Projeto Memória Petrobras
Depoimento de Osvaldo dos Santos
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2005
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB701
Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha
P – Bom dia.
R – Bom dia, Márcia.
P – Eu gostaria de iniciar a entrevista pedindo que o senhor nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R – O meu nome é Osvaldo Faria dos Santos. Eu nasci em Niterói, estado do Rio, no dia 22 de novembro de 1943.
P – E eu gostaria de perguntar qual é a sua formação.
R – Eu fiz Engenharia Química, depois Engenharia Econômica e Administração.
P – E quando foi o seu ingresso na Petrobras?
R – Eu entrei na Petrobras em 17 de março de 1974.
P – O senhor entrou por concurso? Como é que foi esse ingresso?
R – Não, eu comecei a minha carreira trabalhando no Instituto Brasileiro de Petróleo, que hoje se chama Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás. E na época o presidente era o Dr. Plínio Cantanhede que foi o primeiro presidente, prefeito de Brasília. E um dos diretores era o Dr. Geonísio Barroso que foi o presidente da Petrobras, e foi quem criou a Braspetro e que me convidou, em 73, pra ingressar então na Braspetro, que era a subsidiária internacional.
P – E aí, como é que foi esse ingresso? A Braspetro estava começando? Como é que estava?
R – A Braspetro foi criada em abril de 72. Ela se instalou fisicamente em final de 72. Então ela tinha 1 ano e pouquinho. Em março eu fui trabalhar com ela, com a missão de elaborar o primeiro plano básico de organização da companhia. Então, durante 1 ano eu trabalhei preparando o primeiro plano básico dela.
P – E desse primeiro plano básico, quais eram as diretrizes, os objetivos?
R – Os objetivos, a razão da criação da Braspetro, o Dr. Geonísio Barroso vinha estudando o assunto desde 1966. Ele foi presidente da Petrobras em 61, depois foi diretor. Depois saiu da diretoria e...
Continuar leituraProjeto Memória Petrobras
Depoimento de Osvaldo dos Santos
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2005
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB701
Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha
P – Bom dia.
R – Bom dia, Márcia.
P – Eu gostaria de iniciar a entrevista pedindo que o senhor nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R – O meu nome é Osvaldo Faria dos Santos. Eu nasci em Niterói, estado do Rio, no dia 22 de novembro de 1943.
P – E eu gostaria de perguntar qual é a sua formação.
R – Eu fiz Engenharia Química, depois Engenharia Econômica e Administração.
P – E quando foi o seu ingresso na Petrobras?
R – Eu entrei na Petrobras em 17 de março de 1974.
P – O senhor entrou por concurso? Como é que foi esse ingresso?
R – Não, eu comecei a minha carreira trabalhando no Instituto Brasileiro de Petróleo, que hoje se chama Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás. E na época o presidente era o Dr. Plínio Cantanhede que foi o primeiro presidente, prefeito de Brasília. E um dos diretores era o Dr. Geonísio Barroso que foi o presidente da Petrobras, e foi quem criou a Braspetro e que me convidou, em 73, pra ingressar então na Braspetro, que era a subsidiária internacional.
P – E aí, como é que foi esse ingresso? A Braspetro estava começando? Como é que estava?
R – A Braspetro foi criada em abril de 72. Ela se instalou fisicamente em final de 72. Então ela tinha 1 ano e pouquinho. Em março eu fui trabalhar com ela, com a missão de elaborar o primeiro plano básico de organização da companhia. Então, durante 1 ano eu trabalhei preparando o primeiro plano básico dela.
P – E desse primeiro plano básico, quais eram as diretrizes, os objetivos?
R – Os objetivos, a razão da criação da Braspetro, o Dr. Geonísio Barroso vinha estudando o assunto desde 1966. Ele foi presidente da Petrobras em 61, depois foi diretor. Depois saiu da diretoria e começou a estudar essa parte da internacionalização da Petrobras. E quando ela foi criada, em 72, havia algumas condicionantes que levavam a Petrobras, a decisão da Petrobras, pro exterior. Havia uma previsão, naquela época, pra uma estabilidade muito grande no mercado de petróleo. O mercado que era do comprador estava passando a ser o mercado do vendedor. O Brasil dependia de 80% do petróleo importado. O Brasil necessitava de desenvolvimento de capacitação técnica e gerencial. Havia a necessidade, também já futura, de uma diluição de riscos. A atividade de petróleo era uma atividade de muito risco. Então essa necessidade de diluir risco indo pro exterior ao mesmo tempo que você preservaria as futuras potenciais reservas nacionais. Há uma série de razões que levaram à criação da Braspetro nessa época. E uma das que eu foquei agora, o importante era também buscar esse desenvolvimento do nosso pessoal lá fora. A gente tem que lembrar que, em 72, o mercado era cativo. Aliás era uma outra razão porque mesmo sendo um mercado cativo, o fato de a Petrobras ser detentora, executora do monopólio, isso abria caminhos pra facilitar negociações de barganhas de importações mais favoráveis. Mas a preocupação da Petrobras não era, como se falava na época, a história da auto-suficiência, que sempre foi uma grande inverdade. O que a Petrobras se preocupou sempre foi com abastecimento, segurança e abastecimento. O Brasil nunca ficou desabastecido, em momento algum. Na criação da Braspetro isso estava muito em mente. Houve uma discussão grande se devia ser uma empresa ou um departamento da Petrobras. A Petrobras concluiu pela empresa. A subsidiária foi criada, ela tinha uma certa independência e era uma empresa integrada, ou seja, isso facilitou muito. Enfim, começou a história da internacionalização verdadeiramente aí nessa época, em 1972.
