Quando quis pensar numa história para contar, vieram-me logo à memória momentos da minha infância em casa dos meus avós. Filha única, neta única dos dois lados e sobrinha única. Filha de pais mais velhos, cresci sempre muito adulta, rodeada por adultos. Fui sempre tratada como ser humano pensante, crítico e criativo. Rodeada dos mimos todos a família, sempre que ia a casa dos meus avós esses eram redobrados pela minha avó Zelda. Fazia-me as melhores tostas de fiambre e mistas, envolvia o pão um pedaço de papel de prata e com as mãos fazia força contra o disco do fogão quente – não sei como não se queimava a fazer aquele processo – depois tirava da prata e entregava-me com muito cuidado para que não me queimasse. Depois juntava uns quadradinhos de chocolate no fundo da caneca do leite quente e mexia com uma palhinha de vidro - esse era o melhor lanche da vida, sabores que nunca esqueci e que vivem na minha memória.
Tinha em casa deles um quarto de brinquedos para onde ia durante a tarde, fazia desenhos, brincava com os bonecos – que deitava na cama construída pelo meu avô - e onde descansava a ver televisão com a minha avó, enquanto ela via as novelas e fazia o croché e a malha, com que também fazia as roupas das minhas bonecas. Hoje que está bastante idosa é essa memória de costura que mais lhe chega pois falta-lhe a destreza e a mobilidade para conseguir continuar a fazer o que tanto gostava. Tenho pena não ter aprendido com ela, mas guardo com muito carinho as caixas e caixas de toalhas, napperons e lençóis que me fez ao longo da vida que seriam para usar no dia da minha formatura e para o meu enxoval.
Na sala, o meu avô passava o dia sentado, desde que me lembro, no seu cadeirão grande no canto do quarto, junto da aparelhagem de música, dos seus livros e jornais. Cumprimentava-me sempre com um “passou bem”, nunca fomos muito de abraços, nem de beijos, mas não era sinal de frieza ou de menos amor, simplesmente...
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Quando quis pensar numa história para contar, vieram-me logo à memória momentos da minha infância em casa dos meus avós. Filha única, neta única dos dois lados e sobrinha única. Filha de pais mais velhos, cresci sempre muito adulta, rodeada por adultos. Fui sempre tratada como ser humano pensante, crítico e criativo. Rodeada dos mimos todos a família, sempre que ia a casa dos meus avós esses eram redobrados pela minha avó Zelda. Fazia-me as melhores tostas de fiambre e mistas, envolvia o pão um pedaço de papel de prata e com as mãos fazia força contra o disco do fogão quente – não sei como não se queimava a fazer aquele processo – depois tirava da prata e entregava-me com muito cuidado para que não me queimasse. Depois juntava uns quadradinhos de chocolate no fundo da caneca do leite quente e mexia com uma palhinha de vidro - esse era o melhor lanche da vida, sabores que nunca esqueci e que vivem na minha memória.
Tinha em casa deles um quarto de brinquedos para onde ia durante a tarde, fazia desenhos, brincava com os bonecos – que deitava na cama construída pelo meu avô - e onde descansava a ver televisão com a minha avó, enquanto ela via as novelas e fazia o croché e a malha, com que também fazia as roupas das minhas bonecas. Hoje que está bastante idosa é essa memória de costura que mais lhe chega pois falta-lhe a destreza e a mobilidade para conseguir continuar a fazer o que tanto gostava. Tenho pena não ter aprendido com ela, mas guardo com muito carinho as caixas e caixas de toalhas, napperons e lençóis que me fez ao longo da vida que seriam para usar no dia da minha formatura e para o meu enxoval.
Na sala, o meu avô passava o dia sentado, desde que me lembro, no seu cadeirão grande no canto do quarto, junto da aparelhagem de música, dos seus livros e jornais. Cumprimentava-me sempre com um “passou bem”, nunca fomos muito de abraços, nem de beijos, mas não era sinal de frieza ou de menos amor, simplesmente éramos assim. Eu, desde miudinha, que o olhava por entre as cadeiras da mesa de jantar e depois pegava num banco ou numa cadeira e pedia-lhe para brincar comigo. Ensinou-me a jogar cartas, xadrez, damas e dominó, e éramos capazes de ficar a tarde toda nisso, conversando sobre a atualidade e os jornais que ele lia. Queria sempre dar-me livros para ler, ficava encantado com o meu percurso musical e discutia os temas da atualidade dos jornais que lia. Com ele aprendi a ouvir, a esperar e a observar. Com ele percebi o valor do dinheiro, da vida e das relações. Da importância de sermos justos e honestos e de não vivermos fechados em nós mesmos. A sua militância comunista, mesmo antes do 25 de abril, trazia consigo histórias fascinantes de resistência e dedicação ao partido. Essa partilha que fazia comigo permitiu interessar-me e querer ver o mundo com outros olhos e hoje sei que muito do que sou hoje se deve a ele.
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