei assim, trabalhando nas vendas.
P/1 - Você queria sair de casa. Não estar dentro de casa.
R- Não, eu engravidei da minha filha. Aí tive a minha filha com 20 anos. Aí depois de uns tempos, aí ele, o dono do… Seu Manulo, vendeu a Sopa Vitória, porque a mulher dele estava com uma doença lá nela, aí ele vendeu e deu uma parte para o meu marido. Uma parte, porque ele já tinha botado a cunhada dele, meu marido e um outro funcionário dele, que já começaram com uma parte na sociedade. Aí ele vendeu e deu direitinho a parte. Aí meu marido foi e comprou uma parte lá. Até o Seu Manulo foi lá com ele, com um conhecido dele, lá em Santana. Na rua [Doutor] Olavo Egídio, número 331. E lá era bar, snooker e tudo, né? Em cima era pensão. Entendeu?
P/2 - Você chegou a trabalhar com ele?
R - Cheguei a trabalhar.
P/2 - Com seu marido?
40:43 R - Com meu marido, mas não dava certo. Porque ele me deixava lá, com minha filha na época, e ganhava o mundo. Aí eu comecei a fabricar cinto, né? E o lucro que eu ganhava, eu ia juntando e comprando cinto, mais cinto. E o rapaz me pagava. Eu não estava mais recebendo em dinheiro. Ele pagava em mercadoria. Aí eu ia guardando. Aí chegou o fim do ano e eu ia vender. Eu tirava para vender. Aí quando ele não sumia, né? Final de semana.
P/2 - E aí que você começa a ser ambulante?
R - Não, já tinha começado já. Já tinha começado, mas só que as entregas que eu fazia e as vendas que eu fazia, só ia na parte da tarde. Depois do almoço, depois que dava o almoço, tudo. Porque não dava. Eu tinha que trabalhar assim. Aí eu pegava o ônibus e ia embora. Aí eu ia lá pro Lago da Concórdia. Tinha 52 ambulantes lá na região inteira. Aí eu fui juntando o dinheiro das vendas e, conclusão de toda a história, o que eu fiz? Comprei uma banca de um senhor que se chamava Bentinho. E a banca tinha documento, era um deficiente. Ele andava numa cadeirinha, aquelas cadeirinha. Era feita até de pau. Aí ele vendeu. O cara que trabalhava com ele vendeu para mim a banca porque ele me devia um dinheiro. Ele foi pegando mercadoria, aí eu fui dando a mercadoria para ele vender. Aí eu levava… Porque o horário meu era pouco, aí eu só ia pro Largo da Concórdia, entregava, por exemplo, eu trazia 15 dúzia de cinto. Aí eu deixava 12 com ele, ficava com 3, às vezes com 2. Aí vendia, ia pro Largo da Concórdia, vendia e ia embora. E assim foi.
P/2 - E você ficou quanto tempo casada?
R - Fiquei 33 anos.
P/1 - Dos 16 até os 49, mais ou menos, né?
P/2 - E como foi a separação?
R - A separação veio depois de 33 anos, depois que meus filhos todos estavam crescidos. Mas nós já estávamos bem estabilizados, financeiramente bem. A gente tirou as bancas, pegou documentos. Aí comecei a trabalhar com essa banca. Ele assumiu a banca e eu fui vender na mão no Largo da Concórdia. Ele não gostava de trabalhar, igual eu trabalhava. Ele gostava de estar em um lugar que ele ficasse lá, né? Parado.
P/2 - Você pode falar um pouquinho dos seus filhos?
R - Meus filhos? Aí eu tive a minha filha Jane, né? Porque aí eu levava ela comigo. Ela era uma molequinha pequena. Aí a fiscalização batia. Aí eu levava uma caixa. Aí tinha uma farmácia Drogão na esquina do Largo da Concórdia com a [Avenida] Rangel Pestana, 2039. Aí, quando o rapa vinha, vinha rasgando tudo. Aí eu jogava o meu resto de cinto dentro da caixa e jogava a minha menina dentro, em cima, pra poder salvar. Aí um dia o rapa viu, aí veio e me levou. Eu tentei tirar a caixa. Eu caí, rasguei esse braço. Levei 18 pontos. Aí, sim. E assim, continuou a luta.
P/1 - Você quer... Vamos chegar nos seus filhos na medida em que eles foram nascendo?
R - Foram nascendo. Depois de... Aí eu tive a Jane, que é a mais velha. Depois de 11 anos nasceu o Tiago.
P/1 - Tem dois filhos só?
R - Eu tive quatro filhos. É. Aí depois veio a Jéssica, depois de quatro anos. Não, veio a Jane. Depois de 11 anos veio o Tiago. E veio a Jéssica depois de quatro anos. E depois de um ano, veio o Juninho, meu.
P/2 - E qual a idade deles hoje?
R - Hoje é... O Tiago... Jane fez 47 agora. Em dia 5 de janeiro. O Tiago fez 36 dia 28 de outubro. A Jéssica fez 33, dia 20 de novembro. E meu Juninho... Se estivesse vivo, estaria com 30 anos. É, 30 anos. 30 anos hoje. Eu perdi meu filho afogado com 16.
P/2 - E como foi esse acidente?
R - Eles foram… Meus filhos são da Renascer, da igreja. Aí o Tiago fez 28, dia 28 de outubro fazia aniversário. E o Juninho, que era Juninho, o nome do pai, José de Anchieta Batista Júnior, fazia dia 30, 16 anos. Aí o bispo falou, vamos todo mundo, vamos se juntar, vamos comemorar. Tinha dois filhos dele que faziam no mesmo dia, que eram gêmeos. Vamos para o Guarujá, vamos para a praia. Aí foram todo mundo, cinco carros. Aí quando vinha, pararam na enseada do surfista, que lá estava escrito: “Após as quatro, onda de quatro metros e não sei quanto.” Era parar para comer, um lanche e vamos. Já tinha tomado banho. Aí os dois pequenos do bispo entraram na água, mais ou menos aqui, o Juninho, com a água aqui. Aí veio uma onda de mais de 4 metros e levou os dois filhos do bispo, de 13 anos. Aí tinham dois pescadores, salvaram o menino e levaram para o hospital. E aquela onda que passou, veio por detrás e levou o meu filho. Aí todo mundo tentou recuperar, mas não tinha lá mais... e os outros já tinham sido socorridos. Aí ele ficou boiando lá, pulando lá, subindo, descendo, e o pessoal falando, aí o bispo tinha quase... sabia nadar, tentou salvar e quase morreu afogado também. Aí meu filho foi embora e depois de dois dias, nós o encontramos lá na terceira praia. O pescador achou ele. Tudo quanto era fonte, a gente já assinou pra ver se salvava ele, mas não teve jeito. Quando foram encontrar, o pescador encontrou, os corpos de bombeiros já tinham até já desistido. Aí receberam um telefonema na base, lá dentro e falou que tinha um corpo, o pescador falou, tinha um corpo no meio do mar, do terceiro, na terceira praia. Aí foram pra lá, era meu filho.