P – E aí vocês começaram então como uma empresa e tinha um escritoriozinho em que lugar?
R – É interessante, Márcia, lembrar que a Braspetro atravessou, até 95, três fases. E a primeira fase que foi essa. Quando ela foi criada, a Petrobras não tinha nenhuma experiência internacional. Não tinha intercâmbio maior com as grandes companhias de petróleo no mundo. Então, a característica principal dessa época foi trabalhar sozinho, 100%, o que nenhuma empresa faz, ficar nos 100% em atividade de risco. E nós fomos principalmente pro Oriente Médio, África e Colômbia, porque quando a empresa foi criada em abril de 72 a Petrobras já tinha dois contratos, um com o Iraque e outro com a Colômbia. A do Iraque é muito interessante lembrar que ele veio, decorreu da nacionalização da indústria iraquiana. Quando a indústria iraquiana foi nacionalizada no petróleo, houve uma reação forte das empresas multinacionais. Houve tentativa de boicote. A British Petroleum petróleo, na época, tentou boicotar. A Petrobras não deu bola pro boicote e continuou comprando óleo dos iraquianos e, em troca, como um sinal de aproximação e de agradecimento os iraquianos ofereceram duas áreas pra exploração, que aliás foram áreas de tremendo sucesso em 1975. 76 foi feita a maior descoberta de um super campo gigante, o famoso Majnoon que até hoje está lá, não foi desenvolvido.
P – Até hoje não foi desenvolvido?
R – Não, não, porque nós começamos, essa descoberta foi feita em 75, 76. Falava-se em 10 bilhões de barris, eu ouvi geólogos dizendo que aquilo podia chegar a 20 bilhões de barris de petróleo. Na realidade são dois campos, um chama-se Majnoon e outro chama-se Nahr Urm. Ficam ao sul do Iraque, na região de Basra, que foi a região conflagrada na fronteira com o Irã. Esse campo, o Campo de Majnoon fica a seis quilômetros da fronteira com o Irã. E com a guerra nós começamos o desenvolvimento desse campo em 78. Em 77, 78 começou o seu desenvolvimento, que era um projeto muito grande, um projeto na época de 2 bilhões de dólares. Envolveu muita gente. Acontece que a Braspetro tinha a obrigação de financiar o projeto, e esse dinheiro só podia ser conseguido no exterior. O montante era tão elevado que havia a necessidade de aval do Governo brasileiro. Nós estávamos atravessando, em 79, uma crise no Brasil e o Governo brasileiro, se não me engano era o Simonsen o Ministro da Fazenda, disse que não daria esse aval. Em contra partida o Saddam Hussein já era o líder e o principal dirigente iraquiano. A descoberta foi de tal magnitude que criou algum desconforto político no Iraque. Internamente havia, apesar de ser uma ditadura, havia muito desconforto. Então você juntou a fome com a vontade de comer. De um lado o Governo brasileiro não querendo dar o aval pra se obter dinheiro dessa magnitude. Do outro lado o desconforto do Governo iraquiano. Houve um acordo. O Presidente Shigeaki Ueki era o presidente da Petrobras na época, conduziu esse acordo com os Iraquianos. Daí eles pagaram uma indenização. Em dezembro de 79 esse contrato foi rompido e foi assinado imediatamente um de prestação de serviço, ou seja, nós ficaríamos lá fazendo exatamente a mesma coisa, só que o óleo seria dos iraquianos e não nosso. Nós seríamos muito bem remunerados por isso e...
P – Seriam e foram bem remunerados?
R – Fomos porque esse trabalho, na realidade, durou 8 meses ou 9 meses. Nós começamos em janeiro de 80, chegamos a ter...
P – Mas o Brasil foi bem remunerado?
R – Foi remunerado pelo contrato, ah sim. Foi remunerado em óleo, o pagamento foi feito em óleo. Naquela época o óleo era a melhor moeda do mundo. Havia uma crise de abastecimento no mundo. O Brasil estava passando por dificuldades de conseguir óleo e eles nos deram dois carregamentos grandes de óleo no primeiro semestre de 80 e assinaram com o Brasil um contrato. Ninguém fazia contratos de longo prazo naquela época. Contratos de longo prazo eram coisas muito valorizadas. E os iraquianos assinaram conosco um contrato de 160 mil barris de óleo por dia durante 13 anos. Então isso supria uma boa parte da demanda brasileira, dava um conforto ao Brasil, e isso foi o resultado. Então o resultado foi muito bom. Financeiramente, economicamente, foi muito bom. Nós começamos a trabalhar em janeiro e o que aconteceu foi que em agosto, setembro de 80 eclodiu a guerra com o Irã. A guerra eclodiu, a área de Basra era conflagrada. Nós tínhamos 80 famílias lá.
