Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Paulo Ledur
Entrevistado por Heloísa Gesteira
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2005
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB690
Transcrito por Susy Ramos
P/1 – Boa tarde!
R – Boa tarde!
P/1 – Qual seu nome, data e local de nascimento?
R – Meu nome é Paulo Ledur, eu nasci em Alecrim, Rio Grande do Sul, a 22 de agosto de 1957.
P/1 – Quando e como se deu o seu ingresso na Petrobras?
R – Eu estava estudando na Unisinos, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, em 1980, final de 80 eu já estava ingressando no último ano de geologia. Então teve um concurso no Brasil inteiro para a formação de uma turma chamada Geopet II, que no último ano de graduação paralelamente já fazia o curso de petróleo da Petrobras na Bahia. No final de 81, com a graduação, todo mundo aprovado, seria contratado imediatamente pela Petrobras, então fomos contratados em janeiro de 82.
P/1 – Você fez esse concurso ainda no Rio Grande do Sul?
R – Ainda no Rio Grande do Sul. Na verdade só teve duas turmas de estudantes do curso de geologia, e a nossa turma foi a segunda e última.
P/1 – Paulo, quando você fez o concurso, você já fez para a Braspetro ou faz geral? Como foi essa opção de ir para área internacional?
R – Bom, a opção Braspetro surgiu no final do curso. A gente não tinha vínculo empregatício, o vínculo empregatício passou a ser só no final do curso com a aprovação. Então em dezembro de 81, com entrevistas e as opções que o pessoal elegeu, fomos selecionados para a Braspetro. Na ocasião fomos, de uma turma de 29, fomos seis, fomos em seis para a Braspetro.
P/1 – O que significou isso para você na época? Tinha uma expectativa de trabalhar na Braspetro?
R – Tinha, durante o ano eu já tinha conversas inclusive com um dos professores, um dos geólogos tinha trabalhado na Braspetro no Iraque, então realmente eu estava interessado na área internacional. Por...
Continuar leituraProjeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Paulo Ledur
Entrevistado por Heloísa Gesteira
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2005
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB690
Transcrito por Susy Ramos
P/1 – Boa tarde!
R – Boa tarde!
P/1 – Qual seu nome, data e local de nascimento?
R – Meu nome é Paulo Ledur, eu nasci em Alecrim, Rio Grande do Sul, a 22 de agosto de 1957.
P/1 – Quando e como se deu o seu ingresso na Petrobras?
R – Eu estava estudando na Unisinos, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, em 1980, final de 80 eu já estava ingressando no último ano de geologia. Então teve um concurso no Brasil inteiro para a formação de uma turma chamada Geopet II, que no último ano de graduação paralelamente já fazia o curso de petróleo da Petrobras na Bahia. No final de 81, com a graduação, todo mundo aprovado, seria contratado imediatamente pela Petrobras, então fomos contratados em janeiro de 82.
P/1 – Você fez esse concurso ainda no Rio Grande do Sul?
R – Ainda no Rio Grande do Sul. Na verdade só teve duas turmas de estudantes do curso de geologia, e a nossa turma foi a segunda e última.
P/1 – Paulo, quando você fez o concurso, você já fez para a Braspetro ou faz geral? Como foi essa opção de ir para área internacional?
R – Bom, a opção Braspetro surgiu no final do curso. A gente não tinha vínculo empregatício, o vínculo empregatício passou a ser só no final do curso com a aprovação. Então em dezembro de 81, com entrevistas e as opções que o pessoal elegeu, fomos selecionados para a Braspetro. Na ocasião fomos, de uma turma de 29, fomos seis, fomos em seis para a Braspetro.
P/1 – O que significou isso para você na época? Tinha uma expectativa de trabalhar na Braspetro?
R – Tinha, durante o ano eu já tinha conversas inclusive com um dos professores, um dos geólogos tinha trabalhado na Braspetro no Iraque, então realmente eu estava interessado na área internacional. Por curiosidade, no final fomos saber que a preferência era a contratação de técnicos solteiros ou que fossem casados sem filhos, para possibilitar viagens, e realmente eu fui um dos selecionados.