P/2 - Era o seu caçula.
R - Meu caçula. (choro)
P/2 - Que lembrança você tem dele?
R - Lembrança boa porque eu achei... Desde que ele nasceu... Ele nasceu diferente de todos os meus filhos. Ele era um menino comportado, um menino educado, um menino diferente. Com três anos de idade, ele teve uma febre de 40 graus. Eu o levei quase morto nos meus braços, na madrugada. Chegou no hospital, os médicos falaram que ele estava morto. Eu clamei muito a Deus e levaram ele. Daqui a pouco o médico falou que ele tinha voltado. Mas eu fiquei com um trauma, um negócio que tinha. Todo dia eu abraçava ele, mas quando eu ia abraçar ele, parecia que ele estava fugindo de mim aqui. Eu grudava no pescoço dele. Aí ele falava, “ó mãe…” Eu falei, ó Marcos... Marcos não, o... “Juninho.” Eu falei, “parece que você vai voar, meu filho.” Aí ele dava risada, né? “Não vou não, mãe, não vou voar. Eu vou cuidar da senhora na sua velhice.” Eu sempre falei assim, eu vou pagar uma aposentadoria para poder, quando eu ficar velhinha, eu ter uma aposentadoria, e vocês todos estão casados, e eu vou estar uma velhinha, e eu vou ter um dinheiro para pagar no asilo quem cuide de mim. Aí ele dizia, “a senhora nunca vai para o asilo, eu vou cuidar da senhora.” E ele era diferente, o pai dele era agressivo, tudo. Aí ele foi na igreja, ele saía mais os bispos, assim à noite, para dar comida para as pessoas de rua, né? Aquelas crianças que antigamente davam muita criança, agora hoje acho que não sei se dá. Eles fumavam tal de cola de sapato, era cola de sapato, né?
P/2 - Cola de sapateiro.
R - Sapateiro, se droga. Entendeu? Agora não tem, não sei se hoje tem, porque acho que é essas coisas, outra pior, né? Aí ele ia pra rua, e ele trazia os moleques pra igreja. Ele foi recuperando vidas, que o bispo falava nas reuniões, os pastores. Vamos chamar o Júnior. O Júnior, ele consegue. Ele ia. Onde tinha esse pessoal, eles iam com os bispos, iam orar, saia da igreja, saia rezando, orando, levando comida, lanches, coisas. Esse meu menino que fazia o dia lá. Eu fazia, ajudava ele. Aquelas panelonas desse tamanho. Ele não, mas fazia só. Fazia sopa, esse negócio no frio, tudo. Aí, vamos levar o Junior, que o Junior é... consegue. Aí foi trazendo. Aí... Ele pregava qualquer... Se ele chegava na minha banca, ele ia pra escola, lá no Anchieta. Aí já vinha de lá. O pai comia e depois ele vinha pra pegar comida numa churrascaria. Ele sabia tudo que eu gostava. Ele ia lá e trazia pra mim. Aí, às vezes, eu tava ruim, tava tudo, né? Não tava bem, o pai agressivo... Aí ele começava a orar em mim. Aí eu tava boa. Às vezes, tinha uma senhorinha da loja lá, aí ele só vivia doente, hein? Era de enxaqueca, era não sei o quê, não sei o quê. Aí era: “traz seu filho para me orar.” Falei, “Juninho, vai lá, a Dona Ana quer que você ore nela.” Aí ele ia lá, orava. Daqui a pouco a veinha vinha, agradecer a mim. E assim, começou, fazia obra. Aí quando foi no dia do interno dele, que eu chego lá no interno, tinha 19 mães, 19 crianças em volta do caixão do meu filho. E as mães vieram me agradecer. E falavam assim pra mim, que meu filho tinha tirado os filhos dela, não sei de quê. Aí foi Deus que precisava dele. Ele foi. Mas pra mim, às vezes, um bom conselho, alguma coisa, pra mim que foi muito difícil eu aceitar que eu tava perdendo ele. Eu não podia ver, eu andava na rua. Aí eu comecei a trabalhar de madrugada e de dia, de madrugada e de dia, porque eu não conseguia mais ficar em casa. Fiquei desorientada, eu tinha um carrinho, às vezes eu vinha dirigindo, vinha pra casa assim pra tomar um banho, pra depois voltar pra madrugada. Aí eu parava no trânsito, ficava nos faróis, parava no lugar. Quantas vezes eu fui, me trouxeram rebocado. Eu estava na estrada do Rio de Janeiro, pra Guarulhos, eu saía sem destino. Eles traziam eu. Aí o pessoal começaram a... Orientar minha família, levar eu pra passar na psicóloga. Aí a própria médica que eu tinha tido meus filhos… Um dia eu cheguei lá e comecei a chorar. Que eu chegava, eu ficava chorando. Ela falou, você tem que passar pelo encaminhamento, pro psicólogo. Depois passaram para psiquiatra. Aí eu era inconformada demais. Hoje eu sou… E o Juninho, eu estava deitada um dia, final de semana, que eu não aceitava, não aceitava. Eu estava revoltada com tudo. Ele apareceu, botou as mãos no meu joelho e pediu pra mim não chorar mais. Quando eu tentei abraçar ele, ele falou, eu escutei o que ele falou. “Eu lá em cima, eu vou ajudar a senhora mais do que se eu estivesse aqui. Não chora mais, que eu não estou conseguindo me concentrar.” Aí eu comecei a ver ele nos jardins à noite. Eu tava dormindo, quando eu vi, eu vi ele no jardim, cheio, cercado de crianças, cheio de coisa. Parecia aqueles… com as asinhas. Azul e branco. Aí eu comecei a ver aquilo e fui começando a me... melhorar. Aí eu fui pro psiquiatra, eu cheguei lá, fazer tratamento, uma medicação, mas os medicamentos eram muito fortes. Eu ficava assim, não tinha concentração, como trabalhar, passar o troco, vendendo, saber depois o que eu tinha que fazer. Aí eu passei no psiquiatra e quando eu, botei na mente que eu vi, aí aquele povo tudo doido lá, tudo levantando, tudo gritando, e era um bate na mesa. Aquela confusão e eu comecei a pensar. Eu falei, “Mas isso aqui é coisa de doido.” Aí eu levantei de lá e falei, nunca mais eu venho nesse lugar. Aí eu pedi ajuda ao meu filho. E quando eu sentia assim, perturbada, eu falava, “ô meu filho, me tira dessa angústia.” Aí eu comecei a me ver que ia ficar forte. Ficando forte, ficando melhorando. Aí tô assim hoje. Hoje eu não tô mais nem um calmante. Mas eu sofri muito na minha vida. E sofro hoje. Porque uma mãe que perde um filho, ela nunca mais é a mesma, sabe? Não é. Falta um pedaço dentro de mim. Metade de mim morreu. E o resto... Aí eu fiquei nessa luta aí de ambulante, nesses negócios aí, tentando pra mim esquecer, né? Estou aí.