P – Tiveram que sair de lá.
R – E aí houve a famosa saída de Basra, enfim, o grupo todo foi Kuwait. Uma noite quase foi bombardeado e tal. E aí abandonamos o Iraque.
P – E você chegou a ir pra lá?
R – Cheguei, cheguei. Eu cheguei lá em 77. Foi exatamente logo depois da descoberta.
P – Você ia acompanhar?
R – Nós estávamos preparando...
P – Como que era o seu trabalho? Como é que era o...
R – O meu trabalho era de planejamento. Naquela época, mais até a parte de organização e já a parte de planejamento. E nós estávamos nos preparando, em 77, preparando a estrutura pro projeto que era muito grande. O projeto era maior do que a empresa, do que a Braspetro na época. Só o projeto...
P – Esse projeto do Iraque?
R – O Iraque, só ele era maior do que a Braspetro. Então você imagina o tamanho de recursos envolvidos, inclusive recursos de pessoal. Nós tínhamos que... Quando a guerra eclodiu nós tínhamos, duas sondas foram compradas pra trabalhar nesse campo. Nós íamos furar 300 poços nessa área. Essas duas sondas estavam navegando no Golfo, pararam no Porto de Sahja por conta da guerra e nunca mais. E de lá nós trouxemos de volta. Se elas estivessem chegado até lá estariam perdidas. E a guerra começou, essa guerra durou sete, oito anos. Enfim, a situação do Iraque se complicou e essa área continua até hoje lá. Hoje os franceses andam mexendo lá, enfim, andam mexendo lá, mas nunca entrou, esse campo nunca foi desenvolvido. Esse óleo está todo guardado lá, disponível lá.
P – E uma coisa que eu fico pensando. Você falou aqui que o contrato com o Iraque saiu antes até da própria Braspetro.
R – A Braspetro, exatamente.
P – A demanda, até por essa, isso foi uma necessidade, esse contrato? A criação da Braspetro vem dessa necessidade?
R – Não, uma coisa não está ligada à outra.
P – Não?
R – Não. A Braspetro, a idéia de internacionalização é desde 66. O Dr. Geonísio Barroso liderou, ele vinha estudando o assunto. Em 67, quando eu comecei a trabalhar no Instituto Brasileiro de Petróleo, ele tinha uma salinha onde ele ficava toda a tarde estudando esta história da internacionalização. Eu assisti muito isso em 67, 68, 69. Ele tentou antes disso, em 68 talvez, eu não me lembro bem o ano, convencer a presidência da Petrobras. Não conseguiu. Quem se sensibilizou pela idéia em 69 foi o Presidente Geisel, General Geisel que era o Presidente da Petrobras. Se sensibilizou e, enfim, pediu que os estudos fossem levados adiante. Ele participou. E em janeiro de 72 ele encaminhou então o expediente ao Conselho de Administração propondo a criação da Braspetro.
P – Assim, o quê que você destacaria do crescimento da Braspetro ao longo desses anos que você trabalhou?
R – Olha, ela passou por essa fase inicial, que eu te disse que foi uma fase onde ela, enfim, o desconhecimento era tão grande que quando eu cheguei na empresa em março de 74 o trabalho que eu olhei, o primeiro trabalho que eu vi estava sendo concluído. Era de uma empresa americana de consultoria, ORC. Estavam aqui fazendo uma consultoria pra empresa pra nos ensinar como administrar o pessoal no exterior. Não tínhamos nem essa experiência, como administrar gente lá fora, que tipo de benefício, que tipo de vantagens, que tipo de, em que condições você ia colocar as pessoas aflorem, enfim, tudo isso pra nós era novidade. Nós fomos aprendendo isso tudo com o tempo. Passamos por essa fase onde assumimos o risco integral das nossas atividades. Ao final de cinco, seis anos nós já começamos uma aproximação com as companhias de petróleo grandes, começamos as associações, já começamos a dividir o nosso risco. E chegamos a uma terceira fase, em 86, 87, começou por aí, que foi a fase de buscar sair um pouco do terceiro mundo e buscar tecnologia de ponta e buscar capacitação gerencial. Aí nós fomos pros Estados Unidos e Noruega em 87. Em 89 fomos pra Inglaterra. Então fomos pro primeiro mundo buscar essas condições que nos faltavam. Bom, enfim, aí a empresa, acho que é bom ressaltar que muita crítica se fez à Petrobras, se fazia à Petrobras, que era monopolista. Na realidade ela era executora de um monopólio. E a Petrobras mostrou lá fora, através da Braspetro, que ela podia competir sim em igualdade de condições, depois de fazer o aprendizado dela, sempre competimos em igualdade de condições com empresas do mundo todo. Tivemos sócios a partir de 80 e, mais ou menos em 1979 e 80 começamos a ter sócios de todo porte, Texaco, Esso, Shell, enfim, todas as grandes empresas se associaram a Braspetro. Ganhávamos e perdíamos concorrências como qualquer empresa. Ganhamos muitas, perdemos algumas também. Mas, enfim, continuamos no mercado trabalhando e trazendo um benefício muito grande pra Petrobras. E ajudando, inclusive, que ela mantivesse a segurança do abastecimento no Brasil. Foi uma escola excelente, a Braspetro. Houve época, na diretoria da Petrobras, que a maioria da diretoria e os principais superintendentes da empresa eram todos advindos, todos Petrobras que foram a Braspetro, passaram algum tempo e depois retornaram a Petrobras. E não por coincidência, num determinado momento, a maior parte da direção da Petrobras era formada por essas pessoas que tinham sido expostas a uma ambiência competitiva internacional, quer dizer, com toda a formação que já tinha aqui dentro a exposição a essa ambiência fora do Brasil trouxe um desenvolvimento muito grande e essas pessoas naturalmente se tornaram os condutores da organização. Até a pouco tempo atrás a gente estava ocupando postos na diretoria. Teve um momento que três diretores da Petrobras tinham sido todos vice-presidentes da Braspetro.
