Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos
Depoimento de Ruy Gesteira
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 23 de Junho de 2008.
Realização Instituto Museu da Pessoa
Depoimento MBAC_CB_115
Transcrito por Flávia Penna
P/1 – Boa tarde, Ruy!
R – Boa tarde.
P/1 – Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R – O meu nome completo é Ruy da Silva Gesteira. Eu nasci no dia três de março de 1937, no Recife.
P1 – Ruy, eu queria saber qual é a sua formação.
R – Eu sou engenheiro civil. Estudei na Escola Politécnica da Universidade Católica de Pernambuco e me formei em 1961, quando fiz o concurso para a Petrobras. O meu primeiro contato, na realidade, com o petróleo foi quando eu li o livro de Monteiro Lobato “O Poço do Visconde”. E desde essa época, eu fiquei muito ligado em petróleo e, durante o meu curso, eu sempre pensava em fazer um concurso para a Petrobras. Fiz em 1961, fui chamado e em Janeiro de 1962, eu fui para Salvador, onde fiz o curso de Engenharia de Produção e Perfuração no antigo Cenap, que ficava na Rua Padre Feijó no Canela. Lá eu fiz um curso de um ano e três meses.
P1 – Esse curso era um Curso de Especialização?
R - Era um curso de especialização, uma espécie de pós-graduação, porque nas faculdades de engenharia nós não estudávamos nada sobre petróleo. Tínhamos uma cadeira de Geologia, mas não era voltada para o petróleo. Nesse curso, nós aprendíamos Geologia, aprendíamos as técnicas de perfuração, de produção, reservatório e depois tínhamos um período de quatro meses de estágio no campo. Era um curso muito interessante.
P/1 – E o estágio foi na Bahia mesmo?
R – Foi, na Bahia mesmo. Eu fiz esse estágio inicialmente em Candeias e depois em Água Grande. Fiz dois meses de perfuração e dois meses de produção. Foi um tempo muito bom, onde eu via na prática o que eu tinha...
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Depoimento de Ruy Gesteira
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 23 de Junho de 2008.
Realização Instituto Museu da Pessoa
Depoimento MBAC_CB_115
Transcrito por Flávia Penna
P/1 – Boa tarde, Ruy!
R – Boa tarde.
P/1 – Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R – O meu nome completo é Ruy da Silva Gesteira. Eu nasci no dia três de março de 1937, no Recife.
P1 – Ruy, eu queria saber qual é a sua formação.
R – Eu sou engenheiro civil. Estudei na Escola Politécnica da Universidade Católica de Pernambuco e me formei em 1961, quando fiz o concurso para a Petrobras. O meu primeiro contato, na realidade, com o petróleo foi quando eu li o livro de Monteiro Lobato “O Poço do Visconde”. E desde essa época, eu fiquei muito ligado em petróleo e, durante o meu curso, eu sempre pensava em fazer um concurso para a Petrobras. Fiz em 1961, fui chamado e em Janeiro de 1962, eu fui para Salvador, onde fiz o curso de Engenharia de Produção e Perfuração no antigo Cenap, que ficava na Rua Padre Feijó no Canela. Lá eu fiz um curso de um ano e três meses.
P1 – Esse curso era um Curso de Especialização?
R - Era um curso de especialização, uma espécie de pós-graduação, porque nas faculdades de engenharia nós não estudávamos nada sobre petróleo. Tínhamos uma cadeira de Geologia, mas não era voltada para o petróleo. Nesse curso, nós aprendíamos Geologia, aprendíamos as técnicas de perfuração, de produção, reservatório e depois tínhamos um período de quatro meses de estágio no campo. Era um curso muito interessante.
P/1 – E o estágio foi na Bahia mesmo?
R – Foi, na Bahia mesmo. Eu fiz esse estágio inicialmente em Candeias e depois em Água Grande. Fiz dois meses de perfuração e dois meses de produção. Foi um tempo muito bom, onde eu via na prática o que eu tinha estudado durante um ano. E nunca tinha acontecido comigo isso de ter uma prática do que eu tinha aprendido. Então, foi muito interessante. Depois desse estágio, eu fui designado para trabalhar na área de produção, na Região de Produção da Bahia, fui lotado no Campo de Água Grande, que ficava em Catú.
P1 – E quanto tempo o Senhor ficou lá na Bahia?
R – Eu fiquei na Bahia três anos, trabalhando na área de produção, no Campo de Água Grande.
P1 – E de lá da Bahia, o Senhor foi para onde?
R – Eu vim para o Rio, vim para o Depro, que naquela época era o Departamento de Produção. Depois, junto com o departamento de Exploração e foi criado o Dexpro, que funcionava na [Avenida] Rio Branco, número dez, quase na Praça Mauá.
P/1 – Chegando aqui no Rio, quais eram as atividades da Produção nesse momento?
R – A atividade de Produção aqui no Rio era mais de acompanhamento do que de execução. Esporadicamente, nós fazíamos alguns trabalhos para as regiões de Produção. Eu acompanhei aqui do Rio, o desenvolvimento do Campo de Carmópolis, em Aracaju. Também participei de um teste de produção no Campo de São João, no Maranhão, onde eu passei cerca de 25 dias. Era interessante porque era um acampamento num local que parecia um deserto, eram umas dunas de areia. Inicialmente, eu dormia numa barraca e, quando eu acordava, os olhos estavam cheios de areia. Tinha que tirar areia do olha porque entrava areia na barraca. Era muito interessante. Lá, nós estávamos testando um poço que se mostrou produtor de gás e, com o reservatório limitado, esse poço foi abandonado, não foi aproveitado.
P/1 – E tinha essa espécie de clima de aventura, de ir para alguns lugares pouco explorados no Brasil, meio desertos mesmo, como o Senhor está falando, não é?