P/1 - Você fala justamente dessa luta um pouco, sabe? Que te mantém hoje assim. Você consegue lembrar pra mim de amigos que também vendem na rua, ambulantes, que você fez ao longo desse tempo todo, companheiros, parceiros de luta? Uns que já se foram?
R- Muitos, muitos. Muitos foram e já morreram. Muitos, né?
P/1 - Quem mais te marcou?
R - Foi quando mataram o finado Reinaldo. O finado Reinaldo era uma pessoa muito boa, uma pessoa acolhedora. Se algum camelô era preso na hora dos movimentos, ele ia lá e tirava com o tal de Mariano, que era um cara muito forte da polícia. Tinha uma boa amizade. E ele é a disputa de poder. Primeiro que ele xingava, ele combatia as pessoas, entendeu? Aquelas pessoas queriam tirar um ambulante do local, tirar um para botar outro, aí ele batia de frente. Os caras ameaçaram ele, né? A primeira, eles levaram ele lá pra dentro do Largo da Concórdia, lá onde tinha um monte de bancas. Deram uma surra nele. Mandaram ele sumir do Brás. Aí ele falou, “eu não sumo do Brás não, eu vou morrer. Se eu tiver de morrer, eu vou morrer no Brás lutando pelo camelô.” Aí, não passou... 22 dias, deram uma surra, que ele chegou lá, se arrastando assim, sabe? Até com moleza, se arrastando, mas veio. Ele usava uns paletó. Eu tô vendo ele, paletó azul… O azul meu, tipo um linho, calça, sapato brilhoso, aqueles anel de advogado, tudo, e sabia falar… Um metro e noventa, moreno. Aí ele chegou e falou assim... E eu falei, “o que foi isso?” Ele falou, chegou de táxi, parou, “Venho do hospital. Não me pergunte quem foi, não me pergunte nada. Estou jurado de morte". Deram aquela surra, hoje com 22 dias. Aí mostrou, estava tudo enfaixado. E aquilo me deixou meio preocupada. Passou. Nesse dia ele saiu do Largo da Concórdia onde eu trabalhava e atravessou alguma escadinha. Os caras estavam esperando ele, mataram ele. Deram três tiros. Acabou. Isso marcou muito. Fiquei, sabe? Fiquei até uns tempos sem trabalhar, porque eu fiquei meio traumatizada. E assim, né? Foi acontecendo.
P/1 - Antes de você falar de mais outra pessoa, me conta um pouco como é que funciona vender coisa na rua?
R - Hoje ou antes?
P/1 - Quando você começou.
R - Quando eu começou, né? Tinha pouca... Na época, né? Quando eu comecei. Tem uns 56 ambulantes, né? Que tinham documento, né? Que era deficiente e pessoas aleijadas mesmo. Aí, depois que começou... A Erundina entrou, aí deu e documentou. Aqueles pessoas que estavam... Que foi… Deu uma pausa, né? Aí o pessoal entrou e começaram a marretar na mão, né?
P/1 - E vendia-se geralmente o quê nessa época, quando vocês chegaram lá?
R - Nessa época era cinto, era bolsa, era... O pessoal vendia calcinha na mão, vendia... As correntinhas daquelas de latão de latão, eram coisinhas poucas, porque, para não ser, os caras não levar, né?
P/1 - Mas vocês mesmos que faziam? Era todo mundo que fazia à mão ou não?
R - Não. Só com a gente comprava. Os caras entregavam. Entendeu? Que nem os cintos, eu comprava, eu trabalhava para o dono. Ele trazia e o meu dinheiro que eu recebia da mão de obra, eu não recebia dinheiro, eu recebia a mercadoria para me vender.
P/1 - E as pessoas que eram donas de barracas ou eram ambulantes, elas vinham de onde, geralmente? Eram mais nordestinos?
R - Tudo nordestino, não tinha nenhum paulista. Tudo nordestino, tudo cearense. Depois tinha potiguara, da minha terra, que eu não conhecia, depois fiquei conhecendo, porque o nosso estado é muito grande, capital. E todo... Aí começou a expandir, né? Aí depois da Erundina, a Erundina deu uma boa ajuda e documentou o povo e o resto ficaram trabalhando no corre, pagando uma propininha e continuação.
P/1 - E pra quem não conhece, isso vai ficar registrado, né? Como é que funcionava, mais ou menos, antes da Erundina, os ambulantes do Brás? Eles vendiam em que rua, como, para quem? Se você puder ensinar, para a gente.
