Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Orlando Santa Rita
Entrevistado por Márcia de Paiva e Moacir Maia
Madre de Deus 7/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB574
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Gostaria de começar essa entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Orlando Santana Santa Rita, eu nasci em 24 de agosto de 1959, em Salvador, Bahia.
P/1 – Orlando, conta para a gente como foi o seu ingresso na Petrobras?
R – Veja bem, eu gostaria de fazer um registro primeiro de como que eu conheci a Petrobras, da minha aproximação com a Petrobras. Meu pai, ele é aposentado da Petrobras e trabalhava aqui, no terminal de Madre de Deus. E nós recebíamos, né, as revistas da Petrobras, recebíamos alguns presentes no final do ano, que tinha alguns sorteios aqui, a época que ele trabalhava e nós já tínhamos uma informação, um conhecimento, uma convivência com a Petrobras. Após o serviço militar, né, eu fiz um concurso para auxiliar de segurança interna e assim nós tínhamos essa informação, porque as pessoas responsáveis pelo esse cadastramento já passavam nas unidades das Forças Armadas, Exército, Marinha, Aeronáutica cadastrando, né, pessoas que estavam saindo das Forças Armadas e eu ingressei a partir desse contato, né, em 1984.
P/1 – Então qual foi o seu primeiro trabalho aqui dentro?
R – Sim, eu ingressei...
P/1 – Aqui em Temadre.
R – Eu ingressei em 1984 na região, antiga região de produção da Bahia, que era a unidade que trabalhava com a exploração, produção, né, aqui na região do Recôncavo: Candeias, Madre de Deus, alguma área de Madre de Deus, ou seja, a região de produção da Bahia. Então, nós entramos na Petrobras como auxiliar de segurança interna ou mais comumente chamamos, que se chama de vigilante. E aí, em 1989, depois de cinco anos, eu fiz um concurso para operador...
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Depoimento de Orlando Santa Rita
Entrevistado por Márcia de Paiva e Moacir Maia
Madre de Deus 7/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB574
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Gostaria de começar essa entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Orlando Santana Santa Rita, eu nasci em 24 de agosto de 1959, em Salvador, Bahia.
P/1 – Orlando, conta para a gente como foi o seu ingresso na Petrobras?
R – Veja bem, eu gostaria de fazer um registro primeiro de como que eu conheci a Petrobras, da minha aproximação com a Petrobras. Meu pai, ele é aposentado da Petrobras e trabalhava aqui, no terminal de Madre de Deus. E nós recebíamos, né, as revistas da Petrobras, recebíamos alguns presentes no final do ano, que tinha alguns sorteios aqui, a época que ele trabalhava e nós já tínhamos uma informação, um conhecimento, uma convivência com a Petrobras. Após o serviço militar, né, eu fiz um concurso para auxiliar de segurança interna e assim nós tínhamos essa informação, porque as pessoas responsáveis pelo esse cadastramento já passavam nas unidades das Forças Armadas, Exército, Marinha, Aeronáutica cadastrando, né, pessoas que estavam saindo das Forças Armadas e eu ingressei a partir desse contato, né, em 1984.
P/1 – Então qual foi o seu primeiro trabalho aqui dentro?
R – Sim, eu ingressei...
P/1 – Aqui em Temadre.
R – Eu ingressei em 1984 na região, antiga região de produção da Bahia, que era a unidade que trabalhava com a exploração, produção, né, aqui na região do Recôncavo: Candeias, Madre de Deus, alguma área de Madre de Deus, ou seja, a região de produção da Bahia. Então, nós entramos na Petrobras como auxiliar de segurança interna ou mais comumente chamamos, que se chama de vigilante. E aí, em 1989, depois de cinco anos, eu fiz um concurso para operador aqui, no terminal de Madre de Deus. Então, em 89 nós ingressamos no terminal, fizemos um curso de formação e de lá para cá eu permaneço aqui nessa atividade, como operador de transferência e estocagem.
P/1 – Você fez o registro do seu pai, né, de ter tomado conhecimento da Petrobras pelo trabalho do seu pai. O que ele te contava, qual era a imagem você formava na sua cabeça?