R – É. Teve um fato interessante quando eu fui para esse campo. Eu fui para São Luis e lá peguei um teco-teco, um aviãozinho pequeno, para ir para lá. Era uma hora de teco-teco para chegar lá em São João e, no meio do vôo, quando eu olhei, o piloto estava dormindo. Eu fiquei apavorado e comecei a puxar conversa e a perguntar: “esse reloginho aqui, o que é?” E quando eu cheguei, que ele desceu, conversando com uns colegas que lá estavam, eu contei o que tinha acontecido e eles riram: “ah, é o Soneca! Você veio com o Soneca! Ele sempre faz isso: põe o avião no piloto automático e dorme.” (risos) Mas eu não sabia e fiquei apavorado...
P/1 – E como era a logística num lugar tão distante assim, que tinha areia que entrava ma barraca...?
R – É, mas a Petrobras tinha um apoio em Belém do Pará muito bom. Antes de ir para essa área, eu passei em Belém e verifiquei todos os equipamentos que a gente ia precisar e eles foram para lá. Quando eu cheguei, já estava tudo lá. Eles levavam de barco até próximo ao poço, e lá usavam uns caminhões de deserto, próprios para andar em deserto porque tinha uns pneus enormes, para chegar na alocação. Quando eu cheguei, já estava tudo lá, o trabalho foi só montar os equipamentos e iniciar o teste.
P/1 – Então, aqui no Rio, volta e meia o Senhor ia para algumas localidades, em outros estados ?
R – É, foram poucas vezes., na primeira fase. Eu comecei a me deslocar muito quando começou a produção na Bacia de Campos. Em 1977, entrou em produção o primeiro poço da Bacia de Campos, que foi Enchova.
P/1 – Antes, deixa eu perguntar como foi sentida a descoberta do primeiro poço, com Garoupa?
R – Ah, foi uma coisa muito boa para a Petrobras. Quando a Petrobras começou, quando ela foi criada, o que se dizia era que o Brasil não tinha petróleo, né, tecnologia, nem dinheiro para desenvolver a indústria do petróleo. A criação da Petrobras mostrou que tudo isso era balela. O brasileiro, quando acredita numa coisa, ele vai atrás e faz. E assim foi com a Petrobras. A Petrobras começou com a produção de dois mil barris por dia em Salvador, na área do Recôncavo Baiano, com uma Refinaria com capacidade para dez mil barris por dia. Hoje em dia, ela está com a produção em quase dois milhões, todo o consumo brasileiro é refinado no país e a Petrobras partiu para o mar, onde ela nunca ficou parada.
P/1 – Em Carmópolis, quando o Senhor estava lá, já tinha alguma coisa no mar?
R – Não, Carmópolis era em terra. No mar, começou com Caioba e Guaricema, já em 1968. Nessa época, eu tinha saído da Petrobras.
P/1 – Ah, é?
R – É. No início de 1968, eu resolvi, deu saudade e fui embora para Recife. Voltei para Petrobras em 1975, quando ela já tinha descoberto a Bacia de Campos.
R – O Senhor voltou por causa da descoberta?Como foi essa volta?
R – Não, eu voltei porque eu não estava satisfeito fora da Petrobras. Eu trabalhei no Porto do Recife, depois vim para o Rio de Janeiro, trabalhei numa firma de engenharia portuária, mas não me adaptei bem. Aí, tentei voltar para a Petrobras e consegui. Quando eu voltei, a Petrobras já tinha descoberto Garoupa, já existia um grupo, o Gecam, que estava desenvolvendo o Campo de Garoupa, mas eu não participei do Gecam.
P/1 – E o Gecam era Grupo Executivo...
R – Da Bacia de Campos.
P/1 – E esse grupo foi montado por ocasião da descoberta?
R – Descoberta de Garoupa, com o propósito específico de desenvolver um sistema para colocar o Campo de Garoupa em Produção. Eles começaram desenvolvendo o trabalho e, enquanto eles estavam fazendo esse trabalho, foi descoberto o Campo de Enchova. Foi perfurado o Poço de Enchova 1, que mostrou um potencial muito bom e foi resolvido que seria feito um teste de longa duração. Foi quando eu comecei a trabalhar na Bacia de Campos. Esse teste de longa duração teve uma duração tão grande, que a plataforma que foi colocada para ficar lá durante alguns meses, ficou vários anos e foi substituída quando foi construída a plataforma fixa.
P/1 – Isso foi em Enchova?
R – Em Enchova. Em Garoupa foi montado o sistema antecipado de produção com cápsulas submarinas. Foi um sistema que funcionou, mas que não se mostrou prático.
P/1 – O de Garoupa?
R – O de Garoupa. Com o tempo, ele foi desativado. A Petrobras não tentou mais esse sistema utilizando cápsulas submarinas e passou a usar árvore de natal molhada, que é um equipamento no fundo do mar, sem isolamento nenhum. Naquela época, quando precisava de alguma intervenção, como as lâminas d’água eram rasas, poderia se utilizar mergulhadores. Atualmente, eu não sei como é que está, porque são laminas d’água de mais de mil metros e não tem condições para o mergulhador trabalhar; eu acredito que eles usem mini-submarinos e veículos de controle remoto para fazer as operações necessárias.
P/1 – Ruy, então, existiram os dois poços descobertos e esses sistemas antecipados eram diferentes: o de Garoupa e o de Enchova?
R – É
P/1 – O Gecam estava trabalhando para Garoupa?
R – É.
P/1 – E quem era esse grupo que se dedicou a Enchova?