R - Sim, é assim. Antes da Erundina, era o tempo do Jânio Quadros. Não, espera aí, Jânio Quadros. Não, quando eu comecei era... Jânio Quadros. Jânio Quadros era um demônio em forma de gente. Era uma praga. Pegou as bancas todas lotadas de mercadoria, Pegou, retirou, jogou num pátio, lá no mato, depois da Mooca, que não tinha nem coisa assim. Que os camelôs foram aí atrás, chegaram lá, aquelas bancas de ferro. Eles mandaram jogar lá. Estavam tudo lá jogadas. E umas incendiadas. Inclusive, o meu marido tinha uma, que era do seu... do Bentinho. Aí, quando chegou lá, não tinha mais nada. Estava tudo incendiado. E umas amassadas e jogadas. Tem umas que não tinha quase mercadoria, né? E se recuperou. Eles recuperaram, mas não mandaram reformar. Mas foi, né? Então a Erundina entrou e as coisas melhoram.
P/1 - E vocês vendiam pra quem mais? Quem que era o público?
R - Não, o público era o povão, né? Que vinha de trens, os caras eram... Povão. Povão.
P/1 - E vocês estavam ali no Brás e tem um monte de lojista lá também, né?
R - Não, mas hoje tá cheio de lojista. A maioria, a loja... Tudo é... Aquela loja caindo aos pedaços, né?
P/1 - Não era assim como hoje.
R - Imagina, hoje a coisa mudou, né?
P/2 - Vânia, qual que é a importância para você, da sua profissão?
R - Eu acho assim, é um trabalho digno, apesar de não ter... A gente era muito discriminado, você sabe, né? Camelô, você chegava em um lugar para abrir uma ficha para comprar, vamos dizer, uma televisãozinha das mais baratas, aí se falava que nossa ficha era fraca. Só que nós comprávamos e pagávamos. A gente era direito porque a gente comprava o que podia pagar. A gente terminava tendo que juntar o dinheiro. Depois ia lá e comprava isso. Entendeu? É uma profissão como qualquer outra. A partir do momento que você trabalha, é honesto, quer dizer, é uma profissão que… Quem tem essa profissão é porque não teve um estudo, não teve uma oportunidade na vida, né? Então eles terminam caindo e outros vão porque gostam de vida mais fácil. Que nem hoje, no Brás. Por que o Brás hoje está na invasão? Porque antigamente um jovem não trabalhava de ambulante. Hoje sai da loja para ficar no meio, entendeu? Porque não tem horário. Chega a hora que quer. É assim.
P/2 - Quando que você decidiu entrar nessa luta pelos ambulantes? O que que em você levou a...
R - É porque eu ficava muito revoltada, porque eu mesmo já perdi, eu tinha perdido, né? E eu já comecei a ser agressiva, comecei a ter agressividade. Eu enfrentava os fiscais. Aí naquele tempo tinha o GCM. Aí eles colocavam, pegavam a mercadoria daquele pessoal, coitado, tava com duas duzinhas de calcinha pra levar, entendeu? Pessoa sem dinheiro, com um monte de filho. Quer sobreviver, né? Aí levava umas duas duzinhas, três duzinhas. Às vezes a pessoa vinha com o saco, vê se comprava alguma coisa, né? Vinha da costureira, vinha com algum lugar. Os caras pegavam e levavam. Aí eu comecei a ficar muito revoltada. Aí eu me aliei com as duas amigas minhas. Vamos entrar. Quando eles colocaram a mercadoria no caminhão, vocês fazem a cobertura embaixo. E o Tetos guarda, conversa com o cara do caminhão, e eu subo para cima. Quem era prendido? Ali no Largo da Concórdia. Aí a gente tinha dois meninos. Avisávamos para eles irem. Vamos para o banheiro, lá perto do banheiro. Quando você vê a Vânia passar, passar a Vânia. Passar e a Olívia. E a Dona Maria. Vocês vai, aproximação, fica de longe. Porque a Vânia vai jogar a mercadoria. Você já esteja lá pra pegar. Aí eles pegavam essa coluna assim, dobravam. Aí quando eles viam, subiam. Aí uma vinha, a Olívia era mais arteira, ela tinha conhecimento de… Aí começava a perguntar. Aí a dona Maria vinha por outro lado. Aí começava a conversar com os dois guardas. Aí, enquanto isso, eu ia só. Aí quando os fiscais que vinham de outra apreensão, andando por dentro do Largo da Concórdia, perto do banheiro onde eles botavam o carro, gritavam, estão tirando a mercadoria do... Mas quando eles chegavam, aí que eu jogava. Aí começavam os camelôs. Os camelôs que estavam por ali, até pessoas que iam passando ali ajudavam, né? Aí eu jogava isso, pegando e jogando, jogava para o lado. Aí quando o guarda vinha para esse lado, eu jogava para o outro, e assim. Aí começou a luta, comecei. E assim quando deu continuidade, aí foi chegando mais gente. A gente foi se unindo, chamando o pessoal e começaram mais apreensão. Aí a gente virou... da luta, né? Vamos para a luta. Aí depois foi para o esquema, né? Que era pagar propina, né? A gente trabalhava a semana inteira, mas o sábado e domingo era o dia que dava mais movimento, era o dia de pagar eles. Então, a gente tinha que ir, entendeu? Agora, aqueles que, coitados, que chegavam e não sabiam que tinha um esquema, rodavam tudo, né? Aí, uma vez ele aprendido, a gente ia lá e fazia esse mesmo. Aí, o chefe já sabia que estava vendido, ele estava vendendo para nós. Aí, a gente ia lá e tirava a mercadoria. Que se não tirassem, eles levavam embora. Pronto, é isso. Aí terminou virando um movimento muito grande. Aí a gente começou a fazer, ir chamando, né? Os camelôs, pra se unir. Aí todo mundo foi e começou. Quando a gente foi ver, já dava uns 500 camelôs. De um ano pra outro. E assim.
P/2 - E que riscos você corre por estar nessa luta?