R – Olha só, nós tínhamos assim, um contato já com o terminal, mesmo antes de ingressar, enquanto funcionário. Fins de semana ele trabalhava em regime de turno, ele trabalhava embarcado aqui, na atracação embarcado nos rebocadores e alguns fins de semana, a gente; a gente eu falo nossos irmãos, né, nós somos sete homens e uma mulher, nós vínhamos no final de semana aqui, para o trabalho dele e tínhamos um contato já a atividade, não entendíamos muito bem, assim, nós tínhamos oito, nove anos já convivia com essa atividade dele aqui, na Petrobras. Para a gente era uma coisa muito, muito grande, né, navios e rebocadores, então, esse convívio para a gente foi muito interessante. Não tinha, confesso, a idéia que entraria na Petrobras. Até porque, questão da formação, né? Embora nosso pai estivesse trabalhando na indústria, a gente não tinha dimensão nem a expectativa de ir trabalhar na indústria.
P/1 – Ele não incentivava, não chegava a falar “vocês podem trabalhar”?
R – Quando a gente teve a necessidade de trabalhar efetivamente, essa questão da Petrobras foi colocado, né, assim, de pronto. A gente saiu do Exército, que era o serviço militar obrigatório e essa oportunidade de fazer o concurso a gente aproveitou, né?
P/1 – Tem algum outro irmão seu que entrou também?
R – Sim. Nós servíamos o Exército e nessa mesma trajetória tenho mais três irmãos: tem o Everaldo, o Edmundo, que foi o primeiro e o Evandro. Então, o Evandro hoje continua trabalhando na atividade de segurança, hoje é inspetor de segurança. O Everaldo também e o Edmundo é operador na Refinaria Mataripe. Então, somos quatro irmãos trabalhando na Petrobras.
P/1 – Fala um pouco do seu trabalho. Como é que é o seu cotidiano, o seu dia-a-dia?
R – Olha só, a atividade aqui, no terminal, é assim: a gente recebe, a gente tem o controle das transferências, né, do bombeio, recebimento, de navios que vem com derivados ou petróleo bruto, e nós somos os responsáveis pela essa interface, da carga ou descarga dos navios, do controle do acompanhamento do recebimento da refinaria, né, que a gente recebe os derivados da refinaria, estoca aqui no terminal e manda para as distribuidoras ou então para a base de Orsub (Oleoduto Recôncavo Sul da Bahia) lá em Itabuna e Jequié. Então, é basicamente controle do bombeio dos derivados de petróleo, né, essa é a atividade específica do terminal e o operador é que dá conta desse controle. Acompanhamento, medição, as quantidades, a questão da qualidade, as amostragens. Então, é a atividade do operador.
P/1 – O operador acompanha esse processo?
R – Acompanha esse processo no local e também na sala de controle. Então, basicamente é essa atividade do operador no terminal. Hoje, hoje eu estou deslocado dessa atividade e estou na atividade de SMS – Segurança, Meio-Ambiente e Saúde. Nós estamos basicamente na atividade de meio-ambiente, eu estou afastado da área operacional para uma atividade de meio-ambiente. Meio-ambiente é uma atividade que cresce na Petrobras. Então, a nossa possibilidade de mobilização está nos orientando para a atividade de meio-ambiente. Eu estou aqui há... o quê? Há 15,16 anos, né, 89 para cá 16 anos e tem necessidade de estar ampliando e reciclando e adquirindo novos conhecimentos na profissão, na atividade aqui, do terminal.
P/1 – Essa preocupação com o meio-ambiente da Empresa, você acha que é mais recente ou... ?
R – De 10 anos para cá.
P/1 – De 10 anos?
R – É. Eco 92, o grande questionamento das questões ambientais no Brasil e a Petrobras de 10 anos para cá vem aprofundando essas questões. Teve os grandes desastres, né, na Petrobras e de 10 anos para cá a gente vem, quer dizer, fazendo, acompanhando mais de perto essa questão. E agora de forma mais insistente, hoje já está se formando um quadro de pessoas formadas na questão do meio-ambiente, ainda é uma... em termos de habilidade, né, na questão do meio-ambiente, mas está avançando nessa questão do trato do meio-ambiente, a empresa.
P/1 – Você acha que, como qualidade, houve uma diferença?
