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Minha infância, passada no interior de Minas, foi povoada por algumas figuras muito especiais de loucos, desamparados, cândidos, excêntricos e velhinhos pelos quais mantenho, ao longo da vida, uma fecunda ternura retroativa. Tive sempre um fascínio por esses personagens meio grotescos meio angelicais com quem acho que aprendi a olhar as pessoas para além da casca das roupas, do corpo, das caras, vozes e opiniões com que navegam socialmente.

Lembro-me de Carrico, velhinho de um metro e pouco de altura, com seu chapéu e o eterno cachimbinho, a fala mansa e arrastada de caipira num espaço já urbanizado de cidade pequena em acelerado crescimento. Eu e outros meninos nos reuníamos a sua volta para ouvir histórias de seus encontros com onças pintadas e o Saci-Pererê, toda sorte de contos exagerados e ingênuos envolvendo sua experiência na roça, a familiaridade com o mundo dos bois, cães e pássaros, suas matanças de cobras e teiús. Tudo contado com vivacidade num dialeto que não existe mais. Carrico viveu lentamente, simplesmente, sem ambições. Neste momento em que fecho os olhos diante do computador e rememoro a imagem de seu rosto, a maior evidência da discrição com que esse misto de Jeca Tatu e Pedro Malasartes passou pela vida é o fato de que me esforço para lembrar ao menos o ano em que ele morreu – possivelmente em fins dos anos 1970 – e em que circunstâncias, e não o consigo.

Maria Vilela, por sua vez, era uma vizinha que vivia duas casas acima da de meus pais, numa rua que possuía o poético nome de Passa Tempo. Sua imagem era, sem tirar nem pôr, a de uma bruxa de contos de fadas. Velha e encurvada, o nariz adunco, a cara com fundos vincos e a papada no pescoço, o cabelo desalinhado, a voz rouca, as roupas andrajosas e ensebadas, um péssimo humor. Todos os meninos tinham horror dos folclóricos poderes malignos de Maria Vilela, jamais ousando uma gracinha ou uma fanfarronada quando ela descia a rua de terra onde fomos criados...

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Infância de um atleticano em São Paulo

Dados da imagem personagem: Adriano de Paula Rabelo<br>historia: Por problemas de trabalho de meu pai, minha família teve de migrar de Divinópolis, no interior de Minas, para São Paulo no início dos anos 1970. Na metrópole, moramos na Vila Mariana e o chefe da família trabalhou na construção do metrô. Naturalmente levamos para a cidade mais rica e mais cosmopolita do país todas as nossas idiossincrasias e tradições de mineiros e interioranos. Aqui apareço com uma camisa do Clube Atlético Mineiro, uma paixão de meu pai transmitida a mim. Durante a adolescência, sonhei ser centroavante do Galo, como Reinaldo ou Dario, os grandes ídolos daquele tempo. 
Desde então, vivi em outras cidades brasileiras e também no exterior, tendo visto muita coisa. Não fui jogador, meu pai não existe mais, mas a paixão pelo Galo permanece viva em mim e já foi transmitida com vigor para meu filho de dois anos, ainda que não mais estejamos em Minas.<br>

Período:
Ano 1973

Local:
Brasil / São Paulo / São Paulo

Imagem de:
Adriano de Paula Rabelo

História:
Personagens da minha infância

Tipo:
Fotografia

personagem: Adriano de Paula Rabelo
historia: Por problemas de trabalho de meu pai, minha família teve de migrar de Divinópolis, no interior de Minas, para São Paulo no início dos anos 1970. Na metrópole, moramos na Vila Mariana e o chefe da família trabalhou na construção do metrô. Naturalmente levamos para a cidade mais rica e mais cosmopolita do país todas as nossas idiossincrasias e tradições de mineiros e interioranos. Aqui apareço com uma camisa do Clube Atlético Mineiro, uma paixão de meu pai transmitida a mim. Durante a adolescência, sonhei ser centroavante do Galo, como Reinaldo ou Dario, os grandes ídolos daquele tempo. Desde então, vivi em outras cidades brasileiras e também no exterior, tendo visto muita coisa. Não fui jogador, meu pai não existe mais, mas a paixão pelo Galo permanece viva em mim e já foi transmitida com vigor para meu filho de dois anos, ainda que não mais estejamos em Minas.

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