R - O risco hoje. Ficou perigoso, né? Porque eu já tive várias lideranças mortas. O que mais me corroeu é o Reinaldo e depois veio a Sandra. A Sandra era da Força Sindical. Ela se envolveu com um cara, esse cara era mafioso. Era aliado, acho que trabalhava com os lojistas, era segurança e lojista. Ela se apaixonou por ele. E, nessa paixão, o que aconteceu? Envenenaram ela com álcool. E a coisa que mais me marcou foi no dia do velório dela, que ninguém sabia o que era, pensando que ela tinha morrido de qualquer coisa. A mulher estava boa. No outro dia, a mulher estava no caixão. Aí, a gente acendeu as velas aqui. O caixão aqui, e aqui um castiçal, igual um negócio desse assim dentro. Chegou duas mulheres. Quando essa mulher foi chegando, o senhor acredita que o fogo foi em cima de uma mulher? Aí se apagou. Aí foi. Todo mundo falou assim. Cunhada do cara. Era irmã do cara. Aí começaram a desconfiança, entendeu? Porque o pessoal do prédio tinha visto ela lá à noite na casa da Santa, levando álcool. Aí acabou. Aí foi presa, depois soltaram, não teve ninguém para testemunhar. Foi por isso. Aí passou, aí veio mais outro menino, que eu esqueço o nome, grandão, que trabalhava na... Também entrou o Afonso. Na época, depois de 10 anos, entrou o Afonso. Denunciou a máfia dos fiscais. Denunciou o (?), denunciou vários, né? E ficou a... Ficou feio. Aí Afonso foi, deram três tiros nele. Lá no apartamento dele. Ele sobreviveu. Aí a boca, aí estourou a bomba, né? Mas até o subprefeito que tinha lá, ele pulou pela janela do... Lá na Mooca. Pulou quando a polícia federal chegou pra pegar. Tinha 18 fiscais amarrados um no outro. Aí foi prendendo em tudo quanto é lugar. Na Oriente, na Maria Marcolina. Aqueles que recebiam a propina, e dos camelôs, para passar para os fiscais, foram todos algemados. Dava mais de 30. Aí foi botando tudo no Largo da Concórdia. E carro da polícia era de todo lugar, prendendo gente. Aqueles carros pretos. Aí Afonso ficou visado, Afonso andava com 10 seguranças. Aí o que aconteceu? Um grande líder, um cara corajoso, um cara que nós fechávamos qualquer lugar. A gente ia nos movimentos. A gente não tinha medo de nada. Nós enfrentávamos a polícia. Nós enfrentávamos a guarda. Eu mesma já fui presa. Eu, meu irmão, meu cunhado. Nós fomos presos. Entendeu? Já respondemos há cinco anos. Por causa do GCM e da polícia. Porque a gente entrou em conflito e eles pegaram quem era o movimento. Entendeu? Que arrastava a multidão. Eram nós. Cabeça. Aí esperaram a gente. Prendeu. Fui presa. Acho que foi na época de quem? Do Pita. Faz muitos anos.
P/2 - E você se sente ameaçada hoje?
R - Eu nunca, não sentia. Eu tinha sido ameaçada por um lojista. Mas eu não tinha medo. Para mim, não era ameaça. Aí, quando começou a morrer os cabeça, eu fiquei com medo. Mas aí, depois, fiquei normal, fiquei na minha. Novamente, fiquei documentada. Hoje, eu tenho medo. Hoje, estou… Eu não sei por quê. A gente tem a família da gente. E vários acontecimentos aconteceram, né? De ameaças.
P/2 - Que ameaças?
R - Ameaças de pessoas chegarem e encostar até revólver já em mim. Eu vivo a 765, eu nunca vivi lá. Até hoje eu lembro. Tem noite que eu sonho. E hoje eu estou ameaçada de novo.
P/2 - Por quem, você sabe?
R - Porque entrou outras lideranças. Entrou outras lideranças, porque é o... Eu não sei nem se eu posso falar da máfia. Pode falar? E a máfia é muito grande, de propina, de dinheiro, de venda, de ponto, de tudo, né? Então, só permanece no Brás aqueles que entram no esquema. Ofereceram duas ruas pra mim pra eu entrar. Ele falou assim, você tem 100 mil todo mês, toda semana, garantido. Aí eu falei, “Eu não tenho trabalho para me receber, o que é isso?” Ele falou assim, isso é um pagamento. Você é uma líder, e você vai fazer o domínio com esse pessoal, e a gente vai fazer a cobrança. Eu falei, não, eu não quero. Eu estava trabalhando na madrugada. Aí começaram a me pressionar, sabe? Aí eu peguei e abandonei a madrugada, fui embora, fiquei três meses lá na minha terra. E quando voltei, eles voltaram a me procurar novamente. Aí as ruas estavam todas invadidas. Aí falou assim, a gente vai dar uma rua pra você, você não precisa, só aparecer de vez em quando, não precisa você aparecer todos os dias. Você não precisa trabalhar. Você vai deixar os seus dois pontos, a gente vende e a gente vai... Fazer uma cobrança. Você só vai passar de vez em quando nas bancas, duas vezes por semana, por ali, falando com o pessoal. Como você é conhecida, aí você é pra poder o pessoal. Aí eu falei, não, não quero isso. Faz o seguinte, eu tomo de conta vocês que eu não quero parte com ninguém. Deixa só eu trabalhar, me dê um espaço pra mim trabalhar. Aí eu fiquei trabalhando. Mas aí tomaram um ponto, vieram, pegaram um ponto, num que era dois. Aí veio o outro, aí quando eu chegava, quase todo dia tinha alguém lá no ponto. Aí eu tinha que ir lá falar com os meninos para vir tirar. Aí o que eu fiz? Eu falei, sabe de uma coisa? Eu vou abandonar. Aí eu abandonei a madrugada. Entendeu? Aí eu fiquei só de dia. Aí a coisa aí deu, montaram o sindicato, aí montaram... Aí entrou mais outros mafiosos, mataram o finado Afonso na época, né, e aí começou... O finado Afonso denunciava todos, né, os mafiosos. Aí começou a aparecer, né, mais gente, mais mafiosos e dominar a rua. Aí eu não sabia de onde partiam as ameaças. E eu comecei a sentir... Eu tirei meus filhos que trabalhavam junto comigo, tirei meus netos, tirei tudo. Aí agora eu tô vivendo… Hoje eu tô dormindo, está com 10 dias que eu durmo no hotel, lá na Guapira.