R – Sim. Tem avançado, né, a questão do meio-ambiente tem avançado bastante em relação a, o quê, há 10 anos atrás. O tratamento dos resíduos, a questão das poluições, o controle operacional para que não polua, enfim. E também o fato da gente trabalhar numa área bastante sensível do ponto de vista da condição mesmo, ambiental, do eco-sistema que a gente trabalha: tem manguezais, tem todo uma flora, uma fauna marinha para ser cuidada e a Petrobras, né, o terminal, ela desenvolve atividade que, por si só, ela já é impactante, impacta o meio-ambiente. Então, esse foco hoje está sendo assim, levado, né, e a gente tem incorporado isso, né, que inclusive, depende da nossa sobrevivência enquanto empresa. A legislação ambiental está cada vez mais, assim, avançando, né, isso no mundo todo e precisa se adequar.
P/1 – Orlando, nesses seus anos de trabalho você gostaria de registrar uma história marcante; qual a maior lembrança que você destacaria?
R – Olha, eu fiz um roteirozinho aqui, achando até que a gente poderia estar discorrendo sobre isso, né? Mas eu tenho uma cronologia da minha história na Petrobras e algumas coisas foram bastante marcantes. Eu acho que aí, a primeira coisa foi a minha chegada. Chegar em 84 na Petrobras, não é uma coisa que... é como você perguntou incentivada pelos nossos pais, mas foi uma, digamos assim, uma dádiva entrar na Petrobras. A gente veio se dar conta do que a gente estava se envolvendo, aonde é que a gente estava efetivamente, pisando, né, em 84. Em 89 a gente, quer dizer, faz uma mudança de uma atividade para outra e de um local de trabalho para o outro, de uma unidade de trabalho para outro. A atividade da região de produção é extremamente diferente da atividade aqui, do terminal, né, é a exploração, é produção, embora a gente trabalhasse naquela coisa da fiscalização do controle, do acesso das pessoas a gente tinha uma dimensão do que significava aquele mundo de poços, de estações e muitas vezes aquela devastação ambiental, né, que por conta da atividade mesmo, a gente estava envolvido, não é? E aqui no Terminal, em 89, a gente veio encontrar outra realidade, né, até no trato das pessoas e uma coisa que eu guardo muito e é motivo até de um apelido que eu tenho, é o chamamento de um colega para o outro. Na região de produção é comum se chamar os colegas e eu encontrei isso lá, né, quer dizer, não é uma coisa nova, de 84 para cá eu acho que era uma coisa antiga, se chamar os colegas de “matéria”. Então, era “matéria” para cá, “matéria” prá lá, é uma gíria, na verdade, entre os trabalhadores e a gente incorporou esse tipo de tratamento. Então, quando eu cheguei para aqui, eu trouxe isso e no curso mesmo, no curso foi o que pessoas da refinaria, pessoas da região, pessoas daqui, né, aquele grupo de trabalhadores que já vinham de outras atividades, de outras unidades. E aí as pessoas ficavam: “ Puxa, mas porque matéria, matéria, matéria?” E eu ia estar contando sempre o que que era matéria, né, era uma forma de chamamento lá da região, era uma coisa específica daquela unidade. Então, de uma unidade, de um local de trabalha o para o outro, mudam algumas coisas e a gente sentiu um pouco essa mudança. E aqui, uma outra mudança sentida foi a questão do tamanho. A região de produção era uma coisa muito grande, hoje está até mais enxuta por conta das mudanças todas, da reestruturação de tudo que passou a Petrobras, mas era uma coisa muito grande, as frotas de ônibus eram uma coisa muito grande. Era 100 ônibus, porque são várias cidades envolvidas na região e tal. E aqui é uma coisa pequenininha que se chamava de família e eu ouvia de lá: “Ó, o terminal é uma família.” E meu pai contava também. A revista da Petrobras também, a gente tinha essa noção de que é uma coisa pequenininha. E de fato é uma coisa muito pequenininha e as pessoas, todo mundo conhece todo mundo, inclusive tem uma relação de parentesco muito presente aqui, no terminal. E a gente vai se dando conta disso aos poucos: “- Ah, que fulana é parente de ciclana, que é irmão de beltrano” enfim, essa coisa da família no terminal é muito presente ainda hoje, né, então, a diferença assim, interessante que marcou a minha chegada aqui, no terminal, em 89. Deixa eu pescar aqui; 92 nós já estávamos bastante assim, envolvidos e adaptados a essa nova realidade e também vivendo um momento outro, de participação coletiva nas mobilizações dos trabalhadores, por conta das demandas que são colocadas para os trabalhadores na relação capital-trabalho. Então, a organização sindical ela sempre foi a âncora da minha presença, da minha estada dentro da Petrobras.
