Pela África!
Eu sempre tive vontade de conhecer algum lugar da África; saber sobre meus ancestrais, sobre a terra que acredito ser a Mãe de todos e portanto, a origem da civilização.
E essa vontade foi concretizada de uma forma mais que inusitada e inesperada.
Trabalhava na prefeitura da Capital e havia um Congresso Mundial, em que fui designado a participar.
Éramos 3 brasileiros representando cidades e prefeitos; Fui escolhido por dominar a pauta e ter um diferencial para aquele tempo que era falar inglês.
Já em São Paulo, na hora de embarcar, se aproximou um senhor mostrando um distintivo da Policia Federal e começou a me interrogar, não interpelar, interrogar:
- onde você vai?
- mostrei a placa do embarque , escrita África do Sul
- fazer o que?
Vou participar de um congresso internacional
E fez mais umas 5 perguntas. No final, já sem paciência, falei olha, estou indo representar o prefeito de Belo Horizonte, tenho aqui minha carta de apresentação; ele leu e liberou, mas antes de embarcar , não podia deixar passar batido; falei, o senhor se preocupou muito comigo porque sou negro e uso dreadlocks, advirto-lhe que o estás procurando comigo, já deve ter embarcado. Ficou sem chão, me despedi e embarquei.
De Johanesburgo fui direto para Antananarivo em Madagascar; oportunidade em que conheci os outros 2 brasileiros, uma mulher de São Paulo e um senhor do RJ.
Nosso encontro foi também casual; quando fomos receber as bagagens e descobri que minha mala não tinha chegado naqueles Pais.
Era um sábado à tarde e até chegar no Hotel e pedir auxílio, não daria pois as lojas já estariam fechadas. Tinha comigo uma camisa da seleção brasileira de futebol, oficial, que levei para fazer alguma promoção junto à comunidade local e não iria usar. Aliás, nunca usei uniforme da seleção brasileira, não curto.
Quando cheguei ao Hotel, começaram a acontecer coisas engraçadas, estranhas, algo que o valha. As recepcionistas e...
Continuar leitura
Pela África!
Eu sempre tive vontade de conhecer algum lugar da África; saber sobre meus ancestrais, sobre a terra que acredito ser a Mãe de todos e portanto, a origem da civilização.
E essa vontade foi concretizada de uma forma mais que inusitada e inesperada.
Trabalhava na prefeitura da Capital e havia um Congresso Mundial, em que fui designado a participar.
Éramos 3 brasileiros representando cidades e prefeitos; Fui escolhido por dominar a pauta e ter um diferencial para aquele tempo que era falar inglês.
Já em São Paulo, na hora de embarcar, se aproximou um senhor mostrando um distintivo da Policia Federal e começou a me interrogar, não interpelar, interrogar:
- onde você vai?
- mostrei a placa do embarque , escrita África do Sul
- fazer o que?
Vou participar de um congresso internacional
E fez mais umas 5 perguntas. No final, já sem paciência, falei olha, estou indo representar o prefeito de Belo Horizonte, tenho aqui minha carta de apresentação; ele leu e liberou, mas antes de embarcar , não podia deixar passar batido; falei, o senhor se preocupou muito comigo porque sou negro e uso dreadlocks, advirto-lhe que o estás procurando comigo, já deve ter embarcado. Ficou sem chão, me despedi e embarquei.
De Johanesburgo fui direto para Antananarivo em Madagascar; oportunidade em que conheci os outros 2 brasileiros, uma mulher de São Paulo e um senhor do RJ.
Nosso encontro foi também casual; quando fomos receber as bagagens e descobri que minha mala não tinha chegado naqueles Pais.
Era um sábado à tarde e até chegar no Hotel e pedir auxílio, não daria pois as lojas já estariam fechadas. Tinha comigo uma camisa da seleção brasileira de futebol, oficial, que levei para fazer alguma promoção junto à comunidade local e não iria usar. Aliás, nunca usei uniforme da seleção brasileira, não curto.