R – O Grupo que se dedicou a Enchova foi um grupo da divisão de óleo, da antiga Diol. Era um setor comandado por Salim Armando e do qual faziam parte o Zephyrino Machado, o Glauco Barbosa, o Luciano Castro, Luis Evanio Couto e eu. Depois vieram: José Antonio da Silva e João Siqueira. Esse grupo ficou encarregado de desenvolver o sistema de longa duração em Enchova. Como era um sistema mais simples, ele entrou em operação antes de Garoupa. O Enchova 1 foi o primeiro poço produtor da Bacia de Campos. Era uma plataforma semi-submersível, com uma planta de processo e um poço produzindo para essa planta. Em 1977, eu fui pela primeira vez a Enchova. Ela não estava produzindo, ainda estava no final da montagem. Eu passei um dia lá e voltei. Depois o Enchova 1 entrou em produção, mas houve um problema inesperado: ele produziu muita areia. Era uma areia muito fina, e muito abrasiva e provocou vazamento na tubulação de superfície, na tubulação que estava no convés da plataforma. Furou e teve vazamento de petróleo. Então, nós tivemos que parar para substituir essa tubulação. Foi quando eu fui para Enchova novamente. Quando eu cheguei, estava no final dessa operação. Os equipamentos tinham sido abertos e o que se tirou de areia de dentro dos vasos dava para encher alguns caminhões. Foi uma coisa impressionante! A areia foi tirada, os equipamentos foram limpos, foi instalado um desareiador – que era um equipamento próprio para poço que produzisse com areia, para retirar a areia - e aí nós abrimos o poço e o colocamos novamente em produção. Eu me lembro que estávamos eu e Zephyrino e, na noite em que esse poço foi aberto, São Pedro nos mandou uma tremenda chuva. A plataforma ficou cheia d’água, mas nós abrimos o poço e fomos abrindo bem devagarzinho para evitar uma velocidade grande no fluxo e para minimizar o problema da areia e controlando sempre. De meia em meia hora, nós pegávamos uma amostra para ver se tinha areia. Felizmente, nós levamos dois a três dias até levar a altura máxima de produção do poço e não houve produção de areia. Esse poço na época foi um recordista, produziu doze mil barris por dia – era um espanto! Hoje, eu acredito que tem vários poços na Bacia de Campos produzindo mais do que isso.
P/1 – Antes de começar a produção, veio a areia ou já veio alguma produção?
R – Não, veio com o petróleo. O petróleo arrastou a areia. Por isso que nós na segunda vez, tivemos muito cuidado abrindo devagarinho para evitar que o petróleo saísse muito rápido e arrastasse a areia. Depois, foi feita uma operação nesse poço, para colocação de um equipamento no fundo do poço, para evitar que a areia desmoronasse, que a areia viesse junto com o petróleo.
P/1 – Como é o nome desse equipamento?
R – Gravel pack. Esse equipamento funcionou, mas reduziu a produção do poço. A produção do poço foi reduzida por causa desse equipamento. Nessa época ainda não existia o Gespa. Era esse grupo da Diol. Nessa mesma época, nós colocamos também em operação um navio petroleiro amarrado a quatro bóias. Era uma coisa em alto mar que nunca tinha sido feita no mundo. Muita gente achava que era impossível.
P/1 – As bóias serviam para ele ficar parado?
R – É para ficar parado. Ele ficava amarrado nas quatro bóias: duas na popa e duas na proa. Então, ele ficava estático. Quando as ondas ou o mar pegavam ele de lado, o petroleiro sofria muito. Inicialmente, foi colocado um navio muito grande e, antes de começar a produção, as amarras não suportaram. Isso só foi possível quando foi colocado um petroleiro menor. O petroleiro ficava cerca de uma semana e estava cheio. A gente tinha que fechar o poço para trocar o navio. Foi quando veio outra idéia considerada maluca e que, depois de muita discussão, foi colocada em prática. Era levar um outro petroleiro vazio, amarrar em duas bóias e ficar segurando com o rebocador, e passar a produção que estava no petroleiro do quadro de bóias para esse navio.
P/1 – Para aliviar...
R – Para não precisar fechar o poço;
P/1 – Esvaziava?
R – É. Então, deu certo, funcionou e ficou sendo feito assim, até que foi instalada uma monobóia. Novamente, uma monobóia em alto mar, a 120 metros de profundidade e não existia outra no mundo. Felizmente, deu tudo certo, a monobóia funcionou.
P/1 – A monobóia servia para quê?
R – A monobóia substituiu o quadro de bóias. O navio petroleiro ficava amarrado na monobóia. Era uma bóia única que permitia que ele girasse 360 graus. Com isso, ele estava sempre na melhor posição possível para atracar, então tinha muito problema de mar ou de vento. E nós fizemos também a tentativa de transbordo e deu certo, então não precisava substituir o petroleiro que estava na monobóia, era feito o transbordo. Ia outro petroleiro – aí já eram petroleiros maiores, a monobóia suportava petroleiros maiores, e nós usávamos a monobóia. Tudo isso foi paulatinamente, passo a passo. Eu acredito que daí é que a Petrobras começou a desenvolver a técnica de produzir no mar e que terminou, como a gente sabe, sendo hoje a primeira no mundo. A Petrobras já recebeu dois prêmios por causa isso e está agora em águas consideradas ultra-profundas, já tem a tecnologia.
P/1 – Ruy, me conta, você falou de uma passagem muito bonita, de vocês irem testando. Como é que se davam essas experiências, vocês se reuniam, discutiam, iam testando?