P/1 – Você é sindicalizado desde o princípio?
R – Desde de pequinininho. Em 84 a primeira coisa que eu fiz foi me sindicalizar. Por que isso? Eu venho de uma história de participação do movimento social antes de entrar na Petrobras. Eu já conhecia os sindicalistas, já conhecia os militantes, nós já éramos conhecidos. Então, a primeira reivindicação era que matéria; não, naquela época não era matéria; é que Santa Rita ia ser um diretor, um membro do sindicato. Eu resisti até ontem, ou melhor, resisto até hoje, não sei se amanhã eu vou, mas...
P/1 – Você não chegou então, a exercer nenhum cargo?
R – Não, nenhum cargo de direção do sindicato.
P/1 –Com toda a sua participação?
R – Com toda participação.
P/1 - Fala um pouco mais dessa sua participação.
R – Bom, então, em 89 minha participação, uma participação, talvez, a primeira participação mais efetiva, no movimento, nas ações do movimento, nas lutas, nas organizações do trabalhador de forma mais efetiva, se deu em 92 com a ocupação aqui, do terminal de Madre de Deus. Isso não quer dizer que antes a gente não participava. Participava de forma muito tímida por conta até da repressão, eu diria, ao vigilante atuar e fazer greve, largar o portão e fazer greve, então, é uma coisa da profissão, da atividade, da função e isso, de certa forma me deixava de mãos atadas, ou seja, numa situação, como é que eu diria; me faltou a palavra, era um contra-senso, né, quer dizer, para mim era uma repressão muito grande, eu tinha que estar na porta da fábrica enquanto que os companheiros estavam fazendo a luta, né, e eu sabia que aquela luta também, era uma luta que me dizia muito respeito. Então, minha vinda para o terminal, e em 92 eu pude experimentar a participação efetiva, né, quer dizer, antes disso a minha participação se limitava a votar nas assembléias e é uma coisa ainda muito complicada, porque os companheiros e até por conta do momento que a gente vivia na sociedade brasileira, né, quer dizer, participar, a Petrobras sofreu intervenções, a gente estava em 84, 85, a intervenção ainda muito pesada e o vigilante participando de assembléias e votando em deliberações sindicais era uma coisa ainda complicada. Em 83 houve a greve aqui, na refinaria e gente ainda... já acompanhava esse processo, então as coisas estavam muito ainda, digamos assim, fechadas. Mas 82, voltando, a gente construiu, efetivamente, o movimento paredista que envolveu a maioria dos terminais da Petrobras, né?
P/1 – Isso em 92?