P/1 – Conta um pouco do seu trabalho e dos locais em que você trabalhou ao longo desses anos. Pode pinçar os mais marcantes.
R – (RISOS) A minha história na área internacional, na antiga Braspetro, é mais ou menos o seguinte, com um anjo forte até aqui chegamos. Comecei a trabalhar no exterior em 1983, no deserto do Saara, tanto na Argélia como na Líbia, então a gente trabalhava lá 2 mil quilômetros afastado do Mediterrâneo, praticamente afastado da civilização, mas era um lugar muito tranqüilo. Se ficasse um período muito longo era uma monotonia muito grande, mas era um lugar bastante seguro, tranqüilo, seguro e talvez até na ocasião, talvez até o maior risco era você voar em aviões da subsidiária lá, da Air France, do que propriamente viver no deserto. Raras vezes vimos nômades passarem lá próximo às sondas, mas realmente era um mar de areia e até paisagens distintas. Não só areia como pode ser um deserto rochoso, como pode ser um deserto com muito pó, então são as variantes do Saara. O que eu digo, é um lugar muito tranqüilo, talvez o maior risco eram os vôos que a gente tinha que tomar para a região que na época tinha muito atentado em certos aviões; talvez até mais seguro do que Paris que na época tinha muito atentado. Uma história que não vai poder ser publicada, mas tem um colega aí que conseguiu a 1500 quilômetros no deserto conseguiu colidir com um carro no meio do deserto.
P/1 – Essa você vai ter que contar!
R – Essa não vou (RISOS), não posso contar porque o técnico é meu amigo então não posso deixar publicar essa, mas era muito tranqüilo. Agora, depois em 85, 86, passamos a trabalhar no Iêmen, na época ainda existia o Iêmen do Norte e Iêmen do Sul. Aí também no deserto, já tinha muitos nômades na região, inclusive pessoas morando em cavernas relativamente próximas à sonda que a gente trabalhava, e eles viviam de cabras, bois, viviam no deserto porque tinham alguns lugares que tinham água e tinha um pouco de pastagem, então os nômades às vezes, e sempre andavam armados, ali eles sempre andavam no deserto com espingardas. Freqüentemente vinham roubar produtos na sonda, à noite vinha praticar pequenos furtos na sonda. Ali os riscos que a gente correu realmente foram acidentes de avião, teve dois acidentes na sonda no primeiro poço: um foi um pequeno acidente; o segundo foi praticamente perda total do avião. Eu trouxe até algumas fotos aqui para ilustrar, não sei se tem interesse.
P/ - Depois a gente vê.
R – Depois a gente pode dar uma olhada nas fotos. Tivemos dois acidentes de avião. Quando terminou esse curso eu voltei para Aden, e saí. Mal tinha chegado no Brasil, na semana seguinte à chegada ao Brasil o Iêmen do Sul entrou em guerra civil, aí vários colegas nossos residentes ficaram praticamente 30 dias no meio do fogo cruzado, até que conseguiram sair pegando carona em um navio inglês. Depois quando retornamos lá para perfurar os dois poços restantes, os prédios vizinhos estavam completamente destruídos. A sorte é que o prédio deles ficou um pouco mais afastado da pista, do asfalto onde passaram os tanques e onde eles tiveram o forte enfrentamento. O hotel que a gente costumava ficar também foi completamente bombardeado e destruído. Isso foi 83 e em, não, isso foi 85, 86; depois em 87 perfuramos no Vale do Médio Madalena, parte central norte da Colômbia, aí a gente tinha muito medo da guerrilha, ficávamos 30, 35 dias lá praticamente sem sair da sonda, ficava realmente confinado. Em uma missão que fiz, a primeira que eu fiz de 35 dias mais ou menos, eu saí da sonda uma vez por uma hora que a gente foi conhecer um vilarejo próximo ali, demos uma volta rápida de uma hora só para conhecer o local, mas era um vilarejo muito pequeno, talvez de 10, 15 casas, e retornamos. A gente realmente ficava na sonda para não correr risco nenhum de seqüestro. No segundo poço, o geólogo foi um outro colega nosso, aí contou depois que realmente no segundo poço a guerrilha fez uma visita na sonda. Fez uma visita e perguntou aos locais como eles estavam sendo tratados, acabou que eles foram embora, não teve outras reações. Saíram satisfeitos, não teve reação nenhuma; no entanto, no terceiro poço a guerrilha já estava esperando os brasileiros lá no pé da sonda. Para o começo do poço tinha 13 engenheiros brasileiros que foram seqüestrados na ocasião e eu estava marcado para ir nesse poço uma semana depois, então escapei por uma semana de novo. Acabou que esse poço não foi perfurado em função da destruição total da sonda.