Quando cheguei ao Hotel, começaram a acontecer coisas engraçadas, estranhas, algo que o valha. As recepcionistas e secretarias do Hotel me rodearam falando entre elas a língua local e comigo , em inglês. Elas afirmavam categoricamente que eu era o tenista Francês , outrora numero 1 do ranking, Yannick Noah. Por mais que eu tentasse dizer que não falava Frances, fiquei sendo confundido por uns 4 dias. Até que uma moça que me ajudou muito na cidade, disse a elas, vocês já repararam que ele não tem dentes separados como o Yannick? Ai sim, caiu a ficha. Que desilusão pra elas...hahaha
Bem, então começou a saga por uma roupa, pois minha apresentação seria na segunda feira. No domingo sai por perto do Hotel e não achei nada; ai a moça local junto com a organização do evento me indicaram um comercio para ir na segunda-feira e voltar antes da palestra; era meu esforço. Me puseram num automóvel luxuoso parecendo uma Limusine com dois seguranças além do motorista; quando chegamos no destino, novamente outra surpresa, a população local cercou o carro, como se novamente, tivesse alguém importante ali. Fui experimentar a roupa e não havia provador, era necessário trocar a calça atras do balcão e todos do lado de fora olhando. Ao sair, após comprar uma calça e uma camisa, entrei no carro e a comunidade correndo atrás, algo incrível acenei e fui embora sem saber o que eles entendiam com minha presença, mas um dos seguranças lembrou novamente do tenista.
Ao chegar no Hotel, vários automóveis e motos pretas estacionados na porta e, os seguranças não me deixaram adentrar, sob alegação que o presidente do Pais estava lá , no evento.
Disse a eles que eu era um palestrante e que iria falar naquela manhã; então me sugeriram subir no meu quarto, 11 andar, trocar de roupa e aguardar para descer.
Quando cheguei no primeiro andar para a conferencia, dois homens negros, altos e fortes, seguranças presidências vieram gritando no dialeto local e eu não entendia nada, até que alguém me mostrou que eu estava pisando no tapete do presidente. Tapete esse que vinha da rua, andava todo o hall, subia escadas e ia até o auditório no primeiro andar.
Como é que eu iria saber que o presidente iria me assistir, e que tinha um tapete vermelho e eu não podia pisar?
Bem, depois desse susto fiz minha conferência, bem sucedida e segui o evento.
Na quinta feira, tínhamos um jantar na casa do Embaixador da França e eu planejei não ir; não me sentia devidamente vestido. Por volta das 17 horas, recebo daquela moça , um chamado para um telefonema , era minha mala. De tanta alegria que fiquei, propus uma dinâmica até que alguém ganhasse o presente verde e amarelo que eu havia levado.; ganhou o tradutor do evento.
De repente, fui ao jantar, após pedir um carro e chegar sem avisar.
No outro dia, de volta à África do Sul, tive uma noite maravilhosa no restaurante do Hotel; conheci vários jovens que ali trabalhavam e conversamos madrugada a dentro, pois me interessei pela história deles que me contavam como os pais sofreram com o Apartheid e agora, estavam todos ali trabalhando e estudando em Universidades; todos e todas muito gratos a Nelson Mandela.
Poucos anos depois, nova surpresa, um convite para conhecer um Projeto na Guiné , com possibilidades de trabalhar e morar.
Dessa vez, uma viagem mais tensa, pois havia tido um acidente perto desse tempo com um avião da Air France e muitas vidas foram perdidas.
Cheguei em Conacry e dessa vez, tive a real oportunidade de ver a África tão falada mundo afora. Diferentemente da viagem anterior, pude percorrer as comunidades.
Num domingo pela manhã, fomos visitar algumas comunidades nativas, tradicionais e aquela dificuldade de entender cultura e costumes.