R – 92, quando eu já estava aqui, no terminal enquanto operador, e a gente fez a greve por reivindicações salariais, para fechamento de acordo coletivo e orientação do comando de greve era que a gente fizesse uma greve de ocupação e essa de greve de ocupação se deu forma articulada, com os terminais do sistema Petrobras. Então, essa greve foi uma greve bastante tensa, uma experiência assim, nova para o movimento sindical, efetivamente, a base, a gente chama de base os trabalhadores organizados nas suas comissões, né, nos seus locais de trabalho, passaram por cima da direção, porque a direção já compreendia que a greve entraria numa dimensão incontrolável. Efetivamente, o comando não tinha dado a orientação e a greve na Petrobras, ela se dava muito no campo das refinarias. As greves que consolidavam o movimento paredista eram nas refinarias e naquele momento, os trabalhadores entenderam que os terminais eram fundamentais, porque trancava a movimentação dos derivados de petróleo. E houve toda uma articulação por fora da direção para que a gente pudesse, efetivamente, garantir a parada dos terminais. As greves que antecederam 92, era na verdade... tinha a nossa participação, a participação dos terminais, mas uma participação não efetiva, ou seja, uma participação que determinava a vitória do movimento ou que dava o tom do movimento paredista. Em 92 os terminais, na Petrobras, deram o tom do movimento. Então, Madre de Deus e Alemoa foram os dois terminais, né, e São Sebastião que trancaram as válvulas e pararam os bombeios, né, paramos os bombeios de nafta, paramos os diversos... as diversas movimentações e os operadores, depois da radicalização da Petrobras, ocuparam o terminal. Fomos todos demitidos de boca, fomos todos demitidos de carta, fomos todos demitidos durante esse período e o terminal foi desocupado depois de 15 dias da ocupação com a justiça e com a polícia de Antonio Carlos Magalhães, né, que chegou a espancar alguns companheiros e foi um momento muito, digamos assim, dramático, né, e ao mesmo tempo vitorioso; vitorioso porque a gente mostrou, enquanto trabalhadores, a capacidade de organização dos petroleiros, a capacidade de organização nossa e consolidamos o movimento.
P/1 – Mas as demissões acabaram não se efetivando?
R – É, as demissões foram, quer dizer, não se efetivaram por conta da radicalização, né, a gente não admitia nenhuma demissão, o comando já estava no processo de negociação com a direção da Petrobras, mas houve uma tentativa muito forte de demitir alguns companheiros daquele terminal. A greve foi negociada o término da greve, mas tinham dois companheiros que estavam na lista de demissão daquele terminal. E no dia que a greve foi suspensa, a gente não tinha nenhuma garantia de que os trabalhadores, esses dois trabalhadores, né, não estavam demitidos. Então, a gente não saiu da greve, o terminal continuou na greve e só foi parar dois dias depois, um dia depois numa assembléia na porta da fábrica, aqui na porta do terminal, onde conseguimos a garantia escrita do superintendente na época, de que não haveria demissões, mas que os companheiros deveriam ser transferidos para outras unidades. Esse acordo foi firmado e a greve foi suspensa aqui também, no terminal. Mas, uma coisa também que me marcou muito foi o slogan que os trabalhadores, no decorrer do movimento e depois do movimento, era alusão a resistência, né, dos trabalhadores e a liderança que foi se consolidando entre aquelas pessoas que estavam na frente do movimento, né, e o slogan era o seguinte: a gente fazia uma espécie de referência a alguns companheiros e, particularmente, ao superintendente da época, que foi assim, extremamente radical no tratamento do movimento, né, do movimento sindical. Então, nós dizíamos que “nós não éramos carneiros, nós éramos fera”. Porque não éramos carneiros? Carneiro era o nome, o sobrenome do superintendente e fera era o nome de um companheiro nosso bastante perseguido no movimento. E isso permaneceu no terminal por alguns anos, né, e esse companheiro foi transferido daqui do terminal...
P/1 – Era um dos que tinham sido...
R – Demitidos, né, que estava na...
P/1 – Na lista.
R – Na possível lista de demissão. Então, a greve de 92 foi extremamente marcante para a gente aqui, no terminal, e registrou na memória de cada trabalhador a possibilidade de que a luta, de que a mobilização é o instrumento que a gente tem efetivo de conquistar nossos direitos.
P/1 – Orlando, e como é que você vê hoje a relação da empresa com o sindicato?
R – Olha, eu escrevi uma tese, a gente chama de tese, né, quando o congresso nosso agora esse ano, fazendo uma avaliação dessa relação e eu colocava o seguinte: que existe o sindicato, a federação, mas existem grupos que compõe, ou seja, existem forças, que compõe a direção, as direções do sindicato e tal. Mas, no geral as direções, a direção da luta, da organização os trabalhadores, ela tende majoritariamente, a um alinhamento, a uma aproximação, a um diálogo no sentido mesmo positivo, né, com a direção da empresa. Isso é bom e é ruim, né, aí a gente tem que olhar, analisar até que ponto esse, digamos, alinhamento compromete a organização, a luta, a defesa dos direitos dos trabalhadores. Porque os trabalhadores, isso é, inclusive, uma coisa que a gente percebe, né, os trabalhadores da Petrobras eles tendem a seguir a direção sindical no tange a reivindicação dos seus direitos. Então, o movimento sindical, as organizações, a federação dão o tom, né, e os trabalhadores tendem a seguir, é natural, inclusive, isso. Então, se esse tom for um tom que não coloca para o avanço, para a defesa das questões, das várias questões que nós temos aí pendentes, as nossas reivindicações pendentes, aí isso compromete, né, mas a gente reconhece o diálogo, né, a abertura, a possibilidade de a gente avançar em outros patamares da luta, né, que é justamente o estreitamento, o melhoramento da relação capital-trabalho aqui, é uma coisa que não vai acabar, não acabou e está aí presente no nosso convívio com a empresa.