P – Quais são?
R – O Betinho, o Camargo. Vários outros já passaram. O Joel Rennó foi presidente da Petrobras muitos anos e foi vice-presidente da Braspetro.
P – O Carlos Santana?
R – O Carlos Santana foi Diretor da Braspetro. Foi o primeiro diretor, a primeira diretoria da Braspetro era constituída pelo Dr. Geonísio Barroso que foi o fundador, criador e primeiro vice-presidente. O Carlos Santana com a parte econômica e financeira. O José Inácio Fonseca cuidava da parte de exploração. Esse foi o primeiro trio, em 1972. Em 1979, janeiro de 80, o Presidente Shigeaki Ueki trocou a diretoria e entrou o Joel Rennó como vice-presidente. Ele foi diretor da Braspetro seis meses, se tornou vice-presidente. O Wagner Freire até hoje é dono de uma empresa de consultoria, e o Reinaldo Aloy a segunda diretoria da Braspetro. Depois outras vieram.
P – E você trabalhou, ficou trabalhando aqui no Brasil ou você passou um tempo...
R – Eu trabalhei sempre no Brasil com viagens ao exterior.
P – Com viagens pros escritórios?
R – Aconteceu que no meio dos meus 28 anos de Braspetro eu fui solicitado pela Petroquisa que era a subsidiária na petroquímica. Passei cinco anos na Petroquisa. Depois da Petroquisa, eu fui convidado pra ir pra Interbras, que era trading. Passei três anos na Interbras e depois retornei à Braspetro. Aliás, a Interbras foi criada, era filha da Braspetro porque em 72 a Braspetro foi criada. Em 73 aconteceu a primeira crise do petróleo no mundo, um barril de óleo com valores históricos estavam na ordem de dois dólares, passou pra dez, chegou até dez dólares, ou seja, multiplicou por cinco. Isso criou um desequilíbrio na balança comercial brasileira, que o Brasil importava 80% do petróleo dele. O Santana, que era o Diretor Econômico e Financeiro que tinha uma visão muito boa da atividade comercial, em 74 inscreveu a Braspetro na categoria de empresa comercial exportadora. Essa figura da ECE antecedeu a trade, que a legislação veio logo depois com a trade. Quando veio ele transformou ela numa trade. E em 75, como havia um conflito muito grande de, os perfis gerenciais eram muito diferentes. Você tinha, de um lado, uma empresa de petróleo que a atividade de maturação dela é muito lenta. Então entre você pesquisar, procurar uma área pra explorar e aquilo produzir, de repente se passam sete, oito anos. E de outro lado você tinha uma atividade comercial que funciona por tempo, dia, horas. Uma proposta que chega às nove da manhã tem que ser respondida até o meio dia. Naquela época era o famoso Telex. Não havia nem fax, era o Telex. Então isso começou a criar conflitos porque eram valores elevados. Então chegava uma proposta de um negócio de 30, 40 milhões de dólares. O Santana precisava fechar o negócio em algumas horas. Quando ia ao Vice-presidente, ele disse: “Não, isso aí você prepara o expediente e manda pra reunião da diretoria que é na semana que vem ou pra do conselho que é daqui a 15 dias”. “Já perdi o negócio. Se eu não fechar até o meio dia eu perdi o negócio. Esse conflito levou, em 75, à criação da Interbras e eu acabei ficando dois anos depois lá. É interessante que, em 74, 75 uma das pessoas que ocupou a gerência comercial, você tropeçava no corredor, tinha uma área da empresa, com caixas de sapato, então é muito gozado. Você imagina hoje a Petrobras que vende petróleo, e você passa por um corredor com caixa de sapatos, bolsas.
P – Caixas de sapato porque?
