Quando menos se esperava de volta já estava
(Mauro Leal)
Em mil novecentos e oitenta e dois, numa manhã de uma
quarta-feira ensolarada e de formatura geral no Pátio Central do
Quartel-General, do Corpo de Fuzileiros Navais "paradão".
Estourando o limite do regresso de licenciados (para bater o ponto)
nas proximidades do elevador que uma certa época já havia
despencado até o fundo do poço, aquele que dá acesso
à Fortaleza de São José, Ilha das Cobras, na cidade o Rio de Janeiro,
uma autoridade enquadrava um marinheiro.
E como eu já vinha desesperado na "onça" (a minutos de extrapolar o horário)
passei ao largo sem olhar para os lados
e antes que adentrasse no sucateado cai cai,
pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra SÁ DE ALMEIDA fui chamado
prestei continência atrasado e também fui enquadrado.
Embarcamos no obsoleto do terror
e ao chegar no andar de destino (o único), deparamos com o
baiano Cabo SEVERO que estava no parapeito debruçado distraído,
foi também pelo chupa cabra, "sugado", no momento que observava atentamente a manobra de entrada dum navio
no dique do Arsenal de Marinha.
E de igual forma alguns outros militares que vinham em
sentido contrario, pela reta de acesso ao Hospital Central da
Marinha para o elevador, o comandante SÁ,
(que estava com a macaca), determinou também que os seguisse,
assim fomos levados, e sentando à mesa, pediu-nos as identidades
e que informasse-lhe as Unidades que servíamos,
e nos foi perguntado:
- Sabem porque estão sendo anotados?
Uns responderam que não e outros ficaram calados.
- Então saberão em audiência quando forem chamados!
Passado mais ou menos um mês,
pelo secretário, o Sargento Adelzijo, eu e o Severo,
que servíamos juntos no Estado-Mar, fomos avisados:
- Olha, chegou um ofício informando um problema com vocês aí hein!
Meu coração acelerou pois aquela “encrenca” veio logo à mente.
Em primeiro momento para tentar aliviar
a minha barra fui logo ao...
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Quando menos se esperava de volta já estava
(Mauro Leal)
Em mil novecentos e oitenta e dois, numa manhã de uma
quarta-feira ensolarada e de formatura geral no Pátio Central do
Quartel-General, do Corpo de Fuzileiros Navais "paradão".
Estourando o limite do regresso de licenciados (para bater o ponto)
nas proximidades do elevador que uma certa época já havia
despencado até o fundo do poço, aquele que dá acesso
à Fortaleza de São José, Ilha das Cobras, na cidade o Rio de Janeiro,
uma autoridade enquadrava um marinheiro.
E como eu já vinha desesperado na "onça" (a minutos de extrapolar o horário)
passei ao largo sem olhar para os lados
e antes que adentrasse no sucateado cai cai,
pelo Capitão-de-Mar-e-Guerra SÁ DE ALMEIDA fui chamado
prestei continência atrasado e também fui enquadrado.
Embarcamos no obsoleto do terror
e ao chegar no andar de destino (o único), deparamos com o
baiano Cabo SEVERO que estava no parapeito debruçado distraído,
foi também pelo chupa cabra, "sugado", no momento que observava atentamente a manobra de entrada dum navio
no dique do Arsenal de Marinha.
E de igual forma alguns outros militares que vinham em
sentido contrario, pela reta de acesso ao Hospital Central da
Marinha para o elevador, o comandante SÁ,
(que estava com a macaca), determinou também que os seguisse,
assim fomos levados, e sentando à mesa, pediu-nos as identidades
e que informasse-lhe as Unidades que servíamos,
e nos foi perguntado:
- Sabem porque estão sendo anotados?
Uns responderam que não e outros ficaram calados.
- Então saberão em audiência quando forem chamados!
Passado mais ou menos um mês,
pelo secretário, o Sargento Adelzijo, eu e o Severo,
que servíamos juntos no Estado-Mar, fomos avisados:
- Olha, chegou um ofício informando um problema com vocês aí hein!
Meu coração acelerou pois aquela “encrenca” veio logo à mente.