R – Isso era discutido primeiro aqui no Rio, no Edise, lá na Diol, era muito discutido. Muita gente não acreditava... outros acreditavam. O problema do transbordo, de passar do navio que estava no quadro de bóias para o outro navio, foi um problema que inicialmente o próprio Detran – que na época era o responsável pela Fronape – achou que a gente não devia fazer. Eu não sei de quem foi a idéia, mas o pessoal lá da Diol, principalmente o Salim Armando e o Zephyrino, quando botavam uma coisa na cabeça era difícil... Quando eles se convenciam que podiam fazer, que era possível, era difícil tirar da cabeça deles. E apareceu um comandante da Fronape, o Cleber Kalil. Ele era aposentado, mas era dessas figuras... Eu não sei se ele deu alguma entrevista, mas ele tem muita coisa para contar.
P/1 – Você pode repetir o nome dele?
R – Cleber Kalil.
P/1 - Cleber Kalil?
R – É. Ele era uma figura folclórica. Quando ele chegava em Garoupa e Enchova, todo mundo da área já sabia, porque ele pegava o rádio e se anunciava. E ele topava esse tipo de trabalho, gostava de desafios. Para contar uma passagem, antes de ir para Garoupa e antes de ir para Enchova, ele trabalhou num quadro de bóias em Alagoas. A Petrobras instalou um quadro de bóias em lâmina d’água de 20 metros e ele foi lá amarrar um petroleiro e precisava levar uma amarra para entregar ao rebocador. E não tinha como levar. Aí, ele virou-se para um auxiliar dele e disse: “você vai nadando.” O cara: “eu não sei nadar...” Ele “sabe.” E jogou o cara dentro d’água. O cara não sabia nadar. Ele teve que pular para tirar o cara e depois ele que levou a amarra, nadando e entregou a amarra no rebocador. Ele era uma figura e topava essas coisas. Então, quando ele foi chamado lá na Diol, ele disse que topava amarrar o navio. Foi quem sugeriu diminuir o tamanho do navio e deu certo. Então, era uma coisa muito discutida na equipe. Era uma equipe que discutia, não tinha um dono da idéia.
P/1 – Esse navio, o Senhor contou que posicionado de lado, as ondas batiam...então ele tinha que ter um certo posicionamento...
R – É, o quadro de bóias não permitia isso, por isso que nós passamos para monobóia, porque a monobóia era uma bóia que ficava amarrada, seis ancoras. Ela ficava fixa, mas ela tinha um equipamento giratório que era onde o navio era amarrado. Então, quando o navio tentava ir para o lado, ela permitia isso. Se o mar empurrasse o navio para o lado, o navio ia e girava em torno da bóia. O petróleo vinha por baixo da bóia, a tubulação subia por baixo da bóia, e da bóia tinha um tubo flexível que ia para o navio e que girava junto com o navio. Então, não tinha problema ele girar.
P/1 – Isso que é chamado posicionamento dinâmico?
R – Não, não. Isso é monobóia. O posicionamento dinâmico é o navio que tem computadores a bordo e, além do hélice traseiro, tem um hélice lateral. Esse computador controla os hélices de maneira a compensar os movimentos que o navio tenta fazer. Se o mar empurra o navio para o lado e a gente quer que ele fique aqui, esse equipamento, imediatamente traz o navio de volta para a posição. Isso é controlado por satélite. É um sistema muito sofisticado.
P/1 – E mais moderno que esse utilizado inicialmente.
R – É. E é mais caro. Na época, nós nem pensamos em usar porque era caro. Nós tínhamos um navio que tinha posicionamento dinâmico, mas era para lançamento de linhas flexíveis. Esse navio tinha posicionamento dinâmico, era orientado por transponder e seguia a rota traçada rigorosamente.
P/1 – Ruy, o Gespa tomou corpo como Gespa em que momento? Você falou aqui na Diol, a divisão de Óleo, quando que tomou esse nome: Gespa?
R – Isso foi em 1982, quando já eram vários sistemas – tipo Enchova – que estavam sendo projetados.
P/1 – Por esse mesmo grupo?
R – É. Aí, surgiu a necessidade de aumentar o efetivo e a Diol – o setor que fazia isso – já não tinha mais condições de ser ampliado. Então, foi criado esse grupo e três supervisorias. Cada uma supervisoria era responsável por alguns projetos.
P/1 – Você se lembra o nome dessas supervisorias?
R – Era Supervisoria 1, Supervisoria 2 e Supervisoria 3. Cada Supervisoria tinha um grupo de engenheiros e, para dar apoio a esse grupo, nós tínhamos desenhistas e o pessoal da secretaria. O chefe do Gespa era o Salim Armando.
P/1 – Então, pode-se falar que Enchova saiu primeiro que Garoupa?
R – É.
P/1 – P/1 – Você pode também falar um pouquinho sobre isso? Qual foi o diferencial de Enchova para Garoupa?
R – O diferencial foi a simplicidade do sistema. Porque o sistema de Garoupa, como eu disse, tinha vários poços, eu não me lembro se eram oito...Para cada poço, tinha que ser instalada uma cápsula submarina que ficava em cima do poço e, dentro da cápsula, ficavam os equipamentos do poço: a árvore de natal, o conjunto de válvulas que iam controlar o fluxo. Dessa cápsula, saiam as linhas de produção para uma outra cápsula, também no fundo do mar, que recebia todas as linhas de produção do sistema. E, dessa cápsula, então, subia para uma torre, uma tubulação levando o petróleo produzido. Dessa torre, ela ia para o navio Prudente de Morais, onde o óleo era processado. Do [navio] Prudente de Morais, volta para o fundo do mar e subia numa outra torre, onde ficava amarrado um petroleiro que ia buscar esse petróleo. Todo esse sistema para montar, era muito complicado. Para colocar uma cápsula dessas no fundo do mar, precisava da sonda e de uma balsa de serviço. Isso precisava de condição de mar muito boa, o que atrapalhava muito, porque o mar nem sempre ajuda. Mesmo nos sistemas simples lá do Gespa, às vezes a gente perdia tempo esperando boas condições de mar, de vento. E lá em Enchova era pior, afetava muito mais. Isso demorou, atrasou muito o sistema. Já o sistema de Enchova consistia numa plataforma de perfuração, que já estava pronta, um vaso de separação de óleo, gás e água, um tanque, um ______tanque para onde ia o óleo, que ainda levava um pouco de gás – a gente tirava esse gás do ___tanque – e daí já ia para o petroleiro. Tudo pela superfície. Era um mangote flutuante, tudo pela superfície, a gente estava vendo tudo. Era mais simples.