P/2 - Por quê?
R - Porque os caras estão me seguindo. Fizeram denúncia de mim, ela sabe. Eu venho sofrendo várias ameaças. Já fui até agredida assim. Eu tive que mudar até de ponto. Eu estou assim.
P/2 - E você consegue trabalhar ainda?
R - Consigo muito não. Hoje eu vivo mais é escondido dentro da loja do que trabalhar. No Natal eu trabalhei só 14 dias. Com medo. Qualquer pessoa que eu vejo assim, me cercando, vem e puxa pra trás da banca. Ou fica olhando, passando pra lá e pra cá, aí chama eu. Como é que você vai? Eu tenho uma mercadoria na frente da loja. Mas não tenho o rapaz de segurança. A pessoa quer que eu vou pra trás. Sendo que eu falei, não, a mercadoria lá é só o mostruário. Não, mas eu quero é o mostruário, vamos lá, que eu vou comprar. Aí eu pego, fico assim, meio cismada. Depois que eu comecei ver que eu estava, né, sendo ameaçada, porque eu já vim da Oriente. Já tinha sofrido ameaça na Oriente. Os caras tentaram, bateram, pegaram o meu carro, fecharam o meu carro. Me jogaram em cima da... Na hora que eu ia sair dos estacionamentos, os caras me pegaram. Aí eu corri. O segurança, um menino que trabalhava na rua, ele viu eu correndo e falou para os caras. O que é isso aí? Você não conhece isso aí? É nossa, você vai pegar a mulher? Aí os caras voltaram e entraram dentro do carro preto, com a placa tipo vermelha, mas era aqueles… Tipo aqueles caminhonetas, não, aqueles carros fechados, que saíram, um que saiu, antigo, e o pessoal falava que era igual um posto de gasolina. Aí me soltaram, batiam no meu carro, a vez de tentar bater, jogaram em cima de mim, aí eu saí por cima da calçada, por cima da calçada rasgando tudo. Aí eu estou fugindo assim, vivo assim, motoqueiro, me arrastou já, tentou me jogar na frente da moto. Outro carro tentou me atropelar. Eu tava andando assim, ó. Quando eu fui botando o pé assim, o cara veio de lá e jogou em cima de mim. Aí eu caí. Caí pra trás. Aí entrei dentro do bar. Mas aí levantaram a placa. Uma vez, aí só que eles não davam pra ver, porque a placa era fria. E moto, sempre com etiqueta... Tinha a moto que tentou me puxar. Ela estava com o adesivo, não estava com a placa legítima. Eu estava indo para casa um dia, os caras pegaram quando eu fui entrando assim no lado, os caras vieram e desceram. Quando desceram, eu passei a milhão, saía rasgando, rasguei o carro todinho. Aí fui embora, corri para dentro do posto, fui parar no posto. Aí eu entrei lá no Lava Rápido, no posto. Os meninos já estavam saindo. Eu falei para os meninos, os caras estão me seguindo, olha aí. Mas eles ficaram, passaram assim, entraram assim, mas não conseguiram me achar, que eu estava dentro do Lava Rápido.
P/2 - Mas hoje você tem que viver escondida.
R - Hoje eu vivo mais escondida, porque eu não posso mais lavar a garagem. Eu não posso mais pegar o ônibus só. Pego Uber, por dia, três, quatro vezes, com medo. E agora, esse fim de ano, eu trabalhei só 14 dias. (choro)
P/2 - Com todas essas ameaças, o que você acha que te dá força para continuar lutando?
R - Eu acho que é Deus que me dá força para me lutar. Cada vez eu tenho vontade de pegar aquele pessoal, que é o pessoal nosso, né, Nandinha? É muito pessoas, né? Você vê? Toma os pontos do pessoal, né? Para vender, aí depois foi mudando, entrando no sindicato, piorou, agora inventaram a Comissão Permanente, aí falaram... Fala aí, Nandinha, você não falou para ele não?
P/3 - Fala você.
R - Botaram o meu nome, com documento, pago, tudo certo. Falaram que eu tinha se vendido para a Regional da Mooca, para o subprefeito, para ganhar um ponto, que o ponto nem existia. Eu tinha ganhado o ponto porque tinha sido vendido, para não ajudar os camelôs. E o pessoal tinha que ir lá para poder quebrar a minha banca. Só que eu estava com 80 ações. Eu estava ajudando, eu estava trabalhando, eu estava correndo atrás. Aí não contei, jogaram em todos os grupos, jogaram nos grupos de dia, de noite, de tudo. Na rede social e tudo. Aí começaram a vir, a procurar, principalmente os noinhas que vinham. “E aí, tia, você está aqui agora?” Eu falei, não, eu trabalho muitos anos na rua. “Como é que você ganhou um ponto aí? Como é que você está se vendendo para os camelô? Se vendeu, é?” Eu falei, não, meu filho, eu tenho um documento faz mais de 40 anos. O povo que estão dizendo. “Você não tem medo de morrer, não, tia? Você está no Brás. Você vai morrer no Brás.” Eu falei, meu filho, a gente só morre num lugar, se Deus permitir. Quando você anda direito, Deus não deixa levar a sua vida. Olha, vê o que você... Me levanta aí. Eu falei assim, levanta meu nome em qualquer região por onde eu ando. Vê se eu tenho um envolvimento com coisa errada. Minha associação é sem fins lucrativos. Eu não roubo dinheiro de ninguém e nem estou com ninguém e nem nada. Quem tá querendo fazer isso é pra poder tomar o espaço de quem tem documento pra apreender. “É, fica esperta.” Aí eu falei, peraí que eu vou chamar o menino ali, segurança. Aí eles se pegaram. Entraram na bicicletinha véia e saíram. Mas é barra. O outro jogou a bicicleta em cima de mim quando eu entrando na Henrique Dias. Quando eu tô entrando na Henrique Dias, o moleque joga em cima de mim. A moto não, a bicicleta. Joga, entra de uma vez, joga aí. Aí eu pego e entro na loja de bolsa. Aí fico lá. Aí chamo o Uber, entro e vou embora. Só que o