R – Tinha de tudo. Porque eram produtos já sendo vendidos pela empresas. Porque isso? Porque o Santana percebeu...
P – Mas ficava assim no corredor?
R – Aconteceu. As amostras chegaram, tinha que botar no corredor, não tinha espaço. O espaço era, a empresa crescendo muito, o espaço pequeno. O Santana percebendo, em 74, em 73 com a história da crise o desequilíbrio da balança comercial brasileira foi muito grande. Você multiplicou o valor do petróleo por cinco. Então os países dos quais nós nos abastecíamos no Oriente principalmente ou na África passou a criar um desequilíbrio muito grande na balança. O Santana vislumbrou aí uma chance de colocar produtos brasileiros. Daí a transformação da Braspetro também em empresa comercial, e a criação da Interbras. Era uma barganha do tipo : “Compro óleo de você, mas você vai comprar produto meu. A idéia era interessante. Enfim, ela teve problemas de execução. A Interbras teve muito problema mas quando ela foi extinta, antes quando eu fui pra lá em 87 ela era a maior empresa comercial do Brasil. Ela faturava algo como 3 bilhões de dólares. A Cotia que era a segunda faturava 300 milhões de dólares. Era 10% o tamanho da Interbras. E ela foi extinta no primeiro mês do Governo Collor por interesses outros, enfim.
P – Mas você ainda estava lá ou...
R – Não, não. Eu já estava de volta. Eu fiquei, da criação da Interbras, nesse período aí da atuação da área comercial. Uma curiosidade é que o Gerente Comercial na época era o Fernando Bicudo, que hoje é o homem das artes.
P – Ah, o Fernando Bicudo do teatro.
R – Do teatro, exatamente. Acho que andou pelo Teatro Municipal, andou em Manaus, andou, é o homem da cultura, hoje.
P – Até pelo Norte , né, também.
R – Isso, isso. O Fernando Bicudo era um companheiro meu de gerência. Ele era o Gerente Comercial. Andava de terno e gravata, coisa que, cabelo aparado. Depois você conheceu o Bicudo diferente.
P – Cabelo cacheado?
R – Exatamente.
P – E, deixa eu lhe perguntar também. Então da época do Collor você já tinha retornado à Braspetro?
R – Já estava na Braspetro. Voltei pra Braspetro em início de 88, final de 88, com a missão de organizar o planejamento estratégico da companhia. O planejamento estratégico era uma ferramenta nova, estava começando. A Petroquisa tinha começado um pouquinho antes. A Braspetro não tinha feito absolutamente nada, não conhecia aquilo, não sabia do que se tratava. Pra convencer o vice-presidente na época foi uma dificuldade. “Não, já fizemos, a estratégia, já está pronto”. Eu disse: “Não, isso é outra ferramenta, é outra história completamente diferente do que vocês estavam fazendo”. Então isso aí foram seis meses de trabalho pra convencer o vice-presidente que nós tínhamos que estar ali. Convencemos. A gente descobriu, sempre descobre algum artifício pra... E quando ele se convenceu, convenceu de uma maneira tal que ele queria pra ontem. Ele já queria que fosse pra ontem. E aí esse meu trabalho de volta foi implantar o planejamento estratégico na companhia. Em seguida assumi a gerência do planejamento e aí fui tocando. Fiquei no planejamento até a vinda do Coutinho Barbosa, que foi diretor até pouco tempo na Petrobras. O Coutinho quando chegou a assumir a vice-presidência da Braspetro, me chamou pra trabalhar com ele no gabinete dele, na direção. E aí fiquei lá um tempo. Depois retornei ao planejamento.
P – E você se aposenta e, chegou a se aposentar?
R – Me aposentei em fevereiro de 2002.
P – Em 2002?
R – Abri um espaço, que já tinha a turma jovem precisando chegar e ocupar espaço.
P – Desse tempo que você entrou, desde o início da Braspetro em 2002, a Braspetro teve um crescimento bem significativo. O quê que você acha que foi assim o momento que ela mais cresceu?
R – O momento de crescimento, veja bem, nós lutamos todo esse período que vem de 73 até 95, 96, com recursos. A Braspetro dava os recursos, a Petrobras fornecia os recursos através de aporte de capital. Mas era uma luta muito grande. Havia uma discussão muito grande dessa história da internacionalização dentro da Petrobras, e nós perdemos muitas oportunidades lá fora por conta dessa história, que havia uma corrente forte na Petrobras que, muito conservadora, que dizia o seguinte: “Eu tenho que mexer no Brasil. Tem coisa pra fazer no Brasil, porque que eu vou botar o meu dinheiro lá fora?” E o nosso argumento era: “Olhe o mundo, o mundo não é assim que funciona. Você tem que abrir outras frentes, tem que buscar não só a garantia de fornecimento mas o desenvolvimento.” Empresarialmente você não pode ficar fechado na sua casca, com muita razão. A história do monopólio não vai durar a vida inteira. Isso aí era um dogma e era difícil discutir isso dentro da companhia porque as pessoas não admitiam nem a discussão. E aí o nosso argumento era, fiz uma vez uma transparência que eu projetei, quase me jogaram pela janela. Uma palestra aqui na empresa já dizia: “A sobrevivência da Petrobras vai depender da ida pro exterior, não agora mas no futuro, e vocês têm que começar agora”. Bom, aquilo ali o tempo fechava e aí era difícil a discussão.