P/1 – Então, o diferencial era a simplicidade mesmo.
R – Foi. A diferença foi essa. Tanto que a Petrobras abandonou o sistema de Garoupa que não foi usado em outras áreas. Eu acredito que não foi mais usado em lugar nenhum do mundo depois de Garoupa. Enquanto que os sistemas antecipados que o Gespa passou a montar, alguns até hoje estão produzindo petróleo.
P/1 – Vocês tiveram a inspiração também de algum modelo? Do Mar do Norte? Como foi?
R – Tinha um que eu acho que era na África ...Tinha um no Mediterrâneo...
P/1 – Porque era tudo muito novo, não é?
R – É. No Mediterrâneo tinha um que eu cheguei a visitar o Campo de Dourado.
P/1 – Vocês foram para ver o que tinha? Como era isso?
R – É, eu fui, mas quando eu fui, nós já estávamos em produção. O Zephyrino e o Salim, que foram os dois que começaram, viram na literatura e viram que era possível. E foi feito. A diferença é que lá era no Mediterrâneo, que é um mar fechado, o mar é muito calmo. O sistema funcionava. Eu fui lá em 1979, dois anos depois de Garoupa entrar em produção. Dois anos depois.
P/1 – Tinham estrangeiros? Como é que era a logística? Navios... vocês estavam precisando começar tudo do zero, como vocês foram montando essa logística entre Rio, Campos e navio...A Fronape supria toda a necessidade?
R – Não, a Fronape entrava com os petroleiros. As plataformas eram alugadas, eram estrangeiras.
P/1 – Como era o nome do navio usado para a produção de Enchova?
R – Não, era uma plataforma, não era navio.
P/1 – Pois é.
R – Era Sedco. Sedco 35-D. Era uma plataforma de perfuração que a Petrobras alugou e nós entramos em negociação com a Sedco e eles permitiram a construção dos equipamentos para um teste de longa duração. Eles também achavam que ia ser um teste que ia demorar alguns meses. Eles não sabiam que se tornaria definitivo, mas depois eles aceitaram. Eu não sei se essa plataforma ainda está na Petrobras, mas eu acho que ainda está alugada, eu acho que ela permanece até hoje.
P/1 – Foi incorporada, de certa forma, a Petrobras?
R – Eu não sei. Não sei se hoje está alugada, se ela é da Petrobras. Algumas plataformas que foram usadas já foram embora do Brasil, mas foram substituídas por outras.
(pausa para troca de fita)
P/1 – Retomando a nossa entrevista, o Senhor estava contando das plataformas alugadas pela Petrobras. Vinham técnicos estrangeiros também para trabalhar com vocês? Como era?
R – Vinham, porque nos contratos os donos das plataformas faziam a exigência que o pessoal que fosse operar a plataforma, não na produção, mas na operação da plataforma em si. Existe uma série de operações numa plataforma semi-submersível que eles não abriam mão: o balanceamento na plataforma para ela ficar nivelada, o posicionamento, se houvesse necessidade de utilização de algum equipamento de perfuração, eles faziam questão de usar. Então, ficava essa equipe. Essa equipe, inicialmente, ficava ociosa até que surgiu a idéia: “já que esse pessoal está aqui sem fazer nada, vamos botar eles para pintar a plataforma, para fazer manutenção”. E eles topavam, porque eles ficavam vinte e poucos dias no mar e ficar vinte e cinco dias do mar sem fazer nada, ninguém agüenta. Então, eles faziam esses serviços sem reclamar. O serviço de guindaste também era deles. O operador do guindaste era deles. Era muito engraçado porque tinha uma norma que dizia que toda vez que alguém fosse descer na cestinha para um rebocador, tinha que ir de colete salva-vida e capacete. E os mergulhadores ficavam revoltados porque de vez em quando eles tinham que ir para a plataforma e o guindasteiro não levava, não mexia na cesta enquanto eles não botassem o colete salva-vida e o capacete. Quando eles desciam, desciam fazendo continência para o guindasteiro. Era muito engraçado. (risos)
P/1 – Ruy, eu não te perguntei como foi a sua primeira sensação de embarcado. Qual foi o seu primeiro embarque?
R – Ah, foi muito boa, eu gostei muito.
P/1 – Foi para Enchova mesmo?
R – Foi, foi Enchova. Eu fui e fiquei lá um dia para conhecer e vim embora, mas sempre pensando em voltar. Eu gostei muito, desde a primeira vez.
P/1 – Como é que vocês iam para lá naquela época?
R – De helicóptero. Inicialmente ia para Campos e em Campos pegava o helicóptero para a plataforma. Eu acho que a pessoa para trabalhar na plataforma, se não gostar no primeiro dia, dificilmente se adapta. Eu vi colegas meus chorando para vir embora porque não agüentavam. No Espírito Santo, teve um engenheiro que chegou a pular dentro d’água e sair nadando. A sorte dele é que a correnteza o levou para a direção de uma bóia. Lá da plataforma dava para avistar a praia, só que eram 20 quilômetros. Ele achava que ia nadar os 20 quilômetros. Foram buscá-lo na bóia e, no outro dia, meteram ele no helicóptero e mandaram para terra. Realmente, a pessoa que não se adapta logo de saída é muito difícil a pessoa ficar... Eu não, eu cheguei a ficar 21 dias numa balsa de serviço, não foi nem numa plataforma. E, o pior: 21 dias aguardando que o tempo ficasse bom para fazer o serviço.