moleque foi embora, né? Então, várias tentativas, eu já sofri. Eu ia, atravessava pra lá, pro outro lado, pra ir no banheiro. Aí, quando der fé, vem aqui. Não tem umas motocas? Como é que o cara vem andando assim? Tá parado. Está parado lá, lá no canto. Aquela moto já tem passado duas, três vezes. Falei, que caramba, que cara. Falei, esse cara, o cara de óculos? Com o boné jogado assim… Falei, meu Deus, o que será que esse moleque quer? Aí eu fui, atravessei pra ir no banheiro. Mas, rapaz, quando eu atravessei pra... Eu fui atravessando, ele jogou a moto assim dentro das minhas pernas. Quando ele jogou dentro das minhas pernas, eu agarrei no pescoço dele. Quando eu agarrei dentro do pescoço dele, ele tentou cair, eu peguei, soltei e corri para entrar dentro do banheiro. Porque dentro do banheiro é trancado. Aí eu liguei para o menino vir. Aí o doidinho falou assim, “Ih, Dona Vânia, não tem ninguém aqui não.” Aí eu falei, senta, tá bom, vou embora. Aí eu peguei, saí, entrei por dentro, porque era um shopping lá, onde eu até comia. Hoje eu não como mais lá nem nada. E nem vou no banheiro. Eu pago um banheiro, é... Banheiro, vou lá, pago dois. Cada dia eu pago um banheiro. Evito até de ir tomar água, tomar chá, meus remédios. Às vezes tomo remédio até sem água. Pra poder não ter que ir no banheiro. Aí eu comecei a ficar ligeira. Aí começou a vir as ameaças. Aí vem novas ameaças. Aí essa daí eu fiquei com medo. É essa que eu tô com medo. Entendeu? Porque eles... Colocaram meu nome na CPA. Eu fui pelo Direitos Humanos. Como é o nome?
P/3 - Gaspar Garcia.
R - Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos. Aí entrei como fora dos ambulantes. Desde que abriu que eu estou lá, frequentando. Aí eu entrei. Aí você sabia que eles barraram nós, eu. Eu sou a liderança mais velha. Eu que luto, busco documento, pessoal documentado. Eu nem mexo com aqueles que não têm documento. Aí eu estou sofrendo essas ameaças, entendeu? Agora, esse fim de ano, né? Eu entro, quando eu vi os caras passando, agora a gente, tudo, a gente tem medo. Aí eu fui trabalhar, quando eu vi o cara, quando eu vi o cara, um ficou, assim, num canto e o outro ficou do outro lado. Aí quando eu fui entrar, que eu fui se aproximando, que eu dei a mão do ônibus, ele, pá, entrou. E o outro entrou atrás. Aí quando, aí o outro entrou atrás de mim. Aí eu falei Vixe Maria, o que será que esse cara vai fazer? Aí os caras chegou, o pessoal dele, como eu sou de idade, aí o senhorzinho, o senhor foi e tirou, senta aqui, senhora. Aí o filho dele se levantou e ficou em pé. Aí o cara ficou, o cara alto, aí o filho dele saiu do coisa e eu sentei lá, na cadeira. Aí o filho do homem foi e encostou perto do pai. Assim, né, ficou com o pai, assim, do lado, assim, atravessado. Aí o cara ficou assim, assim, pra lá e pra cá, assim, né? Aí eu fiquei assim com o celular, assim, com a capa, assim, né? Pra mim, eu tava vendo ele pelo... o negócio, não tem o retrovisor do ônibus? Aí eu vi ele olhando, olhando, aí o outro pegou, quando deve ser o outro, deu sinal pra ele. O cara lá atrás deu sinal. Aí fez assim. Aí desceram. Aí eu não fui mais. Aí eu tô dormindo. Tem 10 dias, mais de 11 dias eu tô dormindo no hotel
P/2 - A sua família sabe dessa ameaça?
R- Não, não tive… Tirei tudo dentro de casa. Não tem ninguém mais. Porque eu botei a casa à venda, né? E falei que tinha que cada um arrumar um local e mudar. Porque a casa tava à venda e eu ia entregar. E vocês procuram um lugar pra vocês morarem, eu falei com eles, aí eles foram, arrumaram o local e foram embora.
P/2 - Moravam todos com você?
R - Moravam todos nos fundos lá. Aquela área é grande, né? Minha casa é antiga. Aí eu botei a placa de venda.
P/2 - E foi todo mundo?
R - Foi. Só meu filho ficou nos fundos. Meu filho, eu não disse pra ele. Como ele é discreto, ninguém sabe, ele não anda muito no Brás. Ele é barbado, ele anda barbado. Ele anda, sabe? Chega em horário diferente, não tem, né? Ele chega e vai pros fundos, e eu que fico mais, né? Aí agora eu não lavo mais quintal, eu não lavo mais a garagem. Eu tô lavando minha roupa no banheiro. Dentro do banheiro dos fundos. Tô com 10 dias que nem tenho que ir pra casa lavar a roupa, então fazemos isso. É assim.
P/2 - E Vânia, o que você espera pro futuro?
R - É um... Qualquer hora, eu não sei. Eu oro a Deus todo dia. Não tenho muito futuro. Meu futuro só pertence a Deus agora. Só Deus para fazer livramento da minha vida. Porque eu sou uma carta marcada para morrer. (choro) E eu não posso levar a minha família junto por mim. Eu ficar viva. Que tire eu e deixe minha família em paz. Que não mexa com meus filhos, com minha família. Porque eu não aguentaria. O risco tem que ser meu. E eu tô aí lutando. Eu tô com as ações aí que tá pra sair. Se essas ações saírem, aí eu tenho que sair fora. Mas eu não consigo vender minha casa aqui. Minha casa é antiga. E o que vale é o terreno. E eu não tenho nem força. Antigamente eu andava na rua, eu descia, eu ia pra um lado, ia pra outro. Hoje eu vivo presa. Eu sou uma prisioneira, que tem medo de tudo. Quando eu tô no Brás, eu ainda, quando eu vejo a guarda, vejo tudo ali nos cantos, aí eu pego a minha praia, eu fico ali. Eu fico sempre ali onde eles estão. Quando eu vejo que não tem coisa, eu me escondo, senão eu não vou trabalhar. Estou assim, desse jeito.