Enquanto apresentávamos um projeto para a comunidade local, com 1 interprete que falava francês, outro inglês e dois locais, ou seja, a fala levava quase 5 minutos para sair de um interlocutor e chegar ao destino e voltar; veio em minha direção um animalzinho que eu não identifiquei direito, achei que fosse um bode, mas era um carneirinho e junto a ele, a tradução das falas informando que aquele seria nosso almoço naquele dia. Fiquei em estado de choque! Foi uma luta pois o nosso diretor tentava convencer as lideranças locais que aquele poderia ser o mascote do equipamento que iriamos construir, mas as respostas diziam, nós daremos outo mascote, esse é para comer hoje. Foi dura a discussão, mais de meia hora e no final resolvemos que , iriamos numa outra comunidade e voltaríamos para almoçar o pobre do carneirinho. Eu , tentando criar qualquer fato para não comer, quando na volta , chegando de novo na comunidade, chega um carro avisando que vários prefeitos já estavam reunidos para conversar conosco na sede daquela cidade; quando o diretor comprometido com a posição que tomara, perguntou: alguém fala inglês fluente para ir na frente conversar com os prefeitos? Nem tão fluente assim eu era, mas lá fui. Soube que comeram, gostaram...que bom!
Peguei um voo de 3h com uma turma e um piloto parecendo aqueles Hippies, mais um músico de rock que piloto, super engraçado, uns 65 anos de idade, aproximadamente.
O avião não carregava mais que 20 pessoas, mas o controle era rigoroso. Logo esse piloto se aproximou com um papel e uma caneta e começou a perguntar o peso de cada um; ia anotando para no final somar e ver se o avião comportava. Feito isso, ele abriu um compartimento lá e abasteceu com uns galões de gasolina que ele tinha, nos convidou a entrar e passou os comandos:
- senhoras e senhores, ali a porta de emergência, se alguém me vir indo naquela direção, corra atras que tem problema e o avião pode estar caindo; se não quiserem usar cinto de segurança, fiquem à vontade; fumar cigarro é proibido, mas Marijuana, se forem fumar, me ofereçam......e assim fomos, numa viagem esquisita, divertida, mas muito tranquila, sobrevoando parques, rios e até uma parada no meio do absolutamente nada, fizemos.
Essa, já era a última noite na Guiné. Comi pouco nessa viagem, pois reconheço que tenho dificuldades com comidas exóticas, diferentes , que fogem do trivial.
Mas uma colega Americana que iria voar para Paris no mesmo voo que eu, convidou-me para tomar umas cervejas e comer um prato especial. Era uma carne mal passada ( que não como de jeito nenhum), com batatas.
Comi, tomei algumas latinhas e fui dormir; no meio da madruga acordei achando que estava morrendo; como doía o peito! Era por volta de 3h da manhã e comecei a andar no quarto pra lá e pra cá , esperando estar vivo ao amanhecer.
Seis horas , liguei para o amigo que me convidou para essa viagem de reconhecimento e disse a ele, André , socorro, estou morrendo.
André destacou uma Ambulância que me pegou no hotel e levou ao Hospital. Quando cheguei lá, hospital de filme, lotado ...África, né?
Mas tinha uma ala especial, destinada a atender trabalhadores desse projeto. Pela primeira vez na vida , um médico negro me atendeu. Era um cardiologista e eu disse a ele que iria para a Bélgica naquele noite, mas ele respondeu, você pode ter um infarto no ar. Fiquei doido! Ele me passou uns exames e fiquei ali pensativo enquanto saiam os resultados. Fiz Eletro e outros exames do coração. No final, o doutor me disse que eu estava com prisão de ventre, o tradicional ar preso; me deu 4 caixas de um pó que não soube o que era e o alivio foi geral. Voei para Paris e dali , um Metrô para Lille e depois Bélgica.
O fato é que não acertei a transferência para morar e trabalhar na África, mas conheci partes de 3 países, ( Madagascar, África do Sul e Guiné) e um povo maravilhoso; é o que conta nessa vida!
Recolher