P/1 – E como é a estrutura de uma balsa de lançamento? É um mini-navio, como é?
R – A balsa é uma chata como essas que ficam na praia de Copacabana no Reveillon, só que em cima ela tem um guindaste enorme e tem equipamentos para lançamento de oleodutos, de tubos. E dentro da balsa, no porão, são os alojamentos, onde a gente fica para dormir, fazer as refeições. Lá em cima é a área de serviço, onde se trabalha.
P/1 – O Senhor gostava, então.
R – Eu gostava, nunca achei ruim. Nunca fui para uma plataforma doido para voltar.
P/1 – E como era o convívio entre os colegas nesse tempo?
R – Era bom, era muito bom. Tinha muita brincadeira.
P/1 – O Senhor se lembra de alguma?
R – Uma vez fizeram uma comigo, que eu jurei que ia pegar o cara mas nunca consegui pegar.
P/1 – Por quê?
R – Eu estava numa plataforma e precisei ir para uma outra plataforma. Fui, pensando que ia voltar no mesmo dia e não voltei. No dia seguinte, eu sabia que ia um engenheiro da plataforma de onde eu sai, lá para onde eu estava. Eu falei com o colega: “por favor, manda a minha escova de dentes porque eu estou aqui que não agüento!” Aí, ele mandou a escova de outra pessoa e eu fiquei uns cinco dias sem escovar dente! Quando eu cheguei na plataforma, ele já tinha desembarcado e eu esqueci da história. (risos)
P/1 – Naquela época ainda não tinha um quiosquezinho, não é?
R – Não, não tinha não. A gente tinha que levar tudo o que ia precisar porque se faltasse lá...
P/1 – Mas era uma centralização de pessoas diferentes, não é, o Senhor de Recife, o Zephyrino, os estrangeiros... Como era?
R – Nunca teve problema, não. Às vezes, com os estrangeiros dava algum ruído, mas logo era contornado. Eu me lembro que lá em Enchova 6, eu fui colocar em produção um poço e o auxiliar do pusher...
P/1 – Pusher?
R – O pusher era o chefe da plataforma da parte de perfuração. Então, eu senti que o auxiliar dele estava desacreditando do que a gente estava fazendo. Teve um dia que ele fez um trabalho e que eu achei muito bem feito e eu disse: “vou dar os parabéns para esse cara.” Quando eu falei, ele disse: “ah!” Como quem diz: “besteira!” No outro dia o poço ia entrar em produção e ele não acreditava. Ele foi dormir e, de manhã, quando ele acordou, olhou para o queimador e viu o gás queimando limpinho, tudo funcionando, ele balançou a cabeça e passou a respeitar o pessoal que estava lá. Tinha essas coisas, mas dava para levar sem atrito. Quando eles viam o que a gente fazia, eles passavam a respeitar. No dia em que houve o transbordo, tinha muito estrangeiro na plataforma.
P/1 – Foi o primeiro transbordo?
R – Foi, lá em Enchova. Estava cheio de estrangeiro, cheio de gringo. Tudo com caderninho na mão. Chegava um rebocador eles perguntavam: “que rebocador é esse? O que ele está fazendo” E anotavam porque eles não acreditavam que ia ser possível.
P/1 – Qual foi a sensação que o Senhor e o grupo todo experimentava cada vez que uma experiência dessas dava certo?
R – Era muito bom!
P/1 – Me conta um pouco. Qual foi a mais emocionante para o Senhor?
R – Para mim, a mais emocionante foi num campo que não me lembro mais o nome – a minha cabeça às vezes falha – numa plataforma que veio da África. Ela chegou aqui aos bagaços. Então, nós recuperamos o que foi possível aqui na Baía da Guanabara, levamos para a Bacia de Campos e lá terminamos o serviço. Eu era o Supervisor dessa plataforma, era o responsável. No dia que foi entrar em produção, eu fui para lá. Eu chorei quando...
P/1 – Ela começou a produzir.
R – É. Quando eu vi o óleo correndo, eu chorei, Fui para um canto e chorei. Outra vez também, nessa plataforma, nós tínhamos que ter um equipamento para a conexão das linhas submarinas. Esse equipamento vinha a bordo de um barco e nós pegávamos com dois guinchos na plataforma e suspendíamos para ligar com o equipamento que estava na plataforma. Nesse dia também foi muito bacana, porque os dois guinchos estavam posicionados, eu fui para um guincho e um colega foi para o outro guincho. Só que esse colega, na hora, ficou receoso, virou-se para mim e disse: “eu tenho filho para criar! Eu não vou ficar aqui não!”
P/1 – Ele tinha medo de que? De um blowout?
R – Não, ele tinha medo que o guincho não suportasse, que arrebentasse o cabo e pegasse ele. Eu vi que não podia parar e disse para ele: “vá, vá embora”. Aí, eu fiquei nos dois guinchos. Eu consegui controlar os dois guinchos e o equipamento chegou lá. Também me deu uma alegria enorme, foi muito bom. Foi uma satisfação grande, mas nesse dia eu não chorei não.(risos) Outra passagem também que mexeu muito comigo foi nessa balsa de serviço. No dia que nós tivemos condições de fazer o serviço, de manhã cedo o mar estava uma lagoa, quando foi no fim do dia, o mar estava brabo e atrapalhou muito e o serviço não foi concluído como a gente queria. À noite, a gente precisou soltar o equipamento que estava no fundo do mar. Então, estávamos eu e o Zephyrino na balsa e o Zephyrino resolveu ir para o barco onde tinha o equipamento de televisão para verificar como é que estava lá no fundo do mar e ir orientando. Só que já eram umas oito horas da noite, já estava escuro, o mar estava muito brabo e veio um barco inflável do rebocador buscar Zephyrino na balsa. Eu fui com ele até o ponto em que passava para o barco e fiquei segurando uma corda para segurar o barco, para mantê-lo ali. O Zephyrino pulou. Quando o Zephyrino pulou, veio uma onda que puxou o barco. Ai, eu senti: “se eu seguro esse barco, ou cai todo mundo dentro d’água ou eu vou para dentro d’água, ou o barco me arrasta”. Então, eu joguei a corda para dentro do barco, que sumiu na escuridão. Eu fiquei uns dez minutos apavorado, corri para a sala do rádio até que o Zephyrino chamou. Ele tinha chegado no rebocador.