P – Você acha que vocês foram na hora?
R – Não, felizmente a gente já estava lá fora com uma experiência grande.
P – ____________
R – Antes, exatamente.
P – Foi bom estar lá?
R – Foi, sem dúvida, sem dúvida. Isso abriu o caminho e foi por isso que em 95, com a vinda do Presidente Reichstul pra cá que, com a visão de planejamento estratégico mais ampla, uma visão empresarial muito mais ampla, já sem esses dogmas já quase derrubados. Se percebeu claramente que, se eu tenho o mercado todo na minha mão cativo Brasil, e amanhã se rompe esse monopólio, se rompe a, não o monopólio que o monopólio é do estado, mas a execução que foi retirada da Petrobras, outras empresas entram, você só pode concluir uma coisa: “Eu vou diminuir”. Se eu ocupo 100% e vai entrar mais gente eu vou tender a diminuir. O máximo que eu consigo é me manter, porque o mercado pode crescer um pouco e ele abre espaço pra alguém se acomodar. Mas num prazo mais longo, a tendência que essas empresas que vão se implantando aqui, eu fico parado ou cresço muito pouco ou diminui. Enfim, se eu não tiver pra onde caminhar, essa história de petróleo é muito, a maturação é lenta, não dá pra você resolver hoje e amanhã de manhã está pronto. Essa história é sempre muito longa. Aí os recursos foram... Outra coisa, houve uma proibição, isso quando o Santana foi Presidente da Petrobras, que a Braspetro se envolvesse em qualquer coisa que não fosse exploração e produção. Ela não entrasse. A atividade de serviço tinha que começar que fosse suspensa, e a parte de downstream e refino nós não nos envolvíamos. A orientação era de não envolvimento, o que criava problemas. Por exemplo, deixar de ser uma empresa integrada. Em petróleo você tem uma integração que vai de poço a poço, que é a forma de você, toda empresa trabalha assim. Quando isso caiu por terra e a empresa então realmente começou a investir mais, e aí começou a pensar no downstream, começou com a compra das refinarias bolivianas e deu esse primeiro passo na Bolívia. E aí, já com uma outra visão estratégica que era a visão de buscar a América, a América Latina principalmente, e buscar águas profundas lá fora, porque até então a gente não entrava nessa área de águas profundas. E essa visão de América Latina já tinha sido defendida por um ex-gerente que depois foi diretor nosso aqui, na Braspetro, mas a muitos anos. Ele achava que não era possível. A gente tem que atacar a América Latina, e isso aconteceu atrasado. Nós fomos pra Bolívia, compramos refinaria boliviana, a história do gás da Bolívia. Somos a maior empresa na Bolívia. Chegamos a ter um potencial, não sei hoje como está, mas o potencial é que nós íamos chegar a ter 17% do Pib boliviano. Fomos pra Argentina, hoje somos uma potência na Argentina. E hoje, enfim, hoje a Petrobras, o último número que eu vi, 12% ou 13 % da Petrobras hoje já está no exterior, em atividade fora do Brasil tendendo a crescer bastante.
P – Que bom, né? É na hora.
R – Foi muito bom. E foi uma experiência muito interessante, enfim, as pessoas cresceram. E eu tive a felicidade de participar da Braspetro, da criação dela. Eu vi a criação. Eu vi a gestação dela, vi quando ela nasceu e cheguei a ela logo depois. Fiquei até o final, até ela fechar. Ela, quando foi encerrada, com nós viemos aqui para o Edise, houve mudança na estrutura. A atividade foi incorporada pela Petrobras como é hoje. E eu ainda fiquei aqui dois anos, dois ou três anos. Mas então eu vi a Braspetro do início ao fim, quer dizer, foi toda a origem e o impulso da atividade internacional.
P – E você ainda mantém um contato?