P/2 - Você tem quantos netos?
R - Tenho cinco, quatro netas e um neto.
P/2 - Estão em São Paulo?
R - Todos estão em São Paulo, em bairros diferentes.
P/2 - Você convive com eles?
R - Não vou nem na casa de nenhum, porque eu tenho medo de seguir, saber onde eles estão. Eu não ponho o nome de meus filhos. Eu agora tenho dois celulares. Aí eu deixo um em casa, um antigo, que era do meu neto, e um que eu comprei e eles me roubaram. Me jogaram na banca. Eu fiquei horrorizada. Eu falei do roubo. O cara foi pago, no Natal, antes do Natal, para me levar meus documentos. O cara já estava dentro do saco. Vieram roubar meu documento. Roubaram meu celular. Roubaram. Enfim, vieram roubar meu documento. O cara já tinha tirado. Aqueles que catam negócio de rua, que fingem que é catador de lixo, com o saco branco nas costas. O cara não teve a ousadia de arrastar meu documento, gente. Eu também dei o cara. Só que tinha aqueles caras que descarregavam os caminhões, e os caras estavam lá. Se não, tinham tirado. Onde você vai parar com um negócio desse?
P/2 - Vânia, a gente está terminando, você queria falar algumas palavras finais? É a sua história que está sendo gravada.
R - Eu sei.
P/2 - Você gostaria de falar qualquer coisa…
R - Sobre o que, no caso?
P/2 - O que você quiser. Pensando que é a sua história.
R - A minha história é de luta, de trabalho, de honestidade, e sempre tentei ajudar as pessoas. E hoje eu ainda tenho um fortalecimento, porque desde que eu conheci o centro Gaspar Garcia, Doutor Dito e os companheiros, Nandinha, eu me sinto mais protegida. Mas se não fossem eles, eu nem sei o que já teria acontecido. Porque mesmo eles saberem que eu estou, entendeu? Que eu frequento esses lugares e eu tenho uma boa amizade, eu acredito que tem algo a fazer comigo no Brás, assim, pode fazer, tentar para assustar eu, que nem ultimamente eles fizeram. O que eles fizeram, eu gostaria que Nandinha mostrasse o que eles fizeram comigo. Os caras vieram para quebrar a minha banca, tocaram fogo na minha banca, na frente da minha banca. Você acha que você viveu... Tentando trabalhar para sobreviver, fazendo as coisas certas, ajudando aqueles que tentam trabalhar, que têm os seus TPUs [Termo de Permissão de Uso - do espaço público], para recuperar os TPUs desse pessoal, que são pessoas de idade, deficiente, esse pessoal. E hoje você tenta ajudar as pessoas, não tá envolvido em máfia, porque você não faz parte da máfia, você tem que morrer? Eu vou morrer por ser honesta e não tenho o que fazer. Então é triste assim. A tristeza é essa que eu tenho. Trabalhei tanto, lutei tanto pra hoje tá… Tá ameaçada e vendo qualquer hora minha família saber a notícia. E não poder falar pra eles. É isso. Só peço que Deus me ajude, me proteja e cubra eu e minha família, aqueles que nos cercam. Só isso.
P/2 - Cê quer perguntar alguma coisa, Lucas?
P/1 - Não, acho que não. Acho que… A gente geralmente termina perguntando lá o que você vê do futuro e o que você também achou de contar da sua história hoje?
R - Eu senti assim, segura-se, né? Aqui eu tô segura, né? Porque ninguém vai saber que eu tô aqui. Aqui eu sei, né? A Nandinha tá comigo, eu até gosto de estar junto com ela, com o Doutor Dito e com o pessoal, porque eu sinto mais forte pra poder falar, desabafar, porque eu nem queria dar entrevista pra ninguém. Quando ela falou, eu falei... Porque eu sei que eu... O que eu tô falando, eu sei que eu não posso… Posso até chegar amanhã sem saber a notícia, mas Deus não vai permitir que eu... É isso.
P/2 - Queria agradecer muito você pela confiança, dizer que a gente vai guardar esta história e antes de ela vir a público você vai ler, vai dizer o que você acha… De qualquer maneira é uma história que é importante que as pessoas saibam.
R- E sendo que essas pessoas que fazem isso são os mafiosos que querem dominar as ruas do Brás. Joga eu, meu nome no fundo do poço, mas como eu tenho um bom conhecimento, eu sou uma pessoa do bem. Porque se fosse uma pessoa que ninguém conhecesse, eu estou há 47 anos no Brás. Todo mundo sabe que eu sempre lutei a favor do ambulante. Sempre estive no meio, brigando, lutando, correndo atrás, fazendo política para ter ajuda. Eu já podia ter conta, pode ter certeza, que eu tinha sido o (?), que nem muitos já foram. Que tem o quê? Uns cinco meses que uma foi… Uma camelô que denunciou que estava sendo ameaçada. Os caras não demoraram. Deu três meses, eles foram lá e já apagaram. Mas como eu divido a minha amizade, eles temem também um pouco. Porque se eu não tivesse uma boa amizade, um conhecimento, uma vida bem de conhecimento, mas eu não tava mais viva, não. Mas eles querem me apagar. Mas Deus tá lá em cima, eu tenho certeza que Ele vai… A única esperança que eu tenho é que eu vendesse minha casa pra mim ir embora, sumir. Mas eu não posso sair, largar, sem nada. Com uma mão adiante e outra atrás. Depende se eu trabalhar, eu tenho dinheiro. Se eu não trabalhar, o que eu ganho? Não dá nem pra pagar os remédios, na aposentadoria.
P/2 - Tá bem, então.
P/1 - Obrigado, viu Vânia? Podemos fechar aqui.
R - Beleza, então. Obrigada por ter dado essa oportunidade.
P/2 - Obrigado você.
R - Pelo menos já foi gravado aqui e tem uma história minha. Se mais depois acontecer alguma coisa, né? Está aqui relatado.
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