P/1 – Mas nisso ele estava dentro do mar?
R – É, ele foi no barco inflável e chegou lá no barco onde tinha a televisão e tinha rádio, e avisou. E estava programado que eu ia depois. E eu estava lá dizendo: “eu não vou não”, quando o Zephyrino ligou dizendo: “Ruy, eu já cheguei aqui, mas não venha não porque está muito perigoso.” Foi o maio alivio...porque eu ia dizer para o Zephyrino: “Zifa, me desculpa, mas eu não tenho a tua coragem, não.” (risos)
P/1 – Essa foi uma das maiores dificuldades que o Senhor passou?
R – Foi, foi.
P/1 – Me conta também, o primeiro óleo produzido, o que o grupo sentiu terem sido os pioneiros mesmo?
R – O grupo ficou, como eu disse, muito satisfeito e disposto a fazer mais. O Grupo não parou porque quando colocou em produção, a programação era produzir, encher o petroleiro, fechava o poço o petroleiro ia embora, vinha outro, abria o poço novamente. Aí, a gente começou a pensar: “será que a gente vai ter que fechar esse poço sempre? Tem o problema da produção de areia, toda vez que vai abrir o poço é uma dificuldade...” Começaram a surgir idéias. Vieram sugestões até de colegas do Detran, mas sempre os chefes maiores cortavam. Até que não sei quem conseguiu convencer alguém de pelo menos tentar o transbordo. Foi outra vitória do Grupo que foi comemorada. Nesse dia do primeiro transbordo, eu e o Zephyrino estávamos na plataforma. A gente sempre colocava pessoas do Grupo quando tinha uma operação diferente, que nunca tinha sido feita. Sempre ia gente do Grupo, a gente sempre tomava a responsabilidade. Isso sempre foi feito. Eu não me lembro de fracasso...não me lembro não. Pode ser muito convencimento, mas não me lembro. Teve essa operação lá de Enchova, que eu contei que o mar ficou ruim, que realmente não ficou perfeita. Houve problemas, mas o Grupo se reuniu e, depois, o equipamento que foi para o fundo do mar foi usado, não foi perdido. Isso também devido à simplicidade, não tinha muita complicação, podia ir mergulhador. Nós tínhamos um problema com mergulhadores porque em certas ocasiões, eles não podiam trabalhar. Eles ficavam muito tempo embaixo d’água e depois tinham que descansar. Então, foi oferecido um equipamento que era para o mergulhador ficar submetido à pressão atmosférica. Ele podia trabalhar o dia inteiro, voltar, ir de novo, não tinha problema. Esse equipamento no dia em que foi testado foi muito engraçado. Parecia um robô. Era um escafrando, melhor dizendo, enorme. Ele pesava mais de 200 quilos, mas dentro da água ele ficava leve. O mergulhador entrava ali, fechava e ele ia pendurado até o fundo do mar. Quando ele chegou no fundo do mar, tinha muita lama e ele afundou até o joelho e não conseguia andar. Para ele se deslocar, o que se fazia? Suspendia, a plataforma era movida: “um metro para frente!” Puxava nas âncoras. “Desce de novo!” Aí ele descia e afundava. Até que chegou num lugar em que ele chegou e ficou bem, pode fazer o trabalho dele e voltou. Aí, nós desistimos desse equipamento. Um dia, eles estavam fazendo uma manutenção nesse equipamento e perguntaram,: “quer entrar na roupa?” Aí, eu disse: “vou entrar.” Quando eu entrei, eles fecharam a tampa e eu fiquei apavorado lá dentro: “esses caras vão me botar dentro da água!” (risos)
P/1 – Uma claustrofobia...
R – É.
P/1 – Ruy, qual foi a parte da produção que vocês acompanhando lá na Bacia, falaram: isso vai dar certo?
R – Eu acho que foi quando foi feito o sistema ampliado de Enchova, quando foi colocado o template – esse equipamento que eu falei – e vários poços foram colocados em produção. Aí, que a gente viu que podia usar uma plataforma e, em vez de produzir um único poço, produzir vários. A gente colocava no template, quatro ou seis poços e colocava outros com a árvore de natal molhada, então tinham vários poços produzindo. A limitação passou a ser o tamanho da plataforma para os equipamentos que a gente precisava em função do volume que a gente queria produzir. Hoje, eu sei que tem sistema flutuante que produz 180 mil barris por dia. Naquela época, quando chegava a cinqüenta mil barris, era uma alegria.
P/1 – Além de Garoupa e Enchova já tinham outras descobertas?
R – Teve, teve Pampo, Piraúna, Bonito, vários sistemas. Foram vários sistemas.
P/1 – E que vocês já foram colocando em série.
R – Colocando e também indo para laminas d’água maiores. O limite naquela época, como a gente trabalhava com mergulhadores, estava em 300 metros que era o limite para o mergulhador trabalhar.
P/1 – Lá na Petrobras o Senhor ficou acompanhando a Bacia até...