P/1 – Eles destruíram?
R – Eles destruíram a sonda e seqüestraram os colegas, ficaram em poder dos colegas 45 dias na selva, então com isso a Braspetro abriu mão dessa área. Depois trabalhamos no Equador em 89, aí tinha outro problema: 89, um pouco antes, antes de iniciar a aquisição sísmica na área – porque era na Floresta Amazônica, se tornou Floresta Amazônica esse bloco – tinha índios hostis aos brancos. Então foi feita uma aproximação e, uma tarde, um final de tarde, um helicóptero contratado pela empresa deixou em uma clareira, na área dos indígenas, um padre e uma freira; por algum motivo o helicóptero não pôde retornar imediatamente, alguns minutos depois para recolhê-los, não conseguiu retornar, retornou no dia seguinte, o padre e a freira estavam mortos na clareira. Com isso a gente abandonou uma parte desse bloco e ficamos só explorando, só investigando o restante desse bloco, cerca de 75%, mais afastado dessa comunidade. Depois veio então a perfuração, o primeiro poço foi o poço furado relativamente próximo dessa área, parte sul desse bloco, então eles abriram uma clareira maior que o normal e botaram segurança na área da clareira acompanhada de dezenas de cães para cuidar do pessoal da sonda. Para a gente que tinha que sair à noite, se deslocar entre o acampamento e a sonda, realmente era motivo de muita preocupação.
P – Bom, Paulo, pra retomar aqui a nossa conversa, pelo que você está falando o trabalho é mesclado com aventuras. Aí eu queria saber se você passou por algum momento de perigo, em que você tenha sentido medo, enfim...
R – Bom, perigo, perigo...
P – ...se sentido arriscado...
R - ...nem tanto, porque, como eu comentei, com um anjo forte, realmente, até que chegamos, né? ( risos )
P – Uma semana antes e depois.
R – Bom, aí, posteriormente, 97, 98, trabalhamos no sul da Bolívia, né, já na pré-cordilheira, área bastante montanhosa. Não teve maiores acidentes com o pessoal, apesar do deslocamento de carro na área, mas realmente teve... houve espera aos vôos, né? Tanto que, na minha primeira missão lá, caíram dois aviões em um mês, porque era uma época de pouca visibilidade, e o avião tinha que pousar num vale entre duas cordilheiras; inclusive num dos vôos morreu parte de companheiros, de petroleiros de outras duas companhias, no mesmo avião que nos levou na sonda pra primeira vez, teve acidente, três semanas depois de eu ir pra lá pra sonda. Então teve esse acidente aí na área, né, e com mais um acidente, como eu comentei. Então o risco realmente era dos vôos, né, porque a topografia era muito arriscada pra pousos e decolagens. E bom, maiores riscos eu não corri, mas a situação mais inusitada foi no meu estágio, ainda na Bahia, em 82; no final do expediente eu fui escalado pra acompanhar um poço no campo de Fazenda Panelas, na região de Alagoinhas, e fui chamado pra ir pra sonda no final do dia, 3 e meia, 4 horas. Então eu peguei o carro da companhia, fui pro apartamento buscar roupas e tal, aí eu me desloquei, e cheguei, obviamente, no local, na área, né, na região de Alagoinhas, já ao entardecer. Aí fiz a pergunta pra uns pedestres na área, né, se saberiam informar acerca de uma sonda da Petrobras na área. Então eu parei o carro, fusquinha, andando na estrada de chão, né, aí eu parei junto aos pedestres, e eles solenemente me ignoraram, seguiram caminhando como se não tivesse acontecido nada. Pra mim, foi uma situação estranha; onde