R – Mantenho sim, Márcia. Mantenho porque a gente deixa amigos, alguns companheiros que trabalhavam juntos, 20 e tantos anos juntos. Nós continuamos nos encontrando e, enfim. E segundo por causa do Projeto Memória. Eu, por força do tempo que eu fiquei na empresa e do tipo de trabalho que eu fiz ou em planejamento ou junto com a diretoria, eu acabei guardando muito material. Veio parar na minha mão muita coisa, me mandavam material. E quando eu estava pra me aposentar, tinha um armário grande cheio. E eu prometi, eu vou classificar esse material, organizar. Mas a minha aposentadoria foi um pouco precipitada de última hora por causa de um problema de saúde sério da minha esposa. Enfim, e quando eu terminei eu disse: “Olha, o trabalho vai ficar em dia, tudo em dia. Agora, essa parte que não é tão urgente, eu venho depois aqui organizar”. Então ta bom. Passados uns meses eu comecei a aparecer, eu vinha aqui uma ou duas vezes por mês, passava uma tarde lá. E comecei a trabalhar esse material e classificar. E isso foi, bom. Tem que voltar atrás um pouquinho. Um mês antes de eu me aposentar eu fui procurado pelo Izeusse Braga, está na área de comunicação. O Izeusse me procurou porque estavam com a idéia de fazer um trabalho, um livro, eu não sabia bem o que, sobre a atividade internacional da Petrobras, e pediram que ele me procurasse. Nós sentamos e conversamos e ele colocou umas idéias no papel e mandou. Eu perguntei se podia sugerir alguma outra coisa. Fiz um documento, umas três páginas sobre o assunto, e mandei esse documento. Na véspera da minha aposentadoria eu mandei pra ele. Com medo de que aquilo pudesse se perder, eu mandei uma cópia pro, o meu computador ia ser apagado, mandei uma cópia pro Michael, que hoje está na Argentina, que era diretor da Braspetro. No dia da aposentadoria, aquela tarde tinha que assinar lá a rescisão, de manhã me liga o Camargo que era diretor da Petrobras, Jorge Camargo que tinha sido vice-presidente da Braspetro. O Camargo disse: “Olha, vi o seu trabalho e gostei muito”. Eu disse: “Mas que trabalho?” “ O trabalho do projeto aí, da memória da área internacional”. E eu disse: “Mas eu não mandei pra você, eu mandei pro Michael”. “O Michael mandou pra mim. Com medo de você sair mandou pra mim. Eu queria que você tocasse”. Eu disse: “Não vai ser possível que eu estou saindo hoje, estou me desligando. O que eu posso fazer é deixar o material com alguém, eu voltar aqui pra organizar esse material todo e alguém...” Ele disse: “Ah, e tal”. Enfim, assim foi. Dois anos depois ele se desligou da empresa também. Até que o ano passado me ligaram que havia um interesse em preparar alguma coisa.
P – E aí você está tocando agora...
R – Eu vim, isso foi em junho. Aí redigi um documento mais detalhado, um projeto aí, um projeto. Isso foi junho, julho ou agosto, foi por aí. Enfim, aí terminei esse outro meu trabalho que eu estava fazendo e deixei, esse projeto ficou aí. A última notícia que eu tenho é que já foi aprovado pelo Diretor mas está dependendo aí do Gerente Executivo que, por problema de viagem, umas viagens são ________ outra. Então esse projeto está latente e dependendo agora de uma decisão. Se sair, é um trabalho de um ano e meio aí pra, cujo produto é um livro, seria um livro sobre a atividade internacional da Petrobras. Tomara que saia. Mesmo que não seja feito por mim, mas eu acho muito interessante, porque inclusive a idéia do livro, da estrutura do livro é que seja escrito uma história através de, contando casos, onde os casos seria contados em entrevista com as pessoas que viveram as situações. Dali você vai organizando e dando informações. Enfim, isso de uma forma que é uma leitura agradável ao fim da qual você veja exatamente o quê que a empresa fez, onde esteve, o quê que aconteceu em cada país, porque que a gente foi pra cá ou pra lá, os casos engraçados, alguns outros nem tanto. Muita história.
P – Então ta, Osvaldo. Eu queria também agradecer a sua participação, você ter vindo até aqui colaborar com a gente.
R – Eu é que agradeço.
P – Eu desejo que o seu projeto também saia, do livro. Vamos ver até se a gente consegue até ajudar, se a gente puder também fazer.
R – Isso. Sai. É o que eu digo, o projeto não é meu, o projeto é da empresa. Então, se ela puder tocar eu acho que vai ser muito interessante. Tem muita coisa interessante. E já não estou falando das histórias engraçadas, que tem muita história engraçada, mas tem... As histórias no exterior são muito engraçadas. Você passa...
P – Então me conta uma.
R – Uma?
P – É, pra gente encerrar.