R – Quando eu me aposentei, em 1982, já estava em mais de 500 metros.
P/1 – Já estava em mais de 500 metros?
R – É, mas aí eu já tinha saído do Gespa. O Gespa continuou, mas eu tinha saído.
P/1 – Do Gespa o Senhor foi para onde?
R – Eu fui para o Setor de Serviço de Recuperação Secundária e Terciária, que era um serviço para aumentar o fator de recuperação de um campo de petróleo.
P/1 – Ligado à Bacia de Campos?
R – Não, aí não era mais ligado à Bacia de Campos. Tinham campos na Bacia de Campos, mas tinha também no Rio Grande do Norte, na Bahia. Um campo de petróleo quando é descoberto, ele tem o que se chama fator de recuperação. Não se recupera 100 por cento do petróleo existente. Quando o campo é muito bom, pode-se chegar a 20 ou 30 por cento do petróleo que existe. Se a gente toma algumas medidas como injetar água, injetar gás, injetar vapor, aumenta esse fator e ele chega perto de 50 por cento. Então, eu fui trabalhar nesse setor.
P/1 – Então o Senhor saiu do Gespa e foi direto para esse setor?
R – Foi.
P/1 – O Gespa ficou até que ano?
R – O Gespa?
P/1 – É.
P/1 – Eu não sei até que ano existiu o Gespa. Eu fiquei no Gespa até 1985.
R – Mas depois que o Senhor saiu, ele continuou?
R – Continuou. E eu ainda fiquei sete anos nesse setor, o SEREST.
P/1 – Perdão, pode repetir?
R – SEREST.
P/1 – Serest?
R – SEREST. Setor de Recuperação de Secundária e Terciária.
P/1 – Ah, tá. Queria saber, do início, de 1975 até a sua aposentadoria, o que mais mudou para o Senhor, o qual foi a mudança mais marcante nessa parte da produção que o Senhor esteve ligado?
R – Na produção, o que mudou muito foi a marcha da Petrobras para laminas d’água cada vez maiores. Essa foi a grande mudança. Foi uma mudança paulatina. Não foi uma coisa que aconteceu em 1995, 1997 ou agora. Veio desde que a Petrobras começou a produzir no mar. Ela começou a produzir em Sergipe, e eram laminas d’águas de 20 ou 30 metros. Quando ela veio para Campos, já passou para 120 metros. Daí, ela começou a se afastar da costa e a aumentar a lâmina d’água: 180, duzentos e pouco, 300...
P/1 – E dos equipamentos, qual foi o mais marcante, que o Senhor marcaria que foi essencial mesmo para a produção.
R – O essencial eu acho que são os veículos de controle remoto, que são equipamentos submarinos que não são equipados, são controlados da superfície e que eu sei que eles levam televisão, a pessoa pode monitorar o que está acontecendo. Eles têm braços mecânicos para fazer operações. Eu acredito que esses equipamentos é que possibilitaram atingir essas lâminas d’água que hoje estão sendo atingidas. Acho que esse é que o segredo e também os sistemas de ancoramento. As plataformas de hoje eu não conheço como são, mas naquela época eram correntes. Era uma média para cada metro de profundidade de sete metros de corrente. Então, para 100 metros de lâmina d’água, cada âncora levava 700 metros de corrente e precisava para armazenar essas correntes na plataforma de áreas grandes. Era um equipamento pesado. Para fazer esse lançamento, o rebocador levava a âncora e a plataforma ia soltando as correntes aos pouquinhos. Eu acho que esse equipamento hoje em dia, nessas laminas d’água, não é usado. Deve ser outro, eu não sei qual é, mas deve ser outro tipo de amarração, porque com aquele não é possível não.
P/1 – Ruy, infelizmente, a gente vai terminando a nossa entrevista. Eu queria que você me dissesse alguma coisa que você gostaria de deixar registrado e que eu não te perguntei.
R – Primeiro, eu quero agradecer. Foi muito bom. Eu tinha medo de vir aqui. (risos) Fugi muito, mas foi melhor do que eu pensava.
P/1 – Tem alguma outra história que você queria contar?
R – Ah, não. (risos)
P/1 – Me conta uma história! Você já me contou uma, mas você deve ter muita história. Me conta mais uma.
R – Bem, essa aí, eu não presenciei porque aconteceu antes de eu entrar para a Petrobras. Existia e existe ainda nos campos de petróleo um equipamento chamado pig, em inglês, e que em português é porco, que é passado dentro do oleoduto para limpar esse oleoduto.Ele entra numa extremidade do oleoduto, vai arrastando a sujeira, a outra extremidade fica aberta até ele chegar lá. Então, no campo de Água Grande, um empregado da Petrobras entrou na Petrobras e naquele dia, o primeiro trabalho que deram para ele: “olha, nós vamos passar o porco nesse oleoduto. Você vai ficar lá na ponta do oleoduto e quando o porco chegar, você pega o porco e traz para cá.” E ele foi e mandaram o porco. E nada dele voltar, nada dele voltar e foram lá. Quando chegaram lá, a área em volta do oleoduto estava cheia de óleo e o rapaz estava com um pedaço de pau na mão, um porrete, dizendo: “estou esperando o porco. Quando ele botar a cabeça aqui, vai levar uma paulada...” (risos) Essa história eu não presenciei, mas eu sei que é verídica. Sei que aconteceu porque ele ficava possesso quando contavam (risos)
P/1 – Então, a gente vai terminando...Queria saber se você gostou de ter participado...Você começou a falar aqui...
R – Gostei, gostei muito. Foi interessante e eu acho que todos que puderem vir devem vir.
P/1 – Então, tá Ruy. Queria agradecer você ter vindo. Foi ótima a sua participação com suas histórias... Muito obrigada!
Fim da Entrevista
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