P - Então, começando de novo. Seu nome completo, data e local de
nascimento.
R - Meu nome é Maria Mendes da Silva, e eu sou baiana. Nasci no sertão
da Bahia, em Ascensão.
P - A senhora lembra do seu primeiro emprego?
R - Ah, eu lembro porque eu vim pra cá na década de 70. E quando eu
cheguei aqui o meu primeiro emprego, por incrível que pareça, trabalhei
numa fábrica de móveis. Aí oito dias não me registraram e eu fui lá, e
eu já era muito exigente. Não me registraram, eu fui lá e pedi a minha
carteira e falei: “Se a minha carteira não está registrada, eu quero a
minha carteira de volta.” Foi o meu primeiro emprego em São Bernardo.
P - Já foi sua primeira grande luta, então?
R - Com certeza que, apesar de eu não ter, não tinha militância nem
nada, mas o meu irmão já me esclarecia a questão do registro em
carteira, que tinha que pegar a carteira, devolver dentro de 48 horas
registrada. Eu fiquei esperando uma semana, não me devolveram, eu fui
lá e pedi a minha carteira de volta. E aí depois comecei a trabalhar já
em metalúrgica. E aí já comecei a militar mesmo.
P - Você lembra do dia em que recebeu o primeiro salário?
R - Ah, eu lembro. Assim, pra mim eu sempre fui, inconscientemente,
sempre tive uma luta pela minha liberdade. Eu sempre achei que nós,
mulheres, até por eu ter sido de uma família de 14 irmãos, de sete
homens e sete mulheres, eu vi uma diferença muito enorme entre homens e
mulheres, já que as mulheres não tinham muita autonomia. O meu maior
sonho era ter autonomia financeira. Então, o primeiro dia que eu recebi
o salário pra mim foi o máximo. Olha, a minha liberdade está aqui, eu
posso ir lá na loja comprar o que eu quiser sem ter que pedir licença
pra ninguém. Foi uma sensação muito boa.
P - Você lembra que você fez?
R - A primeira coisa que eu fiz foi comprar roupa, porque eu...
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P - Então, começando de novo. Seu nome completo, data e local de
nascimento.
R - Meu nome é Maria Mendes da Silva, e eu sou baiana. Nasci no sertão
da Bahia, em Ascensão.
P - A senhora lembra do seu primeiro emprego?
R - Ah, eu lembro porque eu vim pra cá na década de 70. E quando eu
cheguei aqui o meu primeiro emprego, por incrível que pareça, trabalhei
numa fábrica de móveis. Aí oito dias não me registraram e eu fui lá, e
eu já era muito exigente. Não me registraram, eu fui lá e pedi a minha
carteira e falei: “Se a minha carteira não está registrada, eu quero a
minha carteira de volta.” Foi o meu primeiro emprego em São Bernardo.
P - Já foi sua primeira grande luta, então?
R - Com certeza que, apesar de eu não ter, não tinha militância nem
nada, mas o meu irmão já me esclarecia a questão do registro em
carteira, que tinha que pegar a carteira, devolver dentro de 48 horas
registrada. Eu fiquei esperando uma semana, não me devolveram, eu fui
lá e pedi a minha carteira de volta. E aí depois comecei a trabalhar já
em metalúrgica. E aí já comecei a militar mesmo.
P - Você lembra do dia em que recebeu o primeiro salário?
R - Ah, eu lembro. Assim, pra mim eu sempre fui, inconscientemente,
sempre tive uma luta pela minha liberdade. Eu sempre achei que nós,
mulheres, até por eu ter sido de uma família de 14 irmãos, de sete
homens e sete mulheres, eu vi uma diferença muito enorme entre homens e
mulheres, já que as mulheres não tinham muita autonomia. O meu maior
sonho era ter autonomia financeira. Então, o primeiro dia que eu recebi
o salário pra mim foi o máximo. Olha, a minha liberdade está aqui, eu
posso ir lá na loja comprar o que eu quiser sem ter que pedir licença
pra ninguém. Foi uma sensação muito boa.
P - Você lembra que você fez?
R - A primeira coisa que eu fiz foi comprar roupa, porque eu adoro
comprar roupa.
P - E você lembra do seu primeiro Primeiro de maio?
R - Ah, eu lembro porque o primeiro de maio, que foi uma luta que a
gente começou, um dos primeiros de maio que eu nunca me esqueço, que
mais registrou na minha memória, foi o primeiro de maio de quando, na
direção do Lula, que eu era metalúrgica, que o primeiro de maio que a
diretoria estava presa, que nós fizemos um grande movimento com as
mulheres metalúrgicas. E as mulheres dos metalúrgicos, as filhas e os
filhos dos metalúrgicos, das metalúrgicas, que nós fomos em passeata da
Praça da Matriz com nossas crianças, sentamos no meio da Praça da
Marechal indo para o Paço Municipal. E nós, com nossas crianças no
colo. Meu filho nessa época era pequeno, tinha de três pra quatro anos.
E assim, a gente enfrentar todos aqueles brucutu da Polícia Militar.
Isso é a coisa que mais, de todos os primeiro de maio, o que mais me
registrou. Me recordo de todos, mas esse foi uma recordação que me
marcou pra sempre.
P - Em que ano foi isso?
R - Foi em 80. Que as primeiras greves que nós fizemos, que nós era
metalúrgico, começamos as greves na época da ditadura, 78, depois 79 e
80 que nós fizemos aquela greve de 43 dias. Então, esse foi o primeiro
de maio que mais me marcou. Estar com o meu filho, sentimento de mãe.
Então não era só o sentimento da luta, mas assim, ali nós estávamos
expondo as nossas vidas e as vidas dos nossos filhos e filhas. E eu
estava ali com o meu filho no colo, e foi uma coisa que me marcou
muito. E dali eu também descobri que a classe trabalhadora era capaz de
fazer muita coisa, até de transformar a sociedade. Eu continuo
acreditando nisso.
P - Muito obrigada.
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