Eu sou Paulo Roberto Sequinel. Nasci em Curitiba, em 6 de fevereiro de 1952.
Morei em Curitiba até que me aposentei, em 1994 - a não ser um curto período que morei em Campinas, quando fiz estágio na Refinaria de Paulínia. Depois, passei a morar no litoral do Paraná, uma cidade histórica, Antonina. Morei lá por oito anos e agora estou de volta a Curitiba.
Antonina é uma cidade muito tranqüila, cidade pequena. Os problemas que a gente associa às cidades grandes, lá não existem. Em compensação, as vantagens que têm nas cidades grandes, lá não tem. Mas foram oito anos muito bons.
Eu entrei na Petrobras em 1975, por concurso público, na Refinaria de Paulínia.
Eu precisava trabalhar e ouvi a notícia do concurso, o salário era bom. Fiz o concurso e passei.
E me defrontei com uma unidade de processamento e uma unidade de destilação, que é um negócio assustador. São torres, bombas, compressores, permutadores, fornos, calor. É um ambiente de trabalho extremamente agressivo, muito perigoso, e eu me vi operador de refinaria.
Eu lembro do meu primeiro dia, cumpriu-se uma tradição que é o banho dado nos borrachos, como os novos são chamados. Éramos eu e mais dois companheiros, quase nos afogam de tanta água. Mas é um sinal de aceitação. Não é simplesmente um banho, há toda uma preparação. Você tem que ser pego de surpresa.
A minha entrada no sindicato foi em 1977. Os que estavam fazendo estágio em Paulínia vieram para a Repar, para colocar a refinaria em operação. Eu trabalhei até agosto de 1984, quando disputamos uma eleição no sindicato e ganhamos
Mandato
De 1984 até 1993, estive liberado em tempo integral como diretor do sindicato, exercendo atividade no sindicato e na CUT do Paraná. O momento mais marcante foi a disputa eleitoral, em 1984. As eleições ainda eram comandadas e supervisionadas pelas Delegacias Regionais do Trabalho. Existiam esquemas de fraudes entre a delegacia e a pelegada, para a manutenção...
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Eu sou Paulo Roberto Sequinel. Nasci em Curitiba, em 6 de fevereiro de 1952.
Morei em Curitiba até que me aposentei, em 1994 - a não ser um curto período que morei em Campinas, quando fiz estágio na Refinaria de Paulínia. Depois, passei a morar no litoral do Paraná, uma cidade histórica, Antonina. Morei lá por oito anos e agora estou de volta a Curitiba.
Antonina é uma cidade muito tranqüila, cidade pequena. Os problemas que a gente associa às cidades grandes, lá não existem. Em compensação, as vantagens que têm nas cidades grandes, lá não tem. Mas foram oito anos muito bons.
Eu entrei na Petrobras em 1975, por concurso público, na Refinaria de Paulínia.
Eu precisava trabalhar e ouvi a notícia do concurso, o salário era bom. Fiz o concurso e passei.
E me defrontei com uma unidade de processamento e uma unidade de destilação, que é um negócio assustador. São torres, bombas, compressores, permutadores, fornos, calor. É um ambiente de trabalho extremamente agressivo, muito perigoso, e eu me vi operador de refinaria.
Eu lembro do meu primeiro dia, cumpriu-se uma tradição que é o banho dado nos borrachos, como os novos são chamados. Éramos eu e mais dois companheiros, quase nos afogam de tanta água. Mas é um sinal de aceitação. Não é simplesmente um banho, há toda uma preparação. Você tem que ser pego de surpresa.
A minha entrada no sindicato foi em 1977. Os que estavam fazendo estágio em Paulínia vieram para a Repar, para colocar a refinaria em operação. Eu trabalhei até agosto de 1984, quando disputamos uma eleição no sindicato e ganhamos
Mandato
De 1984 até 1993, estive liberado em tempo integral como diretor do sindicato, exercendo atividade no sindicato e na CUT do Paraná. O momento mais marcante foi a disputa eleitoral, em 1984. As eleições ainda eram comandadas e supervisionadas pelas Delegacias Regionais do Trabalho. Existiam esquemas de fraudes entre a delegacia e a pelegada, para a manutenção desse sindicato.
Em 1985, nós fundamos a CUT aqui no Paraná. A CUT do Paraná nasceu no nosso sindicato.