P/1 – Orlando, eu gostaria de terminar essa entrevista perguntando o que que você achou dessa iniciativa da Petrobras e do sindicato estarem organizando o projeto Memória e se você gostou de ter participado?
R – Ah, é pena que terminou, né? Tinha muito mais coisa aqui para falar...
P/1 – Você quer registrar alguma outra história que você gostaria de deixar...
R –Olha só, porque eu fiz aqui um... tudo bem; uma coisa que; depois da greve de 92 a gente teve uma outra greve bastante importante, né, foi a greve de 95, não vou nem falar de 94, mas de 95 foram 30 dias de resistência e a nossa participação aqui também foi efetiva e isso marcou bastante, porque nós... nós, quando eu falo, os trabalhadores da Petrobras, a maioria inclusive, que fez o movimento, percebeu na pele o que que significa você não ter o alimento no final do mês para botar na casa para os filhos comer, quer dizer, isso aconteceu, isso faz parte da nossa história e precisa ser registrado, né, uma empresa, uma estatal onde as pessoas, a sociedade como um todo entende, acha que nós temos um salário e que nós temos uma condição de sobrevivência equilibrada, mas nós vivemos esse momento, né, de não ter o alimento para botar dentro de casa para nosso filhos. Porque o salário no final do mês, o contra-cheque foi zero. E aí, a mobilização dos diversos sindicatos, dos diversos setores do movimento social organizado quotizou cestas básicas para que a gente pudesse levar uma cesta básica do mês para casa. Isso acontece com os trabalhadores das empresas contratas, né, no nosso dia-a-dia. Isso aconteceu com a gente. Então, isso foi marcante e a greve de 95 a gente tem ainda uma série de seqüelas, né, aí para ser fechadas. Então, um outro momento que eu gostaria de registrar é essa greve de 95. 98 a 2000 e 2001, né, eu acho que é um outro momento, é uma fase de oito anos, pegar essa fase de oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, que se consolidou na Petrobras um processo de desmantelamento muito profundo e que nós sentimos bastante. Os trabalhadores sentiram o processo de tentativa de privatização da empresa. O terminal, particularmente aqui, o terminal foi incorporado à refinaria, então, isso aqui parecia um deserto, do ponto de vista administrativo, do ponto de vista da possibilidade de mobilização, uns trabalhadores foram deslocados, desmantelo das turmas; isso pós 95, as turmas foram todas desarticuladas, quer dizer, um processo de esfacelamento da mobilização crescendo e os trabalhadores assim, dentro desse período, né, mais ou menos de oito anos, o governo Fernando Henrique e tal. E, mais para o finalzinho, a criação da Transpetro subsidiária, que foi outro momento também, que consolidou e que apontava claramente para a gente que a Petrobras, o terminal, as unidades de transferência, de transporte da Petrobras seriam privatizadas. Esse projeto foi derrotado em 92 que é um outro momento... 92 não, 2002 que é outro momento assim, marcante para a gente. A possibilidade de eleger um Presidente que fala, que falou o discurso que os trabalhadores, que a sociedade gostaria de estar ouvindo e os projetos que tem. Isso criou também expectativa, mas é uma história de lá, né, mais recente, a gente queria registrar justamente essa mudança, né, de oito anos para cá e esse período de expectativas novas, né, que a gente está vivendo hoje.
P/1 – Mas você acha que mudou alguma coisa da Transpetro com a criação da empresa Transpetro?