R – Eu vou te contar um episódio da, vou contar um de Angola. A Braspetro ficou tentando um bloco. Ela já tinha um bloco em Angola e estava interessada num outro bloco. E havia uma negociação política, o negócio em Angola é meio político. E, enfim, num determinado momento, os estudos já tinham sido avançados. Faltava uma coisa assim encaminhada pra decisão em Angola. O Ministro do Petróleo angolano sinalizou que ele estava pronto a dar aquela área pra Braspetro, mas que ele gostaria que isso fosse feito lá em Angola, e que o Ministro do Petróleo brasileiro estivesse lá, fosse lá. Na verdade ele queria uma visita do Ministro nosso, e o problema lá de política deles, enfim, ele precisava fazer uma presença política e o Ministro brasileiro em Angola seria um, naquela época que nós estamos falando, isso em 1981. O nosso Vice-presidente na época era o Joel Rennó, ele conseguiu. O Ministro era o César Cals. Ele conseguiu convencer o Ministro a ir em Angola e, enfim, eu fui na frente pra preparar tudo lá. Aí na viagem já acontece o primeiro fato engraçado, que eu fui levando um quadro do Di Cavalcante, que ia ser um presente da Braspetro pro Ministro angolano. Esse quadro era um quadro grande, embalado. Eu levei com o maior cuidado. Eu fui a Paris, eu tive que ir a Paris porque a viagem foi meio em cima, então era melhor conseguir o visto em Paris. Então eu tive que desembarcar em Paris, levar o quadro pro hotel, no avião convencer a tripulação a deixar o quadro dentro do avião. Ele ia na última fileira do avião de poltrona. Nós temos um pequeno intervalo. Certamente ele encaixava ali. Ele ia protegido, sem problema nenhum. Tive uma dificuldade ao embarcar em Paris, de Paris pra Luanda porque a tripulação não queria que eu entrasse, queria que eu despachasse. Eu disse: “Não, não vou despachar porque esse quadro, esse quadro com esse vidro vai...” Enfim, convencer a tripulação, a companhia francesa. O quadro foi lá no cantinho. Chegando em Angola desembarquei. Terceiro mundo, né? África. Os nossos gerentes estavam me esperando do lado de fora e entrou um motorista pra me pegar. Quando ele pegou a minha bagagem, pegou o quadro e botou no carrinho. Eu disse: “Olha, com muito cuidado que isso é um quadro, é vidro, tudo é vidro. Está vindo do Brasil, viajou, foi à França, está chegando aqui inteirinho. Quando ele começou a empurrar o carrinho, black-out no aeroporto,a paga tudo. Em dois minutos, só barulho de vidro quebrando. Acabou o quadro. Não se conseguiu, isso era uma terça feira, o pessoal chegava no sábado, a gente não conseguiu um vidro, não se conseguiu um vidro lá, pra você ver a dificuldade que tinha lá em Angola. Naquela época você fazia a refeição no hotel.
P – E o presente não foi dado?
R – Foi um outro presente pra lá, o quadro não. Mas, enfim, no sábado chega a delegação, chega o Ministro com a esposa, com o Chefe de Gabinete e o nosso Vice-presidente. Embarcaram já com atraso. Foram pela companhia angolana, foram pro hotel. Chegaram no hotel, não tinha água no hotel. Então o Ministro no quarto dele, à vontade, abrindo a porta, todo à vontade, disse assim: “Eu quero tomar um banho, não tem água pra tomar um banho. Alguém vai encher”. Então corre pra encher banheira com lata d’água pro Ministro tomar um banho. E no domingo, que era o dia da negociação, nós fomos então encontrar o Ministro angolano na Ilha de Mussulo, que é uma ilha na Bahia de Luanda. Essa ilha é uma ilha como se fosse a Ilha de Paquetá, aqui na Baia de Guanabara. Tem a casa do Presidente da República, era casa de praia do Presidente da República onde nós íamos ficar. Mas nós embarcamos num aerobarco catamarazinho, uma porção de senhoras levando uns flaneis e tal, eu pensei que era o pessoal fazendo piquenique, não, era a nossa comida, era a comida da delegação. Chegando na Ilha do Mussulo eu, me deu um estalo, eu comentando com um dos assessores do Ministro, ele disse: “Não, agora nós não temos mais segurança aqui porque a casa era roubada toda semana, e o pessoal do exército é que fazia a segurança. Nós concluímos que era o exército que roubava a casa. Então tiramos a segurança, melhorou”. Aí me deu um estalo, eu entrei na casa e fui direto, enquanto o grupo não entrava, vinha, tinha as esposas dos dois ministros, enfim, tinha moças do grupo, eu fui olhar o banheiro, só de curiosidade. Quando cheguei no banheiro estava entupido, totalmente entupido. Eu chamei o assessor do Ministro e eu disse: “Olha, tranca esse banheiro que está sem condição de uso. Não há outro banheiro?” “Ah, tem um ao lado”. “Então esse vai ficar pras senhoras. E os cavalheiros?” “Ah, os cavalheiros se servem aí fora, tem umas palmeiras lindas”. Isso foi dito pro Ministro. Chegou o nosso, nós comunicamos: “Ministro, precisando de alguma coisa, sirva-se. O banheiro é ali fora. Tem umas bananeiras ótimas”.
P – E as negociações foram?
R – Foram, e as negociações foram feitas pelos dois ministros, com o Vice-presidente de short com água pelo joelho, na beira da praia, e os três de pé fecharam o acordo da cessão do bloco. A Braspetro me liga, na segunda feira a gente sentou o dia inteiro pra escrever, redigir os documentos, fazer a assinatura e tudo, e na terça feira voltar pra casa. Então dessas histórias a gente tem uma porção aí.
P – Tomara então que o livro saia. Eu queria agradecer a sua participação aqui com a gente.
R – Márcia, obrigado. Eu é que agradeço pela lembrança, e é bom sempre estar de volta aqui a Petrobras, que é a nossa família aí eterna. Ta bom?
P – Ta certo. Muito obrigada.
Recolher