E para o nosso projeto político, foi um fato muito importante. Em 1987, fui eleito presidente da CUT no Paraná. Exerci a presidência até 1989 e a secretaria-geral até 1992. Também fui da direção nacional.
A greve de 1988 era uma greve nacional das estatais, uma greve de advertência de 48 horas. A nossa diretoria fez um intenso trabalho de mobilização. Nós conseguimos vencer o medo dos companheiros e das companheiras, porque greve é um negócio muito complicado. Greve é um negócio de ruptura mesmo. A negociação acabou e é uma situação que está no limite das coisas.
Mas essa greve de 1988 foi importante porque foi muito forte. A categoria respondeu com muita unidade. Nós paramos a refinaria. Foi um momento de afirmação daquela diretoria que tinha assumido em 1984.
Um outro momento foi a greve de 1989. Na mesma época em que houve a invasão do Exército em Volta Redonda. O Exército matou duas ou três pessoas e aquilo exacerbou os ânimos da nossa base. Nessa greve, a diretoria me mandou cuidar da base em São Mateus do Sul, na usina do xisto. Essa greve foi a primeira para o pessoal do xisto. A usina parou e os companheiros montaram dezenas de barracas em frente à unidade. Durante o dia, as famílias, as mulheres, os filhos, os companheiros iam para lá.
A relação do sindicato com a Petrobras foi mudando. Especialmente a partir dos anos 1990, a partir do governo Collor, para mim, houve um movimento articulado no sentido de até acabar com o movimento sindical petroleiro, que a partir 1984, se consolidou como organização nacional. É uma relação difícil, muito complicada. O sindicato tem o seu papel a cumprir e a empresa tem lá seus objetivos.
A minha aposentadoria coincidiu com o início do meu terceiro casamento. Eu vivo dizendo isso com muita serenidade: a Sônia é a mulher da minha vida. Então, a minha aposentadoria coincidiu com a Sônia, que é petroleira e aposentada também. Já foi do sindicato também. Acho que tem isso de legal na minha aposentadoria: a Sônia e a própria aposentadoria.
A gente construiu uma relação baseada na cumplicidade, na confiança, na nossa maturidade. Ela tinha saído de um casamento de 20 e poucos anos, eu de outros dois casamentos anteriores. É uma maravilha completa a minha vida. O que mais marcou a minha aposentadoria foi ter consolidado a minha relação com a Sônia
Neste projeto, "Memória dos Trabalhadores da Petrobras", acho legal o fato de sindicatos e Petrobras terem estabelecido um projeto comum. Vai contar a história da Petrobras com outro olhar, com outra visão. A gente põe lá a nossa visão, a nossa cor, o nosso olhar, como é que aconteceu isso, aquilo.
Quando eu, aposentado, vivia em Antonina, numa casa com piscina, a 100 quilômetros da refinaria, a Petrobras conseguiu sujar de óleo a minha piscina. Em julho de 2000, 4 milhões de litros alcançaram o rio Barigüi e depois o rio Iguaçu. A Petrobras demitiu quatro companheiros meus, dois aqui da Repar e dois do terminal São Francisco. Fiquei muito bravo com aquilo e vim aqui para Curitiba, me coloquei à disposição dos companheiros para ajudar a defesa desses quatro companheiros, que já voltaram a trabalhar. Passamos a discutir o acidente com uma comissão formada pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura.
A partir disso, eu descobri um tema que me interessa: a política de segurança da Petrobras. Há todo um esforço, e precisa ser reconhecido isso, para que essa política seja implementada. Mas há um problema nela: quando acontece um acidente, a análise busca só o erro humano ou a falha técnica, e com isso explica o acidente. Explica coisíssima nenhuma. Esse fator humano está presente nas relações sociais que existem dentro de um ambiente de trabalho, relações de poder. Significa dizer que acidentes são eventos socialmente construídos.
A Petrobras precisa, então, começar a entender e a trabalhar a sua política de segurança, tendo como princípio fundador essa idéia de que acidentes são eventos socialmente construídos. O que a gente chama de erros latentes, que ficam adormecidos no sistema.
E é bom lembrar que indústria de petróleo, em termos de ambiente de trabalho, é estritamente perigosa. Você não consegue totalmente eliminar os riscos desse tipo de atividade. Os problemas, estão todos lá. A política de segurança da Petrobras é extremamente limitada apesar do seu tamanhão. Eu espero que o novo governo e o novo presidente sejam capazes de entender que é preciso mudar isso, e que mudem isso de fato.
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