R – Quando da criação; sim, sim, sim, mudou... O projeto Transpetro era claro, estava claro para a gente que era um processo de privatização por dentro. Existem outros argumentos técnicos da consolidação da empresa enquanto tal, tal, tal, mas tinha para a gente uma...
P/1 – Mas na prática mudou alguma coisa aqui, a organização da empresa...?
R – Mudou, mudou a organização, quer dizer, o fato de você; por exemplo, uma coisa que para a gente foi, particularmente, foi, extremamente delicado, né, você hoje, ou seja, ontem você era funcionário da Petrobras, hoje é funcionário da Petrobras cedido a Transpetro, quer dizer, você 20 anos na empresa, chega um dado momento você está numa condição... é como de você não fizesse parte da empresa, porque é outra administração, é outra orientação, né, embora faça parte da holding. Mas é assim, logo quando a Transpetro foi criada existia uma necessidade, por parte dos gestores, de mostrar que era uma outra empresa, né, que se tratava de outra empresa. Então, como é que ficava os trabalhadores da Petrobras, né, como é que fica esse negócio da Petrobras cedidos a Transpetro? E aí chegam os trabalhadores novos da Transpetro, né, se entendendo enquanto um trabalhador da Transpetro, mas que olhava para trás e não tinham os mesmos direitos dos trabalhadores da Petrobras. Então, se criou, na verdade, um confronto entre trabalhadores e a gente tinha claro que aquilo ali apontava para a divisão, para o esfacelamento, para a desmobilização, porque as demandas dos trabalhadores antigos, digamos assim, muito diferente dos trabalhadores novos. Problemas sérios enquanto direitos aí, que foram... Na verdade são duas categorias, ainda são duas categorias.
P/1 – Ainda mantém essa diferenciação?
R – E aí tem essa diferenciação, aos poucos está se tentando, através dos movimentos, dos acordos, né, se fazer avançar esses direitos, essas garantias, né, mas isso foi implantado, efetivamente. Nós somos trabalhadores cedidos e tem os trabalhadores Transpetro que tem outro acordo coletivo, que tem outras... a Petros que tem outras (AMS?) enfim, que teriam outro sindicato, que teriam outro sindicato, que teriam uma outra federação. Mas, a resistência, mais uma vez os trabalhadores, foi o suficiente para barrar esse projeto de se ter um outro sindicato para representar trabalhadores da Petrobras, como é o caso dos marítimos, né, que é uma outra realidade extremamente delicada, que tem sindicatos a cada função e é muito complicado trabalhar isso.
P/1 – Orlando, enfim, vou ter que terminar...
R – Certo.
P/1 – Gostaria de poder continuar, mas enfim...
R – Tá certo.
P/1 – Volto à pergunta, o que você acha da iniciativa do projeto Memória e se você gostou de ter participado?
R –Ok. Eu me sinto à vontade, porque no iniciozinho do projeto eu mandei uma nota para a coordenadora, eu não estou lembrando aqui o nome dela, né, mas era a representante da Petrobras dentro desse projeto, da minha satisfação de poder estar e poder colaborar com esse projeto, né, e coloquei algumas questões do ponto de vista da análise do projeto, do como é que a gente poderia contribuir, né, por conta da minha formação, né, quer dizer, eu me senti contemplado, pois, pôxa, afinal aqui na Petrobras um projeto que a gente vai poder, efetivamente, participar de outra forma e se tratando da história e da memória dos trabalhadores. Fiz alguns comentários e tal e achei muito interessante. A primeira fase, né, a gente apresentou uma série de trabalhadores daqui da região, já aposentados, alguns a gente indicou para vim fazer as entrevistas, levar material e essa fase eu não esperava que pudesse estar sendo entrevistado. Tem muitos companheiros nossos que a gente está tentando mobilizar para vir fazer esses registros, né, principalmente esses registros que traz para a atualidade, traz da nossa memória a luta que nós todos aqui travamos para garantir que a empresa continue uma empresa forte, uma empresa estatal, uma empresa cumpra a sua responsabilidade social.
P/1 – Muito obrigada.
R – Nada.
P/1 – Gostaria de agradecer a sua participação.
R – Tá legal, obrigada vocês.
(fim da fita Mpet/TMadre 001)
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