Em primeiro momento para tentar aliviar
a minha barra fui logo ao meu encarregado,
como já era de se esperar, não quis conversar,
e mandou que seu ajudante, o deslumbrado Jayme Falavigna me lançasse
no Livro de Contravenções Disciplinares, que agiu orgulhoso mandando providenciar o Livro da capa preta (como fosse o dono), atitude que já lhe era peculiar, e olhando por cima do
fundo de garrafa, expressou:
- Vou botar no Livro de Castigo e na hora do pato,
manda teu papo, tenta se safar:
E lá a me explicar, não consegui justificar,
foi punido com um dia de impedido
e da alta cúpula do Comando-Geral, fui transferido,
procedimento normal movimentar quem fosse penalizado,
porém recém-casado, cheio de amor para dar,
deixei anoitecer, formei, dei a presença na revista do recolher e
saí no "pulo, virei gás", pois na sala de estado era
só papo de libertinagem e gargalhadas, ninguém queria
saber de nada, e também porque ninguém me conhecia,
e com a esposa fui fazer amor e pernoitar,
regressando no amanhecer, ao cantar do galo.
Logo consolidou a transferência e no então Batalhão de
Transporte Motorizado "bati os costados"
me apresentei e lá encontrei:
- uma boa escala de escrevente de serviço;
- um picado melhorado;
- licença não atrasava;
- Unidade localizada em Parada de Lucas
à quinze minutos da minha residência pois morava
nesta época em Vista Alegre, bairro vizinho;
- graduação superior, que o Bilhete melhorou; etc...
E no término do expediente não existia a humilhação de
ter que cumprir escala de ir atrás do Encarregado Vieira, o calça de
fundilho murcho, levando a sua maleta 007,
para despachar com o saudoso Comandante Edésio,
o então Chefe do Departamento Pessoal, perda
de tempo que adentrava à noite e nos fazia enfrentar um terrível
engarrafamento, por este motivo a escala era vergonhosamente
conhecida como:
(quem é o boa noite de hoje).
Mas com pouco tempo bateu-me a saudade do centro do Rio,
e fui visitar a minha antiga Unidade,
até porque o comandante com quem fui a audiência
também nem sabia que eu existia, e, só queria mesmo
era desfrutar da maravilhosa vista da Bahia Oceânica, a Guanabara
e ser servido pelos arrumadinhos taifeiros com as suas finas e preferidas iguarias.
E para minha felicidade, reencontrei
com uma autoridade amiga, que do episódio desconhecia,
e que também não fui ingênuo em lhe contar,
afinal de contas eu havia verificado que não fora sido
publicado em ordem de serviço e consequentemente
não estava lançado em Folha de Alterações da Caderneta-Registro,
constando no comportamento: zero ponto perdido,
porque se do fato soubesse e ainda registrado tivesse
certamente o meu padrinho, a minha cocha, poderia não querer
se arriscar em me retornar exatamente para a Organização Militar
de onde há pouco tempo havia sido transferido por ter sido
por uma bobagem, punido.
Então precisando urgentemente de um secretário o convite me fez.
E surpreendentemente em poucos dias
já estava de retorno com os metais brilhando
à Elite da Fortaleza de São José e no andar de cima.
Por ser muito recente, durante alguns meses andei driblando
o meu ex-encarregado, o Vieira e seu ajudante Jayme,
achando que eles poderiam criar algum
embaraço pelo meu retorno relâmpago.
Mas um certo dia foi inevitável, o mequetrefe Vieira,
foi ao meu novo setor, a Divisão de Oficiais,
e percebi que ficou com o ego frustrado
sem nada entender
o que entre as estrelas estava eu de volta a fazer.
Depois de alguns anos, o velho cansado Vieira,
já reformado e na saída dum minimercado
na cidade de São Pedro da Aldeia,
novamente passou com os olhos fitos em mim
e nada falamos, e prosseguiu aos passos arrastados
pela calçada com lábios trêmulos, bengala, poucos cabelos,
barba grisalha como que desorientado com sua cuidadora ao lado.
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