passa um carro de vez em quando só e não atende a uma conversa com as pessoas, né? Aí eu adiantei o carro uns 10 metros, pra empatar com os pedestres, aí um deles, então, comentou: “Não, aqui á frente tem uma sonda, você anda tantos quilômetros, vira à esquerda e tal, tem uma sonda.” Aí eu fui, andei alguns quilômetros, aí encontrei um sujeito, uma pessoa só. Aí já estava escuro, né, no que eu parei o carro pra pedir informação, o sujeito olhou pra mim, quando vi, porque eu parei, o sujeito olhou pra mim e se jogou no mato, se jogou no mato, e eu só escutando barulho de galho seco, botei uma primeira de botar inveja no Barrichello, né? (risos) Então eu me mandei, porque vi que o cara devia estar devendo alguma coisa pra alguém. Então foi essa a situação mais inusitada que eu passei.
P – Ô Paulo, me conta uma coisa: mudou muito do tempo que era Braspetro pra agora, que a subsidiária foi incorporada pela empresa? Agora é um setor internacional, como é que... Tem alguma mudança qualitativa no seu trabalho ou não?
R – Não, é... É, tem picos de trabalho, realmente agora tá tendo mais atividade, porque desde 97, 98, a empresa fez as descobertas na Bolívia, grandes descobertas de gás na Bolívia, e também começou a explorar em águas profundas, né, fizemos duas descobertas em águas profundas da Nigéria em 99 e 2000, e posteriormente entramos também na exploração de águas profundas nos Estados Unidos, né? Então realmente teve uma expansão forte, aí, na atividade da nacional.
P – Humhum. E como é que você vê esse processo de internacionalização da empresa?
R – É, bom, eu acho que isso é...
P –Do seu ponto de vista, né?
R – ...eu acho que é um caminho natural pra uma grande empresa, né, não só do ponto de vista de exploração, mas também pelo contato com outras petroleiras pra aquisição de novas tecnologias, né... Eu acho que é um caminho natural; não só a exploração em si, mas também ter um contato maior com as outras companhias, pra ficar com a tecnologia de ponta, né?
P – Humhum. Ô Paulo, como uma última pergunta, eu queria saber o quê que você achou de ter participado dessa entrevista e o que você acha da Petrobras investir num projeto como esse, o Projeto Memória.
R – Eu acho que é importante manter, ter uma memória dos fatos, principais fatos da empresa, porque a tecnologia vai mudando muito, os locais em que a gente vai atuando mudam muito, então tem diferentes tipos de experiências, né, e eu acho que é interessante arquivar essas histórias.
P – Então tá bom. Tem alguma coisa que você gostaria de registrar? Porque eu vi que você veio preparado...
R – Bom, eu cheguei mais ou menos com uma historinha pra contar, agora eu não sei se vocês queriam explorar algum outro assunto mais.
P – Não, se você tiver uma história aí que você queira registrar...
R – Não, isso foi essa história dos riscos, né, que a gente corre...
P – Não, ótimo.
R - ...porque, realmente, pra passar aí 20, 30 anos, em lugares completamente diferentes, a gente precisa ter um santo forte.
P – E você tem esse santo forte? Porque pelo que você falou, tá sempre uma semana antes ou depois.
R – Eu acho que eu tenho santo forte, sim. Sempre escapei por uma ou duas semanas, agora vocês também não... A gente chegou aqui, tá no Rio de Janeiro, vocês não vão poder publicar isso antes de duas, três semanas, né? ( risos )
P – Tá bom. ( risos ) Então tá, muito obrigada.
R – Obrigada.
(fim da fita __________).
Recolher